quarta-feira, 12 de janeiro de 2022

Poesia de Filipe Chinita

* Filipe Chinita


 1º nível das perdas
.
perdi 
o meu avó isidoro
ferreiro e combatente da 1ª grande guerra
ainda antes de eu haver nascido
para uma outra mulher
que amava 
ele
sem nunca! sequer o haver conhecido
.
perdi 
em simultâneo o meu pai 
a nossa grande... casa  
e toda a minha aldeia de escoural 
de pirolitos berlindes 
cromos da bola
bolas de trapo
e amigos
.
perdi 
depois 
em definitivo 
(sem ainda bem noção do que havia perdido)
o meu pai doente de áfrica vindo
cinco anos passados
pela.s mulher.es....
e pela malária
acossado
.
perdi 
em consquência 
minha amada mãe maria para a subsistência em frança 
.
perdi
eu.próprio o meu país 
contra a repulsa da guerra colonial
.
perdi 
depois a minha vida em frança 
pela liberdade 
e revolução 
no meu 
país
.
perdi
a revolução... 
nas ruas de mora.em novembro.
mal acabara eu de fazer 20 anos
. 
e logo
perdi évora... para a tuberculose
.
e 
quasi 
logo de seguida.em maio de 76
perdi a dores em voo de morte
ficando eu em vida! 
sem uma única beliscadura
senão esse golpe
para todo o 
sempre
.
perdi 
campo maior 
do meu povo... para o nabeiro 
depois de haver.mos sido o único 
que lhe ganhou.... em 
toda a inteira 
vida
.
perdi/perdemos 
de um só.golpe casquinha e caravela
o que para mim foi o quasi.fim de tudo
.
perdi 
a minha avó maria chinita.
a que um dia foi mulher do tal isidoro.
dando ainda assim origem ao manuel da bia.meu pai
que haveia de me procriar a mim.
cem minha mãe.maria.
jovem de 19 anos 
de idade
.
acabei 
por perder a maria 
na distância de alentejo/lisboa 
como de há muito estava previsto
.
foi então 
que cansado de tantas perdas... 
em que não tive mão 
querendo salvar 
me deixei trair 
e perder a mim mesmo... 
perdendo assim de vez
o meu partido
e 
toda 
a minha designada vida futura
ficando absolutamente só
e sem nada de nada 
de mim e de meu
tal 
um escorraçado cão de rua
no absoluto chão dos dias
na des.conhecida cidade... 
grande
afinal... apenas 
nossa aldeia 
maior
.
fj
11.31
11.01.2022



13:59

comuna.
e não por acaso 
de paris.minha amada!
.
não
eu não quero 'liberdade'... desta
.
não
eu não quero 'democracia'... desta
.
não
eu não quero de capitalismo... algum
.
nem
de social-democracia alguma...
travestida de apenas (mais) 
capitalismo
.
eu 
só quero socialismo!
e
a 
caminho 
do comunismo
.
e 
não! 
em apenas portugal
.
nem 
apenas na europa unida
.
mas sim
em todo o mundo,planeta terra
.
não nenhum outro 
regime.sistema.religião do dinheiro ou do.s deus.es... me satisfaz
.
que não me contento com o nada.
nem com tão pouco
.
só quero o tudo 
e o todo!
.
e não para mim.
mas para...
todos!
.
fj
13.51
12.01.2022
de tudo! em comum

Luís Osório - Quando Jerónimo de Sousa nos abraça

* Luís Osório


1.
Jerónimo de Sousa é um homem especial.
Mas não digam que é boa pessoa.
(apesar de ser boa pessoa)
Não digam que sempre gostaram dele
(apesar de poder ser mesmo verdade o que dizem)
Não digam coisas que, sendo certas, nos desviam do que foi e é a sua vida.

2.
Jerónimo é um operário metalúrgico.
E um comunista.
E apesar de deputado há quase 50 anos, continua a combater pela dignidade dos trabalhadores numa qualquer fábrica em que os seus ideais lhe saltem à vista.
Alguns talvez não acreditem.
Mas se não acreditam é porque nunca vos apertou a mão.
Ou abraçou.
Ou porque nunca estiveram com ele numa fábrica.
Quando nos aperta a mão percebemos o peso do trabalho operário.
Quando nos abraça percebemos que o faz com o que carrega, com a poesia de todos os que combateram e já não estão.
Quando está numa fábrica percebemos que está como se fosse a sua casa, os operários (comunistas ou não) são uma parte de si, mais do que os passos perdidos de um parlamento que conhece como as suas mãos, mas onde não sente pertencer por inteiro.


3.
Não digam que é uma boa pessoa pois isso é menorizar o combate de uma vida.
Jerónimo é uma boa pessoa – e como se sente que o é –, mas é no combate que o reconhecemos. E nesse combate é inclemente e daria a sua vida sem uma hesitação que fosse.
Jerónimo é um homem que se comove.
Com a dureza de princípios de um comunista, mas com a leveza de um coração que não esconde as lágrimas (mesmo que as lágrimas não sejam visíveis para os que lhe estão próximos).
Um dia telefonou-me depois de um “Postal” que dediquei aos meus amigos comunistas.
“Olá, Luís. É o Jerónimo. Só para te dizer que foi muito bonito o que escreveste. E para te dizer que estamos na expetativa de que a Benedita seja comunista”.
 

4.
Naquele postal eu publicara a fotografia da minha filha Benedita com o braço direito no ar.
A Benedita, neta mais nova do meu pai, um comunista convicto.
É por isso, em nome do respeito que os comunistas nos merecem, que o combate do Jerónimo (e de tantos outros e outras) nos merece, que devemos nestas horas complicadas desejar que possa sair do hospital com vontade de continuar a abraçar o mundo e de continuar o combate.
Comunistas e não comunistas, como eu.
Que possamos dar o abraço, Jerónimo.

Meu amigo.
 
E hoje camarada.

LO
 
 No blog «As palavras são armas», de Cid Simões 
12 DE JANEIRO DE 2022
A adversidade conjuga esforços e sentimentos
“POSTAL DO DIA” de Luís Osório (tirado do facebook)   

segunda-feira, 10 de janeiro de 2022

Poemas de Filipe Chinita

*  Filipe Chinita


Ter, 21:20

boa noite. 
sonhem bem
.
mas 
amanhã 
voltem a viver.
e 
lutai 
se necessário
.
amai sempre
.
amai o mais
que vos for
possível
.
amai 
em todos 
os amplos sentidos 
do termo
.
olhai frontalmente
.
batei mansamente com a fronte
no frontal alheio 
como quem 
beija
com todo 
o 
rosto
.
e 
usai.procurai usar 
de toda a ternura
que for 
a 
vossa
.
quasi
sempre!
.
fj
04.01.2014

Qua, 14:18

porto.porto
1.
o
u de o meu primeiro livro 
apresentado na cidade 
do porto
.
2.
por ti.mulher.
por vós.mulheres 
(e alguns homens)
numa noite 
e sessão
única.
bela
e mágica.
também pelo local
em que ocorreu
.
3.
6ª feira
15 de novembro de 2013 
21/21.30 h no monte da luz 
(ao alto da rua do farol
.
4.
a mesma rua 
onde durante a década anterior 
per.noitei... quasi.todas 
as semanas... em
trabalho
.
5.
ou
das voltas... 
que o 'destino'... dá.
.
6.
nunca eu... antes dando 
pela existência do farol
.
7.
nem com 
o seu nome 'postado'
no próprio nome 
da rua)
.
8.
na foz 
(esse espaço de vida 
que tanto! 
amo)
.
9.
na amada.bela e única 
cidade do 
porto
de sérgio godinho.porto.porto!
e do não menos extraordinário 
josé mário branco
.
10.
e já agora 
do meu querida amigo gareth
arquitecto e comunista
um 
dos mais humanos.verdadeiros 
'irrascível' e feliz homem 
que conheci
.
11.
que me acolheu fraterno!
como ninguém d'outrem 
no meu monte mor
de 13 de março
de 2000
_______________________________
12.
aliás 
só 
assim 
poderia ser...
13.
pois 
foi só depois 
de ela me (começar a) conhecer 'a obra' 
14.
e de 
te ter chamado à atenção 
para a sua e minha existência 
15.
of.erecendo-te 
em 2013... a cantata (de set. de 2009) 
.
16.
naquela manifestação... aí no porto! 
.
17.
em que a levava (a cantata)
segundo... ela
na mão
levantada 
ao alto
como que 
pro.clamando-a... 
em silêncio.obstinado
.
18.
pelo menos... foi assim 
que ela me contou...
o 'passar-te' d.a 
cantata... 
para 
ti
ó 
laranja.cabeça
com pinta vermelha
no frontal
.
fj
13.19
05.01.2022
obrigado pelo manuel.obrigado por mim
e obrigado principalmente... por casquinha e caravela
em nome da epopeia proletária... 
que foi a reforma agrária
obrigado.s


Qua, 16:04

não estou mais aqui
1.
'calma'.
a toda
a tenho eu tido
toda.
mesmo quando
me a fazem
perder

2.
mas
(eu)
não me arrogo
superioridade alguma.
sobre ninguém.
nunca o
fiz

3.
que
até sempre!
me digo não poeta

4.
e
apenas
revolucionário! sim
de tudo o que parado está

5.
e
sempre
pelo comum bem de tudo!
de tudo para
todos!

6.
do
melhor
que o humano
no mundo produz

7.
para todos! por igual!

8.
na individual
diferença
de cada
um

9.
que
nunca! nada!
na inteira vida! quis para mim
que o ão quisesse

para o.s demais
outro.s

10.
que
só
me quero
na plena! igualdade
de todos

11.
e
assim
desde sempre!

12.
e
já assim... criança
na minha aldeia/vila de escoural
que tudo de meu
com.partilhava
com todos

13.
e
já assim.adolescente
entre os analfabetos
mas mais cultos (quando
não sábios)
e fraternos

humanos
que
conheci

14.
sim.
como jamais
outros conheci

15.
os
(meus)
proletários.agrícolas
de além do tejo

16.
permane.cendo
sempre
quem
sou

17.
in
comum
terno.transparente.
sedutor.frontal.directo.dizendo sempre!
tudo! o que sinto... e penso!
e/mas sempre
fraterno

18.
e
sempre.só!
de humanas! palavra.s... para todos!
mesmo
para os desconhecidos de mim

19.
(quando não de gestos
e actos)

20.
e
para
com toda a gente...
(mesmo para com os não nossos
que fachos ou psedo-machos
não sejam)

21.
excepto
quando e para quem
(deliberada.mente.ou não
a mandado...
de não sei quem)
me pisa...

22.
me vem pisar
os calos...

23.
que
também
já (os) vou tendo...
na planta dos meus pés

24.
de bípede...
ainda
em...
pé!

25
como...
deve ser
quem
é

fj

13.13

16.10.2021


26.
ah
e nunca! guardando
rancor por ninguém

27.
excepto para o
barrete...
falso...
mui para além
de qualquer
judas

28.
lobisomen
sequer
de
nome
em minha
boca
e escrita

Qui, 16:34
Filipe Chinita
ao 
jerónimo.
jovem operário.
com o meu abraço.ao homem 
que sempre a todos.os humanos! estende a sua longa mão.fraterna
.
1.
acho graça 
(não posso deixar de achar graça) 
a certos comentadores de direita (quasi.todos!)
quando dizem... que é a empatia.humana do nosso secretário-geral que (ainda) nos segura a já pouca votação... 
nos ideais comunistas 
e 
que 
indo-se ele... seríamos 
atomizados... num.só 
instante
.
2.
como se... um partido 
e em particular 
o nosso... 
comunista
.
comum.de comunistas
.
fosse uma.só pessoa
por mui importante 
que (ela nos) 
possa 
ser
.
3.
o 
ideal 
comunista
como teoria materialista.histórico/dialéctica
- da classe operária e de todos os trabalhadores assalariados - 
de transformação revolucionária 
da sociedade capitalista
a tudo! e todos! 
sobreviverá 
.
4.
pois 
se até 
a todos! os seus criadores 
teóricos e práticos
sobreviveu
.
fj
13.55

06.01.2022
Qui, 17:03

e
se 
expandiu!

Filipe Chinita em 'eu.egocêntrico' alguns poemas


* Filipe Chinita

eu.egocêntrico
.
eu.egocêntrico
o que desde quasi a adolescência escolheu ser comunista
com todo o peso de vida que tal escolha sempre acarreta
nesta sociedade.já nem falo fascista.
mas capitalista
.
eu.egocêntrico
o que sempre escolhi viver
sobre a impraticável cama do chão dos dias.de cada dia.
de tal modo que ainda hoje o pratico.
porque já não sou.nunca fui
capaz de ser
de outro
modo
.
eu.egocêntrico.
o que chega ao fim da vida
sem nenhum tipo
de propriedade(s)
nem posse(s)
ter
.
eu.egocêntrico
que passei toda uma vida sem tratar de editar
nenhum dos tantos livros.que
como se só para mim
escrevendo
fui
.
eu.egocêntrico
que sempre prescindi do meu 'triunfo' pessoal
em favor da causa de servir
o(s) outro(s) a inteiro
tempo. e
corpo.
e
vida.
e cursos.
e tudo! incluso o amor
.
eu.egocêntrico
que sempre prescindi da família.de sangue
em favor da mais larga família.de causa(s)
com que afinal nunca contei
sempre que necessária
me foi
.
eu.egocêntrico
que sempre dormi pelo inesperado chão.de cada noite
e de quando em quando pela casa de todos
os que me/nos recebiam - obrigado
camaradas meus.
camaradas sem
igual -
aceitando todas as condições de.
porque sei/sabia/mos que
sempre nos davam
o melhor
que me poderiam dar.
e quando digo 'me'
digo 'nos'
.
eu.egocêntrico
que entrei e saí da política sem um só soldo nos bolsos.
sem trabalho.e sem curso universitário
despejado na cidade grande
qual um solitário
cão vadio
.
eu.egocêntrico
que depois de tudo o que fiz
tive de ganhar a vida vendendo livros
dando a minha cara de 'revolucionário'
pelas portas de cada um. sem
sequer poder escolher quem
para assim poder
sobreviver
.
eu.egocêntrico
(mas) que ainda assim tratado
nunca traí os meus
altos ideais de
comunista
.
eu.egocêntrico
que chegado do segundo exílio em frança
tive de aceitar dormir no sofá de napa
da lavandaria do meu tio de 'direita'
porque foi o único ser
que ainda assim
me acolheu.
e disso
já eu tinha uma larguíssima experiência
...revolucionária
.
eu.egocêntrico.
e poderia continuar infindavelmente por aqui afora.
ao longo de toda a vida.mas é melhor calar-me
porque faria um só livro
de egocentrismo.
eu acho que as pessoas
por vezes nem (se) pensam
e apenas falam da boca para fora
sem sequer pensarem como podem ferir um ser
que nem conhecem.pois que nada
da sua concreta vida
sabem
.
eu egocêntrico.
que toda a vida nunca de mim.nem dos meus interesses cuidei.
que toda a vida sempre dei o tudo
e o melhor de mim
ao(s) outro(s).
pois que
seja!
se
é isso que querem.
juntem(-me) mais um adjectivo
aos punhais.ensanguentados
sobre o corpo
.
eu.egocêntrico
que nunca em toda a vida tomei um só banho de imersão.
que não contigo.ou em tuas segundas águas.
para nunca apenas comigo a(s) gastar.
já tu - par contre! - quantos
?!
e quem diz banhos.
diz massagens.
e cuidados de
beleza.
(que) eu nunca de nada em mim cuidei.
nem nunca olho a um espelho
de me olhar
senão para quando a barba
em quasi.obrigação
do(s) outro(s=
tenho de
fazer
.
eu.egocêntrico.
que tudo de mim sempre partilhei contigo
até o (meu) prato de cada dia.
e sempre que possível
em doses
iguais.
eu que tudo de mim
sempre amo partilhar
com o outro.
quantas vezes dei eu
sem que nada
me dessem
a mim
.
eu.egocêntrico.
que sempre dou aos outros
o que deles não
recebo.
a começar pela poesia
no coração
da verdade
de mim
,
fj
04fevereiro2016
.
eu.egocêntrico
eu
o 
'ego.centrico.
o infantil.o ingénuo' 
que sempre! cantei 
todos os meus.nossos anónimos heróis.de vida.colectiva
procurando retirá-los do esquecimento 
a que a vida (n)os votou 
e a morte (n)os... 
votará 
e 
as todas! 
as mulheres que amei.e ainda amo 
e mesmo! não as tendo chegado 
a amar... senão 
de palavras
e 
até!
o eros... de todos 
os diferentes...
iguais
.
fj
17.57
20.11.2020
e 
não só 
os cantei... 
como - sempre que possível -
lhes dei.voz.própria
.
eu.egocêntrico
.
o meu corpo 
sempre 
só 
me foi 
sagrado... 
de dádiva... ao.s outro.s
.
para que... outra cousa 
o quereria
eu 
senão para 
a comum.vala.
de toda a matéria.
em sempre movimento
.
eu
o desa(l)mado.
que 
sempre só fui corpo
.
até ele me 
servir...
.
esse 
de que 
nunca! eu... cuidei
.
se 
exceptuarmos o sempre 
movimento do cérebro
.
e o sempre excessivo
sentir... do sangue
sob a pele
.
fj
20.58
13.08.2021
eu 
que
sempre me d(o)ei... 
todo.
em tudo 

Filipe Chinita em 'eu.egocêntrico' alguns poemas
#poemasfj #euegocentricoporfj

sábado, 8 de janeiro de 2022

Elias Quadros - A MÃEZINHA DO SOLDADO




* Elias Quadros

— Juro…Juro…Juro!…
— Juro defender a Pátria mesmo com o sacrifício da própria vida!
Abjurava então, também ele, aquelas manhãs gélidas que – em tronco nu e armas ensarilhadas – praticara 'educação física' às ordens do 'nosso' Alferes que, sem apelo nem agravo, ordenava: 
— Mais vinte, mais trinta, mais quarenta de braços! Cinquenta cangurus, mais vinte, mais vinte, prancha, rastejar até mim, suas meninas!… 
Só o cheirinho do café – que uma boa meia dúzia de avozinhas preparavam à vista, em seus fogareiros, para venda aos cadetes – lhe servia de lenitivo a tão violenta praxe. Mas ele nem sequer uma caneca pedia na vã esperança de mais não ter de 'pagar'. É que pagava-se por fumar mas pagava-se por não fumar; pagava-se por estar sentado mas pagava-se por estar de pé; pagava-se por falar mas pagava-se por estar calado; pagava-se por responder baixo mas pagava-se por falar alto…
O tirocinante Ventosa parecia ter instruções para amansar – ou amassar?! – bem aquele pelotão de díscolos sacados à força de Coimbra a que o juntaram a ele, por já ser formado como os médicos do pelotão. 
Mas amansar aquela rapaziada do Alberto Martins – tido como faltoso ao respeito do 'Venerando Chefe do Estado', atrevendo-se até a mandar prender um asno no molhe que Sua Excelência iria inaugurar, no maio desse ano, na Figueira da Foz – é que não se estava a mostrar fácil. 
Nem mesmo com exemplo de guia-de-marcha deste para o Curso de Sargentos, nas Caldas, nem daquele para soldado raso para um qualquer regimento. Nem com a violência de exercícios na Tapada, na 'Aldeia dos Macacos', nas patrulhas, no Lizandro… Havia sempre problemas com aquele pelotão de Coimbra. 
Mas sério, sério, foi a travessia do 'Vale Escuro'! De gatas pelo regueiro de água pútrida, em noite de breu, a todo o passo, cada elemento do pelotão era brindado com umas pauladas no lombo, socos na cabeça, umas tripas de porco pelo focinho…Às tantas, porém, todo o pelotão salta da vala, corre atrás dos agressores – oficiais e sargentos escalados para aquelas sevícias. O pobre de um tenente – que calhou deixar-se apanhar – levou tantas que andou semanas de rosto amolgado. E, claro, um fim-de-semana cortado a todo o corrécio do pelotão!
Rastejar sobre as silvas e os ouriços dos castanheiros da Índia; rabos rebaixados a balas – embora de madeira – da escoicinhadora Mauzer; a asfixia da 'Toca do Coelho'; as vertigens do 'Pórtico'; o desamparo do 'Salto para o Galho'; o 'Rapel' de colina em colina; as marchas aceleradas até à Ericeira ou à Igreja Nova; a busca noturna dos moinhos de vento com recalcitrante bússola e mapa de letras miudinhas; as granadas reais pela noite da Foz do Lizandro; os mergulhos na fétida lagoa da Tapada… Tudo infames torturas que nem a perros se fariam mesmo quando os bichos ainda não tinham conquistado o direito de serem cães!
Mas, depois do banho da lagoa, ao fim da manhã de sexta-feira, soava uma ordem ansiada. Era, em vernácula linguagem militar desses tempos: 
— P****! 
Modo breve de dizer 'destroçar sem batimento!' 
Era então ver os milhares de cadetes – bem ataviados mas em correria desenfreada – a saltarem para as dezenas, centenas de autocarros que os levariam a fim-de-semana para algures nos quatro cantos de Portugal!
Mais uma gentileza das 'Organizações Lestre', com foco em toda e qualquer necessidade do cadete. Ele era o alfaiate para fazer o n.º 2 e o barrete de oficial para se poder sair do quartel; ele era as meias da ordem – cada dia revistadas na parada bem como a barba com o cartão-de-visita do 'nosso' capitão; ele era até o táxi discreto para aquele que se conseguisse 'desenfiar' para boate do Sobreiro ou para o Cais do Sodré pela calada da noite… 
E enquanto naquele terreiro à frente do Convento – à época ainda de terra batida – à voz do Comandante da Escola Prática, jurava pela bandeira da Pátria, ele jurava, também, jamais voltar àquela terra maldita onde el-rei D. João V se havia lembrado de festejar para a eternidade o nascimento do herdeiro.
Ali entrara ele, três meses antes, precisamente ao início da madrugada do dia seguinte a 7 de outubro – 18 anos precisos sobre o dia em que se apresentara às primeiras letras da Escola Mista do Tromelgo. Era a última abertura do portão para aquela 4.ª incorporação do ano. 
Vinte paus a um 'praça' para escolha de roupa em que lhe coubesse o corpo; mais dez para outro 'pronto' lhe dar botas do tamanho do pé; mais cinco nesta fila; mais dez na outra para aprender a lidar com os atacadores das botas… assim foi toda a santa noite! Para o 'raso' que o guiou – por meio daqueles corredores do tamanho de autoestradas com nomes de batalhas – já só sobrou mesmo vinte e cinco tostões dos cem escudos com que quase secara a 'Caderneta dos Correios' para ir apresentar o corpo às correias. 
Pelas 7 da matina, pois, lá conheceu o 'quarto particular' que lhe coube, com a companhia de mais uns noventa e tal camaradas. No beliche de 3º andar – sempre fardado e calçado – ali dormira aqueles meses com a bandoleira da 'canhota' bem amarrada ao braço, bivaque aferrolhado na camisa e o 'tapa-chamas' da boca da arma no bolso das calças.
Quantas e repetidas vezes, durante uma e outra noite, ouvira tocar a reunir na parada. Cada pelotão pronto – e 'apresentada' cada companhia – àqueles milhares de cadetes  o Senhor Segundo Comandante tinha anunciado, com a voz de comando dos Oficiais de Infantaria: 
– Sua Excelência o Senhor Comandante desta Escola Prática de Infantaria (EPI) manda desejar boa noite a todos os nossos cadetes!...
Enquanto jurava, recordava também que na véspera à tardinha daquela malfadada entrada para o Convento – enquanto esperava a última abertura do portão – se juntara ao pequeno grupo que, na praça junto à pastelaria Fradinho, ouvira Mário Soares e Maria Barroso a arengar sobre a candidatura da CDE – Comissão Democrática Eleitoral, que, para essas eleições, se desligara do MUD – Movimento de Unidade Democrática. 
Quando já muito se descria da 'Primavera Marcelista', as eleições legislativas – com os quarteis de prevenção – haveriam de ter lugar a 26 de outubro daquele mesmo ano da Graça de 1969.
Na véspera desse dia do juramento – com os trocos do primeiro pré em que não teve de devolver dinheiro ao quartel – jantou ele na 'Mãezinha do Soldado'.

Foto Google
https://www.facebook.com/elias.quadros.9/posts/10209881543870930

quarta-feira, 5 de janeiro de 2022

Matos Serra - JANEIRO e SONETO DE ANIVERSÁRIO:


* Matos Serra

Jano era um deus com muito poder sobre o tempo e o espaço e, por isso, com as suas duas cabeças, olhava e vigiava em todas as direções do espaço e do tempo… presidia a todos os inícios e mudanças, tendo grande poder no destino dos seres humanos e da Humanidade em geral, em termos do espaço e do tempo, e tinha o poder de controlar o passado, presente e futuro…

Já no calendário de Numa Pompílio, o primeiro calendário romano de que temos memória, organizado sob supervisão desse rei etrusco… Jano tinha um papel importante em termos de controlo do espaço e do tempo…e Ele está aí para a festa dos vossos aniversários…

SONETO DE ANIVERSÁRIO:

Hoje, sob os auspícios do Deus Jano…
aquele deus, do tempo, tão antigo,
não quis deixar de estar, aqui, contigo…
ao somares, à idade, mais um ano!!!

Eu desejo que aquele deus romano,
que pôs o próprio tempo ao seu abrigo
te venha proteger… traga, consigo
seu poder protetor e soberano!!!

Podendo olhar em todos os sentidos,
que ELE seja teu guarda e protetor…
e proteja, também, teus entes queridos…

Que, Jano, em seu poder, te traga amor
e momentos alegres, divertidos
e, que ELE…hoje, se ponha ao teu dispor!!!!

segunda-feira, 3 de janeiro de 2022

Vitalino José Santos - VIAGEM INTERIOR EM FUGA DO TÉDIO

 


Vitalino José Santos

Mar da Palavra
3 de janeiro às 13:01  · 

As urgências hospitalares continuam esgotadas, por causa de utentes com situações agudas, embora muitas delas não urgentes, e a Linha Saúde 24 está sem capacidade de resposta, havendo mesmo hospitais a pedirem ao INEM que não transporte mais doentes para os seus serviços. De facto, a reconhecida falta de recursos humanos a nível dos cuidados de saúde primários torna difícil até o atendimento por telefone, contrariando as expectativas da própria sociedade no seu direito à saúde e ao bem-estar, «centrada nas necessidades e preferências das pessoas, famílias e comunidades». Como justificação, subsiste o argumento da «resposta muito significativa» – sobretudo, no que respeita à vacinação –, por parte da Direcção-Geral da Saúde, a esta situação emergente de saúde pública que nos continua a impor alguma distância física e social, interferindo na maneira como nos relacionamos uns com os outros.

A pandemia acumula recordes diários de novos casos e vai-nos trocando as voltas, desprendendo dos abraços e adiando as nossas vidas, agora com a variante Ómicron do vírus da covid-19 que, dizem, pode ter sofrido uma mutação com partilha do material genético de um dos vírus da constipação comum. Segundo os cientistas, a sequência genética desta recente variante não aparece em nenhuma das versões anteriores do coronavírus SARS-CoV-2, apesar da sua presença em muitos outros vírus, envolvendo os que nos causam as habituais constipações. Ou seja, terá ocorrido uma recombinação viral, através da qual dois vírus diferentes hospedados na mesma célula interagem enquanto fazem cópias de si mesmos, criando também novas réplicas que contêm algum componente genético de ambos.

O novo ano chega com um aumento generalizado de preços na electricidade, nos transportes públicos, nas portagens e nas telecomunicações. O mesmo se verifica com a inspecção técnica do nosso automóvel que, eufemisticamente, nos dizem ser actualizada, tal como designamos de traços de expressão às rugas que nos incomodam. Resta-nos a viagem interior, talvez ao encontro dos «fantasmas do homem contemporâneo», como expressou o falecido Vasco Graça Moura, a respeito do prodígio literário «Uma Viagem à Índia», de Gonçalo M. Tavares, obra que me fez transitar no calendário com um outro olhar.

«Em sítios de calor os abraços de conforto / não são assim tão importantes», observa Bloom, um homem que partiu de Lisboa e que, como anti-herói na sua epopeia pessimista, não procura a imortalidade. Quer, sim, «dar um certo valor ao que é mortal», confirmando «como a razão ainda permite / algumas viagens longas», mesmo na «urgência em sair do sítio / onde o mundo tinha existido demasiado».

O protagonista Bloom – que Gonçalo M. Tavares relaciona, de forma livre, com a temática camoniana de «Os Lusíadas» – é um sujeito que subverte a heroicidade de Vasco da Gama (ou mesmo de Odisseu – Ulisses, na visão mítica romana –, herói da Guerra de Troia que dá nome à «Odisseia», de Homero) e que, antes de chegar à Índia, viaja pela Europa e vive experiências desagradáveis, especialmente em Londres e em Paris. Já nesse país asiático da espiritualidade tão apetecida, onde queria acolher os ensinamentos que tanto buscava, conhece o sábio Shankra, indivíduo que sabia ouvir e era um verdadeiro farsante. Neste começo de ano e com o desejo de esquecer as nossas tragédias humanas, importa que consigamos desacreditar os farsantes e os manipuladores da memória e da exigência. Assim, aconselho-vos a leitura desta odisseia sarcástica que exalta a literatura portuguesa. Fica a advertência de Bloom (ou de Gonçalo M. Tavares?): «Mas deve-se sempre fugir sozinho, eis / o que aprende desde cedo um homem / que goste de livros.»

(«Diário de Coimbra»: DA RAIZ E DO ESPANTO, 02.01.2022)

domingo, 26 de dezembro de 2021

Um texto natalício de Santos Maria de Fátima


* Santos Maria de Fátima 

Nem a rapariguita seria virgem ao parir a criança, nem se sabe se o rapaz, a traccionar o jumento em que ela se sentava, muito prenha, seria carpinteiro ou se seria outra a sua profissão.

De que, já adulto,  o menino tenha ficado o nazareno por ter nascido em Nazaré, não há certeza de que seja verdade; e nem sabemos, com o confirmar de documentos, escavações, pedacinhos arqueológicos, que fosse meia noite certa quando a criança mostrou ao mundo o cocurito da cabecita entre as pernas de sua mãe que o dava a este mundo. 

Sabemos tão pouco dessa realidade que nem temos certeza se foi há dois mil e vinte e dois anos, se antes ou depois, o que, a mexer-se, transtornaria, entre outras coisas, o nosso prório dia de aniversário.

Sabemos, isso sim, que andavam os romanos a dizimar os povos por  essa África e Ásia e Europa adiante. Dos romanos a gente sabe, comprovado nas muitas cabeças e vestimentas em pedra cheias de nervuras e em colunas quase sempre sem tectos e em pavimentos feitos de muitos quadradinhos que inundam os maiores museus; ou nos enormes aquedutos e estradas e pontes que ficaram a dizer-nos: eles andaram por aqui.

Mas, terão andado, lá pelo oriente, a matar recém nascidos numa caça a um presumível salvador daquelas gentes massacradas, já ao tempo, pelos poderosos?! 

Vamos supor que Herodes, sim senhora, usou esse modo de limpeza, assim o diria eu, para calar o povo; mas sabermos de pormenores de uma manjedoura e de um burro e de uma vaquinha, e saber que não tiveram lugar que os abrigasse, a mulher prenha e o seu esposo; e saber onde acabou por ser o local de nascimento duma dessas crianças salva das mãos dos soldados; e saber, ainda mais, as horas certas do primeiro berro desse que contam pelos catecismos, disso não temos prova concludente; isso, a gente conta de modo não comprovado. 

Ora eu que me pelo por uma boa ficção, eu que dou dinheiro por um mentiredo bem esgalhado, fico, a cada ano, embevecida do facto insofismável de milhares e mais milhares de gentes fazerem a festa em torno do que nada mais é que uma histórinha deliciosa e linda num enlear de mentirinhas. 

É que nem a estrela de Belém, assim chamada, aquela que montamos no topo desse outro enigma que é a árvore, terá sido um fenómeno dos céus científicamente comprovado. 

É assim que eu, a cada ano, numa devoção silenciosa que nem explico, medito no quanto somos, homens e mulheres desde século XXI, necessitados de rituais mágicos, de uma história de fadas que nos acalente o sono.

(MF)

 https://www.facebook.com/fatima.santos.378/posts/10224108928043866

sexta-feira, 24 de dezembro de 2021

Carlos Coutinho - Libações

* Carlos Coutinho  

   AFINAL, não vai haver cabrito assado logo à noite na consoada, como chegou a estar planeado. Mas, uma vez mais, dentro de algumas horas, ninguém sabe quantas, uma judia universalmente consagrada como a Virgem vai dar à luz, nas palhas ásperas de uma manjedoura de último recurso, um bebé que há-de abrir uma nova era na história do mundo. 

   Por acaso, a Igreja Católica, através do Papa Júlio I, só no século IV acabou por descobrir que foi a 25 de Dezembro que o Messias nasceu, facto que os ortodoxos situavam e ainda situam entre 6 e 7 de Janeiro. O que é certo é que o futuro rabino, ou “meu mestre” na semântica bíblica, teve a aquecê-lo o bafo de um burro e de uma vaca, ambos muito religiosos, e uma semana depois, conduzidos por uma estrela móvel, três monarcas absolutos, como todos eram então, foram a Belém oferecer aos pais do menino potes de ouro, de incenso e de mirra. 

   Aconteceu tudo isto há 2 021 anos e, por razões insondáveis, não vai haver cabrito assado nesta consoada, mas as rabanadas não vão faltar, apesar de estarmos na Margem Sul, com as luzes de Lisboa a insinuarem-se na escuridão aquosa da longínqua Lisboa inverniça.

   Que eu saiba, não desceu ainda pela chaminé o Pai Natal com as suas prendas de sapatinho, todas, aliás, já compradas e embaladas, mas a mãe Natália vai participar no multifamiliar repasto, o que acontece pela primeira vez na minha longa e atribulada vida. 

   Devo frisar que esta senhora é mãe do anfitrião, possuindo ele o nome de Ramiro, um rei visigodo que deixou muitos Ramires ilustres na descendência. Um deles chegou mesmo a acolher em sua casa à beira-Douro o poveiro e melífluo Eça de Queirós. 

   Esse remoto rei ibérico teria agora a idade do Menino que está para de novo nascer em Belém, calcule-se.

   Estou mais que preparado para a comezaina e não me esqueço de que foi igualmente num dia 24 de Dezembro, como o de hoje, mas há 287 anos, que o grande iluminista Voltaire, pai das melhores dúvidas e metáforas panglossianas, publicou as suas “Cartas Filosóficas”, escancarando a porta à conquista de quase todas as certezas que valem a pena. 

   Também Alves Barbosa, o lendário ciclista do Sangalhos que marcou pontos na Volta à França de 1956, nasceu hoje em Vila Verde, perto da Figueira da Foz, só que em 1931. 

   Além do bacalhau e da troncha cozidos com batatas, não são escassos, como se vê, os pretextos que tenho para uma boa libação, esta noite, com a persistente chuva, lá fora, a dar de beber à agricultura sedenta de 2021.

https://www.facebook.com/carlos.coutinho.71868964/posts/455101629463184

quinta-feira, 23 de dezembro de 2021

António Galopim de Carvalho - AÇORDA DE MÃO NO BOLSO

* António Galopim de Carvalho 

Nesses anos da minha infância, a fome nos campos do Alentejo era muita. Sem um quinhão de terra para cultivarem, as famílias viviam das magras e esporádicas jornas, ao sabor dos caprichos do Sol, das chuvas e das geadas. Sem trabalho, os cifrões cresciam no livro dos fiados, na venda da aldeia, sem esperança de os ver reduzir ou apagar. Os homens, nunca as mulheres, acabavam por vir para a cidade, pedir esmola. Vinham aos grupos de três ou quatro, não para se imporem pelo número, mas porque se envergonhavam e intimidavam se viessem sozinhos.
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Batiam-nos à porta, e tendo vindo abrir-lha, cumprimentavam de chapéu na mão e o que falava apenas dizia que não tinham trabalho e que precisavam de levar de comer para os filhos. Voltando à cozinha, a chamar a mãe, dizia:
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- Estão ali os trabalhadores do campo a pedir!
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Não lhes chamávamos pobrezinhos nem, muito menos, mendigos porque, de facto, não o pareciam nem eram. Tinham dignidade e majestade estes homens e, na resignação que mostravam, adivinhava-se a revolta dentro do peito. Pediam pão ou algum dinheiro para comprarem avio que levassem de volta para casa. 

A minha mãe respeitava-os profundamente e dava-lhes o que podia, como se fossem irmãos. Sem que o dissesse abertamente, ensinou-me a amá-los. E, embora a vida fizesse mais de mim um menino, um rapaz e um homem da cidade, sempre me senti filho do campo e irmão dos camponeses

Com eles aprendi o que é “comer pão com navalha”, uma forma muito expressiva de dizer pão sem conduto, e que “açorda de mão no bolso”, no seu sentido crítico pleno de humor, muito comum neste povo, significa que, não havendo mais do que o caldo e o pão migado, só se usava a mão que pegava na colher.

https://www.facebook.com/Prof.Galopim/posts/2755750954731409

sábado, 18 de dezembro de 2021

José Gameiro - Natal sem pandemia

DIÁRIO DE
UM PSIQUIATRA

 José Gameiro 


Apesar de há um ano a maior parte das famílias se ter reunido, decidimos ficar sozinhos

“Se calhar o que eu lhe vou dizer vai chocá-lo. Não me leve a mal, isto é apenas um desabafo e um pedido de absolvição.” Pensei, será que ao fim de tantos anos desta profissão já me olham como se fosse um padre? Reconheço que alguns que são bem mais eficazes do que nós. Compreendem, fazem pensar, discutem alternativas e absolvem, ou pelo menos as pessoas sentem-se menos culpadas depois de conversarem. Não precisei de a esclarecer, era obviamente uma metáfora.

— Confesso, desculpe retiro o confesso, mas não consigo encontrar outra palavra. Os Natais para mim nunca foram grande coisa. Na infância eram bons, a excitação dos presentes, a família toda reunida, a noite em quase não se dormia. Depois vieram as confusões. Mãe para um lado, pai para outro. Lembro-me perfeitamente de pensar que não queria crescer, depois claro que compreendi, mas dizia aos meus pais que mais valia terem estado quietos, porque é que casaram? Mas pela boca morre o peixe e casei-me. Não me venho queixar do meu marido, mas quando o conheci vinha com brindes. Sabe o que é?

Acenei com a cabeça e um sorriso, mas não lhe disse que atualmente uma parte significativa do trabalho com famílias e casais tem a ver com “os meus, os teus e os nossos” e as confusões inerentes a estas dinâmicas.

— Nem sempre foi fácil a relação com as minhas enteadas, ainda por cima sempre viveram mais connosco do que a mãe e o padrasto. Mas quando começou a pandemia a situação inverteu-se. A mãe vive fora da cidade, numa casa grande, cheia de espaço, foi mais fácil estarem lá e terem aulas virtuais. Ficámos os dois sozinhos, nunca tivemos filhos e não estou arrependida, pelo que vejo à minha volta, só dão chatices. Essa coisa do instinto maternal é uma grande treta.

Penso que a senhora não se apercebeu, mas qualquer coisa me incomodou na frase dela, apesar de nunca se falar do instinto paternal. Já é tempo de os homens terem algum instinto, além do sexual...

— Mas onde é quero chegar é ao Natal. Nunca consegui convencer o meu marido a irmos embora, só os dois para qualquer lado quentinho. Já não tenho pais, ele também não, mas sempre me disse que não conseguia estar sem as filhas. Eu até posso perceber, mas sempre foi uma grande seca. Ir levar as meninas, ir buscar as meninas, fazer centenas de quilómetros em dois dias, só para comemorar um dia do ano... Não lhe sei explicar, mas nunca consegui ter uma ligação forte com as minhas enteadas. Deve ser a falta de laços biológicos, vocês é que sabem explicar.

Não respondi a esta afirmação/pergunta, mas sei que nem sempre é assim, algumas destas famílias até criam laços fortes, mas não podem ter o progenitor que está do outro lado a dificultar-lhes a vida.

— Com a pandemia, e apesar de no último Natal a maior parte das famílias se ter reunido, decidimos que era mais prudente ficarmos sozinhos. Ajudou muito o ter feito uma surpresa. Um dos poucos países que continuava aberto era o México. Uns dias de sonho, uma verdadeira lua de mel, só os dois. O meu maior desejo era que voltasse a haver confinamento. Não desejo mal a ninguém, mas foi tão bom.

Estava na altura de voltar a falar na absolvição.

— O meu papel não é culpar as pessoas, bem basta a culpa que carregam, tantas vezes injusta. Penso que é mais tentar compatibilizar os seus desejos com a realidade, com o menor sofrimento possível.

Enganei-me na “deixa” que lhe dei.

— Bem me parecia que me iria ajudar. Qual é a sugestão que me faz para ter uma boa desculpa para convencer o meu marido a ir para o calor?

https://leitor.expresso.pt/semanario/semanario2564/html/revista-e/vicios/diario-de-um-psiquiatra/natal-sem-pandemia

terça-feira, 23 de novembro de 2021

Mário de Carvalho - «Interessa-me prosseguir este caminho de uma literatura que já tem oito séculos»

CULTURA|LITERATURA

AbrilAbril

21 DE NOVEMBRO DE 2021

  •  

Os primeiros contos ficaram na gaveta, porque os amigos o desencorajaram, mas, ao fim de 40 anos de carreira literária, Mário de Carvalho tornou-se uma voz maior da literatura portuguesa.

 

São assinalados 40 anos de carreira literária de Mário de Carvalho na próxima segunda-feira. Créditos/ Lusa

Desde que publicou os primeiros textos, Contos da sétima esfera (1981), nunca mais precisou de tomar a iniciativa de levar os textos a qualquer lado, porque passou a ser sempre solicitado, até hoje, 40 anos depois de iniciada uma carreira literária em que experimentou todos os géneros, menos a poesia, que considera «demasiado nobre para [o seu] alcance».

Para assinalar este percurso literário, Mário de Carvalho vai ser homenageado na segunda-feira, na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.

Recuando quatro décadas nas suas memórias, o escritor recorda, em entrevista à agência Lusa, o início desta caminhada, fortemente alimentada pela banda desenhada, pela biblioteca do pai e pelos amigos, mas também por estes desencorajada.

«Fui escrevendo uns contos, já desde há algum tempo que escrevia, desde os anos [19]60/70. Escrevi algumas coisas que mostrei a amigos meus que me desencorajaram: ‘Os surrealistas já fizeram isto há muitos anos, deixa-te disto’. E eu deixei».

Mas a necessidade de escrever foi-se impondo, como um «impulso difícil de contrariar», o de lançar no papel as ideias, as situações, as personagens que lhe ocorriam.

Mário de Carvalho, hoje com 77 anos, acredita que isso teve que ver com o seu «mundo de leituras«, porque em jovem foi «um voraz leitor de toda a espécie de livros».

Assim, foram-se somando os contos até que os levou à editora Vega, na altura dirigida pelo escritor João de Melo, que gostou dos textos.

«A partir daí, foram editados e passei a ser solicitado, ou seja, tenho ideia de que nunca tomei a iniciativa de levar os meus textos a qualquer lado, porque houve sempre alguém que mos pediu até hoje, livro após livro, editora após editora», contou.

Na altura já exercia advocacia, a área em que se licenciou e para a qual tinha a vida orientada.

«Os contos foram surgindo a pouco e pouco e, na altura, de um advogado que escrevia livros, passei a ser um escritor que também era advogado», até que finalmente deixou a advocacia.

A escrita ficcional impôs-se-lhe por gosto e sente que a certa altura adquiriu facilidade em criar situações e personagens, confrontando-as sempre com o que já conhecia, quer da literatura, quer da Banda Desenhada.

«Fui um leitor fiel e constante de uma revista que se chamava Cavaleiro Andante e de outra que circulava muito entre miúdos que era o Mundo de Aventuras. Isto fornecia-me um manancial de personagens, de situações complicadas, de avanços e recuos», recorda.

Para o então jovem Mário de Carvalho, era «muito interessante essa consulta semanal do Cavaleiro Andante, a troca de impressões com os colegas que liam a mesma revista», e isso deu-lhe «alguma agilidade na conceção de personagens e de situações dramáticas».

Mas também havia as «leituras sérias», e cedo começou a ler Eça de Queiroz e Aquilino Ribeiro.

«O meu pai tinha uma biblioteca grande, boa, e deixava-me mexer nos livros à vontade, a não ser em alguns livros que depois percebi que tinham um caráter erótico, que estavam numa estante lá em cima, num ponto onde não conseguia chegar. De resto facultava-me os livros e eu andava com eles, levava-os para o liceu e para onde quisesse, e ia lendo sempre».

Mais tarde foi apresentado a Jorge Luis Borges, que o deixou «absolutamente fascinado», e a outros autores latino-americanos, mas sempre foi um leitor muito variado.

«Era capaz de ler Sob a bandeira da coragem, de Stephen Crane, ao mesmo tempo tentar ler O Malhadinhas, do Aquilino – e digo tentar porque não era nada fácil -, mas também ia avançando para o Eça e algum Camilo Castelo Branco».

Mário de Carvalho reconhece que havia um contexto que facilitava tudo, o facto de os seus amigos também serem bons leitores, o que proporcionava que trocassem e comentassem livros.

«Encontrávamo-nos todos os dias e, entre as muitas coisas sobre que se conversava, nomeadamente política, também se conversava sobre livros, e os livros circulavam».

Ao longo da sua vida literária, o escritor já passou por vários géneros, diz que tem «o gosto de borboletear», varia muito e muda de registo, o que, confessa, lhe dá algum prazer.

Tem andado pelo conto, pelo romance e por várias épocas, conforme o que se lhe apresenta, mas nunca escreveu poesia, nunca teve «esse atrevimento».

«Não sei quem foi que disse, que isto da poesia é mais da arte da magia do que outra coisa. Não é propriamente literatura, é magia e eu de mago não tenho nada, por isso não, nunca, a não ser, talvez, na adolescência tenha feito um poema ou outro, como os outros faziam, mas nunca me atrevi a ir para esse terreno, que me parece demasiado nobre para o meu alcance».

A escrita de Mário de Carvalho também é feita de obsessões, de certos temas que se impõem e que não o deixam descansar enquanto não estão prontos.

Foi o caso de um livro que o «obcecou durante anos» e que seria publicado mais tarde com o título O livro grande de Tebas, Navio e Mariana, e que teve que ver com uma reminiscência que tinha desde miúdo: estava a ver uma revista policial e havia uma referência à cidade de Tebas, e esse nome ficou-lhe «a ressoar durante anos».

A mudança de registo literário em Mário de Carvalho relaciona-se sempre com o tema que escolhe tratar, e o autor afirma ter muito cuidado em manter uma linguagem adequada ao assunto e à época, estudando previamente para isso, se for o caso: «Tenho cuidado na seleção de vocábulos, mas também o próprio ritmo das frases é diferente».

«Temos que ter cuidado com isso e procurar encontrar um tom, o ritmo, ler coisas de época e procurar cumprir o pacto com o leitor, o célebre pacto com o leitor, ou seja, se eu estou a escrever sobre o século XVIII, estamos no século XVIII e não há frases, nem realidades posteriores. Se estou a escrever sobre os anos 20, estamos no mundo dos anos 20 e penso que o leitor espera isso, que o autor se informe e não entre pela inverosimilhança».

Sobre uma apreciação que por vezes é feita às palavras que utiliza, como sendo difíceis, Mário de Carvalho considera não ser muito correta, pois limita-se a utilizar as palavras que lhe parecem adequadas à situação que está a ser tratada, para «acentuar mais matizes e procurar certos efeitos».

«Não tenho nenhuma pretensão de deslumbrar com palavras difíceis, de forma nenhuma. As palavras que utilizo não são difíceis para mim nem para outras pessoas da minha geração e, portanto, se alguém não as conhece, o problema não é meu, o problema é que as pessoas estão muito ligadas ao vocabulário básico elementar das televisões e das rádios, quando o nosso vocabulário atual é muitíssimo mais versátil e muitíssimo mais rico e está lá para ser empregado, não está para ser omitido».

Se isso significa vender menos livros, é algo que não o aflige, porque não é essa a razão por que escreve: «Interessa-me prosseguir este caminho de uma literatura que já tem oito séculos, que não é de agora, e de vez em quando não é mau darmos uma espreitadela para aquilo que está lá para trás e que nos formou».

Os trovadores, os homens do renascimento, escritores «perfeitamente fascinantes, como Gil Vicente», ou o «espantoso mestre da língua e da clareza» Padre António Vieira são alguns dos autores que de vez em quando revisita.

Olhando para trás, não tem razões de queixa: «Nunca fui um chamado best seller, mas os meus livros têm-me corrido razoavelmente e tanto que, ao fim de 40 anos, eu ainda estou para aqui», já com «uma certa tranquilidade», sem essa «efervescência e emoção de outros tempos».

«As coisas seguem o seu ritmo e penso que, sem falsas modéstias, há um lugar marcado na nossa literatura que não é minha, não fui eu que inventei, são oito séculos, e eu sinto-me a trabalhar nessa base, sou uma voz que se soma a oito séculos de experiência literária e de avanços e recuos neste campo da literatura».

Nascido em Lisboa, em 1944, combatente da ditadura, que o levou à prisão, Mário de Carvalho estreou-se na literatura aos 37 anos, com Contos da sétima esfera, publicados em 1981.

Desde então, entre romance, novela, conto, ensaio, crónica, teatro e literatura para a infância, soma mais de 30 títulos, entre os quais se encontram Um deus passeando pela brisa da tarde, A inaudita guerra da avenida Gago Coutinho, Os alferes, Era bom que trocássemos umas ideias sobre o assunto, Apuros de um pessimista em fuga, Fantasia para dois coronéis e uma piscina e Se perguntarem por mim, não estou seguido de Haja harmonia.

Os prémios chegaram desde logo com as primeiras obras, como o Prémio Cidade de Lisboa e o Prémio D. Dinis, atribuídos ainda durante a década de 1980.

Entre outros, recebeu os Grandes Prémios de Romance e Novela, Conto e Teatro da Associação Portuguesa de Escritores (APE), o prémio do PEN Clube Português, de narrativa e de ensaio, o prémio internacional Pégaso de Literatura, o Prémio Fernando Namora, por duas vezes, o Grande Prémio de Literatura dst e o Prémio Vergílio Ferreira, de carreira, da Universidade de Évora.

Em 2020, recebeu, pela quarta vez, um grande prémio da APE, este de Crónica e Dispersos Literários, pelo livro O que eu ouvi na barrica das maçãs.

No ano passado publicou igualmente Epítome de pecados e tentações, uma nova coletânea de contos e novelas.

Lusa

https://www.abrilabril.pt/cultura/interessa-me-prosseguir-este-caminho-de-uma-literatura-que-ja-tem-oito-seculos

 


segunda-feira, 22 de novembro de 2021

Poemas de Filipe Chinita

 * Filipe Chinita

madrugada 
de solitário
(prazer)
amando-
me
.
nada 
como 
à 01.50 da madrugada
me apetecer... 
esquartejar 
metade 
de 
um 
dos (meus) duros queijos 
de ovelha alentejanos 
mergulhados... 
durante 
meses
em frascos 
de azeite 
e louro
colocando-o 
aprisionado na mão esquerda 
e a navalha de a minha direita
cortando-o... nas mais finas 
em que me possa
eu exprimir
deixando
-lhe 
brilhar... 
os interiores olhinhos 
repassados de prazer
que lhe dão 
um sabor 
único...
tão 
único... 
que me deu
agora mesmo 
mesmo! a estas horas 
uma desalmada fome
de me deixar inundar 
da sua intensidade 
na
minha boca...
tomando-a toda.
de sabor...
tomando-me todo.
de prazer... 
até 
ao cérebro
.
fj
02.02
21.11.2021
13:19



amar... é perdermo-nos de nós.no outro
fundindo-nos... num outra identidade.
mútua. e não mais individual.
nem que por momentos
.
fj
12.59
22.11.2021


diria mais...
amar... é sermos o outro 
e não mais (só) nós.próprios

sexta-feira, 19 de novembro de 2021

Ricardo Reis - Deixemos, Lídia, a ciência que não põe

* Ricardo Reis 

Deixemos, Lídia, a ciência que não põe

Mais flores do que Flora pelos campos,

        Nem dá de Apolo ao carro

        Outro curso que Apolo.

Contemplação estéril e longínqua

Das coisas próximas, deixemos que ela

        Olhe até não ver nada

        Com seus cansados olhos.

Vê como Ceres e a mesma sempre

E como os louros campos entumece

        E os cala pràs avenas

        Dos agrados de Pã.

Vê como com seu jeito sempre antigo

Aprendido no orige azul dos deuses,

        As ninfas não sossegam

        Na sua  dança eterna.

E como as hemadríades constantes

Murmuram pelos rumos das florestas

        E atrasam o deus Pã

        Na atenção à sua flauta.

Não de outro modo mais divino ou menos

Deve aprazer-nos conduzir a vida,

        Quer sob o ouro de Apolo

        Ou a prata de Diana.

Quer troe Júpiter nos céus toldados,

Quer apedreje com as suas ondas

        Neptuno as planas praias

        E os erguidos rochedos.

Do mesmo modo a vida é sempre a mesma.

Nós não vemos as Parcas acabarem-nos.

        Por isso as esqueçamos

        Como se não houvessem.

Colhendo flores ou ouvindo as fontes

A vida passa como se temêssemos.

        Não nos vale pensarmos

        No futuro sabido

Que aos nossos olhos tirará Apolo

E nos porá longe de Ceres e onde

        Nenhum Pã cace à flauta

        Nenhuma branca ninfa.

Só as horas serenas reservando

Por nossas, companheiros na malícia

        De ir imitando os deuses

        Até sentir-lhe a calma.

Venha depois com as suas cãs caídas

A velhice, que os deuses concederam

Que esta hora por ser sua

Não sofra de Saturno

Mas seja o templo onde sejamos deuses

Inda que apenas, Lídia, pra nós próprios

Nem precisam de crentes

Os que de si o foram.

s.d.

Odes de Ricardo Reis . Fernando Pessoa. (Notas de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1946 (imp.1994). 

 - 162.

 

quarta-feira, 3 de novembro de 2021

Daniel Faria - Homens que são como lugares mal situados

* Daniel Faria

Homens que são como casas saqueadas
Que são como sítios fora dos mapas
Como pedras fora do chão
Como crianças órfãs
Homens sem fuso horário
Homens agitados sem bússola onde repousem
Homens que são como fronteiras invadidas
Que são como caminhos barricados
Homens que querem passar pelos atalhos sufocados
Homens sulfatados por todos os destinos
Desempregados das suas vidas
Homens que são como a negação das estratégias
Que são como os esconderijos dos contrabandistas
Homens encarcerados abrindo-se com facas
Homens que são como danos irreparáveis
Homens que são sobreviventes vivos
Homens que são como sítios desviados
Do lugar