sexta-feira, 23 de outubro de 2026

Gorka Castillo - Espanha - Homem criado por lobos mais de uma década morreu aos 80

 

Marcos conservou até ao fim um olhar limpo, quase infantil, e uma capacidade de deslumbramentoFoto D.R.

Marcos Rodríguez Pantoja foi adotado por uma alcateia em criança após a morte do pastor com quem vivia na serra Morena

Gorka Castillo em Madrid

Conhecido como “o menino-lobo da serra Morena”, Marcos Rodríguez Pantoja morreu no domingo aos 80 anos, deixando para trás uma das histórias mais extraordinárias, e dolorosas, da Espanha atual. Foi adotado por uma alcateia em criança e conviveu com os lobos, em completo isolamento da civilização, durante mais de uma década. A sua insólita biografia, marcada pelo abandono familiar, pela sobrevivência numa das zonas mais agrestes da Península Ibérica e pelas enormes dificuldades que teve para se reintegrar socialmente depois de ser encontrado por uma patrulha da Guarda Civil num lugar recôndito, tornou-o um chamariz para o estudo científico e protagonista de reportagens, de documentários e até de um filme.

Nascido a 7 de junho de 1946 na pequena aldeia cordovesa de Añora, chegou ao mundo em pleno pós-guerra espanhol e num ambiente de extrema pobreza. A mãe morreu no parto do oitavo filho e o pai voltou a casar-se com uma mulher que, segundo os testemunhos do próprio Marcos, o submetia a maus-tratos constantes. A parte mais dura da história começou quando, ainda criança, a família se mudou para uma aldeia de Ciudad Real para combater a fome e a penúria impostas pela ditadura. Foi ali que o pai decidiu vendê-lo a uns proprietários da serra Morena, que o enviaram para viver com um velho pastor de cabras numa gruta em plena montanha. Com aquele idoso aprendeu o imprescindível para subsistir em condições extremas: a fazer fogo, a reconhecer plantas, a cuidar de cabras, a procurar água e alimento.

Quando o pastor morreu, em 1954, Marcos ficou sozinho na montanha. “Um dia encontrei-me com umas crias de lobo e comecei a brincar com elas. Quando os adultos apareceram, em vez de me devorarem adotaram-me totalmente. Começaram a dar-me de comer porque eu ainda não era capaz de caçar. O que os meus pais não fizeram por mim fizeram os lobos”, disse num dos numerosos documentários que lhe foram dedicados ao longo dos anos.

Feliz entre lobos

Durante os anos de convivência com aqueles animais, aprendeu a comunicar-se através de sons, a deslocar-se de quatro e a alimentar-se como um predador, como um lobo. Em entrevistas posterio­res, assegurou ter-se sentido feliz naquele ambiente, talvez por não conhecer outro. “É fantástico que o Estado tenha decidido proteger a espécie. As caçadas que se organizavam eram aterradoras para as alcateias, além de injustas porque não eram para comer, mas por simples prazer. O problema não são os lobos, são os humanos. A mim os lobos nunca me fizeram nada, mas os humanos sim, fizeram-me mal”, respondeu quando questionado sobre a difícil convivência entre criadores de gado e grandes predadores.

“O que os meus pais não fizeram por mim fizeram os lobos”, disse Marcos Rodríguez Pantoja

Numa viagem a Segóvia, em 2002, teve a oportunidade de se reencontrar com uma alcateia. A reação dos animais aos seus sons foi instintiva e acabaram a brincar com ele, rebolando juntos na erva. “São animais selvagens e mordem. Eu ao princípio também mordia, quando encontrava pessoas que me tratavam mal e as via como ameaça. Por isso é preciso saber tratá-los. Só não te podes aproximar deles se houver uma fêmea com cio.”

O regresso forçado

Marcos foi encontrado em 1965 pela Guarda Civil em pleno monte. A captura foi complexa porque uivava, mordia e resistia a abandonar a montanha. Seguiu-se um processo de reintegração social extremamente longo e doloroso. Um sacerdote e umas freiras ensinaram-no a falar, a andar erguido, a vestir-se, a comer com talheres. Foi internado no Hospital de Convalescentes da Fundação Vallejo, em Madrid. Cumpriu o serviço militar, embora o desconhecimento das normas lhe causasse problemas. Sofreu enganos, burlas e abusos, e nunca chegou a compreender bem o funcionamento do dinheiro e das relações humanas. Mas todos concordam que “foi um homem honesto e leal”.

A sua história chamou a atenção do antropólogo Gabriel Janer Manila, que estudou o caso entre 1975 e 1976 e destacou nas conclusões a extraordinária inteligência natural que Marcos desenvolveu, uma habilidade que lhe permitiu sobreviver em condições que teriam sido letais para qualquer outra criança. Após anos de trabalhos precários e solidão, mudou-se para Ourense, na Galiza, em busca de um lugar onde viver com tranquilidade. Primeiro em Rante e depois em San Cibrao das Viñas, onde encontrou um ambiente que o tratou com respeito. Ali viveu numa pequena habitação cedida pelo município, rodeado de vizinhos que cuidavam dele sem paternalismos, conscientes de que por trás da fama havia um homem frágil, marcado por uma vida excecionalmente difícil.

O último refúgio

Em San Cibrao pôde, por fim, passear com calma, observar os animais como gostava e manter pequenas conversas com alguns vizinhos. Preferia falar de coisas mundanas, como a comida, o tempo ou as recordações da serra Morena. Quem lidou com ele diz que era afável e tímido, com dificuldade em entender algumas normas sociais e uma memória seletiva: recordava com clareza os sons, os odores e as cenas da montanha, mas esquecia com facilidade as horas, os números de telefone ou os nomes das ruas. A autarquia e os serviços sociais protegeram-no na sua extrema vulnerabilidade, mas o que realmente marcou a etapa em Ourense foi a rede humana que se criou à sua volta. Os vizinhos convidavam-no para comer, acompanhavam-no ao médico quando precisava, visitavam-no quase diariamente para se certificarem de que não lhe faltava nada.

Marcos conservou até ao fim um olhar limpo, quase infantil, e uma capacidade de deslumbramento. Aprendeu a ler e a escrever num centro de educação para adultos e serviu de base a um projeto multidisciplinar da sua turma: o departamento de Francês compôs uma canção em seu nome, o de Ciências um herbário com as flores da serra Morena, o de Filosofia um estudo antropológico, o de Inglês uma banda desenhada e o de História um mapa dos lugares por onde andou com os lobos. “Estávamos orgulhosos do Marcos e muito unidos a ele”, afirma María Miguélez, a professora que o encorajou a tornar-se um bom estudante. Nos últimos anos, participou em palestras e encontros para contar a sua história com uma mistura de ingenuidade e tristeza, consciente de que a sua vida tinha sido extraordinária, mas também dolorosa.

Dizem hoje os habitantes de San Cibrao que se vão sentir muito sós sem ele. Pelo sim, pelo não, os que o conheceram olharam na segunda-feira para o céu. Para o caso de verem Marcos Rodríguez Pantoja fazer-lhes um piscar de olhos de lobo a partir da Via Láctea. Porque nas noites da Galiza gostava de se deitar junto a um velho carvalho e olhar para o céu. Talvez isso lhes sirva de consolo face à perda do seu mais ilustre vizinho.

 Expresso 2026 Agosto 1

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