Marcos conservou até ao fim um olhar limpo, quase infantil, e uma capacidade de deslumbramentoFoto D.R.
Marcos
Rodríguez Pantoja foi adotado por uma alcateia em criança após
a morte do pastor com quem vivia na serra Morena
Gorka
Castillo em Madrid
Conhecido como
“o menino-lobo da serra Morena”, Marcos Rodríguez Pantoja morreu no domingo aos
80 anos, deixando para trás uma das histórias mais extraordinárias, e
dolorosas, da Espanha atual. Foi adotado por uma alcateia em criança e conviveu
com os lobos, em completo isolamento da civilização, durante mais de uma
década. A sua insólita biografia, marcada pelo abandono familiar, pela
sobrevivência numa das zonas mais agrestes da Península Ibérica e pelas enormes
dificuldades que teve para se reintegrar socialmente depois de ser encontrado
por uma patrulha da Guarda Civil num lugar recôndito, tornou-o um chamariz para
o estudo científico e protagonista de reportagens, de documentários e até de um
filme.
Nascido a 7 de
junho de 1946 na pequena aldeia cordovesa de Añora, chegou ao mundo em pleno
pós-guerra espanhol e num ambiente de extrema pobreza. A mãe morreu no parto do
oitavo filho e o pai voltou a casar-se com uma mulher que, segundo os
testemunhos do próprio Marcos, o submetia a maus-tratos constantes. A parte
mais dura da história começou quando, ainda criança, a família se mudou para
uma aldeia de Ciudad Real para combater a fome e a penúria impostas pela
ditadura. Foi ali que o pai decidiu vendê-lo a uns proprietários da serra
Morena, que o enviaram para viver com um velho pastor de cabras numa gruta em
plena montanha. Com aquele idoso aprendeu o imprescindível para subsistir em
condições extremas: a fazer fogo, a reconhecer plantas, a cuidar de cabras, a
procurar água e alimento.
Quando o pastor
morreu, em 1954, Marcos ficou sozinho na montanha. “Um dia encontrei-me com
umas crias de lobo e comecei a brincar com elas. Quando os adultos apareceram,
em vez de me devorarem adotaram-me totalmente. Começaram a dar-me de comer
porque eu ainda não era capaz de caçar. O que os meus pais não fizeram por mim
fizeram os lobos”, disse num dos numerosos documentários que lhe foram
dedicados ao longo dos anos.
Feliz entre
lobos
Durante os anos
de convivência com aqueles animais, aprendeu a comunicar-se através de sons, a
deslocar-se de quatro e a alimentar-se como um predador, como um lobo. Em
entrevistas posteriores, assegurou ter-se sentido feliz naquele ambiente,
talvez por não conhecer outro. “É fantástico que o Estado tenha decidido
proteger a espécie. As caçadas que se organizavam eram aterradoras para as
alcateias, além de injustas porque não eram para comer, mas por simples prazer.
O problema não são os lobos, são os humanos. A mim os lobos nunca me fizeram
nada, mas os humanos sim, fizeram-me mal”, respondeu quando questionado sobre a
difícil convivência entre criadores de gado e grandes predadores.
“O que os
meus pais não fizeram por mim fizeram os lobos”, disse Marcos Rodríguez Pantoja
Numa viagem a
Segóvia, em 2002, teve a oportunidade de se reencontrar com uma alcateia. A
reação dos animais aos seus sons foi instintiva e acabaram a brincar com ele,
rebolando juntos na erva. “São animais selvagens e mordem. Eu ao princípio
também mordia, quando encontrava pessoas que me tratavam mal e as via como
ameaça. Por isso é preciso saber tratá-los. Só não te podes aproximar deles se
houver uma fêmea com cio.”
O regresso
forçado
Marcos foi
encontrado em 1965 pela Guarda Civil em pleno monte. A captura foi complexa
porque uivava, mordia e resistia a abandonar a montanha. Seguiu-se um processo
de reintegração social extremamente longo e doloroso. Um sacerdote e umas
freiras ensinaram-no a falar, a andar erguido, a vestir-se, a comer com
talheres. Foi internado no Hospital de Convalescentes da Fundação Vallejo, em
Madrid. Cumpriu o serviço militar, embora o desconhecimento das normas lhe
causasse problemas. Sofreu enganos, burlas e abusos, e nunca chegou a
compreender bem o funcionamento do dinheiro e das relações humanas. Mas todos
concordam que “foi um homem honesto e leal”.
A sua história
chamou a atenção do antropólogo Gabriel Janer Manila, que estudou o caso entre
1975 e 1976 e destacou nas conclusões a extraordinária inteligência natural que
Marcos desenvolveu, uma habilidade que lhe permitiu sobreviver em condições que
teriam sido letais para qualquer outra criança. Após anos de trabalhos
precários e solidão, mudou-se para Ourense, na Galiza, em busca de um lugar
onde viver com tranquilidade. Primeiro em Rante e depois em San Cibrao das
Viñas, onde encontrou um ambiente que o tratou com respeito. Ali viveu numa
pequena habitação cedida pelo município, rodeado de vizinhos que cuidavam dele
sem paternalismos, conscientes de que por trás da fama havia um homem frágil,
marcado por uma vida excecionalmente difícil.
O último
refúgio
Em San Cibrao
pôde, por fim, passear com calma, observar os animais como gostava e manter
pequenas conversas com alguns vizinhos. Preferia falar de coisas mundanas, como
a comida, o tempo ou as recordações da serra Morena. Quem lidou com ele diz que
era afável e tímido, com dificuldade em entender algumas normas sociais e uma
memória seletiva: recordava com clareza os sons, os odores e as cenas da
montanha, mas esquecia com facilidade as horas, os números de telefone ou os
nomes das ruas. A autarquia e os serviços sociais protegeram-no na sua extrema
vulnerabilidade, mas o que realmente marcou a etapa em Ourense foi a rede
humana que se criou à sua volta. Os vizinhos convidavam-no para comer,
acompanhavam-no ao médico quando precisava, visitavam-no quase diariamente para
se certificarem de que não lhe faltava nada.
Marcos
conservou até ao fim um olhar limpo, quase infantil, e uma capacidade de
deslumbramento. Aprendeu a ler e a escrever num centro de educação para adultos
e serviu de base a um projeto multidisciplinar da sua turma: o departamento de
Francês compôs uma canção em seu nome, o de Ciências um herbário com as flores
da serra Morena, o de Filosofia um estudo antropológico, o de Inglês uma banda
desenhada e o de História um mapa dos lugares por onde andou com os lobos.
“Estávamos orgulhosos do Marcos e muito unidos a ele”, afirma María Miguélez, a
professora que o encorajou a tornar-se um bom estudante. Nos últimos anos,
participou em palestras e encontros para contar a sua história com uma mistura
de ingenuidade e tristeza, consciente de que a sua vida tinha sido
extraordinária, mas também dolorosa.
Dizem hoje os
habitantes de San Cibrao que se vão sentir muito sós sem ele. Pelo sim, pelo
não, os que o conheceram olharam na segunda-feira para o céu. Para o caso de
verem Marcos Rodríguez Pantoja fazer-lhes um piscar de olhos de lobo a partir
da Via Láctea. Porque nas noites da Galiza gostava de se deitar junto a um
velho carvalho e olhar para o céu. Talvez isso lhes sirva de consolo face à
perda do seu mais ilustre vizinho.

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