quinta-feira, 20 de agosto de 2026

(83) Quadras irreverentes, entre o religioso e o profano


Santos populares - Setúbal - Grafito e quadra dos Redskins (foto victoe nogueira HPIM5294) 

* Victor Nogueira / Gemini

 Este é um grafito que serviu de pontapé de saísa para a presente publicação, uma quadra dos Redskins, do movimento skinheads antifascistas e de esquerda.

Jesus já aqui passou
e veio ver os festejos
Avisem-se os Santos
Não ande aí aos beliscões

A quadra brinca com as tradições populares e o imaginário religioso, própria de poesia similar e das cantigas medievais de escárnio e maldizer.


Pela estrutura de quadra popular e pelo tom irreverente que mistura o divino com o quotidiano, o texto conecta-se diretamente à tradição da poesia satírica e lírica portuguesa, podendo ser "ligado" a vários universos poéticos:
  • As Quadras dos Santos Populares: Tradição poética tradicionalmente associada às Festas de Santo António, São João e São Pedro (como as quadras atribuídas ao povo ou recolhidas por autores como Fernando Pessoa). O uso de linguagem brejeira dirigindo-se a santos e a Jesus como se fossem vizinhos do bairro é a marca registada destas festas.

  • A Poesia Satírica e Bocagiana: Lembra o espírito de Manuel Maria Barbosa du Bocage e dos poetas do Arcadismo/Neoclassicismo que usavam o verso curto e o humor ácido para humanizar figuras sagradas e criticar os costumes da sociedade.

  • As Cantigas de Escárnio e Maldizer: Remonta às origens medievais da poesia em língua portuguesa, onde a sátira, o cómico de situação e a profanação do sagrado eram temas centrais na poesia cantada.

As quadras populares portuguesas — sobretudo as associadas aos Santos Populares e à tradição brejeira ou de escárnio — partilham esse mesmo tom: tratam as figuras sagradas com familiaridade, humor e uma ponta de provocação.

Exemplos com a mesma linguagem e espírito:

  • Humanização e provocação aos Santos:

    Santo António é um bom santo,

    Mas é muito namorador;

    Esquece-se de dar noivos

    Para andar no amor.

  • O divino misturado com a festa e o vinho:

    São João para ver a festa

    Desceu do céu ao arraial;

    Bebeu um copo de vinho,

    Já não sabia voltar.

  • Irreverência e sarcasmo quotidiano:

    Atirei uma pedra ao céu

    Para ver se Deus me ouvia;

    Deus respondeu-me lá de cima:

    «Olha a cabeça, Maria!»

  • Tradição das marchas e bailes:

    São Pedro subiu ao trono

    Para ver quem dance melhor;

    Viu a noiva do vizinho

    E até se esqueceu do xadrez.

Todas estas composições assentam na redondilha maior (versos de 7 sílabas métricas) e no contraste cómico entre a gravidade do sagrado e a ligeirista da vida cá em baixo.

Nas cantigas de escárnio e maldizer (poesia satírica medieval galaico-portuguesa, séculos XIII–XIV), a crítica e o deboche às figuras da Igreja (clérigos, bispos, abades e até santos) eram extremamente frequentes. A linguagem podia ser irónica (escárnio) ou crua e direta (maldizer).

Exemplos dessa tradição com temas religiosos e de costumes:

1. Sátira ao Clero e à Falsa Devoção Em cantigas de maldizer, como esta de Afonso Eanes do Coton, o trovador ataca abertamente o comportamento devasso de um clérigo:

O padre de Vila Nova

Nom diz missa nem a canta,

Mais anda na comadre

A ver se a levant'a manta.

2. Sátira às Romarias e às "Devotas" Em cantigas de escárnio, os trovadores ironizavam quem ia em "romaria" não para rezar aos santos, mas para os encontros amorosos nas festas (tal como a quadra do muro refere Jesus vir ver os festejos):

Nom imos nós a São Servando

Por fazer oração,

Mais imos por ver o mosteiro

E o bom vinho que i dão!

3. O Paralelo com a Quadra do Muro Enquanto na cantiga medieval o tom era de denúncia e zombaria (a expor a corrupção ou os vícios dos religiosos), na quadra urbana moderna o mecanismo é o mesmo, mas invertido: humaniza-se Jesus e os Santos, colocando-os a participar na folia do arraial e a andar "aos beliscões" como qualquer popular na festa. 

Fernando Pessoa dedicou um livro inteiro ao género — Quadras ao Gosto Popular — onde explorou exatamente esta linguagem simples, em redondilha maior (7 sílabas), que simula a voz do povo, das festas e do quotidiano.

As quadras seguintes pertencem ao conjunto das Quadras ao Gosto Popular de Fernando Pessoa (assinadas pelo próprio ortónimo), escritas ao longo da sua vida e reunidas postumamente.

Pessoa fascinava-se com a simplicidade da métrica popular (a redondilha maior, de 7 sílabas) e gostava de capturar o tom ingénuo, maroto e direto do povo português durante os Santos Populares.

A irreverência aos Santos e à tradição:

Santo António era um grande pregador,

Mas é por ser Santo António

Que as moças lhe têm amor.

A festa e a expetativa dos festejos:

No dia de Santo António

Todos riem sem razão.

Em São João e São Pedro

Como é que todos rirão?

O manjerico e as piadas amorosas:

Manjerico que te deram,

Amor que te querem dar…

Recebeste o manjerico,

O amor fica a esperar.

A humanização/jogo do namoro nas festas:

O vaso do manjerico

Caiu da janela abaixo;

Vai buscá-lo, que aqui fico,

Se o não achares, eu o acho.

(Gemini)

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