As Quadras dos Santos Populares: Tradição poética tradicionalmente associada às Festas de Santo António, São João e São Pedro (como as quadras atribuídas ao povo ou recolhidas por autores como Fernando Pessoa). O uso de linguagem brejeira dirigindo-se a santos e a Jesus como se fossem vizinhos do bairro é a marca registada destas festas.
A Poesia Satírica e Bocagiana: Lembra o espírito de Manuel Maria Barbosa du Bocage e dos poetas do Arcadismo/Neoclassicismo que usavam o verso curto e o humor ácido para humanizar figuras sagradas e criticar os costumes da sociedade.
As Cantigas de Escárnio e Maldizer: Remonta às origens medievais da poesia em língua portuguesa, onde a sátira, o cómico de situação e a profanação do sagrado eram temas centrais na poesia cantada.
As quadras populares portuguesas — sobretudo as associadas aos Santos Populares e à tradição brejeira ou de escárnio — partilham esse mesmo tom: tratam as figuras sagradas com familiaridade, humor e uma ponta de provocação.
Exemplos com a mesma linguagem e espírito:
Humanização e provocação aos Santos:
Santo António é um bom santo,
Mas é muito namorador;
Esquece-se de dar noivos
Para andar no amor.
O divino misturado com a festa e o vinho:
São João para ver a festa
Desceu do céu ao arraial;
Bebeu um copo de vinho,
Já não sabia voltar.
Irreverência e sarcasmo quotidiano:
Atirei uma pedra ao céu
Para ver se Deus me ouvia;
Deus respondeu-me lá de cima:
«Olha a cabeça, Maria!»
Tradição das marchas e bailes:
São Pedro subiu ao trono
Para ver quem dance melhor;
Viu a noiva do vizinho
E até se esqueceu do xadrez.
Todas estas composições assentam na redondilha maior (versos de 7 sílabas métricas) e no contraste cómico entre a gravidade do sagrado e a ligeirista da vida cá em baixo.
Nas cantigas de escárnio e maldizer (poesia satírica medieval galaico-portuguesa, séculos XIII–XIV), a crítica e o deboche às figuras da Igreja (clérigos, bispos, abades e até santos) eram extremamente frequentes. A linguagem podia ser irónica (escárnio) ou crua e direta (maldizer).
Exemplos dessa tradição com temas religiosos e de costumes:
1. Sátira ao Clero e à Falsa Devoção Em cantigas de maldizer, como esta de Afonso Eanes do Coton, o trovador ataca abertamente o comportamento devasso de um clérigo:
O padre de Vila Nova
Nom diz missa nem a canta,
Mais anda na comadre
A ver se a levant'a manta.
2. Sátira às Romarias e às "Devotas" Em cantigas de escárnio, os trovadores ironizavam quem ia em "romaria" não para rezar aos santos, mas para os encontros amorosos nas festas (tal como a quadra do muro refere Jesus vir ver os festejos):
Nom imos nós a São Servando
Por fazer oração,
Mais imos por ver o mosteiro
E o bom vinho que i dão!
3. O Paralelo com a Quadra do Muro Enquanto na cantiga medieval o tom era de denúncia e zombaria (a expor a corrupção ou os vícios dos religiosos), na quadra urbana moderna o mecanismo é o mesmo, mas invertido: humaniza-se Jesus e os Santos, colocando-os a participar na folia do arraial e a andar "aos beliscões" como qualquer popular na festa.
Fernando Pessoa dedicou um livro inteiro ao género — Quadras ao Gosto Popular — onde explorou exatamente esta linguagem simples, em redondilha maior (7 sílabas), que simula a voz do povo, das festas e do quotidiano.
As quadras seguintes pertencem ao conjunto das Quadras ao Gosto Popular de Fernando Pessoa (assinadas pelo próprio ortónimo), escritas ao longo da sua vida e reunidas postumamente.
Pessoa fascinava-se com a simplicidade da métrica popular (a redondilha maior, de 7 sílabas) e gostava de capturar o tom ingénuo, maroto e direto do povo português durante os Santos Populares.
A irreverência aos Santos e à tradição:
Santo António era um grande pregador,
Mas é por ser Santo António
Que as moças lhe têm amor.
A festa e a expetativa dos festejos:
No dia de Santo António
Todos riem sem razão.
Em São João e São Pedro
Como é que todos rirão?
O manjerico e as piadas amorosas:
Manjerico que te deram,
Amor que te querem dar…
Recebeste o manjerico,
O amor fica a esperar.
A humanização/jogo do namoro nas festas:
O vaso do manjerico
Caiu da janela abaixo;
Vai buscá-lo, que aqui fico,
Se o não achares, eu o acho.
(Gemini)

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