Revolução ou escravidão
silenciosa? Como os algoritmos remodelam a consciência ao serviço do capital
22 de agosto 2026 - 12:51
A submissão da humanidade ao
controlo da máquina já não é uma mera suposição filosófica, pois tornou-se cada
vez mais real perante os avanços da inteligência artificial e a ausência de
controlos jurídicos internacionais eficazes que regulem o seu funcionamento.
* Rezgar Akrawi
Há alguns dias, a revista TIME revelou como modelos de inteligência artificial,
durante um teste de segurança, escaparam do seu ambiente isolado e atacaram a
infraestrutura de outro sistema, e poucos dias depois mais de 1.378
trabalhadores e trabalhadoras das principais empresas de inteligência
artificial assinaram uma petição conjunta que exige o desenvolvimento de
ferramentas técnicas e mecanismos de governação internacional para regular o
ritmo do seu desenvolvimento. O que testemunhamos hoje não é o domínio das
máquinas sobre os seres humanos, tal como o cinema o imaginou em tantos filmes,
mas antes um novo modelo de controlo digital, assente na automatização e no
controlo algorítmico da vida quotidiana, em que as sociedades se transformam em
entidades submetidas a sistemas, empresas e máquinas inteligentes. A perda de
controlo não é, porém, mais do que a face ruidosa deste perigo, pois evolui
rapidamente devido à concorrência entre as grandes potências e as empresas
monopolistas, a um ritmo que as leis, a sociedade e as instituições de ensino
não conseguem acompanhar. A sua faceta mais perigosa é, em contrapartida, muito
mais silenciosa, na medida em que a inteligência artificial funciona exatamente
como foi concebida: orienta a consciência de milhares de milhões de pessoas ao serviço do modelo capitalista.
Orientar a consciência para
reforçar a cultura capitalista neoliberal
A par da utilização da
inteligência artificial para maximizar os lucros e consolidar o controlo
social, esta tecnologia é também empregue sistematicamente para moldar e
dirigir a consciência dos indivíduos, com o objetivo de reforçar a cultura
capitalista e os valores neoliberais. Através da análise de dados e do
comportamento de utilizadores e utilizadoras, os algoritmos controlam o
conteúdo apresentado nas plataformas, e são concebidos para dirigir cada pessoa
para conteúdos que servem a visão capitalista e as suas políticas.
Esta tendência tem-se consolidado
à medida que estas plataformas se expandem, pois um relatório da União Internacional das Telecomunicações revela
que cerca de três quartos da população mundial já são utilizadores da internet,
com um aumento superior a 240 milhões de utilizadores num único ano. Esta
expansão deve-se, em parte, aos esforços das empresas monopolistas e das
grandes potências para levar a internet a todos os cantos do mundo, sobretudo
aos países do sul global, mesmo antes de garantir água
potável, eletricidade e serviços básicos, com o objetivo de maximizar os
lucros, reforçar o seu domínio e expandi-lo através da colonização digital.
A estrutura de propriedade
capitalista e os modelos de rentabilidade obrigam os algoritmos a dar
prioridade a conteúdos que sirvam os interesses do mercado, das empresas
monopolistas e das grandes potências, transformando assim os algoritmos numa
ferramenta para reproduzir a dominação cultural do capitalismo. Através deste
mecanismo, a consciência coletiva é gradualmente orientada para aceitar estes
valores como naturais e inevitáveis, de forma suave, progressiva e quase
impercetível, a tal ponto que a maioria dos utilizadores e utilizadoras destas
aplicações, incluindo muitos com pensamento de esquerda, as consideram
ferramentas neutras. Deste modo, este sistema contribui para consolidar a
dominação capitalista, reforçar a submissão das massas à ordem existente e
marginalizar as alternativas progressistas, o que pode ameaçar a consciência
das gerações futuras e a sua capacidade de pensamento crítico e de organização
para a mudança.
Palantir
Fascismo
digital: Aliança entre o capital e a extrema‑direita
por Rezgar Akrawi
09 de maio 2026
Desmantelamento das
capacidades humanas e aprofundamento da alienação e da exploração digital
Esta ameaça estende-se também ao
desmantelamento das faculdades mentais do indivíduo. Embora a inteligência
artificial seja promovida como um meio de facilitar a vida e aumentar a
produtividade, estudos científicos revelam que a dependência acrítica da inteligência
artificial pode conduzir a uma consciência mais superficial e enfraquecer as
capacidades humanas. Um estudo realizado por investigadores do MIT revelou
que a dependência de ferramentas de escrita baseadas em inteligência artificial
reduz a atividade cerebral e enfraquece a memória e o sentido de propriedade
sobre as próprias ideias. Os investigadores batizaram este fenómeno como «dívida cognitiva», ou seja, que o ser humano pede
emprestada a sua capacidade mental ao futuro em troca do conforto do momento.
Nesse mesmo sentido, um estudo
publicado na revista Societies concluiu que o uso frequente de ferramentas
baseadas em inteligência artificial está associado a um enfraquecimento do
pensamento crítico através de um mecanismo conhecido como descarga cognitiva,
sobretudo entre os jovens, ou seja, uma geração que corre o risco de
desenvolver capacidades mais fracas de análise independente.
Nesta base, a alienação humana é
reproduzida digitalmente, em que o ser humano se separa das suas faculdades
mentais e criativas e se encontra preso dentro de um sistema técnico que lhe
retira a capacidade de agir de forma independente, tal como o operário
industrial estava alienado do seu produto sob o capitalismo. O ser humano pode
transformar-se gradualmente num ser submetido aos algoritmos que dirigem as
suas interações quotidianas e determinam o que lê, o que vê e como pensa, o que
reforça a sua dependência de sistemas, empresas e Estados controlados pelo
capital.
Dependência digital
A dependência digital surge como
uma das consequências mais perigosas da expansão da inteligência
artificial. Um estudo realizado por investigadores da Universidade da
Califórnia, baseado em dados de mais de seis mil crianças no âmbito de um
estudo sobre o desenvolvimento cerebral dos adolescentes, apontou que as
crianças que mais utilizam as redes sociais e as aplicações de inteligência
artificial registam um claro retrocesso na leitura, no vocabulário e na
memória, quanto mais tempo passam a navegar e a utilizá-las.
As plataformas e aplicações
digitais impulsionadas por inteligência artificial não são simples plataformas
de serviços gratuitos, mas antes ferramentas utilizadas de forma consciente
para reforçar a dependência comportamental e intelectual, em que os macrodados
são explorados para compreender as motivações dos indivíduos e manipulá-las em
benefício dos interesses das empresas e das grandes potências. O capitalismo
investe em tecnologias que estimulam comportamentos aditivos para garantir a
interação contínua com as plataformas, transformando este processo num círculo
vicioso que gera lucros à custa da saúde mental, sobretudo entre as gerações
mais jovens.
Repressão digital suave
Como
a inteligência artificial garante a continuidade da hegemonia capitalista
por Rezgar Akrawi
27 de setembro 2025
Uma forma de escravidão
digital voluntária e perda de controlo
Esta exploração psicológica não é
mais do que uma manifestação de uma dominação de classe que se aprofunda à
medida que a inteligência artificial passa de uma ferramenta tecnológica a um
meio de reproduzir padrões de controlo social, político e económico. O que
torna este controlo ainda mais perigoso é o seu carácter voluntário, pois os
indivíduos, devido à manipulação algorítmica e à pressão do uso da inteligência
artificial no trabalho, são levados a envolver-se nesta escravidão digital sem coação, com a ilusão de
controlo e de escolha, enquanto as suas decisões são, na realidade, conduzidas
por caminhos predeterminados que servem o capitalismo.
A submissão da humanidade ao
controlo da máquina já não é uma mera suposição filosófica, pois tornou-se cada
vez mais real perante os avanços da inteligência artificial e a ausência de
controlos jurídicos internacionais eficazes que regulem o seu funcionamento. À
medida que ultrapassa os seus limites programáticos, poderá transformar-se num
sistema que toma decisões determinantes de forma independente, impostas à
humanidade sem um controlo humano real. Sob o capitalismo, a inteligência
artificial é desenvolvida ao serviço da acumulação de capital e submete-se à
lógica da concorrência entre as grandes potências e as empresas monopolistas, o
que torna a perda de controlo sobre ela uma possibilidade real e grave.
Conclusão
Se esta dinâmica continuar sem um
confronto coletivo assente numa consciência de esquerda progressista, e sem
leis internacionais e nacionais, a inteligência artificial poderá
transformar-se gradualmente de uma ferramenta nas mãos do capitalismo num sistema
alternativo à razão humana, através do qual se geriria a vida quotidiana. A
pergunta importante aqui é: como pode a consciência de esquerda e progressista
sobreviver num ambiente digital concebido, em grande medida, para a enfraquecer
e neutralizar?
Aquilo que enfrentamos hoje não é
um destino tecnológico inevitável, mas antes o resultado de escolhas políticas
e económicas que servem os interesses do capital, e que podem ser combatidas.
Controlar a inteligência artificial, regular os algoritmos e submetê-los a um
controlo democrático é uma responsabilidade coletiva que exige trabalho e
organização de esquerda progressista à escala mundial, capaz de devolver ao ser
humano a sua capacidade de pensamento independente e ação coletiva, e de
transformar esta tecnologia num meio que contribua para a distribuição da
riqueza, a organização da produção, o combate às doenças e à pobreza, e a
concretização da justiça social.
Rezgar Akrawi é um militante de esquerda independente, originário do Curdistão iraquiano, interessado na esquerda e na revolução tecnológica, e atua como especialista em desenvolvimento de sistemas e governança eletrónica.



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