segunda-feira, 24 de agosto de 2026

Rezgar Akrawi - inteligência artificial Revolução ou escravidão silenciosa?

 inteligência artificial

Revolução ou escravidão silenciosa? Como os algoritmos remodelam a consciência ao serviço do capital

22 de agosto 2026 - 12:51

A submissão da humanidade ao controlo da máquina já não é uma mera suposição filosófica, pois tornou-se cada vez mais real perante os avanços da inteligência artificial e a ausência de controlos jurídicos internacionais eficazes que regulem o seu funcionamento.

* Rezgar Akrawi



 


Instalação 'Message From The Unseen World', em 2017 em Londres. Foto de Roger Marks

Há alguns dias, a revista TIME revelou como modelos de inteligência artificial, durante um teste de segurança, escaparam do seu ambiente isolado e atacaram a infraestrutura de outro sistema, e poucos dias depois mais de 1.378 trabalhadores e trabalhadoras das principais empresas de inteligência artificial assinaram uma petição conjunta que exige o desenvolvimento de ferramentas técnicas e mecanismos de governação internacional para regular o ritmo do seu desenvolvimento. O que testemunhamos hoje não é o domínio das máquinas sobre os seres humanos, tal como o cinema o imaginou em tantos filmes, mas antes um novo modelo de controlo digital, assente na automatização e no controlo algorítmico da vida quotidiana, em que as sociedades se transformam em entidades submetidas a sistemas, empresas e máquinas inteligentes. A perda de controlo não é, porém, mais do que a face ruidosa deste perigo, pois evolui rapidamente devido à concorrência entre as grandes potências e as empresas monopolistas, a um ritmo que as leis, a sociedade e as instituições de ensino não conseguem acompanhar. A sua faceta mais perigosa é, em contrapartida, muito mais silenciosa, na medida em que a inteligência artificial funciona exatamente como foi concebida: orienta a consciência de milhares de milhões de pessoas ao serviço do modelo capitalista.

Orientar a consciência para reforçar a cultura capitalista neoliberal

A par da utilização da inteligência artificial para maximizar os lucros e consolidar o controlo social, esta tecnologia é também empregue sistematicamente para moldar e dirigir a consciência dos indivíduos, com o objetivo de reforçar a cultura capitalista e os valores neoliberais. Através da análise de dados e do comportamento de utilizadores e utilizadoras, os algoritmos controlam o conteúdo apresentado nas plataformas, e são concebidos para dirigir cada pessoa para conteúdos que servem a visão capitalista e as suas políticas.

Esta tendência tem-se consolidado à medida que estas plataformas se expandem, pois um relatório da União Internacional das Telecomunicações revela que cerca de três quartos da população mundial já são utilizadores da internet, com um aumento superior a 240 milhões de utilizadores num único ano. Esta expansão deve-se, em parte, aos esforços das empresas monopolistas e das grandes potências para levar a internet a todos os cantos do mundo, sobretudo aos países do sul globalmesmo antes de garantir água potável, eletricidade e serviços básicos, com o objetivo de maximizar os lucros, reforçar o seu domínio e expandi-lo através da colonização digital.

A estrutura de propriedade capitalista e os modelos de rentabilidade obrigam os algoritmos a dar prioridade a conteúdos que sirvam os interesses do mercado, das empresas monopolistas e das grandes potências, transformando assim os algoritmos numa ferramenta para reproduzir a dominação cultural do capitalismo. Através deste mecanismo, a consciência coletiva é gradualmente orientada para aceitar estes valores como naturais e inevitáveis, de forma suave, progressiva e quase impercetível, a tal ponto que a maioria dos utilizadores e utilizadoras destas aplicações, incluindo muitos com pensamento de esquerda, as consideram ferramentas neutras. Deste modo, este sistema contribui para consolidar a dominação capitalista, reforçar a submissão das massas à ordem existente e marginalizar as alternativas progressistas, o que pode ameaçar a consciência das gerações futuras e a sua capacidade de pensamento crítico e de organização para a mudança.

 


Palantir

Fascismo digital: Aliança entre o capital e a extrema‑direita

por Rezgar Akrawi

09 de maio 2026

Desmantelamento das capacidades humanas e aprofundamento da alienação e da exploração digital

Esta ameaça estende-se também ao desmantelamento das faculdades mentais do indivíduo. Embora a inteligência artificial seja promovida como um meio de facilitar a vida e aumentar a produtividade, estudos científicos revelam que a dependência acrítica da inteligência artificial pode conduzir a uma consciência mais superficial e enfraquecer as capacidades humanas. Um estudo realizado por investigadores do MIT revelou que a dependência de ferramentas de escrita baseadas em inteligência artificial reduz a atividade cerebral e enfraquece a memória e o sentido de propriedade sobre as próprias ideias. Os investigadores batizaram este fenómeno como «dívida cognitiva», ou seja, que o ser humano pede emprestada a sua capacidade mental ao futuro em troca do conforto do momento.

Nesse mesmo sentido, um estudo publicado na revista Societies concluiu que o uso frequente de ferramentas baseadas em inteligência artificial está associado a um enfraquecimento do pensamento crítico através de um mecanismo conhecido como descarga cognitiva, sobretudo entre os jovens, ou seja, uma geração que corre o risco de desenvolver capacidades mais fracas de análise independente.

Nesta base, a alienação humana é reproduzida digitalmente, em que o ser humano se separa das suas faculdades mentais e criativas e se encontra preso dentro de um sistema técnico que lhe retira a capacidade de agir de forma independente, tal como o operário industrial estava alienado do seu produto sob o capitalismo. O ser humano pode transformar-se gradualmente num ser submetido aos algoritmos que dirigem as suas interações quotidianas e determinam o que lê, o que vê e como pensa, o que reforça a sua dependência de sistemas, empresas e Estados controlados pelo capital.

Dependência digital

A dependência digital surge como uma das consequências mais perigosas da expansão da inteligência artificial. Um estudo realizado por investigadores da Universidade da Califórnia, baseado em dados de mais de seis mil crianças no âmbito de um estudo sobre o desenvolvimento cerebral dos adolescentes, apontou que as crianças que mais utilizam as redes sociais e as aplicações de inteligência artificial registam um claro retrocesso na leitura, no vocabulário e na memória, quanto mais tempo passam a navegar e a utilizá-las.

As plataformas e aplicações digitais impulsionadas por inteligência artificial não são simples plataformas de serviços gratuitos, mas antes ferramentas utilizadas de forma consciente para reforçar a dependência comportamental e intelectual, em que os macrodados são explorados para compreender as motivações dos indivíduos e manipulá-las em benefício dos interesses das empresas e das grandes potências. O capitalismo investe em tecnologias que estimulam comportamentos aditivos para garantir a interação contínua com as plataformas, transformando este processo num círculo vicioso que gera lucros à custa da saúde mental, sobretudo entre as gerações mais jovens.

Repressão digital suave

Como a inteligência artificial garante a continuidade da hegemonia capitalista

por Rezgar Akrawi

27 de setembro 2025

Uma forma de escravidão digital voluntária e perda de controlo

Esta exploração psicológica não é mais do que uma manifestação de uma dominação de classe que se aprofunda à medida que a inteligência artificial passa de uma ferramenta tecnológica a um meio de reproduzir padrões de controlo social, político e económico. O que torna este controlo ainda mais perigoso é o seu carácter voluntário, pois os indivíduos, devido à manipulação algorítmica e à pressão do uso da inteligência artificial no trabalho, são levados a envolver-se nesta escravidão digital sem coação, com a ilusão de controlo e de escolha, enquanto as suas decisões são, na realidade, conduzidas por caminhos predeterminados que servem o capitalismo.

A submissão da humanidade ao controlo da máquina já não é uma mera suposição filosófica, pois tornou-se cada vez mais real perante os avanços da inteligência artificial e a ausência de controlos jurídicos internacionais eficazes que regulem o seu funcionamento. À medida que ultrapassa os seus limites programáticos, poderá transformar-se num sistema que toma decisões determinantes de forma independente, impostas à humanidade sem um controlo humano real. Sob o capitalismo, a inteligência artificial é desenvolvida ao serviço da acumulação de capital e submete-se à lógica da concorrência entre as grandes potências e as empresas monopolistas, o que torna a perda de controlo sobre ela uma possibilidade real e grave.

Conclusão

Se esta dinâmica continuar sem um confronto coletivo assente numa consciência de esquerda progressista, e sem leis internacionais e nacionais, a inteligência artificial poderá transformar-se gradualmente de uma ferramenta nas mãos do capitalismo num sistema alternativo à razão humana, através do qual se geriria a vida quotidiana. A pergunta importante aqui é: como pode a consciência de esquerda e progressista sobreviver num ambiente digital concebido, em grande medida, para a enfraquecer e neutralizar?

Aquilo que enfrentamos hoje não é um destino tecnológico inevitável, mas antes o resultado de escolhas políticas e económicas que servem os interesses do capital, e que podem ser combatidas. Controlar a inteligência artificial, regular os algoritmos e submetê-los a um controlo democrático é uma responsabilidade coletiva que exige trabalho e organização de esquerda progressista à escala mundial, capaz de devolver ao ser humano a sua capacidade de pensamento independente e ação coletiva, e de transformar esta tecnologia num meio que contribua para a distribuição da riqueza, a organização da produção, o combate às doenças e à pobreza, e a concretização da justiça social.


Rezgar Akrawi é um militante de esquerda independente, originário do Curdistão iraquiano, interessado na esquerda e na revolução tecnológica, e atua como especialista em desenvolvimento de sistemas e governança eletrónica. 

https://www.esquerda.net/artigo/revolucao-ou-escravidao-silenciosa-como-os-algoritmos-remodelam-consciencia-ao-servico-do

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