quarta-feira, 9 de novembro de 2016

Carta de Flamula - Escritura de Vila do Conde – ano de 953


Escritura de Vila do Conde – ano de 953
Kartula de villa comitis. In ripa maris.

In nomine domini.
Ego flamula prolis pelagius et iberia. Vobis gonta abba et fratres et sorores habitantes cenobio vimaranes in domino salutem amen.

Annuit namque serenitatis meae asto animo et propria mea voluntate ut facerem uobis sicut ef facio textum scripture uenditionis et firmitatis. De villas nostras proprias que habemus in ripa maris prope riuulo Aue subtus montis Tirroso. Idest villa de comite quomodo diuidet cum villa fromarici. et cum villa euracini. et inde per aqua maris usque. in suos terminos antiquos ab integro. uobis concedimus cum suas salinas. et cum suas piscarias. et ecclesia que est fundata in castro uocitato sancto iohanne per suos terminos ab integro. uobis illa concedimus cum omni sua prestancia quicquid in se obtinet.

Et concedimus uobis alia villa uocitata quintanella ab integro. per suos terminos quomodo diuidet cum villa fromarici. et villa tauquinia. et perge ad archa de peori et divide cum villa argevadi. et cum villa anserici. et inde per cararia maurisca. et inde ad archa qui sta super ipsa villa. et inde in aula maris et torna ad termino de fromarici ubi prius incoabimus. pomares. ficares. aquas cursiles. uel incursiles. et omnis sua prestancia quicquid in se obtinet ab integro. uobis concedimus cum cunctis prestationibus suis secundum eas obtinuerunt genitores nostri Pelagius e Iberia. sic et nostra criacione uobis damus in ipsas villas et ut eis benefaciatis. Id sunt filios de baltario. et de trasilli. et filios de gresulfo. et de genilli ac de gondulfo.
Ac accepimus de uos duas mulas placibiles. una saia de fanzanzal. cum sua uatanna tiraz. manto azingiaue cum suo panno fazanzale. uno uaso imaginato et exaurato. duas pelles anninias. fiunt sub uno mille solidos. ipsum nobis bene complacuit.
Ita ut de hodie die et in omni tempore sit omnia de iuri nostro abraso ab integro. et ad parte monasterii vimaranes sit traditum atque confirmatum perhenniter deserviendum. Si quis tamen quod fieri non credimus aliquis homo contra hunc factum nostrum ad irrunpendum veniret. que nos in iudicio deuindicare non potuerimus aut uos in uoci nostre quomodo duplemus uobis ipsas villas. et ad parte iudicis terre auri duo talentum. et hoc factum nostrum in cunctis obtineat firmitatis roborem.
Notum VII kalendas aprilis. Era DCCCCLXXXXI. Flamula deo vota in hanc cartulam uenditionis et firmitatis a me facta manu mea rouoro.
Aloitus cellonovensis manu mea confirmo
Amarildus manuldi manu mea confirmo
Iafar sarrazinis manu mea confirmo
Palatinus armentari presbiter confirmo
Arias diaconi manu mea confirmo
Affonso testis. Menno testis.
Zonio testis. Vermudo testis. Zidi guntemeriz testis. Quiriaco testis. Jovino testis. Guntemiro terstis.

Hoduarius aloitiz manu mea confirmo
Aldereto seniorinis manu mea confirmo
Lucidus confratris manu mea confirmo
Pelagiusavianiz manu mea confirmo
Eidinus presbiter manu mea confirmo
Gundesindus zanonit manu mea confirmo
Froila christinit manu mea confirmo
Gundemiro manu mea confirmo
Clerigus astrulfis manu mea confirmo


Tradução

Em nome do Senhor, ámen.
Eu, Châmoa, filha de Paio e Ibéria, saúdo-vos a vós, abade Gonta e Irmãos e Irmãs que habitais no Mosteiro de Guimarães. Ámen.

Decidi, na serenidade da minha consciência e de minha própria vontade, fazer-vos, como faço, uma escritura de venda e segurança das nossas vilas que possuímos à beira-mar, junto ao rio Ave, sob o monte de Terroso. Isto é, Vila do Conde, como confronta com a Vila de Formariz e com a Vila de Varzim, e daí pela água do mar, segundo os seus limites antigos, e inteira. Concedemo-vo-la com as suas salinas e com os seus pesqueiros. E a igreja que se encontra no castro chamado S. João, pelos seus termos e inteira, concedemo-vo-la com todos os pertences que possui.

E concedemo-vos outra vila, chamada Quintanela, inteira, pelos seus limites, como confronta com a vila de Formariz e com a vila de Touguinha; e continua até aos marcos de Pior, e confronta com a vila de Argivai e com a vila de Anseriz, e daí pela estrada mourisca; e daí, até ao marco que está acima da mesma vila; e daí, à beira-mar, volta ao limite de Formariz, onde antes começámos. Concedemo-vos os pomares, os figueirais, as águas correntes e paradas e tudo quanto em si possui, inteiramente, como a possuíram os nossos pais Paio e Ibéria e a nossa criação. Damo-vo-lo nessas vilas para que cuideis dele. Estão aí os filhos de Balteiro e de Trasilho, e os filhos de Gresulfo, e de Genilho e de Gondulfo.

E recebemos de vós duas mulas mansas, uma saia de fansansal com sua badana tiraz, um manto de pele de esquilo com o seu pano fansansal, um vaso com imagens e dourado, duas peles de jumento. Totaliza mil soldos. Isso nos satisfaz.

Que de hoje para todo o sempre seja tudo isto retirado da nossa posse e entregue à parte do Mosteiro de Guimarães, e confirmado para seu constante serviço.

Se, todavia, o que cremos que não acontecerá, alguém vier contra este nosso contrato, para o desfazer, não poderemos justificá-lo em juízo, ou nós contra vós, dobraremos essas vilas e mais dois talentos de ouro para o juiz da terra. E que em tudo este nosso acto obtenha garantia de segurança.

26 de Março de 953.

Eu, Châmoa Deovota, confirmo com a minha mão nesta escritura de venda e segurança feita por mim.

Hodoário Aloites, confirmo com minha mão.
Aldereto Senhorins, confirmo com minha mão.
Irmão Lúcido, confirmo com minha mão.
Paio Arianes, confirmo com minha mão.
Padre Eidino, confirmo com minha mão.
Gundesindo Sanões, confirmo com minha mão.
Froila Cristins, confirmo com minha mão.
Gundemiro, confirmo com minha mão.

Aloito Celonovense, confirmo com minha mão.
Amareldo Manuldes, confirmo com minha mão.
Jafar Sarracins, confirmo com minha mão.
Palatino Armentares, confirmo com minha mão.
Árias Diácones, confirmo com minha mão.
Afonso, testemunha. Meno, testemunha.
Sónio, testemunha. Vermudes, testemunha. Cides Guntemires, testemunha. Quiríaco, testemunha. Jovino, testemunha. Guntemiro, testemunha.

Châmoa


PUBLICADA POR JOSÉ FERREIRA À(S) 12:04 
http://villacomitis.blogspot.pt/2009/10/vc2.html

Mentio de malefactoria c. 1210


O «Mentio de malefactoria» é um documento, em que D. Lourenço Fernandes da Cunha se queixa das violencas e malfeitorias que lhe fez el-rei D. Sancho, pessoalmente e por intermédio de Vasco Mendes.





[1] H(ec) [est] mentio de malefactoria q(u)am rex donn(us) Sanci(us) fec(it) donno Laurẽcio F(er)nandi (et) p(re)cep(it) fac(er)e q(uo)d ei fecit [2] Velasc(us) Men(en)di. In p(r)imis accepit ei LXXXa. modios int(er) pane (et) uinũ et XXV int(er) archas (et) [3] cupas et X. scutos et II.as, culcitres (et) II plumacios et int(er) scannos (et) lectos XI et calda- [4] rias (et) m(en)sas (et) scutellas (et) uasos muitos (et) capellos de ferro (et) porcos decẽ (et) oues (et) capras [5] et XV m(o)r(a)b(itino)s, q(ui) leuauer(unt) de suis hominib(us) q(ui) spectauer(unt) et multa, alia arma. Sup(er) hoc depo- [6] pulauer(unt) ei LXX.a casalia, unde est p(er)ditũ p(re)sentẽ fructu (q(uo)d in eis habebat (et) q(uo)d debet euenire. [7] (et) C homines d(e) maladia, q(u)i ita p(er)dider(unt). Deinde miser(unt) ignẽ in sua q(u)intana de Cuina (et) cre- [8] mauer(unt) eã totã q(uia) pré igne nichil ibi remansit. Et dirribauer(unt) de ipsa turre q(u)antã potuer(unt) [9] (et) q(uo)d n(on) potuer(unt) miser(unt) in eã ignẽ q(u)i eã findidit, q(uo)d nũq(u)am potest e(ss)e em(en)data. Et etiã magis [10] custaret eã fac(er)e q(uo)d mille (et) D m(o)r(a)b(itino)s. (Et) q(u)anta casalia habebat cora ipsa dieta q(u)in- [11] tana cremauer(unt)ea. Sup(er) hoc acceper(unt) ei unũ sarracenũ bonũ. [12] Et sciãt o(mne)s homines q(u)i hãc sc(r)ipturã uid(er)int q(uo)d ego Laurẽti(us) F(er)nandi n(on) feci nec dixi q(uo)d recepissẽ [13] hãc destructionẽ (et) malefactoria q(uo)d recepi.

 https://www.hs-augsburg.de/~harsch/lusitana/Cronologia/seculo13/Malefactorio/mal_manu.html

Notícia de torto c. 1215


A «Notícia de torto» é um documento, em que D. Lourenço Fernandes da Cunha fez um minucioso relatório das malfeitorias feitas por D. Sancho I e por Vasco Mendes, por ordem do mesmo rei. É um bocardo de pergaminho, escrito dos dois lados. Veio do mosteiro feminino de Vairao e está hoje no Arquivo Nacional da Tôrre do Tombo.

Texto



[1] D(e) noticia d(e) torto que fecer(ũ) a Laurẽci(us) Fernãdiz por plazo que fec(e) Gõcauo [2] Ramiriz antre suos filios e Lourẽzo Ferrnãdiz q(u)ale podedes saber: e oue au(e)r d(e) erdad(e) [3] e dau(e)r, tãto q(u)ome uno d(e) suos filios da q(u)ãto podesẽ au(e)r d(e) bona d(e) seuo pater e fiolios seu [4] pater e sua mater. E d(e)pois fecer(ũ) plazo nouo e cõuẽ uos a saber q(u)ale in ille se [5] taes firmam(en)tos q(u)ales podedes saber: Ramiro Gõcaluiz e Gõcaluo Gõca[luiz e] [6]Eluira Gõcaluiz forũ fiadores d(e) sua irmana que o[to]rgase aqu[e]le plazo come illos. [7] Sup(er) isto plazo ar fe[ce]r(ũ) suo plecto. E a maior aiuda que illos hic cõnocer(ũ), que les [8] acanocese Laurẽzo Ferrnãdiz sa irdad(e) p(er) p(lec)to que a teuese o abate d(e) S(ã)c(t)o Martino [9] que como uẽcesẽ, que asi les dese d(e) ista o abade. E que nunq(u)a illos lecxasẽ [10] daquela irdad(e) sẽ seu mãdato. Se a lexarẽ itregarẽ ille d(e) oot(r)a que
  • plaza. [11] E d'au(e)r que ouer(ũ) d(e) seu pat(e)r nu[n]q(u)ã se li id(e) der(ũ) parte. Deu dũ Gõcau [12] o a Laurẽco Fernãdiz e Marti Gõc[a]luiz XII casaes por arras d(e) sua auóó. [13] E filar(ũ)li illos ind(e) VI casales c(ũ) torto. E podedes saber como man- [14]do dũ Gõcauo a sua morte. D(e) XVI casales d(e) Ueraci que fructar(ũ) e que li [15] nunq(u)a id(e) der[ũ] q(u)innõs. E d(e) VII e medio casaes antre Coina e Bastuzio und(e) li [16] nunq(u)ã der(ũ) q(u)iniõ. E d(e) trẽs i(n) Tefuosa und(e) li nu[n]q(u)a ar der[ũ] nada. E IIos i(n) Figeeree- [17] do unnd(e) nũq(u)ã li der(ũ) q(u)inõ. E IIos i(n) Tamal ũd(e) li n(õ) ar der(ũ) q(u)inõ. E da sena- [18] ra d(e) Coina ũd(e) li n(õ) ar der(ũ) q(u)inõ. E d'uno casal d(e) Coina que leuar(ũ) id(e) III anos [19] o frouctu c(ũ) torto. E por istes tortos que li fecer(ũ) tem q(u)a a seu plazo quebrãtado [20] q(u)a li o deuẽ por sanar. E d(e)pois ouer(ũ) seu mal e meteu o abad(e) paz a[n]tre illes [21] i(n) no carualio d(e) Laureedo. E rogouo o abate tãto que beiso c(ũ) illes. E der(ũ)li [22] XVIIII morabitinos q(u)i li filar(ũ). E d(e)pos iste p(lec)to pre[n]d(e)r(ũ)
  • o seruical otro[23] om(e) d(e) sa casa e troser(ũ)no XVIIII dias p(er) mõtes e fecer(ũ)les tã máá prisõ [24] p(er) que leuar(ũ) deles q(u)ãto poder(ũ) au(e)r. E d(e)pois li d(e)sũro Gõcauo Gõcauiz [25] sa fili[a] pechena. E irmar[ũ]li XIII casales und(e) perdeu fructu. E isto [26] fui d(e)p que fur(ũ) fíídos anto abate. E d(e)pois que fur(ũ) ifiados por iuizo d(e) ilo [27] rec. E nuq(u)a ille fez(e) neun mal por todo aqueste e fezeles taes agudas [28]q(u)ales aqui ouireedes. Sup(er) sua aguda fez testiuigo c(ũ) Gõcauo Cebolano. [29] E sup(er) sa aiuda ar fuili a casa e filoli q(u)ãto que li agou e deu a illes. E sup(er) sa [30] aiuda oue testifigo c(ũ) P(e)tro Gomez, omezio q e li custou maes ka C m(orabitinos). [31] E sup(er) sa aiud[a] oue mal c(ũ) Goncaluo Gomez que li custou multo da au(e)r [32] e muita perda. E in sa aiuda oue mal c(ũ) Go[n]caluo Suariz. E in sa aiuda[33] oue mal c(ũ) Ramiro Fernãdiz que li custov muito au(e)r muita perda. [34] E in sa aiuda fui IIas fezes a Coi[m]bra. E in sa aiuda dixe mul[ta]s uices [35] e ora in ista tregua fur(ũ) a Ueraci amazar(ũ)li os om(éé)s erma[rũ]li X casaes [36] seu torto ai rec. E sup(er) saiud[a] mãdoo lidar seus om(éé)s c(ũ) Mar- [37] tint I(o)h(a)n(e)s que q(u)ir[i]a d(e)sũrar sa irmana. E cũ ille e cũ sa casa [38] e cũ seu pam e c(ũ) seu uino uẽcestes uosa erdade. E cũ ille [39] existis d(e) sua in ipso die que uola q(u)itar(ũ). E ille teue a uosa [40] rezõ. E ot(r)as aiudas multas que fez. E plus li a custado [41] uosa aiuda q(u)a li inde cae d'erdad[e]. E subre becio e sup(er) [42] fíím(ẽ)to se ar q(u)iserdes ouir as desõras q e ante ihc fur(ũ) [43] ar ouideas: Vener(ũ) a uila e fila[rũ]li o porco ante seus filios e com- [44] erũsilo. Vener(ũ) alia uice er filar(ũ) ot(r)o ante illes [45]er comer(ũ)sa. Vener(ũ) i(n) uice er filiar(ũ) una ansar ante [46] sa filia er comer(ũ)sa. I(n) alia uice ar filiar(ũ)li o pane ante [47] suos filios. I(n) alia uice ar ue[ne]r(ũ) hic er filar(ũ) ide o uino [48] ante illos.

  • https://www.hs-augsburg.de/~harsch/lusitana/Cronologia/seculo13/Torto/tor_noti.html

    Notícia de Torto ou Notícia do Torto é um manuscrito em pergaminho escrito entre 1211 e 1216 (provavelmente em 1214), considerado o segundo texto não literário mais antigo escrito em língua portuguesa, posterior à Notícia de Fiadores de 1175.O seu título provém da primeira frase do texto: "De noticia de torto que feceru(m) a Laure(n)cius Ferna(n)diz".

    Tal título, porém, é contestado por autores como Ramón Lorenzo, que o considera "um híbrido latino-português". e outros que sequer lhe concediam o status de documento.

    O pergaminho, medindo 313 por 170 mm, escrito em ambas as faces, foi encontrado no mosteiro feminino de Vairão e está hoje no Arquivo Nacional da Torre do Tombo, em Lisboa. No texto, escrito em galaico-português mas crivado de latinismos, D. Lourenço Fernandes da Cunha fez um minucioso relatório dos agravos cometidos contra si pelos filhos de Gonçalo Ramires.


    Dado que a maioria dos documentos da época eram redigidos em latim, é provável que o documento se tratasse de um rascunho, destinado a ser traduzido para esta língua. Tem sido estudado como subsídio para o conhecimento da origem e evolução da língua portuguesa. Existe também na Torre do Tombo outro documento semelhante, a "Mentio de malefactoria" (c. 1210) que descreve as malfeitorias feitas ao mesmo Lourenço Fernandes da Cunha pelo rei D. Sancho I ou por intermédio de Vasco Mendes.

    https://pt.wikipedia.org/wiki/Not%C3%ADcia_de_torto

    sexta-feira, 4 de novembro de 2016

    Vila do Conde em 1943, por Ramalho Ortigão

     


    É talvez a menos frequentada pelos banhistas, o que não obsta a que seja uma das mais pitorescas e mais belas povoações marítimas de Portugal.

    A uma hora do Pôrto pelo caminho de ferro da Póvoa, cuja linha é cortada por entre espessos pinheirais, Vila do Conde descobre-se repentinamente, numa volta de estrada, no meio de uma vasta paisagem, ampla, descoberta, de larga respiração.




    Ao penetrar na ponte que une as duas colinas, ao nascente da vila, o viajante vê diante de si, ao longe, as montanhas de Rates, aos seus pés ondula o rio Ave por entre as viçosas margens cobertas pela verdura suave dos pinhais. Ao meio do rio, entre a ponte de ferro e a vila, um açude. Em cada uma das margens, um velho moinho, musgoso, move lentamente a sua grande roda denegrida e gotejante.



    Assente sobre rocha, na margem esquerda do rio, sobranceiro à vila, o convento, grande edifício de Renascença francesa, tem um artístico aspecto, dominativo, senhorial, ostentando ao largo sol, sobre a cimalha, junto de uma monja com o hábito de Santa Clara, o grande elefante branco, símbolo da castidade, que constitui o brazão do convento. D. Afonso Sanches, filho bastardo de D. Dinis e sua mulher D. Teresa Martins de Menezes, filha do primeiro conde de Barcelos, foram os fundadores do convento, onde hoje estão sepultados, e que doaram às freiras franciscanas.

    D. Afonso Sanches, filho bastardo de D. Dinis e sua mulher D. Teresa Martins de Menezes, filha do primeiro conde de Barcelos, foram os fundadores do convento, onde hoje estão sepultados, e que doaram às freiras franciscanas.



    O mosteiro de Vila do Conde era rico e fidalgo. Habitavam-o 120 freiras, a maior parte delas de famílias nobres. Possuíam a povoação de Azurara que fica na margem sul do rio, dízimos e outros direitos senhoriais. Eram donatárias de Vila do Conde, de entre outras vilas de Entre-Douro-e-Minho, e de Alcoentre no Ribatejo. A abadessa sentenciava as apelações das sentenças do juiz. Tinham finalmente direitos soberanos.

    D. João III tirou-lhes o senhorio e jurisdição, e instituiu por donatário o infante D. Duarte. Azurara, com a sua bela igreja manuelina, passou a pertencer a si mesma. Os Dízimos foram extintos. De sorte que as freiras empobreceram. As poucas senhoras que actualmente assistem no mosteiro fabricam doce e vendem a especial gulodice da ordem - os pastéis de Santa Clara.

    A igreja matriz é do tempo de D. Manuel e no estilo manuelino como a de Azurara.

    A ermida de Nossa Senhora do Socorro, que se avista da ponte e fica entre ela e a barra, à beira rio, é redonda, tem a forma de uma mesquita otomana, a que só falta o complemento de uma palmeira e o apenso de um camelo ou um cavalo árabe.



    Além de algumas famílias muito distintas e especialmente hospitaleiras e amáveis a população de Vila do Conde é composta principalmente por pescadores e rendilheiras.



    Todo o trabalho gera uma virtude que lhe corresponde. Do fabrico de renda, delicadamente construída por meio de uma infinidade complicadíssima de bilros, com linha branca finíssima, resultam os hábitos de ordem, de aceio, de reflexão, de espírito de sistema.



    Não é possível fazer renda e ter uma casa em desordem; não é possível fazer renda e ter as mãos sujas ou deitar nódoas no fato; não é possível fazer renda e murmurar ao mesmo tempo a vida alheia ou alterar com as vizinhas, como sucede a quem doba, a quem fia, a quem faz meia, a quem se ocupa de trabalhos de máquina puramente automáticos.

    O fabrico da renda é profundamente moralizador. Dêle procede o carácter e o ar senhorial das mulheres de Vila do Conde e de algumas que particularmente me impressionaram em Peniche pela distinção das suas maneiras, pela gravidade das suas fisionomias, pela delicadeza das suas estaturas, pela elegância aristocrática das suas mãos.



    As rendas de Vila do Conde, como as de Peniche, são do género chamado Honiton, semelhante à guipure de Chantilly. Magoa ao considerar os trabalhos destas simpáticas mulheres, ver tanta perfeição de acabamento, tão completa posse do processo, aliada a tão profunda ignorância artística.

    Nem em Vila do Conde nem em Peniche encontramos uma só operária que soubesse desenhar. A criação de uma escola de desenho pública e gratuita é tão necessária em qualquer destas localidades como a escola das primeiras letras. A essas mulheres, que tão fiel e escrupulosamente executam os riscos, seria facílimo ensinar a manejar o lápis.

    Se em cada uma das escolas de desenho a que nos referimos existisse uma colecção de bons modelos de ornato feitos pelos artistas de mais talento e os jornais especiais da moda francesa com todos os novos modelos, talvez dessas modestas operárias saíssem algumas artistas cuja aptidão contribuiria muito para dar à indústria das rendas portuguesas a grande importância económica de que ela é susceptível.



    O campo que cerca Vila do Conde, atravessado pela arcaria do extenso aqueduto do convento, o qual lhe imprime um grandioso ar italiano, é ameno, posto que um pouco triste. As margens do rio perto da grandiosa aldeia de Retorta são extremamente pitorescas.

    O único defeito de Vila do Conde como estação de banhos, é a distância que medeia entre a praia e casas da vila, unidas todavia por uma boa estrada, em que uma companhia edificadora estava o ano passado construindo novas casas.



    Há feira semanal e feira grande a que concorre muito povo dos subúrbios.

    A vila tem dois hotéis. Estivemos no maior, situado na praça em frente da antiga ponte. O aceio não é virtude especial que recomenda esta casa ao respeito dos viajantes. O proprietário distrai a atenção dos forasteiros da infecção de capoeira que caracteriza os salões, servindo-lhes magnífico vinho verde, admiráveis presuntos de Melgaço, de primeira ordem, e os melhores pastéis do convento.


    In As praias de Portugal de Ramalho Ortigão, 1943

    http://www.rancho-da-praca.com/paginas/VC_Ramalho/praias_vc.html

    quarta-feira, 2 de novembro de 2016

    Portugal, 1977.


    quarta-feira, 2 de novembro de 2016


    Portugal, 1977.




             A Lucy é uma bem-disposta. E isso vê-se a cada instante, e a sua alegria amiga é tão boa e tão fantástica que só temos de agradecer-lhe por ter decidido animar, vai para muitos anos, este país melancólico, estupidamente taciturno, ó pátria capciosa. A Lucy Pepper nasceu em Inglaterra em 1970, mas vive em Lisboa com a família, sendo ilustradora e escritora, e uma grande cronista. Saudavelmente obcecada pela culinária portuguesa, já lhe dedicou outros livros. Agora, há poucos dias, lançouComo Não Morrer de Fome em Portugal. Histórias de uma inglesa apaixonada pelo nosso país. O livro é a Lucy, um tratado de boa disposição, inteligência e humor, a felicidade serena. Não fala só de comida, ainda que a comida seja prato principal, o leite-motivo. Trata da vida, da dela e doutra gente, e do bom que é estar vivo; sobretudo aqui, em Portugal. Do livro transcreveu-se uma pequena parte constante logo da abertura, o relato da primeira vinda de Lucy Pepper ao nosso país, com sete anos de idade.   
    A primeira coisa que me lembro de «comer» em Portugal foi uma vitamina. Estávamos no Verão de 1977 e viemos visitar uns amigos da família que trabalhavam na embaixada britânica. 
    Foi a primeira viagem ao estrangeiro, tanto para mim, como para a minha irmã. Eu tinha sete anos, ela cinco, e, depois de atravessarmos Espanha desde o ferry de Bilbau até à fronteira portuguesa, não ficámos com boa impressão de viajar para o estrangeiro. A meio caminho, passámos a noite num hotel em Valhadolide – que era estranhamente escuro e húmido –, onde a nossa cama se partiu. Depois atravessámos o assustador deserto espanhol, em que quase ficámos sem gasolina. O nosso Renault 17 TS, um carro que, em qualquer outro dia, ficaria bem nas mãos da dupla Starsky e Hutch, não impressionou tanto o senhor daquela bomba de gasolina no meio de nenhures quanto, segundo o meu pai, tinha impressionado os habitantes das várias aldeias por que passámos até lá chegar. Ele não aceitou o nosso dinheiro estrangeiro para pagar a gasolina. Naquela altura, só nos restavam escudos e libras, depois de um almoço inesperadamente caro em que tínhamos gasto as nossas últimas pesetas. Não me lembro do que foi esse almoço. Espero que tenha valido a pena. O «duelo» da gasolina foi muito tenso, com o senhor da bomba a recusar ferozmente o nosso dinheiro; e eu tinha a certeza quase absoluta de que íamos morrer ali, no deserto. Olhei para o horizonte à procura de abutres, enquanto os meus pais procuravam e caçavam pesetas eventualmente perdidas no carro. Em vão. Finalmente, depois de uns intermináveis dez minutos de terror, o senhor da bomba acedeu, aceitou uma nota de cinco libras e pudemos sair. Ainda havia a «pequena» questão do que iríamos comer nesse dia, no que restava da viagem. Felizmente para nós, e infelizmente para os abutres espanhóis, tínhamos trazido uma garrafa de concentrado de laranja e umas caixinhas de cereais para levarmos aos nossos amigos ingleses. Eu e a minha irmã jantámos flocos de milho e concentrado de laranja diluído numa garrafa de água. Os meus pais não comeram nada. Ainda hoje olho de lado para Espanha. 
    À uma da manhã estávamos a chegar a Lisboa e, a dois quilómetros da cidade, na A1, o carro decidiu parar. O meu pai é veterinário. Ele «repara» animais, não repara carros. Ficou em pânico, em silêncio, não fazendo a mínima ideia do que fazer, para além de montar o triângulo internacional uns metros atrás do carro, abrir o capô e fingir ter o ar de quem sabe do que está à procura, para que a sua mulher e as suas filhas não desistissem dele, de vez. 
    Incrivelmente, foi só um dos cabos da bateria. Tinha-se soltado do sítio. Sendo a bateria o único «órgão» interno de um carro que o meu pai entendia, recolocou o cabo e instantaneamente tornou-se um herói. Ele diz-me que esse foi, simultaneamente, o pior e o melhor dia da sua vida até esse ponto. Entrámos na cidade e, depois de pedir direcções, o taxista mais simpático do mundo leu o endereço e levou-nos todo o caminho até à porta da casa no Restelo, conduzindo à frente do nosso carro. Não pediu um tostão por isso. Nem um escudo, nem uma libra e, certamente, nem uma peseta. 
    A casa era branca, cheia de buganvílias, e não havia deserto à vista. E os nossos amigos tinham uma empregada em casa. Nunca tinha ido a um sítio onde houvesse empregados domésticos e, por isso, fiquei espantada. Nesses quinze dias, sei que comi lulas e que gostei, porque me lembro de a minha mãe me dizer que já tinha comido lulas, sem saber que eram lulas, e que gostei das lulas. Não teria comido as lulas se soubesse que eram lulas. Obviamente, não sabia o que eram lulas, porque tinha sete anos e era inglesa. 
    Mas não me lembro a que sabiam as lulas. Obviamente, a única coisa de que me lembro é a vitamina que a empregada obrigou todas as crianças a tomar, quer as da casa quer umas coitadas de umas inglesas visitantes, que não estavam à espera de nada, que nunca sequer tinham visto uma vitamina além daquelas de laranja, que só tinham vitamina C. As vitaminas da empregada eram daquela espécie horrenda que sabe a fermento de pão e provoca arrotos com esse sabor todo o resto do dia.
    Passeámos, fomos ao Alentejo, ficámos numa pousada em Estremoz, que tinha umas camas antigas de quatro postes, procurámos abutres no horizonte e voltámos para Lisboa. Os meus pais viram um discurso de Mário Soares na televisão que durou duas horas, e isso é tudo o que me lembro de Portugal em 1977. Se calhar, são as viagens de terror que realmente impressionam as mentes das crianças de sete anos, mais do que umas férias fabulosas. 
    Lucy Pepper 

    http://malomil.blogspot.pt/2016/11/portugal-1977.html

    terça-feira, 1 de novembro de 2016

    El discurso íntegro de Gabriel Rufián que ha indignado al PSOE

    DEBATE DE INVESTIDURA

    El diputado de ERC en el Congreso ha calificado de "traidores" a los socialistas por facilitar la investidura de Rajoy


    CEST
    Presidenta. Señorías.
    Sr. candidato Rajoy. Maese Cuñado Rivera. Sra. Susana Díaz Richelieu. Sr.Felipe GonzaleX. Un saludo allá donde estén. Srs. del PSOE Iscariote.
    Ustedes llevan 40 años dando una de cal y otra de arena, pero lo de hoy ya es demasiado. Demasiado para socialistas de corazón. Socialistas de corazón a los que hoy queremos dar voz. Como Rubén que les dice: Los fundadores del PSOE se revuelven en sus tumbas. Nunca más vuelvan a decirse socialistas. Nunca más vuelvan a decirse obreros. Traidores es el único nombre que merecen.
    O como José Antonio: Quiero que sepan que mi madre tiene 51 años, trabaja fregando suelos por menos de 4€ la hora y llora cada vez que los ve en la tele traicionándola. O como Laura: Mi abuelo murió con el carnet en la mano y el socialismo en el corazón. Si hoy les viera haciendo lo que hacen, mi asco y mi rabia se quedarían muy cortas.
    O como Antonio: ¿Y ahora cómo le explico esto a mis hijos?
    O como Armando: Cobro 884€ por 168 horas al mes. Vivan con esto una temporada y se les pasarán las ganas de apretar ese botón. Esta es su gente. Su gente. Tienen alguna respuesta para ellos? Algo?
    Señores del PSOE, Sociedad Anónima:
    ¿No les da vergüenza que solo les quede de izquierdas el sitio en el que se sientan en los consejos de administración de las eléctricas?
    ¿No les da vergüenza doblegarse a los designios de una cacique que gobierna la comunidad autónoma con una de las tasas de paro y fracaso escolar más altas de Europa?
    ¿No les da vergüenza darle el poder a uno de los partidos más reaccionarios de Europa junto con el cuñadismo neoliberal salvaje que, por ejemplo, dice que está en contra de rebajar el IVA veterinario porque “hay sífilis en Barcelona”? Este es el nivel de esta gente. La buena noticia es que tras lo de hoy la única sorpresa que nos depara la política española es saber en qué partido militará Toni Cantó la próxima legislatura.
    ¿No les da vergüenza ser republicanos pero monárquicos, socialistas pero neoliberales, obreros pero en consejos de administración y de izquierdas pero dando el poder a la derecha? Les aviso que el mercado de marcas blancas del PP está saturado, entre los Cínicos Naranjas y su escisión Forocoches.
    ¿No les da vergüenza traicionar tanto a su gente que incluso un consejero de Abengoa al que echaron a patadas parece otra vez de izquierdas? ¿No les da vergüenza pasar del “Si tu no vas, ellos vuelven” al “No vayas que ya te los traemos nosotros”?
    ¿No les da vergüenza dar la gobernabilidad de su país a quienes persiguen urnas y esconden jaguars? ¿No les da vergüenza dar la gobernabilidad de su país a quienes reciben con abrazos a ricos en jets privados y con pelotazos a pobres en el mar a nado?
    ¿No les da vergüenza dar la gobernabilidad de su país a quienes encierran en CIEs de la vergüenza a gente cuyo único delito es ser pobre?
    ¿No les da vergüenza dar la gobernabilidad de su país a quienes consideran inconstitucional prohibir la tortura y asesinato de un animal en una plaza pública?
    ¿Nos les da vergüenza dar la gobernabilidad de su país a quienes obligan que en un carnet de identidad Sonia se siga llamando Antonio?
    ¿No les da vergüenza dar la gobernabilidad de su país a los amigos del amigo de un narco que compara una urna con ETA?
    ¿No les da vergüenza dar la gobernabilidad de su país a quienes tapan el asesinato y escupen en la memoria de José Couso?
    ¿No les da vergüenza vender la memoria de un partido centenario? No? Igual es porque ya no tienen.
    Si le hacen esto a su secretario general y a su militancia, imaginen que no le harán a la gente. Por cierto, Sr. Sánchez la España que le niega a usted votar en su partido es la misma que nos niega a nosotros votar en nuestro país.
    Y acabo dirigiéndome una vez más a los compañeros Iglesias y Domènech. Compañeros, teníais razón, el bipartidismo ha muerto. Ahora es un solo partido. PPSOE y el Frente Nacional Naranja. Más fuerte. Más reaccionario. Más hegemónico. Cuánto más necesitáis? Os ayudaremos siempre. Pero nosotros sí que podemos. Si queréis ganar a un partido, no nos escuchéis. Si queréis ganar un país, ayudadnos.
    Viva Galiza Ceibe, Viva Andalucía libre, Viva Castilla libre, Gora Euskalerria Askatuta, Visca Catalunya lliure, Visca els Països Catalans. Vivan todas las naciones sin estado.
    Muchas gracias y buenas tardes.


    http://www.elperiodico.com/es/noticias/politica/discurso-integro-gabriel-rufian-psoe-investidura-rajoy-5596787