domingo, 18 de dezembro de 2011

Álvaro de Campos ~ O que há em mim é sobretudo cansaço


LÁGRIMAS
Pôr do Sol em Cela, nos Coutos de Alcobaça, na Herdade que foi do General Humberto Delgado 
Foto Victor Nogueira



O que há em mim é sobretudo cansaço
Não disto nem daquilo,
Nem sequer de tudo ou de nada:
Cansaço assim mesmo, ele mesmo,
Cansaço.

A subtileza das sensações inúteis,
As paixões violentas por coisa nenhuma,
Os amores intensos por o suposto alguém.
Essas coisas todas -
Essas e o que faz falta nelas eternamente -;
Tudo isso faz um cansaço,
Este cansaço,
Cansaço.

Há sem dúvida quem ame o infinito,
Há sem dúvida quem deseje o impossível,
Há sem dúvida quem não queira nada -
Três tipos de idealistas, e eu nenhum deles:
Porque eu amo infinitamente o finito,
Porque eu desejo impossivelmente o possível,
Porque eu quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser,
Ou até se não puder ser...

E o resultado?
Para eles a vida vivida ou sonhada,
Para eles o sonho sonhado ou vivido,
Para eles a média entre tudo e nada, isto é, isto...
Para mim só um grande, um profundo,
E, ah com que felicidade infecundo, cansaço,
Um supremíssimo cansaço.
Íssimo, íssimo. íssimo,
Cansaço...

                      Álvaro de Campos

sábado, 17 de dezembro de 2011

Thomas Edward Lawrence ~ Os Sete Pilares da Sabedoria


Todos os homens sonham, mas não da mesma forma. Os que sonham de noite, nos recessos poeirentos das suas mentes, acordam de manhã para verem que tudo, afinal, não passava de vaidade. Mas os que sonham acordados, esses são homens perigosos, pois realizam os seus sonhos de olhos abertos, tornando-os possíveis. — T.E. Lawrence, Os Sete Pilares da Sabedoria.


Seven Pillars of Wisdom (em português, Os Sete Pilares da Sabedoria) é um clássico da literatura mundial, designado por Winston Churchill como "um dos maiores livros já escritos na língua inglesa". Narra a participação de seu autor, Thomas Edward Lawrence, conhecido universalmente como Lawrence da Arábia, no movimento nacionalista árabe contra a dominação turca, como parte do esforço britânico na Primeira Guerra Mundial para derrotar a Alemanha, da qual a Turquia era aliada.
Seu título é uma alusão a uma frase da Bíblia, no Livro dos Provérbios (IX,1).
Escrito originalmente em 1919, Lawrence perde os manuscritos na Estação ferroviária de Reading. Uma segunda versão é finalizada no ano seguinte, mas, insatisfeito com o resultado, o autor a destrói. Finalmente em 1926, Lawrence escreve uma terceira versão, revisada por George Bernard Shaw e distribuído em uma edição artesanal restrita a amigos e escritores. Foi publicado pela primeira vez em 1935.
O escritor britânico E.M. Forster assim resume seu conteúdo: "Descreve a revolta na Arábia contra os turcos, vista por um inglês que nela tomou parte. No que seria aparentemente uma simples crônica militar, Lawrence da Arábia teceu um painel inusitado de retratos, descrições, filosofias, emoções, aventuras e sonhos. Para levar a cabo sua missão, serviu-se de uma extraordinária erudição, uma memória impecável, um estilo que ele próprio inventou...uma total desconfiança em si mesmo e uma fé ainda maior".
Em 1962 o épico do deserto é levado às telas de cinema. Sob a direção de David Lean, o filme Lawrence of Arabia ganhou sete oscars e a consagração do American Film Institute como um dos dez melhores filmes de todos os tempos.
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Title

The title comes from the Book of Proverbs, 9:1: "Wisdom hath builded her house, she hath hewn out her seven pillars" (KJV). Prior to the First World War, Lawrence had begun work on a scholarly book about seven great cities of the Middle East,[2] to be titled Seven Pillars of Wisdom. When war broke out, it was still incomplete and Lawrence stated that he ultimately destroyed the manuscript.
The Seven Pillars of Wisdom rock formation inWadi Rum
Later, during the Arab Revolt of 1917–18, Lawrence based his operations in Wadi Rum (now a part of Jordan), and one of the more impressive rock formations in the area was named by Lawrence "The Seven Pillars of Wisdom".[citation needed] In the end, Lawrence decided to use this evocative title for the memoirs he penned in the aftermath of the war.
While the title might seem better suited to the former book than the latter, a line from the dedicatory poem (to "S.A.", possibly Selim Ahmed) at the start of the book helps explain Lawrence's interpretation of the Biblical "seven pillars" and their relevance to the Arab Revolt:
I loved you, so I drew these tides of

Men into my hands

And wrote my will across the

Sky and stars

To earn you freedom, the seven

Pillared worthy house,
That your eyes might be
Shining for me
When we came

Death seemed my servant on the
Road, 'til we were near
And saw you waiting:
When you smiled and in sorrowful
Envy he outran me
And took you apart:
Into his quietness

Love, the way-weary, groped to your body,
Our brief wage
Ours for the moment
Before Earth's soft hand explored your shape
And the blind
Worms grew fat upon
Your substance

Men prayed me that I set our work,
The inviolate house,
As a memory of you
But for fit monument I shattered it,
Unfinished: and now
The little things creep out to patch
Themselves hovels
In the marred shadow
Of your gift.
A variant last line of that first stanza—reading "When we came"—appears in some editions; however, the 1922 Oxford text (considered the definitive version; see below) has "When I came". The poem originated as prose, submitted by letter to Robert Graves, who edited the work heavily into its current form, rewriting an entire stanza and correcting the others.
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External links

Obras



To S.A.


I loved you, so I drew these tides of men into my hands and wrote my will across the sky in stars
To earn you Freedom, the seven-pillared worthy house, that your eyes might be shining for me
                                              When we came.


Death seemed my servant on the road, till we were near and saw you waiting:
When you smiled, and in sorrowful envy he outran me and took you apart:
                                        Into his quietness.


Love, the way-weary, groped to your body, our brief wage ours for the moment
Before earth's soft hand explored your shape, and the blind worms grew fat upon
                                            Your substance.


Men prayed me that I set our work, the inviolate house, as a menory of you.
But for fit monument I shattered it, unfinished: and now
The little things creep out to patch themselves hovels in the marred shadow
                                              Of your gift.

Mr Geoffrey Dawson persuaded All Souls College to give me leisure, in 1919-1920, to write about the Arab Revolt. Sir Herbert Baker let me live and work in his Westminster houses.
The book so written passed in 1921 into proof; where it was fortunate in the friends who criticized it. Particularly it owes its thanks to Mr. and Mrs. Bernard Shaw for countless suggestions of great value and diversity: and for all the present semicolons.
It does not pretend to be impartial. I was fighting for my hand, upon my own midden. Please take it as a personal narrative piece out of memory. I could not make proper notes: indeed it would have been a breach of my duty to the Arabs if I had picked such flowers while they fought. My superior officers, Wilson, Joyce, Dawnay, Newcombe and Davenport could each tell a like tale. The same is true of Stirling, Young, Lloyd and Maynard: of Buxton and Winterton: of Ross, Stent and Siddons: of Peake, Homby, Scott-Higgins and Garland: of Wordie, Bennett and MacIndoe: of Bassett, Scott, Goslett, Wood and Gray: of Hinde, Spence and Bright: of Brodie and Pascoe, Gilman and Grisenthwaite, Greenhill, Dowsett and Wade: of Henderson, Leeson, Makins and Nunan.
And there were many other leaders or lonely fighters to whom this self-regardant picture is not fair. It is still less fair, of course, like all war-stories, to the un-named rank and file: who miss their share of credit, as they must do, until they can write the despatches.
T. E. S.
Cranwell, 15.8.1926

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quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

António Gedeão ~ Fala do homem nascido



Enviado por em 12/11/2008
Fala do Homem Nascido

Poema: António Gedeão
Música: José Niza


Venho da terra assombrada,
Do ventre de minha mãe;
Não pretendo roubar nada
Nem fazer mal a ninguém.

Só quero o que me é devido
Por me trazerem aqui,
Que eu nem sequer fui ouvido
No acto de que nasci.

Trago boca para comer
E olhos para desejar.
Tenho pressa de viver,
Que a vida é água a correr.
Venho do fundo do tempo;
Não tenho tempo a perder.

Minha barca aparelhada
Solta o pano rumo ao norte;
Meu desejo é passaporte
Para a fronteira fechada.
Não há ventos que não prestem
Nem marés que não convenham,
Nem forças que me molestem,
Correntes que me detenham.

Quero eu e a Natureza,
Que a Natureza sou eu,
E as forças da Natureza
Nunca ninguém as venceu.

Com licença! Com licença!
Que a barca se fez ao mar.
Não há poder que me vença.
Mesmo morto hei-de passar.
Com licença! Com licença!
Com rumo à estrela polar.

(in "Cantaremos", Orfeu, 1970, reed. Movieplay, 1999)

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

Os Pássaros nascem na ponta das Árvores ~ Rui Belo



Fotografias,palavras e musica com Lisboa dentro.Ou não.



As árvores que eu vejo em vez de fruto dão pássaros
Os pássaros são o fruto mais vivo das árvores
Os pássaros começam onde as árvores acabam
Ao chegar aos pássaros as árvores engrossam movimentam-se
Deixam o reino vegetal para passar a pertencer ao reino animal
Como pássaros poisam as folhas na terra
Quando o Outono desce veladamente sobre os campos
Gostaria de dizer que os pássaros emanam das árvores
Mas deixo essa forma de dizer ao romancista
É complicada e não se da bem na poesia
Não foi ainda isolada da filosofia
Eu amo as árvores principalmente as que dão pássaros
Quem é que lá os pendura nos ramos?
De quem é a mão a inúmera mão?
Eu passo e muda-se-me o coração

Ruy Belo
Partilhado por Cecília Barata

domingo, 11 de dezembro de 2011

Picasso


O verdadeiro sentido da vida é ter a impressão que se tem tudo,
Mesmo quando falta muito.
É ter esperança mesmo quando a tristeza insiste em nos alcançar.
É saber a hora de parar e escolher outros caminhos.
É tentar conhecer-se um pouco e expandir tudo o que tem de bom.
... É enfrentar as lágrimas e delas buscar um sorriso.
É acreditar que tudo pode acontecer;cada experiência é única,
e cada amanhecer é mágico.”

(Picasso)

domingo, 4 de dezembro de 2011

Poesia respigada d'outros tempos mas não só ?

III
Este é o local, o dia, o mês e a hora
O jornal ilustrado aberto em vão.
No flanco esquerdo, o medo é uma espora,
fincada, firme, imperiosa Não
espero mais. Porquê esta demora?
Porquê temores, suores? Que vultos são
aqueles além? Quem vive ali? Quem mora
nesta casa sombria? Onde estão
os olhos que espiavam ainda agora?
O medo, a espora, o ansiado coração,
a noite, a longa noite sedutora,
o conchego do amor, a tua mão ...
Era o local, o dia, o mês, a hora .
Cerraram sobre ti os muros da prisão

(Daniel Filipe)
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A mentira que fingem
é verdade.

A submissão
 corrompe
Não nasceram
ainda
Poderão nascer
mais tarde
tão adultos de aspecto?

(Egipto Gonçalves)
-----------------------------------------
Como se mantém
este deserto?
Praças sem vida
sombras nos passeios,
estores corridos
nas janelas ...
Poderiam só palavras
convencer?

----

Paisagem

42.
E  nós
os conformados
que fazemos

compramos livros
gravatas

ou separados
morremos

(António Reis)
---------------------

O Impossível Carinho

Escuta, eu não quero contar-te do meu desejo
Quero apenas contar-te a minha ternura
Ah se em troca de tanta felicidade que me dás
Eu te pudesse repor
- Eu soubesse repor -
No coração despedaçado
As mais puras alegrias da tua infância
.
.
Manuel Bandeira

sábado, 3 de dezembro de 2011

Pequeno sarau no inFaceLock




    • não seremos mais do que crianças tristes à beira do rio,

  • há 2 horas
    Victor Nogueira
    • espera­ ­

    • à moda do R R

  • há 2 horas
    Victor Nogueira
    • R.R.? descodifica­ ­

    • Ricardo Reis, anda sentar-te comigo, Lídia , à beira do rio


  • há 2 horas
    Victor Nogueira
    • Estava a procurar por ele­ ­

  • há 2 horas
    Victor Nogueira
    • Fernando Pessoa

      Vem sentar-te comigo, Lídia, à beira do rio.
      Sossegadamente fitemos o seu curso e aprendamos
      Que a vida passa, e não estamos de mãos enlaçadas.
      (Enlaçemos as mãos).

      Depois pensemos, crianças adultas, que a vida
      Passa e não fica, nada deixa e nunca regressa,
      Vai para um mar muito longe, para o pé do Fado,
      Mais longe que os deuses.

      Desenlacemos as mãos, porque não vale a pena cansarmo-nos.
      Quer gozemos, quer não gozemos, passamos como o rio.
      Mais vale saber passar silenciosamente.
      E sem desassossegos grandes.
      ­

    • esse mesmo!

  • há 2 horas
    Victor Nogueira

    • "Simplesmente nos vamos,
      sem mágoas nem sobressaltos,
      Numa tarde doce e triste
      sem que o coração estremeça
      e o gume da saudade nos fira
      Porque nunca dissemos palavras de amor. "
      .

      [Fernando Pessoa/Bernardo Soares - O Livro do Desassossego]

  • há 2 horas
    Victor Nogueira
    • As palavras que te envio são interditas

      As palavras que te envio são interditas
      até, meu amor, pelo halo das searas;
      se alguma regressasse, nem já reconhecia
      o teu nome nas suas curvas claras.

      Dói-me esta água, este ar que se respira,
      dói-me esta solidão de pedra escura,
      estas mãos nocturnas onde aperto
      os meus dias quebrados na cintura.

      E a noite cresce apaixonadamente.
      Nas suas margens nuas, desoladas,
      cada homem tem apenas para dar
      um horizonte de cidades bombardeadas.

      Eugénio de Andrade

  • há 2 horas
    Victor Nogueira
    • Os amantes sem dinheiro

      Tinham o rosto aberto a quem passava.
      Tinham lendas e mitos
      e frio no coração.
      Tinham jardins onde a lua passeava
      de mãos dadas com a água
      e um anjo de pedra por irmão.

      Tinham como toda a gente
      o milagre de cada dia
      escorrendo pelos telhados;
      e olhos de oiro
      onde ardiam
      os sonhos mais tresmalhados.

      Tinham fome e sede como os bichos,
      e silêncio
      à roda dos seus passos.
      Mas a cada gesto que faziam
      um pássaro nascia dos seus dedos
      e deslumbrado penetrava nos espaços.

      Eugénio de Andrade­ ­

    • Lindo

  • há 2 horas
    Victor Nogueira
    • Foi com o Eugénio de Andrade que a Noémia me iniciou e despertou para a poesia­ ­

    • Gosto muito dele, as palavras têm doçura, são leves ...sentidas

    • As palavras...


      São como cristal, as palavras.
      Algumas, um punhal,
      um incêndio.
      Outras, orvalho apenas.


      Secretas vêm, cheias de memória.
      Inseguras navegam:
      barcos ou beijos,
      as águas estremecem.


      Desamparadas, inocentes, leves.
      Tecidas são de luz e são a noite.
      E mesmo pálidas
      verdes paraísos lembram ainda.


      Quem as escuta?

      Quem as recolhe, assim,
      cruéis, desfeitas,
      nas suas conchas puras?

    • Foste?

  • há 2 horas
    Victor Nogueira
    • Não­ ­
    • estou aqui­ ­

    • ah, também já é hora de desligar...

  • há 2 horas
    Victor Nogueira
    • Eu vou com as aves ao teu encontro nos meus sonhos desassossegados [em ti procurando o sossego]





    • Doce Mistério da Vida - Fernando Pessoa
      .

      Minha vida que parece muito calma
      Tem segredos que eu não posso revelar
      Escondidos bem no fundo de minh'alma
      Não transparecem nem sequer em um olhar
      Vive sempre conversando à sós comigo
      Uma voz que eu escuto com fervor
      Escolheu meu coração pra seu abrigo
      E dele fez um roseiral em flor
      A ninguém revelarei o meu segredo
      Nem direi quem é o meu amor
  • **********

    Victor Nogueira
    .
     É preciso saber ler para além das palavras ou não recusar essa leitura. Lembro me dum poema do Alberto Caeiro, cuja humildade e simplicidade me atraem, humildade e simplicidade perante as pessoas e as coisas que talvez nunca sejam minhas. Levanto me e vou ali á estante buscá lo. Escolho o poema que trancreverei. Hesito na escolha. Será este!
     . 
     XLV - Um renque de árvores lá longe, lá para a encosta.  (MCG - 1972.07.14)
    .
    O "teu" Eugénio de Andrade tem poemas belos mas o António Reis, para mim, não lhe deve nada, embora seja um poeta algo desenganado: a vida que ele reflecte é um rosto sereno com rugas ao canto dos olhos sorridentes; às vezes duma bondade repousante, outras reflectindo um certo cansaço, um certo desengano. Existe amor - em certa medida tal como o entendes - na simplicidade dos seus "Poemas Quotidianos". Por isso gosto deles. (NSM - 1971.04.11)
     .
    Que dizes a esta poesia ("Impossível") cheirando a fins do séc.XIX [1] ? Parece me que o Cesário Verdepelos outros poemas, consegue retratar fielmente o ambiente da burguesia do seu tempo - que Eça de Queiroz retratou também, admiravelmente, nos seus romances. Mas Eça era satírico, mantinha se alheado daquilo que escrevia. Enquanto que o Cesário parece viver aquilo, não só o ridículo, o mau gosto (a meus olhos) duma certa maneira de sentir e de agir. Para além disto, as pessoas miseráveis, a cidade, o povo, aparecem e perpassam pelos seus versos, muitas vezes contrapostos aos delíquios e aos sentimentos da pequena (e abominável, ridícula) pequena burguesia - que aspira a ser aquilo que não é, a uma grandeza que não tem e para que não foi talhada, porque apenas vivendo de exterioridades e aparências, sem uma vivência autêntica. (MCG - 1973.06.28 B)
    .
    Disse-te um dia destes que relera com emoção um poeta que é o Eugénio de Andrade , de quem talvez tenha noutro tempo transcrito para ti alguns poemas. Dou comigo a relê-lo com uma certa tristeza. Porque afinal muitos dos poemas do Eugénio de Andrade expressam não a plenitude da alegria do amor alcançado mas a nostalgia do que se perdeu ou não alcançou. (MMA - 1993.09.25)
    .
    Também eu percorri muitas desses caminhos das palavras, porque sou do tempo em que o mundo virtual não fazia parte da nossa vida, utilizavamos sim a imaginação e projetavamo-nos nas histórias que liamos mais ou menos consoante o nosso estado de alma e as nossas experiências de vida. A prosa não é mais fácil nem mais difícil do que a poesia, apenas são registos diferentes, diferentes formas de utilizar os signos linguísticos. Aliás, hoje em dia escreve-se poesia em prosa e já Camões em "Os Lusíadas"- e outros antes dele, utilizava a poesia na narrativa dos feitos heróicos. A partir de certa altura a poesia aproxima-se do quotidiano e o poeta que faz essa viragem é precisamente o Cesário Verde, aquele que é tido pelo próprio Fernando Pessoa como percursor do modernismo.


    .
    Gosto muito dele, o poeta da cidade de Lisboa, "o camponês que andava na cidade como quem andava no campo"" e que morreu tísico aos 36 anos, salvo erro!

    há 9 horas ·  ·  2 
      • Carlos Rodrigues 
        Grandes leituras, li muitos desses. Estranho ai a falta, por exemplo, das Palavras do Sartre, dos Possessos e do Homem Revoltado de Camus e até do Castelo ou do Processo de Kafka, eram de leitura complementar quase " obrigatória" para um Sociólogo, mais ainda para um Político.E dos nossos acho que falta aí o Alves Redol. Mas gostei dos teus apontamentos Culturais. 

        .

        Não digas que não gostas de Poesia, nem da rima. Desta última há muitos que dizem que não gostam porque não a sabem fazer, dá muito mais trabalho. Eu gosto da Poesia livre, mas dependendo do momento, há alturas em que a Música é mais forte, cá dentro e, então me impõe ritmos e rimas e eu sou muito obediente a estas instruções da Anima. Outras vezes apetece-me desorganizar tudo, gerar o caos e vou por aí até que salte a tampa e um sentido qualquer não procurado. Depois fico danado comigo mesmo, porque poucos vão conseguir entender a criptologia e Poesia não entendida pelos outros ( raramente o é na sua totalidade ) acho que faz pouco sentido.

        .

        Dos não sei quantos heterónimos de Pessoa, escolheste, o Naturalista, Alberto Caeiro, também gosto, é tão simples que até chateia. Gostei. Obrigado e um Abraço.

        há 9 horas ·  ·  1


        • Carmen Montesino Grata pelos poemas! Bom fim de semana, Victor :)
          há 6 horas · 

        • Victor Nogueira Olá, Carmen Montesino ! Quais dos poemas ? 
          :-)*
          há 6 horas · 







    • [1] Impossível ( O  Livro de Cesário Verde)

Nós podemos viver alegremente,
Sem que venham com fórmulas legais,
Unir as nossas mãos, eternamente,
As mãos sacerdotais.


Eu posso ver os ombros teus desnudos,
Palpá-los, contemplar-lhes a brancura,
E até beijar teus olhos tão ramudos,
Cor de azeitona escura.


Eu posso, se quiser, cheio de manha,
Sondar, quando vestida, pra dar fé,
A tua camisinha de bretanha,
Ornada de crochet.


Posso sentir-te em fogo, escandescida,
De faces cor-de-rosa e vermelhão,
Junto a mim, com langor, entredormida,
Nas noites de verão.


Eu posso, com valor que nada teme,
Contigo preparar lautos festins,
E ajudar-te a fazer o leite-creme,
E os mélicos pudins.


Eu tudo posso dar-te, tudo, tudo,
Dar-te a vida, o calor, dar-te cognac,
Hinos de amor, vestidos de veludo,
E botas de duraque


E até posso com ar de rei, que o sou!
Dar-te cautelas brancas, minha rola,
Da grande loteria que passou,
Da boa, da espanhola,


Já vês, pois, que podemos viver juntos,
Nos mesmos aposentos confortáveis,
Comer dos mesmos bolos e presuntos,
E rir dos miseráveis.


Nós podemos, nós dois, por nossa sina,
Quando o Sol é mais rúbido e escarlate,
Beber na mesma chávena da China,
O nosso chocolate.


E podemos até, noites amadas!
Dormir juntos dum modo galhofeiro,
Com as nossas cabeças repousadas,
No mesmo travesseiro.


Posso ser teu amigo até à morte,
Sumamente amigo! Mas por lei,
Ligar a minha sorte à tua sorte,
Eu nunca poderei!


Eu posso amar-te como o Dante amou,
Seguir-te sempre como a luz ao raio,
Mas ir, contigo, à igreja, isso não vou,
Lá essa é que eu não caio!



Lisboa, 1874 



As palavras na poesia de Eugénio de Andrade

por Victor Nogueira a Quinta-feira, 17 de Março de 2011 às 23:16






  • Maria Jorgete Teixeira Adoro, Eugénio de Andrade e sei muito bem onde ele morava, ou o José fontinhas, passava por lá às vezes quando ia ao Porto. Costumava sentar-se em frente ao rio Douro, por detrás da janela, em tempo frio, com uma manta nos joelhos.
    17/3 às 23:36 · 



  • Todos os poemas de Eugénio de Andrade me comovem....me tovam profundamente.Obg. meu amigo do♥

    17/3 às 23:39 · 

  • Victor Nogueira O meu 1ª encontro com a poesia foi em Évora, em 1969, com uma amiga minha, a Noémia, através de Eugénio de Andrade. Até aí era um homem de alíneas e parágrafos e a partir daí comecei a escrever poesia, até 1990, quando voltei a ser o homem, desencantado e realista, das alíneas e parágrafos, sem metáforas !
    17/3 às 23:41 ·  ·  1


  • Maria Jorgete Teixeira É sempre altura de voltar às metáforas, porque a vida sem elas não faz sentido!
    17/3 às 23:43 ·  ·  1


  • Yolanda Botelho Agora emocionei-me.....adoro Eugénio de Andrade,sobretudo este último poema,obrigada meu esquerdista preferido.Bj
    17/3 às 23:46 · 

  • Victor Nogueira 
    ‎"Tinha uma carta já escrita, fluente na minha mente. Chegou a hora de escrevê‑la e ela ruiu, as palavras escorregaram por entre os dedos, em todas as direcções, e no papel nada fica senão uma pasta informe (...) Nunca liguei á poesia. Acha...Ver mais
    17/3 às 23:59 ·  ·  1

  • Victor Nogueira 
    ‎"O "teu" Eugénio de Andrade tem poemas belos mas o António Reis, para mim, não lhe deve nada, embora seja um poeta algo desenganado: a vida que ele reflecte é um rosto sereno com rugas ao canto dos olhos sorridentes; às vezes duma bondade...Ver mais
    18/3 às 0:01 · 

  • Victor Nogueira ‎"Disse-te um dia destes que relera com emoção um poeta que é o Eugénio de Andrade , de quem talvez tenha noutro tempo transcrito para ti alguns poemas. Dou comigo a relê-lo com uma certa tristeza. Porque afinal muitos dos poemas do Eugénio de Andrade expressam não a plenitude da alegria do amor alcançado mas a nostalgia do que se perdeu ou não alcançou." (MMA - 1993.09.25)
    18/3 às 0:03 ·  ·  2


  • 18/3 às 0:05 · 



  • Antonio Garrochinho está nos meus poetas prefereidos ! gosto imenso !
    18/3 às 0:16 · 



  • Orlanda De Castro Barros merci Paulo,esta lindo!
    18/3 às 7:42 · 


  • Orlanda De Castro Barros merci Vitor dai vem sempre do melhor,bom dia,bisu.
    18/3 às 7:43 · 


  • Cecilia Barata Obrigada Victor. E sempre bom reler Eugénio de Andrade, um dos poetas maiores da nossa literatura.Adoro nele a simplicidade, a transparência, a beleza das suas imagens, a escolha certeira das palavras...Um beijinho e um bom dia.
    18/3 às 10:51 · 


  • Francelina Oliveira Obrigado Victor, gosto muito.
    18/3 às 11:40 · 


http://www.facebook.com/note.php?note_id=10150112665429436
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Sesimbra - Foto VN

Pôr do Sol no Estuário do Sado - Foto VN
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    • Carmen Montesino Fico-te grata, Victor, por esta partilha!
      18/3 às 0:34 · 


    • Carmen Montesino Deste-me uma ideia com estas fotos, beijinho, querido amigo!
      18/3 às 0:35 · 

    • Victor Nogueira ‎:-)*
      18/3 às 0:35 · 


    • Antonio Garrochinho MARAVILHOSO ! EXCELENTE PUBLICAÇÃO !
      18/3 às 0:36 · 


    • Maria Jorgete Teixeira Obrigada, Victor, pelas fotos e pelos textos, que são eles mesmos uma prosa poética!
      18/3 às 0:39 · 



    • Obg. Victor...lindas fotos e o texto é belissimo.
      Beijinhos.Boa noite!!!

      18/3 às 1:02 · 


    • Lurdes Martins Já conhecia:-))))) 
      E gosto também muito dessa árvore só e inclinada...resistindo... vá-se lá saber porquê... E já sabes, gosto muito, mas mesmo muito de ti... e estou quase a chegar! 
      Abreijo!
      18/3 às 1:33 · 


    • Alice Coelho Eugenio de Andrade...é um poeta por excelencia...gosto muito!!! obrigado por me incluires nesta partilha bem compilada com fotos fantasticas... 
      bjs
      18/3 às 5:02 · 


    • Cecilia Barata Gostei imenso, Victor. Bem hajas por partilhares, meu amigo.
      Bom dia e um grande beijinho.
      18/3 às 11:04 · 


    • Ausenda Hilario Dir-te-ia que tudo isto é um poema! 
      abraço amigo
      21/3 às 22:19 ·