domingo, 23 de outubro de 2016

John Le Carré - O escritor que nasceu espião



O escritor que nasceu espião
23.10.2016 às 12h00

 
HARRY BORDEN/GETTY IMAGES

Sem esperar pela resposta do biógrafo, John le Carré tomou as rédeas do seu passado. “O Túnel de Pombos — Histórias da Minha Vida”, que saiu esta semana em Portugal, é uma coleção de memórias, um aglomerado de acontecimentos que muito dizem sobre o século XX mas também sobre a obra do escritor e os seus bastidores 

Ainda o mundo tentava enfrentar os horrores da II Guerra Mundial, o morticínio dos campos de concentração nazis, já o general Reinhard Gehlen, chefe dos serviços secretos de Hitler na Frente Oriental, se instalava na Baviera, a coberto da CIA. Um acordo feito antes do fim da guerra, no qual ele oferecera o seu precioso arquivo aos americanos, transformara-o no chefe da espionagem da Alemanha Ocidental. Nesta nova agência antissoviética, o general de Hitler iria liderar velhos camaradas do núcleo nazi que, tal como ele, ganhavam uma nova vida. Em 1947, o passado era já um país estrangeiro onde crimes hediondos podiam ficar enterrados ao lado dos mortos e os seus executores alcançar redenção.

56 anos depois, o escritor inglês John le Carré (n. 1931) desloca-se ao local onde Gehlen se instalara. Em 2003, o escritor conta 72 anos. É conhecido pelos livros e famoso pela transformação destes em filmes de Hollywood (como “O Espião Que Saiu do Frio”, “A Rapariga do Tambor”, “A Casa da Rússia”, “Assassinato de Qualidade”, “O Alfaiate do Panamá” ou “O Fiel Jardineiro”), sem contar com as séries de televisão. Le Carré é recebido na bela propriedade do sul da Alemanha pelo então presidente dos serviços secretos alemães, August Hanning. Ao descer as escadas do bunker, construído pelo antigo proprietário, Martin Bormann (secretário privado de Hitler), o escritor descobre que o lugar se encontra classificado como monumento protegido ao abrigo da lei estatal da Baviera.

Le Carré visitara, em 1949, os campos de concentração de Dachau e Bergen-Belsen, “enquanto o fedor ainda persistia”. Anos mais tarde assistira, em Bona, enquanto jovem diplomata britânico e espião, à tomada de poder da velha guarda nazi e à subalternização das gerações alemãs mais novas, nas quais não havia mácula a registar. Ainda assim, está à entrada do bunker e admira-se. “Bem, talvez na minha idade eu não devesse ter parecido tão surpreendido. Não estive em tempos na profissão [serviços secretos]? O meu próprio serviço não trocara energicamente informações com a Gestapo até 1939? Não manteve relações amigáveis com o chefe da polícia secreta de Kadhafi até aos últimos dias deste no poder — relações suficientemente amigáveis para despachar os seus inimigos políticos, até mesmo mulheres grávidas, e vê-los encarcerados e interrogados com todas as melhores técnicas?”, confessa no livro “O Túnel de Pombos — Histórias da Minha Vida”, que chegou às livrarias portuguesas esta semana numa edição da Dom Quixote.

Em 2012, entrevistei John le Carré na sua casa de Londres, no bairro de Hampstead, antes da publicação de “Uma Verdade Incómoda”. Tratava-se do seu vigésimo terceiro romance, o último, por sinal, antes de “O Túnel de Pombos”. Encontrei um homem afável, generoso, disponível, diplomático o suficiente para poder imaginá-lo, como descreve agora neste livro de memórias, a acenar sagazmente, a abanar a cabeça quando devia, a tentar dizer uma piada para aliviar a tensão perante todos os homens e mulheres que, por terem poder, o atraíam. Para só mais tarde, já no seu quarto de hotel, tirar do bolso um bloco de apontamentos e então dar um sentido a tudo o que tinha visto e ouvido, a tudo o que julgava que os movia e que ele não entendia. E que, de resto, ainda não entende. É nessa militante incompreensão, nessa incansável vontade de chegar à verdade, do mundo ou dos que o lideram, mesmo que as descobertas sejam inoportunas, que devemos procurar a causa da sua surpresa à entrada do bunker de Gehlen; mas também a origem de uma empatia que faz com que o seu rosto se emocione e contraia quando pergunta, nessa entrevista, como vamos nós por cá, nós portugueses retraçados, submergidos pela crise.

John le Carré nasceu David Cornwell. Ronnie, o pai, é um caso, um mistério tão grande ou maior do que a mãe, Olive, com a qual não “se consumiu”, porque ela o abandonou aos 5 anos, quando ele e o irmão, dois anos mais velho, dormiam à noite na cama. Le Carré só voltou a encontrá-la aos 21 anos, numa estação de comboios. Sobre Olive, pouco mais soube, além das histórias traumáticas que ela guardara desse casamento violento e que insistia em relatar, anos depois, aos filhos adultos. Le Carré escreve no seu livro de memórias: “Desde o dia do nosso reencontro até ela morrer, a criança gelada em mim não demonstrou o mínimo sinal de descongelar.” Ronnie, nome pelo qual o escritor se refere ao pai, era um aventureiro, um fantasista, um vigarista que tinha dentro dele um elenco de personagens de ficção “de fazer vir água à boca ao escritor mais sofisticado”. Um homem capaz de eternamente se reinventar para poder fazer uma espalhafatosa vida de rico, apesar de a prisão lhe ter retirado a capacidade de abrir as portas, estancando em frente destas à espera que alguém lhe desse permissão para as atravessar.

Neste livro de memórias avulsas, Ronnie é remetido para o fim, pois Le Carré não quer que ele seja cabeça de cartaz — ao contrário, como diz, do que o pai, sempre “à procura das luzes da ribalta”, teria preferido, se pudesse escolher: “Matá-lo foi uma das minhas primeiras preocupações e subsistiu de modo intermitente mesmo depois da sua morte.” É esse pai que o exaspera, por não o conseguir compreender, que o levará a escrever romances em adulto. E é esse mesmo pai que lhe impõe a espionagem à nascença, “tanto como suponho o mar foi imposto ao [escritor] C. S. Forester”. Não admira, por isso, que Le Carré diga que o seu ingresso nos serviços secretos britânicos, ainda jovem estudante de um colégio suíço, seja apenas um regresso a casa: “Não foi a espionagem que me levou ao secretismo. A evasão e os enganos eram as armas necessárias da minha infância.” Ora, a espionagem e a escrita de romances, explica, foram feitas uma para a outra: “Ambas pedem um olhar atento à transgressão humana e às muitas vias para a traição.” E a infância, por seu lado, como o próprio lembra, citando Graham Greene, é o saldo credor do escritor. “Por essa medida, pelo menos, eu nasci milionário”, assegura no tal capítulo que deixa para as últimas páginas do livro de memórias, ‘Filho do Pai do Autor’.

ANTES SNOWDEN TIVESSE SIDO ESCRITOR...

Primeiro veio a espionagem. Depois a escrita de romances. Não foi o único. Somerset Maugham, Graham Greene, Compton Mackenzie, como Le Carré lembra em “O Túnel de Pombos”, foram também espiões escritores... Homens que escrevendo ficção se escusaram, na sua opinião, à alta traição, evitando caminhos como o percorrido pelo famoso agente britânico que fornecia informações ao sector soviético, Kim Philby, amigo por sinal de Graham Greene: “Comparando com o inferno que poderíamos criar por outros meios, escrever é tão inofensivo como uma brincadeira de crianças. Como os nossos pobres espiões devem estar a desejar que Edward Snowden tivesse antes escrito um romance.”

Se por um lado Le Carré acredita que, na ficção, retratou os serviços secretos britânicos como uma organização mais competente do que alguma vez tivera razões para considerar, por outro reconhece que foi lá que aprendeu a escrever: “A instrução mais rigorosa sobre como escrever em prosa que alguma vez recebi [...] veio dos agentes seniores com estudos clássicos no último andar da sede do MI5 [...] que liam os meus relatórios com um pedantismo deleitado, manifestando desprezo pelas minhas orações incompletas e pelos meus advérbios desnecessários e riscando as margens da minha prosa chã com comentários como: redundante — omita — justifique — vago — quer realmente dizer isto? Nenhum editor que encontrei desde então foi alguma vez mais exigente ou teve tanta razão.”


 Le Carré Pseudónimo de David Cornwell, nascido em 1931, em Inglaterra
Le Carré Pseudónimo de David Cornwell, nascido em 1931, em Inglaterra
FOTO DAVID LEVENSON/GETTY IMAGES

“O Túnel de Pombos” parece uma coleção de falhanços, de situações caricatas, que por isso mesmo Le Carré deve recordar melhor do que outras, até porque nunca manteve o hábito regular de alimentar um diário. Noutros casos, o escritor fala de encontros com algumas das personalidades mais importantes do século XX, como Arafat, Thatcher, Andrei Sakharov, o poeta Joseph Brodsky (com quem estava a almoçar quando este foi informado que acabara de ganhar o Prémio Nobel da Literatura), os realizadores Fritz Lang, Sidney Pollack, Francis Ford Coppola, Stanley Kubrick (com quem nunca chegou a fazer os filmes que estes lhe propuseram) ou com figuras que, embora menos conhecidas, em muito contribuíram para a narrativa desse tempo, como o correspondente norte-americano para o Sudeste Asiático e Médio Oriente David Greenway, que o ajudou a conhecer o mundo e a viajar.

Mas Le Carré não se limita a uma vã enumeração de momentos partilhados com ilustres figuras. A parte mais interessante desta coleção de memórias está na descrição de desconhecidos que de uma forma ou de outra acabaram por inspirá-lo, ao ponto de se transformarem no coração e na alma das personagens dos seus livros. E se um dos capítulos mais apaixonantes é provavelmente aquele que descreve a sua viagem à Palestina para dançar o dabke com Arafat, no Ano Novo de 1982, outra valiosa passagem é a que explica a razão pela qual se obriga a ir até às montanhas palestinianas, à porta do bunker do secretário de Hitler, às valas do Mekong no Vietname, ao refúgio dos senhores da guerra no Congo: “Primeiro vem a imaginação, depois a busca da realidade. De seguida, o regresso à imaginação e à secretária à qual agora estou sentado.”

OS TÚNEIS QUE LHE MUDARAM A VIDA

John le Carré não foi espião durante muitos anos, embora a espionagem, como conta no livro, nunca o tenha largado, imprimindo nele uma marca perene, sempre visível aos olhos dos outros. Apesar de deixar os serviços secretos ainda jovem, continuará a ir buscar inspiração ao tempo passado no MI5, até ao momento em que descobre, em Hong Kong, em 1972, a existência de um túnel. Não é o túnel de pombos que dá o nome a este livro. É outro túnel, mas terá um efeito profundamente transformador. Le Carré acabara de entregar o romance “A Toupeira” à tipografia.

No livro havia uma perseguição de ferry no estreito de Kowloon que o escritor criara com a ajuda de um velho guia turístico comprado na Cornualha. Mas em Hong Kong, acabadinho de chegar, descobre de imediato que existe um túnel nesse mesmo sítio. Não a tempo, porém, de parar a impressão do novo livro para alterar a cena, ajustando-a à realidade: “Jurei que nunca mais voltaria a descrever uma cena num local que não tivesse visitado [...] A meio da vida , eu estava a ficar gordo e preguiçoso e a viver à custa de um fundo de experiência passada que estava a esgotar-se. Chegara o momento de abordar mundos não familiares.

Uma máxima de Graham Greene [sempre Greene] soava-me algures ao ouvido; algo como, se estávamos a relatar a dor humana, tínhamos o dever de a partilhar.” Hong Kong era o ponto de partida de um périplo pelo mundo que o tem feito viajar pelo Cáucaso, Rússia, Camboja, Vietname, Israel, Palestina, América Central, Quénia, Congo. Em todas essas investidas, fez-se acompanhar de personagens que o protegem: “Quando me vi encolhido numa trincheira ao lado do rio Mekong e pela primeira vez na minha vida ouvi balas a baterem contra a terra enlameada acima de mim, não foi a minha mão trémula que confidenciou a minha indignação a um reles bloco de apontamentos, mas a mão do meu corajoso herói ficcional, o repórter da linha da frente Jerry Westerby.”

O túnel que deu nome a este livro é outro. É um que o leva de volta à infância e que várias vezes pensou em imprimir como título de outras obras. Era um túnel ou, na verdade, vários pequenos túneis que existiam junto ao casino de Monte Carlo, nos quais eram inseridos pombos vivos que teriam de esvoaçar para se transformarem “em alvos dos cavalheiros desportistas”. Os pombos que sobreviviam voltavam ao telhado, onde os esperavam as mesmas armadilhas que os colocariam de novo nos túneis e logo na mira dos atiradores.

A imagem perseguiu-o tanto como provavelmente a sombra do seu pai, a calcar-lhe o rasto um pouco por todo o mundo, a assinar os seus livros como “Pai do Autor” ou a lembrar-lhe que ele até seria conhecido mas não uma celebridade. No capítulo que lhe dedica, Le Carré conta que chegou a contratar detectives para investigarem a vida de Ronnie e a sua: “Saiam por esse mundo, disse-lhes levianamente. Fica tudo por minha conta. Encontrem testemunhas vivas e os registos escritos, tragam-me um relato factual de mim e da minha família e do meu pai e eu recompensá-los-ei.”

Em Hampstead, em 2012, John le Carré dizia que tinha um biógrafo há três anos e que de tempos a tempos ele voltava, trazendo-lhe memórias de pessoas que o tinham conhecido na escola. As memórias dos outros eram, porém, quase sempre diferentes, e até melhores, das que ele tinha dele próprio. Num golpe surpreendente até para o biógrafo, Le Carré resgatou as suas recordações, não escondendo neste livro que à memória faz corresponder uma coleção de enganos (“A memória de um escritor velho é a prostituta da sua imagem”) e à vida reserva “vagas de gratidão” sempre que caminha pelos penhascos da Cornualha, onde tem uma casa na qual se refugia a escrever. “Só o escritor em mim manteve o seu curso.”

Em exclusivo para o Expresso John Le Carré escreve sobre a vida e esse tópico precioso e misterioso que é a fonte da criatividade

UM SEGREDO MARAVILHOSO

Quando publiquei o meu livro de memórias, “The Pigeon Tunnel”, prometi que não daria mais entrevistas a ninguém, em parte alguma, e, com surpresa minha, parece que tenho cumprido a promessa. O meu motivo declarado era completamente razoável. Estava — e estou — a meio da escrita de um romance ambicioso e não quis ser novamente puxado a discutir um livro do qual tento o mais possível emergir. O meu motivo respeitável é que não gosto de viver a minha vida em público. Qualquer versão da minha vida que ofereça há de surgir rodeada por fronteiras invisíveis, portanto acho que tinha receio de ser atraído para território inimigo. Não estou a falar de casos amorosos ou de esqueletos no armário da família, mas de assuntos bastante mais íntimos e duradouros, tais como a própria fonte da criatividade, um tópico demasiado precioso, e misterioso, para ser diluído em especulações fáceis minhas. Num romance, tenho a liberdade de explorar a minha identidade sob diferentes chapéus. Na vida, é um processo embaraçoso.

Qual é a relação entre as minhas ficções e o mundo exterior ao qual presumem referir-se? Essa pergunta, que me fazem repetidamente, requer de mim uma exibição de falsa sabedoria. As minhas ficções são a única realidade que conheço. O mundo exterior, por comparação, é um enorme livro infantil de mistérios, previsível apenas no sentido de que podemos contar que excederá o pior que imaginarmos: por exemplo, o delirante Donald Trump; os usurpadores políticos do meu próprio país, tal como o odioso Boris Johnson, o nosso atual ministro dos Negócios Estrangeiros, que, tendo insultado a maioria das pessoas decentes no planeta e enganado o eleitorado para aceitar uma ideia na qual ele mesmo não acreditava, tocou a sua flauta de mentiroso e retirou-nos da nossa própria casa, despejou-nos numa rua vazia e disse-nos para irmos à procura de outro lugar para vivermos.

Sim, o meu pai era um vigarista e um criminoso, e foi também uma grande influência na minha vida de escritor. Era igualmente um vendedor de certezas falsas, que nas suas muitas prisões — umas físicas, outras de sua própria criação — nunca perdeu a convicção de ser o filho escolhido de Deus. Bem, conheço alguns artistas que não são assim muito diferentes nesse aspeto, e até um ou dois escritores. Mas embora, quando estou em baixo, às vezes sucumba à afirmação do meu pai de que os meus talentos eram inteiramente os seus — por outras palavras, que eu era uma versão imatura dele, jogando com vidas de brinquedo em vez da versão humana, adulta e destrutível —, cedo me persuadi a sair dessa particular cadeia. Se devo alguma coisa ao meu pai — e devo — é o desconforto universal que assombra os meus personagens quando eles, como soldados gaseados, tropeçam entre a sua lealdade a uma causa maior, qualquer que ela seja, e a repulsa pelo modo como têm de a servir. Nunca lutei com o meu pai. Ele era demasiado grande para falhar. Menti-lhe e, ao inventar um universo ilusório paralelo ao seu, descobri um lugar para me esconder dele. Quando entrei no mundo ilusório da espionagem, sim, tive uma sensação de regressar a casa. Quer dizer, não aprendi nada que não tivesse já aprendido aos joelhos do meu pai: que, se dissermos a mentira certa no tom messiânico certo e acrescentarmos o aliciante de grandes recompensas no final do arco-íris, veremos espantados os anjos que caem. Quanto ao resto, dado que a realidade ilusória do mundo secreto nunca chegou ao nível da minha própria, não fazia sentido ficar por lá.

Poderá o simples espião humano dos velhos tempos ganhar a sua côdea neste mundo eletronicamente saturado da recolha de informações, onde sugamos informação da ionosfera com o mesmo entusiasmo irresponsável com que as traineiras industriais aspiram o último peixe?

Vou contar-vos um segredo maravilhoso que se calhar já conhecem mas que os espiões de hoje estão a aprender à sua custa. Velho é bom. Uma máquina de escrever, uma nota manuscrita, uma única cópia ou uma peça de microfilme enfiada numa caixa de correio desativada são bastante mais seguras do que o mais protegido computador superencriptado que existe no mundo. Quando eu era criança, o bloco de notas era inviolável. Espiões em todo o mundo assim pensavam, e enganavam-se. Hoje, à medida que se vão sucedendo os avanços revolucionários na ciberesfera, a contrarrevolução analógica também avança.

Inteligência não é informação. Não é conhecimento. Mesmo quando se torna conhecimento, tem de ser conhecimento no lugar correto, com as etiquetas de prioridade corretas, no edifício correto e no dia correto. Quantas vezes nos têm dito, retrospetivamente, que toda a informação necessária para agir já existia mas nunca foi processada, nunca foi lida pelas pessoas certas e portanto não serviu de nada? Será possível ter demasiada informação — pois quanto mais os nossos famosos espiões eletrónicos devorarem menos serão capazes de digerir?

Então imagine, neste mundo de excesso informativo, a atração mágica da lendária fonte humana com o seu ouvido nos buracos da fechadura dos grandes. Imagine as poupanças em tempo de computador e de especialistas. Imagine passar por cima de todo o erro humano e negligência e pura patetice que são inerentes a qualquer organismo de espionagem demasiado poderoso. Imagine substituir tudo isso por uma voz humana lúcida e fiável que se sobrepõe ao balbuciar eletrónico. Imagine que, em lugar das infindáveis horas gastas em vão a tentar decifrar os códigos do Presidente Putin, se consegue dispor da sua bonita secretária particular a um irrisório milhão de dólares por hora, migalhas quando comparado ao custo de uma rede de computadores tão grandes como o “Titanic”.

Um sonho impossível? Claro que é.

Juntemos todas as fontes humanas que tiveram sucesso a trabalhar para qualquer lado ao longo dos últimos cem anos e, fazendo a soma, percebemos que mesmo as melhores entre elas deram uma contribuição muito pequena. Ou não foram acreditadas, ou a informação que deram não era acionável, ou a verdade que contavam era demasiado real para ser tolerável; por exemplo, os relatórios da CIA para o Presidente Johnson nas fases tardias da guerra do Vietname.

Os nossos espiões ocidentais não sabiam que o Muro ia ser erguido. Não sabiam que ia cair. A CIA achava que Gorbatchov era um aldrabão e sobrestimou muito a ameaça estratégica soviética. Durante as recentes crises no Médio Oriente, espiões comprados à pressa e por grosso a preços inflacionados revelaram-se inúteis, na melhor das hipóteses; e, na pior, mentirosos perigosamente credíveis. Apesar desta análise, que é uma experiência de humildade, continuam os nossos serviços de informação a procurar incessantemente os espiões de amanhã nos becos do mundo? Claro que sim. E, mesmo que no mundo real não o façam, fá-lo-ão no meu. Podem apostar nisso o vosso último dólar.

Texto de Jonh Le Carré
Tradução de Luís M. Faria


http://expresso.sapo.pt/cultura/2016-10-23-O-escritor-que-nasceu-espiao

sábado, 22 de outubro de 2016

Cinco poemas para comemorar os 15 anos de sarau da Cooperifa

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21 de outubro de 2016 - 17h26  



Os cinco poemas a seguir são essenciais para entender um pouquinho do que é o Sarau da Cooperifa, todos surgiram deste que é considerado um dos mais famosos encontros de amantes da literatura do Brasil. Os poetas são Sérgio Vaz (fundador da Cooperifa), Márcio Batista, Elisandra Souza e Dugeto Shabazz.


Direto do Bar do Zé Batidão* para o Vermelho:
Novos Dias

“Este ano vai ser pior...
Pior para quem estiver no nosso caminho.

Então que venham os dias.
Um sorriso no rosto e os punhos cerrados que a luta não para.
Um brilho nos olhos que é para rastrear os inimigos (mesmo com medo, enfrente-os!).
É necessário o coração em chamas para manter os sonhos aquecidos. Acenda fogueiras.
Não aceite nada de graça, nada. Até o beijo só é bom quando conquistado.
Escreva poemas, mas se te insultarem, recite palavrões.
Cuidado, o acaso é traiçoeiro e o tempo é cruel, tome as rédeas do teu próprio destino.
Outra coisa, pior que a arrogância é a falsa humildade.
As pessoas boazinhas também são perigosas, sugam energia e não dão nada em troca.
Fique esperto, amar o próximo não é abandonar a si mesmo.
Para alcançar utopias é preciso enfrentar a realidade.
Quer saber quem são os outros? Pergunte quem é você.
Se não ama a tua causa, não alimente o ódio.
Por favor, gentileza gera gentileza. Obrigado!
Os Erros são teus, assuma-os. Os Acertos Também são teus, divida-os.
Ser forte não é apanhar todo dia, nem bater de vez em quando, é perdoar e pedir perdão, sempre.
Tenho más notícias: quando o bicho pegar, você vai estar sozinho. Não cultive multidões.
Qual a tua verdade ? Qual a tua mentira? Teu travesseiro vai te dizer. Prepare-se!
Se quiser realmente saber se está bonito ou bonita, pergunte aos teus inimigos, nesta hora eles serão honestos.
Quando estiver fazendo planos, não esqueça de avisar aos teus pés, são eles que caminham.
Se vai pular sete ondinhas, recomendo que mergulhe de cabeça.
Muito amor, mas raiva é fundamental.
Quando não tiver palavras belas, improvise. Diga a verdade.
As Manhãs de sol são lindas, mas é preciso trabalhar também nos dias de chuva.
Abra os braços. Segure na mão de quem está na frente e puxe a mão de quem estiver atrás.
Não confunda briga com luta. Briga tem hora para acabar, a luta é para uma vida inteira.
O Ano novo tem cara de gente boa, mas não acredite nele. Acredite em você.
Feliz todo dia!

(Sérgio Vaz)


Negro Ativo

Quem me nega trabalho, negô
Não terá outra chance de negar
Negro é homem trabalhador
Todos sabem, ninguém pode negar.

Quem me nega salário, negô
Não terá outra chance de negar
Meu suor tem valor, meu senhor
Senhor ainda se nega a pagar.

Quem me nega oração, negô
Não terá outra chance de negar
Negro reza pra teus orixás,
Pra Ogum, pra Xangô e Oxalá.

Quem me nega a paz, negô
Não terá outra chance de negar
Nego-ativo livro o mundo sim senhor
Zumbizando pro mundo se libertar.

Quem nega a luta, negô
Não terá outra chance de negar
Capoeira é atitude do negro
Atitude é a força pra lutar.

Quem me nega a raça, nagô
Não terá outra chance de negar
Preto é cor, negro é raça
Sou negro e com raça não vou sonegar.

Quem me nega justiça, negô
Não terá outra chance de negar
Justiça se faz com amor
Negraz, a humanidade é incapaz ao julgar.

Quem me nega amor, negô
Não terá outra chance de negar
Nega ama teu nego em nagô
Negritude pro mundo amar.

Me negaram de tudo
Nesta terra de negro sem lar
Sei que não me negas, senhor,
Sou teu filho, ninguém pode negar

(Márcio Batista)


Menina Pretinha

A tribo está de luto
A mãe chorou
O solo ficou bruto
O feijão ficou duro
O milho murchou
A aldeia entristecida
Correu compadecida
Até as margens do rio...
O tumbeiro partiu
Sem nenhum aceno sumiu
A lágrima rolou
Da menina que o navio levou
E quando aportou
Foi logo acorrentada
E sendo apalpada
Foi vendida como escrava
A futura Rainha Nagô
Os anos se passaram
E a menina pretinha
Transformou-se
Nessa que pede no sinal
Que vende doce em troca de real
Que é mãe aos treze
Que para de estudar aos doze
Que aos onze já se esqueceu de sonhar
É, menina...
A lua te olha tristonha
Mas fica ansiosa
Pois não vê a hora de você reinar
Assumir as suas linhas na história
E ver seus olhos brilhar.

(Elisandra Souza)


Vamos Pra Palmares 
Depois que a noite cair e a treva dominar
O cagueta dormir e o sentinela passar
Eu vou de novo fingir quando o silêncio reinar
Ai eu vou sorrir quando o candeeiro apagar

Trincar por cima do pano para a corrente quebrar
Desmuquifar o aço, faca de cortar jugular
Arrebentar os grilhão pro meu sangue circular
Chamar os nego irmão forte pra capoeirar

Vamo reza um duá depois do salatulichá
Guardar palavra de Allah, amarrar no patuá
Uma estrela e o crescente para nos guiar
Vamo sentido Oriente que eu conheço um lugar

Aonde não tem sinhô, aonde não tem sinhá
E o nego pode comer o que o nego plantar
Onde morrer é melhor, viver pra paz é lutar
Aconteça o que acontecer nóis tamo indo pra lá

Mesmo que eu tenha que cruzar terras e mares
Eu vou pra Palmares, eu vou pra Palmares
Mesmo que no caminho me sangrem os calcanhares
Eu vou pra Palmares, eu vou pra Palmares
Mesmo que os inimigos contra nós sejam milhares
Eu vou pra Palmares, eu vou pra Palmares
Enfrento os Borba Gato e os Raposo Tavares
Eu vou pra Palmares, eu vou pra Palmares

Vamo render o capitão, quebrar a louça do barão
Sacudir o casarão, despojar os dobrão
Levar as filha do sinhô que vai morrer do coração
Tocar fogo na capela e no barracão
Vamos Pra Palmares

Vamo de a pé embrenhar no meio da escuridão
E quando mata adentrar onde num entra alazão
Cor do nego vai camuflar e Allah vai dar proteção
Mãe natureza ajudará abrindo ventre e coração


Subir que nem sucupira e confundir direção
Sem rastro, os astros testemunharão
Mal da mata vai assolar e causar desolação
Inimigos no caminho todos sucumbirão

Vamo cantar uma canção, hino de libertação
Antiga cantiga mandinga mantida recordação
A fé ta no tessubá, promessa ta no alcorão
Faz parte da nossa crença lutar contra a escravidão

Mesmo que eu tenha que cruzar terras e mares
Eu vou pra Palmares, eu vou pra Palmares
Mesmo que no caminho me sangrem os calcanhares
Eu vou pra Palmares, eu vou pra Palmares
Mesmo que os inimigos contra nós sejam milhares
Eu vou pra Palmares, eu vou pra Palmares
Enfrento os Borba Gato e os Raposo Tavares
Eu vou pra Palmares, eu vou pra Palmares

Mesmo que eu tenha que cruzar terras e mares
Mesmo que eu tenha que cortar serras e ares
E que meu sangue regue o chão, solo de nossos lares
Pois todos quilombolas são nossos familiares

Índios e foras da lei, renegados e populares
Mal quistos e mal vistos vindos de vários lugares
Você não tá sozinho porque nós somos seus pares
No levante contra bandeirantes, militares

E se lealdade ao justo Rei jurares
E com as próprias mãos paliçadas cavares
Se por amor a justiça, a causa amares
E por causa da justiça ao amor armares

Quando rufares tambor, quando tambor rufares
Que nos sangrem os calcanhares, contra nós sejam milhares
É tempo de defender nossas raízes milenares
Se esperamos, vacilamos, vamos todos pra Palmares
Mesmo que eu tenha que cruzar terras e mares
Eu vou pra Palmares, eu vou pra Palmares
Mesmo que no caminho me sangrem os calcanhares
Eu vou pra Palmares, eu vou pra Palmares
Mesmo que os inimigos contra nós sejam milhares
Eu vou pra Palmares, eu vou pra Palmares
Enfrento os Borba Gato e os Raposo Tavares
Eu vou pra Palmares, eu vou pra Palmares

(Dugeto Shabazz)


Literaturas das Ruas
A literatura é dama triste que atravessa a rua sem olhar para os pedintes, famintos por conhecimento, que se amontoam nas calçadas frias da senzala moderna chamada periferia. Freqüenta os casarões, bibliotecas inacessíveis ao olho nu e prateleiras de livrarias que crianças não alcançam com os pés descalços.
Dentro do livro ou sob o cárcere do privilégio, ela se deita com Victor Hugo, mas não com os Miseráveis. Beija a boca de Dante, mas não desce até o inferno. Faz sexo com Cervantes e ri da cara do Quixote. É triste, mas A rosa do povo não floresce no jardim plantado por Drummond.
Quanto a nós, Capitães da areia e amados por Jorge, não restou outra alternativa a não ser criar o nosso próprio espaço para a morada da poesia. Assim nasceu o sarau da Cooperifa.
Nasceu da mesma Emergência de Mário Quintana e antes que todos fossem embora pra Passárgada, transformamos o boteco do Zé Batidão num grande centro cultural.
Agora, todas às quartas-feiras, guerreiros e guerreiras de todos os lados e de todas as quebradas vem comungar o pão da sabedoria que é repartido em partes iguais, entre velhos e novos poetas sob a benção da comunidade.
Professores, metalúrgicos, donas de casa, taxistas, vigilantes, bancários, desempregados, aposentados, mecânicos, estudantes, jornalistas, advogados, entre outros, exercem a sua cidadania através da poesia.
Muita gente que nunca havia lido um livro, nunca tinha assistido uma peça de teatro, ou que nunca tinha feito um poema, começou, a partir desse instante, a se interessar por arte e cultura.
O sarau da cooperifa é nosso quilombo cultural.
A bússola que guia a nossa nau pela selva escura da mediocridade.
Somos o grito de um povo que se recusa a andar de cabeça baixa e se prostar de joelhos.
Somos O poema sujo de Ferreira Gullar.
Somos o Rastilho da pólvora.
Somos Um punhado de ossos, de Ivan Junqueira Tecendo a manhã de João Cabral de Melo Neto.
Neste instante, neste país cheio de Machados se achando serra elétrica, nós somos a poesia.
Essa árvore de raízes profundas regada com a água que o povo lava o rosto depois do trabalho.

(Sérigio Vaz)

*Poemas reproduzidos da Internet 


Do Portal Vermelho

quarta-feira, 19 de outubro de 2016

Portugal, 1958

quarta-feira, 19 de outubro de 2016

Portugal, 1958


Kinglsey  Amis (1922 / 1995)

O conhecido escritor inglês Kingsley Amis (1922-1995) publicou em 1958 a novela I Like It Here,  editada entre nós pela Cotovia, em 1990, com tradução de Maria Helder Valério, tendo por título Gosto Disto Aqui. Trata-se de uma obra de ficção, mas com um forte pendor autobiográfico, sendo produto da estadia de Amis entre nós. 

 
Mesão Frio 1958

         - A censura aqui é brava, não é? - perguntou Bowen,
         Gomes reagiu como um homem que sente uma dor súbita, cerrando os maxilares e respirando fundo. Como se sentisse dificuldade em deixar sair as palavras, disse: «Se não vos aborrecer, deixem-me falar-lhes um pouco deste país maravilhoso, do qual tenho a honra de ser cidadão. Sim, é verdade, tal como você disse, a censura é muito apertada. Todas as publicações, sejam de que género forem, têm que ir à censura. Não só jornais e coisas do género, embora possa dizer que estão incluídos periódicos desportivos, compreende, e revistas de decoração, etc. - todos são examinados, à procura de algo de que o regime não goste. Bom, não faz ideia do que isto implica. Se quiser fazer um peditório, ou coisa assim, uma coisa completamente inofensiva, primeiro tem que obter autorização para isso e, se tiver um prospecto impresso, ele vai automaticamente para as mãos do censor. E aquilo de que o censor não gosta - bom, é de tudo o que possa sugerir que alguma coisa não está bem algures; não importa o quê, nem onde. Não me refiro a queixas explícitas contra o Governo: por isso, vai-se para a prisão. Sabem quem treinou a nossa polícia secreta, aquele corpo de homens de élite? O defunto e chorado Himmler, com supervisão pessoal. Mas, voltando à censura: por exemplo, nunca se fala de saúde pública nos jornais, excepto para declarações piedosas dizendo que é maravilhosa, que não podia estar melhor - com os piores bairros de lata da Europa Ocidental à nossa porta, em Lisboa. Nem sequer se pode dizer que as coisas estão a melhorar, porque isso implica que não estão perfeitas. Outra coisa, os acidentes. Nunca são referidos. Vou dar um exemplo: vê esta rede de caminho de ferro?

         Bowen respondeu afirmativamente: estava situada ao longo da costa, ligando Lisboa e Cascais e, embora, mais elegante e mais rápida, lembrara-lhe muitas vezes o comboio tipo eléctrico que ligava Swansea (Rutland Street) a Mumbles Pier: também era o caminho de ferro mais antigo das Ilhas Britânicas.

- Ora bem - diga-me se o estiver a maçar, sim - parte do talude abateu, um belo dia, e o comboio chocou com ele. Um bebé morreu, e uma mulher morrei no hospital. Houve vários feridos graves, Agora repare. Só um jornal dei esta notícia, imagino que por descuido. Os nossos valentes polícias foram lá e encerraram o jornal durante um mês, como aviso. Um aviso para não faltar à política oficial de intrujar e mentir. - Gomes disse isto de modo bem-humorado, por cima do ombro, enquanto acenava e assobiava, a chamar o empregado. - É claro que todos os cartazes de cinema são censurados. No interesse da moral pública, obviamente. Reparem bem, para a próxima, e verão o carimbo. É a Igreja que está por trás disto. Por favor, não me interpretem mal: eu sou um católico fervoroso, ou pelo menos gosto de pensar que sou. Mas não posso perdoar aos bispos o estarem sempre do lado de Salazar em tudo. E os padres. Claro que há muitos padres bons. Mas para muitos deles, compreende, ser padre é uma maneira de escapar à pobreza - é ter finalmente algum dinheiro no bolso. Não há quaisquer sentimentos religiosos. Dois amigos meus, bons católicos, criaram uma sopa dos pobres na aldeia deles, perto de Braga: sopa grátis duas vezes por dia, e pão, para os filhos dos pobres. O padre pregou contra eles de cima do púlpito; era um golpe para o seu prestígio. Na verdade, a Igreja é bastante impopular em algumas áreas, especialmente entre os pobres. Há pouco tempo estavam a reconstruir, lá para o Sul, uma igreja que tinha ardido. Bom, os pobres de lá decidiram que tinham passado muito bem sem o padre a pregar-lhes. Decidiram embebedar-se todos uma noite, e deitaram tudo abaixo outra vez. Este tipo de coisas talvez o faça sorrir. A mim, entristece-me.

Kingsley Amis


Histórias reais – Uma proposta irrecusável



É pouco provável que algum de vós tenha conhecido o Mocambo. Fechou portas em 1958, depois de década e meia de glória no esplendoroso Sunset Boulevard, onde os argumentistas fracassados acabam a boiar nas piscinas. Com a sua decoração carregada de estereótipos de uma América do Sul de caricatura, e as paredes cobertas de jaulas de vidro com papagaios, catatuas, e pombos, devia ser um desses lugares em que tudo é genuinamente postiço. Ver e ser visto no Mocambo era um imperativo para as estrelas da época e nenhuma falhava. E actuar no Mocambo era o empurrão necessário para qualquer carreira musical. Poucos eram, porém, os artistas negros que conseguiam um contrato, numa época em que a segregação racial ainda era a norma.
Impunha-se, portanto, jogar uma carta alta para que uma cantora negra pudesse actuar no Mocambo. Foi necessário que a sua amiga e admiradora fizesse ao dono do clube uma proposta irrecusável. Se ele contratasse certa cantora, a quem apenas a mais preconceituosa burrice poderia cerrar portas, ela, a sua amiga e admiradora, estaria todas as noites na fila da frente do Mocambo, sorriria para as câmaras dos fotógrafos que não deixariam de seguir-lhe os passos e com isso faria ao clube uma publicidade tão esplendorosa que nem o Mocambo poderia desdenhar.
O dono não recusou e a cantora fez um sucesso tal que a sua carreira nunca mais conheceria a sombra. E a amiga e admiradora cumpriu o prometido e lá esteve, sorridente, na primeira fila, noites a fio.
Até ao fim da vida, a cantora reconheceu a dívida de gratidão que tinha para com a sua amiga, a quem retribuiu com lições de canto.
A cantora era Ella Fitzgerald, a amiga e admiradora era Marilyn Monroe. Nunca consegui decidir qual destas versões prefiro, reconhecendo, embora, que a segunda é imperfeita. Talvez por isso mesmo.



 https://aventar.eu/2016/10/19/historias-reais-uma-proposta-irrecusavel/#more-1259645

Overcoming discrimination

On the touring circuit it was well-known that Ella's manager felt very strongly about civil rights and required equal treatment for his musicians, regardless of their color. Norman refused to accept any type of discrimination at hotels, restaurants or concert halls, even when they traveled to the Deep South.
Once, while in Dallas touring for the Philharmonic, a police squad irritated by Norman's principles barged backstage to hassle the performers. They came into Ella's dressing room, where band members Dizzy Gillespie and Illinois Jacquet were shooting dice, and arrested everyone.
"They took us down," Ella later recalled, "and then when we got there, they had the nerve to ask for an autograph."
Norman wasn't the only one willing to stand up for Ella. She received support from numerous celebrity fans, including a zealous Marilyn Monroe.
"I owe Marilyn Monroe a real debt," Ella later said. "It was because of her that I played the Mocambo, a very popular nightclub in the '50s. She personally called the owner of the Mocambo, and told him she wanted me booked immediately, and if he would do it, she would take a front table every night. She told him - and it was true, due to Marilyn's superstar status - that the press would go wild. The owner said yes, and Marilyn was there, front table, every night. The press went overboard. After that, I never had to play a small jazz club again. She was an unusual woman - a little ahead of her times. And she didn't know it."
http://www.ellafitzgerald.com/about/index.html

segunda-feira, 17 de outubro de 2016

Todas as “Lindas” são “Tontas”?

SEGUNDA-FEIRA, 17 DE OUTUBRO DE 2016


‘As mulheres mais bonitas são as que lutam!’
Todas as “Lindas” são “Tontas”?

Semiótica de certa inteligência monstruosa na ética e na lógica do mercado. 

Máscaras da “beleza” burguesa. Como se fosse pouca a avalanche repressora que a ideologia da classe dominante descarregou, historicamente, contra as mulheres, chegou o capitalismo com a sua criatividade e rapidamente as converteu em massa explorada com caráter decorativo e estigma de “cabeça oca”. A burguesia levou séculos a confiar o voto político às mulheres, por exemplo. "No comportamento perante a mulher, despojo e escrava da voluptuosidade comum, manifesta-se a infinita degradação na qual o homem existe para si mesmo... Do carácter desta relação depreende-se até que ponto o homem se tornou e se concebe como ser genérico: a relação entre homem e mulher é a mais natural das relações entre os dois géneros do ser humano". Marx  (traduzido do castelhano)

Convertidas em seres supérfluos, servis e dóceis, as mulheres do ideal burguês deverão assumir, além do mais, um mandato mercantil útil para reforçar o consumismo. Foram habilitadas culturalmente para fazer as compras de pequenas coisas. Nunca o “caro”, nunca o “eletrodoméstico” de “alta gama”, nunca as coisas que o homem compra. Os publicistas sabem bastante dessas trapaças ideológicas. Essa “capacidade” de compra estabelece o grau de êxito que as mulheres devem conquistar no torneio burguês do êxito social, a aceitação e a admiração de outras mulheres. Especialmente para a burguesia, a mulher (que se torna, também, propriedade privada) depende – suaontologia – da quantidade de dinheiro que o marido lhe dá para gastar nas coisas “do dia-a-dia” e na roupa que veste para decorar bem a sua personagem. Chamam-lhes “senhoras”.

Mas há um reduto ideológico (de falsa consciência) no qual se produzem e reproduzem as patologias mais humilhantes do capitalismo. É um reduto histriónico no qual as mulheres se vêem obrigadas a ser “tontas” rendíveis. Isso vê-se na “tele” nos “diários”… em todos os media e em todos os horários. É o reino do individualismo e da veneração do mercado que procura nas mulheres “lindas” a sua presa predileta porque, segundo reza a moral mercenária da publicidade, “o lindo vende”. A isso se deve a profusão histérica de estereótipos que a burguesia impõe às mulheres para as aprisionar numa prisão ideológica invisível aramada com anti valores de mercado e condutas convincentes para pôr a salvo as instituições da família, as igrejas e o estado burguês - O fetichismo da beleza feminina e o seu valor de mercado: vestidas ou nuas.

Trata-se de um reduto ideológico no qual se amassam convicções e condutas que, para cúmulo, conta com a cumplicidade de algumas mulheres e muitos homens. As mais colonizadas procuram a fama na farândola mediática burguesa. Com ou sem êxito, nas artes do exibicionismo das “lindas”, os princípios do mercado predominam, para além do imaginável, na própria vida diária, inclusive no quarto de banho onde entram centenas de produtos “indispensáveis” para manter o modelo de “beleza” ordenado pelos “media”. Trata-se de uma “tontice” imposta que envolve grande astúcia mercenária e uma moral de vendedor que, para se vender a si mesmo, conta com muitos clichés e muito pouco tempo. A “lindura” de mercado dura pouco porque a velocidade do consumismo é uma máquina produtora de desejos humanos infindáveis.

As “lindas” “tontas” são esse cliché que tem tido êxitos mercantis retumbantes. Dizem alguns que é uma forma de “sex appel” que condimenta magnificamente a imposição dos valores burgueses e todas essas aplicações, decadentes e humilhantes, que cada um de nós vê nas ruas na aparência mais cruel que a realidade impõe. Há pessoas que passam a vida inteira sem se aperceberem do papel que lhes é imposto por um sistema económico enfermo, também, como “mercadorias humanas”. Do seu disfarce, aquelas mulheres que representam (com vontade ou sem ela) o papel de “tontas” “lindas” vão medindo com uma vara burguesa a quantidade e a qualidade as suas vitórias sedutoras mais rendíveis. Poderá haver por detrás da aparência de “tontas”, inteligências mercenárias muito brilhantes escondidas entre os traços efémeros da sua “lindura”. Garantidas as regras do negócio, algumas contentam-se com a “fama”, outras aspiram a ser “divas”, pensando que se pode ser “bela”, “tonta” e, além do mais, “madura”. “Velha” é um termo que a burguesia usa quase exclusivamente para as mulheres proletárias.

Por tudo isso é que as lutas de género (que são realmente de classe) no mundo apresentam, com graus diversos, um caráter revolucionário fundamental. É especialmente com essas lutas, não exclusivas de mulheres, que se destrói sistemática e profundamente a ideologia da classe dominante e todas as suas ratoeiras opressoras por mais subtis ou sedutoras que se apresentem. A pesar disso, não contamos ainda com uma corrente crítica internacionalista capaz de gerar repúdios contundentes contra o modelo de humilhação com que a burguesia submete não poucos milhões de mulheres. Em todo o mundo e em pleno século XXI. É necessário sermos conscientes, sensíveis, solidários e proativos nas lutas emancipadoras que não são só de “género” porque são fundamentalmente de classe. É necessário desenvolver uma praxis revolucionária que censure e combata todo o modelo de opressão por mais “lindo” que pareça e abraçando sempre – com força amorosa e força científica – todas as vítimas. Ainda que o “lindo” e o “tonto” façam pensar a essas vítimas serem intocáveis, reverenciáveis ou superiores.

Uma longa lista de lutas, lutadoras e lutadores sociais enriquece a perspetiva revolucionária que nos aproxima de um mundo liberto, por fim, do capitalismo e de toda a parafernália grotesca que nos tem imposto, também, com as suas mercadorias humanas e ideológicas. Nessa longa lista de frentes da luta que se desenvolve, de maneira desigual e combinada, há um reportório de críticas que se impulsiona cientificamente porque aprendeu a não ser vítima das chantagens morais, éticas ou estéticas que a ideologia burguesa exerce fundamentalmente, para nos imobilizar e dominar. Um dia virá em que os povos deixarão de ser vulneráveis à guerra psicológica que usa “o lindo” e o “tonto” (entre milhares de subterfúgios) como estratégias de amolecimento, como ratoeiras para gerar solidariedades que, tarde ou cedo, operarão contras as vítimas. Nada mais anticristão. Um dia aprenderemos a deixar de ser usados pela lógica do mercado ainda que se apresente em “roupas interiores” com gestos sugestivos ou com “formosa” “tontice” imposta, dessa tanta sucata que ajudou a vender num mundo afogado com mercadorias que procuram milhões de compradores compulsivos.

Por Fernando Buen Abad Domínguez
(Trad. CS/LA)