domingo, 15 de março de 2009

IMPERFEIÇÃO - Alfredo Brochado

IMPERFEIÇÃO

Sou eu poeta? Às vezes, penso e digo,
Não sou poeta, não.
Não sou poeta porque não consigo
Vencer o que em mim há de imperfeição.

Sou eu poeta? E muitas vezes penso
E sinto que o não sou.
Ser poeta é ter um voo mais extenso,
É ter um outro voo.

Sou eu poeta? Às vezes isso mesmo
Me custa acreditar.
Que ser poeta é amar a vida inteira, a esmo,
E infelizmente eu não a posso amar.

Sou eu poeta? Um vento de sol-posto
Passa junto a mim, numa vertigem.
E como o vento eu sofro de um desgosto
De que não sei nem saberei a origem.

Mas ser poeta é qualquer coisa mais.
É ter sublimes adivinhações.
É ser, tal como são os imortais,
Da estirpe de Camões.

ALFREDO BROCHADO
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Enviado por Moranguinho Pereira (hi5)
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Sobre Alfredo Brochado (biografia) numa pesquisa com o Google encontrei apenas duas breves referências:

http://www.citador.pt/poemas.php?poemas=Alfredo_Brochado&op=7&author=21237

http://pt.wikipedia.org/wiki/Am%C3%A9rico_Cortez_Pinto

Victor Nogueira


INTERROGAÇÃO - Alfredo Brochado

INTERROGAÇÃO

Onde é que está essa mulher fadada,
Que o meu sonho criou num desvario,
Acaso existe, acaso foi criada,
Ou vive apenas porque eu a crio?

Onde é que vive essa mulher sonhada,
Da minha mesa o vinho e o loiro trigo,
Acaso morta jaz desfeita em nada?
Acaso, assim, há-de vir ter comigo?

Onde é que existe essa mulher que um dia
Eu me pus a chamar e não me ouviu,
Onde é que passa oculta a sua vida,
Acaso nunca essa mulher me viu?

Acaso, às vezes penso, essa mulher
Traz em sua alma algum poder oculto,
Para que nunca, ou uma vez sequer,
Caísse em mim a sombra do seu vulto?

Acaso nunca essa mulher que eu sonho,
Há-de vir abraçar-se ao meu desejo,
Pondo em mim esse amor que nela eu ponho,
Acaso nunca me dará um beijo?

Acaso nunca essa mulher que eu amo,
Como se pode amar com mais loucura,
Há-de vir até mim quando eu a chamo,
Para me dar um pouco de ternura?

Acaso nunca essa mulher dilecta
Enxugará meus olhos ao sol-pôr,
E trará ao meu sonho de poeta
Um bocadinho do seu grande amor?

Acaso nunca essa mulher que é alma,
Há-de trazer ao meu viver incerto
Um quase nada de ternura e calma,
Para que eu veja Deus já de mais perto?

Acaso nunca essa mulher essência,
Perfeita como as santas dos vitrais,
Há-de vir embalar minha existência?
Acaso nunca ela há-de vir, Jamais?

ALFREDO BROCHADO
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enviado por Moranguinho Pereira (hi5)
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sábado, 14 de março de 2009

NÃO FORA O MAR! - Fernanda de Castro

NÃO FORA O MAR!

Não fora o mar,
e eu seria feliz na minha rua,
neste primeiro andar da minha casa
a ver, de dia, o sol, de noite a lua,
calada, quieta, sem um golpe de asa.

Não fora o mar,
e seriam contados os meus passos,
tantos para viver, para morrer,
tantos os movimentos dos meus braços,
pequena angústia, pequeno prazer.

Não fora o mar,
e os seus sonhos seriam sem violência
como irisadas bolas de sabão,
efémero cristal, branca aparência,
e o resto — pingos de água em minha mão.

Não fora o mar,
e este cruel desejo de aventura
seria vaga música ao sol pôr
nem sequer brasa viva, queimadura,
pouco mais que o perfume duma flor.

Não fora o mar
e o longo apelo, o canto da sereia,
apenas ilusão, miragem,
breve canção, passo breve na areia,
desejo balbuciante de viagem.

Não fora o mar
e, resignada, em vez de olhar os astros
tudo o que é alto, inacessível, fundo,
cimos, castelos, torres, nuvens, mastros,
iria de olhos baixos pelo mundo.

Não fora o mar
e o meu canto seria flor e mel,
asa de borboleta, rouxinol,
e não rude halali, garra cruel,
Águia Real que desafia o sol.

Não fora o mar
e este potro selvagem, sem arção,
crinas ao vento, com arreio,
meu altivo, indomável coração,

Não fora o mar
e comeria à mão,
não fora o mar
e aceitaria o freio.

FERNANDA DE CASTRO
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Enviado por Moranguinho Pereira (hi5)
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Paz - Natália Correia

PAZ

Irreprimível natureza
exacta medida do sem-fim
não atinjas outras distâncias
que existem dentro de mim.

Que os meus outros rostos não sejam
o instável pretexto da minha essência.
Possam meus rios confluir
para o mar duma só consciência.

Quero que suba à minha fronte
a serenidade desta condição:
harmonia exterior à estátua
que sabe que não tem coração.

NATÁLIA CORREIA
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sexta-feira, 13 de março de 2009

ONDE O HOMEM NÃO CHEGA - Fernanda de Castro

ONDE O HOMEM NÃO CHEGA

Onde o Homem não chega tudo é puro,
dessa pureza da primeira infância.
Tudo é medida, ritmo, concordância,
tudo é claro e auroral: a noite, o escuro.

E nem o vendaval é dissonância
mas promessa de sol e de futuro.
Quem levantou esse primeiro Muro
que do perto fez longe, ergueu distância?

Foi o Homem, com suas mãos de barro,
com suas mãos perjuras, fel e sarro
de inútil sofrimento e vil prazer.

Não é tarde, porém: sacode a lama,
ergue o facho, levanta a Deus a chama
e recomeça: acabas de nascer.

FERNANDA DE CASTRO
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JÁ NÃO VIVI, SÓ PENSO - Fernanda de Castro

JÁ NÃO VIVI, SÓ PENSO

Já não vivo, só penso. E o pensamento
é uma teia confusa, complicada,
uma renda subtil feita de nada:
de nuvens, de crepúsculos, de vento.

Tudo é silêncio. O arco-íris é cinzento,
e eu cada vez mais vaga, mais alheada.
Percorro o céu e a terra aqui sentada,
sem uma voz, um olhar, um movimento.

Terei morrido já sem o saber?
Seria bom mas não, não pode ser,
ainda me sinto presa por mil laços,

ainda sinto na pele o sol e a lua,
ouço a chuva cair na minha rua,
e a vida ainda me aperta nos seus braços.

FERNANDA DE CASTRO
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Enviada por Moranguinho Pereira (hi5)
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quinta-feira, 12 de março de 2009

OS JUSTOS - Jorge Luís Borges

OS JUSTOS

Um homem que cultiva o seu jardim, como queria Voltaire.
O que agradece que na terra haja música.
O que descobre com prazer uma etimologia.
Dois empregados que num café do Sul jogam um silencioso xadrez.
O ceramista que premedita uma cor e uma forma.
O tipógrafo que compõe bem esta página, que talvez não lhe agrade.
Uma mulher e um homem que lêem os tercetos finais de certo canto.
O que acarinha um animal adormecido.
O que justifica ou quer justificar um mal que lhe fizeram.
O que agradece que na terra haja Stevenson.
O que prefere que os outros tenham razão.
Essas pessoas, que se ignoram, estão a salvar o mundo.

JORGE LUIS BORGES
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quarta-feira, 11 de março de 2009

RAINY DAY WOMAN - Bob Dylan

RAINY DAY WOMAN #12 & 35

“Well, they'll stone ya when you're trying to be so good.
They'll stone ya just a-like they said they would.
They'll stone ya when you're tryin' to go home
Then they'll stone ya when you're there all alone,
But I would not feel so all alone.
Everybody must get stoned.

Well, they'll stone ya when you're walkin' ‘long the street.
They'll stone ya when you're tryin' to keep your seat.
They'll stone ya when you're walkin' on the floor.
They'll stone ya when you're walkin' to the door,
But I would not feel so all alone.
Everybody must get stoned.

They'll stone ya when you're at the breakfast table.
They'll stone ya when you're young and able.
They'll stone ya when you're tryin' to make a buck.
They'll stone ya and then they'll say "good luck,"
Tell ya what, I would not feel so all alone.
Everybody must get stoned.

Well, they'll stone you and say that it's the end
Then they'll stone you and then they'll come back again.
They'll stone you when you're riding in your car.
They'll stone you when you're playing your guitar.
Yes, but I would not feel so all alone.
Everybody must get stoned.

Well, they'll stone you when you walk all alone.
They'll stone you when you are walking home.
They'll stone you and then say you are brave.
They'll stone you when you are set down in your grave,
But I would not feel so all alone.
Everybody must get stoned.”

Bob Dylan

Tradução de Angelina Barbosa e Pedro Serrano:

MULHERES DE TEMPOS DIFÍCEIS N.º 12 & 35

“Bem, vão apedrejar-te quando estiveres a tentar portar-te bem.
Vão apedrejar-te exactamente como disseram que o fariam.
Vão apedrejar-te quando estiveres a tentar ir para casa.
Depois vão apedrejar-te quando estiveres lá completamente só
Mas eu não me sentiria assim tão só
Toda a gente há-de apanhar uma pedrada.

Bem, vão apedrejar-te quando estiveres a andar pela rua.
Vão apedrejar-te quando estiveres a tentar guardar o teu lugar.
Vão apedrejar-te quando estiveres a andar dentro de casa
Vão apedrejar-te quando estiveres a dirigir-te para a porta,
Mas eu não me sentiria assim tão só
Toda a gente há-de apanhar uma pedrada.

Bem, vão apedrejar-te quando estiveres à mesa do pequeno-almoço.
Vão apedrejar-te quando fores jovem e capaz.
Vão apedrejar-te quando estiveres a tentar ganhar uns cobres.
Vão apedrejar-te e depois dirão "boa sorte".
Vou-te dizer, eu não me sentiria assim tão só
Toda a gente há-de apanhar uma pedrada.

Bem, vão apedrejar-te e dizer que é o fim
Então vão apedrejar-te e depois voltarão outra vez.
Vão apedrejar-te quando estiveres a passear no teu carro.
Vão apedrejar-te quando estiveres a tocar a tua guitarra
Sim, mas eu não me sentiria assim tão só
Toda a gente há-de apanhar uma pedrada.

Bem, vão apedrejar-te quando andares completamente só
Vão apedrejar-te quando estiveres a ir para casa.
Vão apedrejar-te e depois dirão que és corajoso.
Vão apedrejar-te quando estiveres pousado na tua sepultura
Mas eu não me sentiria assim tão só.
Toda a gente há-de apanhar uma pedrada.”
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Enviado por Guilhermina Abreu (hi5)
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segunda-feira, 9 de março de 2009

SEGREDO - Fernando Ferreira do Amaral

SEGREDO

Esta noite morri muitas vezes, à espera
de um sonho que viesse de repente
e às escuras dançasse com a minha alma
enquanto fosses tu a conduzir
o seu ritmo assombrado nas trevas do corpo,
toda a espiral das horas que se erguessem
no poço dos sentidos. Quem és tu,
promessa imaginária que me ensina
a decifrar as intenções do vento,
a música da chuva nas janelas
sob o frio de fevereiro? O amor
ofereceu-me o teu rosto absoluto,
projectou os teus olhos no meu céu
e segreda-me agora uma palavra:
o teu nome - essa última fala da última
estrela quase a morrer
pouco a pouco embebida no meu próprio sangue
e o meu sangue à procura do teu coração.

FERNANDO PINTO DO AMARAL
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From Moranguinho Pereira (hi5)
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domingo, 8 de março de 2009

CANTIGA - Béatrix de Viennois,

CANTIGA

Grã coita tenho sofrido
Por homem que desdenhei.
Que sempre seja sabido
Quanto o amo e amarei.
É-me agora fementido
Por amor que eu receava.
E doida eu ‘stava em vestido
Ou se nua me deitava.

Ai quero ao meu cavaleiro
Apertar às tetas brancas!
O corpo dou-lh’ eu inteiro,
Cavalgará minhas ancas!
Ca lh’ estou mais que rendida
Flora o foi de Brancaflor,
E todo seu meu amor,
Minh’alma, os olhos, e a vida.

Ai meu amigo velido!
S’ em meu poder vos tomar
E convosco me deitar
E d’amor eu vos beijar,
Não há nenhum mor prazer
Que vos ter com’ a marido,
Se de vós for prometido
Fazerdes quant’ eu quiser.

Béatrix de Viennois, Condessa de Die
(Provença, falecida em 1160)
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Enviado por Guilhermina Abreu (hi5)
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A MULHER MAIS BONITA DO MUNDO - José Luís Peixoto

A MULHER MAIS BONITA DO MUNDO

estás tão bonita hoje. quando digo que nasceram
flores novas na terra do jardim, quero dizer
que estás bonita.

entro na casa, entro no quarto, abro o armário,
abro uma gaveta, abro uma caixa onde está o teu fio
de ouro.

entre os dedos, seguro o teu fino fio de ouro, como
se tocasse a pele do teu pescoço.

há o céu, a casa, o quarto, e tu estás dentro de mim.

estás tão bonita hoje.

os teus cabelos, a testa, os olhos, o nariz, os lábios.

estás dentro de algo que está dentro de todas as
coisas, a minha voz nomeia-te para descrever
a beleza.

os teus cabelos, a testa, os olhos, o nariz, os lábios.

de encontro ao silêncio, dentro do mundo,
estás tão bonita é aquilo que quero dizer.

JOSÉ LUIS PEIXOTO
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Enviado por Moranguinho Pereira (hi5)
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RETRATO DE UM AMOR - Fernando Pinto do Amaral

RETRATO DE UM AMOR

Iluminas
a sombra dos meus dias
neste mundo que abrimos devagar
entre o corpo e a alma, sempre mais
secretos no abismo que os devora.

Maior do que este amor nada haverá
até ao fim dos tempos: os teus olhos
respondem ao destino, à sua eterna
graça que paira sobre as nossas vidas
agora a transbordarem numa única
razão feita de luz. a tua boca
inunda a minha língua com o sabor
de todos os sentidos que mergulham
a noite numa água sem retorno.

Para ti absorvo o hálito de um verão
em cada beijo cego, surdo e mudo
respirando de súbito em uníssono:
enigma revelado num só frémito,
insónia submersa que , em silêncio,
regressa pouco a pouco aos nossos braços
afogados na espuma do seu mar.

Perto do teu sorriso há uma fonte
embriagada e pura- meu amor,
dá-me esse coração, essa primeira
raiz de todo o fogo, esse relâmpago
onde cresce para nós a flor de um grito;
segreda-me às escuras mais um sonho
antes de adormeceres sobre o meu ombro.

FERNANDO PINTO DO AMARAL
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Enviado por Moranguinho Pereira (hi5)
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sábado, 7 de março de 2009

CANÇÃO DE TODOS - - Raul de Léon

CANÇÃO DE TODOS

Duas almas deves ter...
É um conselho dos mais sábios;
Uma, no fundo do Ser,
Outra, boiando nos lábios!

Uma, para os circunstantes,
Solta nas palavras nuas
Que inutilmente proferes,
Entre sorrisos e acenos:
A alma volúvel da ruas,
Que a gente mostra aos passantes,
Larga nas mãos das mulheres,
Agita nos torvelinhos,
Distribui pelos caminhos
E gasta sem mais nem menos,
Nas estradas erradias,
Pelas horas, pelos dias...

Alma anônima e usual,
Longe do Bem e do Mal,
Que não é má nem é boa,
Mas, simplesmente, ilusória,

Ágil, sutil, diluída,
Moeda falsa da Vida,
Que vale só porque soa,
Que compra os homens e a glória
E a vaidade que reboa
Alma que se enche e transborda,
Que não tem porquê nem quando,
Que não pensa e não recorda,
Não ama, não crê, não sente,
Mas vai vivendo e passando
No turbilhão da torrente,
Través intrincadas teias,
Sem prazeres e sem mágoas.
Fugitiva como as águas,
Ingrata como as areias.

Alma que passa entre apodos
Ou entre abraços, sorrindo,
Que vem e vai, vai e vem,
Que tu emprestas a todos,
Mas não pertence a ninguém.
Salamandra furta-cor,
Que muda ao menor rumor
Das folhas pelas devesas;
Alma que nunca se exprime,
Que é uma caixa de surpresas
Nas mãos dos homens prudentes;
Alma que é talvez um crime,
Mas que é uma grande defesa.

A outra alma, pérola rara,
Dentro da concha tranqüila,
Profunda, eterna e tão cara
Que poucos podem possuí-la,
É alma que nas entranhas
Da tua vida murmura
Quando paras e repousas.
A que assiste das Montanhas
As livres desenvolturas
Do panorama das cousas

Para melhor conhecê-las
E jamais comprometê-las,
Entre perdões e doçuras,
Num pudor silencioso,
Com o mesmo olhar generoso,
Com que contempla as estrelas
E assiste o sonho das flores...

Alma que é apenas tua,
Que não te trai nem te engana,
Que nunca se desvirtua,
Que é voz do mundo em surdina.
Que é a semente divina

Da tua têmpera humana,
Alma que só se descobre
Para uma lágrima nobre,
Para um heroísmo afetivo,
Nas íntimas confidências
De verdade e de beleza:

Milagre da natureza
Transcorrendo em reticências
Num sonho límpido e honesto,
De idealidade suprema,
Ora, aflorando num gesto,
Ora, subindo num poema.

Fonte do Sonho, jazida
Que se esconde aos garimpeiros,
Guardando, em fundos esteiros,
O ouro da tua Vida.

Alma de santo e pastor,
De herói, de mártir e de homem;
A redenção interior
Das forças que te consomem,
A legenda e o pedestal
Que se aprofunda e se agita
Da aspiração infinita
No teu ser universal.

Alma profunda e sombria,
Que ao fechar-se cada dia,
Sob o silêncio fecundo
Das horas graves e calmas,
Te ensina a filosofia
Que descobriu pelo mundo,
Que aprendeu nas outras almas

Duas almas tão diversas
Como o poente das auroras:
Uma, que passa nas horas;
Outra, que fica no tempo.


Como o poente das auroras:
Uma, que passa nas horas;
Outra, que fica no tempo.

RAUL DE LEÔNI
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QUE OUTRO NOME - David Mestre

QUE OUTRO NOME

«Que rio se pode
abrir na língua acesa
para o capim crepitando
baixo. Que palavra
por ele nasce

e corre corre a lua
e outra lua sem que regresse
ao corpo. Que outro nome
te demos
vestida e no escuro desposada.

Liberdade.

Que tempo de
ocultar o nome sabíamos
perder e nem

de moscardo zumbias: Ngola

nosso pouco maruvo eras
no terreiro anunciada.

Liberdade.

Quem das copas pronuncia
os teus lábios na terra? Nzambi
neles tivesse
mordiscado leve.

Liberdade.»

David Mestre (poeta angolano)
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Sorriso (hi5) -
7/Mar/2009 3:21
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quinta-feira, 5 de março de 2009

QUEM SABE UM DIA - Mário Quintana

QUEM SABE UM DIA

Quem
sabe um dia
Quem sabe um seremos
Quem sabe um viveremos
Quem sabe um morreremos!

Quem é que
Quem é macho
Quem é fêmea
Quem é humano, apenas!

Sabe amar
Sabe de mim e de si
Sabe de nós
Sabe ser um!

Um dia
Um mês
Um ano
Um(a) vida!

Sentir primeiro, pensar depois
Perdoar primeiro, julgar depois

Amar primeiro, educar depois
Esquecer primeiro, aprender depois

Libertar primeiro, ensinar depois
Alimentar primeiro, cantar depois

Possuir primeiro, contemplar depois
Agir primeiro, julgar depois

Navegar primeiro, aportar depois
Viver primeiro, morrer depois

MÁRIO QUINTANA
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VA, CHANSON, À TIRE-D'AILE... - Paul Verlaine -

VA, CHANSON, À TIRE-D'AILE...

“Va, chanson, à tire-d'aile
Au-devant d'Elle, et dis-lui
Bie que dans mon coeur fidèle
Un rayon joyeux a lui,

Dissipant, lumière sainte,
Ces ténèbres de l'amour:
Méfiance, doute, crainte,
Et que voici le grand jour!

Longtemps craintive et muette,
Entendez-vous? la gâité,
Comme une vive alouette,
Dans le ciel clair a chanté.

Va donc, chanson ingénue,
Et que, sans nul regret vain,
Elle soit la bienvenue
Celle qui revient enfin.”

Paul Verlaine
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VOGLIO UN AMORE DOLOROSO... - Gabriele D'Annunzio

Adoro a escrita de D'Annunzio, na arte as idéias políticas não me interessam pra nada.)

VOGLIO UN AMORE DOLOROSO...

"Voglio un amore doloroso, lento,
che lento sia come una lenta morte,
e senza fine (voglio che più forte
sie della morte) e senza mutamento.

Voglio che senza tregua in un tormento
occulto sien le nostre anime assorte;
e un mare sia presso a le nostre porte,
solo, che pianga in un silenzio intento.

Voglio che sia la torre alta granito,
ed alta sia così che nel sereno
sembri attingere il grande astro polare.

Voglio un letto di porpora, e trovare
in quell'ombra giacendo su quel seno,
come in fondo a un sepolcro, l'Infinito."

Gabriele D'Annunzio
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ERRO DE PORTUGUÊS - Oswald de Andrade

ERRO DE PORTUGUÊS

Quando o português chegou
Debaixo de uma bruta chuva
Vestiu o índio
Que pena!
Fosse uma manhã de sol
O índio tinha despido
O português.

OSWALD DE ANDRADE

quarta-feira, 4 de março de 2009

MARMITA - Lêdo Ivo

MARMITA

Em sua marmita
não leva o operário
qualquer metafísica.
Leva peixe frito,
arroz e feijão.
Dentro dela tudo
tem lugar marcado.
Tudo é limitado
e nada é infinito.
A caneca dágua
tem espaço apenas
para a sua sede.
E a marmita é igual
à boca do estômago,
feita sob medida
para a sua fome.
E quando termina
sua refeição,
ele ainda cata
todas as migalhas,
todo esse farelo
de um pão que suasse
durante o trabalho.
Tudo quanto ganha
o operário aplica
como um capital
em sua marmita.
E o que ele não ganha
embora trabalhe
é outro capital
que também investe:
palavra que diz
em seu sindicato,
frase que se escreve
no muro da fábrica,
visão do futuro
que nasce em seus olhos
que só com fumaça
se enchem de lágrimas.
Em sua marmita
não leva o operário
o caviar de
qualquer metafísica.
E sendo ele o mais
exato dos homens
tudo nele é físico
e material,
tem seu nome e forma,
seu peso e volume,
pode-se pegar.
Seu amor tem saia
pêlos e mucosas
e, fecundo, faz
novos operários.
As coisas se medem
pelo seu tamanho:
sono, mesa, trave.
No trem ou no bonde
nenhum operário
pode se espalhar
sem fazer esforço.
É como no mundo:
— tem que empurrar.
Vasilhame cheio
de matéria justa,
sua vida é exata
como uma marmita.
Nela cabe apenas
toda a sua vida.
E não cabe a morte
que esta não existe,
não sendo manual,
não sendo uma peça
de recauchutar.
(Artigo infinito,
sem ferro e sem aço,
qualquer um a embrulha
sem usar barbante
ou papel almaço.)
Fabril e imanente
o operário vive
do que sabe e faz
e, sendo vivente,
respira o que vê.
O tempo que o suja
de óleo e fuligem
é o mesmo que o lava,
tempo feito de água
aberta na tarde
e não de relógio.
E a própria marmita
também é lavada.
E quando ele a leva
de volta pra casa
ela, metal, cheira
menos a comida
do que a operário.


LÊDO IVO
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POEMA INVOLUNTÁRIO - Natália Correia

* Natália Correia


Decididamente a palavra
quer entrar no poema e dispõe
com caligráfica raiva
do que o poeta no poema põe.


Entretanto o poema subsiste
informal em teus olhos talvez
mas perdido se em precisa palavra
significas o que vês.


Virtualmente teus cabelos sabem
se espalhando avencas no travesseiro
que se eu digo prodigiosos cabelos
as insólitas flores que se abrem
não têm sua cor nem seu cheiro.


Finalmente vejo-te e sei que o mar
o pinheiro a nuvem valem a pena
e é assim que sem poetizar
se faz a si mesmo o poema.


NATÁLIA CORREIA
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CANTO GRANDE - Manuel Bandeira

* Manuel Bandeira


Não tenho mais canções de amor.
Joguei tudo pela janela.
Em companhia da linguagem
fiquei, e o mundo se elucida.


Do mar guardei a melhor onda
que é menos móvel que o amor.
E da vida, guardei a dor
de todos os que estão sofrendo.


Sou um homem que perdeu tudo
mas criou a realidade,
fogueira de imagens, depósito
de coisas que jamais explodem.


De tudo quero o essencial:
o aqueduto de uma cidade,
rodovia do litoral,
o refluxo de uma palavra.


Longe dos céus, mesmo dos próximos,
e perto dos confins da terra,
aqui estou. Minha canção
enfrenta o inverno, é de concreto.


Meu coração está batendo
sua canção de amor maior.
Bate por toda a humanidade,
em verdade não estou só.


Posso agora comunicar-me
e sei que o mundo é muito grande.
Pela mão, levam-me as palavras
a geografias absolutas.




MANUEL BANDEIRA
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terça-feira, 3 de março de 2009

QUASE UM POEMA DE AMOR - Miguel Torga

QUASE UM POEMA DE AMOR
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Há muito tempo já que não escrevo um poema
de amor.
E é o que eu sei fazer com mais delicadeza!
A nossa natureza
Lusitana
Tem essa humana
Graça
Feiticeira
De tornar de cristal
A mais sentimental
E baça
Bebedeira.
.
Mas ou seja que vou envelhecendo
E ninguém me deseje apaixonado,
Ou que a antiga paixão
Me mantenha calado
O coração
Num íntimo pudor,
Há muito tempo já que não escrevo um poema
De amor
.
MIGUEL TORGA
,

TRÊS IDADES - Manuel Bandeira

A vez primeira que te vi,
Era eu menino e tu menina.
Sorrias tanto... Havia em ti
Graça de instinto, airosa e fina.
Eras pequena, eras frnazina...

A ver-te, a rir numa gavota,
Meu coração entristeceu
Por que? Relembro, nota a nota,
Essa ária como eterneceu
O meu olhar cheio do teu.

Quando te vi segunda vez,
Já eras moça, e com que encanto
A adolescência em ti se fez!
Flor e botão... Sorrias tanto...
E o teu sorriso foi meu pranto...

Já eras moça... Eu, um menino...
Como contar-te o que passei?
Seguiste alegre o teu destino...
Em pobres versos te chorei
Teu caro nome abençoei.

Vejo-te agora. Oito anos faz,
Oito anos faz que não te via...
Quanta mudança o tempo traz
Em sua atroz monotonia!
Que é do teu riso de alegria?

Foi bem cruel o teu desgosto.
Essa tristeza é que diz...
Ele marcou sobre o teu rosto
A imperecível cicatriz:
És triste até quando sorris...

Porém teu vulto conservou
A mesma graça ingênua e fina...
A desventura te afeiçoou
À tua imagem de menina.
E estás delgada, estás franzina...

MANUEL BANDEIRA
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segunda-feira, 2 de março de 2009

Eça de Queirós - Uma Campanha Alegre

Lisboa - escultura de Teixeira Lopes
"Sob o manto diáfano da fantasia, a nudez crua da verdade"


Clique na imagem para ler

por : Prolific_Writer

Publicado em: fevereiro 14, 2009



Eça de Queirós concebe a crónica como um género jornalístico em que o narrador goza de uma certa liberdade em termos narrativos, sendo que ela nos retracta essencialmente acontecimentos sociais (festas, bailes, teatros, modas), romances, histórias, crimes, segredos, ou seja, factos que são inerentes à feição geral de um povo ou de uma comunidade. A subjectividade do cronista está presente na visão que nos é transmitida já que, ora nos revela o afeiçoamento do narrador a determinadas situações ou personagens, ou então deixa transparecer subtilmente o distanciamento, ou mesmo a oposição, a certos factos ou acontecimentos. Comparativamente a outras formas jornalísticas, a crónica tem a virtude de ser mais severa e contundente nas suas críticas dado que, por exemplo, enquanto o artigo de fundo encerra nas suas linhas uma crítica mais implícita do que explícita, a crónica provoca intencionalmente os seus alvos, ridicularizando e escarnecendo através de caricaturas..
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A atenção e a importância que são atribuídas à crónica pelos leitores difere, como qualquer secção de um jornal, de acordo com o estado de espírito próprio de uma nação, que envolve a sua situação económica, política, social e cultural, ou em função de acontecimentos que marcam uma determinada época, seja a nível nacional ou internacional. A crónica procura normalmente notícias que possam, pelo escândalo, pelo horror ou pela maravilha que encerram, constituir um facto interessante para o público. O critério de selecção dessas notícias têm a ver, por um lado com a escolha do próprio cronista, por outro lado com o interesse que são susceptíveis de despertar no leitor, seja pela sua novidade, singularidade ou natureza específica. Para além disso, há que referir também que, sendo a crónica norteada pela moralidade que é inerente à personalidade do narrador, os seus temas são geralmente factos passíveis de trazerem benefícios visíveis a uma comunidade ou população, ou então manifestações de grandeza moral e de dignidade.
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Em termos formais, o tom geral da crónica desenvolve-se através de um vocabulário (normalmente) corrente e acessível e a sua linguagem deve ser simples e escorreita. As anedotas enquadram-se dentro deste nível global de linguagem e de vocabulário que procuram transmitir à crónica uma componente irónica e graciosa, mormente pela utilização de caricaturas cujo objectivo é ridicularizar traços físicos ou psicológicos de uma personagem, personagem essa que normalmente não é fixa já que pode entrar e sair da narração conforme os actos que pratica ou as acções de que é protagonista. Esta capacidade de ridicularizar subtilmente, com humor e ironia, faz da crónica um género jornalístico de combate político já que as caricaturas que são jocosamente engendradas, para além de escarnecerem certas particularidades das personagens (verdadeiras ou não), fá-lo com uma graciosidade incomodativa para o sujeito que é caricaturado. Relembre-se, a propósito, que as caricaturas não podem ser tomadas a sério na sua totalidade o que faz delas, simultaneamente, instrumento de escárnio e de ataque, sempre com um fundo de inocência ressalvado por não serem completamente levadas a sério.
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Apesar de ter nalguns casos um carácter predominantemente informativo, a crónica não é um género fechado, rígido. Ela pode assumir-se como artigo de fundo, correspondência ou até como artigo político já que ela é uma secção livre onde podem surgir anedotas, histórias, intrigas, contos, sempre com uma componente humorística que procura divertir o leitor. As suas fontes são os dados da vida quotidiana, quer a nível nacional ou internacional, e provêm de conversas, acontecimentos, ou factos investigados pelo cronista em jornais, artigos ou noticiários. O tom geral da crónica poderá ser mais alegre ou mais sério de acordo com o acontecimento que é relatado e com a especificidade da época em que está inserido, sem nunca perder completamente o seu lado humorístico que tem por finalidade distrair o leitor.
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Concluindo e sintetizando a concepção de crónica em Eça de Queirós, diremos que a originalidade da crónica consiste um pouco nisto: buscar nos acontecimentos da vida quotidiana (e não só) factos que contenham uma certa carga emocional e afectiva, e moldar esses acontecimentos (um rapto, um suicídio) de acordo com a estrutura formal da crónica enquanto género, constituem verdadeiramente a sua originalidade. Quando se fala aqui em acontecimentos há que dizer que essa referência é feita em termos genéricos já que um acontecimento, digno de figurar numa crónica, tanto poderá ser um rapto ou um suicídio, como a problematização de temáticas políticas
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in
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http://pt.shvoong.com/humanities/theory-criticism/1867740-uma-campanha-alegre/

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Bibliografia

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domingo, 1 de março de 2009

NÃO TENHO PRESSA - Alberto Caeiro

Não tenho pressa. Pressa de quê?
Não têm pressa o sol e a lua: estão certos.
Ter pressa é crer que a gente passa adiante das pernas,
Ou que, dando um pulo, salta por cima da sombra.
Não; não sei ter pressa.
Se estendo o braço, chego exactamente aonde o meu braço chega -
Nem um centímetro mais longe.
Toco só onde toco, não aonde penso.
Só me posso sentar aonde estou.
E isto faz rir como todas as verdades absolutamente verdadeiras,
Mas o que faz rir a valer é que nós pensamos sempre noutra coisa,
E vivemos vadios da nossa realidade.
E estamos sempre fora dela porque estamos aqui.

ALBERTO CAEIRO
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sábado, 28 de fevereiro de 2009

Balada do enterrado vivo - Vinicius de Morais

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Na mais medonha das trevas
Acabei de despertar
Soterrado sob um túmulo.
De nada chego a lembrar
Sinto meu corpo pesar
Como se fosse de chumbo.
Não posso me levantar
Debalde tentei clamar
Aos habitantes do mundo.
Tenho um minuto de vida
Em breve estará perdida
Quando eu quiser respirar.
Meu caixão me prende os braços.
Enorme, a tampa fechada
Roça-me quase a cabeça.
Se ao menos a escuridão
Não estivesse tão espessa!
Se eu conseguisse fincar
Os joelhos nessa tampa
E os sete palmos de terra
Do fundo à campa rasgar!
Se um som eu chegasse a ouvir
No oco deste caixão
Que não fosse esse soturno
Bater do meu coração!
Se eu conseguisse esticar
Os braços num repelão
Inda rasgassem-me a carne
Os ossos que restarão!
Se eu pudesse me virar
As omoplatas romper
Na fúria de uma evasão
Ou se eu pudesse sorrir
Ou de ódio me estrangular
E de outra morte morrer!




Mas só me resta esperar
Suster a respiração
Sentindo o sangue subir-me
Como a lava de um vulcão
Enquanto a terra me esmaga
O caixão me oprime os membros
A gravata me asfixia
E um lenço me cerra os dentes!
Não há como me mover
E este lenço desatar
Não há como desmanchar
O laço que os pés me prende!
Bate, bate, mão aflita
No fundo deste caixão
Marca a angústia dos segundos
Que sem ar se extinguirão!
Lutai, pés espavoridos
Presos num nó de cordão
Que acima, os homens passando
Não ouvem vossa aflição!
Raspa, cara enlouquecida
Contra a lenha da prisão
Pesando sobre teus olhos
Há sete palmos de chão!
Corre mente desvairada
Sem consolo e sem perdão
Que nem a prece te ocorre
À louca imaginação!
Busca o ar que se te finda
Na caverna do pulmão
O pouco que tens ainda
Te há de erguer na convulsão
Que romperá teu sepulcro
E os sete palmos de chão:
Não te restassem por cima
Setecentos de amplidão!

VINICIUS DE MORAES
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sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

O Relógio - João Cabral de Melo Neto

O RELÓGIO

1.

Ao redor da vida do homem
há certas caixas de vidro,
dentro das quais, como em jaula,
se ouve palpitar um bicho.

Se são jaulas não é certo;
mais perto estão das gaiolas
ao menos, pelo tamanho
e quadradiço de forma.

Uma vezes, tais gaiolas
vão penduradas nos muros;
outras vezes, mais privadas,
vão num bolso, num dos pulsos.

Mas onde esteja: a gaiola
será de pássaro ou pássara:
é alada a palpitação,
a saltação que ela guarda;

e de pássaro cantor,
não pássaro de plumagem:
pois delas se emite um canto
de uma tal continuidade

que continua cantando
se deixa de ouvi-lo a gente:
como a gente às vezes canta
para sentir-se existente.


2.

O que eles cantam, se pássaros,
é diferente de todos:
cantam numa linha baixa,
com voz de pássaro rouco;

desconhecem as variantes
e o estilo numeroso
dos pássaros que sabemos,
estejam presos ou soltos;

têm sempre o mesmo compasso
horizontal e monótono,
e nunca, em nenhum momento,
variam de repertório:

dir-se-ia que não importa
a nenhum ser escutado.
Assim, que não são artistas
nem artesãos, mas operários

para quem tudo o que cantam
é simplesmente trabalho,
trabalho rotina, em série,
impessoal, não assinado,

de operário que executa
seu martelo regular
proibido (ou sem querer)
do mínimo variar.

3.

A mão daquele martelo
nunca muda de compasso.
Mas tão igual sem fadiga,
mal deve ser de operário;

ela é por demais precisa
para não ser mão de máquina,
a máquina independente
de operação operária.

De máquina, mas movida
por uma força qualquer
que a move passando nela,
regular, sem decrescer:

quem sabe se algum monjolo
ou antiga roda de água
que vai rodando, passiva,
graçar a um fluido que a passa;

que fluido é ninguém vê:
da água não mostra os senões:
além de igual, é contínuo,
sem marés, sem estações.

E porque tampouco cabe,
por isso, pensar que é o vento,
há de ser um outro fluido
que a move: quem sabe, o tempo.

4.

Quando por algum motivo
a roda de água se rompe,
outra máquina se escuta:
agora, de dentro do homem;

outra máquina de dentro,
imediata, a reveza,
soando nas veias, no fundo
de poça no corpo, imersa.

Então se sente que o som
da máquina, ora interior,
nada possui de passivo,
de roda de água: é motor;

se descobre nele o afogo
de quem, ao fazer, se esforça,
e que êle, dentro, afinal,
revela vontade própria,

incapaz, agora, dentro,
de ainda disfarçar que nasce
daquela bomba motor
(coração, noutra linguagem)

que, sem nenhum coração,
vive a esgotar, gôta a gôta,
o que o homem, de reserva,
possa ter na íntima poça.


JOÃO CABRAL DE MELO NETO
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quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

A TARTARUGA - ANDERSON BRAGA HORTA

Eu venho donde vem o infinito da Vida,
do crespo e ardente oceano em toda parte ondeando,
da explosão inefável
do que chamais abismo, e é tudo, e é nada,
no pulso intemporal de quanto existe
e de quanto é oculto.
Vivo porque o Mistério impõe que eu viva,
e na vaga da Vida
— sonho que vou sonhando e que me sonha —
eu beijo a mão do Arcano e o lábio do Sigilo,
e reflito no olhar, como um memento,
o olhar do que é, não sendo.


Os olhos tenho abertos
para a impressão do nimbo e do relâmpago,
da água turva e do ar claro,
do céu-mar que se abre e se desdobra
à avidez do meu nado, de meu nada.
Mas não vêem o tempo além do agora,
o segundo futuro,
próximo como o que se foi há um átimo,
e no entanto remoto
como a encoberta eternidade.


Vi o homem de gatinhas,
na semente animal ainda indiferenciado.
Ouvi seus balbucios.
Fiz minha mão a mão que fez o arado,
que faiscou na pedra um firmamento
fugaz de estrelas árdegas.
Tomei-lhe da mão trêmula
a ensaiar-se divina
no primeiro rabisco
do primeiro alfabeto,
na prisca partitura
da vindoura vertigem
de encontrar-se maior que a imensa origem.


Das figuras rupestres das cavernas
subi ao zigurate dos sumérios.
Cunhei sonhos avoengos nos ladrilhos.
Andei Índias e Chinas
do Oriente e do Ocidente.
Topei do Egito o sacro escaravelho.
De tudo em toda parte uma imagem ficou-me
gravada na retina que não vedes.


Sei do amor e do ódio,
sei do hino e do vômito,
sei da paz e da guerra,
sei do mar e da terra,
sei do céu e do éter,
sei da carne e do espírito.


Muito eu tenho vivido,
tanto amado e sofrido
e pecado e ascendido. Respeitai-me,
se não por vós, grumetes
que o Mar aleita ainda,
pela Vida que em mim se fez tempo e caminha
para fazer-se eternidade.


Que novas cores beberei? Que músicas
fluirão no meu dorso? Que suaves,
que pétreos tatos guardarei no olfato,
no paladar, na pele, na retina?


Eu continuo. Adiante!
Para onde, afinal?
Que universo, que abismo
espera por meus pés na curva do infinito?


Eu vou para onde ireis:
para Além, para o Enigma.
Eu vou para onde vai o infinito da Vida.


ANDERSON BRAGA HORTA
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segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

AINDA QUE MAL -- Carlos Drummond de Andrade

Ainda que mal pergunte,
ainda que mal respondas;
ainda que mal te entenda,
ainda que mal repitas;
ainda que mal insista,
ainda que mal desculpes;
ainda que mal me exprima,
ainda que mal me julgues;
ainda que mal me mostre,
ainda que mal me vejas;
ainda que mal te encare,
ainda que mal te furtes;
ainda que mal te siga,
ainda que mal te voltes;
ainda que mal te ame,
ainda que mal o saibas;
ainda que mal te agarre,
ainda que mal te mates;
ainda assim te pergunto
e me queimando em teu seio,
me salvo e me dano: amor.

CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE
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Enviado por Moranguiho Pereira
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domingo, 22 de fevereiro de 2009

O Gato - Vinícius de Morais

ERA TÃO BOM SE A NOSSA VIDA FOSSE SIMPLES ASSIM!!!....UMA BRINCADEIRA SEM FIM...TENHO UMA GATA QUE SE CHAMA 'MIMI'. É UMA BOA COMPANHEIRA, NUNCA SAI DE PERTO DE MIM.....ESTÁ A DORMIR? MAS QUE IMPORTA? PARA ELA EU SOU TUDO! SÓ TENHO UM ADVERSÁRIO - O SOL...NÃO É LINDO? SERMOS A FELICIDADE DE UMA GATA E APENAS SERMOS TRAÍDOS PELO CALOR DO SOL?....EM ANEXO UM BEIJO

O GATO


Com um lindo salto
Lesto e seguro
O gato passa
Do chão ao muro
Logo mudando
De opinião
Passa de novo
Do muro ao chão
E pega corre
Bem de mansinho
Atrás de um pobre
De um passarinho
Súbito, pára
Como assombrado
Depois dispara
Pula de lado
E quando tudo
Se lhe fatiga
Toma o seu banho
Passando a língua
Pela barriga.

VINICÍUS DE MORAES
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Enviado por Moranguinho Pereira (hi5)
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sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

ESTE INFERNO DE AMAR ! - Almeida Garrett

Foram Garrett e Beethoven, e Domingos Sequeira e Camilo (a minha mãe punha à venda livros da Guimarães editores, mas ninguém comprava, desforrava-se a família) que me levaram até ao romantismo, era eu uma pobre púbere provinciana. (Já tinha visto aquela tua mensagem no blog) Beijo grande. E viva Garrett!

ESTE INFERNO DE AMAR !

“Este inferno de amar — como eu amo!
Quem mo pôs aqui n’alma… quem foi?
Esta chama que alenta e consome,
Que é a vida — e que a vida destrói —
Como é que se veio a atear,
Quando — ai quando se há-de ela apagar?

Eu não sei, não me lembra; o passado,
A outra vida que dantes vivi
Era um sonho talvez… — foi um sonho —
Em que paz tão serena a dormi!
Oh! que doce era aquele sonhar…
Quem me veio, ai de mim! despertar?

Só me lembra que um dia formoso
Eu passei… dava o Sol tanta luz!
E os meus olhos, que vagos giravam,
Em seus olhos ardentes os pus.
Que fez ela? Eu que fiz? — Não no sei
Mas nessa hora a viver comecei…”

Almeida Garrett, in Folhas Caídas
,
Enviado por Guilhermina Abreu (hi5)
,

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

DISCURSO NO MERCADO DO DESEMPREGO - Samih Al-Qassim

"Talvez eu perca — se desejares — a minha subsistência
Talvez venda as minhas roupas e o meu colchão
Talvez trabalhe na pedreira... como carregador... ou varredor
Talvez procure grãos no esterco
Talvez fique nu e faminto
Mas não me venderei
Ó inimigo do sol
E até a última pulsação de minhas veias
Resistirei
Talvez me despojes da última polegada da minha terra
Talvez aprisiones a minha juventude
Talvez me roubes a herança dos meus antepassados
Móveis... utensílios e jarras
Talvez queimes os meus poemas e os meus livros
Talvez atires o meu corpo aos cães
Talvez levantes espantos de terror sobre a nossa aldeia
Mas não me venderei
Ó inimigo do sol
E até a última pulsação das minhas veias
Resistirei
Talvez apagues todas as luzes da minha noite
Talvez me prives da ternura da minha mãe
Talvez falsifiques a minha história
Talvez ponhas máscaras para enganar os meus amigos
Talvez levantes muralhas e muralhas em meu redor
Talvez me crucifiques um dia diante de espetáculos indignos
Mas não me venderei
Ó inimigo do sol
E até a última pulsação das minhas veias
Resistirei
Ó inimigo do sol
O porto transborda de beleza... e de signos
Botes e alegrias
Clamores e manifestações
Os cantos patrióticos arrebentam as gargantas
E no horizonte... há velas
Que desafiam o vento... a tempestade e franqueiam os obstáculos
É o regresso de Ulisses
Do mar das privações
O regresso do sol... do meu povo exilado
E para os seus olhos
Ó inimigo do sol
Juro que não me venderei
E até a última pulsação das minhas veias
Resistirei
Resistirei
Resistirei "

Samih Al-Qassim
(poeta palestiniano proibido de exercer a profissão docente pelos israelitas)
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Enviado por Guilhermina Abteu (hi5)
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quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

DEIXEM-ME SER ASSIM - Zabul Moita

Deixem-me ser valado entre trigal

Cigarra de asas loucas pelo monte

Ribeiro de Vastíssimo caudal

Ou musgo adormecido ao pé da fonte.



Cantiga que ecoa pelo Vale

Sol morno a mergulhar no horizonte

Pintura de Miró ou de Bual

Ou lenda do passado que a avó conte.



Deixem-me ser nenúfar por abrir

Olor de rosa e nardos a florir

Criança com sapatos de mulher



E flauta de pastor ao Sol poente

E grito de luar Sereno e quente

Deixem-me ser aquilo que eu quiser!



ZABUL MOITA
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Enviado por Moranguinho Pereira (hi5)
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terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

LA CROIX POUR L’OMBRE - Louis Aragon

«Les gens heureux n’ont pas d’histoire
C’est du moins ce que l’on prétend
Le blé que l’on jette au blutoir
Les bœufs qu’on mène à l’abattoir
Ne peuvent pas en dire autant
Les gens heureux n’ont pas d’histoire

C’est le bonheur des meurtriers
Que les morts jamais ne dérangent
Il y a fort à parier
Qu’on ne les entend pas crier
Ils dorment en riant aux anges
C’est le bonheur des meurtriers

Amour et bonheur d’autre sorte
Il tremble l’hiver et l’été
Toujours la main dans une porte
Le cœur comme une feuille morte
Et les lèvres ensanglantées
Amour est bonheur d’autre sorte

Aimer à perdre la raison
Aimer à n’en savoir que dire
A n’avoir que toi d’horizon
Et ne connaître de saisons
Que par la couleur du partir
Aimer à perdre la raison

Ah c’est toujours toi que l’on blesse
C’est toujours ton miroir brisé
Mon pauvre bonheur, ma faiblesse
Toi qu’on insulte et qu’on délaisse
Dans toute ta chair martyrisée
Ah c’est toujours toi que l’on blesse

La faim, la fatigue et le froid
Toutes les misères du monde
C’est par mon amour que j’y crois
En elle je porte ma croix
Et de leurs nuits ma nuit se fonde
La faim, la fatigue et le froid»

Louis Aragon, "Le Fou d’Elsa" ("Chants du Medjnoûn")
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Enviado por Guilhermina Abreu
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sábado, 14 de fevereiro de 2009

INTERIORIDADE - António Gancho

INTERIORIDADE

«Interioridade
és bem o estímulo tu
duma vida cumprida ao serviço do invisível
Em teu nome
já eu sofri todos os pecados do Mundo
todas as humilhações já eu suportei
e tudo em teu nome
para que em teu nome de tudo eu aproveitasse
uma reinvindicação
E é certo que sempre te reclamarei
nos instantes mais tenebrosos do homem
ainda quando toda uma cidade se virar
contra nós
e quando a paisagem já não nos distrair
Interioridade
que coisas eu não imaginei poder fazer de ti
construir contigo templos imaginários
onde todos os homens se poderiam redimir
de todas as culpas
e onde só tu fosses o único elemento
de aniquilação de pecados
E no entanto um leopardo há sempre
em cada árvore da alma
e sempre um homem pode ser vítima
da sua selva interior
E no entanto eu propunha a todos os homens
a escalpelização dos animais selvagens
a abertura de vias férreas de progresso
interior
clareiras e estepes para uma melhor
expectação de horizontes
Porém há sempre um leopardo no
cimo da árvore mais inocentemente descopada
e o homem muitas vezes sacrifica
ao perigo da guerra
a noção do convívio.»

António Gancho
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Enviado por Guilhermina Abreu
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quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

Cartas de Meu Avô - Manuel Bandeira


A caminho das Caldas da Rainha, cerca de Torres Vedras - Foto Victor Nogueira


Cartas de Meu Avô

(Manuel Bandeira)
A tarde cai, por demais
Erma, úmida e silente...
A chuva, em gotas glaciais,
Chora monotonamente.

E enquanto anoitece, vou
Lendo, sossegado e só,
As cartas que meu avô
Escrevia a minha avó.

Enternecido sorrio
Do fervor desses carinhos:
É que os conheci velhinhos,
Quando o fogo era já frio.

Cartas de antes do noivado...
Cartas de amor que começa,
Inquieto, maravilhado,
E sem saber o que peça.

Temendo a cada momento
Ofendê-la, desgostá-la,
Quer ler em seu pensamento
E balbucia, não fala...

A mão pálida tremia
Contando o seu grande bem.
Mas, como o dele, batia
Dela o coração também

A paixão, medrosa dantes,
Cresceu, dominou-o todo.
E as confissões hesitantes
Mudaram logo de modo.

Depois o espinho do ciúme...
A dor... a visão da morte...
Mas, calmado o vento, o lume
Brilhou, mais puro e mais forte.

E eu bendigo, envergonhado,
Esse amor, avô do meu...
Do meu - fruto sem cuidado
Que inda verde apodreceu.

O meu semblante está enxuto.
Mas a alma, em gotas mansas,
Chora, abismada no luto
Das minhas desesperanças...

E a noite vem, por demais
Erma, úmida e silente...
A chuva em pingos glaciais,
Cai melancolicamente.

E enquanto anoitece, vou
Lendo, sossegado e só,
As cartas que, meu avô
Escrevia a minha avó.


http://rimas.mmacedo.net/index.php?Escolha=1&Acao=2&Codigo=405
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Foto de Victor Nogueira
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sábado, 7 de fevereiro de 2009

Mia Couto - Foi para ti

PARA TI

Foi para ti
que desfolhei a chuva
para ti soltei o perfume da terra
toquei no nada
e para ti foi tudo

Para ti criei todas as palavras
e todas me faltaram
no minuto em que talhei
o sabor do sempre

Para ti dei voz
às minhas mãos
abri os gomos do tempo
assaltei o mundo
e pensei que tudo estava em nós
nesse doce engano
de tudo sermos donos
sem nada termos
simplesmente porque era de noite
e não dormíamos
eu descia em teu peito
para me procurar
e antes que a escuridão
nos cingisse a cintura
ficávamos nos olhos
vivendo de um só
amando de uma só vida

MIA COUTO
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From Moranguinho Pereira
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quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

Poesia - Manuel da Fonseca


Original é o poeta
que se origina a si mesmo
que numa sílaba é seta
noutro pasmo ou cataclismo
o que se atira ao poema
como se fosse um abismo
e faz um filho ás palavras
na cama do romantismo.
Original é o poeta
capaz de escrever um sismo.

Original é o poeta
de origem clara e comum
que sendo de toda a parte
não é de lugar algum.
O que gera a própria arte
na força de ser só um
por todos a quem a sorte faz
devorar um jejum.
Original é o poeta
que de todos for só um.

Original é o poeta
expulso do paraíso
por saber compreender
o que é o choro e o riso;
aquele que desce á rua
bebe copos quebra nozes
e ferra em quem tem juízo
versos brancos e ferozes.
Original é o poeta
que é gato de sete vozes.

Original é o poeta
que chegar ao despudor
de escrever todos os dias
como se fizesse amor.
Esse que despe a poesia
como se fosse uma mulher
e nela emprenha a alegria
de ser um homem qualquer.

José Carlos Ary dos Santos
From Georgina Gi


Noite de Sonhos Voada

Noite de sonhos voada
cingida por músculos de aço,
profunda distância rouca
da palavra estrangulada
pela boca armodaçada
noutra boca,
ondas do ondear revolto
das ondas do corpo dela
tão dominado e tão solto
tão vencedor, tão vencido
e tão rebelde ao breve espaço
consentido
nesta angústia renovada
de encerrar
fechar
esmagar
o reluzir de uma estrela
num abraço
e a ternura deslumbrada
a doce, funda alegria
noite de sonhos voada
que pelos seus olhos sorria
ao romper de madrugada:
— Ó meu amor, já é dia!...

Manuel da Fonseca, in "Poemas Dispersos"

http://www.citador.pt/
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enviada por Georgina
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domingo, 1 de fevereiro de 2009

Cesário Verde - “Arrojos

Se a minha amada um longo olhar me desse
Dos seus olhos que ferem como espadas,
Eu domaria o mar que se enfurece
E escalaria as nuvens rendilhadas.

Se ela deixasse, extático e suspenso
Tomar-lhe as mãos "mignonnes" e aquecê-las,
Eu com um sopro enorme, um sopro imenso
Apagaria o lume das estrelas.

Se aquela que amo mais que a luz do dia,
Me aniquilasse os males taciturnos,
O brilho dos meus olhos venceria
O clarão dos relâmpagos nocturnos.

Se ela quisesse amar, no azul do espaço,
Casando as suas penas com as minhas,
Eu desfaria o Sol como desfaço
As bolas de sabão das criancinhas.

Se a Laura dos meus loucos desvarios
Fosse menos soberba e menos fria,
Eu pararia o curso aos grandes rios
E a terra sob os pés abalaria.

Se aquela por quem já não tenho risos
Me concedesse apenas dois abraços,
Eu subiria aos róseos paraísos
E a Lua afogaria nos meus braços.

Se ela ouvisse os meus cantos moribundos
E os lamentos das cítaras estranhas,
Eu ergueria os vales mais profundos
E abateria as sólidas montanhas.

E se aquela visão da fantasia
Me estreitasse ao peito alvo como arminho,
Eu nunca, nunca mais me sentaria
Às mesas espelhentas do Martinho.”

Cesário Verde


Lisboa, Diário de Notícias, 22 de Março de 1874
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Enviado por Guilhermina Abreu
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