domingo, 22 de outubro de 2017

D. Dinis - vós hei e des i por vos dar a entender



* D. Dinis

O que vos Nunca Cuidei a Dizer
O que vos nunca cuidei a dizer, 
com gram coita, senhor, vo-lo direi, 
porque me vejo já por vós morrer; 
ca sabedes que nunca vos falei 
de como me matava voss'amor; 
ca sabe Deus bem que doutra senhor, 
que eu nom havia, mi vos chamei. 

E tod[o] aquesto mi fez fazer 
o mui gram medo que eu d ria — de que hei, 
bem sabedes, mui pequeno pavor; 
e des oimais, fremosa mia senhor, 
se me matardes, bem vo-lo busquei. 

E creede que haverei prazer 
de me matardes, pois eu certo sei 
que esso pouco que hei de viver 
que n?um prazer nunca veerei; 
e porque sõo desto sabedor, 
se mi quiserdes dar morte, senhor, 
por gram mercee vo-lo [eu] terrei. 

D. Dinis, in 'Antologia Poética' 

sábado, 21 de outubro de 2017

Natália Corrreia - Bilhete para o Amigo Ausente

* Natália Corrreia


Lembrar teus carinhos induz
a ter existido um pomar
intangíveis laranjas de luz
laranjas que apetece roubar.

Teu luar de ontem na cintura
é ainda o vestido que trago
seda imaterial seda pura
de criança afogada no lago.

Os motores que entre nós aceleram
os vazios comboios do sonho
das mulheres que estão à espera
são o único luto que ponho.

Natália Correia, in "O Vinho e a Lira" 

Diálogos poéticos:João Roiz & Saramago






    sábado, 17 de novembro de 2012

    Diálogos poéticos:João Roiz & Saramago

    Dois poemas que, embora separados por cinco séculos, têm um tema comum: A separação amorosa.

    João Roiz de Castel-Branco foi um cavaleiro nobre português, fidalgo português, fidalgo da casa Real, cortesão, e poeta humanista. Nasceu presumivelmente em Castelo Branco em meados do Século XV e faleceu na mesma cidade depois de 1515. Celebrizou-se como poeta, encontrando-se algumas de suas composições integradas no Cancioneiro Geral, de Garcia de Resende, publicado em 1516.

    José Saramago dispensa apresentações.Não sei o ano do poema do Saramago, mas não admira que ele tenha prestado esta homenagem a João Roiz de Castelo Branco, um homem, como ele diz em Viagem a Portugal (1981), «que, pouco mais tendo feito que estes sublimes versos, há-de ser lembrado e repetido enquanto houver língua portuguesa». Uma justa homenagem!


    Cantiga sua partindo-se

    Senhora, partem tam tristes
    meus olhos por vós, meu bem,
    que nunca tam tristes vistes
    outros nenhuns por ninguém.

    Tam tristes, tam saudosos,
    tam doentes da partida,
    tam cansados, tam chorosos
    da morte mais desejosos
    cem mil vezes que da vida.

    Partem tam tristes os tristes,
    tam fora d'esperar bem,
    que nunca tam tristes vistes
    outros nenhuns por ninguém.

    João Roiz de Castelo-Branco (Séc. XV)


    Lembrança de João Roiz de Castel´Branco

    Não os meus olhos, senhora, mas os vossos,
    Eles são que partem às terras que não sei,
    Onde memória de mim nunca passou,
    Onde é escondido meu nome de segredo.

    Se de trevas se fazem as distâncias,
    E com elas saudades e ausências,
    Olhos cegos me fiquem, e não mais
    Que esperar do regresso a luz que foi.

    José Saramago (1922-2010)

    http://alegriabreve47.blogspot.pt/2012/11/dialogos-poeticosjoao-roiz-saramago.html



    CD-Cantos D'antiga Idade-1994



    Gabriel Carlos - SENHORA PARTEM TÃO TRISTES - Fado de Coimbra


    Adriano Correia de Oliveira - "Senhora,partem tão tristes" do disco "Fados de Coimbra II" (EP 1962)


    AMÁLIA, canta João Roiz de Castelo Branco
    Música: Alain Oulman


    "Senhora Partem tão Tristes" 
    Letra de João Ruiz de Castelo-Branco e música de João Barros Madeira
    Jorge Tuna e Jorge Godinho (guitarra)



    sexta-feira, 20 de outubro de 2017

    Carla Romualdo - O pó da fivela



    ©Guy Denning
    Já toda a gente conhece o Tomé e esse é o maior problema dele. Já não há ouvintes para os seus poemas, nem mecenas para umas cervejas, nem testemunhas para as epifanias que com frequência o arrebatam.
    Ao Tomé, ignora-se e apenas quando não é possível evitá-lo.
    É um homem de idade incerta, algures entre os 40 e os 65, escanzelado, com cabelo cortado às três pancadas, roupa que já passou por outros corpos antes de lhe chegar, sapatos cambados, dentes estragados, o nariz sempre a pingar porque, como ele vai contando a toda a gente, sofre de uma alergia que lhe dura o ano inteiro e tem o septo desviado.
    Por acaso, no dia em que o conheci, e em que ele insistia em ler-me a sua elegia “A sétima morte dos ludopatas”, comecei por oferecer-lhe um lenço de papel, que ele recusou com gesto soberbo.
    – Não, obrigado. Só uso lenços Poker.
    Ora, a última pessoa a quem eu tinha visto usar lenços Poker foi o meu pai, que perdeu dúzias de lenços em anos de espera pelo autocarro. O meu pai chegava à paragem habitual, tirava o seu lenço do bolso, estendia-o sobre o muro baixo, sentava-se sobre ele para não sujar as calças, puxava do jornal e imediatamente se esquecia do lenço e mesmo do autocarro, pelo menos até vê-lo deter-se, de porta aberta, à sua frente. Era só na terceira ou quarta paragem seguintes que se lembrava do lenço que ficara sobre o muro. No dia seguinte, o lenço já não estava lá. Nunca estava lá. Julgo que houve uma bem oleada rede de venda de lenços Poker em segunda mão inteiramente financiada pelo meu pai.
    Pois aquele poeta literalmente ranhoso, sempre aos caídos, pedinchão, que apenas tolerava, para o seu arrogante nariz pingoso, os já vetustos lenços de algodão marca Poker, agradou-me logo. Ouvi o poema, contribuí para a escrita do próximo, e da vez seguinte que passei lá no pouso dele levei-lhe um pacotinho de Poker que encontrei numa retrosaria moribunda da Barão de S. Cosme. Abriu a embalagem, revirou o pacote entre os dedos. Não ficou satisfeito.
    – Só seis? Podia ser uma dúzia.
    Nesse dia estava também a Véronique, a francesa, que num momento de debilidade havia aceitado traduzir-lhe um poema e assim se tinha convertido na maior – e única – esperança do Tomé para a internacionalização da sua obra. Pobre Véronique, nunca soube dizer non. E por isso está a meio, sempre a meio, da tradução de uma obra que o Tomé continua a reescrever porque é a primeira que será traduzida e é a que lhe abrirá as portas da fama internacional.
    Porque o Tomé não tem dúvidas de que virá a ser um poeta célebre, ainda que seja postumamente. Quando lhe perguntamos pelos autores preferidos, diz-nos mal de todos excepto daquele a quem chama Mestre, cujo nome nunca revelou, mas de quem diz não ser digno de sacudir o pó da fivela da sandália. Dos que dizem que o Mestre não existe, ri-se com um riso amargo e chama-lhes néscios.
    Às vezes, o Tomé bebe de mais, fica irascível, leva um soco de um forasteiro que não está para aturá-lo, ou cai na rua e vai na ambulância do INEM. Volta passado uns dias com passos mais arrastados e conta que esteve num retiro poético.
    Soube hoje que o Tomé anda desaparecido há mais tempo do que o costume e que alguns dos que habitualmente o evitavam estão agora à sua procura. Não é por sentirem a consciência pesada nem têm motivos para isso. É só porque há pessoas que são muito maiores do que parecem, mas claro que isso só se aprende quando elas deixam de estar.
    https://aventar.eu/2017/05/19/o-po-da-fivela/#more-1278123

    Carla Romualdo - Equívocos

    Equívocos

    No degrau onde um homem costuma dormir estava uma embalagem de donuts de morango. Não havia sinal do homem, mas estavam lá os cartões que lhe servem de colchão, agora ao alto, encostados à parede. No chão, a embalagem de plástico, fechada, com três donuts de um estridente cor-de-rosa E128, intactos. Faltava pouco para as nove da manhã. Os donuts eram de uma marca estranha, talvez saídos da loja de oportunidades da esquina, que vende produtos “de fora do nosso mercado”, como diz a gerente, e que vêm com rótulos em servo-croata e prazos de validade indecifráveis.
    Quem os deixara ali? Podia ter sido uma compra disparatada, um desses impulsos de que é difícil não acabar arrependido. Podiam estar fora de prazo ou perto disso. Ou podiam ter sido comprados de propósito para oferecer ao homem que nunca pede esmola mas aceita o que lhe oferecem.
    Apareceu, rua abaixo, uma mulher que conheço de vista e de quem me disseram que ajuda numa mercearia do bairro, acarreta caixas, sacos de batatas, e em troca dão-lhe arroz, latas de conservas, leite. É alta, sólida, com um andar masculino, ancas muito direitas e as pernas um tanto arqueadas. Vê os donuts e detém-se. Do outro lado da rua, vou subindo eu, vagarosa. A mulher vai apanhar os donuts, já sei que é isso que vai acontecer, mas estupidamente não afasto o olhar e ela sente-o, pelo canto do olho, vira o rosto para mim, envergonha-se e segue caminho, quase a correr, e de mãos vazias. Arrependo-me, mas de quê? De ter olhado.
    À hora de almoço, quando desço a rua ensolarada, os donuts estão no mesmo sítio, uma massa pegajenta, ainda dentro do plástico.

    https://aventar.eu/2017/10/20/equivocos/#more-1284142

    quinta-feira, 19 de outubro de 2017

    Adélia Prado - Amor Violeta.

    * Adélia Prado


    O amor me fere é debaixo do braço,
    de um vão entre as costelas.
    Atinge meu coração é por esta via inclinada.
    Eu ponho o amor no pilão com cinza
    e grão de roxo e soco. Macero ele,
    faço dele cataplasma
    e ponho sobre a ferida.




    quarta-feira, 18 de outubro de 2017

    Maria Azenha - O neoliberal



    (Maria Azenha, publicado como comentário a um artigo deste blog, 18/10/2017)

    neoliberal

    O neoliberal não cai. Há-de cair.
    O neoliberal cheira mal. Nunca vai cheirar bem.
    É pior que o dantas.
    É pior que a dona constança
    e que a dona leonor teles.
    O neoliberal não tem dó do dantas.
    O dantas ao pé dele é uma criança.
    O neoliberal é sempre a favor de uma europa geral
    com o pseudónimo de merkel ou holand.
    A necessidade que portugal tem de ser um neoliberado mete nojo!
    No tempo do afonso não havia EDP nem GALP nem TAP nem PT!
    Nem sabiam nada das pedantices do coelho
    nem dos manguitos do zé !
    Nem dos silva da silva nem dos rodrigues da silva
    nem das marias tontas.
    O neoliberal vai-se enchendo com o bónus dos incêndios
    e lava-se com sabonetes de marca branca.
    Calça peúgas de mousse e cheira mal dos pés.
    Quando se levanta limpa as mãos à parede e fica com as mãos a cheirar às entranhas.
    O neoliberal não tem vergonha das partes íntimas da boca.
    Tudo o que diz é uma indecência.
    O neoliberal corta a relva com os dentes.
    Ele é uma tartaruga política .

    Tenho a certeza que o neoliberal escreve poesia com o criptónimo da troika.
    O neoliberal puxa o autoclismo com toda a força e deita o mês de abril pela pia abaixo.
    Em dois tempos decide o futuro das tartaruguinhas neoliberadas.
    Senão vejamos: O neoliberal tem um corno azul e outro vermelho
    e anda de joelhos com as cuecas à vista!
    Nada do que sai do seu bocal é credível.
    Fiquem a saber que o neoliberal se reúne todos os dias
    com os coelhos e com os chinas! E com os excrementos dos párias.
    O neoliberal tem sempre a mão esticada para a Banca.
    E está-se a transformar num entulho com a máscara do trump.
    O neoliberal sofre de perturbação auditiva.
    Nunca ouviu falar de hanna arendt nem da gulbenkian
    nem do Café Gelo.
    O neoliberal traz lágrimas de crocodilo
    embrulhadas em papel de alumínio.


    https://estatuadesal.com/2017/10/18/o-neoliberal/

    quinta-feira, 12 de outubro de 2017

    [Soneto] Não lamentes, oh Sócrates, o teu estado

    submitted  by Vasco_da_Gamba
    Adaptação do "Soneto de todas as Putas" de Bocage.
    Não lamentes, oh Sócrates, o teu estado
    Corrupta tem sido muita gente boa
    Corrompidos deputados tem Lisboa
    Milhares de vezes corruptos têm governado
    
    Major Valentim,corrupto, desde os tempos de soldado
    Já Vara, pescou robalos sem ver mar nem proa
    E tu,Cavaco, não me esqueço da tua pessoa
    Nem da tua fidelidade a Salgado
    
    Esse da Madeira, dinossauro famoso,
    Que odeia o chinês, o bastardo e o rabeta
    Entre mil ponchas fez legado penoso
    
    E lá nas finanças deixou funda greta
    Não fiques pois, oh Sócrates, duvidoso
    Que isso de político honesto é tudo peta
    
    https://www.reddit.com/r/portugal/comments/75qpb5/soneto_n%C3%A3o_lamentes_oh_s%C3%B3crates_o_teu_estado/

    Soneto de Todas as Putas

    Não lamentes, oh Nise, o teu estado;
    Puta tem sido muita gente boa;
    Putíssimas fidalgas tem Lisboa,
    Milhões de vezes putas têm reinado:

    Dido foi puta, e puta d'um soldado;
    Cleópatra por puta alcança a c'roa;
    Tu, Lucrécia, com toda a tua proa,
    O teu cono não passa por honrado:

    Essa da Rússia imperatriz famosa,
    Que inda há pouco morreu (diz a Gazeta)
    Entre mil porras expirou vaidosa:

    Todas no mundo dão a sua greta:
    Não fiques pois, oh Nise, duvidosa
    Que isso de virgo e honra é tudo peta.

    Manuel Maria de Barbosa l'Hedois du Bocage
    (✩ 15/09/1765 — † 21/12/1805)
    Autores Clássicos no Luso-Poemas


    Leia mais: https://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=205416 © Luso-Poemas

    domingo, 1 de outubro de 2017

    Manuel Alegre - Nambuangongo, meu amor

    `Manuel Alegre

    Em Nambuangongo tu não viste nada
    não viste nada nesse dia longo longo
    e a cabeça cortada e a flor bombardeada
    não tu não viste nada em Nambuangongo

    Falavas de Hiroxima tu que nunca viste
    em cada homem um morto que não morre.
    Sim nós sabemos Hiroxima é triste
    mas ouve em Nambuangongo existe
    em cada homem um rio que não corre.

    Em Nambuangongo o tempo cabe num minuto
    em Nambuangongo a gente lembra a gente esquece
    em Nambuangongo olhei a morte e fiquei nu.
    Tu não sabes mas eu digo-te: dói muito.
    Em Nambuangongo há gente que apodrece.

    Em Nambuangongo a gente pensa que não volta
    cada carta é um adeus em cada carta se morre
    cada carta é um silêncio e uma revolta.
    Em Lisboa na mesma isto é a vida corre.
    E em Nambuangongo a gente pensa que não volta.

    É justo que me fales de Hiroxima.
    Porém tu nada sabes deste tempo longo
    tempo exactamente em cima do nosso tempo.
    Ai tempo onde a palavra vida rima
    com a palavra morte em Nambuangongo.



    sábado, 30 de setembro de 2017

    Paul Éluard - em Espanha

    * Paul Éluard


    Se em Espanha há uma árvore cor de sangue
    É a árvores da liberdade
    Se em Espanha há uma boca faladora
    Fala de liberdade
    Se em Espanha há um copo de bom vinho
    É o povo quem o há-de beber.


    Paul Éluard - poemas políticos

    quinta-feira, 28 de setembro de 2017

    David Mourão-Ferreira - Noite apressada

    * David Mourão-Ferreira


    Era uma noite apressada
    depois de um dia tão lento.
    Era uma rosa encarnada
    aberta nesse momento.
    Era uma boca fechada
    sob a mordaça de um lenço.
    Era afinal quase nada,
    e tudo parecia imenso!

    Imensa, a casa perdida
    no meio do vendaval;
    imensa, a linha da vida
    no seu desenho mortal;
    imensa, na despedida,
    a certeza do final.

    Era uma haste inclinada
    sob o capricho do vento.
    Era a minh'alma, dobrada,
    dentro do teu pensamento.
    Era uma igreja assaltada,
    mas que cheirava a incenso.
    Era afinal quase nada,
    e tudo parecia imenso!

    Imensa, a luz proibida
    no centro da catedral;
    imensa, a voz diluída
    além do bem e do mal;
    imensa, por toda a vida,
    uma descrença total!



    domingo, 24 de setembro de 2017

    Os partidos portugueses: O Bloco de Esquerda (1)

    segunda-feira, julho 13, 2009

    Se eu fosse empresário e os meus produtos tivessem beneficiado da publicidade mais subliminar ou descarada de que beneficiou o Bloco o Bloco de Esquerda estaria a gora a disputar as posições de Belmiro de Azevedo e de Américo Amorim na lista de fortunas da Forbes. O BE não só beneficiou da adesão de muitos jovens jornalistas que o elegeram como alternativa aos partidos tradicionais, como foi levado ao colo pelo PSD do tempo de Durão Barroso, quando o agora presidente da Comissão preferia dar todo o protagonismo da oposição a Louçã, ignorando o PCP pelo seu peso sindical e o PS por ser a alternativa de governo.

    Quase todos os dias a comunicação social apresenta as homilias de Louçã como o contraponto às posições de todos os outros partidos, o PS aparece a comentar o PSD, o PSD a comentar o PS, o PCP a comentar as políticas governamentais e o Louça a comentar tudo e todos, incluindo as divergências internas do PS. Louçã é apresentado como um Diácono Remédios da política portuguesa, mas numa versão positiva. Só isso explica que um partido cujo programa são frases soltas de ocasião e sem qualquer organização, dirigido por três personalidades devidamente rodeadas de umas raparigas jeitosas tenha ultrapassado nas urnas um PCP que tem mais poder de organização num único centro de trabalho do que em todo o Bloco de Esquerda.

    Como é que um partido que não é capaz de organizar um piquenique no Parque Eduardo VII vence nas urnas um PCP capaz de mobilizar 80 mil pessoas numa manifestação e de organizar o maior evento político do país?

    A receita é simples, os líderes da extrema-esquerda trocaram os seus programas por uma nova marca branca da política. O vermelho é a cor do símbolo mas só aparece nos documentos oficiais, o símbolo é um produto de marketing, da bandeira comunista ficou a estrela, símbolo do internacionalismo proletário, mas mesmo essa foi estilizada, deixou de ser uma estrela. As bandeiras vermelhas deram lugar a todas as cores, uma manifestação do Bloco de esquerda parece-se mais com um anúncio publicitário da Vodafone do que com uma manifestação de extrema-esquerda, o vermelho deu lugar ao multicolor, há cores para todos os gostos.

    Os líderes da extrema-esquerda deixaram de ter voz grossa, de usar bigode e vestir roupas que se identificam com o proletariado. Em vez de roupas de gente pobre ou a imitar gente pobre usam-se camisas de marca que davam para alimentar uma família operária durante meio mês, em vez das meias maratonas proletárias Louçã prefere o perfume da classe média do Holmes Place da Av. dos Defensores de Chaves. O Trotsky que chefiou o Exército vermelho e que mais tarde foi morto por uma machadada encomendada por Estaline deixou de fazer companhia a Louçã, Estaline deixou de ser exibido como modelo das virtudes marxistas-leninistas para Fazenda e outros herdeiros da UDP e do PCP(R).
    O passado é demasiado incómodo, tem demasiados esqueletos, para que o BE tenha referências no passado, ao contrário do que sucede com o PCP que carrega permanentemente um armário às costas. Também não tem futuro porque não convém dizer aos putos da classe média qual o modelo de sociedade defendido pelos velhos trotskistas, estalinistas e afins. O BE apresenta-se sem referência, sem programa, sem modelo de sociedade, em vez de um projecto político prefere apresentar-se como a esquerda moderna, em vez de exibir as suas glórias do passado, como a Albânia de Enver Hodja ou o Cambodja dos Khmers Vermelhos, prefere temas fracturantes como o casamento gay ou a proibição de despedimentos em empresas com lucros.

    O Bloco de Esquerda não diz o que os seus dirigentes pensam, em cada momento diz o que os seus alvos eleitorais querem ouvir, as suas posições políticas são seleccionadas como se de um produto alimentar se tratasse, são colocadas no mercado depois de devidamente degustadas por um painel de consumidores representativos. E ao mesmo tempo que o BE vai conquistando a simpatia de jornalistas desejosos de protagonismo e de jovens da classe média sem qualquer memória histórica o Francisco Louçã vai assumindo o seu papel de Virgem Maria da política portuguesa, papel que desempenha tão bem que até um orgulhoso Manuel Alegre aceitou o papel de crente mariano na esperança de chegar a Belém.

    PS: na terça-feira o post será dedicado ao PS, na quarta-feira ao PCP, na quinta-feira ao PSD e na sexta-feira ao “PRD”.

    http://jumento.blogspot.pt/2009/07/os-partidos-portugueses-o-bloco-de.html

    quinta-feira, 21 de setembro de 2017

    José Anastácio da Cunha - Pinheiro Manso

    * José Anastácio da Cunha

    Copado, alto, gentil Pinheiro Manso;
    Debaixo cujos ramos debruçados
    Do sol ou lua nunca penetrados,
    Já gozei, já gozei mais que descanso...

    Quando para onde estás os olhos lanço,
    Tantos gostos ao pé de ti passados
    Vejo na fantasia retratados,
    Tão vivos, que jàmais de ver-te canso!

    Ah! deixa o outono vir; de um jasmineiro
    te hei-de cobrir, terás cópia crescida
    De flores, serás honra dêste outeiro.

    E para te dar glória mais subida,
    No meu tronco feliz, alto Pinheiro,
    O teu nome escreverei de Margarida.  

    Bagão Felix - “Óscares” para os cartazes eleitorais

    Valha-nos o bom-humor, para além da piscadela de olho ao CDS/PSD sem esquecer o Bloco (Victor Nogueira)

    ******


    21 de Setembro de 2017, 08:21

    Por


    “Óscares” para os cartazes eleitorais

    E
    stamos a uma semana das eleições locais. Confesso a minha pouca paciência para ler ou ouvir o que dizem os candidatos. Mais do mesmo, com qualidade em preocupante decréscimo. Admito, porém, que não devo generalizar e que estarei a ser injusto para pessoas que, com coragem, se abalançaram a um inestimável serviço público.

    Mas nem tudo é monótono. Por exemplo, os cartazes – que hoje é possível conhecer por esse país fora, sobretudo através da Net – têm sempre um sabor especial, seja no humor, seja na imaginação e no aproveitamento do nome das terras, seja ainda no excêntrico, senão mesmo no ridículo.
    Embora acautelando não estar absolutamente seguro de que, nalgum caso, possa haver montagens (hoje tão comuns na Internet que, aliás, me fazem duvidar de tanta coisa que por lá passa…), partilho com os leitores os meus “Óscares”, sem me referir aos partidos ou movimentos responsáveis pelos cartazes, o que, para este efeito, não importa.
    Depois de aturada análise, o principal galardão vai para um cartaz algures: “ENTRE O PASSADO E O PRESENTE, ESCOLHO O FUTURO”. Na mouche
    Quanto ao “Óscar” gastronómico, selecciono três cartazes: “POR AMOR A FAJÕES”, não sei se vermelhos, manteiga ou mesmo frade, “CONTINUAR LEITÕES”, ainda que não na Bairrada e “JUNTOS PELOS BISCOITOS”, neste caso biscoitos açorianos.
    Na categoria de “Saúde”, estão indigitados: “CONTINUAMOS CALVOS”, apesar do candidato na fotografia exibir um assinalável cabelo que contradiz a alopécia ínsita no cartaz, “COM CANO NO CORAÇÃO”, não sei se com comparticipação no cateterismo cardíaco  e “A NOVA ALTERNATIVA PARA DEGOLADOS”, que não imagino, nem quero imaginar qual seja.
    Na categoria de promessas vai ser complicado escolher entre “FAZER COM TODOS” (de um candidato independente, evidentemente), “FAZER MAIS”,” FAZER PELOS DOIS”, “CONSIGO, TODOS OS DIAS” e “A NOSSA É MAIOR QUE A DELES” (paixão), não sabendo, ainda, se um cartaz de 2013 se repete este ano (“COINA PARA TODOS”).
    Já na categoria de “Promessas especiais”, os indigitados para o “Óscar” são: o mais tétrico “REDUÇÃO DO PREÇO DAS CAMPAS PARA METADE” e o mais caprichoso “QUEREMOS CORNES SEMPRE MELHOR”.
    Quanto ao melhor argumento, estão seleccionados “PASSOS PARA TODOS”, “JUNTAR COSTA E ENCOSTA”, “4 ANOS DE GARANTIA” e “TODOS SOMOS SARILHOS GRANDES”.
    O prémio para o cartaz em língua estrangeira vai para “JE SUIS ESPOSENDE”.
    Na categoria de efeitos especiais, a luta será entre “PODAME AOS PODAMENSES”, “EU SOU O DIOGO, MAS PODES CHAMAR-ME SALOMÉ” (estranhamente do CDS e não do Bloco de Esquerda…) e “POMBAL HUMANO”, uma espécie de columbofilia transgénero.
    No sector da limpeza, concorrem “PELO PÓ, SEMPRE” (sabotando a publicidade a produtos de limpeza), “PELA BRANCA TUDO CLARO COMO A ÁGUA” e o quase seu contrário “POR UMA BRANCA DIFERENTE”.
    Há, ainda, um troféu honorário destinado ao cartaz de carreira. Venceu “SOU DE CONFIANÇA”. Esclarecedor, sem dúvida. Fez-me lembrar, em sentido oposto (ou talvez não), um velho cartaz no Brasil: “ROUBO, MAS FAÇO!”.
    Pena não se coligarem ao menos os cartazes do PSD e CDS em Lisboa. Um é “POR UMA SENHORA LISBOA”, outro refere “PELA NOSSA LISBOA”. A junção daria um cartaz religioso “PELA NOSSA SENHORA DE LISBOA” que concorreria com Fátima.
    Por fim, o cartaz que venceu o “Óscar” da inutilidade: “SOU CANDIDATO”.
    Tudo menos economia, como se constata.

    http://blogues.publico.pt/tudomenoseconomia/2017/09/21/oscares-para-os-cartazes-eleitorais/#comment-49700

    Alexandre Herculano - Arrábida

      Alexandre Herculano


      Arrábida
      I
      Salve, oh vale do sul, saudoso e belo!
      Salve, oh pátria da paz, deserto santo,
      Onde não ruge a grande voz das turbas!
      Solo sagrado a Deux, pudesse ao mundo
      O poeta fugir, cingir-se ao ermo,
      Qual ao freixo robusto a frágil hera,
      E a romagem do túmulo cumprindo,
      Só conhecer, ao despertar na morte,
      Essa vida sem mal, sem dor, sem termo,
      Que íntima voz contínuo nos promete
      No trânsito chamado o viver do homem.

      II
      Suspira o vento no álamo frondoso;
      As aves soltam matutino canto;
      Late o lebréu na encosta, e o mar sussurra
      Dos alcantis na base carcomida:
      Eis o ruído do ermo! Ao longe o negro,
      Insondado oceano, e o céu cerúleo
      Se abraçam no horizonte. Imensa imagem
      Da eternidade e do infinito, salve!

      III
      Oh, como surge majestosa e bela,
      Com viço da criação, a natureza
      No solitário vale! E o leve insecto
      E a relva e os matos e a fragância pura
      Das boninas da encosta estão contando
      Mil saudades de Deus, que os há lançado,
      Com mão profusa, no regaço ameno
      Da solidão, onde se esconde o justo.
      E lá campeiam no alto das montanhas
      Os escalvados píncaros, severos,
      Quais guardadores de um lugar que é santo;
      Atalaias que ao longe o mundo observam,
      Cerrando até o mar o último abrigo
      Da crença viva, da oração piedosa,
      Que se ergue a Deus de lábios inocentes.
      Sobre esta cena o sol verte em torrentes
      Da manhã o fulgor; a brisa esvai-se
      Pelos rosmaninhais, e inclina os topos
      Do Zimbro e alecrineiro, ao rés sentados
      De tronos de fragas sobrepostas,
      Que alpestres matas de medronhos vestem;
      O rocio da noite à branca rosa
      No seio derramou frescor suave,
      E inda existência lhe dará um dia.
      Formoso ermo do sul, outra vez, salve!

      IV
      Negro, estéril rochedos, que contrastas,
      Na nudez tua, o plácido sussuro
      Das árvores do vale, que vicejam
      Ricas d'encantos, coa estação propícia;
      Suavíssimo aroma, que manando
      Das variegadas flores, derramadas
      Na sinuosa encosta da montanha,
      Do altar da solidão subindo aos ares,
      É digno incenso ao Criador erguido;
      Livres aves, vós filhas da espessura,
      Que só teceis da natureza os hinos,
      O que crê, o cantor, que foi lançado,
      Estranho ao mundo, no bulício dele,
      Vem saudar-vos, sentir um gozo puro,
      Dos homens esquecer paixões e opróbio,
      E ver, sem ver-lhe a luz prestar a crimes,
      O sol, e uma só vez pura saudar-lha.
      Convosco eu sou maior; mais longe a mente
      Pelos seios dos céus se imerge livre,
      E se desprende de mortais memórias
      Na solidão solene, onde, incessante,
      Em cada pedra, em cada flor se escuta
      Do Sempiterno a voz, e vê-se impressa
      A dextra sua em multiforme quadro.

      V
      Escalvado penedo, que repousas
      Lá no cimo do monte, ameaçando
      Ruína ao roble secular da encosta,
      Que sonolento move a coma estiva
      Ante a aragem do mar, foste formoso;
      Já te cobriram cespedes virentes;
      Mas o tempo voou, e nele envolta
      A formusura tua. Despedidos
      Das negras nuvens o chuveiro espesso
      E o granizo, que o solo fustigando
      Tritura a tenra lanceolada relva.
      Durante largos séculos, no inverno,
      Dos vendavais no dorso a ti desceram,
      Qual amplexo brutal de ardor grosseiro,
      Que, maculando virginal pureza,
      De pudor varre a auréola celeste,
      E deixa, em vez de um serafim na terra,
      Queimada flor que devorou o raio.

      VI
      Ontem sentado num penhasco, e perto
      Das águas, então quedas, do oceano,
      Eu também o louvei sem ser um justo:
      E meditei, e amante extasiada
      Deixei correr pela amplidão das ondas.
      Como abraço materno era suave
      A aragem fresca do cair das trevas,
      Enquanto, envolta em glória, a clara lua
      Sumia em seu fulgor milhões d'estrelas.
      Tudo caldo estava: o mar somente
      As harmonias da criação soltava,
      Em seu rugido; e o ulmeiro do deserto
      Se agitava, gemendo e murmurando
      Ante o sopro de oeste: ali dos olhos
      O pranto me ocorreu, sem que o sentisse,
      E aos pés de Deus se derramou minha alma.
                                                                                      Alexandre Herculano 
    http://www.blocosonline.com.br/versaoanterior2/literatura/poesia/pidp03/pidp040147.htm

    quarta-feira, 20 de setembro de 2017

    Filinto Elísio - soneto

    * Filinto Elísio

    Estende o manto, estende, ó noite escura,
    enluta de horror feio o alegre prado;
    molda-o bem c’o pesar dum desgraçado
    a quem nem feições lembram da ventura.
    -
    Nubla as estrelas, céu, que esta amargura
    em que se agora ceva o meu cuidado,
    gostará de ver tudo assim trajado
    da negra cor da minha desventura.
    -
    Ronquem roucos trovões, rasguem-se os ares,
    rebente o mar em vão n’ocos rochedos,
    solte-se o céu em grossas lanças de água.
    -
    Consolar-me só podem já pesares;
    quero nutrir-me de arriscados medos,
    quero saciar de mágoa a minha mágoa!

    domingo, 17 de setembro de 2017

    Miguel Esteves Cardoso - Retro-wifi vintage


    CRÓNICA

    16 de setembro de 2017, 7:05

    Portugal está cheio de estabelecimentos arcaicos que ainda têm wifi. Chegam turistas para tirar selfies junto ao cartaz vintage em que patuscamente se indica a password, que é de sempre afectuosa, como ilovelisbon.

    Abrem-se portáteis lado a lado e começa-se a jogar ao queixume paralelo. Em vez de falar do tempo fala-se no acesso. Está lento. Não, está é muita gente a bombar. Só naquela mesa está uma turma de 16 adolescentes holandeses, todos entediados, com os narizes enfiados nos telemóveis e os dedinhos a coçar os ecrãs, mudando os bonecos.

    Agora bloqueou. Ó não! Liga e desliga. Estás a fazer algum download? Não, és maluco. Tenta fechar algumas páginas. Não estou a conseguir. Espera aí... Faz um speedtest. Não dá. Para fazer um speedtest é preciso um mínimo de speed. Ha ha: o som do riso fingido que é próprio de quem está a mexer em computadores num lugar público.

    Agora acelerou. Bem... agora está melhor. Consegues ver um vídeo no YouTube? Sim. Não. Está às voltinhas. Ganda lata. Lembras-te quando nos queriam fazer acreditar que o buffering tinha acabado, que era uma relíquia do século XX? Mentira. Diz que está loading mas não está a carregar porra nenhuma. Tem paciência. Pode mesmo estar a carregar. Está bem, vou esperar um bocadinho. E então? Está na mesma! Continua a loadar? Claro que não, está a bufferingar à grande.

    Vou queixar-me ao TripAdvisor: o wifi é péssimo. Não estou a conseguir. Espera aí, achas que é de propósito? Estes sacanas, pá...pensam em tudo!

    https://www.publico.pt/2017/09/16/opiniao/noticia/retrowifi-vintage-1785567

    segunda-feira, 11 de setembro de 2017

    Pablo Neruda - OS SÁTRAPAS

    * Pablo Neruda

    Nixon, Frei e Pinochet até hoje
    até este amargo e doloroso mês de Setembro
    do desgraçado ano de 1973.
    Juntamente com Bordaberry, Garrastazu e Banzer,
    são hienas vorazes da nossa história, roedores
    a corroerem com venenosos dentes os pendões conquistados
    com tanto sangue vertido e no meio de tanto fogo,
    são réus infernais,
    enlameados no pantanal das riquezas mal adquiridas,
    sátrapas mil vezes vendidos e vendedores
    incitados pelos lobos de Nova Iorque.
    São máquinas esfomeadas por dólares,
    manchadas no sacrifício
    dos seus povos martirizados,
    mercadores prostituídos
    do pão e do ar das Américas,
    cloacas assassinas e mal cheirosas
    chefes de rebanhos de homens
    sem conhecerem outra lei senão a da tortura, da fome e do chicote
    que impõem aos seus povos.

    PABLO NERUDA

    CHILE, 15 de Setembro de 1973

    (O último poema de Neruda – publicado durante o fascismo no Semanário «A OPINIÃO» em Outubro de 1973.)


    http://aspalavrassaoarmas.blogspot.pt/2017/09/crime-que-ainda-nao-foi-punido.html

    Pablo Neruda - Yo no me callo

    * Pablo Neruda



    “Yo no me callo

    Perdone el ciudadano esperanzado
    mi recuerdo de acciones miserables,
    que levantan los hombres del pasado.
    Yo predico un amor inexorable.
    Y no me importa perro ni persona:
    sólo el pueblo es en mí considerable:
    sólo la Patria a mí me condiciona.
    Pueblo y Patria manejan mi cuidado:
    Patria y pueblo destinan mis deberes
    y si logran matar lo levantado
    por el pueblo, es mi Patria la que muere.
    Es ése mi temor y mi agonía.
    Por eso en el combate nadie espere
    que se quede sin voz mi poesía.”


    Eu não me calo

    Eu preconizo um amor inexorável.
    E não me importa pessoa nem cão:
    Só o povo me é considerável,
    Só a pátria é minha condição.
    Povo e pátria manejam meu cuidado,
    Pátria e povo destinam meus deveres
    E se logram matar o revoltado
    Pelo povo, é minha Pátria quem morre.
    É esse meu temor e minha agonia.
    Por isso no combate ninguém espere
    Que se quede sem voz minha poesia.



    quinta-feira, 31 de agosto de 2017

    Chico Buarque - As Caravanas

    * Chico Buarque
     


    É um dia de real grandeza, tudo azul
    Um mar turqueza à la Istambul enchendo os olhos
    Um sol de torrar os miolos
    Quando pinta em Copacabana

    A caravana do Arará — do Caxangá, da Chatuba
    A caravana do Irajá, o combio da Penha
    Não há barreira que retenha esses estranhos
    Suburbanos tipo muçulmanos do Jacarezinho
    A caminho do Jardim de Alá — é o bicho, é o buchicho é a charanga

    Diz que malocam seus facões e adagas
    Em sungas estufadas e calções disformes
    Diz que eles têm picas enormes
    E seus sacos são granadas
    Lá das quebradas da Maré

    Com negros torsos nus deixam em polvorosa
    A gente ordeira e virtuosa que apela
    Pra polícia despachar de volta
    O populacho pra favela
    Ou pra Benguela, ou pra Guiné

    Sol, a culpa deve ser do sol
    Que bate na moleira, o sol
    Que estoura as veias, o suor
    Que embaça os olhos e a razão

    E essa zoeira dentro da prisão
    Crioulos empilhados no porão
    De caravelas no alto mar
    Tem que bater, tem que matar, engrossa a gritaria

    Filha do medo, a raiva é mãe da covardia
    Ou doido sou eu que escuto vozes
    Não há gente tão insana
    Nem caravana do Arará

    domingo, 27 de agosto de 2017

    Luís de Camões - Soneto XXIX

    * Luís de Camões

    Sete anos de pastor Jacó servia
    Labão, pai de Raquel, serrana bela;
    Mas não servia ao pai, servia a ela,
    E a ela só por prêmio pretendia.

    Os dias, na esperança de um só dia,
    Passava, contentando-se com vê-la;
    Porém o pai, usando de cautela,
    Em lugar de Raquel lhe deu a Lia.

    Vendo o triste pastor que com enganos
    Assim lhe era negada a sua pastora,
    Como se não a tivera merecida;

    Começou a servir outros sete anos,
    Dizendo: Mais servira, se não fora,
    Para tão longo amor, tão curta a vida.

    (Soneto XXIX. Luís de Camões, 1524-1580)

    terça-feira, 22 de agosto de 2017

    Manuel António Pina - A poesia vai acabar

    * Manuel António Pina 


    A poesia vai acabar, os poetas 
    vão ser colocados em lugares mais úteis. 
    Por exemplo, observadores de pássaros
    (enquanto os pássaros não 
    acabarem). esta certeza tive-a hoje ao
    entrar numa repartição pública. 
    Um senhor míope atendia devagar
    ao balcão; eu perguntei: «Que fez algum
    poeta por este senhor?» E a pergunta
    afligiu-me tanto por dentro e por
    fora da cabeça que tive de voltar a ler
    toda a poesia desde o princípio do mundo. 
    Uma pergunta numa cabeça. 
    – Como uma coroa de espinhos: 
    estão todos a ver onde o autor quer chegar? –


    Manuel António Pina, Poesia, saudade da prosa.

    quinta-feira, 17 de agosto de 2017

    em torno da des / informação




    A informação que temos não é a que desejamos. A informação que desejamos não é a que precisamos. A informação que precisamos não está disponível” - John Peers.

    Quando se descobriu que a informação era um negócio, a verdade deixou de ser importante - Ryszard Kapuscinski.

    Às vezes, a única coisa verdadeira num jornal é a data - Luís F. Veríssimo. 

    Uma opinião pública inquinada por falsidades ou meias verdades não está em condições de formar um juízo válido sobre as alternativas políticas que lhe são propostas.

    Com o tempo, uma imprensa cínica, mercenária, demagógica e corrupta formará um público tão vil como ela mesma - Joseph Pulitzer ( 1847-1911)

    "Uma mentira repetida mil vezes torna-se verdade" - Joseph Goebbels
    - citado em "The Sack of Rome" - Page 14 - por Alexander Stille e também citado em "A World Without Walls: Freedom, Development, Free Trade and Global Governance" - Page 63 por Mike Moore - 2003

    Politicamente só existe o que se sabe que existe, politicamente o que parece é. Oliveira Salazar  - Discursos (1940)

    "Quem controla o passado, controla o futuro; quem controla o presente, controla o passado... quem controla o passado, controla o futuro. Quem controla o presente agora?! Agora testemunhe, está logo atrás da porta" - Georges Orwell - 1984

    quarta-feira, 16 de agosto de 2017

    António Aleixo - Não Dês Esmola a Santinhos

    * António Aleixo  

    MOTE
    Não dês esmola a santinhos,
    Se queres ser bom cidadão; 
    Dá antes aos pobrezinhos
    Uma fatia de pão.
    GLOSAS
    Não dês, porque a padralhada
    Pega nas tuas esmolinhas
    E compra frangos e galinhas
    Para comer de tomatada;
    E os santos não provam nada,
    Nem o cheiro, coitadinhos...
    Os padres bebem bons vinhos
    Por taças finas, bonitas...
    Se elas são p'ra parasitas,
    Não dês esmola a santinhos.
    Missas não mandes dizer,
    Nem lhes faças mais promessas
    E nem mandes armar essas
    Se um dia alguém te morrer.
    Não dês nada que fazer
    Ao padre e ao sacristão,
    A ver para onde eles vão...
    Trabalhar, não, com certeza.
    Dá sempre esmola à pobreza
    Se queres ser bom cidadão.
    Tu não vês que aquela gente
    Chega até a fingir que chora,
    Afirmando o que ignora,
    Assim descaradamente!?...
    Arranjam voz comovente
    Para jludir os parvinhos
    E fazem-se muito mansinhos,
    Que é o seu modo de mamar;
    Portanto, o que lhe hás-de dar,
    Dá antes aos pobrezinhos.
    Lembra-te o que, à sexta-feira,
    O sacristão — o mariola! —
    Diz, quando pede a esmola:
    «Isto é p'rà ajuda da cera»...
    Já poucos caem na asneira,
    Mas em tempos que lá vão,
    Juntavam grande porção
    De dinheiro, em prata e cobre,
    E não davam a um pobre
    Uma fatia de pão.
    António Aleixo, in "Este Livro que Vos Deixo..."

    quinta-feira, 10 de agosto de 2017

    António Aleixo - Não creio nesse Deus

    * António Aleixo


    Não sei se és parvo se és inteligente
    Ao disfrutares vida de nababo
    Louvando um Deus, do qual te dizes crente,
    Que te livre das garras do diabo
    E te faça feliz eternamente.

    Não vês que o teu bem-estar faz d’outra gente
    A dor, o sofrimento, a fome e a guerra?
    E tu não queres p’ra ti o céu e a terra…
    Não te achas egoísta ou exigente?

    Não creio nesse Deus que, na igreja,
    Escuta, dos beatos, confissões;
    Não posso crer num Deus que se maneja,
    Em troca de promessas e orações,
    P’ra o homem conseguir o que deseja.

    Se Deus quer que vivamos irmãmente,
    Quem cumpre esse dever por que receia
    As iras do divino padre eterno?…
    P’ra esses é o céu; porque o inferno
    É p’ra quem vive a vida à custa alheia!

    António Aleixo

    sexta-feira, 4 de agosto de 2017

    Francisco A. de Icaza - Dale limosna, mujer


    Poema inscrito numa das torres da parte mais antiga do palácio de Alhambra, em Granada

    Francisco A. de Icaza

    Dale limosna, mujer, 
    que no hay en la vida nada 
    como la pena de ser ciego en Granada.
    ~~~~~~~~~~
    Fais-lui l’aumône, ô femme, 
    Car il n’y a plus grande peine 
    Que d’être aveugle à Grenade.
    ~~~~~~~~~~
    Dá-me uma esmola, mulher 
    Que não há na vida nada
    Como o castigo de ser cego em Granada.

    do poeta mexicano Francisco A. de Icaza (1863/1925)