quarta-feira, 27 de Fevereiro de 2008

Encerrado ....

montagem a partir de foto de J. J. Castro Ferreira

Destaque duma foto de Rui Pedro

Fotógrafia destacada dum conjunto - Nogueira da Silva
(Lisboa - o regresso da família em 1975)

auto-retrato

Susana Silva (Mindelo)

Joana Princesa - musa de muita poesia sobre o amor e o brincar- tal como a Maria do Mar
(Porto)

Fátima P. (Buçaco)
a navegadora e anotadora nas nossas viagens em Portugal de lés a lés

Rui Pedro
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... por falta de leitores, de comentários, de nível ou de interesse. Ou tudo junto.
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Autores das fotografias creditados
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“A Vida dos Outros”: Ataque frontal



por Cloves Geraldo*


Filme de estréia do alemão Florian Henckel von Donnersmarck retoma ataques anticomunistas ao retratar os conflitos entre Estado e intelectualidade durante a existência da RDA (República Democrática Alemã)


Muito ainda há para se contar historicamente sobre as relações Estado/intelectualidade durante o período do Socialismo Real, no Leste Europeu. Relações estas que começam antes da formação do Estado Soviético e duram até a queda do Muro de Berlim. Não se trata de relações simples, daquelas que falam sobre a adesão ao ideário socialista ou simplesmente ao marxismo-leninismo. Avançam até a participação político-ideológica, com todas as contradições que implicam estar no centro da luta de classes, contribuindo para o surgimento de novas formas e manifestações culturais. Principalmente devido às questões que opõem as políticas de Estado às formulações e criações culturais. O tempo de cada uma muitas vezes não coincide, daí os choques pouco estudados, que abrem espaço para explorações oportunistas, como as mostradas nos filmes alemães, “Adeus Lênin” e, agora, neste “A Vida dos Outros”, estréia na direção de Florian Henckel von Donnersmarck.



Enquanto o primeiro é uma parábola sobre a suposta manipulação da consciência das camadas trabalhadoras no Socialismo Real, problematizada na antiga RDA (República Democrática Alemã), no segundo Florian Henckel tenta captar a “falta de liberdade individual” no país e as conflitantes relações entre Estado e produtores culturais no período que vai de 1949, época de criação da RDA, até 1990, pós-Queda do Muro de Berlim. Ambos pretendem, com isto, fazer uma espécie de acerto de contas com o Estado Socialista Alemão Oriental. E o faz através da análise do tratamento que o Governo Erich Honecker (1912/1994) dava aos produtores culturais. Tema por demais complexo e polêmico, pois implica em matizar a consciência intelectual e seu compromisso com a preservação da estrutura do Estado Socialista Alemão Oriental e, por extensão, da causa do Socialismo e da luta do proletariado alemão e, por que não, internacional.

Trabalhadores tiveram acesso a vasta produção cultural

A questão avança para a contribuição que o intelectual socialista deve dar a esta causa, por meio de sua arte. Durante a construção da URSS, no período de Lênin (1917/1922), havia toda uma concepção em elaboração e as pistas, picadas e trilhas precisavam ser amarradas. A criação artística, devido a isto, estava em aberto. Cada um à sua maneira podia apontar caminhos, nos mais variados gêneros, do romance à poesia, das artes plásticas ao design, do cinema ao teatro. Em meio a este caos aparente poderia surgir a ”arte proletária”. Se era o caminho socialista ou não continuava em aberto. Até o início do Realismo Socialista, nos anos 30, os caminhos se bifurcaram, muita polêmica e debates contribuíram para uma arte que tentava inovar, sem, no entanto, dizer que representava a arte proletária, brotada da Revolução Socialista. Era, no entanto, uma arte ebulitiva, adversa da arte em voga no Ocidente (era assim que os artistas soviéticos viam a arte que era produzida nos EUA e na Europa).



Depois, quando surgiram as elaborações teóricas que desembocaram no Realismo Socialista a divisão se impôs, pois de um lado havia uma política de acesso à produção cultural e de outra a urgência de se ter uma arte para os novos tempos: o dos planos qüinqüenais e da afirmação do ideário socialista/proletário, marxista-leninista. Foram fixados então três campos: a produção, a distribuição e o acesso. A discussão sobre a produção segundo um modelo, o do Realismo Socialista, com narrativas e representações das contribuições proletárias à construção do socialismo, terminou por ofuscar os outros vértices, em particular o último: o de acesso, que, a preços módicos, permitiu aos trabalhadores soviéticos a ler romance e poesia (e não só estes); assistir filmes, peças teatrais e espetáculos de dança e ópera e freqüentar galerias de arte. O comprometimento ou não dos segmentos intelectuais com este novo ideário, o do Realismo Socialista, terminou por provocar profundas cisões nos meios intelectuais, inclusive no assim chamado Ocidente, com manipulações, injustiças e cerceamentos, que terminaram por esfriar as relações entre o Estado Socialista e os produtores culturais.


Contradições na construção do Socialismo não devem abrir espaço às manipulações


Em princípio os conflitos entre diretrizes políticas na época da construção do Socialismo Real na União Soviética e os produtores culturais, grosso modo, se deram, como já observado acima, em razão do tempo de cada ação. O primeiro dada às urgências de afirmação de classe, da estruturação do novo, o Estado Proletário adverso ao Estado burguês, com grandes dificuldades. O segundo em razão da necessidade de espelhar as contradições emergentes na forma da criação cultural, ou se preferir, a arte em construção, sem modelo algum, senão o corte a partir do visto em torno (a realidade social nua e crua, que a arte transfigura e codifica em sua linguagem para o público). O inevitável choque (este tema, dos mais necessários, carece de estudo em profundidade para debelar mitos e inverdades que perduram, principalmente junto à intelectualidade burguesa ou não e às correntes vacilantes de intelectuais reformistas, ainda hoje) terminou por acontecer, em que pese, também, as questões de visões, tendências e apostas burguesas no seio da intelectualidade russa da época.


Não se deve descartar a tendência ao individualismo, até mesmo o desprezo ao coletivo, do intelectual burguês prevalecente à época da construção do Socialismo na então nascente República Socialista Soviética. Esperava-se que outra forma de produtor cultural surgisse dos embates de classe e da tentativa de construção de outra forma de arte. Um tema tão vasto, impactante e conflituoso, mas necessário para esclarecer dúvidas e contribuir para elucidar sobre o tipo de arte que deve sair das relações sociais, políticas, econômicas e culturais na etapa inicial de construção do Estado Socialista, e mesmo hoje durante a estruturação do “Socialismo de Mercado” chinês e outros a construir, vai muito além do espaço bidimensional do cinema. Porém, não se presta a manipulações. Em “A Vida dos Outros”, Florian Henckel arranha as questões acima levantadas, pondo o dramaturgo Georg Dreyman (Sebastian Koch) no centro da ação, sem entrar em detalhes sobre sua relação com o Estado Alemão Oriental. O que se sabe é que ele, em princípio, não incomoda. É, supostamente, um eleito da direção do partido e do Estado.


Diretor demoniza representante do Estado em seu filme

Dreyman é simpático e boa pinta. Leve e cheio de sorrisos. E veste-se com sofisticação. Representa, assim, o estereótipo do artista, em paz consigo mesmo. Florian Henckel, desta forma, não o estigmatiza, o torna simpático para o espectador que logo simpatiza com ele. O primeiro contato com ele, espectador, tem com Dreyman, é através da encenação de uma peça sua para uma seleta platéia, formada por altos figurões do governo e, principalmente, o ministro da Cultura, Bruno Hempf (Thomas Thiene). Pela breve seqüência que se vê, ela, a peça, não retrata uma realidade adversa à do Estado Alemão Oriental. É, portanto, um intelectual do sistema. É este personagem, cujas ações logo entrarão em questão, que Florian Henckel irá opor ao Estado. De uma forma transversa, que ajuda o diretor a escamotear o tema das relações intelectualidade/ Estado Socialista. Põe em curso outro tema: o da cobiça, a tentativa de Hempf atrair para si a atriz Christa-Maria Sieland (Martina Gedeck), paixão de Dreyman, e o uso que outro personagem, Gerd Wiesler (Ulrich Mühe), fará de suas descobertas.

Florian Henckel tenta fundir dois temas em um: o do controle da vida do cidadão pelo Estado e o das relações amorosas, via chantagem, na RDA, de 1984, quando transcorre a ação. Aparentemente, o que Hempf tenta é checar as relações de Dreyman com dois artistas sob suspeita: o diretor de teatro Albert Jerska (Volkmar Kleinert) e o intelectual Paul Hauser (Hans-Uwe Bauer). No meio está Dreyman. A partir deste enfoque inicia-se o processo de espionagem, pressão, chantagem. Está-se diante de um filme-referência: “Tocaia”, de John Badhan, em que Emilio Estevez e Richard Dreyfuss portam-se num apartamento para espionar o movimento no imóvel em frente. Mas remete-se principalmente ao filme-padrão, para este tipo de narrativa: “Janela Indiscreta”, de Alfred Hitchcock. Portanto, algo muito visto pelo espectador, para se ficar em apenas dois filmes. O entrecho submerso, porém, é outro. É o de criticar as relações Estado/intelectualidade durante o Socialismo Real, na RDA. Assim, entra em ação outro personagem: Gerd Wiesler.

Agente ao presenciar vida do espionado muda de idéia

Wiesler, ao contrário de Dreyman, é um ser quase imóvel, de ampla calva, magro, roupas cinzentas, gestos comedidos. A ele é dada à tarefa de espionar Dreyman. Com todos os apetrechos comuns neste tipo de filme ele vai, aos poucos, deslindando o cotidiano do dramaturgo. Este leva uma vida comum, de ficar em seu apartamento, escrever, ler, receber amigos e se relacionar com Christa-Maria. Nada de suspeito, de adverso há em suas movimentações. Há ali, sim, um homem cuja vida é diferente da sua: solitária, obrigado a preparar suas refeições, ficar estático diante da televisão, num ambiente de poucos e simples móveis. O monótono trabalho que faz leva-o a se questionar. Numa seqüência em que assiste as carícias entre Dreyman e Christa-Maria, eles o instigam a buscar recompensa amorosa, só que com uma prostituta, numa crítica sutil ao sistema prevalecente na então RDA. Ele, inclusive, a quer por mais tempo, ela, no entanto, se desvencilha dele, dada ao compromisso com outros clientes.

Este é o único instante em que “A Vida dos Outros” ganha em profundidade. Deixa de ser um arremedo de filme, que na verdade é, sobre a relação Estado/intelectualidade para ser a respeito de um homem cuja atividade o retira do cotidiano, do relacionar-se com outrem, do projetar sua própria vida. Outra camada lhe será acrescentada ao Wiesler presenciar numa noite a chegada de Hempf com Christa-Maria, num luxuoso automóvel preto. Ele compreende, na verdade, o que está por trás da ordem de espionar Dreyman. De novo uma crítica: a de que a RDA se prestava a este tipo de mesquinharia, ou seja, questões de natureza amorosa se sobreporem às de natureza do Estado. Pode ser entendido como um desvio individual, do ministro da Cultura, Hempf, que põe o aparelho de espionagem estatal para provocar a derrocada de um intelectual importante e dele roubar a mulher. Entretanto, Florian Henckel não aprofunda esta questão. Não remete o espectador a uma discussão deste nível. No máximo, mostra Hempf servindo de escada para o assessor Anton Grubitz (Ulrich Tukur) que busca ascender na estrutura do Estado.

Acerto de contas mostra que Socialismo ainda assusta

São pontas apenas. Com o agravante de que Hempf, a exemplo de Wiesler, não é um personagem simpático. Pesadão, sempre de terno e gravata, ele é direto. A seqüência no automóvel, em que usa Christa-Maria em pleno tráfego, atesta seu caráter. E Florian Hemckel remete seu filme aos anos de Guerra Fria, quando os comunistas eram retratados pelos filmes europeus e hollywoodianos como brutamontes, seres sem cérebro, dispostos a cometer os mais bárbaros crimes. Uma caracterização grosseira, simplista, até. Seus motivos são mesquinhos – afastar Dreyman de suas relações e ganhar Christa-Maria para si. Hempf a manipula ao extremo a ponto de ela ir se entregando, deixando de lado sua paixão por Dreyman. Bela, interpretada com intensidade gratificante pela atriz Martina Gedeck, ela representa a fragilidade feminina diante da rudeza do vilão. Todo o ódio recai, assim, sobre Hempf. O que impulsiona a propaganda das relações entre Estado e intelectualidade na Alemanha Federal de hoje contra o Socialismo Real.

Esta forma de acerto de contas que enquadra o passado para tirar lições e, a partir daí, ganhar adeptos para uma causa, foi tratada pelos historiadores suecos Leif Furhammar e Folke Isaksson, em seu livro “Cinema & Política.”(...) A propaganda no cinema sempre encontra bons presságios para sua vitória, a maioria arrancados do passado. A forma especial de regressão cinematográfica é a reação primitiva de escapar de uma crise andando para trás no tempo até um período mais seguro (...)”. Florin Henckel procura escapar ao passado inserindo em “A Vida dos Outros” o que ocorreu com Dreyman e Hempf após a queda do Muro de Berlim. Embora tenha sido demonizado, Hempf, pós-queda da RDA, continua em altos postos – sempre de terno e gravata cinzentos e mostrado nas sombras – enquanto Dreyman escala os degraus da fama, com direito a banners gigantes nas livrarias e noite de autógrafo no lançamento de seu livro. No encontro de ambos, não muito ao acaso, o dramaturgo tenta esclarecer o modo como era visto e tratado pelo Estado no período pré-derrocada do Socialismo Real no Leste Europeu. A resposta que o antigo ministro da cultura lhe dá é chocante. Dreyman percebe toda a sua fragilidade e os riscos que correu, quando se imaginava protegido pelo Estado.

Espião mudou de lado e caiu em desgraça

Se estas seqüências podem ser incluídas nos paralelos da manipulação, uma vez que Florian Henckel mostra-o em pleno deslocamento pelas ruas de Berlim, sem espião algum em seu encalço – as que retratam as conseqüências do ato de Wiesler em mudar sua visão sobre o suspeito Dreyman colocam o filme num patamar adverso. Seu ato não o recompensou. Caiu em desgraça ainda durante a existência da RDA e esta punição permanece no período pós-Queda do Muro de Berlim. A forma como ele se locomove pela calçada, recolhendo cartas e empurrando o carrinho dos correios comprovam a capacidade de análise do diretor sobre as transições de sistemas políticos, em que a desgraça pode continuar; com a punição perdurando para além dos limites de uma forma de Estado para outra. Antes oficial, com poderes para ditar normas e impor severas punições, Wiesler acabou vítima sua decisão.


Embora “A vida dos Outros” tenha estes oásis conteudísticos é um filme que se presta a demonizar as relações Estado/produtores culturais durante o Socialismo Real. Presta-se a um trabalho antes feito pela CIA para evitar simpatias pela revolução em curso na antiga URSS, conforme retrata a inglesa Frances Stonor Saunders em seu livro “Quem Pagou a Conta”, resenhado por Ubiratan Brasil, no jornal O Estado de São Paulo. ”(...) Entre 1950 e 67, durante o auge da Guerra Fria, a agência (CIA) investiu vastos recursos em um projeto com a intenção de afastar a intelectualidade, especialmente européia, de seu fascínio remanescente pelo marxismo e comunismo, buscando atraí-la para uma visão mais receptiva do “estilo norte-americano”(2). A idéia hoje é, possivelmente, outra: a de não atrair simpatias para o “Socialismo Emergente”, simbolizado pela visibilidade chinesa.


Filme cai como dádiva para os neoliberais

Diante das incertezas neoliberais um filme com esta carga político-ideológica cai para os países do 1º Mundo, os EUA, em especial, como um grato prêmio. É como se dissesse: “olha aí, eram uns monstros!”. Uma forma de isto reconhecer foi logo premiá-lo. Ganhou o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro de 2007. Um galardão que não o impulsionou nas bilheterias ou nas páginas dos jornais, salvo pelas críticas elogiosas na mídia costumeira. Pouco significa frente à capacidade de o cinema, principalmente neste caso, estar usando velhos recursos para demonizar “o inimigo” que nos idos de 1989 parecia tão frágil e agora neste início de Terceiro Milênio mostra-se tão vivo. Pelo menos o filme “A Vida dos Outros” serve para despertar quantos sejam para a sua possibilidade de se mutar em fênix e continuar sua trajetória histórica.

“A vida dos Outros” (Das Leben der Anderen). Alemanha. Drama. 2006, 137 minutos. Roteiro/Direção: Florian Henckel von Donnersmarck. Elenco:Martina Gedeck, Ulrich Koch, Sebastian Koch, Ulrich Tukur.

Referências Bibliográficas

(1) Furhammar, Leif; Isaksson, Folke, “Defesa Psicológica”, Cinema & Política, Editora Paz e Terra, 1976, pág. 206;


(2) Brasil, Ubiratan, “Corrupção Intelectual”, Cultura, Caderno 2, O Estado de São Paulo, domingo, 10 de fevereiro de 2008, Ano 24, Número 1.424, D1.





*Cloves Geraldo, Jornalista



* Opiniões aqui expressas não refletem, necessariamente, a opinião do site.
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in VERMELHO -
15 DE FEVEREIRO DE 2008 - 19h05

Os Versos do Poeta


por Eduardo Bomfim*

Quando o ano de 2008 avizinha-se rapidamente, iminente, nesses tempos de festas, deve-se, acredito, escrever ou falar em mensagens de esperanças mesmo que exista um sentimento de ceticismo em muitas pessoas bombardeadas pelos acontecimentos sociais, as notícias sobre a criminalidade, ou mesmo uma difusa sensação emanada de um tempo complexo demais.


Não temos qualquer vocação para adeptos do Dr. Pangloss, personagem de Voltaire no romance satírico “Cândido ou o Otimismo”, que olhava o mundo e os episódios, com um tresloucado otimismo. O referido Pangloss, nunca observava os fenômenos da sociedade com olhos críticos.


Por outro lado, abominamos o seu oposto extremo, o niilismo, doutrina que professa a convicção de que não há verdades ou alguma espécie de valores na sociedade a serem construídos ou mantidos pelo seu caráter universal. Assim, nem o otimismo irrealista, como o velho remédio, a “maravilha curativa”, nem a descrença na capacidade do ser humano em alterar o seu destino para tempos melhores.


O desenvolvimento da humanidade já provou o contrário, as mulheres e os homens mudam, quando podem e querem transformar a situação estabelecida, quando adquirem a consciência dessa necessidade. E o fazem, também, em todas as áreas das ciências.


As guerras, as injustiças, a fome, as ditaduras etc, são parte de uma etapa das sociedades que ainda não atingiram um estágio superior.


Assim pensam não só os defensores das emancipações estruturais da condição humana, mas os cristãos, os judeus, os islâmicos, os budistas, os humanistas, os umbandistas, e tantas outras religiões ou cultos.


É inerente aos seres humanos o sonho de um novo mundo, como um destino a ser alcançado por todas as gerações, inclusive aquelas que passaram por experiências terríveis.


A raça humana, mais que contemplativa, modifica as suas condições de sobrevivência, sempre com imperfeições, mas em escala progressiva. Não pretendemos retornar à idade da pedra lascada, mesmo que alguns insanos sonhem com essa regressão.


Em 2008, continuemos a honrar o legado dos que se bateram por novos dias, como nos versos do poeta Maiakóviski: se as estrelas se acendem é porque alguém precisa delas, é porque, em verdade, é indispensável que sobre todos os tetos uma única estrela, pelo menos, se alumie.





*Eduardo Bomfim, Advogado

in VERMELHO - 29 DE DEZEMBRO DE 2007 - 15h32
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e também em

lucianosiqueira.blogspot.com


* Opiniões aqui expressas não refletem, necessariamente, a opinião do site.


terça-feira, 26 de Fevereiro de 2008

Escrita e edição electrónicas: como «nasce» um escritor?

ENTREVISTAS

Segunda-feira, 4/2/2008
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Márcio-André
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Márcio-André é precoce. Completando trinta anos em 2008, já publicou três livros de poesia; edita uma das mais importantes revistas literárias da atualidade, a Confraria; e coordena a editora Confraria do Vento, pela qual lançou seu último volume, Intradoxos, e também a coletânea dos dois primeiros anos da Confraria, ambos em 2007. "Primeiro poeta radioativo do Brasil", já leu poemas até em Chernobyl, na Ucrânia, e, no momento, desenvolve um trabalho em "geopoética", a "poética das casas", define.

Nesta Entrevista, Márcio fala da Geração 00 ("o fato de publicar já não atesta ninguém como escritor"), da gênese e da consolidação da Confraria ("nosso interesse era enfrentar a academia e a maneira pela qual ela sempre se fez ver") e da caminhada editorial da Confraria do Vento ("estamos descobrindo como é difícil e complicado levar adiante uma editora no Brasil").

Embora poeta militante, Márcio-André teme pelo fim da poesia ("ela exige uma contemplação, uma paciência e uma auto-reclusão difíceis de se encontrar hoje"), dá os seus palpites sobre o livro eletrônico ("vejo a 'pirataria literária' como uma possibilidade de democratização da leitura") e reflete sobre a relação escritor-leitor ("será que o escritor [contemporâneo] está preparado para intermediar, como queria Hölderlin, deuses e homens?"). — JDB

1. Queria começar falando de você e da sua produção. Como eu acompanhei a internet e a Geração 00 praticamente desde o início, cansei de ver gente que descobriu a escrita através do e-mail e através da Web — e, de repente, pensava que era escritor. Sem nenhuma cultura para isso. Sem ler a literatura feita antes (às vezes renegando a tradição sem conhecer a tradição), maltratando a ortografia e a gramática, e publicando, naturalmente, obviedades, como se fossem peças originais ou mesmo autênticas. De uns tempos pra cá, porém, apareceu gente como você — que lê, que estudou (e continua estudando) literatura e que vem com uma proposta. Como foi no seu caso? Não sei se você concorda comigo, mas eu acho que você não é o único — eu tenho visto autores jovens, com vontade de aprender, perguntando, pesquisando... sem aquela empáfia de quem nasce "sabendo tudo". Você confirma essa atitude?

Eu acredito num valor ambíguo da internet, que tem menos a ver com ela do que com seus usuários. Seu grande mérito está na possibilidade de independência do escritor dos canais formais de difusão e produção, sejam estes as editoras, a academia, a imprensa, tradicionalmente responsáveis por "atestar" aquilo que deve ser lido.

Não há aqui um julgamento. Não há certo ou errado, mas naturalmente cada mudança de aspecto implica uma mudança no panorama: se antes havia uma dificuldade maior de veicular o trabalho, por outro lado havia um maior "profissionalismo" da escrita — para o bem e para o mal. O editor, por pior que fosse, agia como mediador qualitativo, ainda que em função do mercado, de uma tradição ou de um grupo. A tecnologia tornou tão fácil lançar um livro ou um blog, que surge espaço tanto para uma escrita menos comprometida a esses ditames quanto para essa falta de "profissionalismo" da escrita, surgindo muitas vezes escritores sem critério algum.

Isso leva justamente ao caminho oposto, onde o fato de publicar já não atesta ninguém como escritor. A proliferação dos autores que "nascem sabendo tudo" só é problema da internet na medida em que ela queira o mesmo nivelamento democrático da idéia que a subjaz, enquanto produto desta, cuja propensão é justamente a de direcionar sua fala a todos aqueles que queiram simplesmente se "expressar". A idéia da expressão, enquanto valor artístico, é muito mais antiga, surge com a modernidade e remete mais imediatamente à idéia do gênio no romantismo, justamente onde o projeto de industrialização teve o seu maior impulso (não eram, como se pensa, movimentos divergentes, mas antes a reafirmação da noção do sujeito, num momento em que o indivíduo mais e mais deixava de ter algum valor real na sociedade).

Naturalmente, surgem também escritores mais engajados na escrita, jovens escritores como Victor Paes, Marcelo Ariel, Karinna Gulias, Rod Britto, Paulo Ferraz, Ronaldo Ferrito e muitos outros, que, mais cedo ou mais tarde, se encontrarão na excelência de si mesmos, justamente porque recusaram ver seu trabalho como "expressão".

A lição que fica, neste panorama, é que, cada vez mais, o leitor precisa ser um crítico — apaixonado, pleno de afeto, mas exigente — para que ele mesmo possa discernir o que o interessa ou não. Ou seja, o leitor passa a ser, mais do que nunca, ativo diante de tanta oferta, e a leitura toma o seu devido lugar, o de diálogo, e, cada vez menos, o de consumo editorial.

2. Ao mesmo tempo, parece que estamos superando, finalmente, a fase do "vômito" na literatura contemporânea. Eu vejo a sua poesia como um trabalho de elaboração. Porque, em muitos livros que eu li (ou folheei) de 2000 pra cá, parecia que o autor publicava, às vezes propositalmente, o esboço ou o rascunho — a primeira versão. No seu Intradoxos, você evita o que vem mais fácil e procura trabalhar, realmente, o verso. Fora que o seu livro, além de divisões (e uma numeração de páginas pouco usual), tem um projeto. Ou seja: embora esteticamente eu não concorde 100% com tudo (o pleonasmo, aqui, é consciente), eu reconheço que houve, como disse, elaboração, que você não foi simples e apenasmente "espontâneo" — como tantos autores, ainda hoje, são. Acredita que seja um traço seu (da sua personalidade) ou podemos generalizar — como venho fazendo aqui — para uma nova geração "pós-internet" ("pós-00")?

Particularmente, sou contrário a qualquer tipo de generalização. Foram as generalizações que fundamentaram vários preconceitos durante a história da literatura, inclusive as mais absurdas delimitações do que seria ou não literatura. Ora, quando se fundamenta, a partir de certos parâmetros incomuns, um paradigma geral, o resultado é a anulação de todo elemento que destoe desses parâmetros. É uma falha ética da própria lógica, onde se entrevê uma lógica de exclusão. As classificações são tão arbitrárias que revelam mais a vontade daquele que classifica do que a do classificado, e entrevemos aí o exercício do poder. Quando se classifica literatura por parâmetros geracionais, então, a coisa complica. É uma taxonomia que não fundamenta mais do que uma linha de "nascença" entre os escritores. Como então determinar uma unidade de escrita, mínima que seja?

Além disso, não vejo a elaboração como uma escolha estilística, mas como um pressuposto fundamental do próprio fazer artístico, ainda que a própria elaboração possa permitir uma "falta de cuidado" enquanto valor conceitual. Não me entenda mal — não acho que a escrita da fase que você chamou do "vômito" não possa ser literatura, mas ela será tanto literatura quanto mais esteja fundamentada enquanto projeto — e está longe de mim querer determinar se ela está ou não — eu só não acredito é numa ingenuidade artística. Os beats, por exemplo, com seu despojamento, demonstravam um aparente desleixo ao ofício, mas é só deter-se um pouco ao que escreveram, que entrevemos um pensamento profundo, uma revelação da escrita muito maior do que aquela pressuposta pelo "automatismo genial".

O que vai determinar esta elaboração, ao meu entender, é o confronto do escritor com a própria tradição. Não somente a tradição formal, mas qualquer tradição com a qual esteja dialogando — um repentista é tanto um melhor repentista, quanto mais ele conheça a tradição do repente e compreenda a sua própria criação. A tradição é um dos ritos da memória — e ainda que seja para enfrentá-la, não se encara a tradição sem conhecer seus pontos fracos. Esse enfrentamento produz a própria memória e ergue os parâmetros éticos da escrita, enquanto engajamento ontológico e não meramente ôntico.

Pois então eu creio que a tal falta de elaboração, essa "primeira versão", como você falou, esteja relacionada ainda à ingenuidade do jovem escritor diante da facilidade de se publicar, que comentamos anteriormente. Por outro lado muitos jovens autores estão escrevendo obras que, como Intradoxos, têm em vista estas questões e que são rigorosamente elaboradas. Mas, ainda que Intradoxos ou meu livro anterior tenham sido escritos por alguém que pertença cronologicamente a geração "00", "pós-00" ou como se escolha chamar, não vejo semelhança com a obra dos meus contemporâneos, da mesma forma que pouco vejo de semelhança entre eles.

Não se trata aqui, como você citou, de estar de acordo ou não com tal ou tal projeto estético. Eu acredito na obra enquanto diálogo e um diálogo é uma questão afetiva e não uma obrigação. O importante é que, caso esse diálogo aconteça, caso uma obra o cative em sua singularidade de leitor, esta obra seja a mais "elaborada" possível, para que o diálogo então possa ser profundo, incisivo e transformador.

3. Inevitavelmente, chegamos à Confraria — que te tornou conhecido (pelo menos para mim). Eu sei que você já contou essa história algumas vezes mas eu gostaria de indagar, ainda, sobre alguns pontos. Primeiramente, por que criar mais uma revista eletrônica com grande ênfase em literatura? Você frisa bastante que a Confraria tem uma ambição além das letras, que é o pensamento — mas será que os seus leitores captam essa sutileza? Eu admiro o esforço de vocês, de comportar, num mesmo espaço, propostas antagônicas. Então queria resumir tudo numa pergunta: como vem insistindo Barack Obama, na sua campanha pela presidência dos Estados Unidos, será que a humanidade finalmente chegou à compreensão de que alcançaremos mais e melhores resultados pela superação das nossas diferenças? Ao rejeitar "linhas", grupos e mesmo "panelas", vocês, na Confraria, anteciparam essa tendência?

Nunca pensamos dessa forma, que estávamos criando uma outra revista eletrônica de literatura, nem que essa devesse ter um diferencial. Nosso interesse era outro, era enfrentar a academia e a maneira pela qual ela sempre se fez ver. Lutávamos contra o pensamento vernacular, guardado em formas viciadas, formatado para especialistas e direcionado a uma elite intelectual — queríamos provar que o pensamento podia ser lúdico e libertário. O objetivo era levar a literatura ao espaço "público", tirá-la do "gueto" — isto é, a academia e o ambiente dos escritores.

Não só isso, queríamos que a revista fosse um panorama atualizado do que estava sendo produzido naquele instante e que pudesse ter um acesso irrestrito e gratuito. Nesse sentido, a internet oferecia um grande potencial democratizador e foi, de fato, uma das responsáveis pelo sucesso da revista. Então, por ser sincera, nossa proposta acabava tendo um diferencial.

Atrelado a isso, tínhamos a crença de que pensar a literatura (e é isso que chamo de pensamento) era pensar a si mesmo enquanto produtor deste fenômeno tão intrigante. Então, o que a Confraria queria oferecer não era somente o poema ou o conto ou a tradução, nem mesmo uma crítica sobre estes, mas o que tem se pensado a respeito, fosse qual fosse a tendência. E muitos leitores têm captado essa sutileza, alguns de imediato, outros sem nunca perceber. Já ouvi várias vezes alguém comentar "a Confraria mudou minha percepção das coisas", mas também já ouvi: "aquele texto que vocês publicaram mudou minha percepção das coisas", e para nós quer dizer o mesmo.

Eu acredito, humildemente, que a proposta da Confraria antecipa uma tendência ainda mais ousada, do que a da simples superação das diferenças, que você citou. O projeto americano sempre foi de fato em prol dessa tal superação. Não é algo novo — vem desde o humanismo, passando pela proposta iluminista, que é a base do pensamento democrático deles. Há uma motivação positiva — e gosto de acreditar que é nessa instância que Obama trabalha — mas sua realização, agente de uma lógica de assimilação das diferenças — no sentido de que há um movimento em torná-las identitárias, assimilando-as ao projeto dominante — sempre resultou em discursos trágicos e belicistas. Pois superar as diferenças, na prática, é tornar as diferenças irrelevantes. A Confraria parte, ao contrário, da idéia de que é preciso eliminar a intolerância à diferença. Aceitar as diferenças enquanto diferenças, sem que para isso, uma diferença anule a outra. Esse segundo movimento encontra respaldo na própria complementaridade da física moderna, a qual, para não enlouquecer diante da indeterminação das partículas, aceita que informações excludentes entre si sejam concomitantemente verdadeiras, sendo o confronto destas a única forma possível de descrever o objeto observado.

Obviamente essa posição ideológica resulta numa busca pelo espaço do debate real, que não privilegia esta ou aquela tendência. Todas são igualmente belas em sua essência, concordemos com elas ou não. A Confraria já publicou autores de todas as vertentes literárias e teóricas que se encontram hoje no Brasil — de Augusto de Campos a Emmanuel Carneiro Leão, dos concretos à poesia marginal.

O leitor sente isso, sente essa sinceridade, sabe que não estamos ali para defender a literatura enquanto discurso. As panelas são formas ainda muito atrasadas de se pensar e um dos grandes responsáveis pelo atraso do Brasil em termos culturais — ainda muito atrelada aos ideais modernistas, às fundamentações mais básicas de um nacionalismo nascente. Ora, qualquer partido que assuma o poder político e queira privilegiar somente o seu grupo só vai promover uma política cultural trágica, fadada à elitização brutal e violenta. Quem promove panelas, entende o poder de modo ingênuo, como forma de privilégio e não como oportunidade de desenvolvimento coletivo.

4. Gostei da edição em livro, do primeiro biênio, e, de fato, fica mais prático em termos de leitura — até para se dar conta do que a Confraria andou produzindo de mais significativo desde 2005. Como foi o feedback em relação ao volume? Você acha que a apreciação do trabalho de vocês mudou de nível depois disso? Nós discutimos isso nos Encontros de Interrogação, mas queria saber se você acha que a internet e o papel sempre vão ser complementares nesse sentido — a primeira fornecendo um alcance quase infinito e o segundo fornecendo credibilidade (e até "substância")? Eu pergunto muito isso aqui — mas quis repetir a pergunta com você, porque, nos Encontros, você fez questão de não se colocar de nenhum dos dois lados. Mas não com aquela postura em cima do muro, de quem não sabe, ou de quem "ouviu falar" — e, sim, com argumentos, com experiência e com pontos de vista de quem pensou no assunto. É por aí?

Em termos editoriais, cada meio oferece suas vantagens e desvantagens. O importante é saber explorá-los o melhor possível no que oferecem. Se puderem ser conciliados então, não vejo por que não o fazer.

O fato de a Confraria ter insistido, nos dois primeiros anos, em ser uma revista unicamente eletrônica, tinha um fator político. Isso a ajudou a ser conhecida no Brasil e no exterior, entre o publico acadêmico e o publico "leigo" e assim driblamos os problemas de distribuição, de custo e de falta de interesse da mídia especializada. Nosso objetivo nunca foi vender revistas, por isso, quando fizemos a versão impressa, queríamos que fosse retrospectiva, que todos os textos já estivessem disponíveis na versão eletrônica. Naturalmente, a versão impressa, trouxe um atestado de seriedade maior para a Confraria, pois ainda existe muito preconceito contra a mídia eletrônica no Brasil. Na Europa e nos EUA, esse preconceito já foi superado e existem muitas publicações respeitadas na rede. Em Portugal, a Confraria adquiriu um destaque interessante e atrai a atenção dos portugueses pela literatura brasileira. Mas no Brasil ainda se busca a publicação impressa como "legitimação" e não acho que seja apenas uma questão da facilidade de leitura, mas a própria forma de como pensamos a propriedade.

Creio que por aqui não simpatizamos muito com a "propriedade" abstrata, aquela que não se enquadra nem na idéia do bem privado, nem público. O sistema de leasing para automóveis, por exemplo, é algo que não emplacou no Brasil devido a essa aversão por aquilo que não possamos resguardar. Isso é muito forte nos países que tiveram um mercantilismo acentuado, cuja origem da economia está baseada quase exclusivamente na expansão territorial e no acúmulo de bens físicos. Já a internet foi pensada por nações que confluem a origem da abstração moderna.

Por conta desses fatores, apesar de menos lida que a versão eletrônica, a revista impressa mexe com a fantasia tátil dos leitores brasileiros e tem tido melhor retorno da mídia e dos intelectuais, que finalmente "reconheceram" seu valor, sem o habitual lobby do "quem indica". Naturalmente, algumas portas se abriram à revista e tenho ouvido elogios de todo lado, de intelectuais do Brasil e do exterior. Eduardo Portella chegou a dizer em sua turma de doutorado, que a Confraria é uma das publicações mais importantes dos últimos tempos, e um jovem poeta de Santos, o Marcelo Ariel, declarou, em seu blog, que a Confraria "é um pequeno milagre, maior do que a Bossa Nova, porque encara o silêncio árido de trezentos desertos culturais". Declarações como essas, para mim, são mais significantes que uma grande resenha no Globo.

5. E a editora, como está indo? Acho que ela reforça essa sua posição, afinal, depois do site, vocês ainda resolveram editar livros, fundando a Confraria do Vento. Como está sendo a convivência entre os dois mundos? São mundos complementares (de novo)? O livro eletrônico (através de aparelhos como o Kindle, da Amazon) pode, um dia, juntar esses dois mundos — ou, por enquanto, ainda é uma quimera? Um dos principais problemas das jovens editoras é a falta de distribuição e, por conseqüência, de projeção e de vendas — como vocês estão contornando isso? A questão da sustentabilidade da editora, como empresa, incomoda vocês, ou o objetivo da Confraria do Vento é mais o de colocar as obras na rua? Parece contraditório e parece repetitivo, mas a grande preocupação minha é entender como as novas empreitadas editoriais vão se desenvolver e, portanto, viabilizar novos caminhos para a nossa cultura...

Estamos descobrindo que é realmente difícil e complicado levar adiante uma editora no Brasil. Não só por conta das dificuldades financeiras, mas pela própria má vontade das distribuidoras e livrarias.

Em parte, os preços elevados de um livro no Brasil se devem às livrarias que cobram de 40 a 50% do valor de capa do livro. Tem livrarias, como a Saraiva, que cobram absurdos, 55%. Isso para uma editora, pequena ou grande, é cruel, pois a livraria, sem pagar o autor, a tradução, a revisão, a editoração, o designer e a impressão, tira limpinho, metade do valor do livro. A editora então tem que jogar o valor lá em cima para tirar um lucro mínimo. Isso para mim é o reflexo de um país cada vez mais elitizado em relação à leitura. É só olhar para as livrarias e ver que se tornaram verdadeiras butiques com cafés charmosos. As distribuidoras, por sua vez, se recusam a trabalhar com pequenas editoras e, quando o fazem, chegam a pedir 65% sobre o valor de capa do livro — um absurdo!

Mas, independente disso, a Confraria do Vento vai, aos poucos, avançando e ganhando espaço. Ano passado, primeiro ano da editora, lançamos oito livros. Até março temos mais quatro previstos. Temos nossos projetos pessoais de antologia das poesias contemporâneas de países como Cabo Verde, Finlândia, Inglaterra, Argentina e Chile, além de ensaios sobre arte e filosofia. Os livros estão bem distribuídos no Rio e agora começam a ser levados para toda região Sudeste e Sul e alguns lugares do Nordeste. Então acho que até cobrir o Brasil inteiro é questão de tempo. A idéia é sim de que os livros possam sustentar a editora, mas isso ainda parece distante, então, por enquanto, vamos tentando expandir nosso catálogo e alcance, nunca abrindo mão da qualidade e de um controle rigoroso do que publicamos.

Quanto à superação do papel, acho uma pergunta um tanto sem resposta, não porque não se possa prever o seu fim, mas porque não acredito na essencialidade de nenhuma tecnologia. O papel um dia vai ser superado, claro, se não daqui a cinco, daqui a 10.000 anos, como um dia o computador vai ser superado. "Superação" talvez seja uma palavra que já denote nossa dependência fundamental a esses meios, então, creio que eles só possam ser "superados" quando já não fizer diferença para nós que um livro esteja sendo lido na tela ou no papel — independente da implicação que isso trará ou tenha trazido em termos sociopolíticos.

Uma coisa que me atrai, contudo, no curto prazo, é a idéia de que a popularização do e-book aumente a pirataria literária, o que eu, enquanto anarquista intelectual, vejo como possibilidade de democratização da literatura. As editoras e as livrarias, como as lojas de disco, teriam que se repensar para não falir e aí, talvez, se interessassem por livros singulares, editoras menores e autores estreantes.

6. Essa discussão me leva a um dos seus temas preferidos, que é aquele papo de que o racionalismo pesa sobre a tradição ocidental. O Nietzsche foi um dos que mais criticou essa influência racional, apolínea, do "logos", desde Platão e Eurípedes. Segundo ele, foram séculos de carência do dionisíaco, do mundo "sensível", afastando o homem da natureza e de suas origens. Não sei se é essa, exatamente, a sua teoria, mas confesso que andei pensando a respeito depois que conversamos. Outro dia, em outra conversa, uma pessoa me falava que o Ocidente hoje caminha para o enriquecimento do "ser" — e que o Oriente, que sempre caminhou nessa direção, agora caminha na direção contrária, na direção do "ter", das conquistas, do lado material. Você acha, também, que é um choque de civilizações? E se for, onde vamos parar (quem "vence")? Para mim, estamos eternamente oscilando entre uma coisa e outra. Será uma solução?

Há um movimento na história do pensamento ocidental que é inegável: a fundamentação da metafísica. Esse caminho dicotômico e determinista que, na modernidade, fundou as delimitações entre sujeito e objeto, é exclusivamente nosso. Graças a ele conseguimos desenvolver um pensamento analítico e uma ciência mais rigorosa, mas por outro lado — e justamente por isso — fomos gradualmente abrindo mão de muitas coisas importantes em nossa maneira de enxergar o mundo. A perda mais grave é certamente a da perspectiva do desconhecido, que em certo nível pode ser comparado à aversão ao outro — ambos, o desconhecido e o outro são entidades que fogem ao nosso controle. Ora, "ser" foge igualmente ao nosso controle. Não podemos dominar ou compreender sua dinâmica plenamente, isso porque, apesar de sermos nós aqueles que "somos", é o "ser" que nos determina "entes", não o contrário — basta lembrar que ninguém escolhe onde, como, quando e por que nascer. Já os orientais — isto é, os povos não-ocidentais, mesmo que ocidentalizados —, incluindo as culturas que desenvolveram certo pensamento científico, sempre lidaram com esse movimento do desconhecido, simplesmente porque admitem dinâmicas que não podem determinar ou dominar. Isto parece uma generalização, mas não é: o que descrevo não é o Oriente, mas uma característica exclusivamente do Ocidente. Não se trata, como você propôs, de uma oscilação. Se pegarmos a História, veremos que a metafísica da causalidade é um movimento único, com pouco mais de 2500 anos de idade e diz respeito somente a nós. O próprio Nietzsche, quando fala das pulsões apolíneo-dionisíacas, está restrito ao âmbito do pensamento europeu. O apolíneo não se refere exatamente ao que estamos falando aqui, pois ele dá conta apenas de certo aspecto do real — por vezes, vinculado à racionalidade. E um pensamento poético não exclui uma racionalidade. Toda racionalidade é por si só poética, e ambas são, naturalmente, indissociáveis.

O que o Ocidente fez foi deter-se somente na faceta racional do poético, fundando categorias muito específicas e limitadoras de enquadramento da realidade. Nesse sentido, acho interessante a teoria do seu amigo. Nunca tinha pensado a respeito disso, mas acho possível que os papéis estejam se invertendo, porque no século XX, com Planck, Einstein, Bohr e todas aquelas revoluções da Física, o Ocidente deu uma guinada, enlouquecendo não só a epistemologia como a forma determinística com que se pensava o mundo e isso logo se disseminou na Filosofia. O que se mostra hoje é a própria indefinição das teorias científicas, abrindo espaço para algo que não atentávamos: o indeterminado entre o que achamos conhecer — o desconhecido. Talvez estejamos realmente nos aproximando de uma preocupação com enriquecimento do "ser", pois nos damos conta da limitação das instituições e das estruturas, apesar disso tudo ainda estar distante da nossa vida cotidiana (um celular, por exemplo, apesar de produzido com os conhecimentos adquiridos pela física das partículas, é consumido segundo os ditames do pensamento clássico — naturalmente me refiro à lógica do mercado, que é herança metafísica).

Já os orientais assimilaram muito rapidamente, e de forma brutal, tudo que o Ocidente levou dois mil anos para fundamentar. Vejo nesse movimento a forma encontrada por eles de não ficar para trás, como o índio que, para sobreviver ao homem branco, precisa aderir às armas de fogo. Mas não creio que eles tenham assimilado isso de forma tão inocente. Há uma linha de pensadores chineses e japoneses que vêm se utilizando das estruturas da academia ocidental justamente para fundamentar seu pensamento milenar e propor dimensões outras para o caminho do pensamento no mundo — mostrando como o próprio pensamento deles pode "solucionar" os problemas filosóficos do Ocidente. E esses pensadores, mais e mais, começam a ser considerados, ainda que, para isso, seja necessário que seus países cresçam enquanto potências econômicas.

7. Ainda no campo das suas teorias, tem aquela também do "fim da poesia". Segundo o seu raciocínio, no sistema capitalista existe cada vez menos lugar para a poesia, então, um dia, ela vai ser finalmente banida e vai deixar de existir. (Você me desculpe se eu estiver simplificando demais...) Eu contra-argumentei, pessoalmente, dizendo que a poesia existe independentemente do sistema econômico — afinal, a meu ver, os verdadeiros poetas não seguem as mesmas premissas do mercado para construir suas obras. Mas, junto com outras pessoas, eu e você não conseguimos chegar a uma conclusão. No livro da Confraria, o Manoel de Barros habilmente diz que "se o nada desaparecer, a poesia acaba". Ou seja: no meu entender, ele está dizendo que a poesia não precisa de nada para existir — quanto mais capitalismo, mercado, cenários econômicos etc. Márcio, se você é tão convicto, o que podemos fazer para salvar a poesia?

Olha, quando falei de fim da poesia, estava falando da poesia enquanto discurso, enquanto "forma" estabelecida e consagrada dentro da tradição. Obviamente, o poético, isto é, aquilo que é inerente e fundamental ao homem ao perfazer-se homem, nunca deixará de existir, até porque para o poético deixar de existir o homem precisa também deixar de existir. É por esse caminho que Manoel de Barros percorre — o nada, para ele, é essa "inutilidade" fundamental, que, anterior a qualquer instituição, institui o homem em sua instância poética. Este nada, tão niilizado pelo caminho do que você chamou do "ter", é gerador e pleno de possibilidades criativas.

Mas, quando falo do fim da poesia, eu me detenho em um recorte unicamente literário do poético. Acredito no seu fim, pois esta exige, e sempre exigiu, uma contemplação, uma paciência, uma auto-reclusão cada vez mais difícil de ser encontrada na modernidade capitalista. E à medida que ela deixa de ser interessante ao mercado — visto que trabalha exatamente com esses espaços da diferença e da paciência, enquanto o mercado detém-se na planificação e na velocidade — ela se torna cada vez menos veiculada — como um ônibus que deixa de passar por uma cidade do interior por falta de passageiros suficientes, ainda que haja dois ou três que dependam dele.

O poeta contemporâneo é outro grande responsável por sua extinção, cada vez mais afastado das questões éticas fundamentais na poética, e preocupado somente em promover sua escrita e ficar bem diante das instituições. Se pensarmos no papel dos poetas, desde a poesia pré-islâmica aos modernos poetas chineses, que com seus versos confrontavam qualquer autoridade estabelecida, esse nosso poeta do século XXI, preocupado em adular as instituições, em ampliar o círculo de relacionamentos, em vender uma imagem de "artista", me soa um tanto patético — obviamente, não estou defendendo uma poesia engajada politicamente, mas uma poesia engajada nas questões éticas fundamentais do humano.

E esse problema não é só do Brasil. Em todo o mundo, com raríssimas exceções, a poesia tem enfrentado o mesmo processo de "extinção". Infelizmente, as soluções aos quais se tem recorrido para "salvar" a poesia é a de adequá-la ao jogo do mercado e não o contrário — no que ela perde o que tem de fundamental. O mais curioso é que mesmo o produto desta "aproximação forçada" com o sistema não resulta numa popularização da poesia e nem ajuda o "processo de extinção" a ser revertido. Veja bem, eu falo isso, sendo eu mesmo um entusiasta da poesia, eu mesmo tendo fundado uma editora para publicar poetas, eu mesmo tendo interesse em achar uma solução para essa extinção, ainda que eu só entreveja a solução dentro de uma mudança radical na maneira de pensar a poesia e a realidade.

Então creio que eu, você e o Manoel de Barros estejamos do mesmo lado, dizendo a mesma coisa, procurando esse nada fundamental para que o mundo se refaça a partir do vazio. Obviamente, mesmo que a poesia, enquanto recorte literário tradicional, não dure, haverá muitas outras formas, como a poesia sonora ou a poesia digital, mais condizentes com o sistema onde vivemos, que se sobreponham, de maneira tão profunda quanto a poesia que conhecemos.

8. Aliás, como você vê esse lance de MLU (Movimento Literatura Urgente)? Não precisamos ser tão radicais quanto Platão — que efetivamente baniu os poetas da sua República — mas você acha que os escritores brasileiros têm de receber Bolsa Família ou coisas do tipo? Imagine os milhares de blogueiros que hoje escrevinham — eles entrariam também na fila do MLU? E se não custa nada para abrir um blog, o Governo não poderia acabar falindo com tanto subsídio aos escribas? Agora, sério: você que, de alguma forma, enxerga uma relação causal entre poesia e mercado, acredita, igualmente, que sustentar escritores com dinheiro público pode trazer algum benefício para a literatura? Eu pergunto tudo isso porque vejo você e seus colegas da Confraria, e da Confraria do Vento, se virando em uma porção de iniciativas — e eu acho que o caminho é mais por aí (e não o caminho da esmola governamental)...

Eu sou sim a favor de que haja bolsas para escritores, isso para mim é conclusivo. E não vejo tais bolsas como pertencente à mesma categoria da Bolsa Família, que tem um caráter emergencial e paliativo, enquanto a bolsa para escritores é fundamental para qualquer país que queira fundar uma literatura séria e de qualidade. Países como Irlanda, Alemanha e França, que nem sequer possuem problemas de analfabetismo, destinam subsídios aos seus escritores e é graças a elas, e a uma forte tradição de leitura, que estes são potências literárias.

É importante lembrar, entretanto, que tais bolsas só farão diferença se acompanhadas de duas coisas: 1) a erradicação do analfabetismo, seguida do aumento gradativo da qualidade da educação e de uma política de leitura não somente voltada para o mercado (coisas que não existem hoje no Brasil), caso contrário, as bolsas não têm sentido; e 2) um critério sério e rigoroso de seleção, cuidando para que essas bolsas não se tornem mais uma forma de privilégio particular.

E esse tem sido o problema mais grave. Temos visto casos recentes de bolsas e prêmios que resultaram em desculpa para que os membros do júri presenteassem os amigos, criando uma circulação viciosa. Existem prêmios, como o da Biblioteca Nacional, que nem se encontra o edital. Além, claro, dos projetos estapafúrdios, com critérios estranhos, desenvolvidos pela nova profissão dos "produtores profissionais". E com isso não estou querendo acusar um ou outro, até porque a coisa se tornou generalizada, um problema endêmico (tanto que nem aqueles que se beneficiam talvez percebam o quanto isso é prejudicial). Mas é aí que se perde o sentido de tais bolsas, destinadas a uma elite intelectual, pouco preocupada com a possibilidade de que esse dinheiro retorne, ainda que em valores éticos, para o contribuinte.

Apesar disso, não consigo deixar de ressaltar a importância desses subsídios e vejo, esses que estão surgindo, como demonstração de boa vontade do Governo. Pois, ainda que o Brasil fosse, como os EUA, "auto-suficiente" em termos literários, ainda assim, sem as bolsas, teríamos o risco de uma cultura cada vez mais homogênea e subserviente ao mercado. Mesmo dentro do sistema capitalista é preciso ter alternativas a este — a literatura, especificamente a literatura de qualidade, não tem como sobreviver com concorrentes tão poderosos.

9. E os leitores? Você tem esperança? Lá em Buenos Aires o Joca Reiners Terron retomou aquele argumento dele — da Curitiba Literária —, de que o leitor brasileiro tem de ser reconhecido de alguma forma, de que devemos instituir prêmios para os nossos escassos leitores... Como é a sua relação com eles? Você se sente compreendido? Ou tem as mesmas reclamações do Joca (de falta de leitura)? Será que a nossa época é — mesmo — a de um monte de gente falando e pouca gente escutando? Como vamos solucionar isso? Com mais barulho? Como melhores editores/críticos/filtros? Você se incomoda com a oferta crescente de conteúdo? As editoras (novas ou velhas) publicam cada vez mais — o que é bom para os autores —, mas será que isso é bom para os leitores? Falando em ciclos, novamente: será que, em algum momento, vamos ter de rever essa explosão?

Sim, é no leitor onde mais entrevejo esperança. O problema é que se confunde o leitor com uma noção estranha e mal formulada de público leitor. Eu não me interesso por essa categoria abstrata. Eu me interesso é por aquela pessoa que toma contato com o meu livro e, de alguma forma, nos aproximamos. Meus livros são sempre um diálogo, nunca um monólogo. Não me sinto incompreendido nem distante dos leitores, por pouquíssimos e invisíveis que possam ser — dos escritores talvez sim, por tantos e tão visíveis que sejam. A falta de leitura é sempre relativa e vejo muita gente reclamando de barriga cheia. Também não vejo vantagens nem desvantagens em premiar leitores — acredito mesmo é no básico: educação de qualidade, nada mais. Educação de qualidade quer dizer: possibilitar o autoconhecimento e a auto-realização. É aí que o escritor entra, como um aprofundador radical desse caminho "espiritual" do leitor — cada livro é senão uma janela para si mesmo — um professor às avessas, que desensina. Não é, portanto, o leitor que tem responsabilidades com o escritor, e sim o contrário.

E aí, talvez tenhamos que inverter a sua pergunta — a questão é: será que o escritor está afinal preparado para o leitor? Será que o que ele escreve dá conta da responsabilidade, a que se refere Hölderlin, de intermediar homens e deuses? Será que as palavras por ele escolhidas podem tirar o leitor de seu espaço luminoso e, como um pai severo, obrigá-lo aos caminhos por vezes escuros, para chegar do outro lado alguém melhor? Acho que o escritor deveria pensar um pouco nessas coisas, se o que o interessa de fato é o leitor e não ele mesmo. Não cabe exigir do leitor atenção, seja qual for a resposta a esse questionamento. Não quero dizer com isso que o escritor não precise ser reconhecido ou que ele deva adequar sua escrita ao público, mas sim que o reconhecimento precisa vir pelo diálogo. Pode até parecer prepotência, mas a verdade é que não penso muito nisso, nesse público leitor, apesar de sempre me preocupar com quais rumos meus livros estão tomando.

O meu último livro, Intradoxos, teve certo reconhecimento, menos do que acho que o livro merece, mas bem mais do que eu esperava. Muitos elogios, algumas resenhas e até um ensaio acadêmico, mas as vendas não foram algo extraordinário — o que já esperava, pelo fato de ser poesia, de ser um livro pouco convencional e de ter uma distribuição limitada ao eixo Rio-São Paulo. Mas estou contente com tudo o que tem acontecido a ele, levando em consideração que foi lançado há menos de um ano: já teve partes traduzidas para o finlandês, o francês e o inglês, e em breve ganhará uma tradução integral no Reino Unido. Além do fato de que está agora sendo adaptado para o cinema pela Paula Gaitán, que é uma grande cineasta e pensadora das imagens. Sobretudo, a Paula é também uma grande leitora, e foi isso que nos aproximou. Acho que as coisas vão andando porque têm que andar e, quando perceber, mais pessoas estarão lendo meu livro.

10. Você é jovem mas eu acho que já tem uma experiência valiosa. O que diria para o jovem autor — que quer se desenvolver — e que está te lendo agora? Ele deve te mandar seus originais? (Ou você, como tantos outros editores, não quer nem ouvir falar de originais?) O que você mudaria na sua trajetória até agora (se é que mudaria alguma coisa...)? O caminho é esse mesmo: internet e, depois, livro? Voltando àquela pergunta: o quanto se deve ler antes de publicar? Ou deve haver algum Rimbaud por aí — que não precisa de nada disso? A faculdade de letras valeu a pena para você se tornar escritor/editor? Ou, se pudesse, você faria outra? Acredita, como o Carpinejar, que faltam cursos específicos para escritores no Brasil (e por isso ele montou o seu)? Enfim, quais são os seus conselhos para essa horda de escrevinhadores se debatendo para subsistir?

Eu diria para não encarar a poesia como um dom individual, mas como um dom humano que se alcança através da autocontemplação. Antes de mandar os originais para qualquer editora, é preciso ler muito, escrever muito e refletir muito sobre si mesmo e sobre sua escrita. É um caminho cansativo, exige dedicação, envolve desapego da imagem já pré-formulada do escritor e questionamentos profundos que dizem respeito até mesmo à compreensão do seu papel no mundo.

A chegada é vizinha da loucura. É preciso sair da própria razão para encontrar a razão absoluta — a sabedoria do louco, pois talvez só os loucos tenham direito a escrever poesia. Essa travessia guarda um segredo profundo, conhecido somente por aquele que o atravessa. E aí, superada, não importa idade, não importa título, não importa curso de escrita — ainda que cada uma dessas coisas só venha a acrescentar. Todo o resto — editora, livros publicados, oportunidades e leitores — virá como decorrência natural desta caminhada e já não fará tanta diferença, pois antes de ser um ofício de subsistência ou de realização, ele será um ofício do humano. Talvez tudo isso seja um pouco romântico, mas é assim que vejo.

Para ir além
Márcio-André

Julio Daio Borges
São Paulo, 4/2/2008
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segunda-feira, 25 de Fevereiro de 2008

Profissão: Escritor ?

Quinta-feira, 21/2/2008
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Blog
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Redação

Curso de Criação Literária

Para quem se interessa em aprimorar a escrita, tanto de prosa quanto de poesia, e ainda participar de seminários e palestras sobre literatura pode aproveitar a abertura de inscrições para o curso de Criação Literária promovido pela Academia Internacional de Cinema. O curso começa no dia 3 de março e tem duração de um ano, dividido em dois semestres. Serão estudadas técnicas e conceitos dos três principais gêneros literários: poesia, ficção (romance, conto, novela) e não-ficção (biografia, ensaio, crítica).

Os alunos terão aulas com Michel Laub, Rodrigo Petrônio, Márcia Tiburi, Marcelo Rezende, Nelson de Oliveira, Flávia Rocha (fundadora e diretora da AIC), Wagner Carelli e outros autores que serão convidados ao longo dos semestres. No segundo semestre, cada participante irá desenvolver um projeto de livro, além de poder participar como voluntário na edição de uma antologia em livro, reunindo os melhores textos produzidos no decorrer do curso.

Para ir além
Site da AIC



por Débora Costa e Silva
21/2/2008 às
16h42
Mistérios Literários

(Escritor) Não é profissão, não. E talvez poesia não seja nem literatura. É uma coisa tão extemporânea, tão fora das normas que ou a poesia é a pura literatura ou ela não é literatura.

Ferreira Gullar

* * *

Parece que o romance se tornou o ponto culminante na vida espiritual de um homem. Qualquer pessoa, seja ela um ministro, um assassino de bebês ou uma prostituta, para realizar-se plenamente em qualquer uma dessas especialidades, escreve um romance. Todos se tornaram romancistas. Mas a gente confunde o fato de estar alfabetizado com o fato de ser escritor. A narrativa é uma arte que tem suas regras, como a pintura, como a música, não é um puro vômito confessional nem resultado de uma experiência rica ou particular.

Juan José Saer

* * *

Antes, para ser escritor, um jornalista precisava abandonar a sua profissão; hoje, se alguém quer ser escritor de sucesso, precisa antes ser jornalista; mais do que isso, precisa ter espaço cativo em grandes jornais; ou não existe. Todos os escritores de sucesso no Brasil atual têm espaços fartos de mídia... Na maior parte das vezes o jornalista é um carteiro, o sujeito que leva a mensagem ao destinatário. Nada mais. É uma profissão não necessariamente criativa. Já a literatura não pode ser profissão, pois só funciona como iluminação, ruptura, invenção. O resto é negócio.

Juremir Machado da Silva

Todos no volume Literatura e Jornalismo, da coleção Mistérios da Criação Literária, onde eu também dou meu depoimento (ainda apareço no volume Por que escrevo?; obrigado, Brito!).



por Julio Daio Borges
21/2/2008 à
00h45
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Apartheid contra a pessoa com deficiência

Fevereiro 23, 2008

Apartheid contra a pessoa com deficiência

Existem várias pessoas que, apesar de serem gente, da mesma espécie científica dos homo sapiens, parecem invisíveis e não são facilmente associadas às questões que envolvem direitos humanos. Por Ana Paula Crosara de Resende (*).

Vivemos em um mundo onde muito se fala sobre Direitos Humanos, mas o desrespeito permanece em pauta para muitos dos humanos. Na maioria das vezes, no imaginário coletivo, quando se fala em direitos humanos, associamos com cadeias lotadas, práticas cruéis e de tortura para presos. Ocorre que existem várias pessoas que, apesar de serem gente, da mesma espécie científica dos homo sapiens, parecem invisíveis e não são facilmente associadas às questões que envolvem direitos humanos.

Estou falando das pessoas com deficiência, que em muitos casos não cometeram nenhum crime e que ainda pagam impostos, mas são excluídas da possibilidade de usufruir de direitos humanos básicos, simplesmente por conviverem diariamente com uma deficiência que receberam de "presente da vida".

Importante esclarecer que a deficiência dessas pessoas é só mais uma característica dentre as várias que todo mundo possui, mas comumente é representativa dessas pessoas, como se a pessoa fosse sua deficiência, o que é um absurdo!

Muitos dos meus leitores vão dizer que não, que as pessoas com deficiência também são sujeitos de direitos, inclusive os humanos e universais, e que a legislação brasileira e até a nossa Constituição não fala em diferentes níveis de cidadania.

Tudo muito lindo até aparecer uma pessoa com deficiência no mundo real e que queira estudar na sua escola, ler os livros que você publicou, trabalhar na sua empresa, divertir-se no seu estabelecimento de lazer, até mesmo freqüentar a sua igreja, assistir a um casamento ou fazer uma visita à sua casa ou local de trabalho.

O pânico aumenta se essa pessoa se recusar a ser carregada ou se simplesmente apontar que o problema é a escada, a falta de livro no formato acessível, a ausência de áudio-descrição na propaganda linda que você colocou na televisão, ou a falta de acessibilidade virtual no sítio da sua empresa. Bom, a sua casa estaria resguardada não fosse aquela vontade incontrolável de sua visita que, depois de uns aperitivos precisa, como toda pessoa, usar o banheiro.

E agora? Você não sabia e não foi informado/a que em uma porta de 60 centímetros não passa uma cadeira de rodas? Você não tem obrigação de saber que o livro impresso não atende todas as necessidades de todos os leitores e que isso pode ser considerado, pelo código do consumidor, um defeito? E você que é o responsável pela igreja esqueceu que a porta lateral – aquela onde tem a rampa exigida pela Prefeitura – precisava estar aberta? Será que pedir desculpas vai adiantar alguma coisa ou só vai piorar a raiva pela exclusão tácita que a pessoa está sentindo?

A escola não pode recusar a matrícula porque é crime, mas ela cria tanta confusão na hora em que é informada sobre a deficiência da criança que muitos pais preferem não expor seus filhos a tamanha discriminação.

É por isso que afirmamos que vivemos num APARTHEID silencioso contra as pessoas com deficiência. Ninguém diz que não se pode entrar na igreja, só que a porta, quando existe, está trancada e ninguém tem a chave e ainda pior, ninguém pensa em como abrir a porta, mas em como se livrar daquela pessoa com deficiência ou em como evitar a presença dela para não mostrar a incoerência entre o discurso e a prática.

Naquele momento o problema é a presença da pessoa com deficiência e simplesmente é bastante complexo para a pessoa, nessas situações de "crises", que só quer participar, mostrar que o problema é a falta de acessibilidade ou o desrespeito aos direitos daquele ser humano ali diante de você.

E no imaginário coletivo e na vida real vamos criando mais e mais barreiras para separar essas pessoas do nosso convívio. Transporte acessível? Só especial e separado porque não podemos imaginar que uma pessoa queira sair de sua casa e viver... E por falar nisso, quando encontramos alguém com deficiência que está aí no mesmo lugar que você, batalhando por sua independência como a maior parte dos brasileiros e das brasileiras, logo rotulamos – EXEMPLO DE VIDA, não queremos saber de fato o que ela faz, mas para segregar colocamos em outra categoria dos que devem ser admirados... Porque assim fica mais fácil deixá-los longe de nosso convívio.

Mas ainda nos resta uma esperança que a Convenção Sobre os Direitos da Pessoa com Deficiência, primeiro Tratado Internacional de Direitos Humanos, elaborada pela ONU e com caráter vinculante, seja ratificada pelo Brasil, com quórum qualificado para dar visibilidade a 14,5% da população, de acordo com o Censo Demográfico do IBGE de 2000, para que possa ser usada como arma de enfrentamento mundial desse terrível APARTHEID silencioso e que você pode contribuir e muito para sua manutenção se continuar omisso e fazendo de conta que não vê tudo o que disse acima.

Por isso e muito mais, queremos que essa Convenção seja rotulada como a Convenção contra o APARTHEID das pessoas com deficiência.

(*) Ana Paula Crosara de Resende é advogada, especialista em Direito Administrativo e Direito Empresarial. Mestre em Geografia, Secretária do Instituto dos Advogados de Minas Gerais/Seção Uberlândia. Membro da Comissão de Acessibilidade da APARU – Associação dos Paraplégicos de Uberlândia. Membro do Departamento Jurídico do CVI-Brasil (Conselho Nacional dos Centros de Vida Independente). Autora e Coordenadora das campanhas educativas Uberlândia Sem Barreiras e Eleições Sem Barreiras. Representou o Brasil no 2º ITP Curso de Direitos Humanos e Deficiência para a América Latina (Suécia, 2007). Responsável pelos Quadros "De Igual para Igual" e "Questão de Direitos" no Programa ‘Trocando em Miúdos’ da Rádio Universitária de Uberlândia. Artigo publicado originalmente em www.emdiacomacidadania.com.br


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[www.consciencia.net]

A Imprensa e o «negócio»: Rupert Murdoch

ENSAIOS

Segunda-feira, 27/8/2007
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The Murdoch Street Journal
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A novela finalmente chegou ao fim. Com o desfecho previsto: Rupert Murdoch dobrou as últimas resistências da família Bancroft, e sua News Corporation comprou a Dow Jones Corporation, proprietária do diário The Wall Street Journal. Valor da transação: US$ 5 bilhões (ou US$ 60,00 por ação).
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As ações da Dow Jones valiam em torno de US$ 36,00 quando, em 1º de maio, a CNBC noticiou o interesse de Murdoch em arrematá-las. De imediato, subiram para US$ 56,00. Mas teriam caído com a mesma rapidez se Murdoch desistisse do negócio e nenhum outro interessado se apresentasse. O investidor Warren Buffett, a General Electric e poucos outros ameaçaram entrar no leilão, mas desistiram ao avaliar melhor a obstinação e o poder de fogo do magnata australiano.
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Para Murdoch foi mais um negócio da China. Com circulação diária de mais de 2 milhões de exemplares, o WSJ é o segundo jornal mais lido dos EUA (o primeiro é o mcpaper USA Today) e o mais respeitado no que diz respeito à cobertura de assuntos econômicos (suas reportagens sobre show business são mais abrangentes que as do Variety e quejandos).
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Para o jornalismo, foi um desastre, similar à eventual compra de qualquer um dos três maiores jornais do Brasil pelo bispo Macedo.
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Para os Bancroft, bem, a família é enorme, vive espalhada entre Roma e o Havaí, e, naturalmente, dividiu-se. Uns foram contra a venda de cara. “Qualquer um, menos Murdoch!”, estrilou Elizabeth Steele, inflamada integrante do board da Dow, daquelas para quem o jornalismo é (ou deveria ser), em primeiro lugar, pentecostalista, e, só depois, lucrativo. Ou seja, acima de tudo, fiel a determinados princípios éticos e a um padrão de excelência profissional.
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Os Bancroft poderiam ter oferecido conteúdo e parceria ao canal de negócios, Fox Business Channel, que Murdoch pretende inaugurar em outubro. Mas, em vez de vender só o leite, negociaram a vaca. De resto, sagrada. Desde 1902 que a família tocava, de forma invisível, o WSJ, procurando mantê-lo irrestritamente atrelado aos ideais do capitalismo, mas sem filiação partidária ostensiva (o último candidato a presidente endossado pelo jornal foi o republicano Herbert Hoover, em 1928).
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Seus editoriais e colunistas podem ser irritantemente conservadores, mas a redação sempre trabalhou com espantosa liberdade e frutuosa competência, tradição imposta pelo legendário editor Barney Kilgore, que lá deu as cartas nas décadas de 40, 50 e 60. Muitas das denúncias contra ações fraudulentas no mercado de capitais, nos anos 80 e 90, que renderam ao WSJ vários prêmios Pulitzer, talvez não chegassem ao conhecimento dos leitores se o jornal já estivesse sob a tutela de Murdoch; se já fosse, enfim, The Murdoch Street Journal.
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Murdoch é um misto de polvo e trator. Só na Austrália controla mais de 60% da imprensa, é dono da mais poderosa operadora de TV a cabo, de metade da Qantas (a maior empresa aérea do país) e de toda a liga de rugby. Também fez uma limpa no mercado internacional. Além de 93% da Star TV e 100% da HarperCollins, a News Corp possui mais de uma centena de revistas e jornais, a Fox TV, os estúdios de cinema da Fox e interesses em empreendimentos televisivos de cinco continentes. Seu império jornalístico já contava com 175 jornais antes da compra do WSJ. Nele, o sol nunca se põe – e há sempre, ao fundo, um televisor ligado (também é dele o programa mais visto no mundo, The American Idol) e um computador acessando o MySpace. Compará-lo a Charles Foster Kane é abusar do eufemismo.
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Seu maior defeito não é ser de direita, é não ter escrúpulos e só pensar em acumular poder. Deram-lhe um apelido perfeito: “Aussie vulgarian”. Os australianos não primam pela sofisticação, mas Murdoch abusa do direito de cultuar e disseminar a vulgaridade, o sensacionalismo, o nivelamento por baixo. Ted Turner, dono da CNN, principal concorrente da Fox News, já o comparou a Hitler. Bruce Page, ex-editor do britânico Sunday Times, comprado e encolhido por Murdoch, preferiu compará-lo a Falstaff – uma injustiça com o boêmio e glutão personagem shakespeariano.
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Murdoch não tem o menor constrangimento de usar suas publicações e emissoras de TV para seduzir políticos e alterar legislações criadas para evitar concentração de poder, monopólios e outros malefícios à democratização da mídia. Perseguiu o senador Edward Kennedy por sua vigilância às regras da Comissão Federal de Comunicações dos EUA (FCC, na sigla em inglês), que contrariavam os interesses da Fox Corp. A Fox News (vulgo “Faux News”) é linha-auxiliar confessa do governo Bush, promiscuidade que o comentarista do New York Times, Paul Krugman, caracterizou, muito polidamente, como “conflito de interesses”.
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Suas ligações com os republicanos transcendem o campo das idéias. E do decoro. Ele ofereceu US$ 4,5 milhões de adiantamento por um livro ao então bambambã do Congresso americano, Newt Gingrich, não porque farejasse um best-seller, mas porque necessitava de sua ajuda para abrir brechas na legislação da FCC. Até o beneficiado assustou-se com a proposta.
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Apesar de ferrenho anticomunista, não economiza agrados ao governo chinês. Não quer perder o fabuloso mercado que de certa forma já controla com a sua TV por satélite, a StarTV, sediada em Hong Kong desde 1993. Quatro anos atrás, tirou a BBC do cardápio da TV por assinatura BSkyB porque os manda-chuvas de Pequim não gostavam da maneira crítica como a emissora britânica cobria a China. Em seguida, não apenas suspendeu a publicação das memórias do último mandatário britânico em Hong Kong, Chris Patten, que sairiam pela HarperCollins, conglomerado editorial formado por Murdoch em 1989, como ofereceu US$ 1 milhão à filha de Deng Xiaoping para que escrevesse a biografia do pai, recebida como um monumento ao clichê, à propaganda e à pieguice.
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O que mais se temia – a interferência de Murdoch na linha editorial do WSJ – pode até demorar, em função, sobretudo, das ameaças de cancelamentos de assinaturas que se avolumaram desde o início das negociações, mas na certa ocorrerá. Ele prometeu aos Bancroft e demais membros da cúpula da Dow Jones que respeitaria a liberdade editorial do jornal. Fez o mesmo com a família Carr, por ele usada para comprar The News of the World, sua ponta-de-lança na Inglaterra. Também assegurou a Dorothy Schiff que não mexeria na postura liberal do New York Post, que dela comprou em 1976, e o que se viu foi uma guinada repentina do jornal para a direita. Ao empalmar o londrino Sunday Times, reprisou as juras de sempre, para, na primeira oportunidade, demitir o editor Harold Evans, e pôr o jornal a serviço de Margaret Thatcher – e dos interesses da News Corp, claro.
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A única publicação em cuja linha editorial Murdoch, sabiamente, não interferiu foi o semanário alternativo The Village Voice, por ele tonificado financeiramente em 1977, a pedido de Clay Felker, que também editava as revistas New West e New York, ambas beneficiadas pelo australiano. Na primeira oportunidade, passou a perna em Felker. Tem tudo para abafar no Brasil.
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Nota do Editor
Texto gentilmente cedido pelo autor. Originalmente publicado na edição do dia 5 de agosto de 2007 no "Aliás", do Estadão.
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Sérgio Augusto
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domingo, 24 de Fevereiro de 2008

Pe. António Vieira - Sermão do Bom Ladrão (excerto)


Colecção grandes textos: os textos da minha vida

Este sermão, que hoje se prega na Misericórdia de Lisboa, e não se prega na Capela Real, parecia-me a mim que lá se havia de pregar, e não aqui. Daquela pauta havia de ser, e não desta. E por quê? Porque o texto em que se funda o mesmo sermão, todo pertence à majestade daquele lugar, e nada à piedade deste. Uma das coisas que diz o texto é que foram sentenciados em Jerusalém dois ladrões, e ambos condenados, ambos executados, ambos crucificados e mortos, sem lhes valer procurador nem embargos. Permite isto a misericórdia de Lisboa? Não. (...). Logo esta parte da história não pertence à Misericórdia de Lisboa. A outra parte — que é a que tomei por tema — toda pertence ao Paço e à Capela Real. Nela se fala com o rei: Domine; nela se trata do seu reino: cum veneris in regnum tuum; nela se lhe presentam memoriais: memento mei; e nela os despacha o mesmo rei logo, e sem remissão, a outros tribunais.
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Bem quisera eu que o que hoje determino pregar chegara a todos os reis (...). Todos devem imitar ao Rei dos reis, e todos têm muito que aprender nesta última ação de sua vida. Pediu o Bom Ladrão a Cristo que se lembrasse dele no seu reino (...). E a lembrança que o Senhor teve dele foi que ambos se vissem juntos no Paraíso (...). Esta é a lembrança que devem ter todos os reis, e a que eu quisera lhes persuadissem os que são ouvidos de mais perto. Que se lembrem não só de levar os ladrões ao Paraíso, senão de os levar consigo: Mecum. Nem os reis podem ir ao paraíso sem levar consigo os ladrões, nem os ladrões podem ir ao inferno sem levar consigo os reis. Isto é o que hei de pregar. Ave Maria.
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Levarem os reis consigo ao Paraíso ladrões não só não é companhia indecente, mas ação tão gloriosa e verdadeiramente real, que com ela coroou e provou o mesmo Cristo a verdade do seu reinado, tanto que admitiu na cruz o título de rei. Mas o que vemos praticar em todos os reinos do mundo é tanto pelo contrário que, em vez de os reis levarem consigo os ladrões ao Paraíso, os ladrões são os que levam consigo os reis ao inferno.
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Cuidam ou devem cuidar alguns príncipes que, assim como são superiores a todos, assim são senhores de tudo, e é engano (...). A rapina ou roubo é tomar o alheio violentamente contra a vontade de seu dono; os príncipes tomam muitas coisas a seus vassalos violentamente, e contra sua vontade: logo, parece que o roubo é lícito em alguns casos, porque, se dissermos que os príncipes pecam nisto, todos eles, ou quase todos se condenariam: Fere omnes principes damnarentur. Oh! que terrível e temerosa conseqüência, e quão digna de que a considerem profundamente os príncipes, e os que têm parte em suas resoluções e conselhos! Responde ao seu argumento o mesmo Doutor Angélico, e, posto que não costumo molestar os ouvintes com latins largos, hei de referir as suas próprias palavras: Dicendum, quod si principes a subditis exigunt quod eis secundum justitiam debetur propter bonum commune conservandum, etiam si violentia adhibeatur; non est rapina. Si vero aliquid principes idebite extorqueant, rapina est, sicut et latrocinium. Unde ad restitutionem tenentur sicut et latrones. Et tanto gravius peccant quam latrones, quanto periculosius et communius contra publicam justitiam agunt, cujus custodes sunt positi: Respondo — diz Santo Tomás — que se os príncipes tiram dos súditos o que segundo justiça lhes é devido para conversação do bem comum, ainda que o executem com violência, não é rapina ou roubo. Porém, se os príncipes tomarem por violência o que se lhes não deve, é rapina e latrocínio. Donde se segue que estão obrigado à restituição, como os ladrões, e que pecam tanto mais gravemente que os mesmos ladrões, quanto é mais perigoso e mais comum o dano com que ofendem a justiça pública, de que eles estão postos por defensores.
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Até aqui acerca dos príncipes o Príncipe dos Teólogos. E por que a palavra rapina e latrocínio, aplicada a sujeitos da suprema esfera, é tão alheia das lisonjas que estão costumados a ouvir, que parece conter alguma dissonância, escusa tacitamente o seu modo de falar, e prova a sua doutrina o santo Doutor com dois textos alheios, um divino, do profeta Ezequiel, e outro pouco menos que divino, de Santo Agostinho (...).
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O texto de Santo Agostinho fala geralmente de todos os reinos, em que são ordinárias semelhantes opressões e injustiças, e diz que, entre os tais reinos e as covas dos ladrões — a que o santo chama latrocínios — só há uma diferença. E qual é? Que os reinos são latrocínios, ou ladroeiras grandes, e os latrocínios, ou ladroeiras, são reinos pequenos (...). É o que disse o outro pirata a Alexandre Magno. Navegava Alexandre em uma poderosa armada pelo Mar Eritreu a conquistar a Índia, e como fosse trazido à sua presença um pirata que por ali andava roubando os pescadores, repreendeu-o muito Alexandre de andar em tão mau ofício; porém, ele, que não era medroso nem lerdo, respondeu assim. — Basta, senhor, que eu, porque roubo em uma barca, sou ladrão, e vós, porque roubais em uma armada, sois imperador? — Assim é. O roubar pouco é culpa, o roubar muito é grandeza; o roubar com pouco poder faz os piratas, o roubar com muito, os Alexandres.
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Diógenes, que tudo via com mais aguda vista que os outros homens, viu que uma grande tropa de varas e ministros de justiça levavam a enforcar uns ladrões, e começou a bradar: — Lá vão os ladrões grandes a enforcar os pequenos.
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Pode fazer o download desta peça de oratória doutras obras literárias no sítio onde encontra o

Sermão do Bom Ladrão (1655), Padre António Vieira.

LITERATURA BRASILEIRA Textos literários em meio eletrônico Sermão do Bom Ladrão (1655), de Padre António Vieira. Texto Fonte:. Editoração eletrônica: ...
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Antônio Vieira «entrevistado por Deonísio da Silva


Entrevistas

Uma conversa sobre o Sermão do Bom Ladrão - Deonísio da Silva “entrevista” Antônio Vieira

O escritor Deonísio da Silva é doutor em Letras, pela Universidade de São Paulo (USP), e vice-reitor de pós-graduação e pesquisa da Universidade Estácio de Sá, no Rio de Janeiro. Fez o mestrado em Letras na Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Tem 31 livros publicados, entre os quais citamos Nos bastidores da censura (São Paulo: Estação Liberdade, 1989), sua tese de doutoramento, e os romances A cidade dos padres (São Paulo: Manole, 1986); Orelhas de aluguel (Rio de Janeiro: Guanabara, 1988); e Avante soldados para trás (São Paulo: Siciliano, 1992) (Prêmio Internacional Casa de las Américas), publicados também em outros países. Seus livros mais recentes são Os segredos do baú (São Paulo: Peirópolis, 2007) e A língua nossa de cada dia (São Paulo: Novo Século, 2007). Assina duas colunas semanais: a de etimologia, na revista Caras, e a de crítica de mídia, no Observatório da Imprensa. Seu próximo romance é Goethe e Barrabás, a ser publicado em 2008. Nesta entrevista, Deonísio “conversa” com Antônio Vieira, tendo como pano de fundo O Sermão do Bom Ladrão e o da Sexagésima, ambos proferidos pelo jesuíta em 1655. A introdução à entrevista é do próprio escritor que se faz repórter.

Introdução

O Paiaçu, o Grande Padre, como o chamavam os índios, há muitos anos habita minha casa, como tantas outras que têm biblioteca, e hoje residimos na Barra da Tijuca, no Rio.

Faz vinte e um anos que não o entrevisto. Por muito apreciá-lo, entrevistei-o apenas uma vez, em 1986, nas páginas de um romance, A cidade dos padres, no qual fez, como de hábito, a defesa dos judeus e dos índios, propôs a criação da Companhia Ocidental, da Companhia Oriental, a fundação de um Banco como o de Amsterdam, além de condenar a Inquisição, que tanto o perseguiu.

Sei que nossos irmãos portugueses o consideram uma de suas maiores glórias literárias de todos os tempos, ao lado de Camões. Mas, embora nascido em Lisboa, em 6 de fevereiro de 1608, filho dos fidalgos Cristóvão Vieira Ravasco e Maria de Azevedo, em 1614, aos seis anos, emigrou com os pais para o Brasil, onde veio a morrer, na madrugada de 18 de julho de 1697, aos 89 anos. Portanto, se Vieira é escritor português, Clarice Lispector[1] é escritora ucraniana.

Vieira acreditava piamente na volta de Dom Sebastião, pois, para Deus, nada sendo impossível, sendo necessária a volta do rei português, por que o monarca deixaria de voltar? Só porque tinha morrido pelas mãos dos mouros, na Batalha de Alcácer Quibir, na África? A morte não é motivo para interromper nada, a não ser esta vida terrena, um breve intervalo, se comparado com o tempo que Vieira permanece entre nós e, mais ainda, com a eternidade.

De seus perseguidores, diz certa vez o defensor do Quinto Império: “não me temo de Castela, temo-me desta canalha”.

Na biografia que dele fez André de Barros[2], apresentou-o como de “pequena estatura”, “cor morena”, “olhos sobremaneira vivos, que parecia cintilavam”. Disse também ter sido um gênio humaníssimo, urbano e cortês, de memória prodigiosa e grande erudição e de uma conversa arrebatadora no convívio com os colegas.

Nunca mais o tinha entrevistado, para não chatear o, mais que gênio, oxigênio. Mas, se a primeira entrevista fiz de livre vontade, para esta fui convocado por professores universitários que, sendo amigos, a eles não se pode deixar de atender.

Foram duas sessões de perguntas e respostas. Uma, em minha casa; outra na Universidade Estácio de Sá, onde trabalho. Ali o Padre Antônio Vieira é bibliografia obrigatória, não apenas no curso de Letras, mas numa disciplina de Língua Portuguesa, que é ministrada em todos os cursos. O Padre Antônio Vieira é imortal, pois é a obra, mais nada, que dá imortalidade a um autor.

Confesso que vacilei entre dois sermões para escolher o tema solar desta entrevista: o da Sexagésima, pregado em 1655, mas na Capela Real, ao passo que o do Bom Ladrão, no mesmo ano, foi pregado na Igreja da Misericórdia de Lisboa.

Encanta-me no Sermão da Sexagésima a força da palavra. Absolutamente genial ao manipular no melhor estilo barroco as sutis complexidades e semelhanças que vê entre o ato de lançar sementes na terra e palavras nos homens, ele abre com a parábola do semeador e conclui: “Veja o Céu que ainda tem na terra quem se põe da sua parte. Saiba o Inferno que ainda há na terra quem lhe faça guerra com a palavra de Deus, e saiba a mesma terra que ainda está em estado de reverdecer e dar muito fruto: Et fecit fructum centuplum”.

Contudo, nesta entrevista, limitei as perguntas ao Sermão do Bom Ladrão, de leitura sempre indispensável, porém, no Brasil atual, mais pertinente do que em outros tempos.

As perguntas são minhas. As respostas são dele e foram todas extraídas do Sermão do Bom Ladrão. Vieira falou muito, como é de seu costume, e eu pouco, pois quanto mais silencioso fico, mais aprendo com ele. Entretanto, é sempre preciso interrogá-lo, pois é isso que fazemos quando lemos um autor: fazemos perguntas e obtemos respostas, que levam a novas perguntas, em vertiginosas espirais. Ler, para mim precede escrever, beber vinho e ouvir música, quatro prazeres que muito prezo, três deles podendo ser usufruídos simultaneamente. Por isso, mesmo para um escritor, é mais importante ler do que escrever.

Vamos à entrevista.

Repórter - Todos os que hoje lêem seus escritos, destacam entre os que mais apreciam o Sermão do Bom Ladrão. Qual é a primeira idéia que o senhor nele desenvolve e ilustra com o episódio bíblico ali narrado?

Padre Vieira - Pediu o Bom Ladrão a Cristo que se lembrasse dele no seu reino: “Domine, memento mei, cum veneris in regnum tuum”. E a lembrança que o Senhor teve dele foi que ambos se vissem juntos no Paraíso: “Hodie mecum eris in Paradiso”. Esta é a lembrança que devem ter todos os reis, e a que eu quisera lhes persuadissem os que são ouvidos de mais perto. Que se lembrem não só de levar os ladrões ao Paraíso, senão de os levar consigo: “Mecum”. Nem os reis podem ir ao paraíso sem levar consigo os ladrões, nem os ladrões podem ir ao inferno sem levar consigo os reis. Isto é o que hei de pregar. Ave Maria.

Repórter - E a segunda?

Padre Vieira - Suposta esta primeira verdade certa e infalível, a segunda coisa que suponho com a mesma certeza é que a restituição do alheio, sob pena da salvação, não só obriga aos súditos e particulares, senão também aos cetros e às coroas. Cuidam ou devem cuidar alguns príncipes que, assim como são superiores a todos, assim são senhores de tudo, e é engano. A lei da restituição é lei natural e lei divina. Enquanto lei natural obriga aos reis, porque a natureza fez iguais a todos; e enquanto lei divina também os obriga, porque Deus, que os fez maiores que os outros, é maior que eles. Esta verdade só tem contra si a prática e o uso.

Repórter - E em que filósofo o senhor se apóia para afirmar que é preciso restituir o que foi roubado e não apenas perdoar o ladrão?

Padre Vieira - Santo Tomás. O qual é hoje o meu doutor, e nestas matérias o de maior autoridade: “Terrarum principes multa a suis subditis violenter extorquent, quod videtur ad rationem rapinae pertinere; grave autem videtur dicere, quod in hoc peccent, quia sic fere omnes principes damnarentur. Ergo rapina in aliquo quo casu est licita”. Quer dizer: A rapina ou roubo é tomar o alheio violentamente contra a vontade de seu dono; os príncipes tomam muitas coisas a seus vassalos violentamente, e contra sua vontade: logo, parece que o roubo é lícito em alguns casos, porque, se dissermos que os príncipes pecam nisto, todos eles, ou quase todos se condenariam: “Fere omnes principes damnarentur”. Diz Santo Tomás que se os príncipes tiram dos súditos o que segundo justiça lhes é devido para conservação do bem comum, ainda que o executem com violência, não é rapina ou roubo. Porém, se os príncipes tomarem por violência o que se lhes não deve, é rapina e latrocínio. Donde se segue que estão obrigados à restituição, como os ladrões, e que pecam tanto mais gravemente que os mesmos ladrões, quanto é mais perigoso e mais comum o dano com que ofendem a justiça pública, de que eles estão postos por defensores.

Repórter - Mas Santo Agostinho também condenou o roubo...

Padre Vieira - O texto de Santo Agostinho fala geralmente de todos os reinos, em que são ordinárias semelhantes opressões e injustiças, e diz que entre os tais reinos e as covas dos ladrões - a que o santo chama latrocínios - só há uma diferença.

Repórter - E qual é a diferença?

Padre Vieira - E qual é? Que os reinos são latrocínios, ou ladroeiras grandes, e os latrocínios, ou ladroeiras, são reinos pequenos: “Sublata justitia, quid sunt regna, nisi magna latrocinia? Quia et latrocinia quid sunt, nisi parva regna?”.

Repórter - O senhor, neste mesmo Sermão do Bom Ladrão, como costumava fazer em tantos outros, conta um diálogo ocorrido entre um pirata e Alexandre Magno, o rei da Macedônia que foi educado por Aristóteles. Que episódio foi este?

Padre Vieira - Navegava Alexandre em uma poderosa armada pelo Mar Eritreu a conquistar a Índia, e, como fosse trazido à sua presença um pirata que por ali andava roubando os pescadores, repreendeu-o muito Alexandre de andar em tão mau ofício; porém, ele, que não era medroso nem lerdo, respondeu assim. - Basta, senhor, que eu, porque roubo em uma barca, sou ladrão, e vós, porque roubais em uma armada, sois imperador? - Assim é. O roubar pouco é culpa, o roubar muito é grandeza; o roubar com pouco poder faz os piratas, o roubar com muito, os Alexandres.

Repórter - Mas não foram apenas autores cristãos que reprovaram o roubo e os ladrões. Sêneca disse que tanto faz ser o pirata como o rei; o resultado do roubo só muda em quantidade, causando muito mais repulsa os ladrões com poder.

Padre Vieira - Quando li isto em Sêneca[3], não me admirei tanto de que um filósofo estóico se atrevesse a escrever uma tal sentença em Roma, reinando nela Nero; o que mais me admirou, e quase envergonhou, foi que os nossos oradores evangélicos, em tempo de príncipes católicos e timoratos, ou para a emenda, ou para a cautela, não preguem a mesma doutrina. Saibam estes eloqüentes mudos que mais ofendem os reis com o que calam que com o que disserem, porque a confiança com que isto se diz é sinal que lhes não toca e que se não podem ofender; e a cautela com que se cala é argumento de que se ofenderão, porque lhes pode tocar.

Repórter - O senhor fala de muitos ladrões e de muitos tipos de roubos no Sermão do Bom Ladrão. Quais são os ladrões mais perigosos?

Padre Vieira - Os ladrões de que falo não são aqueles miseráveis, a quem a pobreza e vileza de sua fortuna condenou a este gênero de vida, porque a mesma sua miséria, ou escusa, ou alivia o seu pecado, como diz Salomão: “Non grandis est culpa, cum quis furatus fuerit: furatur enim ut esurientem impleat animam”. O ladrão que furta para comer não vai nem leva ao inferno; os que não só vão, mas levam, de que eu trato, são outros ladrões, de maior calibre e de mais alta esfera, os quais debaixo do mesmo nome e do mesmo predicamento, distingue muito bem S. Basílio Magno[4]: “Non est intelligendum fures esse solum bursarum incisores, vel latrocinantes in balneis; sed et qui duces legionum statuti, vel qui commisso sibi regimine civitatum, aut gentium, hoc quidem furtim tollunt, hoc vero vi et publice exigunt”: Não são só ladrões, diz o santo, os que cortam bolsas ou espreitam os que se vão banhar, para lhes colher a roupa: os ladrões que mais própria e dignamente merecem este título são aqueles a quem os reis encomendam os exércitos e legiões, ou o governo das províncias, ou a administração das cidades, os quais já com manha, já com força, roubam e despojam os povos. - Os outros ladrões roubam um homem: estes roubam cidades e reinos; os outros furtam debaixo do seu risco: estes sem temor, nem perigo; os outros se furtam, são enforcados: estes furtam e enforcam.

Repórter - Qual foi o filósofo grego, citado no seu aludido sermão, que disse que, quando os pequenos ladrões são punidos, quem os está punindo são mais ladrões do que eles?

Padre Vieira - Diógenes[5], que tudo via com mais aguda vista que os outros homens, viu que uma grande tropa de varas e ministros de justiça levavam a enforcar uns ladrões, e começou a bradar: - Lá vão os ladrões grandes a enforcar os pequenos. - Ditosa Grécia, que tinha tal pregador! E mais ditosas as outras nações, se nelas não padecera a justiça as mesmas afrontas!

Repórter - Na Grécia Antiga, então, tão democrática, puniam os pequenos ladrões e nem levavam a julgamento os grandes. E em Roma, como é que era?

Padre Vieira - Quantas vezes se viu Roma ir a enforcar um ladrão, por ter furtado um carneiro, e no mesmo dia ser levado em triunfo um cônsul, ou ditador, por ter roubado uma província. E quantos ladrões teriam enforcado estes mesmos ladrões triunfantes? De um, chamado Seronato, disse com discreta contraposição Sidônio Apolinar: “Nou cessat simul furta, vel punire, vel facere”: Seronato está sempre ocupado em duas coisas: em castigar furtos, e em os fazer. - Isto não era zelo de justiça, senão inveja. Queria tirar os ladrões do mundo, para roubar ele só.

Repórter - Já vimos que o Céu foi inaugurado por um ladrão, ainda que o Bom Ladrão, título e tema deste sermão, pois Jesus, que morre crucificado entre dois ladrões, Dimas e Gestas, diz ao primeiro, que lhe pediu perdão: “hoje mesmo estarás comigo no Paraíso”. É verdade que a roubalheira já começou com Adão e Eva? Afinal, o fruto do furto não foi apenas uma fruta, foi roubo de biodiversidade, de tecnologia e de ciência, pois nossos primeiros pais furtaram o fruto do conhecimento, da árvore da ciência do Bem e do mal, não?

Padre Vieira - Pôs Deus a Adão no Paraíso, com jurisdição e poder sobre todos os viventes, e com senhorio absoluto de todas as coisas criadas, excepto somente uma árvore. Faltavam-lhe poucas letras a Adão para ladrão, e ao fruto para furto não lhe faltava nenhuma. Enfim, ele e sua mulher - que muitas vezes são as terceiras -, aquela só coisa que havia no mundo que não fosse sua, essa roubaram. Já temos a Adão eleito, já o temos com ofício, já o temos ladrão.

Repórter - Mas eles pagaram caro pelo furto. Ou alguém mais também foi indiciado?

Padre Vieira - E quem foi o que pagou o furto? Caso sobre todos admirável! Pagou o furto quem elegeu e quem deu o ofício ao ladrão. Quem elegeu e quem deu o ofício a Adão foi Deus: e Deus foi o que pagou o furto tanto à sua custa, como sabemos. O mesmo Deus o disse assim, referindo o muito que lhe custara a satisfação do furto e dos danos dele: “Quae non rapui, tunc exolvebam”. Vistes o corpo humano de que me vesti, sendo Deus; vistes o muito que padeci, vistes o sangue que derramei, vistes a morte a que fui condenado, entre ladrões. Pois, então, e com tudo isso, pagava o que não furtei. Adão foi o que furtou, e eu o que paguei: “Quae non rapui, tunc exolvebam”.

Repórter - O microfone está à sua disposição para um recado aos brasileiros. Que prece o senhor faz, além da prece da decifração do que o senhor escreveu?

Padre Vieira - Rei dos reis e Senhor dos senhores, que morrestes entre ladrões para pagar o furto do primeiro ladrão, e o primeiro a quem prometestes o Paraíso foi outro ladrão, para que os ladrões e os reis se salvem, ensinai com vosso exemplo, e inspirai com vossa graça a todos os reis, que, não elegendo, nem dissimulando, nem consentindo, nem aumentando ladrões, de tal maneira impeçam os furtos futuros, e façam restituir os passados, que em lugar de os ladrões os levarem consigo, como levam, ao inferno, levem eles consigo os ladrões ao Paraíso, como vós fizestes hoje: “Hodie mecum eris in Paradiso”.


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[1] Clarice Lispector (1920-1977): escritora nascida na Ucrânia. De família judaica, emigrou para o Brasil quando tinha apenas dois meses de idade. Começou a escrever logo que aprendeu a ler, na cidade de Recife. Em 1944, publicou seu primeiro romance, Perto do coração selvagem. A literatura brasileira era nesta altura dominada por uma tendência essencialmente regionalista, com personagens contando a difícil realidade social do país na época. Lispector surpreendeu a crítica com seu romance, quer pela problemática de caráter existencial, completamente inovadora, quer pelo estilo solto elíptico, e fragmentário, reminiscente de James Joyce e Virginia Woolf, ainda mais revolucionário. Seu romance mais famoso embora menos característico quer temática quer estilísticamente, é A hora da estrela, o último publicado antes de sua morte. Neste livro a vida de Macabéa, uma nordestina criada no estado Alagoas e vai morar no Rio de Janeiro, e vai morar em uma pensão, tendo sua vida descrita por um escritor fictício chamado Rodrigo S.M. Sobre Clarice Lispector, a IHU On-Line 228 realizou uma edição especial, intitulada Clarice Lispector. Uma pomba na busca eterna pelo ninho, de 16-7-2007. O material está disponível na nossa página eletrônica (www.unisinos.br/ihu) (Nota da IHU On-Line)

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[2] André de Barros: escreveu a primeira biografia de Antônio Vieira, em 1746, intitulada Vida do apostólico Padre Antônio Vieira da Companhia de Jesus. (Nota da IHU On-Line)

[3] Sêneca (4 a.C. – 65d.C.): estadista, escritor e filósofo estóico romano. De suas obras, restam 12 ensaios filosóficos, 124 cartas, um ensaio meteorológico, uma sátira e nove tragédias. Suas tragédias têm por tema assuntos explorados por dramaturgos gregos, mas são melodramas intensos e violentos, fixando-se na crença estóica de que a catástrofe é resultado da destruição da razão pela paixão. Essas peças influenciaram bastante a tragédia na Itália, na França e na Inglaterra elisabetana. Sua filosofia moral, inspirada na doutrina estóica, está expressa nos diálogos, tratados e cartas, Epístolas morais a Lucílio, que escreveu. As tragédias Medéia, As troianas, Agamenon e Fedra são, geralmente, atribuídas a Sêneca.(Nota do IHU On-Line)

[4] São Basílio Magno (330 – 379): fundador da Ordem dos Basilianos. Estudou filosofia, astronomia, geometria, medicina e atuou como professor. Tornou-se sacerdote e em 370 d.C. tornou-se bispo. (Nota da IHU On-Line)

[5] Diógenes (413-323): filósofo grego e um dos maiores representantes do cinismo. (Nota da IHU On-Line)

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amaivos.uol.com.br
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Uma relação de sites com os Sermões do Pe. António Vieira, sj, pode encontrar-se aqui:
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Na morte de José Afonso - Testemunhos

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Chorei!

Perfeitamente presente, no espírito, o momento em que recebi a triste notícia da morte do nosso Zeca Afonso!
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Morava em Aradas, ao tempo, e foi no sótão que eu usava para ouvir música e trabalhar.
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Estava a ouvir rádio, o que nem era tão habitual como isso! O locutor de serviço anunciava que o Zeca tinha falecido! Chorei, como nunca havia chorado por pessoa que não era da família! Muito! Não que seja eu um durão! Mas a figura amiga do Zé Afonso, que eu tive o gosto de conhecer pessoalmente, de com ele falar, ocupava/ocupa no meu cofre de memórias o gavetão mais sumptuoso, mais apreciado!
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Habituado desde os tempos de Coimbra a venerar a sua coragem, a sua arte, a sua luta anti-fascista, para mim e para milhões, o Zé Afonso será um histórico Português que não mais verá desvanecida a merecida memória de cidadão honesto e honrado; de pessoa dotada de um sentido musical invulgar com uma capacidade poética acima da média! Trauteei, desde sempre, todas as suas composições. Vibrei com cada um dos discos que editou. Animei, atabalhoado, muitas tertúlias com as suas composições!
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Na guerra colonial, foi com o Zeca, com a sua musa e o seu exemplo, que consegui levar de vencida a terrível e podre situação de antagonismo perante indivíduos que compreendia e respeitava: os guerrilheiros, que "construíam o seu país", como ele escreveu e cantou numa das suas trovas!
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Para ele o dinheiro era um acessório, e bem que poderia ter vivido muito mais rico, materialmente, do que viveu.
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Em Aveiro, onde vivo e onde ele nasceu, a Câmara que sempre foi CDS até há 8 anos atrás, nunca lhe deu sequer nome a uma rua! Há hoje, por mor do PS, uma placa na 'Baixa de Stº António' mas sem dignidade, sem genica, sem significado nem beleza! Resta a consolação de saber que o Presidente da Câmara centrista que lhe negou a evocação, já ninguém o recorda. E quando morrer, lá irá o dito para o tal caixote dos vulgares... Ao contrário do nosso Zeca, que perdurará ad secula seculorum!
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Já depois do 25 de Abril, certa manhã encontrei-me com ele casualmente:vínhamos os dois no comboio para Lisboa, a partir do norte. E na plataforma, a caminho da saída - seriam umas dez e trinta, meti conversa. Fomos seguindo para a porta, até que ele me perguntou: "Tens aí dinheiro? É que venho de uma sessão de canto livre, em Amares, e aqueles mariolas esqueceram-se de me dar alguma coisa. E eu ainda não tomei o pequeno-almoço!"... Palavras para quê? O Zeca era um dos seres que ultrapassa a concepção mais complexa que possamos conceber! Para ele, o que importava mesmo era o seu semelhante oprimido e explorado! Ele, a quem tantos exploraram, na sua imensa despreocupação com os bens materiais deste mundo...
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- "Canta sempre para nós, oh Zeca, que é sangue e seiva a tua voz!" disse o Zé Mário. Eu subscrevo. Todos os de boa vontade o farão, também!
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Do Blog artenosatos, de José Paracana.
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Somos nós os teus cantores

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-O Zeca Morreu!
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– Foram as palavras que meu pai, apoiado na janela, disse como num desabafo. Eu apenas sabia que o Zeca que só mais tarde se me mostrou José Afonso era uma voz saída do aparelho de música todos os sábados de manhã e um incómodo um quase descontentamento se me dava caso não a ouvia. No despontar de minha infância o Zeca era aquele cantor que fazia os olhos de meu pai olharem longe, alcançando horizontes que ainda não compreendia. Por isso aquela notícia se anunciou estranha, era como se por algum motivo o disco não mais fosse girar e aquela cantiga tão bela não mais soasse.
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– Foi o nosso cantor!
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– Foi a única frase soluçante que até hoje ouvi de meu pai, que laconicamente deslocou a agulha encontrando o disco em movimento. Maio maduro Maio quem te pintou, quem te quebrou o encanto nunca te amou … num gesto quase de imitação sentei-me à janela olhando o horizonte e imaginando que o Zeca era o meu cantor, que naquele momento apenas eu e meu pai o ouviam. O horizonte tão quotidiano como que se pintou e eu via lá longe uma falua que vinha lá de Istambul, e Maio para mim, que nem sabia de cor os meses do ano, passou a ser o melhor deles todos.
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- Quem foi o Zeca pai?
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– Meu pai reclinado na cadeira parecia já adivinhar a pergunta
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- O Zeca foi o maior cantor e compositor português, foi poeta, usou a música como arma política, lutou contra o fascismo … foi o nosso cantor. Foi então que me lembrei das discussões dos domingos a noite em que eu deitado provocando o gato ouvia falar de uma tal Revolução, palavra da qual não sabia o significado mas achava bonita.
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Cresci ouvindo Zeca, todos os dias primaveris, abrindo as janelas, punha o disco “Venham mais cinco” ou “Com as minhas tamanquinhas” continuando a achar que o Zeca era o meu cantor e em segredo ia apontando letras das quais palavras saltavam enigmáticas de minha imaginação. Um dia já mais velho passei numa loja e vi a um canto um CD com uma mão na capa; era do Zeca, comprei-o e trazia com um disco um livrinho que tinha fotos, fotos do Zeca. Um homem meio despenteado com olhos semi-cerrados por detrás de uns grandes óculos que a força da imaginação tentava endireitar. Durante muito anos rejeitei aquelas fotos; para mim aquela voz profunda e bela que ouvia nas canções não tinha um rosto próprio, talvez um vago perfil de um homem encostado à janela. José Afonso, para mim sempre Zeca, morreu há 20 anos, tempo em que deixou de ser apenas o meu cantor, passou a ser a voz de Abril, um cantor sem igual que nos brindou com a mestria de suas composições acompanhadas com a firmeza de seu carácter. Mais do que cantor, sua obra se transcende na mensagem de inconformismo caiada de rebeldia poética e concisa. Ainda hoje olho o horizonte que há 20 anos o Zeca transformou e sinto que não morreu, vive hoje e sempre na obra e em sua imagem inalterável. É tempo de se ouvir Zeca Afonso, ouvi-lo em casa, nas escolas e universidades, nas rádios e televisões, ouvi-lo sobretudo em nossa tão íntima realidade pois hoje somos nós os teus cantores!
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Adriano Campos
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Do Blog da AJA
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posted by Octávio Sérgio at Quinta-feira, Março 01, 2007
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guitarra de coimbra.blogspot

donde foi retirada a gravura. Clicar para ler.

Zeca Afonso em Grândola


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* Alcides Bizarro
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Quinta-feira, 8 de Março de 2007
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No domingo de 17 de Maio de 1964 José Afonso é convidado para cantar na Sociedade Musical Fraternidade Operária Grandolense num espectáculo” de fino gosto musical”, que a sociedade leva a efeito em continuação dos festejos do seu 52° aniversário. O espectáculo, que o cartaz promocional garante que deliciará o público, apresenta na 1a parte Carlos Paredes e Júlio Abreu em “Variações à Guitarra” e na segunda parte o Dr. Zeca Afonso acompanhado de Rui Pato, interpretando Baladas e Canções de Coimbra. No pequeno texto de apresentação refere-se que o Dr. José Afonso “embora mantendo ainda nas suas canções os sentidos musical e interpretativo de Coimbra (...) revela-se um inovador”. Acrescenta-se ainda que “através das suas belas e estranhas baladas perpassa todo o sentido poético-trágico da sensibilidade do nosso povo”, afirmando-se convictamente que “Pela primeira vez, através deste cantor-poeta de temática eminentemente popular, a canção portuguesa encontra um caminho certo”. A sessão em Grândola foi, por diversas razões, marcante na vida de José Afonso. Eis como ele a conta, anos mais tarde, a José Salvador: “Naquela altura enfiava- me nos buracos que me aparecessem no meio de bailes, casamentos, cantava por minha conta e risco. Respondia pelos meus actos. As coisas vão tomando corpo quando recebo um convite da Música Velha de Grândola, assinado pelo Zé da Conceição, que estava ligado ao teatro local orientado pelo Hélder Costa. (...) Fiquei brutalmente satisfeito com o convite para cantar na Música Velha. Meti-me no comboio com a Zélia e aí encontro-me com o Carlos Paredes que também tinha sido convidado. Foi a primeira vez que conheci o Paredes e então fiquei extremamente impressionado com a colectividade: num local obscuro, quase sem estruturas nenhumas, com uma biblioteca de evidentes objectivos revolucionários, uma disciplina generalizada e aceite entre todos os membros, o que revelava já uma grande consciência e maturidade políticas. Nem cheguei a conhecer quem era o director, quem era afinal o fiscal, mas tudo aquilo corria sobre rodas. Foi nestas circunstâncias que conheci o Zé da Conceição, que me impressionou assim como os seus colaboradores. O meu contacto com a Música Velha antes de ir para África foi extremamente importante (...).
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No espectáculo José Afonso canta pela primeira vez “Cantar Alentejano”, uma canção feita na véspera do espectáculo e que, conforme refere numa carta aos pais, dias depois da passagem por Grândola, era “uma espécie de evocação da terra alentejana e do seu símbolo ainda vivo na lembrança do homem do povo: Catarina Eufémia, uma ceifeira de Baleizão morta pela Guarda Republicana em circunstâncias que forneceriam matéria para uma canção de gesta”. O poema da canção, para além de conter um dos inícios mais bonitos da história da música portuguesa (“Chamava-se Catarina, o Alentejo a viu nascer...”) é uma das mais fortes acusações à política da ditadura, encerrando ao mesmo tempo uma clara mensagem de esperança e um apelo à resistência (“ Quem viu morrer Catarina, não perdoa a quem matou...”)
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Na carta que escreve aos pais José Afonso dá conta de quanto a passagem por Grândola o marcou. Afirma convictamente que “Se alguma vez tiver de deixar esta terra, é a lembrança destes homens que conheci em Grândola e noutros lugares semelhantes que me fará voltar”.
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A 21 de Maio José da Conceição recebe, também, uma carta de José Afonso. Nela o cantor junta um poema dedicado a Grândola, que é lido em sessão pública, na mesma sala onde foi realizado o espectáculo, no dia 31 de Maio. Deste modo os presentes escutam, pela primeira vez: “Grândola Vila Morena/Terra da Fraternidade/O Povo é quem mais ordena/Dentro de ti ó cidade/Em cada esquina um amigo/Em cada rosto igualdade/Grândola Vila Morena/Terra da Fraternidade/Capital da Cortesia/Não se teme de oferecer/Quem for a Grândola um dia/Muita coisa há-de trazer”.
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Neste ano saem dois novos singles de José Afonso: Baladas de Dr. José Afonso, com a canção “O pastor de Bensafrim” e Cantares de José Afonso com as canções “Coro dos Caídos”, “Vila de Olhão” e “Maria”, uma canção dedicada a Zélia. Será Zélia quem, nesse mesmo ano, lhe sugere a partida para Lourenço Marques para que ele possa ir ao encontro dos filhos que continuam a viver em Moçambique com os pais de José Afonso. Refere José Afonso: “Em 1964 regressei quase definitivamente a Africa. Assim pensava. Passei por Faro um pouco a contragosto, tinha dois filhos em Moçambique. Causavam-me um certo problema moral que não conseguia resolver. Por isso decidi partir...”
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biblioteca municipal de grandola.blogspot - zeca-afonso-em-grândola

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foto retirada daqui aldeia-paiopires.blogspot



sábado, 23 de Fevereiro de 2008

Ah, essa falsa cultura...

ENSAIOS

Segunda-feira, 28/1/2008
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Ah, essa falsa cultura...
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Sérgio Augusto







Como dar conta de tantos livros? Eis um drama universal, que vários livros já inspirou. O último da espécie que li intitulava-se Los Demasiados Libros, do poeta e ensaísta mexicano Gabriel Zaid, aqui traduzido pela Summus, informação que só estou lhe passando, "paresseux lecteur", por tratar-se de leitura rápida (tem em torno de 150 páginas), ademais prazerosa e inspiradora. Zaid possui uma biblioteca de mais de 10 mil livros. Não é um colecionador, um bibliômano; apenas adora ler; e é claro que: 1) não leu todos eles; 2) nem sequer folheou a maioria; 3) vários só leu até a metade, se tanto. Como todo mundo, aliás. Complexo? Zero.


Acumular milhares de livros não lidos sem perder a pose nem o desejo de comprar outros mais é um dos apanágios do verdadeiro homem ilustrado, defende-se Zaid de eventuais patrulheiros culturais. Até porque livros descartáveis ou apenas de consulta é o que não falta.

Mesmo quem lê muito rápido, sem prejuízo do gozo e da assimilação, sofre um bocado com o acúmulo de livros ao seu redor. Acompanhar o ritmo do mercado editorial é um anseio impossível, uma frustração permanente, que, como a morte, deve ser encarada como uma fatalidade ecumênica. Não sei se os que lêem menos, sobretudo por falta de tempo, sofrem mais que os bibliófagos, mas é entre eles que se encontra o maior número de preocupados com a pecha de inculto e alienado.

Para estes já existe um remédio. Paradoxalmente, sob a forma de livro. E, ainda que o autor rejeite o rótulo, um livro de auto-ajuda, quiçá de alta ajuda. Publicado na França, Comment Parler des Livres que l'on n'a pas Lus? (Editions Minuit) já foi traduzido para o inglês, também virou best-seller na Alemanha, e tem tudo para virar franquia retórica nas tertúlias do mundo inteiro, pois o sonho de poder falar sobre livros que não lemos talvez seja mais intenso e disseminado que a quimera de ter lido todos os livros importantes publicados até hoje.

Seu autor, Pierre Bayard, 52 anos, mestre em literatura e psicanalista, já aprontou várias petulâncias. Há sete anos, publicou Comment Améliorer les Oeuvres Ratées, em que sugere mudanças em obras menores de Marcel Proust, Marguerite Duras e outros medalhões. Em 2002, lançou Enquête Sur Hamlet: Dialogue des Sourds, no qual tenta provar que Claudius não matou seu irmão, o rei da Dinamarca e pai de Hamlet.

Comment Parler des Livres que l'on n'a pas Lus? é seu 12º livro. Embora possa parecer um açougueiro promovendo as virtudes do vegetarianismo, de insincero Bayard não pode ser acusado. Já no prefácio admite ler pouco, por falta de tempo e interesse, e confessa ter dado aulas e palestras sobre obras em que nunca pôs os olhos.

De messiânico, sei não. Afinal, ele se diz investido da missão de salvar a humanidade das profundas neuroses semeadas pelo fetiche livresco, vale dizer do sentimento de culpa e humilhação que costuma afligir os que não gramaram do princípio ao fim os sete volumes de Em Busca do Tempo Perdido, de Proust. Aos quais poderíamos acrescentar os 17 tomos da Comédia Humana, de Balzac; as quase mil páginas de Ulisses, de James Joyce; as 800 páginas de A Montanha Mágica, de Thomas Mann; as quase 400 páginas de Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa; as 1.190 páginas de Guerra e Paz, de Tolstoi (na tradução da Aguilar) ― para ficarmos só em alguns dos mais célebres catataus da literatura ocidental.

Partindo de uma constatação razoavelmente lógica ― se lemos um livro de ponta a ponta, muitos outros terão de ser desprezados ou, na melhor das hipóteses, lidos pela metade ou apenas folheados ― Bayard propõe algo mais que uma atualização pós-moderna do Método de Leitura Dinâmica de Evelyn Wood, que tantos seguidores amealhou nos anos 60, entre os quais o presidente John Kennedy e milhares de brasileiros. É uma nova e estrambótica maneira de se lidar com um livro, um vade-mécum que mais parece uma paródia de Jacques Derrida e da Modesta Proposta de Jonathan Swift, aquele panfleto satírico (safra 1729) em que o autor de As Viagens de Gulliver recomendava que os irlandeses à beira de miséria faturassem algum transformando seus rebentos em alimento para os ricos. Ou uma paráfrase daquela competição inventada pelos Monty Python, cujos participantes tinham 15 minutos para resumir os sete volumes da Recherche proustiana.

A leitura tradicional, letra por letra, palavra por palavra, está superada, pontifica Bayard, que nunca terminou Ulisses nem O Homem Sem Qualidades (de Robert Musil), só conhece A Eneida (de Virgílio) e Oliver Twist (de Charles Dickens) através de ensaios, não se lembra de mais nada de A Interpretação dos Sonhos (de Freud) e O Lobo da Estepe (de Hermann Hesse), e não faz a mais remota idéia do conteúdo da Retórica de Aristóteles.

Embora mencione Oscar Wilde, seu raciocínio não se apóia literalmente na conhecida boutade wildiana: "Nunca li um livro antes de criticá-lo para não me deixar influenciar pela sua leitura." O quesito influência não o aflige, mas as raízes de seu raciocínio estão, sem dúvida, no Wilde do monológico ensaio "O Crítico Como Artista", no qual o provocante irlandês, após salientar ser inútil beber o tonel inteiro para conhecer a origem e a qualidade de um vinho, argumenta: "Pode-se dizer facilmente em meia hora se um livro é bom ou não vale nada. Bastam, de fato, dez minutos, se se possui o instinto da forma."

Também são referências respeitáveis o sábio Montaigne, que lia à beça mas esquecia de tudo ("nulle retention", queixou-se num de seus ensaios), e Paul Valéry, que encontrava maneiras de elogiar autores cujos livros sequer abrira ou lera por alto, como Proust, e esculachar outros, como Anatole France. A propósito, se esquecemos do que trata um livro que efetivamente lemos, podemos considerá-lo lido? Aqui e ali Bayard menciona personagens de Graham Greene, Umberto Eco e David Lodge que questionam a necessidade da leitura tal como vem sendo há séculos praticada.

Que utilidade tem saber que Leopold Bloom come um sanduíche de gorgonzola no almoço?, questiona Bayard. Mais vale saber que Ulisses é um romance experimental de Joyce, inspirado na Odisséia de Homero, que faz uso do "fluxo de consciência" para descrever um dia (16 de junho de 1904) na vida de alguns poucos dublinenses, já não fará feio numa roda de amigos cultivés. E o prazer da leitura? Uma coisa é saber que Dostoiévski introduziu a psicologia no romance ou que Capitu tinha olhos de cigana oblíqua e dissimulada, outra é experimentar, com o máximo de concentração, a febril deambulação de Raskolnikov por São Petersburgo e a crescente paranóia de Bentinho de que foi corneado pela mulher.

A seus alunos e também aos filhos, Bayard ensinou pessoalmente a sua "prática indisciplinada da leitura": primeiro, examinar a capa e a lombada do livro; depois, ler a primeira frase, passar os olhos nas passagens cruciais, e monitorar tudo o que a seu respeito é dito e publicado. Dito por quem o tenha lido de cabo a rabo, presumo; do contrário, como iremos localizar as tais "passagens cruciais"? Livros que se tornam fenômenos por razões extra-literárias, divulgados e discutidos ad nauseam pela mídia, são autênticos pitéus coloquiais. Mas quantos de vocês aí leram até o fim Os Versos Satânicos e O Nome da Rosa? Descomplexidamente confesso: nem abri o primeiro e não consegui ir além da trigésima sexta página do segundo.

A proposta de Bayard soa leviana, para não dizer funesta (e rimar com modesta). Imagino o horror causado em culturalistas & bibliômanos como Harold Bloom, E.D. Hirsch, Alberto Manguel, Sven Birkerts, e nos apóstolos do "close reading"; e o prazer dado a Franco Moretti, excelente ensaísta e professor da Universidade de Stanford, na Califórnia, que até na Alemanha causou sensação com uma conferência sobre "como falar em literatura sem nunca ter lido um romance." Mas é inegável que Comment Parler des Livres que l'on n'a pas Lus? diverte e funciona como quebra-galho social, cheio de dicas para fazer farol e evitar gafes com autores e leitores tradicionais. Ou mesmo escrever resenhas: "Ponha o livro à sua frente, feche os olhos e tente perceber o que nele possa interessá-lo. Aí, então, comece a escrever sobre si mesmo."

Na presença de um autor, o mais aconselhável é elogiar sua obra sem entrar em detalhes. Detalhes, diante dos elogios, são irrelevantes. E, quanto mais vaidoso o autor, muitíssimo mais relevantes os elogios. Deixar o subconsciente expressar sua relação pessoal com a obra, nem que seja para discorrer apenas sobre a expressividade da capa e a elegância da tipologia, é outro conselho que Bayard oferece à sua clientela. Falar de si mesmo, usando o livro como pretexto, sem aprofundar-se no conteúdo, costuma funcionar, principalmente quando o tergiversador força a imaginação e acaba inventando o seu próprio livro.

"Não quero justificar a não leitura, apenas ensinar as pessoas a viver sem pânico com os livros, ajudá-las a encontrar seus próprios caminhos através da cultura, inclusive aquelas alheias ao universo da palavra escrita, que, de tão apegadas à cultura das imagens, têm dificuldade de voltar à leitura. Quero evitar que a cultura cause novos traumas, que a leitura continue sendo vista como um aterrorizante espectro do conhecimento. Quero libertar os alunos da produção de relatórios exaustivos sobre tudo o que leram, obrigados pelo professor. Isso não é leitura, é burocracia."

Bayard quer muita coisa. Eu também. Ler seu livro, por exemplo. Ou vocês acham que eu cometeria a descortesia de o ler antes de escrever as linhas acima?

Nota do Editor
Texto gentilmente cedido pelo autor. Originalmente publicado em 11 de novembro de 2006, no "Caderno 2" d'O Estado de São Paulo.

Para ir além
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COMO FALAR DOS LIVROS QUE NAO LEMOS?

Autor: BAYARD, PIERRE
Tradutor: JANOWITZER, REJANE
Editora: OBJETIVA
Assunto: LITERATURA ESTRANGEIRA-TEORIA E CRITICA LITERARIA
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Neste ensaio, Pierre Bayard trata uma questão comum no dia-a-dia - como falar dos livros que não lemos? Numa mesa de bar, numa reunião em família ou numa roda de amigos é preciso ter noções dos assuntos em pauta para não passar vergonha. Bayard considera o 'não-leitor' uma figura tão importante como o devorador de livros.
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Saiu na Imprensa:

Correio Braziliense / Data: 17/2/2008
Literatura e Liberdade
O bibliotecário do romance O homem sem qualidades (Robert Musil) confessa ao militar que nunca leu um livro sequer dos milhares de exemplares guardados na biblioteca pela qual é responsável.A leitura de um único exemplar embaralharia todo o seu saber sobre a leitura. O importante é saber do que tratam os livros, não lê-los. O poeta Paul Valéry vai pelo mesmo caminho. Não achou necessário ler Marcel Proust para proferir conferências sobre Em busca do tempo perdido.Tampouco considerou a possibilidade de mergulhar nos livros de Anatole France antes de homenageá- lo em público.

Valéry louva a separação entre obra e autor. E não tem pudores em considerar benéfica a exclusão do autor e do texto quando se transita pelo terreno da crítica literária. Bizarro, mas tem mais. E na voz de vez de Umberto Eco. Basta ler ou ouvir falar o que se disse de determinado livro para comentá-lo. Tem também Michel de Montaigne. O filósofo francês garante que ler um livro e esquecê-lo é o mesmo que nunca tê-lo lido, embora isso não prejudique em nada o leitor. Claro que o fato o transforma em um não-leitor, mas paciência.

Professor de literatura francesa na Universidade Paris 8, na periferia parisiense, o contemporâneo Pierre Bayard junta Valéry,Montaigne, Eco e outros para mostrar a falta de propósito em ler um livro com o único objetivo de comentá-lo. "Como falar dos livros que não lemos?" parece um ensaio. São 208 páginas sobre um modo curioso de leitura. No prólogo, o autor explica que não lê.Mas o autor é personagem e uma conversa com Pierre Bayard revela não ser bem um ensaio o gênero do livro, mas uma ficção escrita por um personagem fictício transmutado em autor. Tudo leva o leitor a crer que trata-se do próprio Pierre Bayard, mas não é.

“Eu leio, e muito. O personagem conta que não cresceu entre livros e, claro,não é o meu caso”,explica.O professor já experimentou a fórmula em outros livros. Reinventou, sempre em tom de ensaio, o final de vários clássicos em outras publicações. A mais recente é Como melhorar as obras fracassadas?. Inédito no Brasil, o livro retoma 13 romances da literatura francesa e sugere como melhorar sua forma e seu conteúdo.

Lançado na França no ano passado e recém chegado às livrarias brasileiras pela Objetiva, "Como falar dos livros que não lemos?" funciona como um bálsamo para aqueles que se sentem culpados com fato de não visitarem a literatura com muito entusiasmo. “Livros aparentemente não lidos não deixam de exercer efeitos sensíveis sobre nós, através dos ecos que nos alcançam”, assegura Pierre Bayard.Um aviso: não se trata de uma tentativa de dissuadir leitores e muito menos de um manual para transitar sem tropeços por entreveros literários.

O professor divide em três categorias as não-leituras. Na primeira, estão os livros sequer consultados. Aqueles que o leitor nem sabe que existem. Ou os de que tem conhecimento, mas nunca tocou ou folheou. O importante aqui não é saber o conteúdo, defende Pierre Bayard , mas a situação do livro. Ou seja, o que ele representa na história da literatura. É o bibliotecário da obra de Robert Musil o exemplo mais contundente.

Em seguida vêm os livros não-lidos, mas eventualmente consultados. E o exemplo de Valéry serve a contento.Em 1923, o poeta escreveu extenso artigo na Nouvelle Revue Française sobre Proust e Em busca do tempo perdido. Detalhe: o poeta nunca leu a obra.Mas é capaz de situá-la no mundo das idéias e fazer sua crítica.Outra categoria importante abrange os livros dos quais se ouve falar. Em O nome da rosa, Umberto Eco conta a história de um monge capaz de reconstituir o conteúdo de um livro que não leu por meio de uma simples investigação sobre o tal volume. E, finalmente, a categoria das leituras esquecidas.Nesta, o próprio Pierre Bayard confessa se incluir inúmeras vezes.


Veja mais

Zero Hora / Data: 16/2/2008
COMO FALAR DOS LIVROS QUE NAO LEMOS?

Os livros que não lemos Professor de literatura francesa na Universidade de Paris, Pierre Bayard discute a indeterminação dos conceitos de leitura e de não-leitura em ensaio best-seller que defende a tese de que cada leitor monta sua própria rede de relações com uma obra

CARLOS ANDRÉ MOREIRA

A cautelem-se os que costumam comprar um livro instigados pelas promessas contidas no título. À primeira vista, a obra Como Falar dos Livros que não Lemos (Objetiva, 207 páginas) parece um volume de auto-ajuda para picaretas e arrivistas de toda ordem. E mesmo que em seu terço final ele às vezes chegue perto disso, mas não muito, o livro do professor francês de literatura Pierre Bayard é um delicioso e instigante ensaio sobre as contradições e dificuldades das definições correntes do que venha a ser leitura - e, por conseqüência, do que pode ser chamado "não-leitura".

Ao abordar o mesmo tema, no magistral Uma História da Leitura, publicado em 1997 no Brasil pela Companhia das Letras, o crítico Alberto Manguel já justificava o uso do artigo indefinido no título da obra devido àquela ser uma dentre as milhares de histórias da leitura possíveis, uma para cada leitor. Com a liberdade formal proporcionada por essa escolha, Manguel construiu sua visão pessoal da história da leitura com uma série de ensaios mesclando depoimentos pessoais com tentativas de sistematizar uma linha narrativa cronológica e classificatória, elencando hipóteses históricas ao mesmo tempo em que apresentava diferentes tipos de experiências de contato com o universo da leitura.

É um caminho em certo ponto similar ao que Bayard trilha em Como Falar de Livros que não Lemos. Ambos os ensaios concordam em um ponto essencial: a leitura é uma atividade cujo poder transformador independe de orientação especializada ou da condução dócil de um cicerone, cada leitor fará dela uma circunstância pessoal. A diferença é que essa conclusão leva Manguel a um elogio da leitura individual, enquanto Bayard aproveita para comentar que, se a leitura prescinde de recomendações de terceiros, mesmo formas socialmente reprováveis de apreciação de uma obra, como a própria não-leitura, são válidas como apreciação artística. O livro de Bayard é a defesa erudita e involuntária do mote de Oswald de Andrade: "não li e não gostei".

Como Falar dos Livros que não Lemos é dividido em três partes. Já na primeira delas o autor detém-se sobre as complexas nuanças existentes em alguns conceitos tomados universalmente como válidos. A fim de estabelecer desde logo as ferramentas de sua reflexão, Bayard descarta a, para ele pouco clara, distinção entre livros lidos e não-lidos. Um livro não-lido pode ocupar um espaço tão central em uma cultura que determinados leitores terão sobre ele tantas informações quanto aqueles que o leram. E, mesmo no âmbito mais restrito das obras a quem alguém realmente se dedicou, há gradações para o que sobrou dessa leitura. Alguns lerão até boa parte antes de desistir, e outros lerão um livro inteiro e reterão sobre ele uma memória mais pálida do que a daqueles que não leram uma determinada obra, mas têm conhecimento do que dela já se disse, já se estudou e de sua importância: "É difícil, como se vê - e os fatos só vão acentuá-lo - determinar com precisão o que é a não-leitura, e, conseqüentemente, o que é a leitura. Parece que nós nos situamos, o mais das vezes, ao menos no caso dos livros que nos acompanham no interior de uma determinada cultura, em um território intermediário entre as duas, a ponto de se tornar difícil dizer, na maior parte dos casos, se nós os lemos" - escreve Bayard.

Com o humor refinado que permeia todo o livro, Bayard propõe novas classificações, e as apresenta detalhadamente na primeira parte. Substitui "lido" e "não lido" por quatro categorias que pretendem abranger a variedade de interações de um leitor com a obra. São elas: os livros "desconhecidos", a grande maioria sobre a qual nada se sabe; os "folheados", aqueles que foram manuseados tendo sido percorridos até o fim ou não; os "de que ouvimos falar", sob os quais nos chegaram informações seja pela rede de trocas culturais da tradição seja pela resenha de uma publicação, como esta aqui; os "esquecidos", aqueles que, mesmo seguidos palavra por palavra até o fim vão gradualmente sendo erodidos da memória. Com exceção da categoria dos "desconhecidos", contudo, as demais não são estanques: nada impede que tenhamos ouvido falar de um livro que mais tarde folhearemos - e é impossível reter na memória humana a totalidade, palavra por palavra, de um livro, e portanto todos eles, em maior ou menor grau, são parcialmente esquecidos. O que sobra de cada um são ilhas de compreensão conectadas pelo impacto que a obra produziu no leitor.

Falando assim, parece um árido exercício de taxonomia, mas a obra de Bayard, plena de uma ironia sutil, garante o interesse recorrendo, com texto impecável, a exemplos tirados da própria literatura: Proust, Valéry, Umberto Eco, Robert Musil, entre outros. Todos parte do que Bayard chama, em defesa de sua tese, de "biblioteca coletiva", o grande continuum literário para o qual cada autor contribuiu e no qual se situa de acordo com sua importância. O patrimônio coletivo que permite a alguém dissertar e ter opinião sobre um livro que não leu: a capacidade de situar autores e textos no grande panorama da literatura.

"Para um verdadeiro leitor, preocupado em refletir sobre a literatura, não é um livro específico que conta, mas o conjunto de todos os outros, e prestar atenção exclusiva em um único traz o risco de perdermos de vista o conjunto e aquilo que, em todos os livros, faz parte de uma organização mais ampla e que permite compreendê-lo em profundidade."

Na segunda parte, Bayard vai um pouco além: cada leitor vai priorizar aquilo que a ele interessar na grande biblioteca coletiva. Some-se a essa idiossincrasia o fato de que a recepção de um livro muda de acordo com o espírito do tempo e com a cultura na qual o leitor está imerso (Bayard exemplifica com o hilário relato de uma pesquisadora em dificuldades para explicar Hamlet a uma tribo africana que, para começar, não acredita em vida após a morte, divergindo já na primeira cena do catalisador da peça, o fantasma do rei morto). Em decorrência dessa combinação de fatores, as relações simbólicas, intelectuais e afetivas que um leitor estabelece com uma obra jamais serão as mesmas que as de outro leitor. E, já que muito do que se leu costuma desaparecer da memória, todo livro lido com paixão virá a ser substituído na mente e no coração do leitor por um outro livro, o livro que ele considera ter lido, não necessariamente o mesmo que o autor pensa ter escrito.

"Mas, sobretudo, já que é verdade que os livros interiores de duas pessoas não podem coincidir, é inútil lançar-se em longas explicações diante de um escritor, que se vê ameaçado de ter a angústia aumentada à medida que evocamos o que ele escreveu, experimentando a sensação de que estamos lhe falando de um outro livro ou de que nos enganamos de pessoa.

Ah, sim, e se alguém ficou curioso, na terceira parte Bayard chega enfim aos sutis conselhos para que um leitor se desvie com elegância das situações em que precisa falar de um livro que não leu. Também aqui o livro vale não pelas supostas dicas, e sim pelas pertinentes reflexões que Bayard retira delas. A grande ironia é que o livro, best-seller quando lançado na França no ano passado, foi alvo de uma série de ataques de quem viu nele um incentivo à trapaça intelectual. Algumas das críticas claramente feitas por pessoas que não leram a obra. E, pelas proposições de Bayard, tão válidas quanto esta, escrita por um sujeito que leu, folheou e conheceu o livro, e que neste, exato momento, provavelmente já começou a esquecê-lo e a substituí-lo por outro.



O Globo / Data: 19/1/2008
Desconhecidos, folheados ou esquecidos...

À primeira vista, o livro "Como falar dos livros que não lemos?" parece um guia de humor. Com esse nome curioso, capítulos intitulados “Não ter vergonha” e “Situações de discurso com o ser amado” e uma tabela de abreviações em que são sugeridas as classificações LD, LF, LO e LE — livros desconhecido, folheado, de que ouvi falar e esquecido —, o ensaio que a Editora Objetiva acaba de lançar no Brasil pode aparentar ser mais uma obra para impressionar os amigos. Mas não é nada disso, garante seu autor, o professor de literatura francês Pierre Bayard. — Há uma compreensão equivocada de que meu objetivo é desestimular as pessoas a lerem. É o contrário. Eu sou um fã dos livros. Mas eu quero que as pessoas tenham uma boa experiência com a leitura. Na escola, a gente aprende a ler somente de uma maneira. Os professores falam dos livros importantes e dizem que você precisa lê-los do início ao fim, da primeira palavra até a última. O que eu defendo é a liberdade na leitura — explicou Bayard, por telefone, ao GLOBO.

Mais do que uma defesa sobre a liberdade, o livro de Bayard é um ensaio extremamente bem fundamentado sobre todo o processo de leitura — ou, como o autor prefere, o processo intermediário que existe entre a leitura e a não-leitura. Parece confuso, mas no texto do professor francês tudo fica extremamente agradável e simples. A partir de obras de outros escritores, ele disseca as situações pelas quais passa um leitor, de diversas origens e formações. Através de um obituário escrito pelo poeta e filósofo francês Paul Valéry na morte de Marcel Proust, por exemplo, Bayard explica que é possível falar sobre a obra de alguém mesmo sem tê-la lido por completo. Em outro momento, ele trata do enredo de "O nome da rosa”, de Umberto Eco, no qual o monge Guilherme de Baskerville investiga assassinatos cometidos num monastério. As mortes envolvem um dos volumes da “Poética”, de Aristóteles, obra no qual ele faz uma análise do riso. O detalhe que interessa a Bayard é que Baskerville deduz os crimes sem nunca ter lido a obra de Aristóteles. — Mesmo alguns livros que não lemos fazem parte de nossas vidas. São os livros sobre os quais nós ouvimos falar. Eu não devo ser capaz de dizer exatamente o que eu li sobre Hegel, Kant, Freud ou Proust. É claro que eu li muita coisas desses autores, mas é que eu também li muitos livros que falam sobre esses autores. É difícil diferenciar uma coisa da outra. É estreito o limite entre ler e não ler. Quantas pessoas podem dizer que leram da primeira linha até a última linha, da capa até a contracapa, a “Bíblia”? — questiona Bayard. Já no capítulo “Situações de discurso diante de um professor”, o professor francês analisa o estudo da antropóloga americana Laura Bohannan com os tiv, um grupo étnico da África Ocidental. Nele, Laura relata a experiência que teve ao, oralmente, contar a alguns deles a história de “Hamlet”, de Shakespeare. O resultado foi que os tiv questionaram várias passagens do livro, por não entenderem, por exemplo, o significado de um fantasma ou não acharem estranho que a viúva Gertrudes se casasse pouquíssimo tempo depois da morte do marido. Bayard desenvolve, então, um conceito que ele chama de “livro interior”, uma espécie de filtro que varia de cultura para cultura e que determinaria a recepção de novos textos por parte do leitor. — Eu acho que alguns livros importantes não o são para mim ou para você. Isso não significa que é para se sentir culpado caso você não se saia bem lendo alguma coisa. Eu digo para os meus estudantes que eu não fui bem sucedido em ler “Ulisses”, do Joyce. Talvez não fosse o livro para mim. E não me sinto culpado em não ter lido “Ulisses” e explicar do que ele se trata — diz. Sobre os livros lidos e esquecidos, Bayard cita o ensaísta francês do século XVI Michel de Montaigne. Em seus “Ensaios”, Montaigne diz que, depois de ler um livro, detalhes “pequenos” como o autor e as palavras eram esquecidos prontamente. Até mesmo seus próprios escritos se perderiam na memória com o passar dos anos. Bayard afirma que Montaigne teria conseguido apagar qualquer limite entre leitura e não-leitura. O autor diz que a “confissão” do ensaísta nada mais é do que um resumo da relação que todas as pessoas têm com os livros. “Não guardamos em nossa memórias livros homogêneos, mas fragmentos arrancados de leituras parciais”, escreve ele. — Existe uma situação intermediária entre apenas ler ou não-ler um livro. Os intelectuais conhecem bem essa situação porque estão acostumados a folhear os livros, a começar uma leitura e não terminá-la. Mas muitas pessoas não entendem isso — afirma Bayard. — Quando alguém vai ao meu apartamento, vê aquela quantidade imensa de livros e pergunta se eu li todos, eu francamente digo que não. A questão é que eu vivo com os meus livros, eles são minhas companhias, meus amigos. Quando eu tenho problemas, eu peço a eles a solução, mas não leio todos. Dessa biblioteca, o professor francês tem dois volumes que podem resumir bem o espírito de liberdade pregado em "Como falar dos livros que não lemos?" (208 páginas). Um é a resposta dele à pergunta “qual o melhor livro que você não leu?”. Já o outro é uma confissão sobre um autor brasileiro. — “Ulisses” é o livro que não li e mais gostei. Eu tenho certeza que é um ótimo livro. Há muitas garotas que são interessantes, mas que podem não ser para mim e podem ser para você. A lógica é a mesma — brinca o simpático Bayard. — Dos autores brasileiros, eu adoro Machado de Assis. O “Dom Casmurro” eu realmente li. E até o reli. Reler é também uma ótima forma de ler um livro. É importante ser um leitor criativo. André Miranda





Jorge Amado universal

ENSAIOS

Segunda-feira, 11/2/2008
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Jorge Amado universal
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Milton Hatoum





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Infelizmente não posso dizer que fui amigo de Jorge Amado. Nosso único encontro aconteceu em Paris, já não me lembro se em 1994 ou 93. Lembro que lançava na França a tradução do meu primeiro romance, e sabia que Jorge Amado estava por lá.


Ele costumava passar a primavera e o verão em Paris, e antes do outono europeu viajava para Salvador, de modo que vivia sempre entre o verão e a primavera, entre dois paraísos.

Prometi que um dia iria visitá-lo na Bahia, e por timidez fui adiando essa visita e nunca mais o encontrei. Leseira minha, porque Jorge Amado nada tinha de pomposo nem de formal.

Em 1989 ele me enviou uma carta muito amável, em que comentava meu romance de estréia. Aliás, escrevia cartas a vários autores jovens e desconhecidos. Fazia isso por amor à literatura e também por generosidade, algo que não anda na moda nesta época de competição acirrada.

Até mesmo António Lobo Antunes, com seu jeito áspero e sua prosa de inegável alcance estético, até o Lobo foi amigo de Amado e admirador de seus romances. Sem a obra de Jorge, disse certa vez Lobo Antunes, não haveria neo-realismo na prosa portuguesa.

A mesquinharia e a inveja passavam longe da alma desse baiano universal. Eu não via nele nenhuma gota de ressentimento, apesar das críticas que faziam à sua obra, algumas justas, outras cruéis e inconseqüentes. Inconseqüentes porque na ficção de Jorge as falhas não apagam, muito menos anulam a dimensão social e histórica: a densa dimensão humana de sua obra.

O espaço evocado nos romances de Amado ― a capital da Bahia, o coração de Salvador, de Ilhéus e outros lugares ― é tão vivo quanto os personagens que os habitam. O leitor pode quase tocar esses lugares e personagens.

Na extensa e variada obra amadiana há, por certo, uma excessiva recorrência de frases e situações, mensagens ideológicas explícitas, desajustes entre a voz dos narradores cultos e a dos personagens populares. Mas, e daí? Jorge Amado preferiu o prolífico e o monumental à exatidão de uma obra exígua.

Na história da literatura não são muito numerosos os romances perfeitos, cujo objetivo de seus autores é construir uma obra estética, sem frouxidão, sem deslizes, em que as peças se encaixam com precisão, tal uma máquina perfeita. Nenhuma palavra ou frase fora do lugar.

Essas obras perfeitas existem: A volta do parafuso, O coração das trevas, A morte de Ivan Ilitch, São Bernardo, Grande sertão: Veredas e não sei quantas mais. Vamos dizer, com otimismo, que há noventa e nove livros perfeitos nas estantes de uma biblioteca imensa. Uma parte da obra de Jorge encontra-se nessa biblioteca, e nem por isso ele pode ser considerado um escritor mediano.

Porque é muito raro uma obra mediana sobreviver meio século ou setenta anos. É o que aconteceu com Jubiabá e com Capitães da Areia ― livros que Albert Camus admirava ― e com tantos outros, desde Gabriela, cravo e canela até A descoberta da América pelos turcos.

Num consistente ensaio sobre a arte da ficção, o escritor inglês Edward Foster escreveu que o romance é uma narrativa "encharcada de humanidade". Não há melhor definição para os romances de Amado, cuja obra será relançada a partir de meados de março.

Espero que os leitores a leiam com interesse e olhar crítico, mas sem preconceito. Porque o preconceito, na literatura e na vida, é uma fonte de cegueira e de veneno para a alma.

Nota do Editor
Texto gentilmente cedido pelo autor. Originalmente publicado no Terra Magazine, em janeiro de 2008.


Milton Hatoum
São Paulo, 11/2/2008

Sindicalismo e globalização: novos desafios


O Le Monde diplomatique - edição portuguesa convida-o(a) a participar no debate
em torno do dossiê «Sindicalismo e globalização: novos desafios» publicado no número de Fevereiro do jornal.
Este dossiê inclui uma entrevista ao Secretário-Geral da CGTP Carvalho da Silva
e dois artigos da autoria de André Freire e Elísio Estanque, respectivamente,
«Sindicalismo e democracia na era da globalização»
e «O sindicalismo na encruzilhada».

O debate conta com a participações de:
André Freire
Elísio Estanque
José Nuno Matos
António Avelãs

O debate realiza-se na quarta-feira 27 de Fevereiro, a partir das 21h30, no espaço
da livraria Ler Devagar (Fábrica de Braço de Prata – Rua da Fábrica de Material
de Guerra, Lisboa: frente aos CTT do Poço do Bispo).

Clique aqui para ver a localização do novo espaço da livraria Ler Devagar.

Organização: Le Monde diplomatique – edição portuguesa.


A entrada é livre. Participe!

Entrevista a Manuel Carvalho da Silva

«O país arrasta-se neste pantanal de falta de ética»

(excerto)

por Manuel Carvalho da Silva

No mês em que se realiza o Congresso da Confederação Geral dos Trabalhadores (CGTP), propomos uma reflexão sobre o sindicalismo, o trabalho e a democracia em tempos de globalização neoliberal. Que problemas, desafios e oportunidades se colocam hoje aos sindicatos e às sociedades? Trabalho, desemprego e precariedade, solidariedade nacional e global, relação com o Estado, partidos políticos e movimentos sociais, autonomia sindical e pluralidade, modelo social e privatizações, reformas e rupturas, ética e democracia – estes e muitos outros temas são aqui abordados por André Freire, Elísio Estanque e Manuel Carvalho da Silva.

Sobre o Livro Branco das Relações Laborais

«Quando o governo tomou posse, o actual ministro do Trabalho dizia que era preciso mexer no código do trabalho porque os trabalhadores e os sindicatos estavam vulneráveis. Lendo-se este Livro Branco, constata-se que o diagnóstico é interessante, pois revela uma enorme objectividade quanto ao estado do mercado do trabalho. Contudo, as medidas depois propostas vão num sentido oposto. Sustentam a matriz de baixos salários e baixas qualificações em que o país se encontra, secundarizando o produtivo e mantendo a precariedade. O documento tem uma estruturação muito ardilosa e não vai ser fácil desmontar as suas propostas. Mas há consequências fáceis de identificar, como a facilitação do despedimento e desvalorização da contratação colectiva, estabelecendo-se patamares de compromisso que pouco ou nada importam para a vida das pessoas. São propostos mecanismos que levam a que a negociação salarial dependa cada vez mais da iniciativa do patrão. O argumentário economicista sobrepõe- se às dimensões sociais e políticas do contrato de trabalho, colocando mais poder nas mãos do patrão. Ora, a negociação colectiva é ainda a forma de harmonização dos direitos sociais.»

Sobre desempregados, precários e sindicalismo

«Temos cada vez mais esta rotação emprego-desemprego, desemprego-emprego. E, para mim, há dois conjuntos de não-activos: os trabalhadores na condição de desempregados e os pós-activos, que são extraordinariamente importantes para a mobilização da sociedade, já que estamos numa sociedade com aumento da esperança de vida. Teremos no futuro um mercado de trabalho profundamente marcado pela condição dos pós-activos, aquelas pessoas que estão fora do mercado de trabalho, com 55 anos ou 60 anos, com pré-reformas e reformas, e cuja condição influencia as condições concretas do mercado de trabalho. Assim como as condições deles, em termos de futuro, vão resultar do mercado de trabalho. Estamos numa fase de fortes manipulações, em que isto não é facilmente entendido. Mas eu vou um pouco mais atrás. Chamo a atenção para o seguinte: vivemos debaixo de um individualismo institucionalizado – a formulação não é minha, é do Ulrich Beck –, que é uma construção que, isolando os indivíduos, os responsabiliza. Aumenta a sua responsabilização mas diminui a capacidade de resposta devido ao isolamento que a precede. Eu referi o Beck, mas o Richard Sennett, em A Corrosão do Carácter, explora muito bem todo este quadro. Uma das características das posturas neoliberais no exercício da governação é isto: compartimenta, compartimenta e depois coloca uns contra os outros. Isto é um problema muito complexo. Por exemplo, a nível da precariedade do trabalho, é preciso um combate que entenda que a precariedade no trabalho não é uma questão específica do trabalho. Insere-se numa das características da sociedade actual, a insegurança. A precariedade é a expressão dessa insegurança transportada para a organização do mercado de trabalho.»

Entrevista a MANUEL CARVALHO DA SILVA

Por José Neves, Nuno Teles e Sandra Monteiro

(Continue a ler esta entrevista nas pp. 2-3 da edição de Fevereiro do Le Monde diplomatique.)

quinta-feira 21 de Fevereiro de 2008

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Sindicalismo e globalização: novos desafios

Sindicalismo e democracia na era da globalização

(excerto)

por André Freire

Analiso aqui as principais teses anti—sindicais das correntes neoliberais no contexto da globalização. Argumentarei que, tendo em conta as tendências pesadas da globalização a que temos assistido nas últimas décadas, precisamos de um sindicalismo forte, renovado e mais abrangente, capaz de contrariar os cada vez maiores desequilíbrios entre capital e trabalho, favoráveis ao primeiro.

De acordo com a doutrina neoliberal, quer o peso do Estado quer as organizações sindicais constituem entraves ao livre funcionamento do mercado, logo reduzem a performance da economia(4). Vejamos dois exemplos recentes deste tipo de discurso.

Primeiro exemplo, da autoria de Alberto Alesina e Francesco Giavazzi:

«Ainda que as regulamentações do mercado de trabalho tenham muito a ver com a criação do elevado e persistente desemprego europeu, é quase politicamente impossível e economicamente incorrecto eliminar todos os tipos de protecção laboral. […] Não há dúvida de que os sindicatos têm um papel a desempenhar numa sociedade democrática. O problema é que, muitas vezes, exorbitam o seu dever de representar os trabalhadores junto dos patrões e abusam do sistema. Em muitos países, os sindicatos desempenham um papel político. Sentam-se à mesa dos governos e negociam directamente a política económica. […] Os governos europeus têm de ter a coragem de fazer frente aos sindicatos que se comportam como lóbis e que defendem grupos relativamente privilegiados de trabalhadores.»(5)

Segundo exemplo, da autoria de Kenneth Rogoff:

«Irá o ressurgimento político dos sindicatos desviar o curso da globalização? Ou será que a sua crescente força vai servir para tornar a globalização mais sustentável? […] A influência cada vez maior dos sindicatos é evidente em muitos acontecimentos: […]. Juntamente com a sua influência política, está também a ressurgir a respeitabilidade intelectual dos sindicatos. Após décadas de menosprezo por parte dos economistas, […], o movimento sindical recebe neste momento apoio de líderes respeitados como Paul Krugman, que defende que é necessário que haja sindicatos mais fortes para impedir os piores excessos da globalização. […] Para os países ricos, a redistribuição de rendimentos é muito mais bem conseguida pelo sistema fiscal e de benefícios, do que pelos decretos governamentais para fortalecer os sindicatos. […] Para os países com rendimento médio a questão é mais complicada. Mas, também aí, aumentar os direitos legais e estatutários dos trabalhadores, e, ao mesmo tempo, permitir que a maior parte dos sindicatos se extinguisse, parece ser a abordagem certa.(6)»

Esta argumentação tem vários problemas. (…)

(Continue a ler este artigo na p. 4 da edição de Fevereiro do Le Monde diplomatique.)

Por ANDRÉ FREIRE *

* Professor de Ciência Política, ISCTE (Instituto Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa), Lisboa.

sexta-feira 22 de Fevereiro de 2008


Sindicalismo e globalização: novos desafios

O sindicalismo na encruzilhada

(excerto)

Perante as convulsões que o mundo do trabalho tem vindo a sofrer e face ao crescente ataque ao sindicalismo por parte de governos e patrões do mundo inteiro, importa realçar o significado histórico e social do movimento sindical, e reflectir criticamente – com objectividade, mas assumindo uma perspectiva de esquerda e politicamente empenhada – sobre os problemas e desafios da acção sindical hoje, tendo presente o papel fundamental dos sindicatos no conjunto da sociedade, designadamente no contexto europeu e português. É esse o objectivo deste texto(1).

O movimento operário emergiu, como se sabe, na sequência de um conjunto de convulsões que marcaram a Europa da era moderna. Foram as duras condições impostas pelo capitalismo selvagem do século XIX que fizeram emergir o operariado como classe. A classe operária (a inglesa, que serviu de modelo) não surgiu, como por vezes se pensa, animada fundamentalmente por objectivos progressistas, revolucionários ou emancipatórios mas, em boa medida, a partir de lutas desencadeadas em nome da defesa da comunidade e muitas vezes contra a inovação técnica, como foi o caso do movimento ludista.

Porém, nem a resistência dos trabalhadores à inovação e ao progresso técnico nem a acção reivindicativa são suficientes para que estejamos perante um movimento social. Este requer a combinação dos princípios de identidade (um sentimento de pertença ao colectivo ou à classe), oposição (a identificação de um adversário) e totalidade (uma perspectiva que conjugue os interesses dos filiados com os objectivos mais gerais de luta contra a opressão). Convém no entanto não esquecer que a acção sindical foi desde sempre (e continua a ser) pautada pela diversidade. Embora a actividade sindical tenha raízes fortes no movimento operário, isso não significa que todo o sindicalismo seja de movimento. Alguns teóricos clássicos do movimento sindical, como o casal Sidney e Beatrice Webb, sublinharam acima de tudo a vertente economicista, reivindicativa e funcional dos sindicatos – o chamado «sindicalismo de mercado» –, que efectivamente deu lugar às modalidades mais corporativas e institucionais do sindicalismo moderno. (…)

(Continue a ler este artigo na p. 5 da edição de Fevereiro do Le Monde diplomatique)

Por ELÍSIO ESTANQUE *

* Professor do Centro de Estudos Sociais da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra. Redactor do blogue http://boasociedade.blogspot.com

terça-feira 19 de Fevereiro de 2008


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Foi lançada uma nova Campanha de Assinaturas, que inclui a oferta do livro Atlas do Ambiente do Le Monde diplomatique,

que tem saída prevista para o próximo mês de Março, a quem assinar ou renovar a assinatura do jornal (excepto assinaturas de estudante).
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Mais informações em

http://pt.mondediplo.com

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sexta-feira, 22 de Fevereiro de 2008

Fidel Castro e a Revolução Cubana

Quinta-feira, Fevereiro 21, 2008

"Condenem-me, não importa. A história me absolverá".


Fidel Castro anuncia que não será Presidente do Conselho de Estado


"Condenem-me, não importa. A história me absolverá".


Ao reler a frase do líder cubano (dita em 1953) é perceptível que na luta contra o poder da mídia e o imperialismo ela ainda reflete a verdade sobre a jornada desempenhada através do seu percurso.


O líder de Cuba, aos 81 anos de idade, se retirou deixando em seu lugar seu irmão e Ministro da Defesa, Raul Castro de 76 anos, embasado pelo artigo 94 da Constituição – sobre a substituição em caso de morte, doença ou ausência do titular. Após quase 19 meses de convalescença de uma grave doença e cinco dias de sessão do parlamento, em que ele deveria ser candidato à reeleição para um mandato presidencial de cinco anos, Fidel anunciou a renúncia em caráter provisório .
Conforme publicação da agência Reuters, nesta terça-feira, os pré-candidatos à Presidência dos Estados Unidos já estão se adiantando e defendendo que o governo cubano instale um regime "democrático" no país ao escolher seu sucessor.


Já o presidente norte-americano, George W. Bush intensificou o embargo contra Cuba e rejeitou a possibilidade de reduzir as sanções sem que haja um processo de transição rumo à "democracia" (como a que inserem no Iraque). Este embargo afirma que os norte-americanos não podem gastar dinheiro em Cuba e quem violar pode ser punido com prisões ou multas. Na verdade, trata-se de uma nova investida no sentido de burlar o direito internacional e impor, mesmo que a força, um regime conveniente ao imperialismo na pequena ilha caribenha.

Juventude Socialista :

No site da Juventude Rebelde de Cuba encontra-se o seguinte trecho:
"Em sua mensagem ao povo de Cuba, Fidel explica sem dramatismo que trairia a sua consciência ocupar uma responsabilidade que requer mobilidade e entrega total e que não está em condições físicas de oferecer. Esclarece que não se trata de uma despedida e mostra seu desejo em continuar combatendo como um "soldado das idéias".

Para Marcelo Brito, presidente da UJS, “a renúncia de Fidel é mais um sinal de lucidez do líder:“Cuba vive já quase 50 anos desde sua revolução. O legado deixado ao longo desse meio século de mudanças profundas, tanto na estrutura do país, na prioridade do governo e especialmente, na vida do povo, não se destruirá com a saída de seu Comandante. Pelo contrário, a afirmação da opção socialista é cotidiana e se fortalece a cada dia, apesar das inúmeras tentativas do vizinho de cima, inimigo dos povos. Fidel e o heroísmo de Cuba ajudaram a pintar o cenário dessa América Latina do século XXI: mais colorida e unida, representando a maior expressão da luta antiimperialista.”

Algumas grandes vitórias :

- Quando os revolucionários desfilaram pelas ruas de Havana, em janeiro de 1959, foram festejados por interromperem uma ditadura corrupta e repressiva que durava quase sete anos;
- O ditador Fulgencio Batista, presidente deposto, recebia comissões financeiras dos EUA para comercializar o açúcar da Ilha Caribenha;
- Nos primeiros meses de governo revolucionário aconteceram algumas medidas radicais, como a reforma urbana, a reforma agrária e a estatização das empresas;
- Após os EUA perderem o "açúcar cubano" a URSS passaram a comprar cotas fixas e fornecer petróleo a preços mais baixos, além de outros auxílios econômicos;
- Podia faltar cosméticos e bens de consumo, mas a miséria, o analfabetismo e as favelas foram praticamente erradicadas;
- Educação, saúde e emprego são praticamente impecáveis no país, apesar do grave bloqueio econômico.


Fidel continuará escrevendo no jornal Granma, mas sua coluna "Reflexões do comandante-chefe" passará a se chamar "Reflexões do companheiro Fidel". Veja abaixo a íntegra da carta de renúncia do líder cubano:

"Prometi a vocês na sexta-feira, 15 de fevereiro, que na próxima reflexão abordaria um tema de interesse para muitos compatriotas. A mesma adquire desta vez a forma de mensagem. Chegou o momento de postular e escolher o Conselho de Estado, seu presidente, vice-presidentes e secretário.

Desempenhei o honroso cargo de presidente ao longo de muitos anos. Em 15 de fevereiro de 1976 foi aprovada a Constituição Socialista por voto livre, direto e secreto de mais de 95% dos eleitores. A primeira Assembléia Nacional foi constituída em 2 de dezembro daquele ano e elegeu o Conselho de Estado e sua Presidência. Antes, tinha exercido o cargo de primeiro-ministro durante quase 18 anos. Sempre dispus das prerrogativas necessárias para levar adiante a obra revolucionária com o apoio da imensa maioria do povo. Sabendo de meu estado grave de saúde, muitos no exterior pensavam que a renúncia provisória ao cargo de presidente do Conselho de Estado, que deixei nas mãos do primeiro-vice-presidente, Raúl Castro Ruz, em 31 de julho de 2006, fosse definitiva. O próprio Raúl, que adicionalmente ocupa o cargo de Ministro das FAR (Forças Armadas Revolucionárias) por méritos pessoais, e os demais companheiros da direção do partido e do Estado foram resistentes a me considerarem afastado dos meus cargos, apesar do meu estado precário de saúde. Minha posição era incômoda frente a um adversário que fez tudo o imaginável para se desfazer de mim e ao qual não queria agradá-lo. Mais adiante, pude recuperar o controle total da minha mente, a leitura e meditar muito, devido ao repouso. Tinha forças físicas suficientes para escrever por longas horas, o que fazia durante a reabilitação e os programas de recuperação. Um elementar bom senso me indicava que essa atividade estava a meu alcance.

Por outro lado, sempre me preocupei, ao falar da minha saúde, em evitar ilusões de que, no caso de um agravamento do quadro adverso, trariam notícias traumáticas a nosso povo no meio da batalha. Prepará-lo para minha ausência, psicológica e politicamente, era minha primeira obrigação após tantos anos de luta. Nunca deixei de destacar que se tratava de uma recuperação 'não isenta de riscos'. Meu desejo sempre foi cumprir o dever até o último momento. É o que posso oferecer. A meus compatriotas, que fizeram a imensa honra de me eleger recentemente como membro do Parlamento, em cujo âmbito devem ser adotados acordos importantes para o destino de nossa Revolução, comunico a vocês que não aspirarei nem aceitarei - repito - não aspirarei nem aceitarei o cargo de Presidente do Conselho de Estado e Comandante-em-Chefe. Em breves cartas dirigidas a Randy Alonso, diretor do programa 'Mesa Redonda' da televisão nacional, que foram divulgadas por minha solicitação, foi incluídos discretamente elementos da mensagem que hoje escrevo, e nem sequer o destinatário das mensagens conhecia meu propósito. Confiei em Randy porque o conheci bem quando ele era estudante universitário de Jornalismo, e me reunia quase todas as semanas com os principais representantes dos alunos, que já eram conhecidos como o coração do país, na biblioteca da ampla casa de Kohly, onde se abrigavam. Hoje, todo o país é uma imensa universidade".


Parágrafos selecionados da carta enviada a Randy em 17 de dezembro de 2007:

"Minha mais profunda convicção é de que as respostas aos problemas atuais da sociedade cubana - que possui uma média educacional próxima de 12 graus, quase um milhão de pessoas com ensino superior completo e a possibilidade real de estudo para seus cidadãos sem nenhuma discriminação - requerem mais soluções para cada problema concreto do que as contidas em um tabuleiro de xadrez. Nenhum detalhe pode ser ignorado, e não se trata de um caminho fácil, se é que a inteligência do ser humano em uma sociedade revolucionária prevalece sobre seus instintos. Meu dever elementar não é me perpetuar em cargos, ou impedir a passagem de pessoas mais jovens, mas fornecer experiências e idéias cujo modesto valor provém da época excepcional que pude viver. Penso como (Oscar) Niemeyer que é preciso ser conseqüente até o final".

Carta de 8 de janeiro de 2008:

"Sou decididamente partidário do voto unido (um princípio que preserva o mérito ignorado). Foi o que nos permitiu evitar as tendências de copiar o que vinha dos países do antigo bloco socialista, entre elas a figura de um candidato único, tão solitário e ao mesmo tempo tão solidário com Cuba. Respeito muito aquela primeira tentativa de construir o socialismo, graças à qual pudemos continuar o caminho escolhido.

Tinha muito presente que toda a glória do mundo cabe em um grão de milho. Portanto, trairia minha consciência ocupar uma responsabilidade que requer mobilidade e entrega total que não estou em condições físicas de oferecer. Explico sem dramas. Felizmente nosso processo conta ainda com quadros da velha-guarda, junto a outros que eram muito jovens quando começou a primeira etapa da Revolução. Alguns quase crianças se incorporaram aos combatentes das montanhas e depois, com seu heroísmo e suas missões internacionalistas, encheram de glória o país. Contam com autoridade e experiência para garantir a substituição. Dispõe igualmente nosso processo da geração intermediária que aprendeu conosco os elementos da complexa e quase inacessível arte de organizar e dirigir uma revolução.

O caminho sempre será difícil e exigirá o esforço inteligente de todos. Desconfio dos caminhos aparentemente fáceis da apologética, ou da autoflagelação como antítese. É preciso se preparar sempre para a pior das hipóteses. Ser tão prudentes no êxito quanto firmes na adversidade é um princípio que não pode ser esquecido. O adversário a derrotar é extremamente forte, mas o mantivemos longe durante meio século. Não me despeço de vocês. Desejo apenas lutar como um soldado das idéias. Continuarei a escrever sob o título 'Reflexões do companheiro Fidel'. Será mais uma arma do arsenal com o qual se poderá contar. Talvez minha voz seja ouvida. Serei cuidadoso".

Fontes: Agências de Notícias

www.granma.cu
www.juventuderebelde.cu
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in

"Condenem-me, não importa. A história me absolverá".

A história me absolverá". Fidel Castro anuncia que não será Presidente do ... A história me absolverá". Ao reler a frase do líder cubano (dita em 1953) é ...
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ujspernambuco.blogspot



Fidel Castro - A História me Absolverá (excerto)

(...)


Quanto a mim, sei que a prisão me será mais dura, como nunca foi para qualquer outro. Sei que ela será pesada de ameaças vis e cobardes provocações, mas não a temo, como não temo a fúria do tirano que arrancou a vida a setenta dos meus irmãos. CONDENAI-ME, POUCO IMPORTA, A HISTÓRIA ME ABSOLVERÁ





Parte de A História me Absolverá, de Fidel Castro...

Sexta-feira, 25 de setembro, durante a noite, véspera da terceira sessão, apresentaram-se em minha cela dois médicos da penitenciária. Estavam visivelmente penalizados: "vimos fazer-te um exame", disseram-me. "E quem se preocupa tanto pela minha saúde?", perguntei-lhes. Efetivamente, desde que os vi, compreendera o objetivo de sua visita. Não puderam ser mais gentis e me explicaram a verdade: nessa mesma tarde estivera na prisão o coronel Chaviano (5) e lhes disse que eu "no julgamento estava ocasionando um terrível dano ao governo” que deviam assinar um atestado onde constasse que me achava enfermo e não podia, portanto, continuar assistindo às sessões. Expressaram-me, além disso, que se dispunham a renunciar a seus cargos e a se expor a perseguições. Colocavam o assunto em minhas mãos para que decidisse. Para mim era duro pedir àqueles homens que se deixassem imolar sem quaisquer considerações, mas tampouco podia consentir, sob nenhum pretexto, que fossem levados a cabo tais desígnios: "Vocês saberão qual seu dever; eu sei bem qual o meu".
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Depois eles retiraram-se, firmando o atestado. Sei que o fizeram porque acreditavam de boa fé que era o único modo de salvar-me a vida, que viam correr o maior perigo. Não me comprometi a guardar silêncio sobre este diálogo. Estou comprometido somente com a verdade, e se, neste caso, ao proferi-Ia, pudesse prejudicar o interesse material desses bons profissionais, deixo isenta de toda dúvida sua honra, que vale muito mais. Naquela noite, redigi uma carta para este tribunal, denunciando o plano que se tramava, solicitando a visita de dois médicos do foro para que atestassem meu perfeito estado de saúde e expressando que, se para salvar minha vida devia permitir semelhante artimanha, preferia perdê-la mil vezes. Para dar a entender que estava resolvido a lutar sozinho contra tanta baixeza, aduzi ao que escrevera aquele pensamento do Mestre: "Um princípio justo do fundo de uma cova é mais poderoso que um exército. Essa a carta que, como sabe o tribunal, foi apresentada pela doutora Melba Hernández na terceira sessão do sumário de 26 de setembro. Apesar da vigilância que pesava sobre mim, consegui que a missiva chegasse a ela. Por causa dessa carta, naturalmente, foram tomadas represálias: a doutora Hernández ficou incomunicável, e, como eu já estava incomunicável, fui confinado para o lugar mais afastado do cárcere. A partir de então, todos os acusados eram revistados minuciosamente, dos pés à cabeça, antes de ir para o sumário (7).
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Os médicos do foro visitaram-me no dia 27 e atestaram que eu estava bem de saúde. Em que pese as ordens reiteradas do tribunal, não tornaram a me levar a nenhuma sessão do julgamento. Acrescente-se ao fato que todos os dias eram distribuídas, por pessoas desconhecidas, centenas de panfletos apócrifos nos quais se falava em arrancar-me da prisão, alegação estúpida para eliminar-me fisicamente sob o pretexto de evasão. Fracassados tais propósitos pela denúncia oportuna de amigos alertas e descoberta a falsidade do atestado médico, não lhes sobrou outro recurso, para impedir meu comparecimento ao julgamento, que o desacato aberto e descarado.
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Um fato inédito se verifica, senhores juízes: um regime tinha medo de apresentár um acusado diante dos tribunais; um regime de terror e sangue se espantava diante da convicção moral de um homem indefeso, desarmado, incomunicável e caluniado. Assim, depois de me haver privado de tudo, privava finalmente do direito de estar presente ao julgamento onde eu era o principal acusado. Tenha-se em conta que isto era feito quando estavam suspensas todas as garantias, cumpria-se com todo o rigor a Lei de Ordem Pública (8) e funcionava a censura do rádio e da imprensa. Que crimes tão horríveis terá cometido este regime que tanto temia a voz de um acusado!
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Eu leio!!!: Parte de A História me Absolverá, de Fidel Castro...


La Historia me absolverá

Pronunciado por Fidel Castro en el juicio del Moncada, el 16 de octubre de 1953. Descargar texto completo de La Historia me Absolverá ...
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History Will Absolve Me

TEXTO INTEGRAL - INGLÊS

Translated: Pedro Álvarez Tabío & Andrew Paul Booth (who rechecked the translation with the Spanish La historia me absolverá, same publisher, in 1981) ...


Revolução Cubana - Wikipédia

Julieta Gandra

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* São José Almeida

Julieta Gandra viveu 90 anos de ousadia. Desafiou regras, desafiou convenções, desafiou poderes. Foi uma referência para gerações de jovens de esquerda. Viveu a política com alegria e convicção e por uma causa: Angola

"Olhe! Em vez de estar aí parado ajude-me a carregar os embrulhos!" Sem dar tempo para ao pide, que lhe vigiava a casa, reagir, Julieta Gandra despejou os muitos pacotes com que chegara ao nº 7 da Ilha do Príncipe, em Lisboa, e obrigou assim o agente da polícia política a subir até ao 4º-B, carregando as suas compras em silêncio. Esta história desconcertante é recordada, entre sorrisos, por Diana Andringa, que, na segunda metade dos anos 60, morava no 5º-A e que conviveu com Julieta Gandra, médica, oposicionista, militante feminista e anticolonialista e, sobretudo, transgressora, falecida a 8 de Outubro, em Lisboa, com 90 anos.

Nascida a 16 de Setembro de 1917, em Oliveira de Azeméis, Maria Julieta Guimarães Gandra era filha de Aurora e Mário Gandra, solicitador e pequeno comerciante, e tinha três irmãos, Fernanda, mais velha e ainda viva, Ângela, e Hernâni, arquitecto que militou no PCP.

Julieta cursou medicina, em Lisboa, onde conheceu Ernesto Cochat Osório, oposicionista e poeta, natural de Angola. Depois de casados e de ter nascido, em 1944, o seu filho Miguel (que não quis colaborar neste trabalho), rumam de barco a Luanda. Julieta é então especialista em medicina tropical. Irá interessar-se por obstetrícia e ginecologia e será ela a introdutora do parto sem dor em Angola. Médica das jovens brancas da elite de Luanda, dá também consulta a mulheres pobres, brancas e pretas.

Em Luanda, priva com intelectuais não afectos ao regime e frequenta o Cine-Clube e a Sociedade Cultural de Angola. O que fora uma aproximação à oposição na faculdade torna-se ligação ao PCP em Angola. (Pacheco Pereira, Álvaro Cunhal, III vol. pp. 517-526). Em meados dos anos 50, participa na formação do Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA). Vem de então a sua amizade com Agostinho Neto, Lúcio Lara, Paulo Jorge e Arménio Santos.

Durante a década e meia que vive em Angola, viaja. Vem a Lisboa. E, em 1958, depois de visitar, em Bruxelas, a exposição mundial, ruma à União Soviética. De regresso a Luanda, passa por Paris e Lisboa e, a sua sobrinha Ana Rita Gandra Gonçalves, ainda hoje se lembra das discrições de um espectáculo de Ives Montand e os discos de Léo Ferré que distribui pelos mais novos.Processo dos 50A 29 de Março de 1959, Julieta Gandra é presa pela PIDE. Em Agosto, realiza-se o primeiro julgamento político de nacionalistas angolanos, "o processo dos 50".

No final, os presos brancos serão enviados para a metrópole, enquanto os negros irão reabrir o Campo do Tarrafal.

A sua prisão causa polémica e constrangimento na Luanda branca. Era uma intelectual influente e médica da elite. Chegou a sair da prisão para ir assistir a um parto da filha de um engenheiro belga, responsável de uma petrolífera, que assim o exigiu.

O seu tempo de prisão em Luanda foi de cela aberta. Primeiro na PSP, onde a sua detenção incomodava, pois era médica da instituição. Depois, na ala feminina do hospital psiquiátrico, que funcionou como prisão, pois não havia cadeias para presas políticas. O director acaba por exigir mesmo a retirada do pide que vigia a porta, argumento: perturba as doentes da ala feminina.

Em Lisboa, amigos da família tentam libertar Julieta. Há mesmo quem interpele o ministro Paulo Cunha, ao que este responde: "Não me fale dessa senhora!"

Julieta foi acusada de ter dado 500 escudos ao MPLA, ter convidado para jantar um membro do movimento, ter enviado um sobrescrito contendo papéis do MPLA e ser militante do PCP. As provas nunca apareceram no Tribunal Militar de Luanda e o seu advogado ficou retido em Lisboa.

Foi condenada a 12 meses de prisão. Pena que foi agravada para dois anos de prisão maior e medidas de segurança de seis meses a três anos, após recurso do Ministério Público. Julieta recorre também e realiza-se novo julgamento, já em Lisboa, mas a pena aumenta: quatro anos de prisão maior e medidas de segurança de seis meses a três anos.

Depois do processo, o filho vem viver com a tia Fernanda e estudar no Colégio Moderno, da família Soares, de que era amiga, já que o pai de Julieta e João Soares foram correlegionários na I República. Mário Soares será o advogado já no período final da cadeia e conduzirá a libertação, após uma campanha internacional conduzida pela Amnistia, a partir de Londres.

Presa do ano
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Em 1964, Julieta Gandra é escolhida como "presa consciência do ano", depois de já ter sido o centro de uma campanha do grupo de defesa dos direitos humanos West Bristol, em 1962. Foi a primeira vez que um preso português é escolhido, o que voltará a acontecer com Mário Soares, em 1973, explica ao P2 Vítor Nogueira, da Amnistia Internacional, que privou também com Julieta Gandra.

No início de Julho de 1965, Julieta Gandra abandona finalmente a prisão de Caxias, onde chegara a 8 de Novembro de 1960. E onde partilhou cela com figuras como Maria Eugénia Varela Gomes, presa no Golpe de Beja, que sobre ela contou: ""Era muitíssimo inteligente, cultíssima, uma grande dama, corajosa politicamente, uma mulher frontal, impecável perante a PIDE, uma boa médica, uma mulher muito interessante."

Também a militante comunista Ivone Dias Lourenço partilhou cela com Julieta: "Era extremamente solidária, nunca fez vida à parte, nunca fez luta à parte. Ela foi sempre de uma extrema ajuda, culta, enciclopédica, interessava-se por tudo, viva, uma grande contadora de histórias, muito viajada, era o centro das nossas conversas, alimentava a curiosidade, tinha uma visão contemporânea do mundo. Eu própria considero que lhe devo o abrir dos olhos para o mundo."

Transgressão máxima
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É também na cela, em Caxias, que conhece Fernanda da Paiva Tomás, nascida a 8 de Novembro de 1928, com quem manterá desde então uma relação afectiva, até à morte de Fernanda, com um tumor cerebral, em 15 de Setembro de 1984.

Fernanda da Paiva Tomás era uma alta dirigente do PCP, que entrara já em ruptura com o partido - "queriam que ela deixasse a clandestinidade para visitar Joaquim Carreira, o pai do filho, que fora preso, e ela achava que era militante comunista e não companheira", conta Diana Andringa, que esteve na mesma cela de Fernanda, no final dos anos 60. Presa em 6 de Fevereiro de 1961, Fernanda só será libertada em 19 de Novembro de 1970, sendo a mulher que mais tempo sucessivo esteve presa pela PIDE, um total de nove anos e nove meses, que se somam a onze anos de clandestinidade anterior."Com a saída de Fernanda Tomás da cadeia foi uma lufada de ar fresco na vida da Julieta e naquela casa. Foi um período muito porreiro. Mas nunca abordei a relação, para mim eram apenas duas pessoas que viviam na mesma casa", diz Amílcar Sequeira, amigo de Julieta que até à sua morte continuou a visitá-la no lar, onde vivia desde 2001.

O início da relação entre ambas, em Caxias, é referido por Maria Eugénia Varela Gomes em Contra Ventos e Marés (pp. 229/230). Ao P2 apenas diz: "Era visível dentro da cela a relação das duas, escrevi porque é a verdade histórica." Já Ivone Dias Lourenço sublinha: "Era muito miúda, não tinha experiência de vida, não me apercebi de nada, só soube depois da Fernanda morrer.

"Apesar de o assunto ser omitido ainda hoje por muitos que privaram com as duas, Ana Rita Gandra Gonçalves, sobrinha de Julieta, assume: "Eu gostava muito da Fernanda, era uma pessoa muito especial. Elas tinham uma atitude muito natural em relação à situação. Não houve propriamente festa de casamento, mas naquelas idades não se faz isso."

Por sua vez, Maria Teresa Horta é peremptória em afirmar que, com o passar dos anos sobre a morte de Fernanda Tomás, "a relação foi silenciada, mas as pessoas sabem, até porque criou celeuma na própria cela". E prossegue: "Tinham uma afectividade imensa e uma solidariedade imensa entre as duas. Para fazer aquilo que elas fizeram, era preciso que houvesse uma grande coragem e um grande amor. Mesmo depois do 25 de Abril havia silêncio à volta do assunto. Não por elas, que não escondiam. Mas em relação à mulher é mais difícil falar-se, não há homossexualidade feminina porque não há sexualidade feminina."

E frisa: "Imagine-se o que é duas mulheres assumirem uma relação dentro de uma cela de uma cadeia da PIDE cheia de presas do PCP. É um acto de transgressão máxima, para mais porque são presas políticas do fascismo. Além da transgressão que as leva ali, há esta."

Uso da pílula em Portugal
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É também no período de Caxias que Julieta Gandra se afasta do PCP, embora sobre isso Ivone Dias Lourenço apenas diga: "Não sei quem se afastou de quem." Já Teresa Horta, que foi também militante do PCP, acrescenta: "Tentei falar sobre o assunto com Alda Nogueira [esteve presa na mesma cela] e com Georgete Ferreira, ambas não quiseram falar." O afastamento consuma-se já fora da prisão e dá-se a aproximação à extrema-esquerda, se bem que o centro da luta de Julieta fosse a questão colonial.

Junta-se então ao filho em casa da irmã Fernanda e pouco depois começa a dar consultas em Sintra e monta consultório na Rua Manuel da Maia, em Lisboa, onde dará emprego a Aida Paula, com quem esteve presa em Caxias. Volta a exercer clínica, tornando-se uma das ginecologistas percursoras do uso da pílula em Portugal.

"Ela ia muito à frente, falava com grande liberdade do prazer sexual a que a mulher tinha direito sem ser penalizada com a gravidez. E pesava sobre ela o peso da suspeição do regime. Era uma mulher muito corajosa", afirma Teresa Horta acrescentando: "Fazia muita medicina gratuita, o que lhe interessava era aquilo que hoje se chama serviço público."

Santuário angolano
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Após alguns meses a dormir no consultório, aluga a casa da Rua Ilha do Príncipe. Será este o lugar mítico para gerações de militantes de esquerda não alinhados com o PCP e, acima de tudo, o santuário do independentismo angolano.

"Ela era uma referência. A casa da Julieta era importante. Para mim foi um livro aberto", diz Amílcar Sequeira. É lá que as novas gerações convivem com figuras do independentismo. "Permitiu-nos ouvir históricos como o Ilídio Machado e Arménio Santos", salienta Diana Andringa que assume a dívida: "Se me perguntarem qual a minha pátria, digo Angola. De alguma forma, Julieta ajudou-me a isso. Fez-me não ter vergonha de ser branca e privilegiada."É lá que se realiza, após o 25 de Abril, a primeira reunião para organizar a primeira manifestação anticolonial, onde estiveram Carlos Antunes e Cabral Fernandes, entre outros. E Julieta integra uma delegação da Casa de Angola que vai ao Alvor, durante a assinatura do acordo das independências, reunir-se com Agostinho Neto.

Em 1975, regressa a Luanda, para ai montar o serviço de saúde e despacha directamente com Neto. Fernanda Tomás vai consigo e trabalha no Ministério da Educação. Julieta Gandra instala o serviço de vacinação e a rede de enfermeiros e faz o levantamento para determinação de epidemias. Regressa a Lisboa profundamente doente, de urgência, em 1977, e ruma a Londres onde lhe é diagnosticado um edema pulmonar.

A dívida de Angola para com Julieta Gandra é expressa numa subvenção que recebia irregularmente do Governo angolano e que completava a subvenção atribuída no Governo de António Guterres, em reconhecimento da sua luta como antifascista. Mas recusou-se a receber a Ordem da Liberdade, já no segundo mandato de Jorge Sampaio.

"Era pessoa forte, opinativa", lembra Ana Rita Gandra Gonçalves. "Obrigava-nos a pensar. Tinha pouca paciência para chavões. Na altura da guerra do Biafra, dizia que não era adoptando uma criança que se resolvia o problema. Tinha muita paciência para nós, os mais novos, mas não tinha paciência para pieguices e disparates", lembra Diana Andringa e acrescenta: "Era uma militante feminista e anticolonial. Em tudo o que dizia e fazia estava presente que as mulheres são iguais aos homens, têm os mesmos direitos e os mesmo deveres, até o dever de pensar."

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quinta-feira, 21 de Fevereiro de 2008

Breve história do Manifesto do Partido Comunista



por Augusto Buonicore*

Este mês estamos comemorando os 160 anos da publicação do Manifesto do Partido Comunista. Esta foi, sem dúvida, a obra mais famosa de Marx e Engels. Podemos dizer que, quer pelo seu conteúdo, quer por sua forma didática, ele foi o responsável pelo sucesso do marxismo junto ao movimento socialista e operário desde a segunda metade do século 19 . Esta foi uma obra que fundou a tradição comunista.



Do socialismo utópico ao científico


O Manifesto do Partido Comunista de Marx e Engels é considerado, pela maioria dos estudiosos, como a primeira obra pública do chamado socialismo científico. Mas, por que socialismo científico?

Antes de Marx e Engels vários teóricos socialistas já faziam duras críticas à situação dos trabalhadores sob o capitalismo, denunciavam as injustiças criadas pela sociedade burguesa e até mesmo pressentiam que estas injustiças tinham por base o monopólio da propriedade privada dos meios de produção. Mas eles não compreendiam e nem podiam compreender a dinâmica do desenvolvimento da sociedade capitalista, que não havia desenvolvido todas as suas potencialidades. Não compreendiam a determinação, em última instância, da esfera econômica (inter-relação dinâmica entre forças produtivas e relações de produção) sobre a superestrutura político-jurídica e ideológica da sociedade.

O socialistas pré-marxistas, ou utópicos, não entendiam que a sociedade socialista só poderia nascer a partir de um certo grau de desenvolvimento das forças produtivas, propiciado pelo avanço do próprio capitalismo. Ou seja, o socialismo só seria possível na relativa abundância propiciada pela sociedade industrial moderna. Não seria possível o socialismo na escassez inerente aos modos de produção pré-capitalistas: escravista e feudal.

O desenvolvimento das forças produtivas modernas criava as condições materiais para superar a escassez e realizar as necessidades humanas essenciais. Mas, por que isso não acontecia? Porque as relações de produção estavam assentadas na propriedade privada dos meios de produção. Esta era a contradição fundamental do capitalismo e a base de sua desagregação. A possibilidade da realização das necessidades humanas abertas com o desenvolvimento da grande indústria só poderia ser realizada plenamente com a socialização dos meios de produção e o aumento ainda maior das forças produtivas.

Ao não compreenderem a dinâmica real do desenvolvimento da sociedade humana em geral e do capitalismo em particular, os “utópicos” apresentavam propostas irreais para superar o capitalismo e instaurar a sociedade socialista.

Não reconheciam o papel determinante da luta de classe no processo de transformação social. Nem o papel fundamental que deveria ser desempenhado pelo proletariado moderno. E, por isso, acabavam priorizando métodos centrados no convencimento das classes dominantes e dos seus respectivos governos. Imploravam para que eles ajudassem a realizar os seus projetos mirabolantes – embora generosos - de sociedades alternativas. Os principais socialistas utópicos foram Saint-Simon, Charles Fourier e Robert Owen.

Ao contrário, Marx e Engels compreendiam que a história da sociedade humana tinha sido a história da luta de classes. Estudando o desenvolvimento da sociedade capitalista e de suas contradições, haviam chegado à conclusão de que no capitalismo a classe revolucionária era o proletariado, filho legítimo da industrialização capitalista. O proletariado estava chamado a cumprir o papel de coveiro da sociedade burguesa.


O capitalismo só poderia ser superado com a organização e a luta dos proletários e não através de concessões graduais das classes dominantes, feudais ou burguesas. Mas eles não chegaram a esta conclusão a partir do nada, construíram a sua teoria a partir do estudo da realidade concreta, da sociedade do seu tempo.

O proletariado já tinha mostrado toda sua força nas insurreições dos tecelões de Lyon (França) em 1831 e 1834 e na dos tecelões da Silésia (Alemanha) em 1844. A maior demonstração de organização e de politização do proletariado europeu havia sido o movimento cartista na Inglaterra. Em 1842 milhões de trabalhadores haviam se declarado em greve geral em defesa da "Carta Popular", na qual exigiam direitos políticos e sociais dos quais eles estavam excluídos. Portanto, o Manifesto também foi fruto da evolução do movimento e da consciência política do proletariado. Sem isto o Manifesto jamais poderia ter sido escrito.

Qualquer observador atento a partir da terceira década do século 19 poderia constatar o nascimento de uma nova força social, destinada a cumprir um grande papel na história moderna. O socialista-reformista francês Louis Blanc, em 1846, afirmaria: "Na pujança do movimento desses escravos dos tempos modernos resulta fácil prever as tempestades que levam em suas entranhas o século 19". Até um ideólogo burguês como Monfalcon, um observador das rebeliões operárias em Lyon, constataria aterrorizado: "Uma das próximas conseqüências fatais desses eventos será que os operários (...) se convertam em uma classe política (...) Se apresentarão homens que dirão aos operários 'vosso suor só beneficia aos ricos; os fabricantes são seus inimigos naturais. Queixais de que sois desgraçados e, entretanto, sois os mais numerosos e os mais forte. Uni-vos!". Uma conclusão premonitória.

A parceria de Marx e Engels

Marx e Engels iniciaram sua parceria teórica e política em agosto de 1844 quando, juntos, começaram a redigir o livro "A Sagrada Família". Em polêmica acesa com os jovens hegelianos Bruno e Oto Bauer, eles apresentaram as conclusões que haviam chegado através de seus estudos de filosofia, história e economia política.

Defenderam, na forma de polêmica anti-idealista, a tese de que a história dos homens só poderia ser plenamente compreendida mediante a análise do desenvolvimento da produção material. O mundo das idéias e o próprio Estado eram condicionados pelo nível de desenvolvimento dessa mesma produção material.

Apresentaram, também, a sua tese sobre o papel revolucionário do proletariado moderno e da necessidade histórica da revolução comunista. Afirmaram Marx e Engels: "Não se trata do que este ou aquele proletário, ou inclusive o proletariado em seu conjunto, possa apresentar-se de vez como meta. Trata-se de o que o proletariado é e de o que está obrigado historicamente a fazer, de acordo com o seu ser".

Ainda em 1845 foi publicado o livro "A situação da classe trabalhadora na Inglaterra", escrito por Engels. Nesta obra analisou as condições em que vivia a classe operária inglesa, constatou que o crescimento da riqueza social se dava à custa da crescente miséria e exploração do trabalho dos operários. E essa contradição desembocaria em uma nova e radical revolução social: a revolução comunista. O agente dessa revolução seria o proletariado.


No mesmo ano, Marx e Engels resolveram expor de maneira mais sistemática a suas divergências com a escola neo-hegeliana. Nasceu assim "A Ideologia Alemã". Em 1846 a obra já estava pronta, mas não conseguiram um editor para publicá-la. Esta era uma exposição sistemática do materialismo histórico e da teoria socialista desenvolvidos por eles.


Nessa obra desenvolveram a idéia presente no Manifesto de que o socialismo só poderia se constituir a partir de um certo grau de desenvolvimento das forças produtivas e, conseqüentemente, com o surgimento e a ampliação incessante do proletariado moderno. Escreveram: "No capitalismo surge uma classe condenada a suportar todos os inconvenientes da sociedade sem gozar de suas vantagens (...) e disso nasce a consciência de que é necessária uma revolução radical, a consciência comunista." A missão histórica colocada para esta nova classe deveria ser a conquista do poder político das mãos da burguesia e a gradual expropriação dos meios de produção fundamentais, abrindo assim o caminho para a sociedade sem Estado e sem classes: a sociedade comunista.


A partir daí o movimento operário e socialista poderia contar com uma teoria mais adequada, assentada no estudo profundo da sociedade capitalista, de suas contradições e tendências objetivas. O projeto socialista não se assentava mais nos protótipos de sociedades perfeitas (ideais) nascidas da cabeça de algum sonhador genial. Os trabalhadores e suas organizações poderiam contar agora com um poderoso instrumento teórico, que lhe permitiria construírem táticas e estratégias políticas mais condizentes com os seus objetivos de superação do capitalismo.


Marx e a Liga Comunista

A Liga dos Justos foi criada em 1836 e era formada, majoritariamente, pelos representantes mais radicais da emigração alemã que residiam na França. Seus membros eram, em geral, operários artesanais: ferreiros, carpinteiros, sapateiros, alfaiates. Embora o seu centro político ficasse em Paris, a organização se ramificava em seções por vários países europeus.


Ela tinha estreitas relações com a "Sociedade das Estações" francesa, organização secreta dirigida por Augusto Blanqui, líder revolucionário republicano e socialista. Quando os blanquistas organizaram um levante em 1839, os membros da Liga se uniram a eles. A revolta foi rapidamente sufocada e parte dos dirigentes foi aprisionada e outra teve que fugir para a Inglaterra e Suíça. O centro da organização teve que se transferir para Londres, onde havia maior liberdade política.

Com a derrota, muitos membros se desencantaram com os métodos conspirativos dos blanquistas. Alguns acabaram se aproximando da ala reformista do movimento socialista europeu, especialmente das teses do comunismo-utópico de Cabet. Este acreditava que o comunismo poderia ser conquistado através da propaganda, do exemplo positivo e defendia a formação de colônias comunistas nas Américas. Algumas experiências foram tentadas e fracassaram.

Portanto, as concepções políticas predominantes na Liga dos Justos eram instáveis e confusas. Isto se devia à sua composição social de operários artesãos, classe em transição entre a pequena-burguesia e o proletariado moderno. Um dos elementos mais ativos da ala esquerda da Liga era Wilhelm Weitling, alfaiate alemão. Em 1842 ele publicou Garantias da harmonia e da liberdade, que obteve grande repercussão no movimento operário e socialista europeu. O próprio Marx o saldou como "uma estréia literária inigualável e brilhante dos operários alemães".

Weitling anunciou que a chegada do comunismo era iminente. Defendeu, contra os reformistas, que este só poderia ser conquistado pela luta sem tréguas entre os oprimidos e os opressores. Estas idéias particularmente agradaram ao Marx daquela época.

Mas, ao contrário de Marx, Weitling não compreendia o papel especial a ser desempenhado pela classe operária moderna, ainda em formação. Ele defendia que o elemento mais revolucionário da sociedade capitalista era o lumpen-proletariado, "as classes marginais". Chegou mesmo a apresentar para a direção da Liga um plano detalhado de revolução social, que se resumia à formação imediata de um exército de 20 a 40 mil miseráveis e à deflagração de uma guerra de guerrilhas contra a ordem existente. A concepção de Weitling também se caracterizava pelo anti-teoricismo – negação do papel da teoria – e pela rejeição da importância da atuação política. Estes eram dois outros aspectos do seu pensamento terminantemente rejeitados por Marx e Engels.


Engels foi o primeiro a entrar em contato com a Liga dos Justos, entre 1842 e 1844, quando da sua estada na Inglaterra. Ele ficou bastante impressionado e afirmou que estes teriam sido os primeiros proletários revolucionários que havia conhecido. Mas, mesmo assim, ele não se convenceu a entrar para a organização. Existiam ainda muitos pontos de discordâncias.

Marx só veio a entrar em contato com a Liga em meados de 1845, quando viajou para a Inglaterra com o objetivo de estudar os economistas ingleses e estabelecer contato com o movimento operário que se desenvolvia rapidamente. Durante este período ajudou a estabelecer relações entre a ala esquerda do cartismo e a Liga dos Justos. Nasceu, assim, a idéia de se criar uma organização revolucionária de caráter internacional.


Em novembro de 1846 a direção da Liga dos Justos propôs a convocação de um congresso internacional de todas as suas seções para maio de 1847. Um dos objetivos era a elaboração de um novo programa socialista, mais adequado à suas recentes experiências. Neste processo de re-elaboração teórica e estratégica decidiram procurar novamente Marx e Engels.

Estes estavam envolvidos no processo de formação dos chamados Comitês de Correspondência Comunista, que procurava também ser um embrião de um partido operário-revolucionário internacional. Comitês foram organizados na Bélgica, Paris e Londres. Existia uma interseção entre as diversas organizações operárias internacionais; em Londres, os principais membros do Comitê de Correspondência eram membros da Liga dos Justos e do movimento cartista. Eram tentativas embrionárias de formação de uma Internacional.


Neste período de formação dos comitês de correspondência Marx travou importantes disputas políticas contra outras correntes socialistas. Apesar da afinidade inicial, desenvolveu uma dura luta de idéias com Weitling. Eram inadmissíveis suas posições contra a participação dos operários na luta política e, especialmente, seu preconceito contra a teoria e os intelectuais revolucionários. Em março de 1846 se daria a ruptura definitiva entre eles.


Marx e Engels travaram também uma luta contra os chamados "verdadeiros socialistas". O principal documento desta contenda foi a Circular sobre Kriege. Nela afirmaram: "A idéia de converter todos os homens em proprietários privados é absolutamente irreal e, mais ainda reacionária". O último grande confronto teórico-político antes da elaboração do Manifesto Comunista foi travado contra Proudhon, um dos pais do anarquismo, e sua obra Filosofia de Miséria. A crítica de Marx seria publicada em julho de 1847 e intitulava-se A Miséria de filosofia.


As posições teóricas e políticas de Marx e Engels chamaram a atenção dos principais membros da direção da Liga dos Justos e por isso propuseram para que eles apresentassem uma proposta de estatuto e de programa. Não sem certa relutância os dois revolucionários ingressaram na Liga e aceitaram a tarefa.


No dia 2 de junho de 1847 teve início aquele que seria o último congresso da Liga dos Justos e o primeiro da Liga dos Comunistas. Engels estava presente representando a organização parisiense. Marx não pôde comparecer ao encontro internacional. Neste evento aprovou-se o novo estatuto proposto por Engels e que era assentado na mais ampla democracia interna. O Congresso passou a ser o órgão supremo da nova organização. O Comitê Central desempenharia apenas o poder executivo no período entre congressos. Rompia-se com a concepção de seita clandestina e pouco democrática.

A carta-circular aprovada justificou a alteração do nome da organização sugerida por Engels: "Nós nos distinguimos não por propugnar a justiça em geral (...) mas sim por repudiar o regime social existente e a propriedade privada, propugnamos a comunidade de bens, somos comunistas". A divisa também foi alterada para se adequar aos novos princípios da organização. Em lugar da antiga divisa "Todos os homens são irmãos" foi colocada a nova consigna "Proletários de todos os países uni-vos!".

O Primeiro Congresso aprovou um projeto de programa (provisório), elaborado por Engels denominado Símbolo da Fé Comunista. Baseado nesse texto, Engels elaborou ainda uma outra proposta de programa que foi denominada Princípios do Comunismo. Os dois projetos foram redigidos didaticamente na forma de perguntas e respostas.


Mas, a forma não agradou ao próprio Engels. Ele escreveu a Marx: "Pensa no Símbolo da Fé. Creio que o melhor seria abandonar a forma de catecismo e chamar o trabalho de Manifesto Comunista. Nele tem que se analisar em uma ou outra medida a história da questão e para isso a forma atual não serve em absoluto".


No segundo Congresso Marx recebeu o encargo de elaborar o novo programa teórico e prático da organização. Ele não se apressou para realizar o seu trabalho o que lhe acarretou uma advertência da direção da Liga. Colaborava para o relativo atraso o seu afastamento de Engels e o seu método de trabalho. Como afirmou Riazov: "Elaborava sempre longamente suas obras, sobretudo se se tratasse de um documento importante. Neste caso, o queria perfeitamente redigido".

Para Marx e Engels o Manifesto deveria ser, nas palavras de Mehring, "uma obra perene e não um escrito polêmico de leitura fugaz". Continuou ele: "Foi a sua forma clássica que assegurou ao Manifesto Comunista o posto perdurável que ocupa na literatura universal". Marx, utilizando o esboço de Engels, terminou a sua tarefa no final de janeiro de 1848 e no início de fevereiro era publicado o Manifesto do Partido Comunista. Tinha apenas 23 páginas, mas revolucionaria o mundo todo. Como disse Lênin: "Este pequeno livrinho valeria por tomos inteiros".


O Manifesto foi publicado poucos dias antes de eclosão da revolução na França que derrubou o rei Louis Felipe e instaurou a república. Logo em seguida, a revolução democrática se espalharia por todo o continente europeu, inclusive a Alemanha, conforme previu o Manifesto. Era a chamada Primavera dos Povos. Marx e Engels voltaram a sua terra natal e se envolveram diretamente na revolução em curso.

Em junho de 1848 estourou a revolução operária em Paris, derrotada pelas forças coligadas da burguesia. Esta foi a primeira revolução política operária e causou profunda impressão nas classes proprietárias européias e teria reflexo na elaboração teórica de Marx e Engels. Os artigos de Marx analisando a revolução francesa entre 1848 e 1850 foram publicados no livro "As Lutas de Classes em França".

A derrota da revolução de junho e o refluxo das revoluções democráticas e populares na Europa foram acompanhados por um acirramento da repressão ao movimento operário e socialista. Um dos marcos dessa repressão foi a instauração do processo de Colônia contra os membros do Comitê Central da Liga Comunista na Alemanha. Oito dirigentes da liga foram condenados. A Liga acabou sendo oficialmente dissolvida. Uma nova organização internacional dos operários e socialistas só seria construída em 1864, a Associação Internacional dos Trabalhadores.

Desde a sua publicação o destino do Manifesto do Partido Comunista sempre esteve ligado ao destino do movimento socialista e operário e internacional. Acompanhou seus avanços e sofreu com suas derrotas.


Notas

Este artigo já foi ao ar no próprio Vermelho há cinco anos atrás. Resolvi republicá-lo em homenagem à data.


Clique para ter uma apresentação do Manifesto “O manifesto Comunista como Programa

Clique para ter acesso ao artigo “Retificação e atualidade de um manifesto de 150 anos





*Augusto Buonicore, Historiador, mestre em ciência política pela Unicamp

in VERMELHO - 20 DE FEVEREIRO DE 2008 - 16h19
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ver também
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150 anos Manifesto Partido Comunista



Data Título do item
Segunda, 31 Julho 2006 Manifesto do Partido Comunista - 2ª edição integral
Quinta, 26 Fevereiro 1998 Evocação dos 150 Anos do Manifesto do Partido Comunista-Intervenção de Carlos Carvalhas,
Quinta, 26 Fevereiro 1998 Commemorative meeting of the 150th Anniversary of the Manifesto of the Communist Party
Quinta, 12 Fevereiro 1998 Os 150 anos do MANIFESTO DO PARTIDO COMUNISTA Conversa com Francisco Melo e José Barata-Moura
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pcp.pt - dossiers - 150 anos do Manifesto Comunista



* Opiniões aqui expressas não refletem, necessariamente, a opinião do site.

quarta-feira, 20 de Fevereiro de 2008

A escrita feminina no panorama literário africano em língua portuguesa

A produção literária de autoria feminina ainda é muito incipiente nos países africanos de língua portuguesa. Isto constitui um paradoxo, já que durante as lutas libertárias as mulheres desempenharam importante papel político nas organizações que lutavam contra o colonialismo.

A literatura angolana se solidifica no final de 1940 com o movimento «Vamos Descobrir Angola», que gerou as bases literárias consolidadas e atestadas «pelos variados prêmios outorgados aos escritores, como o prêmio Camões, concedido a Pepetela em 1997» (Macêdo, Tania. In: Contatos e ressonâncias: literaturas africanas de língua portuguesa, p. 157).

No cenário literário angolano figura como precursora na poesia Alda Lara, autora de Poemas (1966), Poesia (1979) e de um livro de contos intitulado Tempo de Chuva (1973). A temática de sua obra é a opressão, que assola homens e mulheres em geral, e, apesar de abordar questões universais como a fraternidade, a solidariedade e a paz, seu enfoque poético está direcionado para as formas de ação feminina na busca do espaço sonhado, em especial nos anos de 1950-1960, quando se intensificava o projeto libertário angolano.

Tal projeto se nutria da utopia de homens e mulheres compartilharem a construção da nação idealizada pelos angolanos. Com nítida percepção do sofrimento que assolava a humanidade da época, Alda Lara ultrapassa a concepção nacionalista para ouvir as «vozes silenciadas» além da África de língua portuguesa:

Os gritos perderam-se sem encontrar eco.
Os punhos cerrados e os ódios calados
Dividiram os Homens,
que se não reconheceram mais...

Mas as lágrimas cavaram sulcos fundos
nos olhos vazios de esperança,
e os sulcos não se apagaram...

(«Poema», in:Antologia da poesia africana de língua portuguesa, Rio de Janeiro: Lacerda Editores, p.67).

Trilhando entre o «eu», o sonho e o povo, características que a aproximam de Alda Lara, Noémia de Sousa direciona seus versos para apreender o próprio «eu» como expressão da subjetividade feminina repleta de imagens que corporificam os desejos «espirituais, admirações, dores e sensações» (Mata, Inocência. Literatura Angolana: silêncios e falas de uma voz inquieta, p. 122).

Em busca de uma maneira singular de ser moçambicana, Noémia de Sousa privilegia a investigação da infância, alicerçada na memória dos elementos da terra. As imagens da terra construídas em sua poesia corporificam a confraternização com sua infância rememorada imageticamente por meio de símbolos típicos de Moçambique, revivificados num código lingüístico repleto de marcas acústicas que caracterizam uma recorrência da poesia fundada na oralidade.

A valorização do ritmo, da musicalidade, da repetição de termos e expressões, das frases feitas, das sentenças, dos ditos e dos refrões, aspectos oriundos da oratura, enriquecem o fazer poético de Noémia de Sousa, que estabelece um pacto com o contexto, com a história local, o que reforça a autenticidade de sua poesia vincada na moçambicanidade. Segundo Alfredo Margarido, se as raízes do poeta são autenticamente moçambicanas, suas razões de ser, de estar, de existir terão também de ser moçambicanas (Margarido, Alfredo. Estudos sobre literaturas das nações africanas de língua portuguesa, p. 486).

Noémia de Sousa não tem livros publicados, mas deixou um legado literário de impacto, como bem definiu António Jacinto ao tomar contato com o caderno Sangue negro, composto de 43 poemas, em 1951. Em suas reflexões, António Jacinto viu naquele discurso um caminho que poderia ser tomado também pelos angolanos em sua produção literária. «O impacto dos poemas propagou-se à Casa dos Estudantes do Império. Noémia de Sousa nunca publicou qualquer livro, para além desse caderno policopiado, de divulgação clandestina, pois nem todos os textos poderiam circular sem problemas» (Laranjeira, Pires. Literaturas africanas de expressão portuguesa, p. 269).

Numa fase em que os jornais eram o lugar de reflexões contundentes, parte dos poemas de Noémia de Sousa circularam por revistas, jornais e coletâneas da época, como O Brado Africano, Itinerário, Vértice e Mensagem (CEI), entre outros. O fazer poético desta autora encontrou no ser negro envolto numa aura de valoração do que é da terra seu viés discursivo para contestar a colonização em Moçambique. Segundo Pires Laranjeira, em Literaturas africanas de língua portuguesa, a poesia de Noémia de Sousa situa-se na intersecção do neo-realismo com a Negritude, embora ainda não houvesse tomado contato com os textos da negritude em voga no Haiti e Cuba, por exemplo.

No poema «Negra», Noémia de Sousa corporifica na imagem feminina características da «mãe-terra», transferindo sensações, desejos e sonhos que sendo aparentemente uma particularidade da mulher moçambicana ali idealizada acabam por forjar no corpo do poema um sentimento que ultrapassa a busca de um «eu» individualizado. Quando o sujeito lírico se identifica como cidadã moçambicana, constata-se que a sua dor é também a das demais mulheres de seu grupo social e se assemelha, numa leitura alargada do poema, à busca da subjetividade feminina que nutre os sonhos das «filhas da mãe negra», ou melhor, da grande mãe África silenciada em várias partes pelo jugo colonialista.

Este poema, na visão de Alfredo Margarido, nos coloca perante as «gentes estranhas» que «com seus olhos cheios de outros mundos» pretenderam captar os encantos da África, mas que, por via dos seus rendilhados cantos formalistas, não puderam aceder à substância autêntica da mulher negra africana. Tal é, afinal, seu grande desejo: identificar a África, identificar-se com ela. (Margarido, Alfredo. Estudos sobre literatura das nações africanas de língua portuguesa, p.488).

Numa leitura intertextual entre «Negra», de Noémia de Sousa, e «Prelúdio», de Alda Lara, verifica-se a força da voz poética feminina, que no dizer de Inocência Mata, em Literatura Angolana: silêncios e falas de uma voz inquieta, se liga à idéia de regresso e comunhão com a Terra, com o Povo e com a causa coletiva.

As seguintes estrofes do poema «Prelúdio», de Alda Lara, ilustram a busca da identificação imagética da situação a que foram expostas as comunidades africanas de língua portuguesa, em especial as mulheres, durante a colonização:

Pela estrada desce a noite...
Mãe-Negra, desce com ela...
(...)
Só duas lágrimas grossas,
em duas faces cansadas.

Mãe-Negra tem voz de vento,
voz de silêncio batendo
nas folhas do cajueiro...
(...)
Que é feito desses meninos
que ela ajudou a criar?...
Quem ouve agora as histórias
que costumava contar?...

(MATA, Inocência. In: Literatura angolana: silêncios e falas de uma voz inquieta, p.112).

As marcas da oralidade e da História que permeiam a poesia de Alda Lara e Noémia de Sousa também estão presentes no itinerário poético da angolana Ana Paula Tavares, autora de Ritos de passagem (1985), O lago da lua (1999) e de um livro de crônicas intitulado O sangue da buganvília (1998). Ana Paula busca o espaço profícuo para encenar na força criativa das palavras formas e tons de uma escrita singular. Presenciam-se em seu discurso cenas de dor, de carência, de guerra e de morte, subjacentes a uma voz lírica que trilha a tradição, recriando o passado a partir da seleção e interpretação do patrimônio cultural angolano para converter as inúmeras vozes femininas presentes em seu texto numa poética do «grito» libertário, para além do silenciado cercado a que as mulheres angolanas estiveram culturalmente submetidas.

A ensaísta Laura Cavalcante Padilha, no artigo «Paula Tavares e a semeadura das palavras», assinala a presença da «palavra grito» nos textos da poetisa como forma de «tentar quebrar o silêncio, pois o sujeito histórico reconhece a necessidade de preencher tal silêncio. De qualquer modo e com muita urgência» (in: África & Brasil: letras em laços, p. 288).

Ana Paula Tavares percorre o universo que protesta contra a situação vivida pelas mulheres e crianças de sua pátria. Em O sangue da buganvília: crônicas, a autora diz:

Faz falta a palavra grito a crescer por cima desse silêncio todo, construída livremente com o respeito antigo pelo lugar, mas trazendo as novas do tempo, dos participantes e das promessas. É preciso que a palavra acolha esta mais-valia de tantos anos de espera e silêncio e se solte e proteste e renasça na plantação das consciências (p. 33).

Assim, o caos deixado pela guerra não esconde a raiz de sua procura: um desejo de conhecimento do mundo que necessita, com urgência, reencontrar o sentido da humanidade. Ele aponta, antes, para um retorno às origens, uma abertura para outra possibilidade de organização do mundo a partir do som, do grito, da palavra poética. Dimensionada pelos sentidos que recuperam através da palavra o cheiro, os sons, os ritmos da terra, como referências para cruzar aspectos da tradição angolana e da fala das mulheres partida pela história de guerras e exclusão a que foram submetidas.

Sob o signo da letra, a obra de Ana Paula Tavares pode ser definida pelo acúmulo de experiências da vida diária, transformando sua terra e sua gente em matriz de sentidos. Assim, o perfil de uma especial face angolana em seus poemas monta-se por meio da convergência de signos como fogueiras, gado, lago, lua, lavras, frutos, etc. Todos organizados segundo o princípio da contenção que favorece uma sintaxe singular dos sentidos.

No cenário poético contemporâneo situa-se também Vera Duarte, cabo-verdiana com poemas publicados em várias antologias poéticas e autora do livro Amanhã amadrugada (1993). Com um discurso marcado por sua posição política, esta escritora procura interpretar os sentimentos e sonhos daqueles que metaforiza por meio da voz lírica, e capta o desejo de

(...)
Homens mulheres crianças
Na pátria livre libertada
Plantando mil milharais
Serão a chuva caindo
Na nossa terra explorada

(DUARTE, Vera. 1993, p.99).

Para reinventar o sentido da vida em Cabo Verde, a poética de Vera Duarte representa abundância vivificante nas horas tristes, reanimadas pela voz lírica feminina que clama por todos aqueles que habitam imageticamente o Arquipélago, que ainda busca no plano real uma saída semelhante à que supriu a falta de chuvas, de liberdade, para vencer a dor que se esvai nos versos:

(...)
Num setembro de chuvas abundantes
a água varreu o lamaçal
limpou os corpos caídos
levou dejectos e tudo
e apenas deixou
- redimidos -
os homens, a terra
e o futuro

(DUARTE, Vera, in: Amanhã amadrugada, p.67).

As imagens dos tempos difíceis são paradigmaticamente apagadas pela chuva complacente, companheira de luta, «amante amorosa que se entrega com doçura» (Sepúlveda, Maria do Carmo, in: África & Brasil: letras em laços, p. 334) ao processo de purificação na reinvenção poética capaz de tecer os sonhos para alimentar a alma do homem cabo-verdiano.

A escritura de Vera Duarte constrói-se a partir da ruptura com as formas canônicas do verso, demarcadoras dos limites entre a prosa e a poesia. Ela elabora seus textos livremente com o intuito de se libertar das amarras a que está submetido o sujeito, símbolo daquelas vozes que encontram na poesia a invocação à natureza.

Vozes pedindo chuva...
tuas rochas pedindo chuva...
terra à espera de chuva
poemas de chuva caindo

(Duarte, Vera. p.78).

Para concluir o panorama literário das vozes femininas dos países de língua portuguesa, convoca-se aqui Paulina Chiziane, autora de A balada de amor ao vento (1990), Ventos do apocalipse (1995), O sétimo juramento (2000) e Niketche, uma história de poligamia (2002). Estas duas últimas obras criticam os costumes e a postura patriarcal da sociedade moçambicana, e também a prática de obter o poder a qualquer preço. Estas obras distintas têm em comum a denúncia dos tortuosos meios encontrados por um sistema social que silencia as vozes femininas em prol de uma valoração das ações e feitos masculinos.

Em O sétimo juramento os valores animistas constituem o foco da narrativa, que traz à tona uma prática recusada pelo sistema colonial, mas subentendida no comportamento sócio-cultural vigente durante o processo revolucionário moçambicano. No dizer de Ana Mafalda Leite (Literaturas africanas e formulações pós-coloniais, p.69), o "apagamento" das tradições religiosas animistas e a ocidentalização dos costumes levaram, por um lado, ao seu recrudescimento clandestino e, por outro, à incapacidade de defesa e compreensão comportamental que possibilitavam. O choque cultural se faz presente nesta passagem de O sétimo juramento:

− Diz-me, avó, pode o meu filho estar possesso, pode? − Os espíritos fazem a vítima sofrer. Abrem caminhos, fecham caminhos, transtornam. Dão cabo da cabeça, enlouquecem. (...) Estou a rever memórias do tempo antigo. (...) As almas não morrem, Vera, encarnam-se. E este filho nunca foi teu, nunca te pertenceu. Começa por decifrar o mistério do seu nome (...) No nome está a raiz do problema. Os antepassados sempre disseram A VITO I MPONDO (Chiziane, Paulina, p. 59).

Além da fragmentação conceitual acerca dos rituais do passado, visíveis na fala da personagem que protagoniza a cena de possessão do filho, constata-se no decorrer da leitura que ela se torna vítima da ambição de um homem que faz uma "viagem iniciática ao mundo dos mortos, não olhando a meios, sacrificando ritualmente a família, para conseguir os seus almejados objetivos" (Leite, Ana Mafalda. Literaturas africanas e formulações pós-coloniais, p. 70).

Neste cenário de poder masculino, a figura feminina encontra-se duas vezes violentada pelos códigos sociais estabelecidos: pelo patriarcado e pela ausência de conhecimento sobre as tradições religiosas da comunidade a que pertence, e que a ajudariam a compreender pelo menos os efeitos das ações daquele homem nos membros da família, quando estabelece um pacto com os «mundos infernais» para obter rapidamente o poder desejado.

A crítica aos costumes patriarcais destoantes em O sétimo juramento também será feita pela via da ironia em Nieketche, uma história de poligamia. Segundo Ana Mafalda Leite, Nieketche está inscrita numa linha narrativa feminina de crítica à poligamia, que se tornou recorrente no cenário literário de mulheres africanas que buscam denunciar por meio da paródia a «forma perversa como a poligamia foi adulterada na sociedade urbana, não se respeitando os direitos que as mulheres tinham na sociedade tradicional» (Leite, Ana Mafalda. Literaturas africanas e formulações pós-coloniais, p. 70).

Entre os temas propostos pelas escritoras, está o repensar da condição feminina, num cenário social marcado pela opressão, pela submissão feminina e pelas guerras coloniais que silenciaram a confraternização presente no ritual do contar estórias em volta das fogueiras. Mas há também lugar para o amor revivificado na intersecção dos tempos, ponto de convergência entre tradição e modernidade.

A poética e a prosa femininas nas comunidades africanas de língua portuguesa colocam o leitor diante de cenas e sinais de mulheres em espera e ação, em silêncio e canto, em cansaço e renovação, metaforizadas por vozes marcadamente orais que aproximam os sentidos na reescrita literária, reinventando imageticamente o papel da mulher nessas comunidades.

Notas

Professora Doutora Substituta da Universidade Estadual do Estado do Rio de Janeiro -UERJ

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in

união dos escritores angolanos

Alda Lara - Poesia

Alda Lara

"À prostituta mais nova / Do bairro mais velho e escuro, / Deixo os meus brincos, lavrados / Em cristal, límpido e puro... / E àquela virgem esquecida / Rapariga sem ternura, / Sonhando algures uma lenda, / Deixo o meu vestido branco, / O meu vestido de noiva, / Todo tecido de renda..."


Biografia

Poemas:

Biografia

(Alda Ferreira Pires Barreto de Lara Albuquerque. Benguela, Angola, 9.6.1930 - Cambambe, Angola, 30.1.1962). Era casada com o escritor Orlando Albuquerque. Muito nova veio para Lisboa onde concluiu o 7º ano do Liceu. Freqüentou as Faculdades de Medicina de Lisboa e Coimbra, licenciando-se por esta última. Em Lisboa esteve ligada a algumas das atividades da Casa dos Estudantes do Império. Declamadora, chamou a atenção para os poetas africanos. Depois da sua morte, a Câmara Municipal de Sá da Bandeira instituiu o Prêmio Alda Lara para poesia. Orlando Albuquerque propôs-se editar-lhe postumamente toda a obra e nesse caminho reuniu e publicou um volume de poesias e um caderno de contos. Colaborou em alguns jornais ou revistas, incluindo a Mensagem (CEI).

Obra poética:

Poemas, 1966, Sá de Bandeira, Publicações Imbondeiro;

Poesia, 1979, Luanda, União dos Escritores Angolanos;

Poemas, 1984, Porto, Vertente Ltda. (poemas completos).


Testamento

À prostituta mais nova
Do bairro mais velho e escuro,
Deixo os meus brincos, lavrados
Em cristal, límpido e puro...
E àquela virgem esquecida
Rapariga sem ternura,
Sonhando algures uma lenda,
Deixo o meu vestido branco,
O meu vestido de noiva,
Todo tecido de renda...
Este meu rosário antigo
Ofereço-o àquele amigo
Que não acredita em Deus...
E os livros, rosários meus
Das contas de outro sofrer,
São para os homens humildes,
Que nunca souberam ler.
Quanto aos meus poemas loucos,
Esses, que são de dor
Sincera e desordenada...
Esses, que são de esperança,
Desesperada mas firme,
Deixo-os a ti, meu amor...
Para que, na paz da hora,
Em que a minha alma venha
Beijar de longe os teus olhos,
Vás por essa noite fora...
Com passos feitos de lua,
Oferecê-los às crianças
Que encontrares em cada rua...

(poemas)
.

Presença Africana

.

E apesar de tudo,
ainda sou a mesma!
Livre e esguia,
filha eterna de quanta rebeldia
me sagrou.
Mãe-África!
Mãe forte da floresta e do deserto,
ainda sou,
a irmã-mulher
de tudo o que em ti vibra
puro e incerto!...
.
- A dos coqueiros,
de cabeleiras verdes
e corpos arrojados
sobre o azul...
A do dendém
nascendo dos abraços
das palmeiras...
A do sol bom,
mordendo
o chão das Ingombotas...
A das acácias rubras,
salpicando de sangue as avenidas,
longas e floridas...
.
Sim!, ainda sou a mesma.
- A do amor transbordando
pelos carregadores do cais
suados e confusos,
pelos bairros imundos e dormentes
(Rua 11...Rua 11...)
pelos negros meninos
de barriga inchada
e olhos fundos...
.
Sem dores nem alegrias,
de tronco nu e musculoso,
a raça escreve a prumo,
a força destes dias...
.
E eu revendo ainda
e sempre, nela,
aquela
longa historia inconseqüente...
.
Terra!
Minha, eternamente...
Terra das acácias,
dos dongos,
dos cólios baloiçando,
mansamente... mansamente!...
Terra!
Ainda sou a mesma!
Ainda sou
a que num canto novo,
pura e livre,
me levanto,
ao aceno do teu Povo!...
.
(poemas)

.

Anúncio

Trago os olhos naufragados
em poentes cor de sangue...
.
Trago os braços embrulhados
numa palma bela e dura
e nos lábios a secura
dos anseios retalhados...
.
Enrolada nos quadris
cobras mansas que não mordem
tecem serenos abraços...
E nas mãos, presas com fitas
azagaias de brinquedo
vão-se fazendo em pedaços...
.
Só nos olhos naufragados
estes poentes de sangue...
.
Só na carne rija e quente,
este desejo de vida!...
.
Donde venho, ninguém sabe
e nem eu sei...
.
Para onde vou
diz a lei
tatuada no meu corpo...
.
E quando os pés abram sendas
e os braços se risquem cruzes,
quando nos olhos parados
que trazem naufragados
se entornarem novas luzes...
.
Ah! Quem souber,
há-de ver
que eu trago a lei
no meu corpo...

. (poemas)
.

Prelúdio

.

Pela estrada desce a noite
Mãe-Negra, desce com ela...
.
Nem buganvílias vermelhas,
nem vestidinhos de folhos,
nem brincadeiras de guizos,
nas suas mãos apertadas.
.
Só duas lágrimas grossas,
em duas faces cansadas.
.
Mãe-Negra tem voz de vento,
voz de silêncio batendo
nas folhas do cajueiro...
Tem voz de noite, descendo,
de mansinho, pela estrada...
.
Que é feito desses meninos
que gostava de embalar?...
Que é feito desses meninos
que ela ajudou a criar?...
Quem ouve agora as histórias
que costumava contar?...
.
Mãe-Negra não sabe nada...
Mas ai de quem sabe tudo,
como eu sei tudo
Mãe-Negra!...
.
É que os meninos cresceram,
e esqueceram
as histórias
que costumavas contar...
Muitos partiram pra longe,
quem sabe se hão-de voltar!...
.
Só tu ficaste esperando,
mãos cruzadas no regaço,
bem quieta bem calada.
.
É a tua a voz deste vento,
desta saudade descendo,
de mansinho pela estrada...

(poemas)

.

Ronda

.
Na dança dos dias
meus dedos bailaram...
Na dança dos dias
meus dedos contaram
contaram, bailando
cantigas sombrias...
.
Na dança dos dias
meus dedos cansaram...
.
Na dança dos meses
meus olhos choraram
Na dança dos meses
meus olhos secaram
secaram, chorando
por ti, quantas vezes!
.
Na dança dos meses
meus olhos cansaram...
.
Na dança do tempo,
quem não se cansou?!
.
Oh! dança dos dias
oh! dança dos meses
oh! dança do tempo
no tempo voando...
.
Dizei-me, dizei-me,
até quando? até quando?

(poemas)


.

Poemas que eu escrevi na areia

.

I
.
Meu bergantim, onde vens,
que te não posso avistar?
Bergantim! Meu bergantim!
Quero partir, rumo ao mar...
.
Tenho pressa! Tenho pressa!
Já vejo abutres voando
além, por cima de mim...
Tenho medo... Tenho medo
de não me chegar ao fim.
.
Meus braços estão torcidos.
Minha boca foi rasgada.
Mas os olhos, estão bem vivos,
e esperam, presos ao Céu...
.
Que haverá p'ra além da noite?
p'ra além da noite de breu?
.
Ah! Bergantim, como tardas...
Não vês meu corpo jazendo
na praia, do mar esquecido?...
Esse mar que eu quis viver,
e sacudir e beijar,
sem ondas mansas, cobrindo-o...
.
Quem dera viesses já...
que vai ficando bem tarde!
E eu não me quero acabar,
sem ver o que há para além
deste grande, imenso céu
e desta noite de breu...
.
Não quero morrer serena
em cada hora que passa
sem conseguir avistar-te...
Com meu olhar enxergando
apenas a noite escura,
e as aves negras, voando...
.
II
.
Meu bergantim foi-se ao mar...
Foi-se ao mar e não voltou,
que numa praia distante,
meu bergantim se afundou...
.
Meu bergantim foi-se ao mar!
levava beijos nas velas,
e nas arcas, ilusões,
que só a mim me ofereci...
.
Levava à popa, esculpido,
o perfil, leve e discreto,
daqueles que um dia perdi.
.
Levava mastros pintados,
bandeiras de todo o mundo,
e soldadinhos de chumbo
na coberta, perfilados.
.
Foi-se ao mar meu bergantim,
Foi-se ao mar... nunca voltou!

.........................

E por sete luas cheias
No areal se chorou...

(poemas)
.
in

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terça-feira, 19 de Fevereiro de 2008

Agostinho Neto - Poesia

Preso 2ª vez pela PIDE em 9 de Fevereiro de 1955,


Agostinho Neto

"Ó negro esfarrapado do Harlem / ó dançarino de Chicago / ó negro servidor do South / Ó negro de África / negros de todo o mundo / eu junto ao vosso canto / a minha pobre voz / os meus humildes ritmos."


Biografia

Poemas:

Biografia

Nasceu em Catete, Angola, em 1922, faleceu em 1979. Estudos primários e secundários em Angola, licenciado em Medicina pela Universidade de Lisboa. Em Portugal, sempre esteve ligado à actividade política, onde com Lúcio Lara e Orlando de Albuquerque fundou a revista Momento, em 1950. Como aconteceu a outros escritores africanos foi preso e desterrado para Cabo Verde, tendo mais tarde conseguido a fuga para o continente. Presidente do MPLA, foi o primeiro presidente de Angola.

Obra Poética:

Quatro Poemas de Agostinho Neto, 1957, Póvoa do Varzim, e.a.;

Poemas, 1961, Lisboa, Casa dos Estudantes do Império;

Sagrada Esperança, 1974, Lisboa, Sá da Costa (inclui os poemas dos dois primeiros livros);

A Renúncia Impossível, 1982, Luanda, INALD (edição póstuma).


Quitandeira

A quitanda.
Muito sol
e a quitandeira à sombra
da mulemba.

- Laranja, minha senhora,
laranjinha boa!

A luz brinca na cidade
o seu quente jogo
de claros e escuros
e a vida brinca
em corações aflitos
o jogo da cabra-cega.

A quitandeira
que vende fruta
vende-se.

- Minha senhora
laranja, laranjinha boa!

Compra laranja doces
compra-me também o amargo
desta tortura
da vida sem vida.

Compra-me a infância do espírito
este botão de rosa
que não abriu
princípio impelido ainda para um início.

Laranja, minha senhora!

Esgotaram-se os sorrisos
com que chorava
eu já não choro.

E aí vão as minhas esperanças
como foi o sangue dos meus filhos
amassado no pó das estradas
enterrado nas roças
e o meu suor
embebido nos fios de algodão
que me cobrem.

Como o esforço foi oferecido
à segurança das máquinas
à beleza das ruas asfaltadas
de prédios de vários andares
à comodidade de senhores ricos
à alegria dispersa por cidades
e eu
me fui confundindo
com os próprios problemas da existência.

Aí vão as laranjas
como eu me ofereci ao álcool
para me anestesiar
e me entreguei às religiões
para me insensibilizar
e me atordoei para viver.

Tudo tenho dado.

Até mesmo a minha dor
e a poesia dos meus seios nus
entreguei-as aos poetas.

Agora vendo-me eu própria.
- Compra laranjas
minha senhora!
Leva-me para as quitandas da Vida
o meu preço é único:
- sangue.

Talvez vendendo-me
eu me possua.

- Compra laranjas!

(Sagrada esperança)

Voz do sangue

Palpitam-me
os sons do batuque
e os ritmos melancólicos do blue

Ó negro esfarrapado do Harlem
ó dançarino de Chicago
ó negro servidor do South

Ó negro de África

negros de todo o mundo

eu junto ao vosso canto
a minha pobre voz
os meus humildes ritmos.

Eu vos acompanho
pelas emaranhadas áfricas
do nosso Rumo

Eu vos sinto
negros de todo o mundo
eu vivo a vossa Dor
meus irmãos.

(A renúncia impossível)

Mussunda amigo

Para aqui estou eu
Mussunda amigo
Para aqui estou eu

Contigo
Com a firme vitória da tua alegria
e da tua consciência

O ió kalunga ua mu bangele!
O ió kalunga ua mu bangele-lé-leleé...

Lembras-te?

Da tristeza daqueles tempos
em que íamos
comprar mangas
e lastimar o destino
das mulheres da Funda
dos nossos cantos de lamento
dos nossos desesperos
e das nuvens dos nossos olhos
Lembras-te?

Para aqui estou eu
Mussunda amigo

A vida a ti a devo
à mesma dedicação ao mesmo amor
com que me salvaste do abraço
da jibóia

à tua força
que transforma os destinos dos homens

A ti Mussunda amigo
a ti devo a vida

E escrevo versos que não entendes
compreendes a minha angústia?

Para aqui estou eu
Mussunda amigo
escrevendo versos que tu não entendes

Não era isto
o que nós queríamos, bem sei

Mas no espírito e na inteligência
nós somos!

Nós somos
Mussunda amigo
Nós somos

Inseparáveis
e caminhando ainda para o nosso sonho

No meu caminho
e no teu caminho
os corações batem ritmos
de noites fogueirentas
os pés dançam sobre palcos
de místicas tropicais
Os sons não se apagam dos ouvidos

O ió kalunga ua mu bangele...

Nós somos!

(Sagrada esperança)

Contratados

Longa fila de carregadores
domina a estrada
com os passos rápidos

Sobre o dorso
levam pesadas cargas

Vão
olhares longínquos
corações medrosos
braços fortes
sorrisos profundos como águas profundas

Largos meses os separam dos seus
e vão cheios de saudades
e de receio
mas cantam

Fatigados
esgotados de trabalhos
mas cantam

Cheios de injustiças
calados no imo das suas almas
e cantam

Com gritos de protesto
mergulhados nas lágrimas do coração
e cantam

Lá vão
perdem-se na distância
na distância se perdem os seus cantos tristes

Ah!
eles cantam...

(Sagrada esperança)

Aspiração

Ainda o meu canto dolente
e a minha tristeza
no Congo, na Geórgia, no Amazonas

Ainda
o meu sonho de batuque em noites de luar

ainda os meus braços
ainda os meus olhos
ainda os meus gritos

Ainda o dorso vergastado
o coração abandonado
a alma entregue à fé
ainda a dúvida

E sobre os meus cantos
os meus sonhos
os meus olhos
os meus gritos
sobre o meu mundo isolado
o tempo parado

Ainda o meu espírito
ainda o quissange
a marimba
a viola
o saxofone
ainda os meus ritmos de ritual orgíaco

Ainda a minha vida
oferecida à Vida
ainda o meu desejo

Ainda o meu sonho
o meu grito
o meu braço
a sustentar o meu Querer

E nas sanzalas
nas casas
no subúrbios das cidades
para lá das linhas
nos recantos escuros das casas ricas
onde os negros murmuram: ainda

O meu desejo
transformado em força
inspirando as consciências desesperadas.

(Sagrada esperança)

Poesia Africana

Lá no horizonte
o fogo
e as silhuetas escuras dos imbondeiros
de braços erguidos
No ar o cheiro verde das palmeiras queimadas

Poesia africana

Na estrada
a fila de carregadores bailundos
gemendo sob o peso da crueira
No quarto
a mulatinha dos olhos meigos
retocando o rosto com rouge e pó de arroz
A mulher debaixo dos panos fartos remexe as ancas
Na cama
o homem insone pensando
em comprar garfos e facas para comer à mesa

No céu o reflexo
do fogo
e as silhuetas dos negros batucando
de braços erguidos
No ar a melodia quente das marimbas

Poesia africana

E na estrada os carregadores
no quarto a mulatinha
na cama o homem insone

Os braseiros consumindo
consumindo
a terra quente dos horizontes em fogo.

(No reino de Caliban II - antologia
panorâmica de poesia africana de ex-
pressão portuguesa)

Fogo e ritmo

Sons de grilhetas nas estradas
cantos de pássaros
sob a verdura úmida das florestas
frescura na sinfonia adocicada
dos coqueirais
fogo
fogo no capim
fogo sobre o quente das chapas do Cayatte.
Caminhos largos
cheios de gente cheios de gente
em êxodo de toda a parte
caminhos largos para os horizontes fechados
mas caminhos
caminhos abertos por cima
da impossibilidade dos braços.
Fogueiras
dança
tamtam
ritmo

Ritmo na luz
ritmo na cor
ritmo no movimento
ritmo nas gretas sangrentas dos pés descalços
ritmo nas unhas descarnadas
Mas ritmo
ritmo.

Ó vozes dolorosas de África!


(Sagrada esperança)
Fire and rhythm
The sound of chains on the roads
the songs of birds
under the humid greenery of the forest
freshness in the smooth symphony
of the palm trees
fire
fire on the grass
fire on the heat of the Cayatte plains
Wide paths
full of people full of people
an exodus from everywhere
wide paths to closed horizons
but paths
paths open atop
the impossibility of arm
fire
dance
tum tum
rhythm

Rhythm in light
rhythm in color
rhythm in movement
rhythm in the bloody
cracks of bare feerhythm on torn nails
yet rhythm
rhythm

Oh painful African voices


(Sacred hope)

kinaxixi

Gostava de estar sentado
num banco do kinaxixi
às seis horas duma tarde muito quente
e ficar...
Alguém viria
talvez sentar-se
sentar-se ao meu lado
E veria as faces negras da gente
a subir a calçada
vagarosamente
exprimindo ausência no kimbundu mestiço
das conversas
Veria os passos fatigados
dos servos de pais também servos
buscando aqui amor ali glória
além uma embriagues em cada álcool
Nem felicidade nem ódio
Depois do sol posto
acenderiam as luzes
e eu
iria sem rumo
a pensar que a nossa vida é simples afinal
demasiado simples
para quem está cansado e precisa de marchar.

(Sagrada esperança)

Noite

Eu vivo
nos bairros escuros do mundo
sem luz nem vida.

Vou pelas ruas
às apalpadelas
encostado aos meus informes sonhos
tropeçando na escravidão
ao meu desejo de ser.

São bairros de escravos
mundos de miséria
bairros escuros.

Onde as vontades se diluíram
e os homens se confundiram
com as coisas.

Ando aos trambolhões
pelas ruas sem luz
desconhecidas
pejadas de mística e terror
de braço dado com fantasmas.

Também a noite é escura.

(Sagrada esperança)
Noche
yo vivo
en los barrios oscuros del mundo
sin luz ni vida.

voy por las calles
a tientas
apoyado en mis informes sueños
tropezando con la esclavitud
a mi deseo de ser.

barrios oscuros
mundos de miseria
donde las voluntades se diluyeron
con las cosas.

ando a los tropezones
por las calles sin luz
desconocidas
impregnadas de mística y terror
del brazo con fantasmas.

también la noche es oscura.


(Sagrada esperanza)

Consciencialização

Medo no ar!

Em cada esquina
sentinelas vigilantes incendeiam olhares
em cada casa
se substituem apressadamente os fechos velhos
das portas
e em cada consciência
fervilha o temor de se ouvir a si mesma

A historia está a ser contada
de novo

Medo no ar!

Acontece que eu
homem humilde
ainda mais humilde na pele negra
me regresso África
para mim
com os olhos secos.

(Sagrada esperança)

Civilização ocidental

Latas pregadas em paus
fixados na terra
fazem a casa

Os farrapos completam
a paisagem íntima

O sol atravessando as frestas
acorda o seu habitante

Depois as doze horas de trabalho
Escravo

Britar pedra
acarretar pedra
britar pedra
acarretar pedra
ao sol
à chuva
britar pedra
acarretar pedra

A velhice vem cedo

Uma esteira nas noites escuras
basta para ele morrer
grato
e de fome.

(Sagrada esperança)

Adeus à hora da largada

Minha Mãe
(todas as mães negras
cujos filhos partiram)
tu me ensinaste a esperar
como esperaste nas horas difíceis

Mas a vida
matou em mim essa mística esperança

Eu já não espero
sou aquele por quem se espera

Sou eu minha Mãe
a esperança somos nós
os teus filhos
partidos para uma fé que alimenta a vida

Hoje
somos as crianças nuas das sanzalas do mato
os garotos sem escola a jogar a bola de trapos
nos areais ao meio-dia
somos nós mesmos
os contratados a queimar vidas nos cafezais
os homens negros ignorantes
que devem respeitar o homem branco
e temer o rico
somos os teus filhos
dos bairros de pretos
além aonde não chega a luz elétrica
os homens bêbedos a cair
abandonados ao ritmo dum batuque de morte
teus filhos
com fome
com sede
com vergonha de te chamarmos Mãe
com medo de atravessar as ruas
com medo dos homens
nós mesmos

Amanhã
entoaremos hinos à liberdade
quando comemorarmos
a data da abolição desta escravatura

Nós vamos em busca de luz
os teus filhos Mãe
(todas as mães negras
cujos filhos partiram)
Vão em busca de vida.

(Sagrada esperança)

.

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.
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Resumo fotobiográfico de Agostinho Neto

Agostinho Neto - A poesia como arma de Combate

http://www.flagsonstamps.info/cuba4584.jpg


A poesia como arma de combate

Outra das vozes denunciadoras da violência colonial, e que de Lisboa ecoaria nas matas do Norte angolano, foi Agostinho Neto, poeta de rara capacidade discursiva, lúcido e sensível, autor de uma poesia alicerçada nas raízes mais fundas da terra angolana, desvendando angústias, silêncios, cantos sofridos da terra-mãe, com enorme despojamento estético, prodigiosa de ritmo discursivo; um canto linear para se tornar perceptível, um canto para as massas, para o despertar das consciências, transportando outras violências, outras latitudes onde o homem sofra os horrores da fome, da opressão, das injustiças: no Congo, na Geórgia, no Amazonas – uma escrita profundamente humana e solidária.
.
Como Neruda, Agostinho Neto sabe que a poesia é ainda e sempre uma arma a usar e a manejar antes de todos os combates, para que o combatente reserve para si essa bagagem, esse cadinho de alma nas atrocidades da luta: ou seja, que a revolta seja justa e ideologicamente consequente; as vontades só se mobilizam se apetrechadas, também, com os instrumentos da arte e da cultura. Toda a revolução é um acto cultural, sabemos isso desde a Comuna de Paris, passando por Lenine, até ao Sartre. Porque, sobretudo, é necessário que o verbo se transmude em acto, que a poesia se transforme em acção criadora e fecunda, redentora, anunciadora do novo: Criar criar/criar nos espírito criar no músculo criar no nervo/criar no homem criar na massa/criar/criar com os olhos secos, mesmo sobre os temores mais fundos, o mais duro e irracional arbítrio, é preciso Criar criar/sobre a profanação da floresta/sobre a fortaleza impudica do chicote/criar sobre o perfume dos troncos serrados, criar sem que a dor se espelhe, junto com a natureza e os homens, com os punhos acesos, com as lágrimas tolhidas, Criar/criar com os olhos secos, para que os opressores não rejubilem, não se julguem eternamente vencedores e isentos de expiação.

Uma luta dos povos

É essa aspiração do direito inalienável a uma pátria livre e justa, a uma luta que o poeta sabia não ser apenas do povo Angolano mas mais larga, juntando nessa frente os povos de África ainda sujeitos à exploração e jugo coloniais, que determina o poema Aspiração, no qual Agostinho Neto regressa às origens do seu espaço, às suas memórias da terra mãe, para nos dar a pungência do inevitável, o desejo de libertação que é, ao mesmo tempo, aspiração soberana de nessa pátria poder inscrever as raízes culturais e identitárias do seu Povo: «Ainda/o meu sonho de batuque em noites de luar//(…) Ainda o meu espírito/Ainda o quissange/a marimba/a viola/o saxofone/ainda os meus ritmos de ritual orgíaco//(…) Ainda o meu sonho/o meu grito/o meu abraço/a sustentar o meu Querer// E nas sanzalas/nas casas/nos subúrbios das cidades/para lá das "linhas"/nos recantos escuros das casas ricas/onde os negros murmuram: ainda// o meu Desejo/transformado em força/inspirando as consciências desesperadas».
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E em registo de revolta íntima, o poema «Sagrada Esperança», traça os contornos perenes de uma luta internacionalista que, no dizer de Oscar Lopes, «é a esperança que, hoje, faz realmente a história, a história de cada pátria que se quer livre (…): todas as mães negras/ cujos filhos partiram. (…) Eu já não espero/ sou aquele por quem se espera/ sou eu minha mãe/ a esperança somos nós.
.
De Agostinho Neto, enquanto poeta empenhado no estudo e incremento da nossa língua comum, escreveu Oscar Lopes: Agostinho Neto, que escreveu originalmente algumas poesias em quimbundo, é hoje um poeta apenas publicado em português, para que nenhum compatriota o sinta como especialmente ligado a uma só das etnias da sua pátria. A língua portuguesa funcionava, para Agostinho Neto e outros intelectuais revolucionários, como factor de coesão nacional. Ainda Oscar Lopes: Agostinho Neto, como Amílcar Cabral (…) participou na resistência portuguesa ao fascismo antes da sua luta directamente anticolonial. (…) Ouvi-o a ele fazer distinções características de uma plena maturidade política angolana que a tantos de nós, portugueses, nos falta. Neto distinguia entre os laços culturais luso-angolanos de objectiva raiz histórica – e a barbárie do colonial-fascismo português.
.
Amílcar Cabral, Agostinho Neto, Samora Machel, sabiam que a sua luta não se dirigia «ao Povo português», mas ao regime que a todos explorava e oprimia.

Bibliografia: Resistência Africana – antologia poética org. por Serafim Ferreira (Diabril-1975)
«Cifras do Tempo», de Oscar Lopes (ed. Caminho)
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segunda-feira, 18 de Fevereiro de 2008

A Colonização Belga no Congo-Léopoldville, Coração das Trevas e Apocalipse Now

O Fantasma do Rei Leopoldo. Uma história de voracidade, terror e heroísmo na África colonial
Adam Hochschild

O Fantasma do Rei Leopoldo. Uma história de voracidade, terror e heroísmo na África colonial


Edmund Morel é, em finais da década de 1890, funcionário de uma companhia de navegação britânica. Ao chegar do Congo, estranhou que os navios da sua companhia trouxessem valiosos carregamentos de borracha e marfim e em troca levassem apenas soldados, abastecimentos militares e armas. O Congo era então a mais recente colónia «adquirida» pelo rei Leopoldo II da Bélgica. Morel acabou por compreender, com horror, que a origem daqueles carregamentos só podia ser uma: trabalho escravo em larga escala. Deixa o emprego e torna-se o mais importante jornalista-investigador do seu tempo. Conseguiu, através da denúncia do regime escravista do Congo e dos milhões de vidas humanas sacrificadas, despertar consciências e unir o mundo numa mesma causa. Durante anos a fio foi capaz de manter esta questão nas primeiras páginas dos jornais e desmascarar o rei Leopoldo perante a opinião pública como um homem da maior voracidade, ardiloso, dúplice, sedutor, um vilão que rivalizaria com qualquer figura romanesca.
Um texto brilhante, este notável estudo que Hochschild intitulou O Fantasma do Rei Leopoldo.


Género(s): Não-ficção/ Estudos Africanos/ História
Acabamento: brochado
Dimensão: 14,5x21 cm
Páginas: 488
Peso: 592 g
Colecção: «Estudos Africanos», n.º 5
Código: 86.005
ISBN: 972-21-1457-3
1.ª edição: Fevereiro 2002
Preço: 24,90 €


Índice de conteúdos

Introdução

Prólogo: «Os negociantes estão a raptar a nossa gente»

Primeira parte: Ao encontro do fogo
1. «Não desistirei da busca»
2. A raposa atravessa o arroio
3. O bolo magnífico
4. «Os tratados têm de garantir-nos tudo»
5. Da Florida a Berlim
6. Sob a bandeira do Yacht Club
7. O primeiro herege
8. Onde os Dez Mandamentos não existem
9. Conhecer o Sr. Kurtz
10. A madeira que chora
11. Uma sociedade secreta de assassinos

Segunda parte: Um rei acossado
12. David e Golias
13. Penetrando na cozinha dos ladrões
14. Inundar de luz os seus feitos
15. Uma estimativa
16. «Os jornalistas não passam recibo»
17. Nenhum homem é estrangeiro
18. Vitória?
19. O grande esquecimento

Bibliografia
Fontes publicadas
Jornais e periódicos
Fontes inéditas e de arquivo

Agradecimentos
Fontes das fotografias

Índice analítico


O Globo
25/5/2002

O horror maravilhoso de Conrad ao dissecar as trevas do delirante Kurtz

Wilson Coutinho

Todo o grande romance de Balzac tem algum personagem com dívidas no banco. Os de Joseph Conrad, escritor britânico, nascido na Polônia, são diferentes: têm sempre uma dívida moral difícil de pagar. Em Lord Jim, de 1900, o herói sente-se culpado por não ter salvado de um naufrágio um grupo de peregrinos malaios. No final, luta por gente como aquela, que julgou ter deixado morrer. Balzac adorava sofrimentos vindos de promissórias. Conrad ama, ao contrário, aquelas que são cobradas na alma. Em Coração das Trevas, novela publicada em 1902, o romancista inventou um fabuloso personagem, Kurtz, que perde o que tinha de melhor de si nas selvas do Congo Belga.

Um clássico da narrativa, uma conversa a bordo

É um clássico da narrativa, uma conversa fiada a bordo de um iate de passeio, ancorada no Tâmisa, conduzida por Marlow, um oficial da marinha mercante, aposentado de uma companhia que explorava marfim na África.

É Marlow, em seu velho e enferrujado vapor, que vai resgatar, no coração da selva, o delirante Kurtz, que subjugou, como um deus, os nativos da região, onde era representante comercial da firma exploradora de presas de elefantes. “O horror! O horror!” — são essas as palavras tornadas clássicas, que Kurtz grita, ao som de um suspiro, moribundo, em sua aldeia, rodeada de estacas com crânios de africanos assassinados.

A expressão terrível motivou um dos maiores poemas do século XX, “Terra devastada”, de T.S.Eliot, e a novela inspirou o filme "Apocalipse now", de Francis Ford Coppola, que localizou a ação destrutiva na guerra do Vietnã. Há outro filme, do espanhol Manuel Aragon, ambientado na Guerra Civil Espanhola.

Conrad é muito cinematográfico. Antes de filmar “Cidadão Kane”, Orson Welles queria fazer “Coração das trevas”. Chegou a posar com a maquete do barco em que Marlow viaja pelo rio Congo em busca de Kurtz. Recentemente, Martin Scorsese batalha para levar ao cinema Nostromo, outra obra-prima do romancista. Há muita visualidade em suas histórias. O clarão de um inglês vestido com um terno de flanela branca, parado num cais, pode detonar sua narrativa. Na novela “Tufão”, a turbulência parece entrar pelos olhos como uma pintura de tempestade de Turner. Sua prosa, porém, é quase uma arte de tricô, trabalhada com árdua construção, talvez porque Conrad seja um dos raros escritores que se tornaram mestres no inglês, apesar desta não ser sua língua natal.

As aventuras escritas pelo romancista se baseiam muito na experiência de 16 anos, nos quais trabalhou na marinha mercante. Aparentemente, seus personagens podem parecer excêntricos demais. O mundo vitoriano, contudo, lançou em cada pedaço do planeta gente ambiciosa, anarquistas com bombas, charlatões na América do Sul, malandros e cafajestes de todos os tipos. Kurtz é um modelo da época: padece de ambição e idealismo. Tem uma noiva em Londres. Quer glória e dinheiro a todo custo. É um intelectual, além de pintor, que a selva e a brutalidade da exploração humana tornaram um demente cruel. É possível que a era vitoriana tenha recheado o mundo com uma fórmula inquietante: Shakespeare e pistolas.

Ao ler o manuscrito de Kurtz sobre a supressão dos costumes selvagens, Marlow nota no rodapé, escrito de forma trêmula, a frase: “Exterminem todos os brutos”. Nunca o desejo de dominação foi tão enfático. Marlow entende, porém, como Kurtz se arruinou. Quando vai visitar a sua noiva, levando os pertences deixados pelo morto, não pode falar do que foi a verdadeira vida do enlouquecido aventureiro. Quer deixar numa alcova vitoriana a possibilidade do triunfo do amor, mesmo sendo ele uma mentira.

Embora um fascinante personagem de ficção, Kurtz foi alvo de outra busca: quem foi ele, já que, talvez, não tenha saído todo inteiro da cabeça de Conrad? Na função de oficial, em 1890, pilotando o barco “Roi des belges”, o futuro escritor subiu o rio Congo. A bordo, havia um francês chamado Klein — o primeiro nome do personagem, transformado depois em Kurtz. Em 1997, a revista “New Yorker” publicou um artigo, “Mr.Kurtz, I presume”, assinado pelo jornalista e historiador Adam Hochschild, autor de uma ótima biografia sobre Leopoldo II, proprietário privado do Congo, governando com mão de ferro e o administrando sem o menor escrúpulo. A pesquisa de Hochschild foi a de saber em quem o escritor inspirou-se para criar o personagem. Talvez foi uma mistura de vários aventureiros que o romancista encontrou em suas andanças na África. O mais provável pode ter sido o belga, Léon Rom, um sanguinário oficial da Força Pública, colecionador de 21 crânios, que, como Kurtz, caçava borboletas e era artista, tendo pintado retratos e paisagens. Rom também escreveu um arrogante livro, “Le négre du Congo”, vociferando contra a raça negra.

Brutalidade anuncia a Alemanha nazista

É claro que a narrativa de Conrad, que conduz o leitor ao mais fundo do abismo humano, é obra do seu gênio. Mas a mistura de intelectualidade e brutalidade, foi quase um anúncio do que aconteceria na Alemanha nazista. Lá, tiraram Shakespeare da estante. Abafaram, porém, o desesperado grito dos judeus, ao som de Mozart. “Coração das trevas”, uma das maiores novelas sobre o imperialismo branco na África, não tem a menor complacência por qualquer cultura que se arvora superiora. O Mal é, simplesmente, isto: radical. Triste é que o Bem seja tão excessivamente moderado.

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Editora Nova Alexandria Ltda.

Apocalypse Now

Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.

Apocalypse Now é um filme estadunidense de 1979, do gênero drama de guerra, realizado por Francis Ford Coppola, baseado no livro Joseph Conrad.
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Sinopse

Em plena Guerra do Vietnã, um alto comando do exército estadunidense designa o capitão Willard para matar o coronel Kurtz no interior da selva do Camboja.

Subindo o rio num barco de patrulha, e escoltado por quatro soldados, Willard passa por vários cenários enquanto examina os documentos a respeito do coronel. Ao chegar ao seu destino, percebe que os nativos adoram Kurtz como a um deus, e terá de decidir se cumpre ou não a sua missão.

Referência bibliográfica

O filme é baseado na obra Heart of Darkness, de Joseph Conrad. Nesse livro, o alter-ego de Conrad, Marlow, curioso das terras inexploradas ou quase-inexploradas da África, resolve empregar-se numa companhia belga de extração de marfim. Uma vez no Congo, decepciona-se com o tratamento desumano dispensado aos nativos pelos colonizadores, e com o estado de abandono da colônia. É designado, então, para acompanhar o grupo que partirá em busca de Kurtz, um homem cheio de ideais humanitários, dotado de excepcionais qualidades intelectuais e artísticas, que há meses não manda notícias de si (nem do marfim). Tanto no filme quanto no livro, Kurtz parece ser o retrato da falência do humanitarismo sob interesses ambiciosos e egoístas.


Ligações externas

Paparazzi discriminam: homens são homens, mulheres são caça


Por que os dramas de mulheres como Britney Spears são mais explorados na mídia que os barracos de homens como Mel Gibson? É o que tenta responder Alex Williams, repórter do The New York Times, em matéria publicada neste domingo (17). Leia abaixo a íntegra do texto.



Um vídeo que mostra o ator Heath Ledger numa festa embalada por drogas, dois anos antes de sua morte, normalmente seria um material obrigatório para um programa de TV em estilo tablóide. Mas quando o vídeo chegou às mãos dos produtores do Entertainment Tonight, o programa se recusou a exibi-lo, disse uma assessora de imprensa, "em respeito à família de Heath Ledger". O ator de 28 anos morreu em 22 de janeiro vítima do que os médicos chamaram de uma overdose acidental de remédios.

Amy Winehouse não mereceu a mesma discrição. Imagens de um vídeo que mostrava a cantora fumando o que o tablóide inglês The Sun descreveu como "um cachimbo de crack", e também usando cocaína e admitindo ter tomado "uns seis" Valium, foram vastamente disseminadas na mídia na mesma época.

Quando Owen Wilson foi hospitalizado em agosto depois de uma aparente tentativa de suicídio, seu caso foi o principal assunto de capa da US Weekly. Mas não fez tanto alarde quanto Britney Spears, recentemente confinada em um hospital psiquiátrico, que já inspirou seis histórias de capa da revista durante o mesmo período.

Quando Kiefer Sutherland foi solto da prisão em Glendale, Califórnia, depois de cumprir uma sentença de 48 dias por dirigir bêbado, o evento mereceu um pouco mais do que algumas notas escondidas na imprensa.

Em contraste, está a história de Paris Hilton, que voltou à prisão no ano passado, depois de ter sido solta por alguns dias, para cumprir o resto de sua sentença de 45 dias depois de violar a condicional por dirigir bêbada. O evento atraiu tanta atenção que lembrou o julgamento de O.J.Simpson. Hordas de câmeras circularam a limosine que levou a herdeira chorosa à cadeia.

Sim, as mulheres são quase que os únicos alvos de escrutínio das notícias de fofoca -basta perguntar a Mel Gibson. Meses de incidentes paralelos como esse parecem demonstrar os padrões díspares da cobertura jornalística. Os homens com problemas pessoais são tratados com gravidade e distanciamento, enquanto mulheres nas mesmas condições são objeto de ridículo, piadas e humor negro.

Algumas celebridades e seus assessores estão dizendo às claras que a mídia de notícias tem dois pesos e duas medidas. "Sem dúvida, as mulheres recebem um tratamento mais agressivo, menos sensível, mais ultrajante", disse Ken Sunshine, relações-públicas cujos clientes incluem Ben Affleck e Barbra Streisand. "Represento alguns homens bem bonitos, e sempre reclamo sobre a forma com que eles são tratatos e cobertos pela mídia. Mas é muito mais difícil para as mulheres que eu represento."

Liz Rosenberg, relações públicas da Warner Bros./Reprise Records, que representa Madonna entre outros, também acha que há sexismo. "Você por acaso vê a mídia seguindo Owen Wilson de manhã, de tarde e de noite?", questiona.

Alguns editores confirmaram tratar as celebridades femininas diferentemente. Mas a razão, dizem, não está enraizada no sexismo, mas nos números demográficos de sua audiência. Os leitores da US Weekly, por exemplo, são 70% mulheres; da People, mais de 90%, de acordo com os editores das revistas.

"Quase nenhuma revista feminina coloca um homem sozinho na capa", diz Janice Min, editora-chefe da US Weekly. "Você simplesmente não faz isso. É a morte da capa. As mulheres não querem ler sobre homens a menos que eles estejam associados a uma mulher: um casamento, um bebê, o término de um relacionamento."

Assim, a cobertura da morte de Ledger deu vez a histórias sobre Michelle Williams, a ex-namorada do ator e mãe de sua filha; a US Weekly, por exemplo, saíu com os títulos "A dor de uma mãe" e "Meu coração está partido" no topo de uma matéria de quatro páginas. Mary-Kate Olsen, que recebeu vários telefonemas da pessoa que descobriu o corpo de Ledger, também virou assunto: "O que Mary-Kate sabe" foi anunciado pela Touch Weekly.

De fato, enquanto uma das edições mais bem vendidas da People no ano passado foi a história de capa com a tentativa de suicídio de Wilson, uma capa seguinte falando sobre sua recuperação foi uma das que menos vendeu, disse Larry Hackett, editor administrativo.

Por outro lado, diz ele, a história de Spears continua a render exatamente por que as mulheres são fascinadas pelos desafios que uma jovem mãe enfrenta. "Se Britney não fosse mãe, essa história não conseguiria um décimo da atenção que recebe", diz Hackett. "O fato de que a custódia de seus filhos está em jogo é o motor dessa narrativa. Se ela fosse uma mãe solteira, fazendo sucesso e dirigindo seu carro seguida por paparazzi, não seria a mesma coisa."

Outros, como Roger Friedman, repórter de entretenimento da FoxNews.com, dizem que celebridades femininas tendem a render histórias que chamam mais a atenção porque as mulheres "são mais emotivas e mais abertas" em relação a seus problemas. Os homens, disse ele, tendem a ser "circunspectos".

Rebecca Roy, uma psicoterapeuta de Beverly Hills, Califórnia, que tem vários clientes na indústria de entretenimento, diz que os homens conseguem com freqüência se esquivar dos problemas com a indiferença elegante típica dos "bad-boy". Por outro lado, segundo ela, o duplo tratamento da imprensa pode reforçar o comportamento destrutivo das celebridades femininas, empurrando-as ainda mais fundo no abuso de drogas e comportamento instável.

Roy diz que celebridas masculinas problemáticas como Robert Downey Jr. são encorajadas a superar seus problemas e seguirem adiante para um segundo ato em suas carreiras, enquanto as batalhas pessoais de mulheres como Lindsay Lohan ou da já falecida Anna Nicole Smith são freqüentemente exploradas ao máximo do ponto de vista do entretenimento.

"Com os homens, existe uma ênfase na atitude 'ele teve o problema, mas está superando'", disse Roy. "Mas com as mulheres, a atitude é 'elas continuam mal, continuam mal'. É quase como arrancar as asas de uma mosca."

Min reconhece que sua revista não foi dura em relação à cobertura de Wilson e Ledger. Em parte, diz ela, porque as leitoras tendem a ser simpáticas em relação aos homens em crise. "Com Heath Ledger, as pessoas estavam andando sobre ovos para tentar encontrar o tom adequado", disse Min, acrescentando que "o sentimento do público em relação a Heath Ledger contou muito em nossa cobertura".

Edna Herrmann, uma psicóloga clínica de Los Angeles, diz que, apesar de o sadismo ser o preço do trabalho dos famosos, as mulheres, especialmente, respondem às celebridades femininas como verdadeiros demônios. "O sofrimento gosta de companhia", disse Herrmann.

Mas alguns acreditam que o poder de um agente de relações públicas tem mais influência na cobertura da imprensa do que o gênero da celebridade. Entertainment Tonight desistiu de seus planos de mostrar o vídeo de Ledger depois de receber protestos de estrelas como Natalie Portman e Josh Brolin, organizdos pela agência ID, que representava Ledger e ainda representa Williams (a namorada do ator).

Em alguns casos, as celebridades podem se tornar vítimas de seu própria apetite pela atenção da mídia. "Na minha opinião, ninguém que peça por privacidade, que espere ter sua privacidade respeitada desde o começo, tem essa privacidade negada", disse Stan Rosenfield, relações-públicas que representa George Clooney.

E Harvey Levin, editor administrativo do web site de fofocas TMZ.com, diz que oferece todas as oportunidades para que as celebridades femininas passem por cima dos seus erros, desde que melhorem seu comportamento. "Nicole Richie, que já esteve em baixa por viver criando confusão, deu uma virada, e agora todos estão torcendo por ela", disse Levin sobre a antiga amiga de Hilton e figurinha de tablóide, hoje mãe de uma menina de um mês.

Mesmo que a cobertura noticiosa da mídia esteja a seu favor, as celebridades masculinas não se sentem exatamente imunes à bisbilhotagem agressiva. "Com certeza há argumentos para mostrar que a mídia é incrivelmente sexista, a atenção dada às mulheres e toda a caça às celebridadas femininas", disse o ator Colin Farrel em uma festa recente para o lançamento de seu novo filme, In Bruges.

Farrell, que também já teve sua dose de perseguição por parte da imprensa, disse que essa tendência sexista não faz com que ele deixe de ser alvo de notícias. "Se eles me pegam por aí", diz ele, "não têm dúvida do que fazer". Farrell não bebericou nem uma cerveja enquanto falava numa sala cheia de jornalistas e fotógrafos.


in VERMELHO - 17 DE FEVEREIRO DE 2008 - 12h36
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imagem retirada de
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Fascismo e Guerra Colonial


guerra_colonial3










fascismo Portugues

Homenagem ao meu Irmão ROSA COUTINHO

de: Carlos Alberto Coutinho

( Ver Foto [de Carlos Rego] em www.portugalnoticias.com)




Em fevereiro/1961: inicia-se a insurreição do povo de Angola, sob a direção do MPLA.
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Em dezembro/1961: " O maior facínora Portugues de Sempre"- Salazar, é derrotado em GOA, DAMÃO e DIU. Onde bastou um simples "grito" das tropas Indianas, para os prepostos Salazaristas covardes e amendrontados se retirarem apressadamente desses territórios , com o "rabinho entre as pernas"..

Em janeiro/1963: O PAIGC inicia a luta armada na Guiné.
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Em setembro/1964: A FRELIMO inicia a luta armada em Moçambique.
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Pretendendo retardar o irreversível movimento de libertação nacional em África.
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A besta-fera fascista lança Portugal nas criminosas guerras coloniais.
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Durante 13 anos, jovens Portugueses ficam com a vida interrompida por longos anos de guerra colonial. Mais de 10.000 jovens perdem a vida. Outros 30.000 ficam mutilados ou feridos. A dor e o luto enchem os lares portugueses. Este delirio de "grandeza" fascista arruina ainda mais Portugal.
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O Governo do facínora fascista não tinha condições de manter dominação sobre vastos territórios e prosseguir em sua criminosa guerra colonial, se não fosse o apoio das grandes potências da OTAN(NATO). Países esses a qual o governo fascista Portugues era completamente dependente e servil.
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O demônio de Sta Comba-Salazar, paga o apoio dos países aos quais está subordinado, com novos e cada vez maiores concessões ao capital estrangeiro.
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As guerras coloniais desencadeiam uma grande onde de lutas no País. O RI de Évora, BC5, RE2, RI17, RI nos Açores, EPE, os soldados protestam e lutam contra o embarque para Àfrica. Há manifestações e lutas no cais de embarque. É uma nova frente de luta contra a ditadura fascista que se abre: a luta nas forças armadas. Que mais tarde irá derrubar a podre e corrupta ditadura Salazarista.
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O inicio da luta armada nas colônias marcam a derrocada do regime criminoso fascista. As contradições internas agudizam-se, na ânsia da procura de uma saída para o descalabro. A situação econômica degrada-se dia a dia. "Aguentar, aguentar" é a palavra de ordem proferida pelo senil e criminoso Salazar, que intensifica a repressão dentro do país. Milhares são presos e alguns assassinados, outros exilados, a diáspora é desencadeada por opressão política,econômica e social. Mas o regime fascista abalado e podre jamais conseguirá recompor-se.
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O amanhecer do dia 25 de abril de 1974, foi glorioso e lindo. A malta de criminosos e ladrões fascistas que levaram o terror, o exílio, a falta de esperança e a morte ao grande povo Português, estavam presos ou em fuga. O regime fascista aquela altura era como um cadáver putrefato e insepulto e foi enterrado neste dia em cova profunda, para abafar o fedor pestilento e insuportável do fascismo Portugues.
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Hoje em dia, certos Portugueses, tentam desenterrar este cadáver pestilento do facínora Salazar. Mas não vão conseguir. Sua alma arde no inferno e lá como aqui, não passa de um diabo de quinta categoria que jamais conseguirá reencarnar novamente.
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VIVA O 25 DE ABRIL, DIA DA LIBERDADE!!!
PARA QUE OS PORTUGUESES E PORTUGUESAS NÃO TENHAM MEMÓRIA CURTA E AS VELHAS E NOVAS GERAÇÕES SE RECONHEÇAM NESTE GRANDE DIA DE LIBERDADE!!!
25 DE ABRIL SEMPRE!!!
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São Paulo, 16 de fevereiro de 2008.
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in PortugalNotícias - PortugalClub
sáb 16-02-2008 19:13
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que por iniciativa do seu Presidente acrescenta à assinatura do autor e
e remete para a foto do autot do artigo.
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Carlos Alberto Coutinho
(Irmão do grande Herói Comunista Rosa Coutinho ) -


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LISBÔA -PORTUGAL

almirante António Alva

PIMENTÃO VERMELHUSCO Rosa Coutinho

Prezado Sr. Casemiro

Apesar de considerar uma provocação este título "Homenagem ao meu irmão Rosa Coutinho", de modo algum me sinto ofendido. Pelo contrario, acho uma honra para mim ser confundido (no seu caso intencionalmente) com este grande Português.Embora jamais o tenha visto pessoalmente e muito menos ter parentesco de qualquer grau. O que acho uma infelicidade para mim, pois realmente, o Alm.Rosa Coutinho é uma das pessoas que gostaria de ter conhecido.

A famosa carta que o Sr. publica ao lado deste meu texto, não passa de uma grosseira e sórdida falsificação perpetrada pelos facínoras fascistas Portugueses e os monstros Sul-Africanos - os racistas do Aparthaid. Que para o registro financiavam a UNITA.

Quanto ao meu nome acho que o Sr. deve retificar. Pois na minha mensagem orginal ele estava de forma completa - Carlos Alberto Coutinho Rego - . Rego é o nome herdado de meu pai , que faço questão que apareça em minha mensagem.

Cordialmente. Carlos Alberto Coutinho Rego

Ps- pode continuar dizendo que sou irmão do Rosa Coutinho.

Do P.club

Eu sei... Conheço a clientela. Casimiro

dom 17-02-2008 15:35

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Senhor Coutinho, creio que não se trata do mesmo Coutinho que eu conheci. Serà? Esse foi um criminoso. Leu por acaso a carta que enviou ao comparsa Agostinho Neto? Foi esse um Português?. Senhor Coutinho, tenha paciência mas meta-se num canto bem escondidinho e nem saia à rua. Não pagamos os erros dos outros, mas também não devemos gloriar os assassinos
Serafin Fernandes

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Do P.Club: essa carta se encontra nos arquivos do Portugalclub, e estamos de novo postando em anexo a esta mensagem em www.portugalclub.org

dom 17-02-2008 15:35

Carlos Alberto C outinho, presumivel irmão do "almirante vermelho Rosa Coutinho...

Como identificação, para apresentação, não está nada mal! Ter a coragem de vir aqui e agora proclamar-se como "par consanguíneo" de alguém a quem a História sempre reconhecerá como criminoso, atendendo à forma despudorada como se comportou na decolonização, tornando-se indigno do nome de Português, é atitude temerária... mas o Povo Português jamais se irá rever nas palavras acintosas que tão insignificante escriba aqui postou!

"Homenagem. ao meu irmão Rosa Coutinho"! Haver alguém que necessite de um bastardo qualquer para lhe prestar homenagem é terrível de engolir. Bem... esta do "bastardo" não sei bem a quem possa atribuír, pois na biografia do nefando Rosa Coutinho consta ser ele filho único, logo... sem irmãos! Ou foi o pai dele a fazer uma perninha e nasceu o Carlinhos... ou foi a mãe dele a fazer outra perninha... e eis um irmão para o António Alva Rosa Coutinho, que consta ser filho de uma senhora Angolana que se perdeu de amores pelo celebrado Almirante Carlos Viegas Gago Coutinho...

Mas isso não é agora o importante. Apenas terá importância saber-se que o Almirante PIMENTÃO VERMELHUSCO, o tal que se borrou pelas pernas abaixo quando a UPA/FNLA o prendeu, e ele, em lágrimas , pedia que não lhe fizessem mal pois apenas cumpria o seu dever... porque o tinham mandado!

Seja como seja, é certo e sabido que há quem, ostentando nome de alguém famoso, se faça passar por familiar desse alguém, para adquirir notoriedade... como eu, por exemplo, que poderia dizer ser sobrinho do Profeta Elias, de quem até tenho o nome. É capaz de nunca ter ouvido falar neste nome... mas que posso esperar de um comuna notório, como parece ser o caso?

Este propalado irmão, a fazer fé no arrazoado de asneiras, muito próprios de uma determinada facção política, talvez o seja, apenas e tão só, no ideal que professam, pois o senhor Carlos Alberto que também é Coutinho, tornou-se família chegada do inefável almirante porque ambos pertencem ao Partido Comunista. Estranho é que se tenha refugiado no Brasil, como o fez o - para si sinistro - Marcelo Caetano e algumas outras figuras Portuguesas de destaque no País antes desse 25 de má memória, que o senhor glorifica como se fosse esta a data da emancipação de Portugal e não a Conferência de Zamora... ou a Revolução de 1640... segundo nos narra a História Pátria. Porque o amanhecer do 25 de Abril pode ter sido tudo aquilo que os comunas quizerem, mas recordem-se da tremenda tempestade que, a partir do dia 26. desabou sobre Portugal, fazendo que este ficásse amputado de uma parte de si mesmo... com a preciosa conivência do seu querido mano Toninho Alva.

Sabe que lhe fica mal mentir despudoradamente, como faz ao referir revoltas nos quartéis, que só a sua fértil imaginação conseguiu detectar? Será que o assalto do seu partido ao Quartel de Beja entra nas suas contas? Será que a destruição de aviões e helicópteros na antiga Base Aérea nº. 3, em Tancos, perpetrada pelo braço armado do PCP, também têm a vêr com essa sua afirmação? Que se saiba... apenas e tão só houve uma precipitação dos comunas do Regimento de Infantaria 15, nas Caldas da Rainha, quando sairam sobre Lisboa, pois enganaram-se nas ordens recebidas... que eram para a manhã do tal 25... de Abril!

Tudo o resto que possa dizer não passa de uma de duas coisas: - ou é um comunista ressabiado por qualquer coisa que não lhe está a saír ao jeito... e então toca a enxovalhar o nome de um Homem que, mesmo morto há tanto tempo, continua a causar-lhe apoplexia, azia e pesadelos... e isso é mau, ou não passará de mais um que apenas diz o que não sabe, convencido de que é aquilo que sente, porque não compreende que apenas está a fazer o papel de mais um neste reino de loucos que se chama "DÔR DE COTOVELO".

Ganhe juízo, que já deve ter idade para tal, e não se arme em Sassá Mutemba dos oprimidos e pobres, porque estes, em Portugal correspondem aos do seu partido, porque são oprimidos pela cassete e pobres de espírito como não há memória.

Já agora... porque escolheu o Brasil e não Angola como paraíso onde expôr as suas lucubrações nojentas? Teve medo que o Agostinho Neto ou o Eduardo dos Santos não gostassem de si? Se até é irmão do almirante António Alva PIMENTÃO VERMELHUSCO Rosa Coutinho! É só uma curiosidade!

Victor Elias


Do Portugalclub:

Nunca será de mais, nos certificarmos mais uma vez do documento assinado por Rosa Coutinho , autorisando o MPLA a Torturar até matar os Portugueses em Angola. Em especial a que fosse mais cruel com Velhos , mulheres e crianças...

Veja o documento em anexo a esta mensagem em www.portugalclub.org Casimiro

dom 17-02-2008 15:35.


NOTA de VN - Como facilmente se vê nem o título original colocado não é do autor - Carlos Rego - nem o título que encabeça o esclarecimento do senhor Carlos Rego, mas são o mote dado pelo Presidente do PortugalClub para mais uma série de comentários dos admiradores de Salazar e do colonialismo exemplar. E, gato escondido com rabo de fora, é significativo da superioridade e civilidade da colonização portuguesa e de alguns portugueses brancos aquilo que o senhor Elias deixa «escapar» com intenções evidentes: «Ou foi o pai dele a fazer uma perninha e nasceu o Carlinhos... ou foi a mãe dele a fazer outra perninha... e eis um irmão para o António Alva Rosa Coutinho, que consta ser filho de uma senhora Angolana que se perdeu de amores pelo celebrado Almirante Carlos Viegas Gago Coutinho...»

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A imagem, ilustrativa do respeito pela Convenção de Genebra pelas Forças Armadas Portuguesas, foi retirada daqui, onde se encontra inserida num texto elucidativo dos verdadeiros beneficiários da «humana» colonização, portuguesa ou não.

A guerra colonial criar PDF versão para impressão enviar por e-mail
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José Jorge Sequeira Martins - Autor do livro sobre a guerra colonial «Autópsia de uma operação»
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E no PortugalClub continua a tocar sá uma banda:
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Escroque, Crápula, Charlatão

Caro Senhor Casimiro
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É deveras chocante o ponto a que chegou este sitio em que se expõem figuras abjectas como esse interveniente CARLOS ALBERTO COUTINHO REGO que passa por irmão de um dos maiores BANDIDOSde que há memória na nossa recente história. Um escroque, crápula, charlatão e todos os adjectivos análogos que possam existir são poucos, em qualquer País civilizado já tinha sido julgado por alta traição à Pátria e como criminoso de guerra maior que qualquer MILOSEVIC.

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A carta que escreveu a Agostinho Neto e que tem circulado por toda a parte reflete bem o carácter de tal BANDIDO.

Henrique Videira
seg 18-02-2008 12:25
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NOTA de VN

O título e o realce à prosa da reacção de Henrique Videira é naturalmente da responsabilidade do Editor e Presidente do PortugalClub. embora a expressão figure no texto daquele.
A sequência nas datas de distribuição das «news» do PortugalClub, que se reproduzem, é elucidativa.

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CAMARADA ROSA COUTINHO

Ao Sr.Casemiro e ao PortugalClub , espero que dessa vez publiquem com o título correto. E quanto ao Alm Rosa Coutinho, ao invés de utilizar "Irmão" passe a utilizar o termo "camarada" para me relacionar com esta figura do 25 de abril. Palavra mais adequada ao caso , Pois é maís fácil a compreensão para esses Parvos de baixo ou nenhum nível de entendimento.

VIVA O 25 DE ABRIL!!

PARA QUE OS PORTUGUESES E PORTUGUESAS NÃO TENHAM MEMÓRIA CURTA!!

QUE AS NOVAS E ANTIGAS GERAÇÕES SE RECONHEÇAM NESSE DIA DE LIBERDADE!!

25 DE ABRIL SEMPRE!!

CARLOS ALBERTO COUTINHO REGO - São Paulo

Do Portugalclub:

Sempre os Titulos ficam a critério do Moderador, desde que retirados do con-Testo da mensagem. Também matérias , frases ou palavras serão apagadas , quando ofensivas ou fora do padrão de alto nivel adotado no Portugalclub.

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seg 18-02-2008 19:40

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energúmeno Rosa Toucinho

CAMARADA ROSA COUTINHO

Parvo será o infeliz do seu progenitor que a tal prole deu vida! Não acredito que, se for vivo, ele não ande com um cartucho enfiado da cabeça aos pés para o proteger dos olhares dos compatriotas que os seus rebentos tanto ofenderam. E só não lhes chamo traidores por isso eles não foram! Estiveram (e estarão sempre), sempre, ao lado da ex-URSS, sua verdadeira pátria.

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Será que o energúmeno Rosa Toucinho ainda ostenta aquele imbecil sorriso de escárneo idiota que aparecia perante as câmaras da RTP? Se calhar, ainda, pois quem não tem vergonha todo o mundo é seu! Vá morrer longe para não nos incomodar com o cheiro, caro senhor.

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ter 19-02-2008 0:33

José Pires