domingo, 1 de fevereiro de 2026

António Gil - Apocalipse ontem, hoje e amanh




* António Gil

(Eis algo que desde sempre ‘vende’)

Nas fitas de Hollywood o mundo já acabou muitas vezes e de várias formas: holocausto nuclear, um meteoro, insectos gigantes, invasões de aliens etc, etc. Desde a adolescência, vi dezenas de vezes as grandes metrópoles devastadas por ‘’grandes fenómenos’‘.

Os chamados filmes catástrofe tiveram sempre vasto público e provocava-me dúvidas o fascínio das pessoas - dos países mais ricos, os outros andavam ‘’entretidos’‘ na busca de algo por meter na panela- pelos cataclismos.

Na altura não me ocorria que a perspectiva apocalíptica tinha fundas raízes na matriz judaico-cristã (mais na cristã que na judaica, reconheça-se), apenas me perguntava por que razão a malta gostava tanto de ver cidades sendo inundadas, consumidas pelo fogo, ou destruídas por armas poderosas - humanas ou aliens, há armas para todos os gostos.

Mas talvez essa fantasia seja mais velha que qualquer religião em vigor. Suspeito, por vezes, era este mundo era ainda jovem e haveria quem desejasse o seu fim - por exemplo, num dia em que tudo lhe tivesse corrido mal.

Seja como for, os produtores e realizadores da dita Meca do cinema não eram parvos e iam dando seguimento ao catastrofismo. Havia sempre margem para algo mais assustador que o filme-catástrofe anterior: os gafanhotos (praga bíblica) gigantes só mexiam com os nervos de algumas pessoas? ah mas um meteoro gigante e descontrolado, vindo sabe-se-lá-donde é coisa mais verosímil e esse não pode ser liquidado (um medo mais ‘’científico’‘, por assim dizer).

O terreno para plantar estes pavores sempre existiu, portanto. A semente - - a nossa fragilidade, somos mortais e sabemos disso - também sempre andou por aí.

Se alguém for perverso o suficiente para tratar da ‘’plantação’‘, é quase certo que terá sua colheita (vejam as seitas religiosas, quase todas apocalípticas e o quanto elas ‘’rendem’‘ a seus fundadores/sacerdotes).

A gestão dos medos colectivos pode tornar algumas pessoas muito poderosas mas produzirá porém sempre frutos podres: seitas inteiras assassinaram seus filhos cometendo suicídio colectivo logo depois. O fim do mundo não veio mas podem ter a certeza que alguém, algures, lucrou com a crendice suicida.

Portanto, quanto a catástrofe prometida é grande, o pobre deve desconfiar. E se a difusão dessa promessa apocalíptica é enorme em escala e eficácia, maior deverá ser a desconfiança a adoptar. Ou já nos esquecemos quem domina os grandes meios de comunicação de massas?

A ‘Meca do Cinema’ mas também o país que ela representa já experimentaram o tantos anos andou nesse subconsciente onde o masoquismo encontra -creio mesmo nisto - solo fértil numa cultura violenta, genocida e portanto subrepticiamente vergada sob sentimentos de culpa e da necessária expiação do pecado. com os incêndios que assolaram Los Angeles. é provável que o local não recupere, dado o trauma.

Los Angeles não foi escolhida por acaso pela indústria cinematográfica. Foi algo racional: clima aprazível, possibilidades infinitas de filmar no exterior sem grandes cenários artificiais: o mar ali tão perto (diz quem lá esteve, tão mediterrânico, águas quentes, poucas ondas). Deserto também tão perto (ideal para filmes de cow-boys ou westerns) . Montanhas e vales ( bom até para filmar coisas ‘noutros planetas’.

O fogo dos infernos soltou-se sobre tantos lugares, alguns até paradisiacos como Malibu Beach. Mansões de bilionários consumidas, a paisagem invoca Hiroshima, com o pormenor (pormaior eu acho) de os edifícios terem sido nivelados até ao solo enquanto algumas árvores orgulhosas se mantêm de pé, mal chamuscadas. O que se passou ali exactamente ainda é difícil de adivinhar e suscita inúmeras ‘teorias da conspiração’

Hollywood provavelmente irá deslocalizar-se. É uma indústria como as outras certo? Silicon Valey também já não é o que era, a migração para outros Estados já começou. Talvez faça outsourcing da sua produção e produzir seus filmes na Ásia? em Bollywood, India, por exemplo?

Nesse caso teríamos talvez apocalipses mais exóticos mas eles não desapareciam. Ou não fossem Xivah e Cali deuses indianos

https://antoniojfgil.substack.com/p/apocalypse-yesterday-today-and-tomorrow? 

Sobre um banimento — e sobre a miséria política que ele expõe

canal #moritz

2026 02 01

Sobre um banimento — e sobre a miséria política que ele expõe   

Banimos recentemente uma pessoa chamada Isabel Coelho, da Marinha Grande.

Convém dizê-lo desde já: não foi por divergência ideológica abstrata, nem por capricho, nem por intolerância.

Foi por comportamento político concreto.

A Isabel Coelho apresenta-se, no seu próprio perfil, como socialista convicta, com o mural recheado de publicações do PS e de apoio a António José Seguro. Está no seu direito. Ninguém foi, nem é, banido por apoiar o PS.

O problema começou quando essa pessoa decidiu intervir num post que nós publicámos, onde se republicava o testemunho de um jovem da Marinha Grande. Um testemunho simples, direto e politicamente legítimo:

que o PCP teve uma boa atitude, que ajudou pessoas, que esteve presente no terreno, e que, apesar disso, é sistematicamente isolado e silenciado pela comunicação social, ao contrário do que acontece com figuras como André Ventura, omnipresente nos ecrãs.

Não havia ataques ao PS.

Não havia insultos.

Não havia provocação.

Havia uma constatação política óbvia — e incômoda para alguns.

A resposta da Isabel Coelho não foi debate.

Não foi discordância.

Não foi argumentação.

Foi isto, em substância:

“Aqui vocês não têm que falar. Vão fazer política para o outro lado. Aqui quem manda somos nós.”

Isto não é opinião.

Isto é autoritarismo político, embrulhado em militância partidária.

Foi por isso que houve banimento.

E foi um banimento legítimo.

Porque isto não é um caso isolado

Quem quiser reduzir isto a “uma socialista exaltada” está a mentir — ou a proteger o problema.

Este comportamento não nasce do nada.

É expressão de uma cultura política profundamente enraizada no PS: a ideia de que a esquerda à esquerda do PS existe apenas para servir, calar e alinhar.

O PS quer o voto da esquerda.

Quer o voto comunista.

Quer o voto “útil”.

Mas não tolera autonomia política, nem crítica, nem memória histórica que não controle.

Quando alguém lembra que o PCP esteve no terreno, ajudou populações concretas e fez trabalho real, a reação não é debate: é mandar calar.

Aqui convém dizer as coisas pelo nome.

Ajoelham e rezam sempre que precisam apanhar os votos dos comunistas.

Sempre. Não é ocasional, não é acidente. É rotina.

Rezaram com Costa.

Ajoelham e rezam agora com Seguro.

E vão ajoelhar e rezar sempre que chegarem os pedidos de voto útil.

O ritual é claro:

Primeiro, arrebanhar os votos da esquerda, de preferência ajoelhados.

Depois, insultar, mandar calar e desprezar quem ousou pensar por si.

Repetir infinitamente, como se a política fosse apenas uma devoção ritual à própria sobrevivência eleitoral.

Querem o voto comunista de joelhos,

mas nunca suportam comunistas de pé.

A hipocrisia socialista

É obsceno ver quem:

manda comunistas “fazer política para outro lado”

diz “aqui quem manda somos nós”

deslegitima o PCP e o seu trabalho

ser a mesma gente que, em período eleitoral, aparece com ar piedoso a pedir unidade, contenção e sacrifício.

Querem o voto, não querem a voz.

Querem o número, não querem o sujeito político.

E ainda se indignam quando alguém ousa não baixar a cabeça.

O voto em Seguro não é confiança — é contenção de danos

Convém ser claro, porque o PS gosta de confundir tudo.

Quem pondera votar em António José Seguro não o faz por acreditar no PS, nem porque ache que o PS mudou de natureza.

Fá-lo, quando muito, por voto defensivo,

contra André Ventura,

não a favor do PS.

Isso não cria qualquer dívida moral.

Não cria silêncio.

Não cria submissão.

E muito menos dá ao PS o direito de insultar, humilhar ou mandar calar quem sempre esteve na linha da frente contra a direita e a extrema-direita.

O PS errou, erra e continuará a errar

Não é um problema de comunicação.

Não é um deslize local.

É linha política.

O PS:

gere o capitalismo

aceita a lógica do mercado

normaliza desigualdades

governa para os mesmos interesses

e depois finge surpresa com o crescimento da extrema-direita

O PS não é o dique contra a direita.

É, demasiadas vezes, o terreno onde ela cresce.

Banir não foi censura — foi higiene política

Espaços de esquerda não são obrigados a tolerar:

intimidação

arrogância

lógica de dono do território

nem o “aqui mando eu” travestido de militância

Quem entra para mandar calar não entra para dialogar.

Banir esse comportamento foi um ato de autodefesa política.

Conclusão

Este episódio não diz nada de essencial sobre uma Isabel Coelho.

Diz tudo sobre o PS.

Um partido que exige votos à esquerda enquanto despreza a esquerda.

Que pede unidade enquanto insulta.

Que fala de democracia enquanto tenta silenciar quem luta.

A esquerda não existe para servir o PS.

O PCP não existe para legitimar carreiras socialistas.

E a democracia não pertence a quem acha que manda nela.

Quem fala assim não tem projeto democrático.

Tem apenas instinto de poder.

E isso, sim, é o verdadeiro problema. 

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