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quinta-feira, 23 de abril de 2026

Manuel Pires da Rocha - Cantar a liberdade


Manuel Pires da Rocha

Per­ma­nece o apelo po­de­roso da “terra da fra­ter­ni­dade”



Rei­vin­di­camos a ale­gria.
Rei­vin­di­camos as can­ções de li­ber­dade.
Rei­vin­di­camos a mú­sica or­de­na­dora do uni­verso.
Rei­vin­di­camos as mãos dadas dos amantes.
Rei­vin­di­camos o sabor des­co­berto de todas as coisas.
Rei­vin­di­camos as pontes tran­quilas.
Rei­vin­di­camos a in­venção das ci­dades ha­bi­tá­veis.
Rei­vin­di­camos a pa­lavra, o poema, o livro.
Rei­vin­di­camos a festa.
Rei­vin­di­camos esta arma.
(Mário Cas­trim)

Quando Adriano Cor­reia de Oli­veira, José Afonso, Ma­nuel Freire, Carlos Pa­redes e Fer­nando Alvim, José Ba­rata-Moura, Carlos Moniz e Maria do Am­paro, Ary dos Santos, entre ou­tros, su­biram ao palco do Co­liseu, na noite de 29 de Março de 1974, já as can­ções que ali le­varam ti­nham ecoado pelas co­lec­ti­vi­dades de cul­tura e re­creio, nos en­con­tros da opo­sição de­mo­crá­tica, nas reu­niões an­ti­fas­cistas que eram acam­pa­mento, pi­que­nique e ho­me­nagem.

Na­quela noite de quase-Abril, cinco mil an­ti­fas­cistas e uma dúzia de pides, uns can­tando e aplau­dindo, os ou­tros to­mando notas, as­sis­tiam à ante-es­treia de Grân­dola, Vila Mo­rena nos ca­mi­nhos da His­tória, no mesmo ta­buado em que Ary dos Santos de­cla­mava “aqui nin­guém me põe a pata em cima / porque é de baixo que me vem acima / a força do lugar que for o meu”.

Vozes mais an­tigas se­riam, porém, ini­ci­a­doras deste canto que quis ser arma li­ber­ta­dora. No Ou­tono de 1945, Fer­nando Lopes-Graça juntou na casa de al­deia de João José Co­chofel, perto de Coimbra, os também po­etas Carlos de Oli­veira e José Gomes Fer­reira, dando início à es­crita de um pro­jecto ins­pi­rado nos can­ci­o­neiros re­vo­lu­ci­o­ná­rios his­tó­ricos da Re­vo­lução Fran­cesa e da Re­vo­lução de Ou­tubro. Mar­chas, Danças e Can­ções seria o pri­meiro can­ci­o­neiro po­lí­tico da luta an­ti­fas­cista por­tu­guesa, a que se­gui­riam oito ca­dernos mais, que Lopes-Graça in­ti­tu­laria Can­ções He­róicas, Dra­má­ticas, Bu­có­licas e Ou­tras.

As He­róicas se­riam ini­ci­al­mente di­vul­gadas pelo Coro do Grupo Dra­má­tico Lis­bo­nense, cons­ti­tuído no seio do Mo­vi­mento de Uni­dade De­mo­crá­tica (MUD). Em 1946, após uma apre­sen­tação pú­blica na Bi­bli­o­teca da In­crível Al­ma­dense, a cen­sura proibiu o re­per­tório. Tarde de­mais, porém – as He­róicas vi­viam já nas vozes de grupos for­mais e in­for­mais, juntas e afi­nadas na luta contra o fas­cismo. Tanto, que não ha­verá me­mória de lugar cons­pi­ra­tivo, das salas do as­so­ci­a­ti­vismo po­pular às celas das pri­sões, onde não tenha ha­vido um cantar de “vozes ao alto, unidos como os dedos da mão”.

O sé­culo XX das lutas an­ti­co­lo­niais, an­ti­fas­cistas e anti-im­pe­ri­a­listas viria a ser o mo­mento da ex­pansão geral da mú­sica de com­bate pela li­ber­dade e pela cons­trução do so­ci­a­lismo. Em Woody Guthrie, Luigi Nono, Vi­o­leta Parra, Mikis The­o­do­rakis, Hanns Eisler, Victor Jara, Sil­vestre Re­vu­eltas, Chos­ta­ko­vitch e Carlos Pa­redes, entre tantos ou­tros, a mú­sica as­sumiu opção de classe à es­cala uni­versal, in­de­pen­den­te­mente da na­tu­reza dos palcos e do vo­ca­bu­lário pró­prio de cada gé­nero mu­sical.

Em Por­tugal, o sé­culo pas­sado é também o lugar da des­co­berta da mú­sica po­pular das co­mu­ni­dades ru­rais, con­du­tora de si­nais ci­vi­li­za­ci­o­nais que também são os da cons­ci­ência so­cial (“Ó minha mãe dos tra­ba­lhos / Para quem tra­balho eu / Tra­balho mato o meu corpo / Não tenho nada meu”). Por isso é que, em Lopes-Graça, a Jor­nada é com­pa­nheira da Canção da Vin­dima, em José Afonso o Cantar Alen­te­jano (em ho­me­nagem a Ca­ta­rina Eu­fémia) di­vide in­ten­ções com Milho Verde e, no canto de Adriano Cor­reia de Oli­veira, Tejo Que Levas As Águas om­breia com ‘Inda Eu Era Pe­que­nino.

Che­gados aqui, cons­tata-se que o cantar que (também) abriu ca­minho à Li­ber­dade que em cada Abril se ce­lebra, não perdeu ac­tu­a­li­dade. Nestes dias de ameaça à paz, ao pão, à ha­bi­tação, à saúde e à edu­cação, de­mo­cratas de todas as idades en­toam o velho re­frão de Li­ber­dade – pa­lavra de ordem in­tem­poral da exi­gência de um tempo de jus­tiça. E cantam Os Vam­piros de­nun­ci­ando o saque, o Acordai cha­mando para a luta, o Hino de Ca­xias cer­rando fi­leiras. E aco­lhem cantos emer­gentes, que são mornas e di­zeres de hip hop, so­mando-se ao cantar his­tó­rico nas lutas dos mo­vi­mentos Vida Justa e Casa Para Viver, nas ac­ções do mo­vi­mento sin­dical, nas ini­ci­a­tivas pela paz, nas ac­ções de so­li­da­ri­e­dade com a Pa­les­tina e com Cuba.

Juntam-se, no rumor do nosso tempo, tim­bres e so­ta­ques di­versos, mas o es­tri­bilho geral per­ma­nece o apelo po­de­roso da “terra da fra­ter­ni­dade" q”e, can­tando “junta a tua à nossa voz”, marca en­contro com o fu­turo.

https://www.avante.pt/pt/2734/argumentos/183422/Cantar-a-liberdade.htm

~~~~~~ooo0ooo~~~~~~

Soneto presente, de Ary dos Santos

Não me digam mais nada senão morro
aqui neste lugar dentro de mim
a terra de onde venho é onde moro
o lugar de que sou é estar aqui.
Não me digam mais nada senão falo
e eu não posso falar eu estou de pé.
De pé como um poeta ou um cavalo
de pé como quem deve estar quem é.
Aqui ninguém me diz quando me vendo
a não ser os que eu amo os que eu entendo
os que podem ser tanto como eu.

sábado, 30 de outubro de 2010

Cancões heróicas musicadas por Fernando Lopes Graça

Fernando Lopes Graça em Évora

Sábado, Abril 28, 2007


FERNANDO LOPES-GRAÇA

músico/compositor, 1906-1994
, Colocado por Victor Nogueira @ Sábado, Abril 28, 2007
.
Fotografia de Victor Nogueira

shortcut: [Album549931]
Canções Heróicas / Canções Regionais Portuguesas  - album cover

Fernando Lopes Graça
 (1906-1994)
Canções Heróicas
 
Acordai
.
Acordai,
Homens que dormis
A embalar a dor
dos silêncios vis!
Vinde, no clamor
Das almas viris,
Arrancar a flor
Que dorme na raiz!

Acordai,
Raios e tufões
Que dormis no ar
E nas multidões!
Vinde incendiar
De astros e canções
As pedras e o mar,
O mundo e os corações!

Acordai!
Acendei,
De almas e de sóis
Este mar sem cais,
Nem luz de faróis!

E acordai, depois
Das lutas finais,
Os nossos heróis
Que dormem nos covais
Acordai!
 

Jornada
.
Não fiques para trás, ó companheiro,
É de aço esta fúria que nos leva.
Pra não te perderes no nevoeiro,
Segue os nossos corações na treva.

Vozes ao alto!
Vozes ao alto!
Unidos como os dedos da mão
Havemos de chegar ao fim da estrada,
Ao som desta canção.

Aqueles que se percam no caminho,
Que importa! Chegarão no nosso brado.
Porque nenhum de nós anda sozinho,
E até mortos vão ao nosso lado.

Vozes ao alto!
Vozes al alto!
etc.
 

Mãe Pobre
.
Terra Pátria serás nossa,
Mais este sol que te cobre,
Serás nossa,
Mãe pobre de gente pobre.

O vento da nossa fúria
Queime as searas roubadas;
E na noite dos ladrões
Haja frio, morte e espadas.

Terra Pátria serás nossa
Mais os vinhedos e os milhos,
Serás nossa,
Mãe que não esquece os filhos.

Com morte, espadas e frio,
Se a vida te não remir,
Faremos da nossa carne
As seraras do porvir.

Terra Pátria serás nossa,
Livre e descoberta enfim,
Serás nossa,
Ou este sangue o teu fim.

E se a loucura da sorte
assim nos quizer perder,
Abre os teus braços de morte
E deixa-nos aquecer.
 

Convite
.
Vinde ver a Primavera,
Vós que sois da minha terra.
Na raiz de cada chão
Nasce um canto contra a guerra.

Vinde ver o sol fecundo
E abraçar a ventania.
Nas vozes de cada fome
Há gritos de rebeldia
Vinde, vinde!
 

Firmeza
.
Sem frases de desânimo,
Nem complicações de alma,
Que o teu corpo agora fale,
Presente e seguro do que vale.

Pedra em que a vida se alicerça,
Argamassa e nervo,
Pega-lhe como um senhor
E nunca como um servo.

Não seja o travor das lágrimas
Capaz de embargar-te a voz;
Que a boca a sorrir não mate
Nos lábios o brado de combate.

Olha que a vida nos acena
Para além da luta.
Canta os sonhos com que esperas,
Que o espelho da vida nos escuta.
 

Cantemos o Novo Dia
.
Olhai que vamos passar,
Nosso canto é de verdade;
Vinde connosco lutar,
Nós somos a liberdade.

A terra está toda em flor
O céu é todo alegria.
A nossa voz é de amor,
- Cantemos o Novo Dia!

Ó jovem que és cavador,
Semeia, hás-de colher.
A papoila é nossa flor,
O trigo é nosso querer.

Toda a palavra é de amor,
A hora é nossa, confia,
Nosso olhar tem mais fulgor
- Cantemos o Novo Dia!

Há seiva forte a brotar,
Novas folhas a nascer,
A Primavera a chegar,
Os homens querem viver.

A juventude é mais moça
Quando o amor principia
Pois se a vida é toda nossa
- Cantemos o Novo Dia!
 

Combate
.
Nada poderá deter-nos
Nada poderá vencer-nos.
Vimos do cabo do mundo
Com este passo seguro
De quem sabe aonde vai.

Nada poderá deter-nos,
Nada poderá vencer-nos!

Guerras perdidas e ganhas
Marcaram o nosso corpo,
Mas nunca em nós foi vencida
Esta certeza sabida
De saber aonde vamos.

Nada poderá deter-nos,
Etc.

Os mortos não os deixamos
Para trás, abandonados,
Fizemos deles bandeiras,
Guias e mestres, soldados
Do combate que travamos.

Nada poderá deter-nos,
Etc.

Nada poderá deter-nos,
Pró assalto das muralhas
Nossos corpos são escadas,
Para as batalhas da rua
Nossos peitos barricadas.

Nada poderá deter-nos,
Etc.

Nada poderá vencer-nos,
Vimos do cabo do mundo
Vimos do fundo da vida:
Que somos o próprio mundo
E somos a própria vida.

Nada poderá deter-nos,
Etc.
 

Ronda
.
Amor, já se aproxima a hora
De darmos as mãos e dançar.
A ronda que começa agora,
Eia agora!
É para nela se bailar.

Mas precisamos ir primeiro
por uma madrugada fria,
Fazer dos anseios bandeira,
Na dor temperar a alegria.

Amor, já se aproxima a hora
De darmos as mãos e dançar.
Na ronda que começa agora,
Eia agora!
Havemos todos de entrar.

Se a vida vã que nos uniu
À morte assim nos entregasse,
Seria uma noite mais noite
Que a esta noite nos poupasse.

Amor, já se aproxima a hora
De darmos as mãos e dançar.
A ronda que começa agora,
Eia agora!
Não mais voltará a parar.

E o novo dia se levanta
Vadiando da rua ao telhado.
- Amor, estende a tua manta,
Vamos dormir sobre o passado.
 

Livre
.
Não há machado que corte
A raiz ao pensamento:

Não há morte para o vento,
Não há morte.

Se ao morrer o coração
Morresse a luz que lhe é querida,

Sem razão seria a vida,
Sem razão.

Nada apaga a luz que vive
Num amor, num pensamento,

Porque é livre como o vento
Porque é livre.
 

Canto de Esperança
.
Dentro de mim e de ti
Algo de novo estremece,
A vida abre-se e ri
Na hora que se entretece.
Vultos parados e sós,
Mudez da alma sozinha,
Tomai o corpo e a voz
Da vida que se adivinha.

Canta mais alto, avança e canta,
Lança-te à marcha, não te afastes.
Mistura a tua voz à voz que se levanta
Das chaminés e dos guindastes.

Rasgam-se os céus e a terra,
A esperança cai e refaz-se.
É o grito duma outra guerra:
Canto do homem que nasce.

Tomam forma consistente
As ilusões encobertas.
Caminha, caminha em frente
Para as novas descobertas.

Canta mais alto, avança e canta,
Etc.

Molda em teus dedos leais
Um destino à tua imagem.
Ao ódio dos vendavais
Ergue uma viva barragem.

Da alma do tempo imundo
Arranca a felicidade.
Homens humanos do mundo!
Homens de boa vontade!

Canta mais alto, avança e canta,
Etc.
 

Canto de Paz
.
Homens deixai abrir a alma ao que vier,
Deixai entrar a paz do tempo que ela quer.

De par em par aberta com sol até ao fundo,
Gastai a alma toda na harmonia do mundo.

Homens deixai abrir a alma ao que vier,
Etc.

Homens que vagueais pela berma da vida,
Tereis enfim sinais da glória prometida.

Homens deixai abrir a alma ao que vier,
Etc.

Na voz do Dia Novo a dar bom dia aos astros,
Quando a tristeza for só pó dos vossos rastros,

Homens deixai abrir a alma ao que vier,
Etc.
 

Canto Livre
.
Gema embora a terra inteira
Acurvada a iníquas leis;
Esta fonte sobranceira
Jamais de rojo a vereis.

Hó! Ninguém, ninguém a esmaga
Que eu sou livre como a vaga,
Que sacode sobre a plaga
O jugo de altos baixéis.

Liberdade é o mote escrito
No céu, na terra e no mar!
Di-lo a fera no seu grito
Di-lo a fera no seu grito
E as aves cruzando o ar,
Di-lo o vento da procela,
A vaga que se encapela
E nos espaços a estrela
E nos espaços a estrela
Em seu contínuo girar.

Eu sou livre; eis minha crença,
Nem força contra ela vale.
Que um tirano enfim me vença;
Triunfarei por seu mal.

Triunfarei, que algemado
E diante dele arrastado,
Sou livre! Será meu brado
Até ao momento final
Liberdade é o mote escrito
Etc.
 

Clamor
.
Ao sol os olhos vendados,
Braços na luta cingidos;
E ainda que algemados
- Algemados
Mas nunca vencidos!

Sabemos do sofrimento
O que no sofrimento há;
Se a dor é desalento
- Desalento
Outra fé nos dá!

Uma esperança em cada vida,
Que ao calor do ódio arde;
Luta até mesmo abatida
- Abatida
Mas nunca cobarde!

Carne que se não corrige,
Chicote com sangue a lava;
Se só na morte transige
- Transige
Mas nunca é escrava!
 

Ó Pastor que choras.
.
Ó pastor que choras;
O teu rebanho onde está?
Ó pastor que choras;
O teu rebanho onde está?
Deita as mágoas fora!
Carneiros é o que mais há!
Deita as mágoas fora!
Carneiros é o que mais há!

Uns de finos modos
Outros vis por desprazer:
Uns de finos modos
Outros vis por desprazer:
Mas carneiros todos
Com carne de obedecer!
Mas carneiros todos
Com carne de obedecer!

Quem te pôs na orelha
Essas cerejas pastor?
Quem te pôs na orelha
Essas cerejas pastor?
São de cor vermelha!
Vai pintá-las de outra cor...
São de cor vermelha!
Vai pintá-las de outra cor...

Vai pintar os frutos,
As amoras, os rosais:
Vai pintar os frutos,
As amoras, os rosais:
Vai pintar de luto
As papoilas dos trigais!
Vai pintar de luto
As papoilas dos trigais!
 

Canções de Catarina
.
Na fome verde das searas roxas
Passeava sorrindo Catarina
Passeava sorrindo Catarina

Ah!

Na fome verde das searas roxas
Ai a papoila,
Ai a papoila cresce na campina!
Ai a papoila cresce na campina!

Ah!

Na fome roxa das searas negras
Que levas, Catarina, em tua fonte?
Que levas, Catarina, em tua fonte?

Na fome roxa das searas negras
Ai devoraram,
Ai devoraram corvos o horizonte!
Ai devoraram corvos o horizonte!

Ah!

Na fome negra das searas rubras
Ai da papoila, ai de Catarina!
Ai da papoila, ai de Catarina!

Ah!

Na fome negra das searas rubras trinta balas,
Trinta balas gritaram na campina

Trinta balas
Trinta balas
Te mataram a fome

Catarina
 

As Papoilas
.
O papoilas dos trigais,
Em ondas de cor...
Em ondas de cor...
Sangrentas como os punhais
Do nosso suor...
Do nosso suor...

Dá vontade de arrancá-las,
Pô-las nas lapelas...
Pô-las nas lapelas...
E, depois,
E, depois, dependurá-las
Na luz das estrelas
Na luz das estrelas.

O papoilas como chagas
Em ondas de flor...
Em ondas de flor...
No sangue das vossas vagas
Anda a nossa dor
Anda a nossa dor.

Outras papoilas um dia,
Pela terra fora
Pela terra fora
Darão ao mundo a alegria
Duma nova aurora
Duma nova aurora.
 

Canção do Camponês
.
Adeus trigo, ai, adeus trigo,
Depois de ceifado, adeus:
Amanho-te e não mastigo,
Ai, nem eu, nem eu nem os meus.

O escravo da campina
Ouve o motor do tractor
Com ele mudas a sina -
Da terra és conquistador!.

Searas cor de sol posto,
Meu mar alto de aflição
Enche-o com suor do rosto,
Ai, em troca falta-me o pão.

O escravo da campina
Etc.

Ai campos, como os meus olhos.

Ai campos, como os meus olhos,
Rasos de água tanta vez:
Foram-se espigas nos molhos,
Ai, vem fome para o camponês.

O escravo da campina,
Etc.
 

Quando a Alegria for de todos
.
Quando a Alegria for de todos
Como bem que não tem dono
Como bem que não tem dono;
Quando a alegria for de todos
E tão naturalmente
E tão naturalmente
Como o ar que respiramos
Quando a alegria for de todos -
Que bom será viver
E Respirar a plenos pulmões
O ar saudável da alegria!
Como será bom e belo e fecundo
O riso da Vida
O riso da Vida
Nas bocas floridas,
Nas bocas floridas de palavras de Amor!
Ah!

Quando a alegria for de todos
Quando a alegria for de todos
todos, todos!.
 

Não te deites, Coração
.
Não te deites, coração,
À sombra dos teus amores.
Não durmas, olha para eles,
Com alegrias e dores.

Não tenhas medo. O calor,
Que vem das serras ao mar,
Erguendo incêndios não queima
Erguendo incêndios não queima
O que não é de queimar.

Agradece ao vento frio
Que traz chuva miudinha
É neve que se aproxima,
Tormenta que se avizinha...
Nos incêndios naturais
Queima o ramo das saudades
E faz a tua canção
E faz a tua canção
Do surgir das tempestades!
 

Hino do Homem
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Homem, se homem queres ser
E não uma sombra triste,
Olha para tudo o que existe
Com olhos de bem ver.

Nada,
Nada receies saber.
Ao que não amas, resiste.

Mesmo vencido, persiste
E acabarás,
E acabarás por vencer.

Quere,
Quere e poderás poder.
Vai por onde decidiste.

A liberdade consiste
No que a razão
No que a razão
No que a razão te impuser.

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http://tv1.rtp.pt/canais-radio/antena2/arquivo_cancoes/fernando-lopes-graca-1.html
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Fernando Lopes-Graça (1906-1995)
Fernando Lopes-Graça foi um dos mais notáveis compositores e musicólogos contemporâneos. Nasceu a 17 de Dezembro de 1906, em Tomar. Estudou em Coimbra, no Conservatório Nacional. As «Variações Sobre um Tema Popular Português para Piano» são a sua primeira obra, datada de 1929.
Biografia de Fernando Lopes Graça: http://www.citi.pt/cultura/temas/frameset_graca.html






Portuguese Folk Music
Vol. IV – Alentejo  
«Esta antologia é o fruto das primeiras pesquisas que Giacometti realizou em Portugal. Contou com a preciosa colaboração de Fernando Lopes Graça, na selecção de trechos musicais e na análise dos mesmos»:
http://montra.alentejodigital.pt/cd.htm
Fernando Lopes-Graça dedicou toda uma vida à recolha de temas tradicionais. Juntamente com Michel Giacometti, fez uma recolha sobre os ritmos e cantares do povo português que é considerada como uma das mais importantes para os estudos etnográficos.  


Ouvir Cantares Tradicionais dirigidos por Fernando Lopes Graça:

Para ouvir poemas tradicionais cantados aceda a: http://www.utad.pt/~cmisto/repertoriobai.html
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Sobre as Canções Heróicas
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As Canções Heróicas/ /Canções Regionais Portuguesas foram compostas musicalmente por Fernando Lopes-Graça e cantadas pelo Coro da Academia de Amadores de Música com Olga Prats ao piano.
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São canções politicamente empenhadas que contribuíram para exaltar a liberdade e dar força a todos aqueles que lutavam contra o antigo regime. A primeira versão foi publicada, em 1946, sob o título de «Marchas, Danças e Canções – próprias para grupos vocais ou instrumentos populares». Foi apreendida pela Censura o que impediu que os poemas fossem ouvidos e cantados em espectáculos ou sessões públicas, como até então. Contudo, muitos resistentes continuaram a cantar as canções nos encontros clandestinos ou nos países onde se encontravam exilados. Em 1960, surge uma  colecção, mais alargada, com o nome de «Canções Heróicas, Dramáticas, Bucólicas e Outras». A nova edição destinava-se a celebrar o 50º aniversário da implantação da República e foi divulgada com grandes precauções, num meio muito restrito de pessoas. Finalmente, a versão final ficou conhecida por «Canções Heróicas».
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http://cvc.instituto-camoes.pt/poemasemana/05/02.html
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Lopes Graça

Juntamente com os poetas José Gomes Ferreira, João José Cochofel, Carlos de Oliveira, entre outros, compõe as Canções Heróicas, cantadas em defesa da paz e ...
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    Canciones de Canções Heróicas / Canções Regionais Portuguesas

  1. CANÇÕES HERÓICAS: Acordai (02' 08'')
  2. Jornada (01' 13'')
  3. Mãe Pobre (01' 52'')
  4. Convite (01' 06'')
  5. Firmeza (01' 26'')
  6. Cantemos o Novo Dia (01' 28'')
  7. Combate (02' 00'')
  8. Ronda (01' 52'')
  9. Livre (01' 32'')
  10. Canto da Esperança (02' 19'')
  11. Canto de paz (02' 46'')
  12. Canto Livre (03' 02'')
  13. Clamor (01' 33'')
  14. Ó Pastor que Choras (01' 22'')
  15. Canção de Catarina (01' 47'')
  16. As Papoilas (01' 14'')
  17. Canção do Camponês (02' 38'')
  18. Quando a Alegria for de Todos (01' 09'')
  19. Não te Deites Coração (01' 19'')
  20. Hino do Homem (01' 37'')
  21. CANÇÕES REGIONAIS PORTUGUESAS: Nossa Senhora das Preces (01' 54'')
  22. Lá em Sta. Iria (01' 31'')
  23. Nem contigo nem sem ti (02' 06'')
  24. S. João Adormeceu (03' 26'')
  25. Andorinha Gloriosa (01' 35'')
  26. Quatro Laços da Dança dos Paulitos (02' 15'')
  27. Fui-te ver, 'stavas lavando (02' 23'')
  28. Anda Duermente Niño (01' 02'')
  29. Oração de Sto. António (02' 18'')
  30. Ai de Mim Tanta Laranja (01' 51'')
  31. Moradoras Desta Casa (01' 12'')
  32. Deus Te Guarde, Pastorinha (03' 16'')
  33. Vai Colher a Rosa (02' 10'')
  34. Milho Verde, Milho Verde (01' 50'')
  35. Senhora do Livramento (01' 45'')
  36. Sete varas tem (02' 44'')
  37. Tascadeiras do Meu Linho (01' 45'')
  38. Ó Senhora do Amparo (02' 19'')
  39. Passarinha Trigueira (02' 02'')
  40. À Moda da Rita (03' 04'')
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sábado, 6 de fevereiro de 2010

Noel: reconhecimento que independe da academia e da crítica

 

Cultura

Vermelho - 3 de Fevereiro de 2010 - 12h46

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Noel de Medeiros Rosa veio ao mundo no dia 11 de dezembro de 1910, no Rio de Janeiro, mais precisamente no bairro de Vila Isabel. Filho de Manuel Garcia de Medeiros Rosa e Martha de Medeiros Rosa, casal da classe média carioca, teve um parto difícil, onde o uso do fórceps pelos médicos provocou-lhe um afundamento da mandíbula e uma pequena paralisia na face, características físicas que o assombrariam vida afora.

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Cursou o ensino médio no tradicional Colégio São Bento – onde os colegas, maldosamente, o chamavam de Queixinho – e entrou para a Faculdade de Medicina da UFRJ, em 1931, embora não tenha concluído o curso.
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Casou-se em 1934 com Lindaura, com quem teve um filho que viveu poucos meses. Nos anos seguintes, travou uma batalha contante contra a tuberculose que, por fim, o venceu em 1937, quando tinha apenas 26 anos.
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Entre uma coisa e outra, e deixando o “de Medeiros” de lado, Noel Rosa também foi um dos maiores e mais importantes compositores da música popular brasileira, sendo autor de clássicos como “Com que roupa?”, “Fita amarela”, “Palpite infeliz”, "Três apitos” etc.
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E no ano do centenário de seu nascimento, o escritor Luiz Ricardo Leitão, professor adjunto da UERJ e doutor em Estudos Literários pela Universidade de La Habana, lança “Noel Rosa - Poeta da Vila, cronista do Brasil”, estudo sobre o poeta-cronista que busca inserí-lo “na expressiva galeria dos poetas e prosadores que, por meio de sua obra, têm contribuído de forma decisiva para desvelar o singular processo de formação sócio-espacial do Brasil”, como avisa o texto de apresentação da obra.
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A seguir, uma entrevista por correio eletrônico com o professor Luiz Ricardo, que além de reafirmar a qualidade artística do trabalho de Noel, também contextualiza histórica e sociologicamente a obra do poeta de Vila Isabel que, em 2010, será tema do desfile da escola de samba do bairro carioca.
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Brasil de Fato: Como surgiu a ideia de escrever sobre Noel Rosa?
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Luiz Carlos Leitão: Dois motivos centrais me inspiraram. Em primeiro lugar, eu já escrevera sobre um grande romancista-cronista de nossas letras: “Lima Barreto, o rebelde imprescindível” [lançado em 2006 pela editora Expressão Popular]. Lima foi o genial criador de Os Bruzundangas, um inventário irretocável das mazelas que afligem esta nossa pátria-mãe, eternamente distraída e “subtraída em tenebrosas transações”.
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A atualidade do cronista Noel é absolutamente contundente: ele cantou a crise de 1929 e as revoluções de araque dos anos 1930, desvelando-nos o “Brasil de Tanga” – e “sem capote” – em que a honestidade escasseava, ao passo que as maracutaias abundavam... Será que alguma coisa mudou neste século 21?
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O segundo fator é o meu coração azul e branco. Eu sou cria da Vila Isabel, colaborador direto da nossa escola de samba, e me seria impossível permanecer indiferente ao centenário do “Poeta da Vila”, tema, aliás, do belíssimo enredo do carnaval 2010. Quem assistir ao desfile, em fevereiro, saberá melhor do que estou dizendo. Por isso, não havia como fugir ao fascínio desse bamba.
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Brasil de Fato: Que fontes foram consultadas e quais as dificuldades encontradas durante a pesquisa?
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Luiz Carlos Leitão: Na parte biográfica, vali-me das grandes referências do gênero. De todas as obras consultadas, três são dignas de nota: “No tempo de Noel Rosa”, de Almirante; “Noel Rosa e sua época”, de Jacy Pacheco; e “Noel Rosa: uma biografia”, de Carlos Didier e João Máximo. Estes últimos, sem dúvida, são os mais exaustivos e criteriosos de todos os seus biógrafos, ao passo que os dois primeiros, contemporâneos do artista (Jacy era seu primo e Almirante, o parceiro e companheiro do Bando de Tangarás), pecam, sem dúvida, pela parcialidade ou idealização de alguns aspectos relativos à vida e à obra de Noel.
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Esse, aliás, foi o maior problema enfrentado: gostaria de dispor de uma impressão serena e fidedigna dos contemporâneos sobre as inclinações ideológicas do compositor, que para Jacy teria nítido pendor socialista (hipótese que o conservador Almirante rechaçou com veemência), mas não logrei tê-la, infelizmente.
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Na parte ensaística, mantive a linha de pesquisa que explorei no meu doutorado em Cuba, investigando as experiências periféricas (ou seja, latino-americanas) de modernidade, sempre preocupado com o jogo dos elementos urbanos e agrários no imaginário coletivo nacional. De certa forma, o livro é um exercício prático de minha tese, algo que eu já realizara em “O campo e a cidade na literatura brasileira”, título que elaborei para os centros de formação dos movimentos sociais brasileiros.
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Brasil de Fato: Quanto tempo tomou a coleta de informações e a redação?
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Luiz Carlos Leitão: A pesquisa específica sobre Noel demandou quase um ano. Já sua inserção na linhagem dos grandes cronistas de Bruzundanga, que se inicia no Barroco com Gregório de Matos (o “Boca do Inferno”) e se estende com nomes como Machado de Assis e Lima Barreto, foi quase imediata, pois fora esse meu objeto de estudo no doutorado. A escrita, por sua vez, irrompeu praticamente “de um só jato”, como se fora um dever que todo vila-isabelense deveria cumprir em honra ao seu patrono.
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Brasil de Fato: Algum aspecto da vida ou do trabalho de Noel foi privilegiado?
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Luiz Carlos Leitão: O livro privilegia, sem dúvida, o poeta-cronista Noel, ou seja, preocupa-se fundamentalmente em associar a criação de Noel a uma vasta linhagem de poetas e prosadores que se ocuparam, com sua arte, de desvendar as máscaras sociais e espaciais que travestem a história do nosso país. Não se trata meramente de “analisar” suas letras sob o ponto de vista literário stricto sensu, mas sim de apreender a forma como o compositor logrou traduzir esse propósito em sua obra musical.
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Brasil de Fato: Que aspecto distingue esse trabalho de outros livros sobre o compositor?
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Luiz Carlos Leitão: Noel serviu de inspiração a inúmeros pesquisadores da MPB. Além dos biógrafos já citados, há críticos empenhados em revisar sua contribuição para a história do cancioneiro popular nacional, realçando o papel pioneiro e revolucionário do compositor nos rumos da nossa canção (cito, por exemplo, o estudo de Tinhorão em que Noel é comparado à bossa-nova).
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Suspeito, porém, que ninguém se preocupara em vê-lo como uma expressão da mudança espacial de Bruzundanga, enfatizando a surda luta entre os elementos urbanos e agrários em nosso imaginário no decurso dos anos 1930, quando a burguesia paulista é derrotada em seus planos hegemônicos pela aliança oligárquica que Getúlio articula.
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Eu já estudara esse mote nas letras, focalizando o ciclo regionalista como uma face complementar das vanguardas paulistanas no sinuoso percurso do Modernismo de Bruzundanga. Agora, lanço alguns grãos de inquietude sobre esse processo na seara musical.
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Brasil de Fato: De um modo geral, os artistas brasileiros recebem um tratamento relevante por parte do mercado editorial?
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Luiz Carlos Leitão: Creio que o gênero tem se difundido bastante nas duas últimas décadas. Ele possui apelo sobre o público, sobretudo com a inequívoca expansão da sociedade espetacular midiática, mas também sinaliza uma saudável preocupação em repensar a nossa cultura e a nossa história.
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Brasil de Fato: Noel foi tema do documentário “Noel por Noel” (1981), de Rogério Sganzerla, e da cine-biografia romantizada “Noel, Poeta da Vila” (2006), de Ricardo Van Steen. Outras obras merecem citação? Qual sua avaliação sobre esses trabalhos?
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Luiz Carlos Leitão: Conviria citar, ainda, “Cordiais Saudações”, um curta-metragem (11 minutos) de 1968, em preto e branco, com produção, roteiro e direção de Gilberto Santeiro. É claro que na rede virtual há muitos vídeos com acesso disponível ao internauta, cujas referências eu forneço em apêndice do livro. Sobre os dois títulos citados, eu gosto do trabalho de Sganzerla, mas não me entusiasmei muito com o tratamento dado por Van Steen à sua narrativa.
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Brasil de Fato: A compreensão e tratamento da obra de Noel, por parte de crítica e público, mudou desde seu aparecimento, o sucesso e os anos que seguiram sua morte?
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Luiz Carlos Leitão: Há uma curiosa analogia entre Noel Rosa e Lima Barreto, que eu menciono no livro. O escritor carioca atravessou incógnito os piores anos da era Vargas e veio a renascer (redescoberto pela crítica literária Lúcia Miguel-Pereira) em um tempo de esperança, quando a sociedade brasileira sonhou construir um novo projeto de país.
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Noel morreu seis meses antes de Getúlio decretar, a 10 de novembro de 1937, o fatídico Estado Novo e, a exemplo do prosador, também pagou sua cota de esquecimento à pátria-mãe, que jamais soube lidar com aqueles que desvelaram as máscaras sociais sob as quais as elites de Bruzundanga promoveram a eficiente fórmula da modernização sem ruptura – graças à qual, a cada novo ciclo histórico, se muda aparentemente tudo para não se mudar nada.
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Por isso, para melhor responder à questão, é oportuno citar o que José Ramos Tinhorão anotou a seu respeito: “O melhor que se pode dizer de Noel Rosa é lembrar que, enquanto para a maioria dos artistas populares a fama acaba um dia após a morte, a dele só começou dez anos depois”.
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Brasil de Fato: Hoje, o interesse pelas composições de Noel é acadêmico ou popular?
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Luiz Carlos Leitão:  A impressão que tenho é a de que, apesar das incursões da academia e da crítica sobre a MPB, quem melhor preserva a memória de Noel ainda é o público amante do samba, como prova a nossa querida escola Unidos de Vila Isabel, que, certamente, prestará ao “Poeta da Vila” a mais contundente homenagem de todas que este receberá em 2010.

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Brasil de Fato: Qual era o panorama musical brasileiro da época de Noel?
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Luiz Carlos Leitão:
A música popular, como de praxe, era motivo de forte preconceito. O fenômeno era mais do que previsível em uma sociedade recém-saída do regime escravista mais longo das Américas, em que a cultura afro-americana continuava a ser perseguida e estigmatizada.
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Não era de se estranhar que um político pedante e reacionário como Ruy Barbosa, célebre por defender os interesses da elite agro-mercantil vinculada ao capital estrangeiro, viesse a atacar com virulência os ritmos envolventes que se cultivam nos bairros mais pobres, nos morros e subúrbios em que vive a população negra e mestiça da cidade (sobretudo no próprio Centro, onde se refugia boa parte das vítimas do “Bota-abaixo”, desde a Cidade Nova até os Morros da Gamboa e da Providência, berço das primeiras favelas).
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Aí se canta e se toca o samba, organizam-se rodas de batucada e mesclam-se novos gêneros, em que tanto prevalecem os instrumentos de percussão, quanto, no caso dos grupos de choro, desponta a base de violões, flauta e cavaquinho. Isso sem falar no “obsceno” maxixe e nos tambores com que se entoavam os pontos de macumba, severamente reprimidos pela polícia do Distrito Federal.
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É claro que havia matizes singulares em cada área. Na praça Onze de Sinhô e Tia Ciata, os batuques do samba acusavam a influência do maxixe. No Estácio de Ismael Silva, de quem Noel iria aproximar-se, ouvia-se outro tipo de samba, que era tocado nos blocos, como o “Deixa Falar”, com uma batida semelhante à das marchas, acompanhada por instrumentos de percussão. Esse ritmo, que tanto agradava ao Poeta, foi assimilado por vários morros cariocas, desde a Favela e a Saúde, no Centro, até o Salgueiro (na Tijuca), a Mangueira e o Morro dos Macacos (em Vila Isabel). O bairro de Noel, diga-se de passagem, é um caso à parte nesta socio-cartografia musical.
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A Vila reunia, ao longo do Boulevard 28 de Setembro e em suas principais transversais, uma súmula do que era aquela ampla região da Zona Norte no ocaso da Belle Époque. A Tijuca, por exemplo, já era terra de “ricos e remediados”, cujo único sonho era subir ainda mais na escala social; o Andaraí possuía um perfil mais proletário, com várias fábricas e vilas operárias; o Engenho Novo exibia ares provincianos, com cadeiras pelas calçadas e olhos curiosos a espiar a passagem dos trens; e o Grajaú era quase deserto, com terrenos loteados que só depois abrigariam suas casas de classe média.
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Além desse entorno, havia ainda os morros da Mangueira e dos Macacos, de barracos bem toscos e de gente ainda mais humilde, mas cujo batuque era um autêntico privilégio, pois, como reza a canção, “sambar é chorar de alegria e sorrir de nostalgia dentro da melodia”.
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Brasil de Fato: Quais elementos de seu trabalho o tornaram popular?
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Luiz Carlos Leitão:
Além de promover uma síntese maravilhosa de diversas vertentes da nossa canção popular, logrando, inclusive, conjugar a produção dos jovens músicos de classe média – em especial, o próprio “Bando de Tangarás”, em que pontificavam Braguinha e Almirante – com os sambistas que viviam nos morros (cujo maior expoente talvez tenha sido o amigo Cartola, da Mangueira), Noel conseguiu uma proeza ainda mais relevante.
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Ele mostrou-nos com engenho e arte a nudez de Bruzundanga, indagando-nos sob um sorriso amargo “com que roupa” iríamos ao baile do novo regime, enquanto o povo seguia na pindaíba, a comer pirão de areia. Com o mesmo espelho de Macunaíma, ele nos refletiu a “criança perdulária que anda sem vintém” mas tem mãe milionária e jura que vai à Europa num aterro de café. E fez de Seu Jacinto uma versão melodiosa do “herói sem nenhum caráter”, que dormia de cartola e fraque e sonhava morrer atropelado por um Cadilac, mandando-o apertar o cinto (como apregoava Getúlio e, décadas mais tarde, o rotundo Delfim) para colaborar com o regime.
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Noel recriou, com o condão do samba, o mesmo Brasil e a mesma Bahia de Gregório de Matos, que um dia fora rico e abundante, mas agora se via pobre e empenhado nas mãos dos mascates de além-mar: sem vintém, mas sempre pronto a pedir emprestado. Não se esqueceu de registrar, porém, a desfaçatez e a corrupção dos grandes leiloeiros do país, cujo dinheiro “nasce de repente”, rendendo-lhes palacetes reluzentes, joias e criados à vontade.
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Ele talvez não soubesse, mas ao cantar esse Brasil de tanga – e com capote de algodão – terminou por aquecer eternamente o coração de todos que sonham em despertar do seu sono esplêndido a nossa pátria-mãe sempre tão distraída e subtraída em sinistras transações. Creio que por todos esses motivos sua música tenha se tornado tão popular.
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Brasil de Fato: No Dicionário Cravo Albin da Música Popular Brasileira, João Máximo (autor de “Noel Rosa: Uma Biografia”, em parceira com Carlos Didier) afirma que Noel, se não foi o melhor, foi o mais importante compositor da chamada Época de Ouro da música popular brasileira, que vai de 1930 a 1945. Como argumento, cita “suas letras inspiradas no linguajar do povo” e a integração da classe média com o morro, uma vez que Noel se tornou amigo e parceiro de sambistas como Cartola. A análise é correta?
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Luiz Carlos Leitão:
São argumentos válidos, sem sombra de dúvida, mas torno a destacar o que disse anteriormente: o maior mérito de Noel foi saber captar, como poucos, a essência desse camaleão chamado Brasil. Sua obra é uma metáfora contundente da sociedade brasileira, que o compositor, atento à sua época e realidade, explora de forma bastante explícita em canções de inegável humor ou sarcasmo.
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Brasil de Fato: Muitos apontam Chico Buarque como o principal herdeiro de Noel Rosa. Ele, no entanto, se diz mais influenciado por Ismael Silva (também parceiro de Noel). Qual o principal legado de Noel para a música brasileira?
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Luiz Carlos Leitão: 
Chico Buarque bebeu em variadas fontes. Se ele faz questão de mencionar Ismael, tem seus motivos para isso. Contudo, mesmo que Chico desconverse, a aproximação com Noel é irrefutável. Um exemplo emblemático disso é a própria simetria que se estabelece entre “Cordiais Saudações”, de Noel, e “Meu Caro Amigo”, de Chico, em que os dois poetas-cronistas endereçam curiosas “canções-postais” para interlocutores amigos, registrando adversidades em distintos planos de suas vidas.
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Acerca da importância de Noel Rosa, eu o considero um nome extraordinário na história da canção popular, cuja bem-sucedida trajetória se revela, em larga medida, uma resposta virtuosa à mazela da parca cultura letrada e contribuinte decisiva para a formação de nossa sociedade. Essa história, segundo nos conta o crítico literário Luís Augusto Fischer, remonta talvez ao século 18, com Domingos Caldas Barbosa; durante o século seguinte, consuma-se o encontro de dois gêneros nativos, a modinha e o lundu, com a habanera e a polca; e no limiar do século 20, a forma ganha novas cores com Sinhô e seu “samba maxixado”.
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Ao longo dos novecentos, distende-se então o “arco canônico” da canção brasileira, que José Miguel Wisnik situa entre Ernesto Nazareth, em uma ponta, e Chico e Caetano, em outra. Na era do rádio, desdobra-se em samba, samba-canção, marchinha; por meio da bossa nova, dialoga com o mercado internacional nos anos 1950, até assumir outras formas a partir dos anos 1960, acossada por novos parâmetros técnicos, culturais e ideológicos que prenunciam o seu fim (qualquer semelhança com o “fim da história” de Francis Fukuyama não é mera coincidência).
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Na primeira metade do século 20, esse percurso inclui o primeiro samba gravado em vinil (“Pelo Telefone”, de Donga, em 1917). Ele inclui marcos como o encontro de Pixinguinha e Donga em 1919, com a criação dos Oito Batutas (primeiro grupo de samba a viajar ao exterior, estreando em Paris, em 1922), e os primeiros sucessos de Carmem Miranda (“Taí”, em 1930) e Noel Rosa (“Com Que Roupa?”, em 1931). Em meu livro, trato de evidenciar como o trabalho de Noel, por sua amplitude e originalidade, pode ser considerado um momento chave da história do nosso cancioneiro.
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Brasil de Fato: Numa imaginária “parada de sucessos”, quais seriam as principais canções de Noel e por qual motivo?
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Luiz Carlos Leitão: 
 Mais do que uma pergunta, esse item é uma saudável provocação. Afinal de contas, das quase 300 canções conhecidas do artista (aliás, um número extraordinário para quem morreu com apenas 27 anos incompletos), há dezenas de criações absolutamente geniais. Destacá-las, obviamente, depende da perspectiva de quem escolhe.
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Os meios de comunicação, em geral, preferem destacar as obras de tom mais emotivo (“Feitio de Oração”, “Três Apitos”, “Último Desejo”) ou de acentuada “cor local” (“Conversa de Botequim”, “Feitiço da Vila”, “Palpite Infeliz”).
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Contudo, não há como esquecer o sutil e mordaz poeta-cronista de Bruzundanga, aquele que desnudou o rei tropical com sambas de grande apelo popular, como a imortal “Com Que Roupa?” e a mais do que atual “Onde está a honestidade”, isso sem falar em “Filosofia”, em que o desencanto pessoal e o ceticismo social se fundem em rara expressão de lirismo.
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Com Brasil de Fato
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cartoon de Fernandes
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