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segunda-feira, 8 de janeiro de 2024

Hipatia de Alexandria, por Helena Vasconcelos




Desenho do Alexandrian World Chronicle representando o Papa Teófilo de Alexandria , com o evangelho nas mãos, de pé triunfantemente no topo do Serapeum em 391 DC

HIPÁCIA DE ALEXANDRIA

«Hipácia (o nome significa “a maior”) de Alexandria foi uma matemática distinta, especialista em álgebra e mecânica. Nasceu em 370 d.C. e era filha de Teon, um professor da Universidade de Alexandria que era filósofo, astrónomo, matemático e diretor do museu. Hipácia viveu sob o jugo do Império Romano, cuja jurisdição compreendia o Egito e, evidentemente, Alexandria, centro do conhecimento. Mas a sua formação pode dizer-se que era grega, o que a torna ainda mais fascinante. Foi a tradição do racionalismo grego que levou os seus estudos suficientemente longe para que se tornasse aquilo que o seu pai desejava para ela e que ela própria se propunha alcançar: um ser perfeito que combinava em si um corpo e uma mente perfeitamente sãos. Ao que parece, Hipácia era extremamente bela e igualmente talentosa, tendo partido para Atenas, ainda muito jovem, para estudar com Plutarco. Quando regressou a Alexandria, a sua fama ultrapassava as fronteiras do mundo antigo. Era conhecida por conseguir decifrar os mais complicados problemas matemáticos, sendo consultada amiúde pelas mais brilhantes cabeças do mundo. 

Quando lhe perguntavam por que razão não se casava, dizia que já se tinha casado com a verdade. Ensinou na Academia de Alexandria – matemática e astronomia –, mas era também versada em filosofia, religião, poesia e artes. Dominava as artes da oratória e da retórica, que tinham grande importância na aceitação e integração das pessoas na sociedade da época, bem como a História das Religiões. Hipácia escreveu um “Cânone Astronómico”, comentou o trabalho dos seus grandes antecessores, como Ptolomeu, Diofanto, Euclides e Apolónio, e construiu instrumentos científicos como o astrolábio, o planisfério e o hidroscópio. A maior parte da sua obra foi destruída com o desaparecimento da grande Biblioteca e o saque do templo de Serápis, e a sua vida teve um fim trágico que importa conhecer porque serve de ilustração da passagem de um tempo em que se valorizava a cultura e a ciência para outro tempo de obscurantismo e ignorância, regido pela religião. 

Hipácia era pagã e defendia a liberdade do pensamento, facto a que se opunha a crescente ascensão do cristianismo, oficializado em 390 d.C. O recém-nomeado chefe religioso de Alexandria, o bispo Cirilo, dispôs-se a eliminar todos os pagãos assim como os seus monumentos e escritos. Hipácia foi considerada herética e diz-se que foi o próprio Cirilo quem comandou uma turba de cristãos enfurecidos que a atacou à saída da Biblioteca e a massacrou – no ano de 415 d.C.

O historiador Edward Gibbon faz um relato do que aconteceu: “Num dia fatal, na estação sagrada de Lent, Hipácia foi arrancada da sua carruagem, rasgaram-lhe as roupas e arrastaram-na nua, para a igreja. Lá, foi desumanamente massacrada às mãos de Pedro, o Leitor, e sua horda de fanáticos selvagens. A carne foi esfolada dos seus ossos com ostras afiadas e os seus membros, ainda palpitantes, foram atirados às chamas.»

Carl Sagan acrescentou: “Há cerca de 2000 anos, emergiu uma civilização científica esplêndida na nossa história; a sua base era em Alexandria. Apesar das grandes hipóteses que tinha para se desenvolver, ela decaiu. A sua última cientista foi uma mulher, considerada pagã. Seu nome era Hipácia. Com uma sociedade conservadora a respeito do trabalho da mulher e do seu papel, com o aumento progressivo do poder da Igreja, formadora de opiniões e conservadora quanto à ciência, e devido a Alexandria estar sob domínio romano, após o assassínio de Hipácia, em 415, a sua biblioteca foi destruída. 

Milhares dos preciosos documentos foram queimados e perdidos para sempre, e com ela todo o progresso científico e filosófico da época.

O massacre de Hipácia marcou o fim da idade de ouro de Alexandria e representou o toque a finados da liberdade religiosa. Depois da sua morte, muitos cientistas, filósofos e pensadores abandonaram a grande cidade do conhecimento e espalharam-se pela Índia e pela Pérsia, que assim avançaram em termos científicos e culturais, enquanto o Ocidente mergulhava no obscurantismo medieval. É preciso que se diga que os trabalhos dos sábios e das sábias de Alexandria foram preservados pelos árabes, persas, indianos e chineses.»

Helena Vasconcelos, Humilhação e Glória

https://www.facebook.com/paulo.marques.7393/posts/pfbid02iXFvm6e1bBLoWBW2fQHXG3Lz9x9iuaVCyrrU58taqkX2sfbXSFdCHAfTRKdvyaUPl

sexta-feira, 4 de março de 2016

Entre Dois Impérios. Viajantes Britânicos em Goa (1800 – 1940)

CRÍTICA

Isto não é guia para turistas nostálgicos

Entre Dois Impérios é uma reflexão sobre a ocupação do continente indiano.
Livros Entre Dois Impérios. Viajantes Britânicos em Goa (1800 – 1940) 

Pangim é agora uma pequena cidade pujante, fervilhando de comércio e turismo, com casas coloniais recuperadas e monumentos restaurados. A Velha Goa, a “Roma do Ocidente”, com a bela catedral, igrejas, colégios e conventos, abandonada durante séculos, oferece aos visitantes uma visão de esplendor sereno; mas não foi assim que a contemplaram os viajantes estrangeiros quando, depois de uma época de apogeu no século XVI, se tornou visível o colapso do império português, num longo estertor de séculos que Filipa Lowdes Vicente analisa na sua pesquisa em torno desse lugar mítico, através do olhar, impressões e reacções dos que aportaram aquelas paragens, desde finais do século XVIII até ao século XX. Entre Dois Impérios não é um guia para turistas nostálgicos; é uma profunda reflexão sobre a ocupação do continente indiano com todas as suas consequências sociais, políticas, religiosas e sociológicas. 

O livro está dividido em duas partes principais: a primeira que analisa o confronto entre dois tipos de colonialismo: o inglês, de cariz imperialista, orgulhoso, rico, organizado, segregacionista, prepotente, protestante; e o português, antigo de séculos, decadente, católico, desorganizado, pobre, mestiço, enxovalhado, cómico até, no seu laxismo e pretensiosismo.

Baseando-se em testemunhos, tanto de viajantes ocasionais como de figuras oficiais da hierarquia inglesa na Índia, a autora vai traçando um quadro (pouco lisonjeiro) das condições dos territórios sob o domínio da coroa e depois da República portuguesa. A segunda parte do livro é composta por testemunhos de viajantes britânicas por estas terras inóspitas e pouco acolhedoras, as quais, no entanto, fosse por curiosidade, fosse por dever – acompanhar os maridos – não fugiam às difíceis condições com que se deparavam.

A larga e rápida colonização do continente indiano no século XIX, por parte dos britânicos, deixou de fora os territórios portugueses de difícil acesso – só em 1888 é que Goa passou a estar ligada à Índia britânica pelo caminho-de-ferro que terminava em Mormugão, obrigando os visitantes a apanharem um barco até Pangim. No entanto, e apesar de todas as dificuldades, os territórios sob alçada portuguesa exerciam um fascínio peculiar, pelo seu património histórico e arqueológico. Com o orientalismo cada vez mais na moda, valia a pena o risco para se poder contemplar os vestígios de uma glória que os ingleses desejavam e emulavam. As provas do declínio serviam de ilustração de erros que os britânicos queriam evitar. E desses erros, os mais flagrantes, como ilustra a autora, seriam o catolicismo, com a acção da terrível Inquisição e a tendência para a mestiçagem. Uma vez que era voz comum que os indianos não conseguiam governar-se a si próprios e que os portugueses eram tão ou mais incapazes, os ingleses procuravam legitimar as suas aspirações à ocupação britânica, num processo em que os antigos colonizadores seriam, por sua vez, colonizados. Os ingleses achavam por bem tomar conta de Goa, Damão e Diu, territórios que consideravam como excrescências bizarras de uma glória fanada, entregues à sua triste sorte, nas mãos de um povo preguiçoso e lânguido, incapaz de insuflar uma nova dinâmica civilizacional. 

A segunda parte desta obra analisa com detalhe a posição das mulheres nas sociedades britânica, portuguesa e indiana, com especial incidência sobre os relatos de Isabel Burton, católica, inglesa, aristocrata, que se deslocou a Goa, por causa de S. Francisco Xavier e as suas relíquias. Isabel, mulher do explorador Richard Burton e co-autora da tradução para o inglês de Os Lusíadas, lança um olhar irónico sobre o modo de estar das portuguesas, espartilhadas em regras de conduta despropositadas e semelhantes às impostas às indianas. No entanto, e uma vez que o sistema de castas não era permitido por lei em território luso, a separação social era confusa e sujeita a uma intrincada teia de costumes que, para alguns, eram considerados laxistas e, para outros, ridículos e pomposos. O relato de Anne Bremner, protestante, mulher prática e mãe de filhos pequenos é bastante mais objectivo. Ao acompanhar o marido nas suas funções de cônsul em Goa tem a oportunidade de descrever o dia-a-dia na colónia. Refere a falta de electricidade e de saneamento básico, a ausência de política urbanística, o formalismo nas relações sociais e a segregação dos sexos. O ambiente em Goa é descrito “como se de uma lenda se tratasse, incluindo uma lição de história que todos sentiam obrigação de repetir” (pág. 179). 

A ocupação portuguesa na Índia é uma fonte inesgotável de ensinamentos. Filipa Vicente avança com este contributo, numa obra indispensável que junta o estudo do colonialismo com o estudo do género. Apenas peca pela repetição de detalhes e uma “arrumação” ligeiramente confusa das múltiplas informações, um resultado que se deve ao facto de os textos serem autónomos mas de indiscutível interesse.

http://www.publico.pt/culturaipsilon/noticia/isto-nao-e-guia-para-turistas-nostalgicos-1724779