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sexta-feira, 5 de janeiro de 2024

Maria Lança entrevista Rui Mingas (2006)

  "Leio um poema, sinto a sua musicalidade e passados 10 minutos estou a musicar"- entrevista a Ruy Mingas

2006 

* Maria Lança

Antes da Independência de Angola já Ruy Mingas tinha corrido e cantado imenso.  Deu voz ao poema «Monangamba» de António Jacinto, um dos símbolos da luta anticolonial e seguiu musicando tantos outros poemas que entoamos como memória de alegria, às vezes difícil. Presenteou o país com um hino pacífico e poético, Angola Avante! (música sua e letra de Manuel Rui). Como atleta no Benfica ganhou vários títulos de campeão. Na Angola Independente exerceu funções de direcção no primeiro Ministério da Educação, foi embaixador em Portugal de 1989 a 1995, e vice-ministro da Cultura. 

Em 2006 regressa à música, após três décadas sem gravar. Memória é um disco que remete para um legado cultural que o autor quis recuperar para os dias que correm na vontade de dá-lo a conhecer a uma juventude com outras preocupações pela frente. Com a boa sonorização das gravações actuais, estamos gratos por poder regressar à sua voz madura e doce que reaviva os poemas de luta que tanto contam da história de Angola, numa diversidade rítmica com primazia para o semba. 

Dedicando-se quase exclusivamente à educação, criou o projecto de uma universidade privada, a Lusíada, da qual é hoje administrador. Ruy Mingas sente-se feliz entre os estudantes a consolidar a educação, pilar primordial para o desenvolvimento do país.

 

É um homem com vários interesses. Cantor, investigador e professor, desportista e diplomata, com qual destas identidades se revê mais?

Sempre fui uma pessoa com actividades muito ecléticas. Mas gosto muito do desporto e da educação. Gosto especialmente da música (a minha esposa dizia “a primeira mulher do meu marido é a música”), mas de uma maneira diferente: Ocupa um espaço na minha vida mas não do ponto de vista profissional, eu nunca seria uma profissional na música, já na educação e no desporto sim. São áreas que me estimulam muito, sinto-me bem, gosto de estar aqui com os jovens e estudantes, discutir com eles, como gosto de estar no desporto, são as relações humanas mais tocantes a que me prendo. Já a música é natural, eu cresci com a música, desde os meus avós, faz parte da minha vida como prazer e convívio.

A imagem que tenho de si é, acima de tudo, um grande músico. 

Isso é pela idade que tem. Na minha juventude era mais conhecido como campeão do Benfica, entre finais dos anos 50 e finais de 70, muito antes disso.

Em que pé está o conhecimento da música angolana?

Nós temos de consolidar os nossos estilos, os nossos ritmos. O nosso estilo melódico é importante. Os ritmos das gentes do Cunene são diferentes dos ritmos das povoações de Luanda. Portanto há um enorme trabalho a fazer de identificação de ritmos e de cientificação da música.  

Isso passa por haver escolas de música e musicólogos? 

Absolutamente. Temos necessidade de ter muitas escolas. Porque a música bonita que vemos lá fora, interpretada para muita gente, é reflexo de escola, tal como o futebol, o basquete e a arte também passam por escola.

O disco Memória pode servir de referência para os jovens em termos musicais, pois são músicas que tiveram grande importância durante o colonialismo. Como vê a importância desta retoma de composições de uma determinada época? 

A retoma foi para proporcionar a uma geração - que não existia nessa altura - o conhecimento desta poesia interventiva de grande significado, que suporta um período pré-independência num contexto histórico e político completamente distinto. Quando chamo Memória - e aqui presto homenagem à minha filha Nayma pois ela é que pensou no nome - é para essa juventude que pouco estuda e sabe da literatura angolana, para terem oportunidade de conhecer a poesia bonita que marcou uma época de luta. A última vez que gravei tinha 30 e poucos anos, passaram 32 anos. Agora a geração é outra e o contexto completamente distinto e isto é um disco produzido com uma tecnologia que dá melhor qualidade à mensagem poética, a sonoridade melhorou muito.

Neste disco musicou poemas de escritores angolanos como Manuel Rui Monteiro, Viriato da Cruz, Agostinho Neto e Ernesto Lara Filho. Tem mantido uma intensa relação entre música e literatura angolana. 

Eu gosto de musicar poesia bem elaborada que reflicta algo. Comecei com 18 anos a musicar o Agostinho Neto, o Mário Pinto de Andrade. Para mim o sentido temático e a mensagem são fundamentais, contando que seja algo bem elaborado. 

Gostaria de escrever?

Escrevo alguma coisa mas não publico e acho que temos poetas tão bons que prefiro fazer aquilo que sei fazer bem, compor. Eu crio música com muita facilidade, leio um poema, sinto a sua musicalidade e passados 10 minutos estou a musicar. Farei isso sempre que estiver na presença de um grande poema.   

Ao dar a conhecer esses poetas ligados a uma geração de luta está a tentar despertar neles uma consciência crítica e política?

Claro que sim. Tenho um carinho muito grande pelos jovens e às vezes uma certa preocupação com a sua qualidade. 

Como e quando surgiu a ideia de criar uma universidade privada em Angola? 

A ideia surgiu logo quando a sociedade angolana liberalizou o seu sistema para instituições privadas, universitárias e comércio. Concebemos este projecto em 1998. 

O balanço é positivo em termos de resultados e de assimilação no mercado de trabalho dos estudantes que saem da Lusíada?

Iniciámos em 98, com 4 cursos e o ano propedêutico, hoje temos 8 licenciaturas, nas áreas económicas e nas áreas sociais. Penso que os alunos estão bem enquadrados porque Angola está longe de superar os quadros qualificados que correspondem à procura e, passe a modéstia, temos quadros bem formados. O feed-back que temos encontrado das instituições para onde se destinam tem sido o melhor possível. Temos as melhores referências, ex-alunos a trabalhar na BP, na Sonangol, em empresas privadas, acho que o resultado está a ser muito bom. 

Que perfil de aluno vem estudar para a Lusíada, em termos de extractos sociais?

Os alunos aqui abrangem todo o tipo de extractos sociais. Não se pode identificar as classes sociais em Luanda na medida que há quem não pertença tradicionalmente à classe privilegiada mas tenha poder de compra equivalente ou superior aos que aparentam essa classe. As pessoas têm um poder de compra muito grande. Nós iniciámos os cursos com alunos adultos, de 40 e 50 anos, hoje são predominantemente jovens. A evolução foi a melhor possível. Começámos com 300 alunos, neste momento temos cerca 6 mil em Luanda, mais um pólo em Benguela e em Cabinda, no conjunto das 3 universidades temos cerca de 7500 estudantes.  

Sente que os alunos chegam à universidade preparados? Qual é a principal carência do ensino anterior, pré-universitário?

A carência é muito grande, por isso iniciámos esta universidade com o ano propedêutico, não obrigatório, era opcional. Houve muita recepção na primeira experiência, muita gente queria fazer exame de aptidão directo, mas o índice de reprovação era tão grande que ao fim do primeiro ano os próprios alunos constataram que quem fizesse o ano zero teria melhor solidez nos seus conhecimentos e o curso universitário fluía muito mais facilmente. Hoje em dia temos dois terços dos candidatos a matricularem-se no ano zero. Fomos os primeiros a implementar este sistema pela consciência de que temos de melhorar bastante o ensino.

A frequentação feminina de cursos superiores fará com que haja mais mulheres na liderança do país, com protagonismo em várias áreas?

Isso é extremamente louvável. Eu pertenço a uma geração em que os próprios pais entendiam que era preciso dar mais formação aos homens do que às mulheres.

Já se erradicou essa mentalidade?

Não creio. Nas províncias sim, porque as populações estão muito agarradas a alguns conceitos tradicionais. A nível urbano não se sente. A sociedade angolana até foi muito aberta em relação à mulher. Conheço bem o continente africano, não creio que haja nenhum país com tanta abertura para com as mulheres como Angola. É evidente que à medida que as mulheres forem adquirindo mais capacidade técnica, científica, cultural e outras estarão capacitadas para adquirir mais responsabilidades e é louvável que assim seja. Naturalmente, o crescimento do número de mulheres com formação vai influenciar as sociedades mais tradicionais a procurarem entender a mulher de maneira diferente.

Mas imaginemos que um homem e mulher com a mesma formação procuram emprego, não acha que, além das suas competências e qualificações, o género é tido em conta na escolha do candidato?

Daquilo que constato acho que não há problemas dessa natureza. Não tenho sentido quaisquer preconceito para se fazer a selecção das pessoas em função do género. Se existe é em situações muito menos frequentes do que no tempo dos meus pais. Em Portugal rejeitam as mulheres com aquelas condicionantes de maternidade. Na admissão da mulher nas empresas privadas que não têm nenhum orçamento que cai do céu como nas empresas públicas e que apostam na capacidade de produção dos seus trabalhadores, muitas vezes isso acontece. Eu acho que deve ser tudo feito com base nas capacidades, aqui na Universidade tenho isso presente com várias senhoras responsáveis. 

Fará sentido para si a discussão de cotas para a representação política feminina ou isso terá de acontecer naturalmente sem ser pela descriminação positiva?

O Brasil tem quotas para a entrada de negros na universidade porque aquilo é uma sociedade estratificada, onde esse problema é visível. Aqui não. A mulher angolana não tem maior participação na política porque essa percentagem decorre do número de pessoas que aderiram à luta política. Não era muito comum encontrar mulheres no ativismo político há 40 anos atrás. Hoje felizmente há muito mais, a vossa juventude tem essa participação, também há uma formação que lhes permite uma outra capacidade de intervenção na abordagem e na discussão dos problemas. Isso é paulatino, pratica-se à medida que a sociedade for mais equilibrada e tiver mulheres formadas ao mesmo nível que os homens a participar no sistema de emprego. Não é por acaso que a Inglaterra já teve Primeira-Ministra e a França teve uma candidata à Presidência da República, trata-se de um longo percurso de tradição e participação na vida política. 

BI: 

Nome: Ruy Alberto Vieira Dias Rodrigues Mingas 

Data de nascimento: 12/05/1939 - 4/2/2023

Naturalidade: Luanda 

Cantor preferido: Ray Charles, Nat King Cole

Cantora preferida: Aretha Franklin, Ella Fitzerald 

Filme: Os Dez Mandamentos

Pintor: Salvador Dali

Cor: Azul

Viagem: Roma

O que mais despreza: falsidade

O que mais preza: sinceridade, transparência

Prato preferido: calulu

De que sente mais saudade: dos meus pais

Lema de vida: ser aquilo que sou, apoiar sempre as crianças 

 

por Marta Lança
Cara a cara | 5 Janeiro 2024 | desportoeducaçãomemóriamúsicapoesia angolanaruy mingasuniversidade


https://www.buala.org/pt/cara-a-cara/leio-um-poema-sinto-a-sua-musicalidade-e-passados-10-minutos-estou-a-musicar-entrevista-

Cara a cara | 5 Janeiro 2024 |  





terça-feira, 21 de abril de 2020

Ana Pais - Milagres da Carochinha

* Ana Pais

Há uma semana, o Presidente Marcelo anunciou um novo prolongamento do estado de emergência até 2 de Maio, apesar das pressões para se reabrir a economia. Assim, apresentou razões relativas à prevenção e estabilização da ameaça à saúde pública, elogiou e acalentou três grupos da população (“pessoas da minha idade”, jovens e autarcas) e destacou a confiança como “palavra-chave” no controlo da crise na saúde, mas já lembrando a sua relevância para a retoma económica. Terminou com uma referência à imprensa internacional que designou por “milagre português” a eficácia do país no controlo de mortalidade devido à COVID 19: a deixa perfeita para fazer reverberar no coração colectivo os ecos – longínquos, mas bem conservados – da excepcionalidade heróica de Portugal. 

Durante aquela semana, vários artigos na imprensa internacional elogiaram a acção portuguesa no combate ao vírus. Um artigo em particular, no jornal alemão Der Spiegel, descreve a situação portuguesa como um milagre, comparativamente a outros países europeus, nomeadamente a vizinha Espanha. Claro que o termo é usado com alguma ironia (talvez até maior do que possamos imaginar, uma espécie de elogio disfarçado de sobranceria pragmática perante um país do sul que nem só no sol tem sorte), evidenciada quando o jornalista pergunta se uma das razões que explicam o milagre não será por nós termos Fátima e Espanha não. A não ser que este fosse um texto escrito por um crente assumido, obedecendo a um programa evangelizador, não é difícil reconhecer o tom irónico. No discurso de Marcelo, porém, a ironia é minimizada porque a oportunidade de beneficiar das ressonâncias que o mito do milagre poderia ter num contexto de pandemia é demasiado perfeita, à luz de uma retórica conservadora. Senão vejamos. Após aludir a estas vozes internacionais, Marcelo estabelece uma ponte entre as seguintes ideias: “eles dizem que fizemos um milagre” + “estamos a fazer o milagre”. E avança a explicação oportuna: estamos a fazer o milagre porque Portugal é um milagre há 900 anos! Com o cansaço derivado de quatro semanas de isolamento, quem então ouviu os telejornais deve-se ter rido dessa ideia um pouco disparatada, ou pode ter pensado que se tratava de um excesso de entusiasmo do Presidente. Mas, conscientes ou não do que estava a acontecer neste discurso, os portugueses foram atingidos por um torpedo silencioso, em directo do Palácio de Belém para suas casas. O milagre explodiu no DNA cultural dos portugueses. 

Afonso Henriques aludindo ao 'Milagre de Ourique' mitificando-se a ideia de que derrotou os mouros na Batalha de 1139 com ajuda divina.

O milagre é um tema enraizado na cultura portuguesa desde que se começam a construir as narrativas simbólicas sobre a fundação de Portugal, primeiro difundidas pelas crónicas históricas. A partir do século XV até ao século XVII (da Crónica de 1419, às Profecias de Bandarra que desde logo projecta um V Império, da épica de Luís de Camões aos Sermões do Padre António Vieira), as narrativas culturais sobre a nação desenham o carácter heroico de um povo e a predestinação divina de um país que tem tudo para dar errado, mas Deus quer que dê certo. É justamente com o início da expansão portuguesa pelo mundo (começando pela tomada de Ceuta em 1415) que se torna imprescindível enaltecer a coragem de um povo e a origem providencial de uma nação, cujas fronteiras são, segundo a narrativa mítica da história, as mais antigas da Europa. Por um lado, se o país se abalançava num investimento de dimensão incomparável para o seu tempo, convinha cultivar os sentimentos de bravura, determinação e heroicidade e, por outro lado, ao mitificar a origem e o providencialismo de Portugal, legitimava-se esse investimento com um propósito mais elevado e, consequentemente, justificava-se a violência do império colonial. 

Mas de que milagre estamos a falar? Do mesmo a que o Presidente da República fez referência no seu discurso da tomada de posse quando elencou os sentimentos que caracterizam os portugueses: “a crença em milagres de Ourique”. A fundação de Portugal em 1143 decorre de várias batalhas, mas aquela que simboliza a sua fundação mítica é a Batalha de Ourique. Conta a lenda que D. Afonso Henriques terá recebido, na véspera da batalha, o sinal divino da vitória dos portugueses. Nada mais nada menos do que o próprio Cristo terá aparecido ao soberano do Condado Portucalense garantindo-lhe a vitória nesta e nas próximas batalhas, vaticinando assim a independência de Portugal e a sua mítica e mística protecção. Esta é a grandiosidade do milagre que estamos a falar e que foi invocado neste terceiro discurso de Marcelo em tempos virulentos para nos afagar a auto-estima. Mais uma vez, invoca-se uma lógica simbólica de guerra e de inimigo que é preciso combater – e mais: de um inimigo que estamos predestinados a eliminar! – ao associar o milagre de uma batalha decisiva para a fundação de Portugal ao “milagre” actual da contenção da epidemia no país. 

Por que importa falar disto, esmiuçar as sub-reptícias minudências de sentido na comunicação do Presidente da República ao país? Por que estamos em pleno século XXI e continuamos a invocar ficções de há cinco séculos para criar laços sociais e estimular um espírito colectivo? Posso compreender que as palavras foram bem-intencionadas, que Marcelo já percebeu a necessidade da performance dos afectos à distância e, claramente, já se sente mais confortável com o novo papel. Mas é ofensivo para um país que se diz moderno, modernizado, europeizado. É ofensivo para os cidadãos. Por que não procura o Presidente novas palavras, outras formulações para dizer o que realmente importa? 

O que verdadeiramente importa? Que não há milagres, mas forças colectivas, circunstâncias e pessoas extraordinárias; que não há inimigos invisíveis, mas outras vidas, outros mundos biológicos que, também eles para sobreviverem e prosperarem fazem o seu caminho, como os humanos fazem à custa de vidas de outras espécies; que a solidariedade fundada na sobrevivência individual não é solidariedade; que precisamos uns dos outros para fundar um mundo melhor, mais justo e paritário; que repetir discursos estiolados e bafientos não nos levará a parte nenhuma. É essencial estar consciente das implicações simbólicas das palavras porque elas também produzem atmosferas afectivas que têm uma acção viral: infiltram-se nas nossas mentes e infectam o coração das gentes.