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segunda-feira, 26 de janeiro de 2026

José Manuel Fernandes - Quanto mais chamarem fascista a Ventura, mais ele agradece

José Manuel Fernandes 

Se continuam a dizer que é preciso votar Seguro para salvar a democracia não só não ajudam a sua campanha como degradam o prestígio da democracia, pois não há nada de antidemocrático em votar Ventura.

26 jan. 2026

Há inúmeras boas razões para não se votar em André Ventura na segunda volta destas eleições presidenciais – razões que em muitos casos partilho –, mas defender que é preciso fazê-lo para salvar a democracia é um insulto à inteligência e a repetição de uma estratégia que já deu muito maus resultados noutros países – precisamente o tipo de resultados que estes “gladiadores antifascistas” dizem querer evitar.

Devo dizer que logo na noite da primeira volta, ao ouvir o discurso de António José Seguro, receei que na sua campanha se fosse por aí pois ouvi-o afirmar, se bem que de passagem, que na segunda volta estaria em causa a democracia. A verdade é que, nas poucas vezes que falou ao longo desta última semana, me pareceu sempre mais moderado. O mesmo não pode ser dito de muitas outras intervenções nestes últimos dias, nalguns casos protagonizadas por pessoas com um trajecto de moderação.

Tomo dois exemplos, por os considerar significativos. O primeiro é a capa da revista Visão, que graficamente parece fazer um paralelo entre a segunda volta das eleições de 1986 mas depois acrescenta, sob o título “Democracia em jogo”, que, ao contrário do que sucedeu há 40 anos, “agora o que está em causa é o futuro do regime democrático”. O segundo é o podcast do Observador com Sérgio Sousa Pinto, Realpolitik, onde no mais recente episódio o antigo deputado sugere que quem for votar em Ventura sem perceber que a democracia está em jogo é porque é “atrasado mental”. Pelo que percebi esta passagem tornou-se viral nas redes sociais, ainda julguei que correspondia a um lapso passageiro, mas ao ouvir todo o episódio percebe-se que a convicção de Sérgio Sousa Pinto é que o que está em causa é mesmo a democracia, fazendo até comparações com o que se passou na Europa na década de 1930.

Esta retórica é factualmente errada e politicamente perigosa. No limite é ela que é antidemocrática por só admitir pensamentos e propostas políticas conformes ao socialmente estabelecido. Mas vamos por partes.

Esta eleição é assim tão diferente da de 1986? É, até porque os tempos são outros. A política vivia-se com muito maior intensidade há 40 anos, a clivagem esquerda-direita estava muito mais marcada na cabeça dos eleitores e os dois candidatos eram aquilo que podemos classificar como “figuras respeitáveis”, ambos vindos da elite lisboeta, ambos tendo passado por governos, numa ocasião tendo até estado juntos numa coligação governativa.

Dito isto, a verdade é que mesmo assim boa parte dos argumentos usados contra Freitas do Amaral, o candidato da direita, eram também “anti-fascistas”. Era considerado “irrecusável que o maior perigo no actual momento decorre da dinâmica ultra-reaccionária, fascizante e agressiva da candidatura de Freitas do Amaral” (Resolução Política do XI Congresso do PCP). Comparativamente os termos do apelo ao voto em Seguro pelo actual PCP até é feito em modos menos dramáticos.

Mais: eu acompanhei como jornalista essa campanha eleitoral (fui destacado para fazer a cobertura da candidatura de Freitas do Amaral do princípio ao fim) e por isso tenho memória de como o debate, vivíssimo na altura, era mesmo sobre se a sua vitória representaria ou não um regresso ao passado. O próprio Mário Soares, no famoso debate na segunda volta, insistiu por mais de uma vez na tecla de que Freitas “se tinha convertido tarde à democracia” e acusou-o várias vezes de radicalismo.

Em resumo: a campanha de 1986 foi muito diferente da que estamos a viver, mas infelizmente nessa altura como agora repetem-se argumentos e ressuscitam-se os fantasmas do “fascismo” e do “regresso ao passado”. Há hábitos que nunca mudam.

Desta retórica também faz sempre parte a ideia de que só a vitória de Seguro garante a defesa da Constituição e dos seus valores. Mais uma vez é uma retórica com vários problemas, a começar pelo se assumir que a nossa Constituição está escrita na pedra e nunca pode ser revista ou modificada. Não estou de acordo, como não estiveram de acordo as maiorias parlamentares de 1982 e 1989 que reviram substancialmente o texto constitucional apesar de também então haver quem garantisse que isso seria o fim do mundo, ou pelo menos o fim da democracia. Não foi, foi até o que permitiu tornarmo-nos numa democracia plena e não tutelada ou limitada.

Todos os partidos têm o direito de propor, no tempo certo, alterações à Constituição e a verdade é que o partido de André Ventura até já o fez em 2022. Será que essas propostas corresponderiam ao fim do regime constitucional? Sinceramente não creio, mesmo discordando de muitas delas. Na altura a que levantou mais controvérsia foi a criação da possibilidade de haver penas de prisão perpétua. Pessoalmente discordo, mas quando 25 dos actuais 27 países membros da União Europeia prevêem a possibilidade da prisão perpétua será que posso considerar que esse é um sinal do “fim dos direitos, liberdades e garantias” assegurados pelo actual texto constitucional?

Parece-me óbvio que não e também me parece óbvia outra coisa: há temas que hoje estão na discussão pública – nomeadamente os relativos à imigração e à nacionalidade – que até há bem pouco tempo eram considerados temas tabu. Quem quisesse debatê-los tinha logo de enfrentar uma chuva de insultos e de acusações. Era assim porque se queria impor uma determinada ortodoxia e calar, pela intimidação e pelo ostracismo social, quer discordasse. Formalmente não existia nem existe censura prévia, na prática havia e há um clima censório que poucos se atreviam e ainda atrevem a desafiar.

Mas há ou não há um risco para a democracia? É ou não verdade que a direita populista cria regimes autoritários, pelo que é melhor não correr qualquer risco e manter a política de “linhas vermelhas”?

A resposta a esta pergunta exige que olhemos para o que se tem passado noutros países europeus, sobretudo para aqueles onde partidos parecidos com o Chega já foram ou são governo. E a resposta é que apenas na Hungria nos deparamos com uma situação em que existe uma clara deriva autoritária e uma real eternização no poder, acontecendo porém que na Hungria tudo começou quando o partido de Viktor Orban ainda integrava a mesma família política europeia do nosso PSD, o PPE (Orban chegou pela segunda vez ao governo em 2010 e o seu Fidesz só saiu do PPE em 2021).

Temos depois situações onde partidos parecidos com o Chega já estiveram várias vezes em governos – a Áustria, a Finlândia, a Holanda, a Suécia, por exemplo –, tendo entrado e saído sem que a democracia acabasse. Na Polónia lideraram o governo durante muitos anos, governaram mal e por isso estão hoje na oposição, mesmo tendo eleito o Presidente da República. E quanto aos prognósticos de que a Itália regressaria ao fascismo quando Giorgia Meloni chegasse a primeira-ministra, estes revelaram-se não só errados como mistificadoras.

Por outras palavras: por mais que seja tentador fazer comparações com a Europa dos anos 30 do século passado, nem a Europa de hoje tem qualquer semelhança com a Europa desses anos negros, nem a maioria dos nossos actuais partidos populistas tem matrizes ideológicas sequer vagamente comparáveis (a não ser nalgumas franjas limite).

Vamos por isso ver se nos entendemos: esta segunda volta pode ser para escolher entre civilidade e alarvidade, entre europeísmo e nativismo, entre continuidade e ruptura, entre estatismo de esquerda e estatismo de direita, entre boa educação e má educação, entre serenidade e excitação, entre cordialidade e demagogia, entre institucionalismo e subversão das normas, pode ser sobre estes temas e muitos mais mas não é nem deve ser apresentada como uma escolha entre democracia e regresso ao autoritarismo. Até por ser um discurso perigoso para a própria saúde da democracia pois, para sectores importantes do eleitorado, sobretudo do eleitorado mais jovem e que já nasceu muitos anos depois do 25 de Abril, acaba-se a associar democracia a um estado do país que os deixa profundamente descontentes e insatisfeitos.

Infelizmente este risco existe – basta olhar para os estudos de opinião que revelam a degradação da ideia democrática entre as gerações mais novas. Essas gerações exigem mudanças porque são quem está, em termos relativos, a perder nas sociedades mais desenvolvidas. Em Portugal, por enquanto, ainda preferem candidatos mais institucionais, mas que propõem mudanças (o candidato mais votado pelos jovens foi Cotrim Figueiredo), mas se lhes disser que tudo é intocável a começar pela Constituição e a continuar nos políticos de sempre, um dia destes temos uma surpresa.

Ou melhor, já tivemos essa surpresa: André Ventura está na segunda volta.

https://observador.pt/opiniao/quanto-mais-chamarem-fascista-a-ventura-mais-ele-agradece/

quarta-feira, 14 de julho de 2010

Algumas memórias, muita história política

Memórias

Algumas memórias, muita história política

  • Álvaro Cunhal - Sete Fôlegos do Combatente
  • Carlos Brito
  • Edições Nelson de Matos
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  • Carlos Brito reconstitui um Cunhal sempre à vontade entre militantes, mas muito menos à vontade fora destes círculos de proximidade e longe do modo de vida do povo em nome do qual combatia
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    Quem procurar em "Álvaro Cunhal - Sete Fôlegos do Combatente" pormenores sobre a vida íntima, ou mesmo sobre a vida privada, do líder histórico do PCP irá ao engano. Apesar de se apresentar como um livro de memórias, e de o autor ter privado de perto durante mais de três décadas com o antigo secretário-geral, este é um livro político onde os episódios que Carlos Brito recorda servem, sobretudo, para sublinhar ou ilustrar opções políticas.
    Álvaro Cunhal nunca quis expor-se publicamente. Ele representava "o partido", e apenas "o partido", com todas as consequências que isso tem e que Carlos Brito mostra bem neste livro. Por isso sempre foi grande a curiosidade por saber mais sobre a vida privada do líder comunista. Tinha família? Como se relacionava com os filhos? Onde morava? Como ocupava os tempos livres? Cunhal quase nunca permitiu que o véu se levantasse, e sempre que o fez foi apenas parcialmente. Quando não quase desastradamente, como sucedeu na altura em que aceitou falar um pouco de si numa entrevista à RTP e acabou a dizer que vivia com o salário mínimo e isso lhe chegava, deixando furiosos os sindicalistas do PCP. Pior: sem que, como se conta neste livro, tivesse esclarecido que o bonito fato que tinha vestido, assim como a sua gravata de seda, haviam sido ofertas de camaradas comunistas...
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    Esta regra de discrição não é quebrada por Carlos Brito - como não fora quebrada por José Pacheco Pereira nos três volumes que já editou sobre a vida de Cunhal. Há muitos episódios particulares que são recordados neste livro, mas quase todos se relacionam com a forma como Cunhal tomava decisões políticas, lidava com os quadros comunistas ou impunha a sua vontade. Vemos confirmada a forma como estava como peixe na água nos conclaves do movimento comunista internacional, acompanhamos o cuidado que tinha na redacção da maioria dos documentos do PCP, somos levados a recordar a forma fria como lidava com os que entravam em divergência - mas nunca passamos para lá da linha que protege a vida privada de Cunhal. Mesmo a sua aproximação da Fernanda Barroso, a última companheira, é descrita unicamente para mostrar como era discreto, mesmo entre camaradas, quando tocava aos que lhe eram mais próximos.
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    Ainda assim, a leitura deste "Álvaro Cunhal - Sete Fôlegos do Combatente" não nos leva apenas a revisitar as suas sucessivas posições políticas - os seus "fôlegos" (ver texto na pág. 26 e segs.) -, antes humaniza o dirigente político que, na escrita solta e escorreita de Carlos Brito nos surge com mais espessura do que na literatura oficialista. Por vezes isso beneficia Cunhal, outras vezes revela-nos um homem demasiado preso pela ideologia e incapaz de imaginar um PCP diferente do "seu" PCP.
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    Entre os aspectos mais curiosos do livro encontramos, por exemplo, a descrição detalhada da forma como as suas relações com a esquerda militar, no Verão Quente de 1975, se foram degradando ao ponto de marcar distâncias relativamente a Vasco Gonçalves. A sua crítica aos excessos de entusiasmo dos que acreditavam ser "a vanguarda" traduziu-se mesmo, mais tarde, na sua frontal oposição à nomeação de José Saramago para a direcção de "o diário" em 1976, pois não apreciara o seu radicalismo quando estivera à frente do "Diário de Notícias" em 1975. À conta dessa oposição, Saramago acabaria por deixar os jornais para, no Alentejo, com o apoio das estruturas locais do PCP, preparar o seu primeiro romance de grande impacto, "Levantado do Chão".
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    Um outro episódio muito sintomático da sua habilidade para resolver situações potencialmente complicadas é o da deslocação de um deputado do PCP numa delegação oficial a Marrocos. O deputado recusou-se terminantemente a usar gravata até que Cunhal sugeriu que, para cumprir com o protocolo do Reino, adoptasse um traje regional português, o que aterrorizou de tal forma esse militante que logo mandou vir as gravatas...
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    Mesmo assim, o que sobressai deste livro é a figura de um Cunhal sempre à vontade entre militantes e quando se fechava para escrever os documentos programáticos do partido e os seus discursos (por regra nunca falava de improviso), mas muito menos à vontade quando saía destes círculos de proximidade. Um Cunhal que, como se reconhece a dado momento, estava longe do sentir e da forma de viver do povo em nome do qual combatia.
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    Uma nota final: um livro como este ganharia imenso com um índice remissivo. É mesmo incompreensível como os editores portugueses continuam a menosprezar este importante instrumento de leitura.