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quinta-feira, 2 de setembro de 2021

Valdemar Cruz - 100 objetos que contam histórias de um século de vida do PCP

 SOCIEDADE

 * Valdemar Cruz, Jornalista



Na noite de 28 de fevereiro de 1935, no Barreiro, a luz foi cortada e, protegidos pela escuridão, militantes comunistas espalharam propaganda em diversas ruas. Numa ação espetacular, içaram oito bandeiras vermelhas com a foice e o martelo

Da caixa de fósforos da casa clandestina ao jogo de xadrez feito com pão, da bicicleta do funcionário ao violino construído na prisão, da marmita para esconder o “Avante!” à máquina de escrever silenciosa, da bandeira hasteada no Barreiro em 1935 à primeira pedra arremessada no ataque ao Centro de Trabalho de Aveiro em 1975, o livro “Vozes ao Alto!” conta 100 histórias contidas na história do PCP. Neste artigo, contamos - e mostramos - uma vintena delas

2 SETEMBRO 2021 12:27


Éum mergulho profundo num mar de histórias materializadas a partir das narrativas contidas nos objetos mais díspares e inimagináveis. Intitulado “Vozes ao alto!”, o livro a lançar esta sexta-feira na festa do “Avante!” propõe-se, com base num intenso trabalho de recolha de objetos, alguns óbvios, outros de presença e importância inesperada, contar os múltiplos caminhos seguidos pela vivência dos comunistas portugueses durante um século.

Dividido em três períodos distintos, começa em 1921 e abrange os primeiros cinco anos de existência do PCP, numa legalidade precária que corresponde à crise final da Primeira República. Segue pelos 48 anos de resistência na clandestinidade, entre 1926 e 1974. E conclui com os já 45 anos de vivência em regime democrático.

Projeto coletivo concretizado através de financiamento colaborativo ao qual aderiram centenas de pessoas através das redes sociais, o livro foi elaborado com fotografias dos premiados Adriano Miranda, Egídio Santos e Paulo Pimenta, e textos de Cristina Nogueira, doutorada em Ciências da Educação e investigadora de História Contemporânea da Universidade Nova de Lisboa, Isabel Nogueira, psicóloga, Maria Alice Samara, doutorada em História Institucional e Política Contemporânea, e Vanessa de Almeida, licenciada em História e com mestrado em Antropologia. Não são todos comunistas, ou militantes do PCP. Como escreve o historiador Manuel Loff no prefácio, “não é preciso ser-se militante comunista para partilhar uma parte da cultura da sociabilidade comunista, mesmo que apenas, como fazem todas/os estas/es autoras/es, na afirmação pública do reconhecimento das motivações e dos valores que fundamentaram a conceção e a preservação de cada um destes objetos”.

UM VESTIDO EM CAXIAS
Começaram a envolver-se nesta aventura aos poucos, inspirados por fragmentos, ideias dispersas, curtas passagens de leituras diversas, como quando alguém chamada Conceição disse ter feito um vestido em Caxias. Ou a partir dos múltiplos significados e inimaginável importância de um objeto tão comum como uma caixa de fósforos, percepcionada durante a leitura de um artigo assinado por uma “Leonor”, publicado em “A Voz dos Camaradas”.

Depois começam as perguntas. Por exemplo, porque era tão importante uma caixa de fósforos numa casa clandestina? “Leonor” era Margarida Tengarrinha e dá a resposta no tal artigo, que se intitulava “A caixa de fósforos do Partido”. Ao referir-se àquele objeto afinal tão discreto, Tengarrinha, citada no livro, escreveu: “Acreditem que isto não é dar excessiva importância aos objetos, nem mesmo querer tornar simbólica uma questão de pormenor. Mas a ‘caixa de fósforos do Partido’ representa ainda hoje para mim a disciplina constante que se educa nas pequenas como nas grandes coisas”.

O PRIMEIRO COMUNICADO
A viagem de um século proporcionada por este livro é impressionante. Abre com a reprodução de uma folha de papel de 104 por 76 centímetros encontrada na Torre do Tombo. É uma proclamação intitulada “Ao País”, data de 1921 e é tido como o primeiro comunicado do PCP. Foi apreendido pela polícia na algibeira de um jovem barbeiro oriundo do Porto, José Carlos Rodrigues Frias, às 7 horas da manhã do dia 13 de março de 1922 numa morada na Calçada de S. Vicente, em Lisboa.

Depois, é um constante navegar por uma verdadeira galáxia de objetos, alguns icónicos, outros apenas reflexo de um quotidiano vernacular. Podem incluir o cartão de militante, datado de 1925 e ainda chamado “bilhete de identidade”, a bandeira do PCP hasteada no Barreiro no dia 28 de fevereiro de 1935, depositada na Torre do Tombo e referente a um processo em que os réus são acusados do crime de "propaganda revolucionária". Naquele dia, pelas 22h15, é cortada a luz elétrica na vila e impõe-se a escuridão total. Militantes comunistas aproveitam para espalhar materiais de propaganda e são içadas oito bandeiras vermelhas, uma delas de grandes dimensões, no topo da chaminé de 36 metros de altura das Oficinas Gerais dos caminhos de ferro.

UM VIOLINO CONSTRUÍDO NO CAMPO DE CONCENTRAÇÃO
Há objetos inusitados, como um violino construído no campo de concentração do Tarrafal, em Cabo Verde, por um comunista da Marinha Grande, algures entre 1936 e 1953. Se há um elemento icónico da clandestinidade comunista é a bicicleta utilizada por funcionários nas deslocações pelo país. Também lá está representada, tal como uma das brochuras mais míticas de quantas foram criadas pelo PCP: “Se Fores Preso, Camarada...”. O livro reproduz a primeira edição, de 1947, com capa azul e a foice e o martelo. Não é indicado o autor, mas sabe-se ter sido Álvaro Cunhal a perceber a necessidade absoluta de escrever um texto com recomendações para melhor ser enfrentada a duríssima prova da prisão e tortura. Como se explica no livro, “a leitura e a discussão desta obra eram obrigatórias. Nesta revela-se aquilo que o preso devia esperar, os métodos de tortura aplicados, bem como as alucinações daí resultantes. Descrevem-se os espancamentos ‘durante horas e horas a cavalo-marinho com grossas tábuas’, os ‘apertos de testículos, queimaduras com faíscas elétricas e com cigarros, pancadas brutais nas plantas dos pés descalços’, a tortura do sono, a estátua, assim como a incomunicabilidade”, a representação de papéis pela PIDE, com o polícia bom versus o polícia mau, bem como as permanentes ameaças e calúnias.

Por tudo isto, a brochura termina com um apelo ao orgulho do resistente: “Se fores preso, camarada, e souberes vencer as torturas e as horas difíceis, e se souberes honrar o teu nome de comunista, e se não prestares à polícia fascista, a esses inimigos do povo, quaisquer declarações prejudiciais ao Partido -, sentirás uma profunda alegria pelo teu próprio comportamento, ficarás profundamente satisfeito pela tua firmeza, pela confiança em ti próprio, e pela confiança e consideração do Partido, dos teus camaradas, da classe operária, dos trabalhadores, de todos os portugueses honrados.”

UMA COISA ESTRANHA
Os autores deixam bem claro não pretenderem com este livro elaborar uma história do PCP. Quando muito, serão contributos para uma melhor compreensão do universo comunista ao longo de vários períodos históricos. Na sua diversidade, os objetos representados – e são estes como poderiam ser muitos outros – abrem espaços de reflexão, não apenas para a história do PCP, como para a do mundo em que o partido nasceu, cresceu e se solidificou. Como escreve Manuel Loff, “estes cem anos confundem-se inevitavelmente com a história do país e do mundo em que o PCP existiu e existe, mas para o observador desatento, muito do que aqui se mostra, se explica, se recorda, pode parecer ter uma natureza estranha – porque, á luz da cultura política dos últimos quarenta anos, a clandestinidade é estranha, é estranha a decisão de dedicar uma vida inteira à luta política (quer a clandestina, quer a da democracia, como muitos comunistas, desde há quase meio século dedicam), estranha é a experiência da prisão política, que fica absolutamente longínqua da imaginação que a grande maioria de nós e dos nossos contemporâneos tem do que faz parte do campo do possível, do provável na vida colectiva dos portugueses”.

A HISTÓRIA DE UMA PEDRA DE CALÇADA
Há objetos, sublinha o historiador “que quase marcam a continuidade entre dois ciclos de resistência – a resistência antifascista contra a ditadura e a resistência antifascista face á contrarrevolução. Em ambas esteve o PCP na primeira fila. É aqui que aparece uma pedra da calçada” conservada por um militante de Aveiro como prova material do ataque aos Centros de Trabalho (CT) do PCP perpetrados, sobretudo no norte do país, no Verão Quente de 1975, com destruição de Centros de Trabalho, ataques bombistas, assassinatos.

Esse é um passado, sublinha Loff, “de que quase não se fala quando se faz a história da Revolução Portuguesa. Aquelas pedras da calçada, eram pedras preparadas para matar, como se escreve no livro e constituíam apenas um dos elementos do imenso manancial de artefactos usados, escreve o historiador, pelo sortido mundo da contrarrevolução, “nessa bizarra (mas reveladora) coligação que ia da extrema-direita ao PS, passando pela hierarquia da igreja católica, ex-combatentes organizados e caciques locais”. Tentaram, e em muitos casos conseguiram, destruir “centenas de espaços que os comunistas e militantes de outros partidos e de sindicatos de esquerda tinham transformado nas suas sedes políticas e espaços de convívio”.
 
O livro tem duas formas de leitura, ou duas capas. A primeira, a azul, abrange a curta existência legal, entre 1921 e 1926, e o período de clandestinidade, de 1926 a 1974. A capa vermelha remete para o tempo da liberdade, entre 1974 e 2021

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https://expresso.pt/sociedade/2021-09-02-100-objetos-que-contam-historias-de-um-seculo-de-vida-do-PCP-56e9f6c0 

quinta-feira, 11 de março de 2021

Pedro Pezarat Correia - Relatório de Sevícias ou (Se)viciado?

* Pedro Pezarat Correia   

«Vivemos hoje uma fase política insidiosa em que uma onda revanchista, inspirada na extrema direita populista, tudo aproveita numa sinistra manobra cujo objetivo final é o ajuste de contas com o 25 de Abril. Depois do aproveitamento da morte Marcelino da Mata, “uma operação de abutres” como certeiramente lhe chamou Matos Gomes ressurge, com idêntico carimbo, o Relatório das Sevícias.»

Entramos na semana do 11 de Março em que se somam 46 anos sobre o frustrado golpe de setores militares spinolistas que tinham na retaguarda, muitos sem o saberem, o MDLP e o ELP e visava inverter o processo revolucionário, impedir as eleições para a Constituinte e instaurar um “cesarismo” de poder pessoal. Culminou a contrarrevolução que se iniciara na própria noite 25 de Abril de 1974 com a emenda que Spínola, apoiado pela JSN, impôs ao Programa do MFA. As grandes roturas do PREC que aceleraram o ritmo da revolução foram, todas, mais do que iniciativas revolucionárias, respostas a golpes reacionários: Palma Carlos, 28 de Setembro, 11 de Março.

Vivemos hoje uma fase política insidiosa em que uma onda revanchista, inspirada na extrema direita populista, tudo aproveita numa sinistra manobra cujo objetivo final é o ajuste de contas com o 25 de Abril. Depois do aproveitamento da morte Marcelino da Mata (MM), “uma operação de abutres” como certeiramente lhe chamou Matos Gomes ressurge, com idêntico carimbo, o Relatório das Sevícias. Documento de 1976 foi, então, recebido com muitas reservas por membros do CR dada a óbvia intenção de salientar excessos em momentos críticos do PREC mas justificar os do 25 de Novembro.

Os canais da “oportuna” difusão do relatório, que nunca foi secreto, são os mesmos que se indignaram com a referência a atos criminosos da e na guerra colonial e é gritante, mas nada estranho, o dualismo de critérios que invocam. Sobre a guerra não há provas, não houve julgamentos, há que ter em conta o contexto bélico em que ocorreram. Quanto às sevícias, cuja gravidade não tem paralelo com aqueles, também não há provas, também não houve julgamentos, mas aqui o contexto, o de um processo revolucionário ameaçado por uma contrarrevolução violenta envolvendo o ELP, o MDLP, o Plano Maria da Fonte, a rede bombista, os apoios externos, não interessa. Os eventuais crimes da e na guerra há que esquecê-los para que não manchem a sua memória, as sevícias têm de ser apontadas para que não se esqueçam e não se repitam.

Há um pormenor que lhes escapa: os eventuais crimes da e na guerra colonial jazem no silêncio porque a ditadura os abafou e deles se serviu. As sevícias são públicas porque o próprio regime de Abril promoveu a sua investigação. Que importa isso?

A revivalista “glorificação” da guerra colonial, com o ignóbil aproveitamento da morte de MM, ensaiou uma manobra de diversão invocando os maus tratos que este sofrera no RALIS, nos quais tentou envolver Diniz de Almeida, um dos mais destacados militares do MFA. É obsceno. Diniz de Almeida é um homem digno, de caráter, corajoso e está acima dessa canalhice. Não estava no quartel, foi chamado com urgência para acudir à situação, logo que chegou resgatou MM, tirou-o das mãos dos “torquemadas” do MRPP. Isto é omitido no Relatório das Sevícias que, aliás, noutra passagem, até trata o MRPP como vítima. Não admira, no 25 de Novembro o MRPP foi “aliado” do Grupo dos Nove, esteve com os vencedores (efémeros) e viria a destacar-se nas represálias que, na sua sequência, também não faltaram.

É uma campanha aberrante e uma revisão da história. Se há algo consensual entre historiadores, politólogos, sociólogos, nacionais e estrangeiros, é a moderação da Revolução dos Cravos, o baixo nível de conflitualidade em que se desenvolveu, a tolerância com os responsáveis e torcionários do regime derrubado. E, é factual, os atos de maior violência tiveram sempre a marca da contrarrevolução.

Repito o que já escrevi, lamento que o PR esteja a deixar-se envolver nestas manobras sujas. Mas a mágoa maior, que me fere a alma, é “sentir” aí camaradas de Abril. Quem, conscientemente, participou no 25 de Abril, só por ignorância ou estupidez pôde surpreender-se por, com a instauração da liberdade plena, a guerra colonial ter ficado irremediavelmente condenada e, com ela, o próprio império. Se, hoje, capitães de Abril se sentem honrados por terem participado na guerra colonial, é porque admitem que os seus objetivos, a manutenção da ditadura e a preservação das colónias, eram justos. É então a altura de pedirem desculpa por terem participado no 25 de Abril que pôs fim à “honrosa” guerra e liquidou o império, essa nossa “pertença congénita”.

Por mim, estou tranquilo e em paz com o que fiz.

A terminar junto a minha voz às muitas outras que assinalam os 100 anos do PCP. Pelo seu passado de luta, foi precursor do 25 de Abril. Depois foi um dos partidos fundadores do regime democrático. Nunca tive e não terei qualquer ligação partidária, já concordei e já discordei do PCP. Hoje, como ontem, continuo a considerá-lo indispensável no processo democrático. É credor do meu respeito.

8 de Março de 2021

https://www.odiario.info/relatorio-de-sevicias-ou-seviciado/
  11.Mar.21     

segunda-feira, 8 de março de 2021

Daniel Oliveira - O que a democracia deve ao PCP

OPINIÃO 

* Daniel Oliveira  

Tenta-se apagar o que existiu para escrever o que poderia ter existido. Comparam-se 48 anos de ditadura com um ano de poder na rua. Mas a democracia deve muito ao PCP. Pela duríssima luta contra a ditadura. Por, a 25 de novembro, ter evitado uma guerra civil. Melo Antunes disse que o PCP seria indispensável. Foi fundamental para um poder autárquico vigoroso, foi defensor do Estado de Direito e esteve presente em todas as lutas sociais. Quem respeita a História assume estas dívidas para com os comunistas


Cresci numa família de comunistas. Interessava-me muito por política e filiei-me na Juventude Comunista Portuguesa (JCP) com 12 ou 13 anos, mal isso me foi permitido. Só de lá saí com 19 ou 20. As minhas discordâncias começaram por temas distantes: o que se passava na Polónia, a invasão do Afeganistão. Como é normal num processo inicial de politização, foram-se alargando a questões mais profundas e ideológicas. E, no confronto interno sobre estes temas, tornaram-se fatais perante as falhas formais na democracia interna. Quando uso o termo “formais”, não é para as diminuir. É que elas não são propriamente acompanhadas por ausência de debate interno. No PCP discute-se política e discorda-se. O problema é a representação dessas discordâncias. Só uns anos depois de deixar o PCP deixei de ser comunista. Só depois disso deixei de ser marxista. Tudo relativamente cedo na minha vida.

Talvez por ter sido tudo cedo, não sou um ressabiado com o PCP, como muitos ex-militantes. Nem tenho cordões umbilicais por cortar. Devo ao PCP boa parte da minha formação política e bons hábitos de trabalho. Na realidade, como o PCP se confunde com a minha família materna, devo-lhe mais do que aqui posso escrever. Não me arrependo de lá ter militado. Não tenho qualquer nostalgia desse tempo. Enfim, não tenho nada para resolver com o PCP.

No último sábado, o PCP comemorou cem anos da sua história. Não pretendo fazer aqui a radiografia desse século, que começa ainda na Primeira República. Num momento em que assistimos a uma inacreditável reescrita da História (ela é mesmo escrita e reescrita pelos vencedores de cada momento, por isso muitos debates sobre a verdade histórica são tão enganadores), pretendo apenas prestar tributo aos comunistas portugueses. Dizendo que a democracia lhes deve muito.

A tal reescrita da História quer apagar o que existiu e escrever sobre o que poderia ter existido se os comunistas tivessem conquistado o poder. Não conquistaram, não aconteceu. Há quem queira fazer pior, insultando com isso o sacrifício de milhares de pessoas: comparar 48 anos de ditadura com um ano de poder na rua. A isto chama-se desonestidade intelectual.

A primeira dívida da democracia para com o PCP é óbvia: a duríssima e heroica luta contra uma ditadura em que, ao contrário do que se tenta pintar, a repressão teve momentos especialmente brutais. Tive a oportunidade de conhecer e privar, ainda jovem, com algumas das suas vítimas. Um privilégio, porque a cultura do elogio ao coletivo manteve muitas dessas memórias demasiado discretas. Pelo menos as contadas na primeira pessoa.

Os comunistas não foram os únicos a resistir. Longe disso. Nem os únicos a sofrer o cárcere e a tortura. Mas foram os mais resilientes. Muitos dos seus militantes foram barbaramente torturados (com especial violência os que tinham origens mais populares) e muitos morreram ou perderam vidas inteiras na clandestinidade e na prisão, sem chegarem a conhecer o dia da libertação do país. A História poderia ser outra, mas foi esta. Quem a respeita a História assume esta dívida para com os comunistas. Nas ditaduras do leste europeu, a dívida dos democratas é para com outros espaços políticos. Quando vivi em Praga, já depois da queda do socialismo real, aprendi a respeitar muitas pessoas distantes do meu espaço político pelo que sofreram com a repressão comunista. Pelo menos as que, como aconteceu por cá, não descobriram que eram democratas no dia seguinte à queda da ditadura. Aqui, a dívida é para com os comunistas, antes de tudo.

Mas a dívida não acaba no dia 25 de Abril. Um dia se fará a história do PREC, talvez mais distanciada do que hoje. O período foi bem mais confuso no papel de cada um do que parece e nem todos os que se pintam como moderados o foram então – é ouvir o PPD a saudar a nacionalização da banca e a apelar à continuação da “luta anticapitalista” para perceber como tudo é hoje recontado em versão simplificada. Perante um cenário político e institucional mais ou menos caótico, o PCP estava muitíssimo longe de ter o controlo absoluto do processo revolucionário. Mas a tal dívida veio depois. Quando o 25 de novembro chegou (e eu sou dos que acha que ele era inevitável e necessário naquele momento), os comunistas não reagiram. Essa passividade pode ter sido negociada. Ao não reagir, talvez por saber que o processo revolucionário tinha entrado numa fase descontrolada, os comunistas evitaram uma guerra civil. Não sei se o PCP se orgulhará deste pragmatismo responsável, mas é outra dívida que temos para com ele.

No dia 26 de novembro de 1975, Melo Antunes, a figura politicamente mais sólida do MFA e do “grupo dos nove”, disse que o PCP era indispensável ao país e, como era habitual dizer-se na altura, do PPD à extrema-esquerda, era necessário para a construção do socialismo. Dava o sinal que a direita revanchista não o conseguiria ilegalizar de novo, como desejava. Os anos seguintes provaram que Melo Antunes tinha razão.

O PCP foi fundamental para a construção de um poder autárquico vigoroso, que contribuiu para dotar o país de infraestruturas básicas e fazê-lo sair do atraso vergonhoso em que se encontrava – não, não começou tudo quando entrámos na CEE. Esteve sempre do lado dos valores constitucionais que fundaram a nossa democracia e nunca foi, em todos estes anos de democracia constitucional, mais do que um aliado do Estado de Direito, ao contrário de outros com que está na moda ser comparado. A não ser, claro, que se ache que a defesa das 35 horas semanais para a Função Pública seja comparável à castração química de pedófilos. Esteve presente em todas as lutas sociais que garantiram direitos sem os quais a democracia é só para alguns. E foi fundamental no reforço do movimento sindical até ao momento em que, na minha opinião, o asfixiou com o seu sectarismo (o maior defeito do PCP, mas não está sozinho na política portuguesa).

Hoje, para além da sua participação quotidiana no processo democrático, o PCP é o dique que sobra ao crescimento da extrema-direita para fora do espaço que lhe pode ser, por assim dizer, natural. Quem o queira enfraquecer terá de lidar com as consequências de perder um partido que representa partes excluídas destes novos tempos. De perder o partido que transporta consigo a memória de um século em que os mais explorados se organizaram para resistir. Precisamos dessa memória. Com todos os erros e falhas, devemos ao PCP um século de luta. Por tudo isto, dou os parabéns e agradeço ao Partido Comunista Português.

8 MARÇO 2021 8:47

https://expresso.pt/opiniao/2021-03-08-O-que-a-democracia-deve-ao-PCP

sábado, 6 de março de 2021

Fernanda Câncio - "Não houve nenhum comunista que não tivesse morrido sem ver a utopia realizada"

O que é, como é, para que é ser comunista em 2021, em Portugal, 173 anos após a publicação do manifesto comunista e no centenário do PCP? Como se lida com o declínio da expressão eleitoral, a "falência das grandes narrativas", o abjurar dos regimes farol e a conversão ao parlamentarismo? Sete jovens comunistas respondem.

Fernanda Câncio

06 Março 2021 — 00:29

"Quando os comunistas aparecem na vida de alguém é uma faca de dois gumes. Porque nos acordam para o que nos rodeia e ficamos quase deprimidos com a vantagem que o capitalismo nos leva. Mas também nos inserem num coletivo que dá esperança."

Guilherme Freches, 28 anos, foi uma das pessoas que responderam ao apelo feito no Twitter para que "comunistas novos, médios e antigos" falassem para esta reportagem.

E comunista é, declara. O que passa por "dois pontos: acordar para as contradições do sistema capitalista em que vivemos, perceber que existe uma classe de exploradores e outra de explorados, e que isso não tem nada a ver com o nível de riqueza do explorado - posso trabalhar na Google e receber 250 mil euros por ano e continuo a ser explorado por causa da mais-valia do meu trabalho -, e a ação no dia-a-dia, de acordo com a realidade onde vivemos." Que significa, explica, "mesmo não havendo as condições para passar para a sociedade sem classes, lutar para minimizar as consequências do capitalismo. Ser comunista não é só dizer que o capitalismo é mau. Não é por exemplo um aumento de 10 euros nos salários que vai trazer o socialismo - mas vai melhorar as condições de vida das pessoas. Fazemos o que podemos."

Natural do Fundão e engenheiro, Guilherme, que está a fazer uma tese de doutoramento sobre neurociência na Holanda depois de ter feito investigação em Portugal e de ter trabalhado na banca, foi cabeça de lista pela CDU à Assembleia Municipal nas últimas autárquicas e eleito como deputado municipal. Mas apesar de ter entrado na Juventude Comunista Portuguesa (JCP) aos 16 e de sempre ter votado no PCP não é militante do partido por, explica, "não me conseguir descrever como marxista-leninista."

Marxismo tudo bem, prossegue. "Mas o PCP é marxista-leninista e tenho uma discordância respeitosa com o leninismo. Não concordo com a ideia do partido de vanguarda, em que há a figura dos revolucionários profissionais, os que têm de fazer a revolução antes dos trabalhadores. Acho que antes de se fazer uma revolução tem de se pôr o povo desse lado."

Além disso, diz, "trabalho em ciências exatas, não sou um filósofo, não tenho bagagem de pensamento marxista muito pura. Tenho receio de dizer coisas da boca para fora que possam chocar com o partido, mesmo se nunca senti marginalização por exprimir certas opiniões que não iam ao encontro da opinião maioritária, tenho uma relação muito boa com o partido mesmo se às vezes discordo."

De resto, o chamado "centralismo democrático" não o preocupa. "Há uma discussão forte dentro do partido e depois chega-se a uma conclusão e para."

"Não posso fingir que não vivo no mundo onde vivo"

A eutanásia é uma das suas discordâncias face à linha oficial. Mas crê injusta a crítica recorrente que se faz ao PCP de ser "muito conservador em termos de costumes": "Acho que tem mais a ver com o partido não concordar com lutas que podem ser instrumentalizadas. Mas admito que o Bloco - que não vejo como adversário - apanhou as lutas contra a homofobia e o machismo, por exemplo, e o PCP perdeu por falta de comparência. E por vezes não tem conseguido passar bem a mensagem."

Aquilo que é descrito como "ortodoxia", uma das acusações mais comummente feitas ao PCP, não o incomoda, porém. "Não acho que seja necessariamente uma coisa má, porque associo à consistência. Mesmo se não tenho problemas em votar num partido que muda de opinião". Por exemplo "o PCP tem feito um esforço, nos últimos tempos, para mostrar que não tem modelos em regimes doutros países, e não foi sempre assim."

Não foi decerto - e nota-se que o PCP só se demarcou dos regimes de leste ou de determinadas lideranças - Estaline, é um caso flagrante - quando estes caíram; enquanto estavam de pé recusava qualquer crítica e alegava não poder julgar por "não ter conhecimento". Guilherme justifica: "Há análises, sobre a URSS, por exemplo, que só mais tarde se fazem. O PCP com a sua longa idade entende que há processos que só ao longo de um certo tempo se percebem. E tem uma ligação emocional que não lhe permite fazer um corte de relações, por causa das relações de amizade que teve com os países." É ligação emocional ou incapacidade de reconhecer erros? Guilherme responde por si: "Se faço elogios à Coreia do Norte só pelo facto de resistirem ao imperialismo americano? Não, não faço."

Nascido numa família "que vota à esquerda mas sem tradição comunista", mãe animadora cultural e pai engenheiro civil, entrou na JCP depois de uma epifania na apanha da framboesa. "É um trabalho muito duro. Ganhava 23 euros ao dia e nas conversas da hora do almoço percebi que aquilo era vendido a 40 euros o quilo em Inglaterra." Fez as contas ao lucro e percebeu a exploração de que era objeto - a noção do roubo da mais-valia do seu trabalho. Falou com os pais e a mãe, que trabalhava na zona da Cova da Beira, comentou com colegas, alguns deles comunistas, a revolta do filho. "Houve um contacto da JCP comigo e comecei a fazer o percurso normal de ações de organização na escola, de encher autocarros para a festa do Avante!, etc. Quando fui para Lisboa, para estudar no Instituto Superior Técnico, continuei a militância na JCP, cheguei a ser membro da direção da Associação de Estudantes."

Entre as duas fases de investigação, esteve no setor financeiro. "Trabalhar na banca ajuda a descobrir os truques do capitalismo", comenta com uma gargalhada. E pergunta: "Mas onde é que eu como comunista posso trabalhar sendo consentâneo com os meus valores?" A ideia de que o comunista tem de fazer voto de pobreza é, conclui, ridícula: "Não posso fingir que não vivo no mundo onde vivo. É hipócrita participar no sistema enquanto tento derrubá-lo? Não me parece."

"Não vamos derrubar o atual regime pela força"

Derrubar o sistema. Na entrevista que deu à TVI na semana que passou, e a propósito dos 100 anos do partido de que é secretário-geral há quase 17 (desde novembro de 2004), Jerónimo de Sousa disse, enquanto fazia um gesto com a mão como se afastasse algo, uma frase que causou alguma sensação: "Isso da "revolução já" é uma coisa que não acontecerá."

Lida a frase tem duas interpretações possíveis, mas a entoação não parece deixar dúvidas: "a revolução já", ou seja, no imediato, "é uma coisa que não vai acontecer". Como o entrevistador não perguntou se o entrevistado continua a acreditar na revolução, e já agora o que entende por revolução, fica a interrogação, no entanto, sobre o alcance último do que o líder comunista disse.

O açoriano de São Jorge António Machado, 27 anos, militante desde os 18 e como Guilherme deputado municipal da CDU, acha porém "muito fácil perceber o que Jerónimo quis dizer: não vamos derrubar o atual regime pela força e pela via revolucionária." Ri. "Não vivemos propriamente num regime fascista - aí justificava-se uma revolução armada. Eventualmente quem terá ficado chocado são aqueles supostos comunistas que não se identificam com as nossas posições. Estamos entalados entre os que dizem que somos demasiado moderados e outros que dizem que somos a extrema-esquerda. Mas se queremos participar como partido democrático temos de respeitar a Constituição - aliás defendemo-la com unhas e dentes. O que não nos impede de continuarmos a ser o partido revolucionário que nasceu há 100 anos. Nunca nos desfazemos dos princípios. O que passa é que se calhar quando somos mais jovens somos mais radicais, depois ficamos mais calejados."

Calejado aos 27? De um lado e de outro do telefonema há risos. Filho de um político que foi candidato autárquico, como independente, quer do PSD quer do PS e CDU, António, que é licenciado em História e está a terminar o mestrado, sendo professor no terceiro ciclo e secundário, assume ter tido "uma educação muito conservadora", que em nada apontava para a sua opção ideológica - como de resto o lugar onde vive, "não propriamente um viveiro de comunistas, mesmo se ser comunista já foi mais malvisto aqui - havia a ideia de que os comunistas queriam acabar com o tudo o que é propriedade privada, dar tudo aos pobres. Acho que já perceberam que não é assim."

Mas foi lendo coisas - "fui muito autodidata" - e ao chegar aos 18 estava já completamente convicto não só do seu comunismo como de querer fazer parte do PCP. E é o quê, isso? "Acho que o que distingue o PCP dos outros partidos é nunca abandonar o barco da luta por quem trabalha - sempre estivemos ao lado dos trabalhadores, por mais pequena que seja a causa -, e os valores humanos de quem quer estar ao lado dos que precisam."

Uma deliberação de generosidade, solidariedade e empatia que parece no entanto congregar cada vez menos gente - desde os anos 1990 que o PCP/CDU tem vindo a perder eleitorado, e nas últimas legislativas não chegou aos 7%. António puxa da perspetiva histórica: "Estamos a celebrar 100 anos; já nos passaram o atestado de óbito demasiadas vezes para acreditar que isso vai acontecer. Como historiador acredito que são ciclos. E há ciclos negativos, já passámos alguns."

"Poderá nunca acontecer comunismo"

Ainda assim, o PCP é, entre os partidos comunistas da Europa ocidental, dos que mais resistiram; a maioria ou desapareceu ou foi reduzida à insignificância na sequência da chamada derrocada do Bloco de Leste. E ao fim de 41 anos de democracia como partido de oposição com o PS como inimigo íntimo (famosa expressão de Mário Soares sobre a sua relação com Álvaro Cunhal), ao qual acusava consecutivamente de prosseguir "políticas de direita", fez um acordo de governação. Princípio de um novo ciclo ou de um fim antecipado?

António não vê "o PCP a entrar num governo com o PS - dificilmente eu apoiaria isso". Mas o acordo de 2015 foi "a decisão certa: temos de analisar as coisas à luz dos acontecimentos, e vínhamos de uma governação de CDS/PSD em que se tinha batido tanto no fundo que não poderíamos permitir mais. Se é a solução ideal? Obviamente não é, mas não acho que seja um sapo que tenha de engolir. Apoiei o partido nisso. Acredito que em parte nos responsabilizem por erros do PS - mas tivemos de assumir um compromisso. Parece que há camaradas que se desligaram do partido por isso, mas não conheço ninguém que o tenha feito."

Em todo o caso o andar da carruagem, com a irrupção da extrema-direita, parece condenar os partidos à esquerda do PS a manter uma aliança cujos efeitos no seu eleitorado não são fáceis de interpretar. António, bem consciente do que se passou nos Açores, com a aliança de PSD, CDS e PPM com Chega e Iniciativa Liberal para viabilizar o governo dos primeiros, assente: "Obviamente que se a única solução for o PCP dar a mão ao PS para impedir a extrema-direita de chegar ao poder..."

A ideia de sair da moeda única - "que tanto baixou o nosso poder de compra" - e mesmo da UE, que considera "já não servir o país nos moldes atuais, tendo-nos feito perder o nosso ADN, com a retirada de soberania e de capacidade de produção" parece assim uma miragem cada vez mais longínqua. Mas, reconhece António, "é preciso trabalhar com o que há." Mesmo se, vinca, "não se aceita tudo o que nos dão."

O PCP não como motor da história, então, mas como uma influência de moderação? "Esta nova realidade está a transformar a esquerda num discurso muito social-democrata", admite João Lázaro, 35 anos, militante do PCP há 18. "E ainda bem. Não há força para todas as batalhas e é preciso proteger o trabalho, a democracia, o SNS, o Estado de direito. Se isso pode ser uma negação do ideal comunista?" Hesita. "O comunismo tem um lado muito utópico. Poderá nunca acontecer comunismo. Mas com os novos atores políticos a ganharem mais terreno, se calhar o movimento sindical tem de se moderar para preservar o que há. Eu por exemplo sinto-me muito mais moderado com esta nova conjuntura. Porque agora o que está em jogo é a Constituição - é preciso defender o Serviço Nacional de Saúde, resgatar os direitos perdidos com a troika e com os avanços da extrema-direita. E não há se calhar força suficiente para um contra-ataque."

A ideia de social-democracia que refere, especifica, não é certamente a do PSD. "É a do Karl Marx, a social-democracia revolucionária. E é preciso lembrar que o PCP é um dos partidos que fundou este regime. Tive algumas discussões com camaradas sobre o PCP não ser partido de sistema, mas claro que é um partido de sistema. Não é um partido revolucionário."

"Gostava de ver uma crítica mais profunda ao "socialismo real""

Como António, João, que vive na área metropolitana de Lisboa e trabalha como investigador do CIES-ISCTE, é de História. Está a fazer um tese de doutoramento sobre o movimento operário do século XIX em que analisa a correspondência entre Marx e Engels. "Como investigador de História tenho uma posição mais de crítica e de análise. E desde o 25 de Abril tem havido em Portugal um retrocesso no campo operário e no sindicalismo."

Afastado, por "falta de disponibilidade", da vida interna do partido depois de a dada altura ter tido "tarefas de organização", continua no entanto a pagar quotas e a comprar o Avante!, o órgão oficial. Quando entrou na JCP, em 2003, era, confessa "muito pouco politizado". "A minha entrada foi um bocado ligada à música. Fui a um concerto em que estavam a distribuir uma convocatória da JCP para uma manifestação contra a guerra do Iraque, fui à manifestação e inscrevi-me. Estive na guerra contra as propinas no secundário, depois trabalhei em fábricas. Só entrei na faculdade aos 22 anos, já filiado no PCP."

Gostou muito do que viu no partido - "Aprendi muito e conheci camaradas e militantes que dão muito à causa sem ter nada em troca" - mas "com o passar dos anos há divergências, é normal. Porque o comunismo, que nunca foi realizado em lado nenhum, é diferente para cada um dos comunistas. Nesta lógica de nunca se ter lá chegado e se calhar nunca se ir chegar."

Como Guilherme, gostaria que o partido tivesse votado a favor da eutanásia, e se opusesse à tourada ("Rompe com uma longa tradição no movimento operário português contra as touradas, iniciada em 1869 no Centro Promotor, que vai continuar a existir no antigo Partido Socialista, que é uma voz crítica à construção da praça de Touros no Campo Pequeno, e no I Congresso do PCP, em 1923, quando é aprovada a proposta de "extinção dos espetáculos de tauromaquia" - cito de cabeça"). E de "ver uma crítica mais profunda ao "socialismo real". Porque a meu ver a URSS é uma experiência fracassada que teve aspetos positivos mas era necessário aprofundar esse debate. Teria de se fazer uma crítica mais profunda dessas experiências."

Há quem, pelo contrário, ache que está bem assim. Caso de Mónica, a única militante do PCP, de todas as contactadas, que aceitou falar com o DN, e que prefere não divulgar o apelido: "Acho que o PCP sempre se demarcou das experiencias que não correram bem nos países que se disseram comunistas. Para mim aquilo nunca foi comunismo."

"O PCP é demasiado bem comportado, pouco revolucionário"

Nascida há 37 anos em Lisboa, Mónica, licenciada em Estudos Asiáticos e mestranda em Ciência Política e Relações Internacionais na Universidade Nova de Lisboa, trabalha como intérprete para uma empresa mineira, e reside normalmente em Antuérpia, na Bélgica. Inscreveu-se no PCP em 2018. "Fui simpatizante toda a vida mas só agora decidi ser militante. Fui para o PCP sozinha: a minha família é de esquerda mas não se motivam muito pela política e nem entre os meus amigos há comunistas. À minha volta não tenho ninguém com as minhas ideias. Porém desde a adolescência que acho que é o partido que sempre lutou mais pelos direitos das pessoas. E sinto um orgulho imenso e um sentimento de pertença. Há um lado de grande emoção coletiva e entusiasmo que este partido tem, principalmente pela parte das pessoas que estiveram na luta antifascista. Tenho memória histórica apesar de não ter vivido isso."

Sente também, porém, que "o PCP não é muito bem visto. Há um grande preconceito. As pessoas de fora, quer em Portugal quer na Bélgica, não compreendem a dinâmica do partido. Há a ideia de que é uma coisa desatualizada." A sua voz, porém, atesta a paixão. "Sabe, há coisas muito bonitas que as pessoas de fora desconhecem, a extraordinária solidariedade que existe entre camaradas. Por exemplo se alguém estiver doente e não tiver dinheiro alguém indica um médico comunista que não cobra a consulta."

Pedindo-se-lhe para definir o que é ser comunista, Mónica começa pela tautologia: "Desde logo é pertencer ao PCP, respeitar os estatutos do partido, tentar implementar uma sociedade socialista mais igualitária." Hesita. "Não pensei no que é essa definição. Mas é lutar por uma sociedade que possa combater as injustiças sociais, acabar com a pobreza, querer um sistema de saúde que sirva a todos, um serviço de educação que dê oportunidades a todos. A igualdade de direitos, a fraternidade e a solidariedade humana numa sociedade aberta ao mundo."

Afonso Franco, 20 anos, tem problemas com a definição de Mónica do que é ser comunista. Desde logo porque se afirma como tal e não é do PCP, e não quer ser - "Não para já pelo menos."

Porquê? "Há algumas coisas que o PCP faz que não percebo. Falta-lhe uma veia verdadeiramente revolucionária, como ao Bloco. Em O esquerdismo, doença infantil do comunismo [ensaio de 1920], Lenine fala dos legalismos e diz que até o próprio parlamentarismo pode ser usado como meio de descredibilizar as instituições. Mas o PCP é demasiado respeitador das instituições, demasiado bem comportado, pouco revolucionário. E acho que não há grande hipótese de deixar de ser isso."

Exemplifica: "João Ferreira fez uma campanha presidencial toda à volta da Constituição e da sua defesa. Mas a Constituição defende a propriedade privada." E como imagina este estudante de jornalismo no Instituto Politécnico de Portalegre um partido revolucionário numa democracia parlamentar? Afonso não se atrapalha: "Poderia ser o tal partido comunista revolucionário que se recusava a participar no parlamento ou em qualquer mecanismo democrata. Ou podia, como o partido bolchevique russo, participar no parlamento e conseguir fazer uma revolução sem ter a maioria. Um partido pode participar nas eleições democráticas e mesmo assim ser revolucionário. Pode haver margem de negociação com outros partidos mas não sempre."

"Como é que fazes uma revolução hoje?"

A negociação da "geringonça", por exemplo, pareceu-lhe bem. "Não tenho muita opinião sobre isso, mas acho que a situação foi a melhor para tirar a direita do poder. Se foi mau para o PCP não sei nem me interessa muito, foi bom para o país."

Tendo-se descoberto comunista há nove meses - "Foi um processo de radicalização na pandemia mais por causa do Twitter, comecei a seguir comunistas, a concordar demasiado com eles (o que me afastou mais do Bloco foi a posição sobre a prostituição) e decidi comprar uns livros" - ganhou interesse por uma organização chamada Esquerda Revolucionária que faz parte, explica, de "um movimento internacional". "Têm bibliografia recomendada. Li o Manifesto Comunista, de Marx e Engels, O Estado e a revolução, de Lenine, uns livros de Cunhal e agora vou começar no Trotsky - autor que o PCP não recomenda, naturalmente."

E como defines ser comunista? "Hum. Talvez como afirmação de um traço de caráter de uma pessoa. Perceber como se situa no espectro da esquerda - se defende verdadeiramente o homem livre, aquele que não depende de nada para tomar as suas decisões. No capitalismo não se pode ser livre. Sinto um sentimento de revolta em relação a isso: as pessoas se quiserem parar de trabalhar um dia não podem, porque morrem à fome."

Afirmando-se "contra o trabalho assalariado", Afonso admite "esperar bem ter um salário. Por eu defender uma sociedade diferente desta não quer dizer que não aceite viver nos termos desta e lutar para que o trabalho seja mais bem recompensado e reconhecido enquanto a outra sociedade não vem."

Ri: "Os meus pais foram sempre ligados à política - a minha mãe é do Bloco e chegou a ser candidata à Câmara, embora já não seja militante agora, e o meu pai oscila entre o BE e o PS. Com a sua veia reformista, perguntam-me: como é que fazes uma revolução hoje? Lenine defendia que se ocupava a praça e Trotsky ocupou as companhias de eletricidade e os jornais..."

E os jornais e o jornalismo continuam, cem anos depois, acha Afonso, a ser muito importantes. "Por exemplo há vários meses que os agricultores indianos estão a fazer manifestações de protesto, coordenados pelos partidos comunistas da Índia, e não se fala disso nos media."

Este outro entrevistado concorre: "Estamos a voltar um bocadinho à clandestinidade. Há muitas notícias que só encontro no Avante! O fundamental para aferir as intenções de voto das pessoas hoje tem a ver com a comunicação social clássica. A comunicação social manipulada por interesses económicos desinforma as pessoas. Se todos os portugueses se dessem ao trabalho de espreitar o jornal Avante! se calhar pensariam de forma muito diferente sobre o PCP."

"A minha militância tem de ser ainda, em 2021, clandestina"

Quando fala em clandestinidade o novo entrevistado não está exatamente a ser metafórico. O seu mail de resposta ao apelo no Twitter começa assim: "Teria um grande gosto em ajudar mas por infelizmente o preconceito e a discriminação relativamente a quem defende uma sociedade sem classes sociais, dita comunista, ser uma realidade que temos de enfrentar diariamente, com fortes represálias profissionais, impedimento no acesso a direitos e exclusão social, não está ao meu alcance a possibilidade de tornar pública a minha militância política e partidária, sob pena de prejudicar, mais do que a mim mesmo, aqueles com quem trabalho, vivo e com quem assumi o compromisso de ter projetos de longo prazo." Assina Pedro, 34 anos, lisboeta, trabalhador na área da cultura, militante do PCP há seis meses. "A minha militância tem infelizmente de ser, ainda hoje em 2021, clandestina. Por medo de represálias. Tal como acontece com a militância de muitos milhares entre os cerca de 50 mil afetos ao PCP"

Fala pois com o DN sob condição de anonimato. Sem militâncias políticas na família, votara ao longo da vida no BE, PS e CDU, até se encontrar com esta identidade. Um encontro para o qual teve importância "sentir que por mais que trabalhe a minha qualidade de vida não melhora".

Na definição é taxativo: "Sou comunista porque é a única proposta que encontro na história das ideias que permite que através dela se chegue a uma sociedade sem classes sociais. Acredito nisso e acho que seríamos todos felizes. O marxismo-leninismo é uma ideia que resiste."

Como conseguir continuar a acreditar numa coisa que ninguém conseguiu pôr em prática? É Pedro que coloca a questão clássica e lhe responde: "Houve muito poucas tentativas. Nos momentos em que correu mal foi justamente quando se traiu o ideal comunista. Porque se temos um ditador isso já é uma negação do ideal; o comunismo tem a ver com o coletivo. Mas temos no planeta todo, neste sistema capitalista que supostamente funciona, milhares de pessoas a morrer à fome."

Neto de operários que se considera "de algum modo operário, mas não numa fábrica", e filho de duas pessoas que "graças ao 25 de abril conseguiram entrar na universidade, quando antes não tinham perspetivas disso", tenta explicar o estigma associado um partido, que crê ter sido e ser ainda fundamental para o país. "É-me difícil perceber os preconceitos das pessoas. Mas se olharmos para a TV não vemos o PCP representado de forma natural. É um partido que não existe nos meios de comunicação. E depois ser do PCP é associado a ser pobre - e as pessoas não gostam de ser vistas como pobres."

Foi a noção desse olhar que o levou a só se inscrever agora. Mas sentiu que era a altura: "Tomei esta posição muito pelo crescimento da extrema-direita e por perceber que só o PCP oferece uma oposição coerente e consistente. Tem um legado de como saber lidar com a extrema-direita."

"O comunismo existe nas brechas do capitalismo"

Nuno André Patrício é o único nesta reportagem a ter nascido numa casa comunista. O pai, que morreu em janeiro, de Covid, foi militante ainda na clandestinidade, desde a tropa, a mão tinha sido da JCP. "O comunismo sempre existiu na minha casa. E havia aquelas conversas à mesa em que eu perguntava: "Então e a URSS? Então e a Coreia do Norte?"" Ri. "E o meu pai chamava-me pequeno-burguês e saía chateado da sala. As provocações do Twitter nessa altura eram à mesa de jantar."

Mas aos 37 anos Nuno, urbanista e arquiteto que trabalha, na sua própria descrição, em "políticas urbanas e direito à cidade", é militante há apenas "sete ou oito meses." Votava quase sempre no PCP, porém "tinha aquela coisa de pensar sou de esquerda mas não há nenhum partido com o qual me identifique".

Havia "o laço afetivo e familiar com o histórico do partido e a consciência de que muito do que temos hoje foi em grande parte contributo da sua luta", mas que o fez avançar foi, crê, a sua experiência no Brasil. "Estive nove anos no Rio de Janeiro, onde trabalhei com urbanização de favelas e habitação social, e percebi a importância da militância. Estar organizado e militar numa organização é importante. Podemos estar no Twitter e fazer o nosso trabalho mas é muito diferente estar organizado. Os trabalhadores organizados têm muito poder."

Também pesou a ascensão de Bolsonaro: "No Brasil perdeu-se a ligação às bases, e os evangélicos trabalharam isso. O vazio é sempre ocupado. Então achei que tinha de ultrapassar a visão mais individualista de não me identificar com tudo. Sabemos que há partidos que têm implantação no meio académico, numa elite urbana - posso-me considerar como classe média com estudos académicos - mas pensar o que serve mais os meus interesses não me faz muito sentido. Quero estar com quem representa aqueles que têm menos voz. Acho que a luta de classes ainda faz sentido."

Ser comunista é então "resistir, lutar contra a opressão deste sistema que está a destruir o planeta." Faz uma pausa, a voz volta mais suave. "Os comunistas têm muito esta coisa da perda das narrativas - "Perdemos, nunca se chegou lá". Mas acho que há comunismo todos os dias, sempre que há relações não mercantis, comunitárias. Há comunismo nas brechas do capitalismo."

"Porque é que a defesa do capitalismo não é um extremismo?"

Conta uma história: "Houve uma experiência no bairro de Francos, no Porto. Havia um terreno abandonado e as pessoas que viviam à volta, sobretudo as de um bairro social, começaram a cultivar, a fazer hortas, a criar galinhas, coelhos. Durante décadas. Produziam muita coisa, acudiam a carências sociais. Fui lá algumas vezes. Não se consideravam comunistas, mas para mim aquilo é o comunismo - quando as pessoas fazem coisas fora do sistema mercantil. A meu ver o que se pode construir do comunismo é abrir estas brechas. Mais do que trazer informação difícil de mastigar sobre o fim do capitalismo, fazer a pedagogia para a autonomia. Há um inglês, John Holloway, que escreveu um livro, Change the World Without Taking Power/Mudar o mundo sem tomar o poder, em que diz que o comunismo nunca existiu como regime mas existe nestas situações."

No Brasil, Nuno conheceu uma experiência dessas em grande escala, a Rede Ecológica, que consiste numa associação de agricultores de cultura familiar que vendem diretamente aos consumidores, a um preço mais baixo que o do supermercdo, e cuja certificação biológica é feita pelos próprios consumidores organizados. "O que considero ser comunista é muito este trabalho de base com pessoas. A melhor forma de tentar superar os problemas é de forma coletiva, organizada. Estou muito mais próximo disso, de um comunismo que lá na frente não precisa do Estado porque as pessoas vão conseguir organizar-se."

Sorri. "Não sou um grande teórico. Li o Capital, e nem sequer todo. E sei que isto que estou a dizer parece um sonho, é bonito - mas as pessoas chateiam-se umas com as outras, é normal." E não são todas boas; talvez ninguém o seja. George Orwell fez em Animal Farm uma fábula dolorosa sobre a traição do sonho, sobre como se abrem brechas nas brechas. Sobre a perda de horizonte, várias décadas antes de alguém usar a expressão "derrocada das grandes narrativas".

Sim, é complicado, admite Guilherme Freches. Mas estado natural do ser humano é o capitalismo e tudo o resto é extremismo?, pergunta. E responde: "Há muita gente que diz que o PCP e o Bloco são extrema-esquerda. Mas se são extremos porque se opõem ao capitalismo, porque é que a defesa do capitalismo não é um extremismo?"

É verdade que não houve, conclui, "nenhum comunista que não tivesse morrido sem ver a utopia realizada. Mas todos os passos nesse sentido são positivos. Gosto muito daquela frase de Jerónimo de Sousa: nem sempre se ganha mas sem lutar perde-se sempre."

https://www.dn.pt/politica/nao-houve-nenhum-comunista-que-nao-tivesse-morrido-sem-ver-a-utopia-realizada-13425013.html


Adriano Miranda - 100 anos sem perder um dia

* Adriano Miranda 

OPINIÃO -  

Portugal é um país de sorte por ter na sua família política um partido assim, feito de portugueses lutadores e abnegados.

Pelo gradeamento do Jardim da Estrela vi corpos nus deitados na pedra no hospital militar. Era criança. A minha mãe colocou a palma da sua mão sobre os meus olhos. O meu pai ficou por breves minutos agarrado ao gradeamento. Não fiz perguntas, e durante muito tempo aquela imagem assaltou os meus pensamentos na escuridão do meu quarto. Era uma criança feliz. Com uma família aparentemente normal. Julgava eu. Até ao dia em que a telefonia não se desligava e se falava baixinho num nervoso contido. Não fui à escola. Depois, vieram os abraços, o champanhe, a alegria, os novos amigos e as novas palavras. Na curiosidade dos meus oito anos, andei às cavalitas do meu tio para ver a multidão. Liberdade, fim à guerra, democracia, socialismo. E uma bandeira vermelha com uma estrela, uma foice e um martelo.

Chegou depois a hora de perceber porque nunca conheci o meu avô paterno. Foi assassinado pela ditadura. De descobrir porque o meu tio José foi preso — tinha uma tipografia clandestina. O porquê de o meu avô materno não querer que eu mexesse nos embrulhos de papel pardo — eram propaganda clandestina. De sentir homens a sair de casa de madrugada — eram camaradas. E de perceber que corpos eram aqueles deitados na pedra fria. Sentir o aconchego quente dos braços da minha mãe — filho, já não vais para a guerra.


Cresci no Partido. Rodeado de amigos. De talentos. Tanta e tanta coisa boa vivi e aprendi. Principalmente a tenacidade e a audácia. E a solidariedade. Guardo na minha memória e nas minhas convicções, homens e mulheres combativos e íntegros. Guardo o Samy que me ensinou a desenhar. Guardo o Marco que me ensinou francês. Guardo o Tó Zé que se fez pescador e por eles lutou. Guardo o Albino que sempre lutou pelos agricultores. Guardo o João Pereira que só abandonou as fábricas na hora da sua morte. Guardo a Arinda que sempre me viu quando alguma dor me inquietava. Guardo a Eurídice que sempre me visitou no hospital enquanto os pulmões recuperavam. Guardo o António e as viagens loucas na sua Jawa. Guardo o Vasco pela amizade. Guardo o Vidal pela sua combatividade. Guardo tantos e tantas. Gente de coração grande de utopia e realidade.


Vi depois gente a sair que nunca devia ter saído. Vi laivos de falta de democracia interna. Vi também desalento. Vi cristalização no discurso. Mas vi também que um comunista português é coisa ímpar no mundo. Contra ventos e marés, não se desvia um milímetro que seja, na luta em prol dos mais desfavorecidos. E curioso — sabem bem os comunistas portugueses que muitos desses desfavorecidos nunca transformarão o seu voto em agradecimento. É desproporcional a força dos comunistas na sociedade e nas urnas. Mas os comunistas portugueses não se cansam. Dou por mim a pensar de onde vem tanta energia.

São 100 anos de energia. Sem ter encerrado para balanço um dia que seja. Uma vida cheia. Cheia de erros e contradições. Cheia de virtudes e conquistas. Uma história que atravessa os maiores tumultos mundiais e as maiores conquistas civilizacionais. E Portugal é um país de sorte por ter na sua família política um partido assim, feito de portugueses lutadores e abnegados.

No Jardim da Estrela já não se avistam os corpos frios. Há muito tempo. Para todo o sempre. No Jardim da Estrela já não se fala à surdina. No Jardim da Estrela já não se trocam senhas clandestinas. No Jardim da Estrela sente-se a liberdade pela manhã. A manhã de um país livre e democrático. E os comunistas portugueses, entre outros, foram os seus obreiros. E continuam a ser. Como sempre. Sem fechar para balanço.

6 de Março de 2021, 6:32

tp.ocilbup@adnarima


https://www.publico.pt/2021/03/06/politica/opiniao/100-anos-perder-dia-1953215


Miguel Esteves Cardoso - Vivam os comunistas!

Miguel Esteves Cardoso 

CRÓNICA 

O PCP conseguiu o que fez – e está agora a fazer – porque trabalhou para ajudar quem precisava – e continua a precisar – de ajuda. De nenhum outro partido português se pode dizer isto.

A primeira coisa a dizer ao Partido Comunista Português não é parabéns: é obrigado. O ser humano é ingrato e a variante portuguesa é conhecida por ter horror à gratidão (e ao elogio) em todas as formas, mas gostava que os mais ingratos dessem uma vista de olhos pelas coisas que o PCP defende e fizesse uma lista daquelas com as quais não concorda.

Note-se que muitas das coisas valiosas pelas quais se bate o PCP nós já temos (o SNS, a Constituição, a escola pública). Note-se também que o PCP contribuiu muito para que as tivéssemos – algumas delas, importantíssimas, por ter sido o primeiro a defendê-las.


Quando penso nos comunistas portugueses penso em seriedade e honestidade, penso em patriotismo e, sobretudo, penso na defesa dos portugueses mais indefesos: os mais pobres, os mais fracos, os mais injustiçados, os que mais precisam de quem lute e fale por eles.

Penso também em coragem e teimosia: a coragem de ir contra o que cai bem, de ir contra as modas, de ir contra o conforto da elite política, de ir contra o que aconselham as sondagens de opinião.

Acho espantoso que se elogie o trabalho do PCP onde quer que o tenham deixado trabalhar – elegendo-o para as autarquias, por exemplo –, mas que se queira atenuar esse elogio com um mero reconhecimento da sua “capacidade organizativa” ou mobilizadora ou sabe-se lá o quê. E depois há a versão ainda mais depreciativa de lhes dar os parabéns só por ter durado cem anos.

O PCP conseguiu o que fez – o que já fez e está agora a fazer, repito – porque trabalhou, com afinco, lealdade, sacrifício e sentido de missão, para ajudar quem precisava – e continua a precisar – de ajuda.

De nenhum outro partido português se pode dizer isto.

Que dure mais cem anos, para bem de todos nós.

Colunista
6 de Março de 2021, 0:05

https://www.publico.pt/2021/03/06/opiniao/cronica/vivam-comunistas-1953286

João Ramos Almeida - Um comício à chuva




Fotos Maria Cecília Alves


* João Ramos Almeida

Foi dos primeiros comício do PCP em Lisboa a seguir ao 25 de Abril. Pelo menos é a memória que tenho. Chovia sem parar. E, no entanto, a praça do Campo Pequeno estava apinhada, fechada pelas copas dos guarda-chuvas, panos abertos sem pensar no vento molhado. Havia uma intensidade nas vozes, uma força nas palmas, todos os sentimentos se punham nos refrões que se cantavam. Havia uma alegria sem meias tintas, qualquer coisa de "desta vez, ganhámos". E este "ganhámos" éramos todos, quem andara décadas a marrar pelas paredes a pensar em todos, a falar baixo nos cafés, a pensar sempre na polícia, a pensar que se tinha de tomar diversos transportes de noite para um encontro que nos fora marcado com alguém estava na clandestinidade, a saber o que custava a prisão, e até porque se sabia como eram por dentro. Corredores longos e vazios com portas, sons metálicos a ecoar, uma fechadura e uma cela imensa escura, com beliches metálicos, colchões de palha rotos, cobertores cheios de pó, um pequeno almoço de café e fatias de pão, nada para fazer entre quatro paredes, enquanto o guarda de capote e espingarda ao ombro passava com medo de se molhar do lado de fora de duas grades de uma janela metida para dentro. Chovia também nesse dia no Forte em Caxias. E havia lama. E nós crianças tínhamos aquela alegria de não olhar para mais nada e metíamo-nos com o guarda: "Então, senhor guarda, está bom tempo aí fora?"

Anos a fio disso. Mas agora tudo estava por fazer e ia ser possível construir tudo. Outro país.   

Levanto a cara do écran do computador e está a dar um programa de televisão -  "O último apaga a luz". Tudo parece hoje como que adormecido, ensabonetado, expurgado de emoções fortes, vibrantes. A palavra tornou-se demasiado fácil, barata, e perde-se tanto tempo com nada. Utiliza-se a televisão para lixo que é remunerado com publicidade. Anos a fio disto. E tempo é coisa que não temos. Mas só se aprende com tempo.

É preciso tudo outra vez.  

POSTADO POR JOÃO RAMOS DE ALMEIDA ÀS 6.3.21  SÁBADO, 6 DE MARÇO DE 2021  

http://ladroesdebicicletas.blogspot.com/2021/03/um-comicio-chuva.html

Maria Teresa Horta - Nos 100 anos do PCP

 * Maria Teresa Horta

Se exijo liberdade/
Tenho firmeza
Se digo liberdade
Passo a mensagem.
Se afirmo liberdade
vem a beleza. 
Se escrevo liberdade
canto a coragem.”