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sábado, 19 de janeiro de 2008

A matança dos «inocentes», segundo a História do Senhor M. Lima (o rastilho)

Reis, Presidentes e Índios

Cel. Luís Alves de Fraga

Juan Carlos de Espanha é um homem pouco mais velho do que eu (somente mais quatro anos, feitos no dia de ontem). Podemos dizer que somos da mesma geração. Várias diferenças nos separam. As principais são que ele é rei de Espanha e eu sou rei de mim mesmo, ele é o generalíssimo dos Exércitos de Espanha e eu sou um coronel da Força Aérea Portuguesa na situação de reforma, ele tem uma significativa fortuna pessoal e eu vivo de uma parca pensão e do pagamento das aulas que lecciono na Universidade, ele vive num palácio e eu num pequeno apartamento, ele tem empregados para o servirem e eu tenho, duas vezes por semana, uma auxiliar de trabalhos domésticos, para fazer as limpezas e lavagens mais pesadas, ele é convidado para grandes acontecimentos nacionais e internacionais e eu só sou convidado para lançamentos de livros, ele diz-se católico apostólico romano e eu sou agnóstico. Haverá outras diferenças, mas não vale a pena enumerá-las.

Com esta aparentemente longa introdução quero deixar claro que sou capaz de o perceber enquanto homem, porque vivemos as mesmas épocas, os mesmos acontecimentos e, curiosamente, quase teremos frequentado os mesmos ambientes, pois foi criado e educado bem próximo de Lisboa, no Estoril, conhecendo por dentro a ditadura de Salazar enquanto terá estudado a de Francisco Franco.

Há já várias semanas foi notícia, diria, mundial, a célebre interrogação de Juan Carlos a Hugo Chavéz ocorrida na cimeira ibero-americana. Não quis, na altura, pronunciar-me e trazer para aqui a polémica e popular questão, porque era necessário deixar arrefecer as emoções. Julgo que chegou o momento oportuno para os meus habituais leitores tomarem conhecimento do que penso sobre a ocorrência.

Juan Carlos, Rei de Espanha por vontade do generalíssimo Francisco Franco — que assumiu o Poder de forma ilegítima e sanguinária à frente de uma revolta militar contra o Governo republicano, legal e legítimo, o qual, por seu turno, se havia sujeitado ao voto popular depois do rei Afonso XIII ter fugido e deixado cair o trono — é um dos poucos monarcas existentes numa Europa fundamentalmente republicana. As pernas do trono onde se senta Juan Carlos mergulham muito fundo em milhares de mortos resultantes de uma tremenda guerra civil e de uma brutal repressão que se prolongou, em assassinatos políticos, até 1945. Juan Carlos era já, então, um menino crescidinho e com alguma capacidade para perceber o que acontecia no seu país. A Espanha aceita a Monarquia, porque ainda tem bem presente o que foi a guerra fratricida que opôs republicanos a tradicionalistas. A Espanha não discute o regime, porque ainda não sararam por completo as feridas deixadas pela guerra e as perseguições que se lhe seguiram; não discute, porque, acima de tudo, actualmente, na União Europeia, é insignificante e indiferente um Estado ser Monarquia ou República — é o que já está, não vale a pena mudar!

Isto, que é pacífico — ou quase — para os Espanhóis, não o é, todavia, para as antigas colónias americanas. Com efeito, a luta pela independência fez-se, em cada Estado da América, para libertar o território da alçada de uma coroa e para impor um novo ideal de regime que era, no século XIX, o republicano. A República representava, para os Americanos, uma libertação do colonialismo e, ao mesmo tempo, uma entrada na democracia, ou seja, no governo do Povo pelo Povo. O Brasil foi o único Estado sul-americano que se libertou da situação colonial, mantendo um regime monárquico.

Olhando para o imenso Brasil, percebe-se a mistura étnica que por lá ocorreu durante os 300 anos de colonização portuguesa e percebe-se, acima de tudo, que mesmo tendo havido formas de genocídio de índios elas foram atenuadas — graças, em especial à acção da Companhia de Jesus. Por outro lado, percebe-se, também, que a riqueza esteve sempre nas mãos dos colonos ou dos seus descendentes. Contudo, se olharmos para a maioria dos Estados oriundos da colonização espanhola já se não nota um tão elevado grau de miscigenação étnica: há uma bem demarcada diferença entre colonos europeus e índios americanos. Por outro lado, percebe-se que a riqueza está só nas mãos dos descendentes dos colonos europeus e que a pobreza é domínio dos índios. Naturalmente, isto não invalida a existência de pobres entre descendentes de velhos colonos; mas a condição de pobre é apanágio dos índios. Em comum, todos os Estados ibero-americanos têm o facto de a independência ter sido proclamada pelos grupos economicamente dominantes em cada um deles.

Arrumado este aspecto, notemos a curiosidade da seguinte situação: no Brasil foi um filho do Rei quem proclamou a independência; nos Estados colonizados pelos Espanhóis foram os grandes agrários ou os seus representantes quem lutou pela independência. Acresce que Portugal é hoje uma República e a Espanha uma Monarquia — o regime político que oprimiu e colonizou o Brasil já não vigora em Portugal, contudo subsiste em Espanha.

Hugo Chávez, independentemente do seu comportamento político e dos seus ideais sócio-económicos, descende de índios, logo, do grupo social mais oprimido tanto pela antiga metrópole colonizadora como pelos descendentes dos colonos bem instalados. Hugo Chávez é o porta-estandarte de um todo social que foi sendo brutalmente morto, espoliado do seu território e reduzido à miséria. E isto é histórico; isto é a verdade de um comportamento que leva cerca de 500 anos de existência.

Quando o Rei de Espanha interroga o Presidente da República da Venezuela sobre a razão pela qual ele não se cala tem por trás de si, pelo menos, 300 anos de colonização opressora e disso Juan Carlos deveria ter-se lembrado antes de abrir a boca.

Acresce que a discussão entre Zapatero e Chávez resultava da crítica que o segundo vinha fazendo ao sistema neoliberal hoje em desenvolvimento — um sistema que, de novo, está pronto a colonizar e submeter povos e Estados em nome da liberdade de produzir e comerciar. Era uma discussão entre condutores de políticas — já que Chávez, constitucionalmente, é o presidente do Executivo venezuelano — e não entre Chefes de Estados, daí que a intervenção de Juan Carlos tenha pecado, logo, por inoportuna.

É conhecida a tendência espanhola para o tutear — prática que entre nós não é vulgar — no entanto, mesmo que em privado Hugo Chávez e Juan Carlos se tratem por tu, é diplomaticamente incorrecto que o Rei de Espanha tenha tratado um Chefe de Estado soberano e independente por tu. Esse tu, dito naquele momento, naquelas circunstâncias e naquele tom, soa a uma superioridade histórica que não é admissível.

Juan Carlos deixou transparecer o pior de si, da sua geração, da sua arrogância, quando interrogou imperativamente Hugo Chávez que se terá sentido mais índio, mais colonizado, mais subordinado do que o necessário e conveniente. Os povos do mundo inteiro que foram vítimas de colonialismo devem — e com razão — ter-se sentido solidários com o Presidente da Venezuela. Juan Carlos, um Rei aparentemente moderno, deixou cair a máscara da simpatia, do companheirismo e do populismo para se tornar digno de um qualquer seu antecessor tirânico, despótico e arrogante.

À luz da História e por causa de todas as implicações que expus, não ficaria mal a Juan Carlos apresentar um pedido formal de desculpas a Hugo Chávez ou, por um qualquer outro processo, mostrar ao mundo que sentia o peso do seu erro enquanto homem, Chefe de Estado e descendente de uma família com velhos pergaminhos.


Será que temos de continuar a admitir que de Espanha não nos chega nem bom vento nem bom casamento?

Cel. Luís Alves de Fraga

A matança dos «inocentes», segundo a História do Senhor M. Lima (parte I)

De: HEROISdoMAR [mailto:heroisdomar@vozdecardigos.com]
Enviada: quinta-feira, 17 de Janeiro de 2008 13:16
Para: Undisclosed-Recipient:;
Assunto: Matança dos Inocentes!

Matança dos Inocentes!

Meu Coronel Luís A. Fraga

Acabo de ler o seu artigo, que tem como pano de fundo, a polémica à volta do confronto entre o Rei de Espanha e o candidato a presidente vitalício venezuelano, o pró-totalitário Hugo Chevez.
Ficamos sabendo que o Sr. é um adepto do sistema republicano, o que é natural, bem como um agnóstico. Talvez por este facto, manifesta uma desilusão por tudo; o que compreendo, lamento, mas não partilho, pois sendo Cristão, acredito na VIDA ETERNA, razão pela qual, a esperança em mim nunca definha, embora tenha momentos de desilusão..., mas "tudo vale a pena quando a ALMA não é pequena"!
Quando fala da república em Espanha, do Gen. Franco, etc..., embora assim tenha sido, manifesta uma visão distorcida, pois só vê aquilo que lhe convém! -Se assim não fosse, teria em conta os seguintes factos (entre muitos mais):

o Gen. Franco foi obrigado a intervir, a fim de por cobro ao ambiente de ódio e de barbárie criado pelos democratas republicanos, não o fez por caprocho ou ambição pessoal;
os democratas republicanos podem ter ganho as eleições, mas será que o fizeram de forma honesta e legítima? -Ou foi à custa (como habitual), de fomentarem o ódio entre as pessoas, prometerem igualdade, fraternidade, ect... (para não cumprirem, enganando os Espanhóis, como cá também fizeram)? -Onde assenta a legitimidade de que fala? -Recordo-lhe, que o socialista Hitler, também chegou ao poder através de eleições e ... teve o apoio popular para fazer muito daquilo que fez. Concorda?? -suponho que não!
a legitimidade, tem que assentar forçosamente numa base MORAL, que passa pelo respeito dos outros e uma recta intenção/honestidade; caso contrário, é uma farsa e legitima todo o tipo de comportamentos, conforme já referi;
a república que defende, assassinou em Novembro de 1936, cerca de 12 mil espenhóis em Paracuellos de Jarama, sendo chefiados pelo democraata Santiago Carrillo, líder do PCE;
além desta matança, e mesmo antes de serem poder, razão porque o Rei Afonso XII abdicou, é que eles, como é apanágio de muitos democratas republicanos, já tinham lançado a confusão, a desordem com assassinatos de opositores, sacerdotes, monárquicos ou pessoas simples que não comungavam dos seus ideais;
o Papa, Bento XVI, beatificou há pouco tempo, cerca de 500 mártires da fé, gente (muita dela, camponeses) que foi assassinada somente por não abdicarem da sua fé, da sua forma de pensar; mas muitos milhares poderiam ser referidos, pois foram assassinadas de forma caprichosa, somente por não comungarem das mesmas idéias. Anteriormente, já o Papa João Paulo II, tinha beatificado diversos mártires, entre os quais um cigano de apelido "El Pele", assassinado pelo republicanos, somente porque se recusou a pisr a a cuspir no crucifixo que trazia ao pescoço!
cá em Portugal, os métodos foram os mesmos, só não tiveram a mesma forma violenta, porque, para o bem e para o mal, nós não somos extremistas (nem sanguinários) como "nuestros hermanos" . Recordo-lhe que em Portugal, os democratas republicanos não conquistaram o poder de forma legítima (razão pela qual não pode criticar o Franquismo), mas criaram uma onda de agitação e calúnia da Família Real, assassinaram cruelmente o Rei e o Principe-herdeiro, roubaram, assaltaram Igrejas, Conventos e as casas daqueles que se lhes opunham, além de terem violado e assassinado religiosos(as), caso do Bispo do Porto, D. António Barroso (de quem não se fala, a censura não deixa), eliminado pelo democrata Afonso Costa, bem como expulsado o Cardeal de Lisboa, D. António Mendes Belo, etc...- Por estas e outras, quando ouço falar de D. António Ferreira Gomes, esquecendo propositadamente o seu antecessor, penso: como é possível ser-se tão cobarde e rancoroso, fingindo indignação pelo cercear das liberdades da Igreja, quando o objectivo único, é o ataque ao Estado Novo!

Comparando as duas formas de regime, embora nenhuma seja perfeita e havendo gente decente no seio republicano e gente malandra no Monárquico, considero que o saldo, aqui e noutros Países, e francamente positivo nas Monarquias e superior ao republicano. Basta considerar que o Herdeiro, é preparado para desempenhar as funções "a Bem da Nação", enquanto que em república, qualquer um pode ser Chefe de Estado, tenha ou não capacidades para tal, o Rei é independente de lóbies, grupos de pressão, não deve favores a estes ou áqueles, mas somente à Nação! Acresce, que a Monarquia é menos dispendiosa do que a república, o que é natural: o Rei, pela sua educação, instrução, ambiente e bens materiais herdados, não tem precisão de entrar em jogads de saque à nação, como acontece com os republicanos, pois muitos não passam de gente ressaibiada e gananciosa, com inveja da Realeza (onde só vêm privilégios, mas não deveres) e vontade de a imitar, como fizeram os socialistas em relação aos burgueses/capitalistas, nomeadamente em Portugal, no pós 25-; está lembrado? No nosso caso, até já tivemos um presidente pedófilo ( I.ª república), um que pisou a bandeira portuguesa (em 1973, quando o Presidente do Conselho, Marcelo Caetano foi a Londres), outros participaram na barbárie que foi a "independência" do Ultramar Português, etc... e o último, numa atitude de falta de verticalidade e de independência de poderes, aceitou a Lei que permite a Matança dos Inocentes! É a falta da tal "Educação de Sangue (ou de berço)" de que há uns anos me falou (curiosamente) uma comunista!
Em suma: Deus, Pátria, Família e Rei, deve ser o lema de todo o Português que preza Portugal e tem orgulho no seu Grandioso passado, orgulho nos milhões de Portugueses que labutam por esse Mundo fora, sendo os Grandes Obreiros de boa imagem que temos, e sobre a qual já ouvi vários testemunhos, e que está de olhos postos no futuro, com Fé, Esperança e Caridade.
Cordialmente
M. Lima

terça-feira, 8 de janeiro de 2008

Luiz Pacheco – o meu 25 de Abril

©2002-7 Bazooka!



O MEU 25 DE ABRIL

Estou na cama de manhã e aproveito para apontar na Agenda o tempo que passa. Tinha ficado na véspera em casa a rever provas. O puto fora para o liceu. Resolvo ir à rua beber uma cerveja e continuar a revisão. Ao pé do chafariz, o barbeiro atira com esta: "então, o Marcello e o Thomaz lá foram ao ar..." Não percebo logo. Nem acredito como. Mas ele confirma: a Emissora Nacional não funciona, só o Rádio Clube Português é que dá música e de vez em quando comunicados breves. Já mais convencido, convido-o logo a festejar na tasca da Laurentina que era para onde eu ia. E depois, ainda duvidoso, vou com ele à barbearia a ver se oiço algum comunicado. Música ligeira, sem nada de marcial. Canções populares portuguesas, pouco mais. (Até a Amália, parece-me!). Mas passados minutos um comunicado do Comando das Forças Armadas. Aí, adquiro a certeza que é, deverá ser a repetição do golpe das Caldas, mas com outra amplitude. Refere que o público tem ocorrido às lojas, em tentativas de açambarcamento, e manda fechar o comércio. Aconselha a população a manter-se nas suas casas e as forças militares e militarizadas a recolherem aos quartéis e não oferecerem resistência à tropa. A coisa é grave. Parece que não há comboios e para lá de Sete Rios não se passa. Tenho algum dinheiro e resolvo logo ir ver (foi o melhor que fiz: ver para crer). Desço acelerado e vou a casa do Fernando Paços, perguntar se ele sabe alguma coisa. Se sabe não diz. Mas confirma. Acompanho-o à farmácia de Queluz Ocidental e depois (ele aconselha-me que não vá a Lisboa, pois não conseguirei passar – mas eu conheço outro sítio para entrar, ou sair, da minha terra e caminho acelerado. Muitos carros, em fuga discreta?) para cá. Em Queluz, já vejo lojas fechadas, outras a fechar à pressa e uma data de tontos a abastecerem-se para o ano todo... oiço que um tal comprou mais de cem pães. Rica açorda (ou negócio) deve ter feito com eles. Cafés fechados. Há comboios. Meto-me num para a Amadora, depois sigo a pé. No Bairro do Bosque (sempre o intenso movimento de carros a saírem), ainda consigo meter um copo. Não há jornais. Rostos, com as janelas fechadas, assomem entre cortinas. Tudo me dá a ideia de receio (mas em Queluz vi alguns magalas a planar, o que me deixou intrigado). Venho a pé até às portas de Benfica e o ambiente é o mesmo: fila de carros a safarem-se, comércio encerrado, mulheres com sacos de plástico cheios, tensão. Meto-me num autocarro da Carris, de Benfica para o Chile e fico-me um tanto a rir do Paços, que em Lisboa e a andar para o centro já eu vou. No Chile, só uma taberna aberta: bebo mais um copo, estou nas lonas. Animação. Um tipo ao meu lado compra 8 maços de Português Suave, também está a açambarcar ou a fumar aquilo diariamente habilita-se a um cancro nos pulmões em beleza e rápido. Aparece gente com jornais (A Capital) e sei que estão a vender para os lados do Império. Vou logo lá, sento-me num degrau e sei as primeiras notícias. Tá bem! Resolvo ir a casa do Henrique, ver se ele estará. Na Carlos Mardel, uma senhora num 1º andar pergunta-me onde vendem jornais. Digo e ofereço-lhe o meu. O marido, que vinha à rua, fica com ele e eu fico reduzido a 30$00. Começo com sede e angústias. Estou em jejum e já andei um bom bocado. Penso ainda ir ao Manaças (António) mas desde a última vez, desde a nossa última conversa, ele não me está a apetecer. E depois, o importante deve estar a acontecer na Baixa. Enfio ao Montecarlo (fechadíssimo) mas consigo topar um tipo a bater à porta da Mourisca (também fechada) e entrar. É que há gente. Vou, bato, o Costa Loiro está a forrar vidros por dentro com papel, talvez com receio dalgum obus. Peço-lhe vintes e ele despacha-me. Meto à Rua Viriato e vou até ao quartel de Santa Marta (todas as tascas fechadas até ali). Dá-me vontade de rir ver os cabeças de nabo reunidos lá dentro, a falarem uns com os outros (é que obedeceram às ordens?). Mas logo ao lado há uma tasca restaurante, porta meio aberta, com gente e muito movimento (guardas a beber, outro a telefonar para casa e sossegar a mulher (?), diz que não há azar). Bebo uma Sagres e como uma sandes. E avanço para a linha de fogo, que não sei onde é. Metros andados, ouvem-se ao longe tiros e rajadas de metralhadora. Tipos que fogem. Mas onde será o tiroteio? Como a coisa parou, continuo a andar. Até que encontro, já não sei onde, o Almeida Santos e um tipo que é revisor no Diário de Lisboa ou no Popular, já não sei. Metemo-nos num táxi que sobe pela Calçada do Carmo. Mas logo populares avisam (ah, entretanto, perto do Tivoli, já tinha comprado um Diário de Notícias, com mais informes) que a rua está bloqueada. O carro faz marcha-atrás e mete (por onde?) para o Bairro Alto. Bebemos não sei o quê numa tasca, o revisor vai à vida, o Almeida Santos pira-se e eu avanço para os lados do Carmo. Na Rua da Misericórdia, muita gente, tropa e um tanque de respeito. Da janela da Redacção da República, o Vítor Direito e o Afonso Praça (aquele grita-me: "estás muito bonito hoje!", eu levava o sujíssimo albornoz que me deu o Artur), noutra varanda o Álvaro Belo Marques, a quem pergunto: "como é que se entra para aí?", porque a porta da escada da República está fechada. "Vai pelas traseiras!". Vou mas também está fechada e logo à esquina aparece um vendedor com a última da República. É um verdadeiro assalto. Aí fico a saber dos chefes (Costa Gomes e Spínola) e o alvoroço é enorme. Já não sei bem: se vim ao Rossio, se de repente notei uma grande correria para o Terreiro do Paço. Sem perceber nada do que se passa, sigo a onda. No Terreiro do Paço, começa a chover. Há correrias e encontro uma rapariga que me conhece muito bem mas não topo logo. É a Maria João, a engenheira química, amiga do Henrique, com outro rapaz. Ficámos abrigados da chuva debaixo das arcadas, depois convenço-os a irem beber um copo ao Terreiro do Trigo (Campo das Cebolas?), não sei já se estava aberto se não. Ela tem o carro no Camões e para aí vamos. Mas o Chiado está cheio de gente, que quer assaltar a Pide. Já não sei se ouvi tiros. Vi ainda as (uma?) ambulâncias, depois quase à porta da Brasileira um rapaz ou homem com a mão cheia de sangue (seco?), que tinha agarrado num rapaz ou rapariga. Começam a chegar fuzileiros, há mais correrias, a Maria João e o rapaz perderam-se de mim. Cheira-me que já chega. Agarro um táxi e arranco para casa da São. Pela TV vi depois o resto. Foi bonito e foi rápido. Já posso morrer mais descansadinho.

Luiz Pacheco

Retirado de http://notassobrelivros.blogs.sapo.pt/

domingo, 6 de janeiro de 2008

1934 - Salazar vence e o fascismo impõe-se

Anuário 1934

Salazar vence a revolta dos generais do 28 de Maio e elege Assembleia Nacional – Surge a política do espírito

Le Siècle du Corporatisme

Da Longa Marcha de Mao ao assassinato de Dolfuss

Liga Portuguesa contra a Guerra e o Fascimo

Jornal O Trabalhador do Padre Abel Varzim

Acção Escolar de Vanguarda

I Congresso da União Nacional.

Greve Geral e soviete da Marinha Grande

Revolta de Setúbal 18 de Fevereiro

Revolta dos generais do 28 de Maio (Abril)

Remodelações em 29 de Junho e 23 de Outubro

Eleição da Assembleia Nacional (Dezembro)



Greve revolucionária e soviete na Marinha Grande (18 de Janeiro). Greve geral contra a criação de sindicatos nacionais, que tem especial incidência na Marinha Grande, onde se instala um soviete que dura, aliás, poucas horas, mas que também se manifesta em Almada, Barreiro e Silves. No Poço do Bispo em Lisboa, há rebentamento de bombas. Corte de circulação de comboios em Xabregas. A central eléctrica de Coimbra é ocupada. Tentativa de invasão por operários do Consórcio Português de Pesca em Setúbal.

Da falhada insurreição militar ao degredo – Estava para ser conjugada com uma insurreição militar, organizada por um comité revolucionário político, liderado por Sarmento Beires. Notas oficiosas falam em tentativas comunistas frustradas e em ideias dissolventes e atentatórias da moral pública e da ordem social (19 de Janeiro). Os líderes da revolta são conduzidos para um campo de concentração criado na foz do Cunene, no Sul de Angola, logo no dia 20.

O fim do anarco-sindicalismo – A revolta marca o fim da influência dominante do anarco-sindicalismo nas movimentações operárias portuguesas que, a partir de então, passam a receber a coordenação revolucionária do PCP. Com efeito, o remanescente aparelho da CGT vai ser desmantelado pela polícia política do Estado Novo, constituindo a turbulência o último estertor do ancien régime sindical.

A Liga Portuguesa contra a Guerra e o Fascismo é criada em Agosto de 1934 pelos comunistas, sob a direcção de Bento de Jesus Caraça (1901-1948), na sequência da fundação de uma liga internacional com o mesmo nome lançada em 1932 pela Internacional Comunista. Assume um carácter frentista, um programa de democracia popular e, a partir de 1935, tenta a criação em Portugal de uma Frente Popular.

Pavel, líder das Juventudes Comunistas, instala-se na URSS, como representante do PCP junto da Internacional Comunista (Março).

Acção Escolar de Vanguarda Surge em 23 de Janeiro uma organização dirigida pelo estudante Ernesto de Oliveira e Silva e por António Eça de Queiroz, onde expressamente se defende uma ordem nova e um Estado Totalitário. No dia da fundação, há uma sessão no Teatro São Carlos de apresentação do movimento, promovida por João Ameal e Manuel Múrias. Preside Carmona.

Manifestações no Terreiro do Paço de apoio a Salazar. Surgem os camisas verdes da Acção Escolar de Vanguarda. (27 de Abril). Salazar procura assim destruir por dentro a deriva nacional-sindicalista. De qualquer maneira aquilo que pretendia ser um mero autoritarismo conservador, à maneira de Dolfuss ou do que virá a ser Pátain, é obrigado a ceder a certa retórica e a alguns dos rituais do fascismo revolucionário, bem como a certos espectáculos da nova estética política, com camisas coloridas, saudações romanas, comícios e acampamentos.

Lançado o jornal Revolução Nacional, dirigido por Manuel Múrias, de acordo com Salazar. Rolão Preto e os que restam do nacional-sindicalismo entram em quase clandestinidade (1 de Março).

Estatismo nacionalista – Manuel Rodrigues, numa conferência proferida em Coimbra em 6 de Maio considera que não há um poder transcendente, o poder pertence à Nação organizada...o Estado é a fonte de toda a regra normativa...O cidadão não pode recorrer a um princípio estranho ao seu país, nem mesmo invocar regras de humanidade. Só é humano o que é nacional.

Remodelação – Em 29 de Junho: Manuel Rodrigues passa a acumular a instrução, com a saída de Sousa Pinto.

O Trabalhador Surge como quinzenário do operariado católico, em 1 de Maio. Inspirado pelo Padre Abel Varzim (1902-1964) o seu principal editorialista, mas onde também colaboram Artur Bívar e António Sousa Gomes.

Turbulências dentro do regime – Reunião do Conselho de Ministros em Belém sob a presidência de Carmona (10 de Janeiro). Analisado o momento político, face ao crescendo do nacional-sindicalismo e dos boatos sobre nova revolta da ala militar republicana do 28 de Maio, aqueles a quem Salazar chama os homens da espada. Protestos de católicos contra o ministro Manuel Rodrigues que, a propósito de uma conferência feita em Coimbra, é acusado de estatismo por ter defendido que a soberania é a fonte da regra superior do homem social (6 de Maio). O jornal Novidades acusa-o de defender o socialismo de Estado e o estatismo, adverso ao conceito cristão de autoridade. Pereira da Rosa inicia n’ O Século campanha anticomunista.

Militares desafiam Salazar (15 de Abril). Ministro da Guerra, Luís Alberto de Oliveira, numa festa realizada no Regimento dos Caçadores 5, discursa perante Carmona, declarando que o presidente da república é a única fonte do poder, com a confiança do Exército: se sou Ministro da Guerra, sou-o pela mão de V. Exª, a quem sirvo, porque só com V. Exª o Exército serve bem a Nação (15 de Abril). Também Farinha Beirão, então comandante da GNR, João de Almeida, Vicente de Freitas e Schiappa de Azevedo pressionam Carmona no sentido da demissão de Salazar que pede a demissão em Conselho de Ministros. Carmona concede-lhe audiência à tarde (16 de Abril).

O fim da autonomia de Carmona – Segundo Franco Nogueira, colocou-se numa posição de quase impossibilidade política de afastar alguma vez o chefe do governo, embora legalmente o pudesse fazer em qualquer ocasião. A partir daí o presidente não pssa de um simples manequim fardado, desaparecendo o formal bipresidencialismo, dado ter-se consagrado o presidencialismo do chefe do governo.

Nova pressão da ala militar – Carmona recebe José Vicente de Freitas em audiência em Belém (24 de Setembro). Tem como pretexto a entrega de uma mensagem de vários militares solicitando-lhe que dê autorização para se promover nova candidatura à presidência da república. Salazar insiste com Carmona, no sentido da demissão do ministro da guerra Luís Alberto de Oliveira (12 de Outubro). Reunião do Conselho de Ministros. Todos os ministros apresentam a demissão. Salazar anuncia a recandidatura de Carmona a Presidente da República (22 de Outubro).

Remodelação – Em 23 de Outubro de 1934: Abílio Augusto Valdez Passos e Sousa substitui Luís Alberto de Oliveira na Guerra; Rafael Silva Neves Duque substitui Franco de Sousa na agricultura; Eusébio Tamagnini de Matos Encarnação na Instrução, em lugar de Manuel Rodrigues; Henrique Linhares de Lima substitui Gomes Pereira no Interior; João Pinto da Costa Leiteö (1905-1975) novo subsecretário de Estado das finanças. Passos e Sousa ainda provém da ala republicana do 28 de Maio, mas o novo gabinete já é retintamente salazarista.

António Lino Neto abandona a presidência do Centro Católico (Fevereiro).

Monárquicos protestam contra a criação da Fundação da Casa de Bragança, com José Vaz Pinto, Domingos Pinto Coelho, Luís de Almeida Braga e Simeão Pinto Mesquita a protestarem, contra a aliança que Salazar fez com Fernando Martins de Carvalho e Eduardo Fernandes de Oliveira, representantes de D. Amélia de Bragança (Fevereiro).

I Congresso da União Nacional na Sociedade de Geografia (dias 26 a 28 de Maio). Salazar discursa sobre O Estado Novo Português na evolução política europeia: a economia liberal que nos deu o super-capitalismo, a concorrência desenfreada, a amoralidade económica, o trabalho mercadoria, o desemprego de milhões de homens, morreu já. Receio apenas que, em violenta reacção contra os seus excessos, vamos cair noutros que não seriam socialmente melhores. No encerramento do Congresso, Lopes Mateus proclama: quem não é por Salazar é contra Salazar. Mais poeticamente, António Correia de Oliveira recita: Patria Nostra: O Sereno Escultor/ da Imagem Nova sobre a Velha Traça...

Rolão Preto envia exposição a Carmona, protestando contra o governo, sendo imediatamente preso (20 de Junho). Já detido, envia reclamação a Salazar (10 de Julho). Exilado no dia 14, com Alberto Monsaraz. Nota oficiosa de Salazar comunica a extinção do nacional-sindicalismo por ser inspirado em certos modelos estrangeiros (29 de Julho). Salazar dá uma entrevista ao jornal de Manuel Múrias, Revolução Nacional, pedindo aos nacionais-sindicalistas para ingressarem na União Nacional, acrescentando que muito é de esperar da sua devoção nacionalista.

O reviralho – Em Julho, Afonso Costa é elevado ao grau 33, dentro da maçonaria, enquanto no Rio de Janeiro o jornalista José Jobim publica A Verdade sobre Salazar, um conjunto de entrevistas com tal político, concedidas em Paris, no ano de 1933. Prisão de Maia Pinto em Espanha. Jaime Cortesão e Jaime de Morais passam para Argélia (Setembro). Tudo por causa de um desembarque de material de guerra não autorizado na Galiza.

O viracasacas – O antigo ministro da I República, Vasco Borges (1882-1942), profere aos microfones da Emissora Nacional uma alocução onde adere ao salazarismo (Novembro). Passa a ser conhecido como o viracasacas e até é ridicularizado com um anúncio anónimo publicado num jornal diário de Lisboa, onde dando-se as coordenadas domiciliares do ex-ministro, se anunciava casaca virada estado novo, vende-se..., marcando-se o ritmo do novo adesivismo, que já fora da direita para a esquerda, em 1910, e que, agora, tinha movimento inverso, até que, em 1974, dava nova guinada, com antigos governantes de Salazar e de Caetano a flutuarem como rolhas nas novas vagas da moda revolucionária ou pós-revolucionária. O mesmo deputado ficará célebre em 1938, quando, criticando o facto das mulheres fumarem cigarro, considera tal como uma invenção comunista.

Eleição nº 53 (Dezembro) da Assembleia Nacional. Inauguração oficial do Rádio Clube Português, com a presença de Óscar Carmona (1 de Dezembro). Discurso radiofónico de Salazar sobre A constituição das Câmaras na evolução política portuguesa (9 de Dezembro). Linhares de Lima proclama: quem votar, vota pela Nação; quem não votar, vota contra a nação (15 de Dezembro). 90 deputados. Inscritos nos cadernos 478 121 eleitores; votantes 377 792 (16 de Dezembro). Entram os republicanos Vasco Borges e Camarate de Campos, bem como Henrique Galvão, Araújo Correia, Domitila de Carvalho, Maria Guardiola, Luís da Cunha Gonçalves, Ulisses Cortês e Pedro Teotónio Pereira. Dos antigos militantes do Centro Católico: Diogo Pacheco de Amorim, Alberto Pinheiro Torres, José Maria Braga da Cruz, Joaquim Dinis da Fonseca, Juvenal de Araújo, Mário de Figueiredo, António de Sousa Gomes, que passa a director do Diário da Manhã, e o cónego Correia Pinto.


in http://maltez.info/respublica/portugalpolitico/acontecimentos/1934.htm

segunda-feira, 22 de outubro de 2007

A visão global da guerra - RTP1: Série documental estreia hoje à noite


* João C. Rodrigues


O realizador e autor da série documental ‘A Guerra’, Joaquim Furtado, acredita que o trabalho que estreia esta noite na RTP 1 vai suscitar controvérsia.

Em antecipação ao primeiro de 18 episódios do documentário sobre o período da guerra colonial, Joaquim Furtado afirmou ao CM que “a própria série já é controversa em certos momentos”, uma vez que apresenta “muita informação nova sobre factos que até agora eram dados como certos”.

“Não me surpreendia se o assunto voltar a ser discutido pelas pessoas. É uma questão sensível na história de Portugal e, apesar de já se terem passado quase 40 anos, nunca foi tratada e esclarecida como deveria.”

Furtado sustenta que os depoimentos recolhidos e as imagens contextualizadas, “por mostrarem novas visões sobre as verdades oficiais da época, vão, pelo menos, levantar alguma discussão”. O realizador dá como exemplo os primeiros momentos da guerra e o episódio que ficou conhecido como o ‘Massacre de Mueda’, em Moçambique, onde terão morrido centenas de pessoas.

“São 13 anos de história que quis contar de forma integrada e simultânea, isto é, mostrar como existiam dois pólos que condicionavam a guerra: o português e o internacional.”

Para mostrar as diferentes visões da mesma guerra, o jornalista deslocou-se por diversas vezes aos locais que marcaram aquele momento no sentido de obter depoimentos daqueles que estavam no outro lado da barricada. Como exemplo das diferentes perspectivas como os protagonistas viam o conflito, Joaquim Furtado diz que logo no ‘nome’ da guerra se vê o modo como a mesma era encarada: “Dependendo do lado, há quem lhe chame guerra colonial, guerra no Ultramar ou guerra da libertação.”

Mas não será só em Portugal que a série documental pode provocar reacções. O realizador explicou ao CM que ‘A Guerra’ também será exibida na RTP África – em simultâneo –, pelo que também poderá causar controvérsia nas antigas colónias portuguesas.

Consciente da sensibilidade do tema e do impacto que pode vir a ter, o realizador confessa que planeou a série “a pensar em diferentes públicos”. “Tanto naqueles que viveram o conflito directa ou indirectamente, como nas camadas mais jovens, que têm muita curiosidade em saber o que se passou com os pais ou outros familiares neste período, mas que partem com ideias feitas, distorcidas ou incompletas sobre o mesmo.”

DOCUMENTÁRIO EM HORÁRIO NOBRE FAZ FALTA À TELEVISÃO

Joaquim Furtado está satisfeito por ver o seu trabalho exibido no horário nobre da RTP 1, razão que ajuda a ter expectativas altas em relação às audiências. “Não acompanho o fenómeno desde que deixei a direcção da RTP, mas parto do princípio que é um assunto que diz respeito a muitos portugueses e que, nesse horário, poderá ter bons resultados. Por isso, julgo que haverá um grande número de pessoas a seguir a série.” O jornalista sustenta ainda que devia haver mais documentários na televisão portuguesa: “Claramente falta espaço para este tipo de formatos nos canais nacionais. E isso faz falta.”

IDENTIFICAÇÃO DE ARQUIVOS PROBLEMÁTICA

“A maior dificuldade na produção de ‘A Guerra’ foi a identificação dos filmes dos Arquivos da RTP e do Exército”, diz Joaquim Furtado. “Em muitos casos a identificação estava errada ou incompleta. Havia imagens em que a informação dizia que tinham sido recolhidas em determinado local de Angola, mas, na verdade, foram captadas no extremo oposto do país. Conseguir identificar e contextualizar todos os documentos foi um processo muito moroso”, confessa o realizador. Para produzir os 18 episódios de uma hora, Joaquim Furtado recorreu a cerca de 500 horas de gravações que estavam arquivadas e registou 200 depoimentos de entre as mais de 400 entrevistas que fez no processo. “É natural que muito material tenha ficado de fora, mas há aspectos que podem voltar a ser recuperados no futuro”.

SAIBA MAIS

- 1961 Ano em que estala a guerra em Angola. Em 15 de Março, a União dos Povos de Angola, sob as ordens de Holden Roberto, massacra colonos e negros bailundos trabalhadores nas fazendas.

- 1963 Ano em que a guerra alastra à Guiné – quando, em Setembro, o PAIGC, conduzido por Amílcar Cabral, ataca o quartelamento português de Tite, na margem esquerda do Rio Geba, a Sul de Bissau.

- 1964 A guerra estende-se a Moçambique. Guerrilheiros da Frelimo lançam, a partir da Tanzânia, um ataque ao posto administrativo de Chai, no Norte da colónia.

MORTOS

A guerra durou até 1974. O número exacto de mortos ainda não está apurado: ronda 10 mil, segundo a Liga dos Combatentes.

MILITARES

Milhão e meio de portugueses foram mobilizados para a guerra em África.
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in Correio da Manhã 2007.10.16
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foto - A RTP possui em arquivo milhares de imagens avulsas que agora foram identificadas e colocadas em contexto. Cenas inéditas também prometem surpreender muitos telespectadores.
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Quinta-feira, 18 Outubro
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- João Costa Foi desmascarada a classe política pela falta de vergonha evidenciada em 33 anos de democracia. Em certa medida, até os fazedores do 25 de Abril se deixaram enrolar por ela. Todos foram abandonados à sua sorte, os políticos enrolaram a bandeira portuguesa e fugiram a toda a brida. Ainda hoje os generosos combatentes portugueses (que inclui africanos) continuam à espera que olhem para eles.
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Quarta-feira, 17 Outubro
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- jose neves Fui mobilizado para Angola no ano de 1969 como Furriel de infantaria para a zona militar leste. Os dois anos passaram-se e finalmente chegou o dia do desejado regresso.O comandante do batalhao mandou toda a tropa formar no campo do Grafanil. O seu discurso de despedida comecou assim: "Agora a maioria de vocês vão para vida civil, não vão contar o que viram ou não viram. Não sejam JAVARDOS!!!"
- Dúlio Silva Coelho Parabéns ao autor do documentário pois faz falta não só aos ex-colonos saberem mais sobre a guerra que marcou a história mais recente do nosso país mas também aos mais novos saberem tudo o que levou à revolução desde o seu principio, dado isto ser um assunto tabu no nosso ensino e fundamental para compreender melhor a politica e estrategia seguidas pelo nosso governo desde a ditadura. Parabéns.
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Terça-feira, 16 Outubro
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- peregrino O representante da Frelimo disse lá na plateia que 'eles' queriam era apenas a LIBERTAÇÃO do JUGO DOS DE FORA. Ora, os Macondes não são Xanganas e estes não são Macúas. Existem pelo menos 13 POVOS diferentes em Moçambique. QUANDO É QUE A FRELIMO VAI DAR-LHES LIBERTAÇÃO PARA QUE ELES TAMBÉM POSSAM DECIDIR DO SEU PRÓPRIO DESTINO?
- Helder Gerardo Acabei de ver o documentário de Joaquim Furtado e está fantástico. Aliás existe um livro que aconselho vivamente, que relata estes factos todos desde 1849 até 2000 e que mistura ficção e factos históricos duma forma surpreendente: "Os verdes do mato não acabam", de João Coutinho, Ed. Ausência. A não perder!
- Carlos Alberto Guimaraes Dou os meus parabens a Joaquim Furtado pelo trabalho realizado, mas a guerra começou em 11/01/61 na Baixa de Cassange, no Posto Administrativo do Milando- na sanzala de Ganga -Mexica. O 1º oficial que entrou em acçao foi o tenente Portugal com 2 Jipes e e dez homens, que chegou ao Milando na noite de ll/01/61. O Chefe de Posto encontra-se vivo e tem todo este acontecimento escrito, para a historia
- Gentleman Já tardava! Parabéns Sr Joaquim Furtado. Estou ansioso por vêr os culpados dos milhares de portugueses brancos que morreram nas ex-províncias ultramarinas, depois da indepêndencia, sem conseguirem saír das colónias. Estive em Angola em 1996/97 e um alto dirigente do MPLA indentificou-os sem qualquer dúvida. Vamos lá ver se fogem à responsabilidade.
- spirou Dsejava ver, e ouvir dirigentes da frelimo dizer o que eu ouvi em Moçambique,na celebração do dia da independência, 7/09/1998, passou na televisão um documentario sobre a guerra, mais ou menos esplanado do que aconteceu e quais os principais intervenientes da "venda" das ex colonias,as reuniões secretas na Argelia e França, e o que o Sr Savimbi disse ao telefone a um lider politico Português.
- vitor silva Saudosos tempos em k Portugal era um Pais, hj é uma quinta onde cada um rouba o que pode.
- Marília Guimarães Quero informar que a guerra em Angola começou na Baixa do Cassange (Distrito de Malange) em 11.1.1961. Quem deu alerta a Angola inteira foi o Chefe do Posto do Milando o meu pai Alberto Pinto Guimarães. Em Março, o meu pai já estava farto da guerra.
- weisswurst - braga Espero que falem dos 9,000 portugueses brutalmente assassinados em Angola. Espero que falem das manobras da CIA e KGB, incitando ao ódio racial contra Portugueses. Espero que falem que as zonas "libertadas" continuam hoje colonizadas por americanos, russos e chineses. É melhor esperar sentado.
- JBrito Espero que mostrem as imagens e texto constantes no livro, se a memória não me atraiçoa, "Angola, nos dias do desespero".Em 04/02/61 eu tinha 9 anos e assisti a muitas atrocidades que me marcaram até aos dias de hoje.Lisboa
- Leandro Coutinho País rural, pobre, analfabeto.. suportou uma guerra nas décadas de 60 e 70 devido á teimosia de um regime que nenhum outro país da Europa aceitaria.. A Guerra ficou cravada na História de Portugal e de África.. Para já ainda é polémica..Estão vivos milhares e milhares de combatentes..Serão precisos mais 20 anos para poder haver análise desapaixonada..
- Maquiavel Antes de mais é preciso ter isso em mente: O Império Português NUNCA foi como os outros. Falar de 'guerra ultramarina' ou 'guerra de libertação' ou 'guerra colonial' é uma TRAIÇÃO ao ESPÍRITO LUSITANO eternalizado pelos versos de Camões.
- fernanda gaspar Nascida em Angola e me lembrando bem dos masssacres do Norte de Angola, estou morrendo de curiosidade p/ver o documentário. Porque à frente dos guerilheiros havia sempre um feiticeiro de capote preto dizendo que as balas dos brancos não matavam... Ver para crer.Oeiras

quinta-feira, 18 de outubro de 2007

Guerra Colonial: série estreia dia 16 - A Guerra como nunca foi contada

* Myriam Zaluar

A 27 de Abril de 1974, dá-se na Guiné aquela que poderá ter sido a última operação da guerra que se iniciara em Angola 13 anos antes. Os comandantes que lideravam as tropas implicadas não sabiam que na antevéspera se dera em Portugal o golpe militar que iria pôr fim ao conflito.


É por uma conversa entre os responsáveis de ambos os lados que se inicia a série documental ‘A Guerra’, a estrear 3.ª feira, dia 16, às 21h00, na RTP1. Assinado por Joaquim Furtado, o documentário pretende abordar, “de uma forma global” que o seu autor acredita ser inédita, a guerra que conheceu três designações diferentes. É precisamente esta tripla visão que o jornalista pretendeu dar ao público ao introduzir, desde o genérico, os três nomes dados ao conflito que transformou a vida de toda uma geração, a sua geração.

“Os protagonistas desta guerra”, explica à Correio TV, “os militares portugueses e o regime, os guerrilheiros africanos e também os que, não participando directamente, tinham uma opinião contra, chamaram nomes diferentes ao conflito. Os primeiros chamaram-lhe Guerra do Ultramar. Os segundos Guerra de Libertação. Os refractários, os desertores e os que se situavam na oposição deram-lhe o nome de Guerra Colonial”. A série ficou ‘A Guerra’ mas no genérico o título “desdobra-se”, mostrando as três diferentes maneiras de ver um mesmo conflito.

JOAQUIM FURTADO

Joaquim Furtado decidiu articular o longo documentário, cujos primeiros nove episódios vão para o ar nas próximas semanas, em “três grandes pilares”. O primeiro diz respeito às imagens históricas que serão exibidas. São “filmes de arquivo da própria RTP e também das Forças Armadas, da Força Aérea e da Marinha, para além de documentação fornecida pelos próprios entrevistados”. Trata-se, diz, de “um acervo imenso” no qual se incluem imagens nunca vistas e outras que, embora não sejam inéditas, aparecem “talvez pela primeira vez contextualizadas, colocadas no seu devido lugar na História”. O jornalista começou a preparar a série documental em 1999 mas o trabalho sofreu algumas interrupções, a maior das quais durou perto de ano e meio.

O PROGRAMA

Para além dos filmes e imagens fotográficas de época, o programa assenta em centenas de depoimentos de pessoas que o jornalista designa como “protagonistas” do conflito e onde se incluem “os militares portugueses das várias patentes que participaram, quer em Angola, quer em Moçambique, quer na Guiné”, os guerrilheiros africanos, mas também os civis das várias nacionalidades, “pessoas que directa ou indirectamente viveram a guerra”.

A SÉRIE

A série inclui ainda uma terceira vertente, de reportagem, que permite, no entender do seu autor, dar “uma visão mais abrangente” do conflito e do seu contexto histórico e social. Furtado levou antigos militares portugueses a Angola e a Moçambique, promovendo, por vezes mais de quarenta anos depois, encontros entre os dois lados. Foi também feita uma tentativa de reconstituição dos momentos mais significativos, recorrendo a imagens de arquivo e também a gráficos, mapas e ilustrações, para os quais foram utilizadas técnicas informatizadas a três dimensões, num esforço para dar ao telespectador pormenores do “ponto de vista técnico-militar”. Foi ainda possível, graças à tecnologia moderna e a um intenso trabalho de pós-produção vídeo e áudio, recuperar a qualidade de muitas imagens de arquivo, assim como sonorizar filmes, utilizando documentos que estavam incompletos, “parte na RDP (o som) e outra na RTP (a imagem)”, explica o jornalista, que para o efeito visionou “milhares de filmes”, alguns dos quais foram revelados de novo já que o negativo ainda estava intacto.

'UMA VISÃO GLOBAL'

Joaquim Furtado optou por contar a história de forma cronológica em vez de dedicar um certo número de episódios a cada um dos países implicados, já que pretende dar da guerra “uma visão global”. Daí que tenha optado por relatar os eventos ocorridos nos diversos cenários em simultâneo e “mostrar, para além das armas, o universo em que se vivia” tanto em Portugal como em Angola, Moçambique e Guiné, “as vidas” que foram alteradas, e, paralelamente, contextualizar o conflito no plano internacional, mostrando os acontecimentos mais relevantes em Portugal e no resto do Mundo. “Os filmes de arquivo não contêm esta vertente”, afirma. E acredita que “esta história está ainda por contar” já que mesmo as pessoas que estiveram na guerra apenas conheceram o local onde estiveram e “não fazem ideia da realidade que era vivida” noutros pontos do conflito. Por outro lado, em Portugal a maioria da população não tinha acesso à informação.

“A guerra era muito pouco noticiada, a não ser pelas estações oficiais e oficiosas, e as imagens que passavam eram muito bem trabalhadas” pela censura, a fim de deixarem passar apenas a mensagem pretendida pelo regime. Daí que Furtado esteja convencido de que, para a maior parte do público, as imagens que vão ser vistas na série o serão pela primeira vez. Por um lado, foram recuperadas para o programa filmagens em bruto que nunca tinham sido utilizadas nas reportagens e filmes exibidos na época e, por outro, imagens que, não sendo inéditas, “são agora colocadas no seu devido lugar”. O jornalista afirma ter sido possível, com a ajuda das dezenas de testemunhos recolhidos, situar determinadas sequências e perceber que imagens que eram atribuídas a certos acontecimentos pertenciam afinal a outros, ou seja, em vários casos percebeu-se que “aquele filme era outro filme”.

‘A Guerra’ irá, pois, permitir desconstruir alguns mitos que permanecem intactos apesar de terem passado mais de quarenta anos sobre o início do conflito. Joaquim Furtado garante mesmo que a série que agora estreia contém “revelações”.

MOMENTOS MAIS MARCANTES

Num dos momentos mais marcantes, o jornalista tentou levar quatro militares e um padre portugueses a encontrar-se com dois militares angolanos no preciso local onde ambas as partes viveram, em 1961, a “primeira grande operação” em Angola. Trata-se da tomada de Nambuangongo, local onde se pensava estar o quartel-general dos guerrilheiros angolanos da UPA. A denominada ‘Operação Viriato’ foi então levada a cabo “simultaneamente através de três colunas”. Curiosamente, relata Furtado, “a RTP tinha feito a reportagem com uma das colunas, que se acreditava seria a primeira a chegar”. Mas acabou por ser a coluna liderada pelo coronel Massanita a chegar à frente.

O encontro promovido, cerca de quarenta e cinco anos depois, pelo jornalista colocou frente a frente quatro elementos do batalhão comandado pelo “lendário Massanita” com dois dos guerrilheiros angolanos que se encontravam no caminho dos militares portugueses. O encontro teve, contudo, e contrariamente ao previsto, de se realizar a alguns quilómetros de Nambuangongo, já que uma viagem atribulada impediu a equipa de reportagem de alcançar o local. Desde uma enorme tempestade a um veículo atolado em lama, vários foram os obstáculos encontrados na missão. Foi possível, no entanto, ao fim de quase meio século, desmontar mitos que permaneciam nas mentes dos dois lados. “Os portugueses, na época, acreditavam que era preciso cortar a cabeça aos terroristas, ‘entidades’ que caso contrário poderiam renascer”.

Para os protagonistas da ‘Guerra’ foi uma ocasião para celebrar a paz. O jornalista apercebeu-se de que “os africanos em geral reagem muito bem” a estes momentos de catarse, “sem ressentimentos”. Assim como os portugueses, que, afinal de contas, aceitaram viajar com o propósito de se encontrarem com o anterior “inimigo”. Foi precisamente um dos antigos guerrilheiros da UPA que protagonizou um dos episódios que mais tocaram o autor da série documental: “um homem, já muito doente, que disse ‘não vou durar muito mas gostava que nos voltássemos a dar com os Portugueses’.”

O AUTOR: 'NÃO FUI À GUERRA'

PROJECTO COMEÇOU NOS ANOS 80

Joaquim Furtado começou a pensar neste projecto nos anos 80. E quis ser o responsável pela parte da guerra em ‘Crónica do Século’. Mas o programa só foi concretizado quando Furtado estava na direcção da RTP, o que o impediu de participar mais activamente. Voltou ao projecto em 1999 mas interrupções várias para outros trabalhos adiaram a estreia de ‘A Guerra’. Joaquim Furtado, 59 anos, cumpriu o serviço militar em 1969. Curiosamente, o jornalista que agora conta aos portugueses a história da guerra colonial não participou no conflito. Conseguiu que, por motivos de saúde, o passassem “aos serviços auxiliares”, escapando da ida para a Guiné. Na época já trabalhava no Rádio Clube Português, onde fazia o programa ‘Tempo Zip’, herdeiro do lendário ‘Zip-Zip’ da RTP. O programa transitou para a Rádio Renascença e acabou suspenso pela censura. Foi novamente aos microfones do Radio Clube que Furtado protagonizou o momento histórico que pôs fim ao regime ao ler o famoso ‘Comunicado das Forças Armadas’. “Cerca de dez minutos depois da ocupação da estação”, o jornalista percebeu o que estava em jogo. Foi ele quem anunciou aos Portugueses o fim da guerra.

GARANTE O DIRECTOR DE PROGRAMAS: 'É UM DOS DOCUMENTÁRIOS MAIS PODEROSOS'

TEM GRANDE SENTIDO DE MOBILIZAÇÃO

‘A Guerra’, afirma ao CM o director de Programas da RTP, “é um dos documentários mais poderosos que foram produzidos em 50 anos de televisão”. O montante de cada episódio “está em linha com o valor dos nossos documentários” mais caros, garante Nuno Santos. Para o responsável da estação pública, o formato idealizado por Joaquim Furtado “é o resultado de uma investigação muito apurada mas que, simultaneamente, tem todos os ingredientes televisivos. Está bem contada, bem encadeada e, por isso, tem grande sentido de mobilização”.

DEPOIMENTOS: 200 ENTREVISTAS

Das 400 pessoas com quem falou, em Portugal e África, Furtado entrevistou metade.

GRAVAÇÕES: 500 HORAS

O autor passou cerca de cinco meses a visionar imagens de arquivo.

IMAGENS INÉDITAS

O realizador optou por usar o mesmo fundo em todas as entrevistas de modo a obter uma “imagem uniforme”. O fundo é escuro e nele são inseridas imagens de arquivo ou oráculos.
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in Correio da Manhã 2007.10.12
foto Sérgio Lemos - joaquim furtado (RTP estreia série documental sobre conflito colonial. Depoimentos inéditos e reportagens em África revelam faceta pouco conhecida da nossa História )
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Quarta-feira, 17 Outubro
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- Luis Santos Pela 1ªvez, se assiste a um documentário, exacto,como as coisas se passaram, nas nossas ex-colónias. Fui combatente, 1º Cabo Enfermeiro, em Moçambique no AB7 (TETE) uma das bases mais operacionais a Norte de Moçambique.,tivemos 10 baixas, aviões que cairam, um deles atingido, em combate, que era pilotado pelo Furriel Mesquita. Uma Mina Anti-Carro a 16 Km, perto do Radio farol. É a guerra.
Terça-feira, 16 Outubro- joão almeida Estive na guiné 67/69, S.Domingos, maus momentos mas muita camaradagem. Todos sofremos muito; privações, fome, doenças e muito stres, sentimento de abandono pelo governo da altura. Acho que chegou o momento de mostrar a quem não esteve no teatro das operações aquilo porque a juventude portuguesa dos anos 60 passou, muitos aqui na metropole nunca acrediraram que o povo portugues estava mesmo em guerra.
- Armando Ferreira E imperativo que o documentario de J.Furtado (a guerra) venha finalmente desmitificar aos Portugueses,o que foi a guerra colonial. A maioria de nos, ainda nao compreendemos as consequencias catastroficas que este conflito causou em termos economicos e humanos a Portugal e as ex colonias. Os veteranos da guerra colonial nao teem sido tratados com o devido respeito, uma geraçao profundamente afectada.
Segunda-feira, 15 Outubro- Tuga Não sei se aconteceram massacres ou não, penso que ambas as partes cometeram erros, mas não compreendo como algumas pessoas pseudo-iluminadas vem para aqui mandar postas de pescada acerca de um assunto em que muito provavelmente desconhecem e nada sabem.
- ex. combatente na Guiné Muito se fala de guerra colonial, mas eu ainda hoje quase quarenta anos passados me pergunto muitas vezes o porquê de dois anos perdidos da minha vida que me O B R I G A R A M a perder.
- asdrubal Para se perceber a «Guerra do Ultramar» (eu designo-a assim) é preciso perceber uma coisa muito simples : - Quem são, hoje, os novos colonizadores dos territórios em questão. É só isso, não é preciso absolutamente mais nada.
Domingo, 14 Outubro- António Luís Lamento os anos perdidos nessa guerra estupida comandada por profissionais, mas feita por nós milicianos. (Porto)
Sabado, 13 Outubro- DIASANTOS Estive em Angola,em estado de guerra,praticam-se boas e más acções seja em que guerra fôr,muitos de nós ainda têm dificuldade em dormir e perceber o porquê.Será que somos o mal das frustações que existem no país?Chega..não preciso de filmes,mas de tranquilidade.Não reavivem memórias(à custa de protagonísmo).Chega,Chega...serei sempre PORTUGUÊS.
- Maria Uma guerra, seja qual for, traz sempre sofrimento e horrores a todas as pessoas envolvidas. O meu Pai foi um dos homens que perdeu lá 2 anos da sua vida e que ainda hoje fala da Guiné com muita emoção. Lá, como noutros contextos, há pessoas más e pessoas boas, não podemos generalizar, mas temos que lembrar que quem foi não teve escolha. E não tem que pagar por aquilo que apenas alguns fizeram.
- Miranda Agradecia que não omitissem a presença dos caboverdianos na guerra da Guiné. 95% dos comandantes e intelectuais do PAIGC eram caboverdianos!!! Sem nós o PAIGC não teria derrotado o exercito português!
- celia c. A Guerra como nunca foi contada. Muito bem. Finalmente podemos ver a verdade sobre as miudas e mulheres violadas por soldados portugueses durante a guerra e seus filhos mestiços abandonados... Negros barbaramente chacinados e aldeias pilhadas. Ainda bem que alguém resolveu fazer um trabalho sério e mostrar também o lado menos conhecido e mediático. Daqui a 30 anos farão o mesmo sobre o Kosovo.
Sexta-feira, 12 Outubro- Victorino - Suecia So espero que as pessoas entrevistadas, tenham vivido o dia a dia da guerra, e tudo o que isso envolvia, e nao se fique so com entrevistas aos senhores comandantes que nao abandonavam os quarteis, e muitos ate tinham as esposas consigo, e so estavam a espera que a comissao chega-se ao fim para se oferecerem para outra...
- Ex Combatente É preciso não ficar por documentários mas tb fazer justiça a quem tudo deu pela pátria e foi tantas vezes esquecido pelos dirigentes. Fazer justiça e esclarecer e não apenas embasbacar tolos....

quinta-feira, 27 de setembro de 2007

HISTÓRIAS DA GUERRA COLONIAL

MANUEL CARVALHO

ENCONTRO COM O JOÃO DE MELO












NOITE DE SENTINELA






- Cabrões ! - Com um piparote bem medido, Américo espalmou o mosquito contra o
pescoço. - Já não me lixas mais.


Sentia-se chegar ao limite da resistência, os tornozelos e os nós dos dedos
dolorosamente inchados de tanta ferroada. Prestes a desatar aos berros.

Ao redor do aquartelamento, à volta dos postes de iluminação, os mosquitos saíam
da noite em hordas cerradas.

"Maldita terra, malditos mosquitos. Não bastava este calor de morrer."


Pousou a G-3 no parapeito do posto de vigia e pôs-se a espiar o negrume.
Múltiplos ruidos, indestrincáveis, de todos os timbres, elevavam-se para além do anel
de luz das lâmpadas da periferia do aquartelamento. Era um bramar soturno, hostil,
prenhe de suspeições.


Por instantes esqueceu-se dos mosquitos, percorrido por um arrepio.
Mas o ressonar dos dois camaradas de posto, mesmo a seus pés, serenou-o.


"Se estivesse sozinho morria de cagaço."


Olhou o relógio de pulso. Os ponteiros fosforescentes indicavam
as três horas da madrugada. Dentro de três quartos de hora despertaria o
Mendes para o render. Seria a sua vez de ferrar o galho, se fosse capaz.


Apetecia-lhe fumar um cigarro mas a imagem ameaçadora do capitão
sobrepôs-se ao desejo. Não lhe apetecia mesmo nada apanhar uma porrada e ir parar ao
Leste, que era bem pior do que o Norte, segundo diziam.


"- Sentinela, éh sentinela !"


Emaranhado nos seus pensamentos, levou tempo a recompor-se.


- Estavas a dormir, logo na primeira noite ?


Pela voz, reconheceu o furriel Neves.


- Aqui no poleiro, não dá o sono a ninguém, meu furriel.


- Podia passar por aqui um regimento de turras que não davas por nada.
Vamos lá a ver se abres mais os olhos.


Américo sentiu os passos do furriel perderem-se na noite. Enervado,
tornou a olhar o relógio. Estava na hora. Até já passavam cinco minutos.

- Acorda, Mendes, está na hora.


O camarada soergueu-se da enxerga, estremunhado.


- Já ? Não me estás a tramar ?


- Vá, levanta-te. Não acordes o Fernandes.


- Logo agora que estava a sonhar com uma miúda muito boa lá da terra. Tens um cigarro ?


- Olha o capitão.


- O capitão que vá bardamerda. Dá cá o cigarro.


O clarão do fósforo iluminou dois rostos terrosos. Depois ficou a ponta
vermelha do cigarro a fazer arabescos na noite.


- Não te deitas ?


- Não tenho sono. Fico contigo um bocado.


- Saudades ? Deixa lá que qualquer dia já chega o correio.


Falavam em surdina, para não acordar o Fernandes. Os mosquitos tinham
acalmado e para além dos morros começava a assomar o palor da madrugada.


- Sabias que o meu filho fez ontem um ano ? - disse Américo, com tremuras na
voz. - É verdade, fez ontem um ano que ele nasceu em França.

- Tu estavas na França, não é ? Que maluqueira foi essa de voltares
para fazer a tropa ?


- Sei lá ! Comecei a pensar que nunca mais poderia regressar
a Portugal, que o meu filho nunca poderia conhecer os avós. A mulher
também se sentia triste sem a família. Resolvemos regressar. Mas quando
acabar esta merda, volto para a França.


- Dizes bem, esta merda.


Subitamente, um estampido acordou a noite.


- Ouviste ?


- Foi no posto 3.


Soou outro tiro, logo seguido duma rajada.


O aquartelamento encheu-se de sobressalto : luzes, vozes alteradas,
correrias, o latir do Fantasma.


- Será um ataque ? aventou Américo de dedos crispados na G-3.


O Fernandes despertara.


- O que é que a gente vai fazer ?- balbuciou.


A pergunta fê-los sentir como galinhas aprisionadas.


- Terá morrido alguém ?


- E nós aqui sem saber de nada.


- Que porra de situação.


- Calma - aconselhou Mendes. - Não me parece coisa grave.


- Sentinela ! - gritaram lá de baixo.


- Quem está aí ? - perguntaram em coro.


- É o furriel Meneses. Estejam tranquilos que ainda não é desta que vão
morrer. Foi o parvo do Costa que julgou ter ouvido um ruído estranho e desatou
às rajadas como um maricas. Algum javali.


- Que cagaço, meu furriel ! - Américo soltou uma risada nervosa. -
Já pensávamos que os turras tinham atacado.


- Ponham-se mas é a pau com os ataques dos mosquitos.


- Que susto aquele gajo nos pregou - desabafou o Fernandes. - Ia-me borrando todo.


- O furriel disse que eram os javalis mas podiam muito bem ter sido os turras.


- Nunca se sabe.


- Afinal, quem é que está de sentinela ? Eu ou vocês ? - galhofou o Mendes.


A parada enchia-se de vida com as primeiras pinceladas da manhã.


O segundo pelotão vair sair para a mata - suspirou o Fernandes. - Já é de dia.


- Graças a Deus - benzeu-se o Américo, olhos postos na luminosidade
que acobreava o dorso dos morros.






CHEGADA DO CORREIO



- João Moreira.



— Pronto!



— Carlos Afonso.



— Estou aqui.



Empoleirado numa mesa do refeitório,qual deus louco,
o cabo-cripto Ruivo semeia, às mãos-cheias, a alegria e a tristeza, as lágrimas
e os risos.



— Pedro Antunes.



— Eu...



- José Fernandes.



— Dá cá.



Mãos nervosas como gadanhas. Dedos
hirtos que se engalfinham nas cartas e aerogramas.



O Ruivo era o tipo mais importante da
Companhia. Ou, pelo menos, assim o cria.



Na verdade era ele que estava
incumbido da distribuição do correio que o avião trazia duas vezes por semana
de S.Salvador, juntamente com os frescos.



O avião chegava geralmente por volta
das onze horas da manhã e razava duas ou três vezes o aquartelamento, com as
goelas abertas, a dar tempo que se montasse a segurança à pista.



Enquanto o furriel vagomestre Máximo
procedia à conferência da carne e do peixe, o Ruivo recebia das mãos do piloto
o saco do correio. Aquele saco era um coração gigantesco, palpitante, poderoso.
O principal sustentáculo da Companhia. Mais do que as G-3 e a cerveja, as
metralhadoras e os cigarros, os morteiros e as negras da Sanzala.



— Hoje pesa - dizia invariavelmente
o piloto.



— Deve vir cheio de cornos -
gracejava por sua vez o Ruivo.



Concluida a transacção do correio e
dos frescos, a D.O. começava a deslizar pela pista e dentro em pouco não era
mais do que um mosquito zumbidor rumo a S.Salvador.



O pessoal da segurança saía do capim
e saltava lesto para o unimog que arrancava de prego a fundo para o caldeirão
ao rubro do aquartelamento.



— Américo Pereira.



— Aqui.



- Carlos Marecos.



— Viva!



Restam três cartas. As unhas
cravam-se nas palmas das mãos. Os rostos contorcem-se em esgares doloridos.



O Ruivo passeia um sorriso
displicente por aquele mar de olhos esgrouviados e acaricia o magro monte de
correspondência que resta com



artifícios de amante sabido.



— Despacha-te... pá!



- Calminha..., tens tempo de saber
que o teu filho já chama pai a outro.



- Vai gozar com a tua avó.



O litúrgico deu lugar ao burlesco. Ruivo
procura escamotear o tempo, prolongar o seu reinado.



- Daqui a nada tás a apanhar um
borracho nos óculos.



Atingido o ponto crítico de
ruptura.É perigoso ir mais além.



- José Mendonça.



— Até que enfim.



- Pedro Moreira.



- Uf...!



— Manuel Augusto.



— Mas... não há mais nada...? —
pergunta uma voz incrédula.



- Nada mais. Começa a procurar outra
que essa já te pôs os cornos.



Há rostos lívidos de angústia, sorrisos
rasgados de orelha a orelhas, dorsos quebrados de solidão, olhos refulgentes de
alegria.



“Sou o tipo mais importante da
Companhia” — conclui, mais uma vez, o Ruivo.





NOITE DE
CONSOADA





Pouco passava
das dez horas da noite e na caserna do 1o pelotão já se bebera até chegar como
o dedo. O Fernandes sacou do realejo e largou a tocar modinhas do Minho. Todos
se puseram a dançar, os dorsos nús cheios de reflexos acobreados.



- Puxa pela garganta, Fernandes. Mostra a esta
malta quem são os nortenhos - gritou o Pacaça. Levou uma cerveja à boca e a
maçã-de-adão começou a subir e a descer no pescoço de touro.



- Cinco segundos, hem! Quem é capaz de fazer
este tempo? Alguém tem peneiras? - desafiou ao redor, de olhos envinagrados.



Mas ninguém lhe ligou. Dançava-se e bebia-se
por entre guinchos ululantes. O odor dos corpos suados misturava-se com o
cheiro azedo da cerveja entornada. O Pacaça agarrou outra cerveja e recomeçou a
sua corrida contra o tempo: um.. . dois. . . três... quatro segundos.



Ufano, os olhos negros incendiados, desafiava a
malta.



- Hei-de chegar aos três segundos ainda esta
noite - taramelava, numa dança de ébrio.



O Barão começou a cantar:

«Estou farto deles»



E o pelotão acompanhou-o em coro:



«Da chicalhada,



Esses
pançudos,



Que não fazem nada».



Américo segurou Mendes por um pulso.



- Quero-te mostrar uma coisa - ciciou-lhe ao
ouvido.



Nos olhos já lhe bailavam meia dúzia de Sagres.



- Anda daí.



A malta continuava a cantar:



«Vai prá mata



Ó meu malandro.



Por tua causa



É qu’eu aqui ando».



Mendes, acabou de beber a cerveja e deixou-se
conduzir. Américo tirou a mala de debaixo da cama e abriu-a.


- Olha! Tá lindo, não tá?


Mendes segurou a fotografia. O rosto traquinas do filho do Américo fê-lo engolir em seco.


- Tá lindo, não tá? - insistia a voz cheia de lágrimas do Américo.


«Abre a cantina,



Ó cantineiro,



Anda co’a malta



Caga no Primeiro».



- Quando penso que hoje é noite de consoada! - -
soluçava o Américo.



O Fernandes estava fantástico nessa noite,
quase fazia o realejo falar. Os corpos contorciam-se, alucinados, ululantes. O
Barão saltou para cima duma cama:




- Meus senhores, vamos beber em honra da malta
que está nos postos de sentinela esta noite.



Foi então que uma ideia genial chispou naquele
mar de álcool.



- E se lhes fossemos levar uma pinga? - juntou
uma voz.



Como por magia uma garrafa de bagaço nasceu das
mãos do Pacaça.



- Em frente, marche! - comandou o Barão.



À aproximação daquele mar proceloso, as
sentinelas gritavam, alarmadas:



- Quem vem lá?



- É o pai Natal que te trás um presente -
respondia-lhe o pelotão.



E sem tempo para uma resposta, a garrafa de
bagaço começava a gorgolejar garganta abaixo dos felizes contemplados.






MARIA


O Pacaça esqueceu-se que era um
grande bebedor. Já nem mesmo uma boa partida de lerpa o fazia esquecer a
imensidão exasperante dos dias.



— É um caso perdido - comentava,
descoroçado o Barão. — Eu que tinha tantas esperanças neste rapaz!



O Pacaça sorria, o carão inundado
por um fogaréu que lhe crescia nas entranhas.




Impreterivelmente todas as noites,
antes de se escapulir do quartel para a cubata de Maria, passava pela cozinha
buscar os restos do jantar.



— Lá vem o rapa-tachos - galhofavam
os cozinheiros.



Quando havia faltas, chegava ao
ponto de repartir com a rapariga a sua ração. Estirado no catre, qual ritual,
gostava de vê-la comer, silenciosa, cheia de olhares idólatras.



No final, olhos semi-cerrados, o
rosto crispado de desejo, chamava-a:



— Anda cá.



Naquela noite estranhou-a. Não lhe
achou o ardor habitual. O olhar turvou-se-lhe ciumento.



— O que tens?



— Nada - respondeu Maria, abraçando-o.



O Pacaça repeliu-a com brutalidade.



— O que tens? - repetiu,
sondando-lhe os olhos baixos.



— Tenho um filho na barriga -
anunciou, com simplicidade, Maria.



— Um filho!? - gritou Pacaça,
sentando-se de repelão no catre. — Meu!?



Apanhou as calças e vestiu-as
atabalhoadamente. Sentia o estômago às reviravoltas como quando estava com a
ressaca.



Maria continuava sentada na beira do
catre, esfíngica estátua de ébano.



O Pacaça calçou as botas e pegou na
camisa.



— Um filho!?



Velou noite fora.



“Um filho!?”.



Era algo de insólito que se
incrustara subrepticiamente no seu mundo simples e que, à traição, o socara no
estômago, como um copo de bagaço em jejum.



Ouvia o ressonar dos camaradas. A
lua ocupou, gorda e enfarinhada, o rectângulo da janela, pincelando a oca a caserna.
Depois, tranquilamente, desapareceu.



“Que diabo posso fazer? Levar o
garoto comigo? Abandoná-lo?”



A esta última alternativa. o coração
confrangeu-se-lhe. Na sanzala, em todas as sanzalas por onde passava, as
crianças mulatas constrangiam-no.



— Éh filho duma lata de conserva!



— Éh café com leite!


Nunca deixara de repreender os
camaradas, quando estes troçavam dos garotos.




Certa vez ia jogando à porrada com o
Barão. Não tinha estômago para ouvir aquelas coisas.



“Iria o seu filho ser um dia alvo de
troças idênticas?”



Sentia-se acalorado. Com os pés.
atirou o lençol para o fundo da cama, indiferente aos mosquitos.



“E se ficasse em Angola?”



Arrepiou-se e cobriu-se de novo com
o lençol.



Na sanzala, os galos lá cantavam. Em
breve despontaria a alba.



Passou ao de leve pelo sono. Um sono
prenhe de pesadelos e de reviravoltas na cama. A uma reviravolta maior a
despertina regressou. Contou os meses pelos dedos.



“No fim da comissão já o miúdo teria
um ano. Já lhe chamaria pai.”



A ideia de ficar, qual monstro libidinoso,
enroscou-se-lhe no cérebro.



“E por que não? Já ouvira dizer que
davam terras lá para o sul. Não tinha medo ao trabalho. Afinal, se regressasse,
não teria também que ir cavar o seu pão na Alemanha ou na França? Pelo menos em
Angola compreendia as pessoas, falava-se língua de gente. Por que não? Ficar
com a criança, com Maria”.



O Pacaça sorriu e fechou os olhos,
apaziguado. Não tardou a adormecer. Pela janela já escorria uma claridade
diáfana.









FANTASMA






O Américo pensava no filho, que no próximo
domingo fazia dois anos, quando a explosão o atirou ao ar. Caiu de costas na
cama fofa do capim.



Por um bom lapso de tempo não conseguiu
raciocinar, os ouvidos numa zoada tremenda. Gradualmente, foi recuperando a
lucidez.



«Meu Deus! O que teria sido? Meus Deus, meu
Deus, devo estar ferido. Será grave?»



Vozes alvoroçadas subiam ao redor.



«Meu filho, nunca mais te torno a ver».



Após mais uns minutos de imobilidade,
apercebeu-se que não sentia dores. Ousou mexer um pé, depois o outro, as mãos,
o pescoço, o suor a cegá-lo. Sentou-se.



«Meu Deus, estou vivo».



Pôs-se de pé. A zoada nos ouvidos parou. Finalmente,
compreendeu que não estava ferido.



Na picada sobrepunham-se ordens, gritos,
correrias.



«Foi uma mina, foi uma mina. Onde estará a
minha G-3? Se o capitão me apanha sem a arma dá-me uma descasca.»



Reentrou na picada.



- Há feridos?



Ninguém lhe respondeu. O capitão, na berma da
picada, acocorado sobre o rádio de transmissões, estava a comunicar com a
Companhia, numa voz despropositadamente alta. O Barão fumava um cigarro, com a
G-3 a servir de cajado. O enfermeiro punha um penso na testa do Costa.



- Estou muito ferido? - perguntou este, pálido
como um cadáver.



- Nem deita sangue. Feriste-te numa folha de
capim.



- Qual folha de capim, qual carapuça, isto foi
um estilhaço. Bem senti.



O unimog atingido afocinhara, com os pneus da
frente rebentados. Um cheiro intenso a borracha queimada pairava no ar.



- Vem já aí o 2° pelotão socorrer-nos anunciou
o capitão largando o rádio. - Alferes Mendonça mande já os homens sair da
picada e monte a segurança. Que bandalheira é esta?



Só então o Américo sentiu a falta do Fantasma.



- O Fantasma? Onde tá o Fantasma?



- Cagou-se todo com o medo e cavou por esses
morros acima - troçou o Barão.



Américo emitiu um assobio e esperou. Nada, do
Fantasma nem sombras.



- O
Fantasma tá aqui, Américo. Em cima do unimog.



Américo correu para a viatura danificada. Um grande
novelo, branco e peludo, jazia sob os bancos.



- Fantasma - chamou Américo.



O animal não se moveu.



- Fantasma! - tornou o dono, a voz sumir-se.



Pegou-lhe por uma pata inerte e puxou-o. Estava
morto. Um estilhaço perdido fizera um rombo na caixa da viatura e perfurara-lhe
o peito, ao nível do coração.



Américo continuou a puxar e o corpo tombou na
picada com um baque surdo. Uma roseta de sangue alastrava pelo peito do
cadáver, humedecia a terra esfarelada.



Mendes pousou a mão no ombro do Américo.



- Tem calma. . -



- O que há aí?- interpelou-os o capitão. - Não
ouviram as ordens?



- O Fantasma morreu - disse Mendes.



- Atirem-no para o capim. Antes o cão do que um
homem. Mexam-se.



- Ficaste viúvo, Américo - troçou o Barão.



-
Deixa-o
- disse secamente Mendes.



Surdo a tudo, Américo debruçara-se sobre o
corpo do Fantasma, os lábios lívidos como que agitados numa prece.





ARMADILHAS







A mensagem, captada pelo pessoal
do posto de transmissões, propalou-se rapidamente pelo aquartelamento:



"Caiu uma catrefada de turras
nas armadilhas do trilho Luvo."



As casernas esvaziaram-se e a
parada encheu-se de frenesim. Os cozinheiros largaram os tachos e correram a
engrossar os magotes efervescentes. 0 pessoal da limpeza desenvencilhou-se das
vassouras e embicou direito ao posto de transmissões. Para aumentar a balbúrdia,
o jipe da água com o auto-tanque a reboque irrompeu pela parada a grande
velocidade, quase cilindrando um dos grupos.



- Querem trancar o jipe? - refilou o condutor, envolto numa nuvem de
poeira.



O furriel mecânico Reis
apercebeu-se do incidente e saiu disparado da messe dos sargentos, de rosto
apoplético por quatro ou cinco Sagres.



-
O que há?



- Estes gajos atravessaram-se
diante do jipe - desculpou-se o condutor.



- Quantas vezes já te disse para
andares mais devagar dentro do
aquartelamento? - gritou o furriel
assanhado.



O condutor achou por bem bater em
retirada e o jipe começou a rastejar de rabo entre as pernas para a cozinha.



Só então o furriel Reis se
apercebeu da agitação reinante.



- Passa-se alguma coisa? - perguntou
ao redor.



- Parece que caiu um exército
de turras nas nossas armadilbas - respondeu-lhe o básico Marecos, feliz por
esclarecer um furriel.



O furriel Meneses estava estendido
na cama, embrenhado na leitura duma revista quando se levantou a balbúrdia. Depois
ouviu o derrapar do jipe.



''São os fangios do Reis” pensou,
mas como a agitação persistia pousou a revista e foi abrir a
porta.



- O que há? - perguntou ao Reis
que regressava agitadíssimo à messe.



- Cairam uns gajos nas armadilhas
do Luvo.



- Nossos?!



- Turras, parvo.



Meneses começou a ver tudo à roda.
Parada, homens, casernas, céu, bandeira, num turbilhão alucinante. Encostou-se à
parede para não cair.



-
Sentes-te mal, pá? - assustou-se Reis.



Lentamente,
tudo foi reocupando o seu devido lugar. Ficou só o coração a estraçalhar o
peito.



- Queres um copo de água?



Meneses abanou a cabeça.



- Não,
obrigado. Já estou bem.



- Devias ir medir a tensão, aconselhou o
Reis. Deves andar a precisar duns copos. Anda dai.



-
Vai tu. Já estou bem.



O
Reis ainda duvidava.



- Vê lá se te dói alguma coisa.



Meneses reentrou na camarata. Atirou-se para cima da cama.



“Caídos nas armadilhas que ele e o alferes Vasconcelos tinham
montado.”



Vozes, saídas das próprias entranhas esmagavam-lhe as têmporas.



“Assassino... Assassino...”



Afundou a
cara na almofada, as mãos crispadas nos ferros da cama.



Um rugido
animal subiu-Ihe à garganta e as lágrimas saltaram, por fim, a ferver, rosto
abaixo.










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BREVEMENTE, NOVA HISTÓRIA