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segunda-feira, 26 de maio de 2025

Hugo Dionísio - Eleições em Portugal: O espelho de uma União Europeia em ruínas


(Hugo Dionísio, in Strategic Culture Foundation, 22/05/2025, Revisão da Estátua)


Em “Médiarquia”, Yves Citton desmonta a máquina de influência política que está a encerrar a discussão política naquele que podemos considerar o campo tradicional da direita. Segundo Citton, em termos muito simples, a média dominante cria os ambientes propícios à produção de um determinado estado mental, de ressentimento, desilusão ou impotência, e depois, através de um exército de comentadores e outras figuras com exposição pública, produz e transmite o discurso que vai responder, precisamente, ao ambiente de medo provocado, cujas constituintes estão dissociadas dos mais graves problemas que os trabalhadores têm.

Neste sentido, considera Citton que o regime em que vivemos – a democracia liberal – já não é uma democracia, mas uma mediarquia ou, até, uma “publicocracia”, uma vez que a média produz as figuras públicas – através da sua entrada em programas de entretenimento – em que mais tarde o público vai associar ao discurso que lhe foi plantado na cabeça como coincidente com o mesmo. Daí que estas pessoas se mobilizem mais pelo ódio aos migrantes asiáticos, à corrupção – endémica do capitalismo -, do que em relação aos problemas da habitação, trabalho, educação, saúde ou até à possibilidade de guerra. O que eles procuram é a coincidência do discurso, a confirmação do problema e não a solução em si.

Isto, bem vendo, nada tem de novo, uma vez que o fenómeno da exposição pública associado ao discurso amplificado pelas redes sociais, há muito que foi identificado como se tratando de um estratagema para influenciar o voto, do qual as sondagens, a escolha criteriosa das notícias, os comentários sobre as mesmas e muitos outros elementos comunicacionais, são as peças de uma máquina de ganhar eleições, à disposição da classe detentora do poder económico. Não é de admirar que este fenómeno, no tempo das televisões públicas apenas nas mãos dos governos e dos seus apoiantes, tenha transitado para centros de interesses privados, extremamente poderosos e, muitas vezes, em aparente dissociação com o poder instituído.

Citton reflecte muito também na necessidade de resposta a esta máquina infernal. Como é que as forças democráticas enfrentarão e encontrarão os instrumentos para responder a esta máquina de conquistar votos e influenciar o eleitorado, ao ponto de este tomar decisões aparentemente irracionais, emocionais, pré-reflexivas, contra os seus próprios interesses? Citoon aponta para a necessidade de maior escrutínio da comunicação social e dos seus funcionamento, mas esse caminho é pouco plausível na medida em que ela se trata de um instrumento de poder, usado para tal e como tal. A questão, a meu ver, que não sou especialista na matéria, passa mais por perceber, porque razão, este instrumento funciona como funciona, para depois o podermos atacar na base.

A resposta não é fácil e merece uma análise profunda às condicionantes históricas do nosso tempo, usando o melhor instrumento e referencial que temos à nossa disposição: a experiência histórica. Para chegarmos à resposta necessária, teremos de perceber por que razão estas convulsões sociais se produzem e, mais ainda, por que razão são elas, nos dias que correm, tão características da sociedade ocidental, dos EUA e da União Europeia, ou das sociedades que se regem pelos princípios “liberais”.

A produção de um ambiente propício à tomada de decisões irracionais e emocionais, de tipo comumente designado como “reaccionário” – na fase reactiva superficial – não se pode dissociar do ambiente económico em que as forças capitalistas dominantes se encontram e dos desafios, metas e objectivos que enfrentam. Afinal, a instabilidade nas nossas vidas, a sensação de perenidade, a efemeridade das condições, são resultados directos do tipo de economia em que vivemos, das suas necessidades e das políticas que promove junto do Estado que controla.

São estas forças que promovem o discurso dominante, que valorizam determinada ameaça em detrimento de outra, que massificam a informação, hoje através das redes sociais e da imprensa mainstream, como ontem tal era feito através da igreja e das instituições de poder, de forma directa. Voltando à experiência histórica, o que ela nos diz é que não é a primeira vez que a classe trabalhadora se sente perdida, acossada e isolada perante as ameaças cuja existência percepciona.

Na designada primeira revolução industrial, aquando da introdução do tear mecânico, na primeira metade do século XIX, os Luditas (ataque ao tear mecânico) ou os “Swing Rioters” (destruição das debulhadoras agrícolas) destruíam as máquinas, vendo nelas uma ameaça ao emprego da sua força de trabalho. Para agravar o sentimento de perda, as más condições de salubridade, segurança, salários e a outras condições de vida também contribuíram para este tipo de reacção. Contudo, não podemos, uma vez mais, dissociar esta atitude da pequena burguesia. Dos pequenos proprietários que viram os preços dos cereais baixar e não tinham condições económicas para mecanizar a sua exploração agrícola; dos pequenos artesãos que não conseguiam investir nas novas tecnologias e dependiam da tecelagem manual; do papel da igreja que via a sociedade a transformar-se de forma muito rápida e propagava um discurso reaccionário sobre o assunto.

A pequena burguesia, os sectores da burguesia mais tradicional que se viram ultrapassados pela burguesia tecnológica da altura, forças conservadoras e reaccionárias avessas à mudança operada, manuseando uma classe trabalhadora que se sentia acossada, sentindo em perigo aquela que constituía a sua única forma de sustento, face à agressividade do capitalismo industrial emergente, mais dinâmico e empreendedor e com maior poder sobre a decisão política, financiado por um capital financeiro também emergente, criou o caldo social que levou à reacção emocional violenta, à raiva e ao ódio à inovação tecnológica.

Julgo que este momento talvez seja o mais parecido e com as constituintes materiais mais análogas e similares ao que vivemos hoje. Um processo de transição tecnológica baseado na digitalização, inteligência artificial e automação avançada que é vendido como que ameaçando o emprego, podendo provocar desemprego em massa; um capitalismo financeirizado e globalizado que ameaça a qualidade do emprego, os salários, a estabilidade e a previsibilidade da vida, acentuando a sensação de descontrolo; um processo de atomização das relações de trabalho que individualizam, resultado da terciarização da economia e da sua terceirização por recurso ao “Outsorcing”, produzindo postos de trabalho cada vez mais isolados, em que o fenómeno organizacional é mais difuso e desconexo; a emergência de empresas ligadas ao “cloud capital” que operam além-fronteiras, sem conexão física, acentuando a sensação de alienação, não apenas em relação ao produto do trabalho, mas também em relação ao próprio trabalho em si. Tudo isto a uma velocidade estonteante e apresentado como tendo um potencial disruptivo incrível.

Em virtude do avanço deste capitalismo muito agressivo e financeiramente poderoso, sobre o Estado, intervindo na decisão política e apropriando-se de monopólios naturais, influenciando processos de crescente privatização de serviços públicos essenciais, negando ao sistema democrático o poder de regular as reais alavancas económicas, exigindo impostos mais baixos ou mesmo nulos, que se traduzem em perdas sucessivas de capacidade de investimento público, os trabalhadores deste novo enquadramento económico vêem adicionar ao trabalho precário, aos turnos e longas jornadas, aos baixos salários (porque fazem apenas o que as máquinas não conseguem), à insegurança perante a vida, a crise dos sistemas de saúde, da educação, da habitação. E, para agravar e somar à perda de empregos por via do “ajuste tecnológico”, assistem à abertura das fronteiras pelos mesmos que lhes capturaram os votos através da sua máquina de propaganda. A sensação de alienação existe também em relação à sua noção de cultura, etnia e Nação.

O ser humano valoriza a estabilidade, a previsibilidade, pela sensação de controlo da situação que essas condições possibilitam. Os que dizem valorizar a “flexibilidade” e a “mudança” dizem-no porque se sentem no controlo. É só tirar-lhes o tapete e lá vão eles de volta para o refúgio seguro.

Um jovem diz que não quer estabilidade até se juntar com alguém, constituir família e ter despesas fixas para pagar. Enquanto sabemos que isto é assim, temos um capital globalista que vende o contrário, vende a “flexibilidade” que mascara a desregulação da vida, vende a ideia de “liberdade” contratual, que ilude a precariedade da fonte de rendimento.

Para este trabalhador do século XXI, a sensação de que pode perder as constantes da sua vida, sejam elas a sua única moeda de troca – o trabalho – ou o seu único porto seguro, a casa, a Nação, etnia ou religião, não será muito diferente do que terão sentido os seus homólogos da primeira metade do século XIX. Com as constantes da sua vida em causa, um mundo de inovação em versão acelerada e difícil de entender e a percepção criada de que as organizações existentes, as instituições colectivas de classe, não correspondem às suas necessidades, colocam estes trabalhadores numa situação de fragilidade total, que nem no Estado se podem refugiar, uma vez que vêem a falência dos serviços públicos, das próprias finanças estatais, por todo o lado.

Podemos estar horas a discutir se actualmente as organizações de classe existentes representam, ou não – eu penso que existem -, esses trabalhadores, mas, o que mais importa, é a percepção desses trabalhadores e não a nossa. Para eles tudo parece estar em causa, ao ponto de votarem em quem não defende os seus interesses, apenas porque têm a esperança de que esse alguém crie uma ruptura e destrua uma realidade que consideram opressiva. Então, tal como os seus homólogos do passado tiveram uma reacção emocional de ataque à tecnologia, não percebendo que poderiam, de forma organizada, usá-la em seu favor para obter melhores condições de trabalho, também os de hoje têm uma atitude desenfreada de tudo querer partir, ainda cegos perante a possibilidade de usarem essa força de forma organizada para, efectivamente criarem uma ruptura, mas dessa feita, com um plano viável de reconstrução de um mundo que responda às suas necessidades. Porque, convenhamos, o modelo que anula eleições na Roménia ou isola a Hungria, não responde também a essas necessidades, pelo contrário, trouxe-nos a este ponto.

Nesta fase de reacção emocional, provocada por um fenómeno psicopolítico conhecido e abordado por gente como Byung Chul Han, este trabalhador acossado, vendo ruir tudo à sua volta torna-se, nesse sentido, alvo fácil da demagogia “mediarquica”. Um bloco imperialista ocidental em que a classe capitalista tradicional, ligada aos sectores tradicionais e até aqui no controlo, se sente ameaçada pela transição do centro económico para a Ásia, tal como os capitalistas e classes detentoras do início do século XX se viram acossados pela perspectiva da perda das colónias. Desta feita, a transição do centro de poder para a Ásia, não apenas muda o paradigma económico, em que o poder transita do opressor para o oprimido. Ao mesmo tempo, estas classes dominantes vêem ruir o projecto neo-colonial, criado após a Segunda Guerra Mundial, como contingência da perda das colónias e das concessões sociais decorrentes da existência de uma coisa chamada URSS, cuja existência, associada à decadência do Império britânico, do mundo anglo-saxónico europeu e à emergência dos EUA, tinha, a par de outras coisas, desencadeado o recurso às doutrinas fascistas e sionistas.

Nesta mescla social também entram os taxistas, ameaçados pela Uber e atacando os condutores asiáticos, ao invés de atacarem os que deixaram esta lógica empresarial parasita destruir as suas empresas e postos de trabalho. Deveria mesmo ser estudado o efeito que a entrada da Uber na UE, a forma ilegal como entrou, a conivência dos poderes estatais com a sua entrada e o recurso a mão-de- -obra migrante de origem asiática, teve na propagação deste tipo de racismo. Ainda por cima, a classe dos taxistas não era conhecida, na UE, por ser a mais esclarecida e a vanguarda da classe trabalhadora. Nem por sombras. Por outro lado, foram eles quem desabafou nos seus táxis todas as suas frustrações a milhões de clientes que usavam os seus serviços, muitos deles humildes, uma vez que os mais ricos usavam, por ser sinónimo de sofisticação, a Uber.

Já os lojistas ameaçadas pela Amazon, Aliexpress ou Temu, os restaurantes ameaçados pelos franchisings de fast-food, os pequenos empresários ameaçados pela capacidade de investimento dos grandes conglomerados industriais internacionais, os operadores logísticos ameaçados pelas UPS, DHL e Express Mail, também terão tido a sua quota parte. Estes são a correia de transmissão para os seus trabalhadores. Estes terão cumprido o mesmo papel que cumpriu o tecelão, o pequeno agricultor, o artesão pré-industrial. Uma vez mais, vivemos uma era de luta entre facções do capital, na qual os trabalhadores são instrumentalizados.

Prova de que estas percepções são plantadas é que os problemas que os trabalhadores desiludidos elegem como fundamentais, não são os seus problemas reais, mas os daqueles que se viram ameaçados com a chegada de emigrantes em massa para trabalhar para a Uber, como o caso dos taxistas, que perderam as suas pequenas empresas para a Uber e para as sociedades unipessoais que trabalham para a Uber (e não só). Estes migrantes desenvolvem actividades que os indígenas não querem desenvolver ou as consideram menores, caso da agricultura.

Aliás, a profusão de explorações agrícolas de culturas de exportação, facilmente perecíveis, associadas a necessidades massivas de mão-de-obra barata a transportar e instalar em locais do interior, desertificados, muito subdesenvolvidos e pouco populosos, também terá tido a sua quota parte. Imaginem o que é chegarem cem trabalhadores asiáticos a uma aldeia com 50 pessoas, e tentem perceber o ambiente de invasão e insegurança que sentirão. Agora, imaginemos que os que prometeram combater a desertificação tinham desenvolvido o interior de Portugal e, ao invés destes 100 migrantes entrarem numa aldeia com 50 residentes, a aldeia teria 500. Tudo seria diferente, certo? E mais diferente seria se, ao invés de culturas de exportação, produzíssemos culturas autóctones, mais rentáveis e destinadas à nossa alimentação. Tudo isto foi obra de governos submissos às políticas antipatrióticas da UE, que andaram, nos últimos 20 anos, a vender consecutivamente uma ilusão de desenvolvimento que nunca chegou. E fizeram-no enquanto ganhavam eleições à custa da máquina mediocrática, prometendo resultados para os quais nunca trabalharam.

Daí que não nos possamos admirar que tudo se comece a precipitar para o abismo. Se, no passado, a amplificação do discurso dominante era feita pela Igreja e pelas suas organizações sociais, na actualidade, a amplificação do discurso dominante é provocada pela Imprensa mainstream e pelas redes sociais e os seus bots, comprados com todo o dinheiro que esta gente pode comprar. Já não é na organização de classe, na associação de bairro, na colectividade ou, sequer, na taberna, que o trabalhador, o pequeno proprietário, bebem a sua informação. Ao invés de o fazerem em grupo, fazem-no no isolamento do seu smartphone. Sem contradição, questionamento ou reflexão profunda. Do entricheiramento provém o fanatismo, do fanatismo a reacção. Das certezas absolutas e inequívocas só advêm maus resultados. Da depressão mental, só podem advir reacções emocionais imponderadas. Um animal acossado e isolado num canto morde em qualquer direcção e foge para qualquer lado, apenas querendo sair da situação de aperto.

Uma vez mais, portanto, temos trabalhadores e camadas proprietárias de pequena dimensão aliados a facções do capital que se sente em perigo. Mas todas as reacções têm um fim e conduzem à necessária acção. À resposta emocional, imponderada, à sua ineficácia, surgirá necessariamente, por razões que a própria necessidade e natureza das coisas exigem, uma acção pensada, ponderada, um plano viável, compreensivo e adaptado à realidade superveniente. E hoje, podemos dizer que, nesse aspecto, a classe trabalhadora e os pequenos empresários já estão mais avançados que antes. Como disse Umberto Eco, o mundo avança entre movimentos de acção e reacção. Marx falava em dialéctica materialista entre relações de forças construídas por movimentos sociais opostos, que se resolviam em avanços civilizacionais quando a favor dos trabalhadores; Elias Jabour fala de saltos de um ponto de equilíbrio para outro. Todas elas surgem na sequência da tese-antítese-síntese de Hegel, tal como surgiram de Heraclito e do seu “ninguém se pode banhar na mesma água do rio duas vezes”. Ou seja, tudo é movimento constante, de salto em salto, de acção em reacção para acção outra vez. É assim que o conhecimento se constrói, é assim que a natureza evolui, é assim que as sociedades se desenvolvem.

Da primeira revolução industrial, da reacção emocional inicial, saíram conquistas organizacionais extremamente importantes, fundamentais para as conquistas do século XX e para a derrota do nazi-fascismo dos anos trinta e quarenta. Tais conquistas permitiram um estado de bem-estar social nunca antes visto na civilização humana. À entrada do século XIX, como disse antes, os trabalhadores não possuíam ainda as suas próprias organizações, organizações que falassem por eles, que respondessem aos seus problemas concretos, que agregassem a sua força. Dessa reacção e da acção que lhe sucedeu surgiram as respostas à contradição estabelecida entre um movimento opressor organizado e profundamente poderoso, face à fraqueza, isolamento e incapacidade de resposta congruente e consequente dos trabalhadores. A resolução da contradição dá-se com a criação dos sindicatos, primeiro e dos partidos e movimentos de classe (anarquistas, socialistas, comunistas), depois. Depois da conduta reactiva, manipulada e emocional, sucedeu-se a conduta racional, planificada. Típica da serenidade de quem já descarregou a sua raiva e procura, após o escape, a solução efectiva para os problemas identificados.

Destas formas organizacionais nasce a capacidade de resposta ao movimento reaccionário e a agregação da força individual em força colectiva. Daí surgiram revoluções como a Russa, Cubana, Portuguesa, Chinesa, catalisadores de mudança que associados à capacidade destas organizações, obrigaram, mesmo no Ocidente capitalista, à concessão do estado social europeu. Aquele que hoje todos sentimos em causa e ameaçado. Aquele que o capital ameaçado cobiça, por poder proporcionar-lhe, aquando nas suas mãos, incontáveis lucros, também compensatórios da perda de poder à escala mundial.

É por isso que digo que, mesmo que a narrativa dominante tenha transmitido aos trabalhadores que as organizações existentes não falam por si, aos poucos, o isolamento, a necessidade de compreensão e a procura de acções mais eficazes na mudança do estado de coisas, fará reconectar toda esta força com as suas organizações. Estas, como é óbvio, também terão de a atrair e representar, exigindo tal resposta uma coragem verdadeiramente revolucionária, capaz de imprimir um movimento dialéctico de adaptação, primeiro, e resposta e transformação ás condições materiais existentes, hoje tão travestidas de novas roupagens. Chamemos-lhes uma “batata”, vestidos de azul ou vermelho, será em organizações de classe, de pendor revolucionário que a classe trabalhadora encontrará, uma vez mais, a libertação.

Não será um caminho fácil, a prosseguir num Ocidente decadente e em colapso. Não podemos desligar da sensação de perda que as populações desiludidas sentem, o sentimento de ameaça às suas raízes, à sua cultura, aquele que foi um movimento constante e ainda muito presente, de transferências sucessivas de dimensões da nossa soberania nacional. Se as fronteiras da migração se abriram, foi porque a UE assim o decidiu, uma vez que, nos termos do Tratado de Lisboa, esta matéria é da sua competência; se o trabalho se degradou, foi porque a UE nos destinou uma economia de baixo perfil, voltada para o turismo e os serviços; se a moeda compra menos e tudo parece mais caro, tal sucede porque perdemos a soberania monetária; se sentimos que os serviços públicos se degradam, tal sucedeu porque transferimos a soberania orçamental e financeira, limitando a liberdade de investir nos serviços públicos e de construir um sector público capaz de impulsionar a economia; se sentimos a energia cara, os combustíveis dispendiosos, tal sucede porque transferimos a soberania económica, sujeitando-nos à agenda privatizadora e deslocalizadora da UE; se sentimos o país a ficar para trás, os jovens a abandonar-nos, tal se deve à agenda de mobilidade que visa fornecer de mão-de-obra qualificada os países mais ricos.

A prova de que este movimento é meramente reactivo, reaccionário, por mais explicável e compreensível que pareça ser, reside no facto de nenhuma das dimensões que causam esta reacção, ter resposta no programa dos partidos “populistas” ou “demagógicos” que agregam estes votos, demonstrando que apenas beneficiam da máquina mediocrática, tal como os seus irmãos do centrão e da esquerda fofinha. Se se tratasse, efectivamente, de um processo de mudança, todos estes problemas contariam com uma resposta e, à excepção dos migrantes asiáticos, que se pretendem expulsar, nenhum dos reais problemas sociais que causam esta sensação de insegurança encontra resposta nos programas das AfD, de Trump, da AD, de Simeon ou Le Pen. Tal como se vê agora com Meloni.

A resposta a este estado de coisas exige muito mais do que falar mal de tudo e todos, exige a coragem e capacidade de romper, efectivamente, com os poderes instituídos. Sejam eles o da UE, direita neoliberal reaccionária, mas globalista, sejam os da “nova direita” Trumpista, reaccionária, mas tradicionalista, que opta por atrair os trabalhadores, atacando outros trabalhadores mas nunca quem os explora ou quem os escraviza.

Sem esta resposta, no caso português, uma procura das suas origens, da sua história e raízes e uma viragem para o mundo, sem intermediários ou paizinhos – a este respeito o Chega nem a fractura faz com a NATO e é isso que o torna “tolerável” face à AfD ou a Le Pen –, beneficiando das pontes construídas outrora, das relações com os países de língua portuguesa, com as regiões como Goa ou Macau que nos conectam às superpotências da actualidade e do futuro, Portugal continuará a ser carne para canhão de países decadentes que procuram segurar-se tratando-nos como o seu “pátio das traseiras”.

Procurar essa resposta implica a coragem necessária para dizer que esta UE falhou, que se trata de um resquício da guerra fria e nenhuma função mais lhe sobra do que a instrumentalização das nações mais pequenas, a extensão artificial das fronteiras da NATO e o esgotamento dos nossos parcos recursos, para seu benefício, para benefício dos directórios de poder que a alimentam e controlam. É bem visível a instrumentalização que França e Alemanha estão a fazer da União Europeia, num momento de corrida às armas, usando-a como extensão das suas estratégias belicistas.

Símbolo desta UE perdida no mundo e em si própria é, uma vez mais, o advento de um poderoso movimento reaccionário, russófobo e neocolonial no seu seio. Seja ele alimentado pela ganância globalista imposta pelas agendas destrutivas de Von Der Leyen ou pelo Trumpismo isolacionista da “nova direita”.

Quanto mais depressa o clarificarmos, mais depressa construiremos o novo mundo que surgirá destas ruínas

https://strategic-culture.su/news/2025/05/22/eleicoes-em-portugal-o-espelho-de-uma-uniao-europeia-em-ruinas/

domingo, 2 de fevereiro de 2025

Hugo Dionísio - Trump mostra a face imperial que era suposto permanecer escondida

* Hugo Dionísio 

 Trump faz tudo por apresentar-se como o “real deal”, ao invés do “politicamente correcto” que caracteriza a, igualmente bárbara, atitude liberal e neoliberal. Sob Trump todos podemos aceder ao privilégio de vermos o império em toda a sua brutalidade e visceralidade, sem máscaras comportamentais, sem filtros emocionais.

As reacções de estupefacção, repúdio e algum desconforto que se propagaram pela imprensa mainstream, a propósito das declarações de Donald Trump, quanto à tomada da Groenlândia à força, do canal do Panamá e mesmo do Canadá, enfermam, na sua maioria, da mais desavergonhada hipocrisia, enormes doses de ilusão e inaceitável ignorância, especialmente por parte daqueles que fazem da sua vida dizer aos outros o que pensar, pressupondo-se que, para tal, estivessem em posse de um nível de informação acima da média.

Face ao que tem constituído, desde a sua fundação, o comportamento dos Estados Unidos da América, dos seus presidentes, órgãos de soberania e daquelas que actuam como os seus principais tentáculos, dentro e além-fronteiras, falo das corporações multinacionais, afinal, em que destoa o comportamento de Donald Trump? É nova esta postura por parte de um presidente dos EUA?

Voltámos ao tempo do “politicamente incorrecto”, da falta de polidez e educação, máscaras utilizadas para criar a ideia de que a elite norte-americana tem em atenção as pretensões alheias, cumpre o direito internacional e respeita a soberania das outras nações? Temos de assistir, outra vez, à reedição do desfile moralista que caracterizou o primeiro mandato, mesmo que acabassem todos, não apenas a fazer o que ele disse, mas, mais importante ainda, a não desfazer o que foi feito?

Donald Trump, como se verá mais tarde, apenas dá voz e corpo ao poder que julga e, de algum modo sabe, ter na mão, fazendo-o da forma mais directa, pragmática e brutal que é seu jeito. Que foi jeito de muitos ao longo da história dos EUA. Inclusive de Biden. Trump faz tudo por apresentar-se como o “real deal”, ao invés do “politicamente correcto” que caracteriza a, igualmente bárbara, atitude liberal e neoliberal. Sob Trump todos podemos aceder ao privilégio de vermos o império em toda a sua brutalidade e visceralidade, sem máscaras comportamentais, sem filtros emocionais.

O que antes estava vedado senão a uma elite de comando ou aos teimosos que insistem em assumir uma postura crítica em relação a qualquer facto, ideia ou informação que lhes surja, passa agora a desvelar-se a todo o povo. Nesse sentido, a atitude de Trump é mais democratizadora, ou seja, mais mobilizadora da acção democrática, no sentido em que activa, exorta e suscita a acção de resposta a um grupo social muito mais vasto, antes adormecido pela polidez, inocuidade e falsidade da atitude política situacionista.

Será a proposta de Trump assim tão diferente de outras anexações que os EUA foram fazendo ao longo da sua curta, mas intensa história? Seriam os EUA a superpotência que hoje são se, em meados do século XIX, não tivessem anexado o Texas, tornando-o no 28.º Estado? Ou a Califórnia? Estados cuja partição deu ainda origem a Arizona, Colorado, Nevada, Novo México e Utah?

E quem foi o senhor responsável por tal anexação? Um Republicano? Nem por isso. O responsável foi o democrata James K. Polk, eleito como 11.º presidente dos EUA, tendo como objectivo a anexação do Texas, Califórnia e Oregon. É claro que se tratava do Partido democrata recém-criado, intrinsecamente liberal e pré-guerra civil. Mas o processo não difere substancialmente do intervencionismo norte americano, às mãos de democratas e republicanos, nos últimos 80 anos. Para tal bastou enviar uns colonos para esses locais, financiar a sua revolta e aplicar o chamado “Corolário Polk”, segundo o qual os EUA incorporariam os territórios cujos “povos” quisessem – mui “democraticamente” – a eles juntar-se. Os “povos”, portanto).

Importa ainda referir que a doutrina do “Destino Manifesto” era defendida essencialmente pelo próprio partido democrata, fundado em 1828. Foi com base nesta doutrina que se justificou a guerra contra o México que acabou com a conquista dos territórios atrás referidos. Ao contrário, os Whigs, estavam contra o intervencionismo externo, principalmente no que tinha a ver com os colonizadores europeus. E não será a atitude de Trump um corolário da aplicação, sem máscaras, da Doutrina Monroe? A doutrina, segundo a qual, a América Latina foi classificada como “o pátio das traseiras” dos EUA?

Convenhamos que o expansionismo norte-americano não se ficou por aqui, chegando a Porto Rico, território no qual os EUA praticaram todo o tipo de barbaridades para impedir a autodeterminação daquele povo, o qual apoiava esmagadoramente o Partido Nacionalista de Porto Rico (War against all Puerto Ricans, revolution and terror in America’s colony, de Nelson A. Denis), mantendo-se até hoje aquele território como uma colónia. Os povos indígenas terão centenas, senão milhares, de histórias iguais à de Trump. Trump é, na realidade, um presidente realmente americano.

Já na actualidade, nada mudou, a não ser a capacidade propagandística, beneficiando amplamente dos conhecimentos científicos na área da comunicação e propaganda. Os exemplos de anexação são profusos, sendo a Síria apenas mais um exemplo. Foi com Obama que chegaram as tropas norte-americanas à Síria, nomeadamente a partir de 22 de Setembro de 2014, supostamente para combater o ISIS, embora se saiba que, no essencial, as tropas enviadas por Obama estiveram no local a formar, treinar e mobilizar, o que designaram como “Exercito Livre da Síria” e os seus “rebeldes moderados”). Em 2019, foi Trump quem desmobilizou as tropas na Síria, tendo deixado algumas para trás, segundo ele para “ficar com o Petróleo”.

Interessante, ou apenas mais um exemplo do porquê de toda esta atitude face a Trump ser de uma hipocrisia monumental, é que Joe Biden, após cumprir um mandato inteiro, não apenas não desocupou o território sírio ilegalmente ocupado, como ainda teve papel fundamental, no apoio à Turquia, para destruir esta nação, criando condições para uma permanência mais prolongada e enraizada pelos EUA. Tão pouco acabou com o roubo descarado do petróleo.

Portanto, a verdade aqui é muito simples: Trump, como Bush pai, como Bush filho, foram apenas as caras feias a quem os democratas – defensores do destino manifesto dos EUA, do globalismo e do intervencionismo – acusaram de praticar os actos que, mais tarde, os próprios democratas não apenas consolidaram, como aprofundaram. Com a excepção do Afeganistão, de onde Biden retirou, o normal são os democratas, os seus discípulos e procuradores na europa, Austrália, Japão, Coreia do Sul e Nova Zelândia, atirarem as culpas do intervencionismo aos republicanos, mas os democratas, tal como os republicanos, não apenas não desfazem, como continuam e aprofundam tais políticas.

O exemplo do Afeganistão está para Biden como a retirada do Iraque está para Trump. Se Trump não retirou totalmente, tal deveu-se, uma vez mais, ao petróleo. Biden, mesmo depois de o parlamento Iraquiano ter votado a saída das tropas americanas, continuou a resistir à retirada das mesmas.

As frentes internacionais abertas por Trump, nenhuma foi encerrada por Biden. A guerra tecnológica contra a Huawei, foi intensificada e alargada por Biden a outras empresas e tecnologias, e idem para a guerra comercial. Ao contrário de Trump, que no seu primeiro mandato conseguiu dialogar com Vladimir Putin, Biden recusou-se a qualquer contacto e, à boa maneira democrata, aprofundou os fossos relacionais com um país tão importante como a Federação Russa, criando uma crise de segurança internacional que há muito tempo não se vivia.

Foi também sob a “liderança” do Partido Democrata que a NATO destruiu a Jugoslávia, foi com Biden que ocorreu o primeiro genocídio televisionado e online da história humana, em Gaza. Aliás, se existe figura proeminente e presente no intervencionismo norte-americano nos últimos 30 a 40 anos, essa figura é Joe Biden, braço direito de Bill e Hillary Clinton ou Barack Obama.

Todos se recordam da forma como Joe Biden disse, ao lado de um embasbacado e hierarquicamente subordinado Chanceler Scholz, que destruiria o gasoduto NordStream se a Rússia “invadisse” a Ucrânia. O gasoduto, propriedade conjunta da Federação Russa e de países da OTAN, foi assim destruído o que, nos termos do direito internacional constitui um acto de guerra contra uma infra-estrutura civil, para mais, propriedade soberana de países “aliados”. Esta ameaça, mais tarde concretizada, nada difere, na essência, na brutalidade e no desrespeito pela soberania alheia, da pretensão que Trump assumiu relativamente à Groenlândia, a despeito da Dinamarca.

Talvez os “moderados”, epiteto usado para designar os fanáticos pelo situacionismo e demais fanboys do globalismo neoliberal liderado pelos EUA, gostem daquelas narrativas encomendadas para esconder a verdade, como aquela que foram um grupo de ucranianos bêbados que num dos mares mais bem guardados do universo, não apenas fizeram uma festa de arromba como rebentaram uma instalação energética protegida pelo direito internacional. Mas esta narrativa paradoxal, delirante e mentirosa apenas confirma tudo o que aqui tenho dito. Trump e dos Democratas apenas diferem na dose de honestidade com que assumem os seus interesses reais. O primeiro diz ao que vai, à moda do faroeste, os segundos são mentirosos e ilusionistas compulsivos, especialistas em apontar para um lado e virar para o outro, beneficiando do uso científico das disciplinas do ilusionismo e contorcionismo.

Tal como Trump, cuja atitude demonstra a pouca conta em que tem os actuais dirigentes europeus, não os considerando dignos sequer de recurso a um discurso eufemístico ou mistificador que justificasse a agressão, Biden não foi diferente. Tão pouco respeitou Scholz como chefe de estado de um dos países – ainda – mais importantes do mundo. Confirmando o que constatamos sobre o caracter de tais figuras, Sсholz nem se defendeu ou defendeu o seu país. Nem para tentar uma qualquer manobra de diversão. Uma piada, graçola ou qualquer coisa. Como se a proximidade ao chefe o congelasse de medo.

Talvez, os supostos “moderados”, a maioria dos comentadores que povoam as cada vez mais irrelevantes TV’s mainstreans ocidentais e os eleitos para cargos políticos que se limitam a seguir as directrizes emanadas dos directórios de poder dos EUA/G7 e OTAN, dêem muito valor a uma atitude cínica e hipócrita, tão em voga nos corredores do poder no ocidente e que consiste em pensar-se uma coisa e dizer-se outra; em querer-se muito algo e mostrar-se que nem se quer assim tanto. Mas quem está no terreno, no dia a dia da realidade, da luta pela sobrevivência e da luta pela transformação do mundo, talvez beneficie com a susceptibilidade de um número crescente de pessoas, olharem para as TV’s e, ao invés de assistirem a um qualquer show politicamente estilizado do Copperfield, terem acesso, para variar, à verdadeira cara do império, aos seus tiques, feitios e caprichos.

Não sei se trágico, se caricato, mas o espaço público no ocidente, o espaço da “pós-verdade” tornou-se num amplo e continuado teatro em que figuras desfilam continuada e sucessivamente, fazendo parecer que se faz o contrário do que se pratica, fazendo acreditar que se defende o contrário do que se objectiva, fazendo por esconder os reais responsáveis por aquilo que todos vemos e revemos acontecer. Nestes palcos da ilusão, em que se transformaram os órgãos de comunicação social, mistificar tornou-se sinónimo de informar e o ilusionismo tornou-se na própria comunicação.

Em tal palco, como é óbvio, figuras como Trump, Putin, Xi Jinping, Maduro, Claudia Sheinbaum, Lukashenko, Fico ou Orban, sejam quais forem os seus campos político-ideológicos, são figuras profundamente odiadas. O que pensam dizem e o que dizem, em regra, coincide com o que defendem. Cometem ainda o pecado mortal de pretenderem exercer o poder que lhes foi constitucionalmente acometido, não admitindo ingerências que não estejam de acordo com a sua vontade e com as responsabilidades a eles atribuídas. Este caracter soberano (consigo próprios e com os outros) e altivo, granjeia-lhes epítetos de “ditadores”, os quais, convenhamos, muitas vezes têm como fonte um folhetim de seu nome “CIA World Factbook”.

Tendo a certeza que 70% da população mundial não se importaria nada de viver numa “ditadura” como a Bielorussa em que qualquer ser humano é “obrigado” a não passar fome, não dormir na rua, não ficar no desemprego, não ficar à espera de operações médicas anos a fio, não sucumbir ao analfabetismo e à iliteracia e a não viver o drama do crime violento, tais classificações nada mais me merecem do que um sorriso irónico, quando se considera “democracia” atribuir o poder a meia dúzia de oligarcas e condenar vastas maiorias à miséria, e “ditadura” conferir condições dignas de vida, não à maioria, mas a toda a população, impedindo os oligarcas de mandarem e desmandarem à sua vontade, sob pena de exclusão. Assim, sem misticismos, nem ilusões. Tal como quando condenam, perseguem e calam todos os que tentam subverter, em nome de interesses estrangeiros, tais nações.

O que devemos questionar é para que necessitamos de um poder que diz estar contra a tortura, mas mantém Guantanamo a funcionar e, como essa instalação, milhares de prisões secretas em todo o mundo. Ou, um poder que, nos últimos 80 anos, transferiu cerca de 20% da riqueza produzida anualmente, dos 50% mais pobres, os trabalhadores, para os 10% mais ricos, os oligarcas, passando esses 10% a dominar mais de 30% do output dos EUA e os 50% mais pobres a quedar-se por uns meros 6 ou 7%. Tudo isto enquanto se fazem belos discursos sobre democracia – para os 10% mais ricos certamente – e direitos humanos, sempre que estes não colidam com interesses mais importantes, como os monetários.

Muito gostarão, tais gentes, de ouvir Biden, numa mesma conferência de imprensa, dizer que vai enviar armas para Israel e, logo de seguida, dizer que está preocupado com a situação humanitária em Gaza e pedir a Netanyahu que seja mais brando com as bombas que, ele próprio, lhe autorizou o envio. Também gostarão bastante de ver Blinken dizer que tem de “ajudar” a Ucrânia com mais armas e depois acusar a Federação Russa de deitar prédios ucranianos abaixo, para eliminar os soldados que para lá a OTAN envia. Ou assistir a Zelensky dizer que luta pela democracia enquanto eliminou toda a oposição à esquerda e ao centro.

A polidez e o cinismo que fazem confundir com “cultura democrática” e “respeito institucional” têm por base os mesmos princípios – ou falta deles – que os levam a proibir órgãos de comunicação social, em nome da defesa da “liberdade de expressão”, e perseguir indivíduos em redes sociais, escutando chamadas telefónicas, vídeos e analisando mensagens privadas, em nome da defesa da liberdade de opinião. É em nome desta polidez que se calam os biliões de dólares anuais que o orçamento norte americano consagra para a comunicação social, para que produza informação que “contrarie a influência maligna” de Rússia, China ou Irão (https://www.hudson.org/.../countering-malign-prc...

). Mesmo que, para se produzirem tais mensagens, se tenha de inventar, mentir e manipular factos. Como é que alguém são e minimamente preocupado com o seu povo admite que um país estrangeiro use fundos sem fim para eliminar a relação entre a Europa e a China, ou a Europa e a Rússia, como se fossem nossos patriarcas ou tutores e os povos europeus estivessem sujeitos a um processo de inabilitação civil, incapazes de exercer os seus direitos e assumir os seus deveres.

Ao assistirmos à intromissão de Elon Musk na política europeia, usando do seu “X” para propagar as suas ideias, todos os que se mostram chocados deveriam pensar duas vezes e perceber que a utilização do “X” por Musk não difere da utilização do Facebook, Google ou comunicação social mainstream (concentrada segundo os auspícios de Clinton) pela casa branca e pela CIA. O desrespeito que Musk demonstra pela soberania dos estados membros europeus não difere do desrespeito a que se deram os representantes políticos desses estados consigo próprios e com os povos que dizem defender, quando prescindiram de governar e deixaram tudo nas mãos de Washington e da mandatária Úrsula von der Leyen. No fundo, Elon Musk está apenas a utilizar um poder que sabe existir, assim, sem máscaras também.

Trump, Elon Musk ou J.D Vance (ainda vão aparecer tipos a dizer que os apoio) desconcertam esta gente porque denunciam, sem subterfúgios, sem falsas modéstias, sem hipocrisias, o estado de submissão e subordinação em que se encontram os políticos europeus face à Casa Branca, face ao império corporativo que agora chefiam. Sabendo-o, usam com toda a frontalidade tal poder, rebaixando os destinatários das suas ordens ao nível do que são: meros funcionários corporativos à procura de trepar na carreira e corruptos (moral ou financeiramente) procuradores, tão fáceis de manipular. Se existe capacidade que todos líderes afirmativos têm é a de saberem onde se encontram os gatilhos que manipulam cada ser, cada personalidade. Como ninguém, sabem puxá-los e premi-los para obterem o que pretendem.

Perante tal comportamento, gentes como António Costa, Úrsula von der Leyen, Kaja Kallas, Montenegro, Starmer, Scholz, Macron ou Meloni (que agora promovem como uma nova Mussolini 2.0 em versão woke), ficam totalmente desarmados. Já não existe faz de conta. Das duas uma, ou seguem o líder ou são triturados. A outra opção é lutar, assumir uma alternativa. Trump obriga-os a assumir um comportamento e a deixar o pântano da indecisão, do salamaleque, do cinismo seguidista. Nenhum trepador gosta de ser desmascarado desta forma. Nem para o bem, nem para o mal.

Como têm provado as administrações democratas, as atitudes brutais que os republicanos assumem, são sempre mais tarde confirmadas e aprofundadas pelos democratas. Tal como fazem os partidos “social-democratas e socialistas” (agora todos “liberais”) na europa, relativamente aos partidos assumidamente neoliberais, conservadores e reaccionários. Os segundos abrem o caminho, que mais tarde os primeiros consolidam, dizendo que não o estão a fazer. No final, todos sabemos que ficámos mais pobres. E assim se cria a aparência de movimento que mantêm tudo na mesma.

Esta não é mais do que a história do “polícia bom – polícia mau”. O papel dos Trumps e Bush é o de levar mais longe o destino manifesto, que é como quem diz, o alargamento do império, para que venham então os Clintons e Obamas como salvadores, e, por entre belas palavras de unidade, liberdade e democracia, normalizar a barbaridade que pretendiam e da qual retiraram vantagem. Falando em progresso, todos constatamos que vivemos numa sociedade mais violenta, mais empobrecida, mais atrasada, menos democrática.

Afinal, de que precisa o mundo senão da verdade? Seja ela brutal e opressiva, seja ela inaceitável ou desconfortável. Mas que seja a verdade e, nesse caso, Trump é muito mais fiel à verdade que Biden. Trump dá-nos a verdadeira face dos EUA, aquela que não é mascarada e obscurecida, ou abonecada, pelos discursos gobelianos do Partido democrata. Até quando mente e conspira Trump nos diz a verdade, porque o faz com tanta presunção, imbecilidade e arrogância que se torna fácil desacreditar e desmontar o discurso.

Com a verdade é possível lutar. Odeiam Trump porque nos mostra quem é o inimigo, dando nome e corpo ao monstro que se esconde por detrás do globalismo liderado pelos EUA. Tudo o que o Partido Democrata e seus seguidores e esforçam tanto por esconder ao povo… Deixou de ser secreto!

20 de Janeiro de 2025

 Fonte: 

 https://canalfactual.wordpress.com/2025/01/20/trump-mostra-a-face-imperial-que-era-suposto-permanecer-escondida/

https://www.odiario.info/trump-mostra-a-face-imperial-que

terça-feira, 10 de setembro de 2024

Hugo Dionísio - Neoliberalismo: uma antecâmara do fascismo! Eis o que se esconde por trás das eleições alemãs.

 


* Hugo Dionísio

7 de setembro de 2024
As eleições ocorridas na Turíngia e Saxónia, vistas como um referendo à governação Scholz/Baerbock e uma amostra do que aí virá em 2025, confirmaram a erosão do governo alemão, demonstrando que a “maldição de Zelensky” está bem viva. Quanto maior a proximidade com o ex-Presidente da Ucrânia e momentâneo ditador delegado, maior a probabilidade de queda de um governo. Trata-se de uma tendência quase inexorável.
Contudo, quase 80 anos depois do fim do terror nazista, vem o centro neoliberal pregar o medo do fascismo, como sua bandeira preferida. Enquanto amedrontam os seus povos com a AFD desta vida, apoiam o Banderismo na Ucrânia, o Milei na Argentina e golpistas de extrema direita na Venezuela. E com isto os apanhamos: a luta do centro neoliberal contra a extrema direita não passa de um torpor oportunista, em que uma casta privilegiada que se considera civilizada, não quer ser exclusiva por outra casta mais trauliteira.
E enquanto acenam com os perigos da “extrema direita”, eliminando quem lhe poderia dar realmente combate, não impedem, no entanto, a sua própria autodestruição, como acontece com o executivo de Sholz/Baerbock. Esta é também a história de muitos outros governos conotados com o centro neoliberal. Mas esta suscetibilidade autodestrutiva, constitui apenas a face visível – na Alemanha – de uma dinâmica social ainda mais profunda e que se identifica por toda a União Europeia, vivida ao longo de todo o século XXI, e que se impõe, a meu ver, através de 4 processos aceleradores críticos, criados/utilizados para produzir o efeito político que hoje observamos. Essa dinâmica, a não ser travada, conduzidaá, propositada e inexoravelmente, a uma nova farsa fascista, neofascista, como lhe queiram chamar.
O primeiro processo crítico acelerador do projeto neoliberal, na Europa, coincidiu com a “Guerra ao Terror” de Bush, em que embarcou toda a OTAN, na sequência de atentados em Espanha, Inglaterra ou França, traduzida na invasão do Afeganistão e Iraque, construção da Primavera Árabe e destruição da Líbia e Síria. É nesta sequência que se impõe um processo de sobrevigilância e centralização da informação e inteligência a partir de Washington, atribuindo aos EUA o poder de analisar, monitorizar e coordenar esforços ao nível da segurança e criar, nas populações, as condições subjectivas para a acessíveis do que viria em seguida: a vigilância em massa de todos os seus passos, a propósito da manutenção de sua segurança.
Outro momento crítico foi a crise financeira de 2008, que impôs o “Estado de Austeridade Permanente”, estabelecendo as leis para a ideia de que o amanhã, afinal, não será melhor do que o ontem – apenas para alguns -, acelerando o processo de destruição do estado social e operando uma maior transição de valor, entre classes, de que há memória na história recente e que se havia operado nos EUA e no Reino Unido, logo após o inominável “Consenso de Washington”. É com a crise de 2008 que o Consenso de Washington se torna, finalmente, política oficial da União Europeia. Ao longo deste tempo, os “investidores” americanos ocuparam posições dominantes em setores importantes, por toda a Europa.
O terceiro momento crítico foi o Covid-19, com a introdução do “Grande Reset” de Davos e toda a ideologia do “novo normal”. Individualismo exacerbado, narcisismo, migração interna, das regiões mais pobres para as mais ricas e imigração de fora, para dentro do bloco ocidental, desenraizamento da população da sua terra natal, cultura e língua, desaparecimento da malha social que confere coesão às sociedades. A “Uberização” destruiu as fronteiras econômicas restantes que resistiam. Uma empresa na Califórnia, opera no ocidente, a partir dos EUA, sem intermediários, sem gastar um tostão em logística local. Passando por cima de leis e de toda a soberania nacional, recolha dados, vendas, classificações e recolha de ganhos. Por outro lado, o Covid-19, acompanhado de toda a lógica de submissão a recolhimentos impostos, contenção dos movimentos e vacinação obrigatória, criou as condições subjetivas para a submissão acrítica a um modelo de governação.
Como se já não fosse suficiente, com a operação Ucrânia, varre-se dos países centrais da “Ordem Baseada em Regras” a última réplica de soberania: as forças armadas. Voltou a “interoperacionalidade” e, com ela, a uniformização do padrão OTAN, o que equivale a dizer, padrão EUA, comprado nos EUA, feito sob licença dos EUA. Estratégia e tática militar passam a ser desenvolvidas em Washington, em que os estados europeus não passam de postos avançados da “Ordem Baseada em Regras”.
Informação e inteligência; economia e finanças; organização social e política; defesa e segurança; São as dimensões que foram sendo centralizadas e consolidadas em cada um dos momentos críticos. Cada um destes 4 momentos representou um salto evolutivo na força com que os EUA dominam a Ordem Baseada em regras. Para o novo século, o espaço vital tem de estar consolidado, coordenado a partir de um centro reconhecido, criando um bloco, em que as relações são definidas para um todo orgânico. Tudo para preparar o confronto entre blocos. Os resultados econômicos e sociais deste processo de aprimoramento, direcionado à Europa e feito para o secundário, determinaram uma perda relativa de poder, sentido pelas populações e estes, não a saber explicar, canalizam essa frustração para quem a verbaliza como ninguém: a extrema direita . Perante a impotência, promessas adiadas e contradição entre discurso e prática, provenientes do centro neoliberal, a solução está em quem se mostra resoluto e eficaz, mesmo que brutal.
Façamos uma comparação histórica pertinente, para sabermos do que estamos a falar. O período em que nasce o fascismo no ocidente (sim, nos EUA havia apartheid para os negros e fascismo, mesmo com supostas eleições), a riqueza estava distribuída da seguinte forma: entre os anos 20 e 40 do século XX, após o “Primeiro Terror Vermelho nos EUA”, os 10% mais ricos ficavam com uma parcela situada entre 43% e 49% do rendimento em cada ano, os 1% mais ricos, ficavam com 19% a 22%, já os 50% mais pobres ficavam com uma parcela que ia de 14% a 15%. O World Inequality Report não possui dados agregados para a Europa, mas na França, os resultados também não eram muito diferentes dos que vemos para os EUA. No fundo, os EUA representavam a tendência das economias mais avançadas.
A primeira conclusão que retirar daqui é segura: o período de crescimento do fascismo no mundo ocidental coincide com um período de agravamento das desigualdades, de concentração de rendimento, de enorme concentração de riqueza e consequente agravamento das condições de vida e de trabalho. A resposta do sistema para esta crise e reivindicação para o aumento do poder dos trabalhadores que se organizavam em poderosos sindicatos, coincidiu com a criação do fascismo, o corporativismo (que defende a paz social por oposição à luta dialética) e a repressão. Referimo-nos ao termo “crise” quando assistimos a um agravamento das contradições resultantes da disparidade na distribuição de rendimento entre os mais ricos e os mais pobres
A derrota do nazi-fascismo mudou tudo! Nos EUA, logo em 1945, os 50% mais pobres passam a agregar mais rendimento do que os 1% mais ricos (15,8% para 14,2%), enquanto os 10% mais ricos, desceram para 35,3%. É esta diferença, de quase 15% perdidos pelos 10% mais ricos, que se explica o fortalecimento da classe média americana e a construção do chamado sonho americano. Sem esta transferência, os EUA exclusivamente se tornaram na superpotência que foram, nem foram derrotados a URSS. Isto explica também a entrada em cena do Macartismo (o “segundo Terror Vermelho” de 1950 a 57), deriva fascizante que “limpou” sindicatos e organizações de classe nos EUA.
Até aos anos 70 do século XX, a situação dos trabalhadores americanos continuava a melhorar e os dados atestam-no. Em 1970, a riqueza controlada pelos 50% mais pobres atingiu o seu ponto alto (21,1%) e a dos 10% mais ricos (e 1% mais ricos também) atingiu o seu ponto mais baixo (34% e 10,1%, respectivamente). ). Os dados não puderam ser mais claros: o período de ouro dos EUA coincide com o período em que a distribuição da riqueza produzida foi mais justa; foi também o período com mais liberdade, democracia, engajamento político e melhores condições de vida.
Na França não foi diferente, uma vez derrotado o fascismo nazista e, logo a partir de 1945, os 10% mais ricos atingiram o seu ponto mais baixo (31,4%), o 1% mais rico 8,5% e os 50 % mais pobres passam de 14,6% em 1934 para 20,5% em 1945. É pena não termos dados da Alemanha, mas se estes não falam por si…
Esta relação, nos EUA, mal ou bem, contínua até ao final da URSS e, em 1995, tudo se voltou a inverter de volta ao período anterior à segunda guerra mundial. O “Consenso de Washington” ocorrido em 1989, que decretou a mundialização do neoliberalismo segundo a “escola de Chicago”, coincide com o ano em que os 1% mais ricos voltam a concentrar mais de 14% do rendimento anual, o que já não sucedia desde os anos 50. A partir de 1989 foi sempre a concentrar, até aos dias actuais, em que: em 2022, os 10% mais ricos atingiram 48,3% do rendimento anual, os 1% mais ricos 20,9% e dos 50% mais pobres, apenas 10,4%. Refira-se, a este propósito, que desde que existe registo, nunca os 50% mais pobres tiveram ficado com tão pouco rendimento anual. O mínimo que obtivemos, nos EUA, havia sido de 11% por volta de 1850!
Voltando às eleições alemãs. Estamos precisamente a viver o período da história ocidental moderna, em que a redistribuição da riqueza produzida (se falarmos da riqueza existente é pior ainda) está num dos níveis mais baixos de sempre. Na Europa, a situação ainda não é tão grave como nos EUA, mas estes 4 aceleradores críticos que identifiquei (Guerra ao Terror, Crise Soberana; Covid-19; Guerra Fria 2.0), produzindoão, necessariamente, o mesmo efeito de concentração da riqueza que já está a degradar e destruir o estado social europeu, construído à custa de uma redistribuição que, mal ou bem, ainda mantém alguns padrões de justiça.
Embora não tenham produzido grandes alterações na quantidade de riqueza prejudicada pelos 50% mais pobres, nos principais países europeus registados no World Inequality Report, é da chamada “classe média” que se ouvem muitas das queixas. Em países como a Suécia, Espanha, Portugal, França, Alemanha, Países Baixos e outros, a tendência é, embora de forma mais tênue do que nos EUA, nos finais do século passado, para os 50% mais pobres perderem terreno para os 10 % mais ricos. Ou seja, paulatinamente, vão-se desenvolver as relações económicas que produzirão uma realidade material típica do período em que se formou o fascismo.
Daí que seja hora de desfazer um dos mais importantes mitos, ou dogmas, que a narrativa oficial propaga sobre o fascismo: a principal característica do fascismo não é a repressão, mas, ao invés, a influência da concentração da riqueza e a sua entrega a uma cada vez menor quantidade de pessoas. Cada vez menos pessoas têm mais poder económico, como o que compram poder político e fazem o sistema político, mesmo aqueles que se apelidam de “democráticos”, funcionar segundo os seus termos. O Lobbying, o financiamento de campanhas e Think Thanks ou até da própria academia, são alguns dos meios mais usados ​​para interferir e moldar as políticas soluções preconizadas.
Ao invés do processo de concentração da riqueza, já a repressão pode acontecer em qualquer sistema, quando você estiver em crise ou sentindo-se ameaçado. A não ser nos casos psicopatológicos, a repressão é uma resposta orgânica justificada com um ataque externo ou interno. Só alguém mesmo muito alheado ou alienado da realidade acredita que não existe repressão nos EUA e, mais recentemente, intensificada na União Europeia. Todos os sistemas estatais têm um aparelho repressivo ao seu dispor e à sua utilização – dos meios coercivos – depende do nível da ameaça. Num estado fascista, o poder repressivo está ao serviço das camadas mais ricas da população.
O mesmo se passa com as eleições. Não é uma existência de eleições que determine a natureza fascizante ou democrática de um sistema. O que determina a sua natureza democrática é a abrangência das suas políticas. Se abrangem os interesses da maioria, ou não. Uma escolha entre iguais, como acontece nos EUA, não é democracia, é sufragismo. No final será o complexo militar industrial e Wallstreet quem manda. Outra característica da democracia consiste na susceptibilidade de alterar a política económica, quando esta não serve os interesses da maioria. Eleições estereis, pouco participadas em que governam partidos minoritários, como acontece crescentemente na Europa, não se explicam através da democracia. Esses partidos minoritários governam porque a base econômica que servem, eles permitem fazê-lo, mesmo em minoria. Em resumo, é possível haver fascismo com eleições. E nunca observarei um fascista assumir que o é.
Se o estado em que os EUA já se encontram explicados o surgimento de um Trump, uma “resposta” impotente para acabar com os exércitos de sem abrigo, junkies e de gente a viver em carros, roulottes ou tendas; na União Europeia, esse processo não é distinto e, embora mais tardio, está agora a produzir-se. Também na Europa está a surgir a resposta do sistema à crise que resulta do aprofundamento da contradição na redistribuição da riqueza. Quanto maior a contradição, quanto mais injusta a redistribuição, mais o sistema produzirá os agentes demagógicos, reacionários, que encantarão as massas mais pobres, com a culpabilização dos também mais pobres: emigrantes, refugiados e outros, para aqui trazidos, precisamente, pelos que mais riqueza acumulada.
Não é admissível, portanto, que alguém responsável e conhecedor das dinâmicas sociais e em posse de informação confiável, fique admirado com o envio eleitoral para a “extrema direita”. Mais grave se torna quando os representantes políticos do centro neoliberal, que se situam, inclusive, entre o Wokismo e o ultraliberalismo (partidos wokistas eurosocialistas e sociais democratas acusam Maduro de cometer fraude, mas decidem Milei um jogador limpo!), uma vez mais, tal como nos anos 20 e 30 do século XX, surgem a criar as condições materiais, por sucumbirem às dinâmicas de concentração da riqueza, seja por corrupção, encantamento ou medo de serem destruídos (e que razão têm), conforto, por sua vez e uma mais uma vez, o surgimento da oportunidade fascista (seja o caso da AFD ou não). O momento em que os super-ricos usam a repressão estatal para proteger o processo de concentração da riqueza.
Assim, ninguém pode admirar que as massas trabalhadoras descontentes, empobrecidas, vítimas da rapina, muita dela exercida a partir de Washington, votem na “extrema direita”. Depois de ondas de revisionismo históricas para comparar o fascismo ao comunismo (e socialismo) e a URSS à Alemanha nazista, foi o próprio centro neoliberal que legitimou a extrema direita. Se compararmos partidos aceitos, que nunca promoveram o ódio e a discriminação (caso dos partidos comunistas), com partidos que fazem a doutrina do ódio e da discriminação como suas bandeiras, acabamos de normalizar os últimos últimos.
Cresce que, ao contrário do voto nos partidos progressistas (em sentido económico, marxista), que rejeitam e denunciam o wokismo enquanto apresentam desviante à direita, os partidos da “extrema direita”, ao contrário, não comportam qualquer perigo para a base económica que sustenta o centro neoliberal. Nenhum regime fascista alterou o processo de concentração de riqueza, ao invés, reforçou-o. Também hoje, a “extrema direita” defende apenas e tão só o aprofundamento do modelo económico existente e que, como demonstração, proporcionou o seu próprio desenvolvimento.
E aqui chegou, se demonstra que o revisionismo histórico não é inocente. Ele visa criar uma fuga, uma alternativa ao centro neoliberal, sem que o poder real, o poder da riqueza acumulada, na economia, transite de mãos. Assim, os grandes concentradores ganham tempo, enganando as massas uma vez mais, prendendo-as na repressão fascista. Quando derrubado o golpe fascista, o desvio fascizante ou a deriva extremista neoliberal, as massas voltam a ser enganadas com o centro neoliberal, na medida em que não o identificam como pertencendo à mesma base econômica que alimenta o estado fascista. E assim perpetuar sua exploração, circulando entre formas mais ou menos agressivas de um mesmo remédio.
Para já, as eleições alemãs apenas confirmaram este ciclo vicioso. E a prisão neste ciclo, uma vez mais, em processo de geração histórica, esconda a maior das conquistas do globalismo neoliberal, federalista, financeirizado: a formatação do conhecimento a um ponto em que os especialistas, competentes em sua área, são incapazes de olhar para além de coisas que ensinamos. Neste sentido, o fascismo não é mais uma especialização, um aprofundamento em relação ao estágio atual do neoliberalismo globalista. O próprio belicismo, seja dos EUA (e que não termina com Trump), seja no centro neoliberal (para já), constitui também uma das consequências do processo de “fascização económica” da vida política. Resultado de uma cada vez mais tendências para a apropriação de riqueza, nem que seja pela via da guerra.
Quando ouço economistas, competentes (não estou a ironizar), com canais concorridos, criticam o ocidente por estar a sucumbir, entre outras razões, por praticar exercícios elevados, percebe-se que a herança ideológica neoliberal é de facto pesadíssima. Nenhum desses economistas competentes é capaz de olhar para além do esquema neoliberal que lhe ensinaram. Apenas reproduzam o que lhe ensinaram, sendo meros instrumentos da lógica de acumulação e pilhagem ocidental.
A incapacidade de sonhar e almejar o que hoje se considera impossível, constitui a herança mais pesada dos últimos 100 anos, que os EUA tiveram para nos entregar. As eleições alemãs, na sua divisão entre sonhadores, situacionistas e aprofundadores, demonstram esta tensão latente. Demonstram que existe quem sonhe, mas as forças do medo, do ódio e da reação, são mais fortes que nunca. O neoliberalismo constitui o seu alimento preferido.
Neoliberalismo: uma antecâmara do fascismo! Eis o que se esconde por trás das eleições alemã

https://www.brasil247.com/blog/neoliberalismo-a-antecamara-do-fascismo

sexta-feira, 28 de junho de 2024

Hugo Dionísio - Nota dez para a vergonha



*   Hugo Dionísio 

A libertação de Assange constitui mais um momento de vergonha para toda a máquina de propaganda a que chamam "Comunicação Social", que aprsenta o facto como uma benesse dos EUA em relação a um "culpado". Mas "culpado" de quê?  

Primeiro, todos optam por uma imagem passada de Assange, para não mostrarem o estado de degradação em que o calvário perpetrado pelos EUA o colocou.

Segundo, os EUA acusaram Assange de violar o Espionage Act, quando ele NUNCA cometeu qualquer crime nos EUA. A ninguém choca os EUA assumirem jurisdição extraterritorial e países supostamente soberanos como a Inglaterra, cumprirem com ela.

Terceiro, esta acusação dos EUA já era um segundo recurso, que veio a seguir a um processo inventado na Suécia, por violação, que nunca tinha acontecido. A ninguém chocou que, na "democrática" Suécia se tivesse inventado um suposto crime para prender um jornalista.

Quarto, o termo mais utilizado é "Assange admite culpa". Mas o que não dizem é que Assange "admite culpa" por um crime que nunca cometeu, não o cometeu certamente em solo americano e, como jornalista e como qualquer jornalista, apenas divulgou, a partir de um servidor na Islândia, informação fornecida por Chelsea Manning, famosa Whistleblower que já havia sido condenada nos EUA. A terra da democracia.

Quinto, Assange, jornalista, viu-se perseguido por divulgar crimes de guerra dos EUA no Iraque e Afeganistão, bem como denunciar mentiras que haviam sido contadas ao povo americano e ocidental. Assange, foi preso por dizer a verdade, por denunciar a verdade. Onde anda o TPI agora? Onde andou quando ele divulgou os crimes dos EUA e aliados?

Sexto, Assange, jornalista, teve de assumir a culpa por um crime que nunca cometeu, relativamente a uma lei que nunca se lhe poderia aplicar e a um território em que não esteve, para sobreviver a um calvário de isolamento numa cela de 2, por 3 metros, 23 horas por dia. 

Sétimo, Assange, jornalista, foi tratado pelos EUA como a Inquisição tratava os acusados de heresia. A inquisição nunca se enganava e, mesmo quando os soltava, tinham de sair como culpados. Os "democráticos" tratam assim todos os que não se podem defender. Este caso prova que o território "EUA" é todo o mundo e que a maioria dos poderes ocidentais se contenta com isso mesmo.

Oitavo, Assange, jornalista, foi assim tratado, para que siva de exemplo. Abres a boca, acusas o império dos crimes que cometes, acabamos contigo. Ah! Pensavam que era só na Rússia e no Irão... Façam-no e têm uma democrática Guantánamo à vossa espera. Com tortura e tudo! Ah! Mas sempre a dizer que nunca o fazem ou fariam! O que torna tudo mais "idílico".

Nono, Assange, jornalista, deveria ser protegido e acarinhado por todos os que têm coragem de se chamar de jornalistas. Dizer que o "ocidente" não persegue jornalistas, não é verdade, Assange está cá para confirmá-lo.

Décimo, Assange, jornalista, não é o único jornalista perseguido, no ocidente, por dizer a verdade. No contexto da guerra da Ucrânia ou em Gaza, são inúmeros os jornalistas ocidentais perseguidos, mortos até, estando alguns presos também por acusações de espionagen (o esquema é sempre o mesmo), como Pablo Gonzalez na Polónia, ou Alina Lipp que não pode voltar à Alemanha e viu a sua propriedade confisacada, ou Graham Phillips a quem foram aplicadas sanções pessoais pelo estado Inglês. 

Que Assange não nos deixe fechar os olhos para os abusos do poder. Não é por se dizerem democratas que o são, não é por dizerem respeitar a liberdade de expressão que a respeitam. 

A verdade liberta, a mentira e a ocultação oprimem. Eis a razão porque Assange esteve preso e perseguido.

A farsa tem de continuar!

https://x.com/HugoFDionisio/status/1805914842030633390

Canal factual.
Posted by OLima at quinta-feira, junho 27, 2024 

segunda-feira, 15 de janeiro de 2024

Hugo Dionísio - OS IDENTITARISMOS – “WOKE-LIBERAL” E O CONSERVADOR-REACCIONÁRIO

* Hugo Dionísio

O que está subjacente à comodificação do corpo, é a concretização material da alienação do ser humano em relação ao seu meio, ao seu ser, ao seu planeta. Sabe-se, de ciência certa, que o capitalismo aliena o ser humano de tudo o que lhe é caro. Para o poder explorar e da sua actividade retirar mais valia (mais-valor), tem necessidade de o separar, afastar (alienar) dos condicionalismos naturais, culturais, éticos ou morais que se coloquem entre este ser humano e a pretensão de acumulação de quem recolhe a mais valia, no final, o lucro. Começa por aliená-lo de uma grande parte do produto do seu trabalho, e esse facto funciona como uma espécie de “pecado original”, que leva à alienação do trabalhador (a maioria dos seres humanos são trabalhadores, memso que alguns nãos e considerem como tal) de tudo o resto. Seja do espírito, seja do corpo, se quisermos colocar isto em termos cartesianos.

O facto de o alienar do produto do seu trabalho, obriga o trabalhador, o pobre, a trabalhar mais tempo para sustentar o seu viver. Por aí, o sistema aliena-o da sua família, dos seus filhos, da vida social, cultural, política, religiosa… Pois o tempo que seria destinado ao lazer, à fruição e à socialização, é passado a trabalhar. Daí que o tempo de trabalho seja a medida certa, primeiro, da intensidade da exploração, segundo, da intensidade da alienação. A importância da divisão do trabalho e da redução do tempode trabalho sem redução d aretribuição é, por isso mesmo, primordial e resulta da justa repartição dos ganhos científicos e tecnológicos produzidos pelo próprio trabalho. É o trabalho que inova, não é o capital. Sem trabalho, o capital é uma coisa morta, inútil. No sentido de manter esse status quo, o capitalismo tem de arregimentar e utilizar como instrumentos as instituições sociais existentes. os sindicatos tenta agrupá-los na concertação social (uma câmara corporativa), os partidos submete-os ao financiamento privado e ao lobying privado, as religiões torna-as instumentos da ideologia de acumulação.

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Consequentemente, eliminadas ou enfraquecidas as forças contraditórias, que questionam, intervêm e organizam (que podemos chamar de classe, mas que outros lhe chamarão outra coisa), abre-se espaço para uma sociedade individualista., desligada da política e desinteressada das grandes questões que afectam a sua sobrevivência. Neste caso, refiro-me à “sobrevivência”, à qualidade dessa “sobrevivência” e não à sua estética individual. à sua fachada. O que importa podermos assumir todas as estéticas individuais disponíveis no catálogo capitalista global, se não tivermos casa, educação, saúde, trabalho com direitos, tempo para lazer, etc.? O indivíduo, desenraizado, desorganizado e desinserido do seu ser político e social, torna-se presa de correntes idealistas que vivem dentro do sistema capitalista e que visam a sua manutenção nos termos actuais. É o que acontece com o “trumpismo”, no lado da reacção, ou com o “wokeismo” no lado liberal social. Ambos são conservadores no que respeita à manutenção do modo de produção tal como está e à manutenção das relações de exploração trabalho/capital. Mas, para dar maior amplitude à “legitimidade social”, cria-se a ideia de que o ser “liberal” nos costumes significa ser “progressista” e “de esquerda”, o ser “conservador” nos costumes significa ser nacionalista e de direita. Ambos se preocupam mais com a fachada, com a estética, com o plástico, do que com a essência, a arquitectira e a construção em que assentará essa fachada.

Assim se cria uma ideia de falsa diversidade, que bebe a sua força nos órgãos de comunicação, no entretenimento (a comodificação e alienação do ser humano da cultura leva a isto) e da educação, também ela comodificada e mercantilizada. Nada escapa ao capitalismo, nesta fase neoliberal. Nada. O próprio meio ambiente é objecto de comodificação. Aliena-se o ser humano do meio ambiente, encaixotando-o em cidades cinzentas e fazendo o seu universo um mero écrã de comutador, TV ou telemóvel. No final, vende-se-lhe a ideologia eco-capitalista, porque também ela implica a aceleração e fortalecimento de ciclos de acumulação.

Cria-se a ideia de que empresas que visam apenas o lucro e o dinheiro fácil, estão preocupadas com o planeta. Assim, o ideal woke (idealista porque desligado da nossa natureza material, biológica, animal e social, apenas existindo no plano das ideias – identitarismo) ou securitário, entram de forma fácil dos jovens e adultos alienados. Uns mudam de género (ideologia de género), de orientação sexual, defendem o rendimento básico universal, que coloca os trabalhadores nas mãos do grande capital, que lhes dá a esmolazita (confundindo isso com “justiça social”).

Outros entregam-se a superfluas e estéreis agendas verdes que lhes vendem, sem nunca pensarem que “o capitalismo não é verde”, porque nunca o poderá ser. Porque a sua natureza é acumular; o capitalismo não procura resolver as suas contradições; ao invés, procura explorá-las. Outros, também ávidos por afirmarem uma identiddae vazia, despida de conteúdo, aderem às armas, às tatuagens, à ultramasculinidade ou ultrafemininidade, aos músculos, às plásticas, etc. Uns e outros, narcisistas, identitários e conservadores ao mesmo tempo. Conservadores em quê? Conservadores do ponto de vista do progresso e mudança na estrutura do modo de produção capitalista. n

enhum é revolucionário, reformista sequer. Não defendem a transição para outro modo de produzir o sustento que seja mais avançado. Seja através da via revolucionária (palavra tabu para uns e outros), seja através da via “evolutiva” como defendiam os socialistas utópicos. Uns e

outros estão mais recuados – politicamente falando – do que a burguesia revolucionária, da era das luzes. Nenhum faz ideia de que o mundo, para ser mais justo e para que todos tenhamos liberdade individual, mas tendo condições de vida (estes são levados apenas a valorizar a liberdade individual, esgotando a sua acção nesse domínio), tem de assentar numa estrutura de relações económcas e sociais diferentes, mais equitativas, colectivas e livres dos grandes acumuladores e monopolizadores. Uns e outros são neoliberais, uns e outros são pró-capitalistas, pró-imperialistas.

Uns e outros, nem sempre, ou quase nunca, fazem ideia disso sequer. No caso dos identitários “woke”, o que os denuncia, normalmente, é a sua adesão às narrativas imperialistas superficiais, quando estão em causa conflitos que opõem o imperilsiamos dominante a outras formas de organização estatal e social, diferentes – ás vezes nem isso – A alienção é tão grande, que uns reduzem a liberdade ao casamento de pessoas do mesmo sexo ou à mudança de sexo, outros acham que basta acabar com os emigrantes asiáticos e todos os problemas da sociedade estão resolvidos. Reduzem o discurso político a questões acessórias, estéticas, plásticas, nunca discutindo o que lhes está na essência. não que algumas – ou todas – essas questões sejam importantes, não é isso, mas porque estão a montante dos problemas fundamentais que nos afectam. Numa sociedade em que os problemas básicos de sobrevivência não só não estão resolvidos, como estão a degradar-se, reduzir o discurso político ao identitarismo, é redutor e desviante.

Uns e outros negam – ou esquece – a importância fundamental das condições de vida, da justiça social, da democracia (democracia implica defender políticas que interessam à maioria, aos trabalhadores), da liberdade no seu sentido profundo (liberdade de optar onde vivemos, que profissão teremos e onde trabalhar) na produção das indentidades livres. Uma sociedade justa é necessáriamente uma sociedade mais livre, também individualmente. Se todos vivermos com condições de vida adequadas, porque razão nos voltaremos uns contra os outros? Porque razão não aceitaremos as nossas diferenças? Uns e outros negam que as diferenças (de religião, género, étnia) e os conflitos que significam, não são criados pela diferença em, si, mas por um sistema que as utiliza para dividir e desmobilizar quem trabalha, para assim melhor explorar.

E assim, se alienam os seres humanos, iguais na sua diversidade, uns dos outros. O Identitarismo, neste quadro, conservador ou liberal (erróneamente designado de progressista), não proclama o direito à igualdade, o direito a condições iguais, oportunidades iguais. Proclama o direito à diferença, à individualidade, à identidade. Não proclama a união de diferentes, proclama a separação em bolhas de iguais. Não proclama a diversidade e pluralidade, proclama a afirmação da divisão e a separação. Não proclama a tolerância, proclama o sectarismo. Funciona como agente de divisão, para que, quem domina, possa assim, mais facilmente, reinar.

Criando uma separação fútil, de fachada, quem domina, pode afastar a economia, a produção, finança e a acumulação da vida pública, da democracia. Ou seja, alienam os seres humanos das decisões fundamentais, primordiais, que lhes dizem respeito. Como quem tem o poder económico, tem o político… O identitarismo, seja ele qual for, de “esquerda” oud e “direita”, “progressista” ou “conservador”, “liberal” ou “neofascista”, é o resultado desse mesmo poder político. O identitarismo é a expressão social do político principio do “dividir para reinar”. Sendo iguais, julgam-se muito diferentes.

Alienados da reflexão, agem como agentes de um sistema moribundo, que esgota a democracia em estéreis eleições que nada mudam, que mata o planeta (a Inteligência artificial, tal como é usada, polui tanto como o petróleo, mas acelera a circulação de capital e a acumulação), estabelecendo as rotas logisticas internacionais extremamente poluentes e impedem os países mais empobrecidos de se desenvolverem, porque ao sistema interessa a circulação, o consumo e a exploração. Essa componente ecológica, nunca é abordada.

O principio “produzir local, consumir local” e apenas trocar o que uns e outros não têm, é tabu e principio proibido no braço financeiro do sistema de acumulação que são o FMI e o Banco Mundial, ou o BCE. Ser progressista sempre significou colocar em causa a estrutura, a natureza de um sistema. Sempre significou “progredir”, ir mais além. Hoje, continua a ser assim, mas vende-se a ideia de que o sistema já é tudo o que pode ser – o fim da história de fukuyama. O que sobra? O identitarismo liberal (do género e do eco-capitalismo) e o identitarismo conservador (das armas, da pureza racial, do corpo e da ultramasculinidade e ultrafemininidade).

Nenhum deles é revolucionário, nenhum dos dois é radical, nenhum é avançado. Os dois são atrasados, recuados, sectários , vazios de conteúdo e alienados. Nenhum une para vencer, nenhum organiza para mudar. Apenas separam, dividem, desunem. Julgando o próximo, ao invés de julgar o que domina e beneficia desta separação. É o trabalho, a classe, a natureza não proprietária que os une e que é absolutamente determinante para as suas vidas. É esse ponto em comum que uns e outros, maquinal e disciplinadamente, evitam. Comos e fosse um crime ser trabalhador, comos e fosse um crime ser pobre, como se fosse um crime não pertencer à classe proprietária. Está na hora de dar os nomes certos aos bois!

15 de Janeiro de 2024

https://canalfactual.wordpress.com/2024/01/15/os-identitarismos-woke-liberal-e-o-conservador-reaccionario/
 

quarta-feira, 1 de novembro de 2023

Hugo Dionísio - A JUSTIFICAÇÃO DA OPRESSÃO

 


*  Hugo Dionísio 

Porque é que alguém, por se sentir tão zangado com a política, admite que se justifica tornar-se fascista, racista e reaccionário; mas esse mesmo alguém, que adere à cultura do ódio e da demagogia, não percebe que, alguém que tudo perde, até a sua dignidade e a esperança, por se encontrar do outro lado do mundo, tem direito e enveredar pela resposta violenta! Como se justifica tão desproporcional e contraditória consideração?

500 anos de imperialismo, pilhagem, exploração desenfreada e escravatura deixam marcas indeléveis no carácter das populações, nas suas crenças, moral e costumes. Não era possível, de qualquer modo, sucessivas gerações estarem sujeitas a toda uma ideologia justificadora do expansionismo, mercantilismo e imperialismo e, no final, permanecerem com as suas almas intocadas pelos valores – ou falta deles – que motivaram tal ideologia apropriadora.

Daí que, a exposição à ideologia expansionista do capitalismo ocidental na sua fase imperialista, resulte num misto de crenças – quando não crendices – próprias de uma sociedade em transição para uma identidade mais conforme com os valores que diz promover.

Uma das características que mais define o actual estado de espírito de uma parte importante – quiçá maioritária – das populações ocidentais, dominadas pela ideologia anglo-saxónica, a que se convencionou apelidar “liberal”, consiste na incapacidade total para compreender o lugar do outro, nomeadamente daquele que se encontra do outro lado de uma barricada ideológica, comunicacional e semiótica, criada pelos poderes de facto para dividir.

Não admira que tal suceda. Afinal, já em tenra idade, os poderes capitalistas emergentes foram tão rápidos a apropriar para si o ideário religioso que justificava a evangelização. Quem nunca leu, nos livros de História, as justificações dadas pelos Estados que, saídos do feudalismo, já se encontravam numa fase de expansionismo das suas respectivas burguesias? Era por demais evidente o espírito de cruzada que justificava, em grande parte, a decisão de conquistar de Ceuta. É claro que, dizem-nos historiadores como António Sérgio e o próprio materialismo histórico, que a razão fundamental foi a económica. Contudo, não podendo, simplesmente, dizer-se ao povo que “vamos a Ceuta para tomarmos o que é do outro”, até porque roubar era feio e pecado, havia que desumanizar o inimigo e, à data, qual o melhor pretexto que o religioso? “Inimigos da verdadeira fé”, “infiéis”, “hereges”, tudo serviu para justificar o processo de expansão.

Quando já não se tratava dos sarracenos, mas de povos pagãos, como sucedeu em África ou nas Américas, nada que fosse mais simples: “evangelizar” ou “salvar as almas” constituíram os mais comuns pretextos em matéria de propaganda. À medida que avançava o Renascimento, o iluminismo, se desenvolvia a era mercantil e, com ela, o surgimento de uma certa sofisticação ocidental, cultural e tecnológica, resultante do imenso capital apropriado à força, o pretexto religioso foi sendo abandonado em prol de motivações mais consentâneas com os novos tempos.

Neste quadro assistimos ao surgimento dos pretextos civilizatórios, chamando “selvagens” a todos os que se visava explorar. Já em África, os alemães diziam para si próprios que estavam ali para “civilizar” os negros. O mesmo disseram os portugueses, holandeses, belgas e outros. Todos queram as imensas riquezas africanas ou americanas, mas o objectivo mesmo era o de “civilizar”. Tratava-se de um imenso ímpeto “altruísta”, mas que resultou sempre em tráfico negreiro, genocídio, subdesenvolvimento e guerra com fartura. Nesta matéria, até essa data, nenhum Império foi tão longe como o britânico.

Este imenso “altruísmo” vivia muito do racismo. O racismo e o supremacismo branco, que foi sendo utilizado para desumanizar os inimigos e tornar aceitáveis as violências contra eles praticadas. Não nos admiremos, pois, que, após quase 8 séculos de tentativas frustradas de conquista da Rússia, por parte dos impérios ocidentais – que acontecem ao ritmo de 1 a 2 vezes por século -, o que não falte para aí seja russofobia e racismo anti eslavo. Os próprios nazis ucranianos, hoje tão brindados no Ocidente, são os primeiros a dizer que têm estudos que “confirmam que os ucranianos têm sangue europeu e os russos não”. Sintomático.

A esta crescente russofobia não serão alheias as declarações de Pistorius, o Ministro Alemão da Defesa. Alemão que é como quem diz, que sabemos bem a quem ele responde de facto. E o que diz Pistorius? Disse: «temos de nos habituar novamente à ideia de que o perigo de guerra pode estar a pairar na Europa. E isso significa: temos de nos tornar aptos para a guerra. Temos de estar aptos para a defesa. E posicionar a Bundeswehr e a sociedade para isso», disse esta corajosa salsicha ao programa da pública ZDF «Berlin direkt». Que morram os filhos dos outros!

Este tipo de tiradas já vem, como cereja no topo do bolo, de uma preparação ideológica mais típica do imperialismo estado-unidense do que de qualquer outro. Afinal, todo o desmoronamento para o precipício a que hoje assistimos, acontece no quadro de uma substituição do ímpeto justificador “civilizatório” dos séculos XVIII, XIX e inícios do XX, pelo ímpeto “democrático” ou “humanista”, ao abrigo do qual se justificam guerras, sanções, embargos e todo o tipo de agressões, porque “eles são uma autocracia”, “uma ditadura” ou “violam direitos humanos”. Como se, alguma vez, fosse aceitável fazer o mal, em nome do bem.

No caso do Médio Oriente, assistimos a uma escalada no mesmo tipo de ideologia: o “eles são terroristas”, ou seja, já no quadro de uma lógica securitária. Seja o religioso, o civilizatório, o humanista ou o securitário, todos estes pretextos visam o mesmo tipo de objectivo: desumanizar quem se ataca, para que se torne aceitável fazê-lo. E o facto é que funciona.

E funciona tão bem que o cidadão europeu e americano, em geral, surge tão moralmente condicionado e tão cognitivamente desarmado, por séculos de propaganda desumanizadora (95% dos filmes de Hollywood representam os árabes como terroristas, bandidos, ignorantes ou desorganizados)  e estigmatizadora dos povos que se querem dominar, que deixa de possuir qualquer defesa contra estes processos, sendo facilmente presa de justificações falaciosas e sem fundamento material, moral, democrático, civilizacional ou religioso.

Este bloqueio emocional, que horas a fio de TV produzem no carácter de um indivíduo acrítico, produz uma total incapacidade deste se colocar no lugar das vítimas. Veja-se só esta contradição: uma parte crescente da população ocidental acha justificável votar na extrema-direita reacionária, fascista, racista, apenas porque se sentem zangados com o estado das coisas. Incapazes de perceber – em função da muralha cognitiva que construíram – de onde vem o tal “estado das coisas”, justificam a adesão a ideologias extremistas, ao ódio, à ignorância e também à violência porque “nada muda”, “os políticos são todos corruptos”, “cada vez isto está pior”. 

Mas são estes mesmos, ao quais justificam o seu comportamento incivilizado com as “dificuldades”, os que mais atacam a adesão do povo de Gaza a organizações mais ou menos apologistas da ação violenta e militar. Quer dizer, um tipo chega sem dinheiro ao final do mês, mas não passa fome nem vive na rua, acha que tem direito a estar tão zangado que pode tornar-se fascista, racista e reacionário; mas um árabe que perde a sua casa, a sua família, a sua liberdade, a sua pátria e a sua dignidade, todos os dias, várias vezes ao longo de mais de 75 anos, já não tem direito de optar por soluções mais extremas e violentas!

É preciso ter uma incapacidade para a fraternidade, para a compaixão, para a compreensão e para a solidariedade, capaz de destruir todos os laços sociais. Eis a razão, pelaxual, também as sociedades ocidentais se estão a desagregar, vítimas deste individualismo narcisista atroz.

Fechados nas suas bolhas, acham tudo aceitável, se não os afectar; quando são afectados, tudo passa a ser aceitável. Eis também, por que razão consideram que um qualquer direito de defesa justifica tão elevado nível de atrocidade e tão desproporcionada resposta.

Não admira que andem atrás de políticos que dizem que acabam com os subsídios, que muitos deles recebem, com os serviços públicos, que todos usufruem, ou, com os direitos laborais que lhes permitem gozar férias e feriados. Para tudo olham como sendo distante e apenas afectando os outros.

Mas não, e a prova é, uma vez mais, o que se passa aqui. A mesma “democracia” que diz que um país é democrata, mas que pode, mesmo assim, descarregar o equivalente a duas bombas de Hiroxima em cima de um campo de concentração com 40 km de cumprimento por 10 de largura, é a mesma “democracia” que assiste a uma administração – Biden – deslocar a maior mobilização militar para o Médio Oriente desde 2003, o ano da infame – e, porém, “aceitável – invasão do Iraque. E tal mobilização que indicia intenções que vão muito para além da simples “defesa” do Estado sionista, para que “se defenda” até tudo matar, denunciando, sim, perspetivas belicistas que podem resultar na terceira guerra mundial e, tudo isto, sem qualquer respaldo parlamentar.

Tal como nos vassalos europeus quando, por ordem de uma burocracia europeia não eleita, os respectivos governos aceitaram intrometer-se numa cruzada contra a Rússia sem qualquer discussão ou escrutínio na casa da democracia, que é o parlamento.

O mesmo “estado de direito” que dizem ser Israel – que convive com dezenas de anos de ocupações violentas, extorsão e prisões arbitrárias de todos os que se opõem permitindo o mais evidente abuso de direito, e que transforma a legitima defesa (defesa de quê?) num direito a exterminar -, é o mesmo “estado de direito” que, já no Ocidente, permite que a burocracia de Bruxelas censure a informação em Portugal e que empresas americanas de comunicação (redes sociais) nos persigam a liberdade de opinião com as suas “regras da comunidade”.

É que, se pensam que o que se faz aos outros não tem influência em nós… vejam bem a História, porque o que permitimos aos outros, é o que permitimos a nós próprios, quando a justificação aparecer. E por isso é que, cada vez mais, se comprova a verdade universal a que Che Guevara aludia: enquanto não formos todos livres, ninguém é livre!

Porque podemos sempre ser alvos da mesma opressão que hoje justificamos contra os outros!

Hugo Dionísio  2023 11 01 

https://canalfactual.wordpress.com/2023/11/01/a-justificacao-da-opressaoporque-e-que-alguem-por-se-sentir-tao-zangado-com-a-politica-admite-que-se-justifica-tornar-se-fascista-racista-e-reaccionario-mas-esse-mesmo-alguem-que-adere-a-cultur/