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sábado, 7 de junho de 2025

António Valdemar - Camões, o poeta que o Estado Novo afidalgou

Em 2024, o jornalista António Valdemar afirmou que a biografia de Camões escrita por Aquilino Ribeiro é um livro político, cujo significado terá de ser aferido em função das lutas contra o Estado Novo. A declaração veio reavivar o debate sobre a politização do poeta

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05 junho 2025  

Diogo Ramada Curto

Historiador, diretor da Biblioteca Nacional

Num fim de tarde de uma sexta-feira de outono, na Biblioteca Nacional, António Valdemar impressionou a pequena audiência ali reunida. O decano dos jornalistas portugueses e homem de letras de evidentes dotes oratórios afirmou que a biografia de Camões escrita por Aquilino Ribeiro é, acima de tudo, um livro político, cujo significado terá de ser aferido em função das lutas contra o Estado Novo. Ao pôr o dedo na ferida, Valdemar advertiu que o livro intitulado “Camões: Fabuloso — Verdadeiro” (1950), tal como a coletânea “Camões, Camilo e Eça e Alguns Mais: Ensaios de Crítica Histórico-Literária” (1949) precisam de ser entendidos como gestos de oposição política a Salazar.

Proferidas de modo perentório, no lançamento da nova edição, pela Bertrand, de “Camões: Fabuloso — Verdadeiro”, as palavras de Valdemar resumiram o prefácio que ele mesmo escreveu para esta reedição. Pela sua coragem, própria de quem não receia ir contracorrente, mas também pela sua objetividade em saber articular literatura e política, as palavras de Valdemar são importantes.

Será impossível desligar a referida biografia de Camões, bem como a miscelânea de ensaios críticos de Aquilino, desse momento constituído pela campanha eleitoral de apoio ao general Norton de Matos. A esse quadro político pertencem as denúncias de Aquilino em relação a um Camões que a cultura oficial queria reduzir a símbolo de um culto patrioteiro, simbolizado no gosto e nas relações aristocráticas ou palacianas. Tal como se o poeta pudesse ser membro da União Nacio­nal e servir de joguete às estratégias da propaganda desenhada por António Ferro, as quais encontravam eco no Círculo Eça de Queirós, ali ao Largo Bordalo Pinheiro. Foi o que Aquilino escreveu na introdução à sua biografia de Camões.

 

Aquilino considerava insuportáveis os “tocadores da marimba patriótica”. E contra o Camões afidalgado disparou: se o poeta era mesmo da fina-flor da aristocracia, como é que se justificava que, enquanto filho único, fosse pobre como Job? Depois, cavalgando a onda da desmistificação nacional e da crítica ao sebastianismo, que recuava pelo menos à polémica de meados da década de 1920 entre António Sérgio e Carlos Malheiro Dias, argumentou que a atribuição ao poeta da nobreza de sangue era mais do que dispensável para o reconhecimento literário de Camões. Dentro da mesma operação de desmistificação, Aquilino também se mostrou contrário à ideia de que Camões se teria enamorado de palacianas damas da nobreza. Com base numa particular atenção às cartas atribuídas a Camões, Aquilino nele preferiu salientar o lado arruaceiro e brigão.

Outro aspeto, que para Aquilino tinha igualmente uma relação direta com o seu tempo, dizia respeito ao modo como Fr. Bartolomeu Ferreira, o “revedor” dominicano, interveio na publicação de “Os Lusíadas”. Contrariamente ao que em 1921 tinha defendido o padre José Maria Rodrigues, para quem “nenhumas alterações foram [ali] feitas pela Inquisição”, Aquilino admitia que a versão impressa do poema trazia em si marcas censórias. De resto, acentuando divergências em face das posições assumidas por Rodrigues, Aquilino, embora julgasse a questão “sumamente bizantina”, não deixou de defender que a primeira edição do poema épico era a que tinha, no frontispício do livro, o pelicano virado para a direita.

Dois problemas subsistem

Ao politizar, de forma frontal, o que Aquilino escreveu acerca de Camões, António Valdemar suscitou dois problemas que precisam de ser resolvidos ou, pelo menos, enunciados. O primeiro, mais genérico, consiste em saber como é que todos os escritores — com direito ou não a participar do cânone ou de uma comunidade que se imagina em função de um conjunto de obras literárias — estão sujeitos a idêntica politização. O simples facto de serem celebrados, panteonizados ou de passarem a fazer parte dos manuais de ensino é em si mesmo um ato político que muitas vezes supõe escolhas interpretativas, amputações e deturpações para servir esta ou aquela bandeira ideológica. O Estado Novo e, já antes dele, o Integralismo, procurou arregimentar em seu abono muitos autores do século XIX e não só, pondo-os ao serviço de uma bandeira conservadora. Na contramão da cultura oficial, Aquilino e outros estudiosos, tais como Óscar Lopes, Jorge de Sena e António José Saraiva, procuraram salvar Camões desses usos políticos. Mas fizeram-no recorrendo a uma dupla estratégia, que esconde o segundo problema que se encontra por resolver.

Por um lado, ao Camões nobre e aristocrático, cortesão e vivendo debaixo da proteção régia, os estudio­sos democratas e republicanos opuseram o carácter mais popular, boémio, aventureiro, arruaceiro e até pobretana do poeta. Claro que a ideia tinha raízes em representações anteriores, tal como me fez notar Isabel Almeida, a pobreza de Camões foi melodramaticamente exacerbada no século XIX, além de ensombrar desde cedo o seu retrato, doente e morrendo na miséria; obrigado a viver de uma “tencinha”, como dissera Pedro de Mariz, ou desgraçado pela fortuna, que o privava de seus bens, como escreveu Diogo do Couto.

De notar que, nos meios da oposição, a denúncia da mania de atribuir fidalguia a homens ilustres do passado estava generalizada, e o próprio Aquilino já a tinha feito anteriormente, a propósito de Santo António de Lisboa, quando topou, e bem, que deste princípio, aceite dogmaticamente entre nós, derivava “a canonização laica de Camões” (“Por Obra e Graça”, 1940). Por outro lado, os mesmos estudiosos recentraram a obra de Camões em relação à autonomia do discurso poético e literário, justamente para não cair no topete da cultura oficial, que procurou a todo o custo arregimentar Camões e a sua obra para o referido culto patrioteiro. Ora, é precisamente a autonomia e historicidade do discurso poético e literário que fica de fora quando se politiza a figura de Camões e se politizam as obras que sobre ele (mais do que sobre o que escreveu) incidiram.

Aquilino considerava insuportáveis os “tocadores da marimba patriótica”. E contra o Camões afidalgado disparou: se o poeta era da fina-flor da aristocracia, como se justificava que fosse pobre como Job?

Logo em 1951, Jorge de Sena foi quem melhor denunciou a constante evocação do “cantor de ‘Os Lusíadas’ para fins beneméritos de embófia cívica”. Camões era, então, posto ao serviço de um “leitor patrio­ticamente interesseiro”, sendo por isso deplorável “todo o patrioteirismo sebastianista com que o seu lídimo génio tem sido enxovalhado”. Sena foi mais longe ao especificar que esse culto cívico e patrioteiro procedia de “tantas e tão variadas comemorações, centenários, cortejos e conferências”, nos quais “sempre se fala da Fé e do Império, da Independência e da Raça, da glória e da sabedoria, do que de facto possuímos e da árvore das patacas que ainda julgamos possuir”. Neste sentido, também para Sena pareciam deploráveis estes usos (ou abusos) de Camões — posto ao serviço dos projetos imperiais e de um nacionalismo oficial, num “país de notabilidades às dúzias”, onde “tantas são as figuras e os factos comemorados quotidianamente” —, que nos impediam de falar do poeta, do grande poeta que Camões foi, votando ao desprezo a “leitura atenta dos seus versos, que são tudo o que nos resta dele”.

É certo que Sena não pretendeu escrever nenhuma biografia de Camões, e, tal como muitos outros, considerou mesmo inútil investir a sua atenção nos aspetos biográficos. O que estava em causa, na opinião de um dos maiores estudiosos de Camões do século XX, era a perceção do ato poético, sobretudo, a criatividade do poeta. Uma criatividade que, claro está, correspondia a quadros, linguagens, estruturas e condições que transcendiam o próprio autor. Assim sucedia com os usos do petrarquismo e do platonismo, com a inspiração nos trabalhos de historiadores que o antecederam, com os posicionamentos e modos de inovação em relação aos géneros literários, a começar pela épica, sem esquecer os registos mais chocarreiros. A intuição poética nunca poderia transcender os limites impostos por tais quadros, para além de manter uma relação, difícil de reduzir a um sistema de causalidade, com a experiência de vida de Camões em Portugal, no Norte de África ou na Ásia. De qualquer modo, o que para Sena era urgente compreender na leitura da obra de Camões era a sua dimensão intuitiva e criativa.

Por exemplo, Sena considerou que o sucesso de “Os Lusíadas”, enquanto poema épico, nada tinha que ver com a “cantoria que a retórica balofa se esforça para extrair” dele. Para Sena, o mais importante e o que explicava até o sucesso dessa épica é que se tratava de “um êxito por contradição”. A ponto de se poder dizer que o que mais contou para sua popularidade foi “a narração amplificada e amplificadora das glórias nacionais [...], por contraste, e porque, a cada passo, surgem aqueles trechos candentes de juízo final”. Seria, pois, à luz de tais contradições, que punham em causa as glórias do canto épico, numa espécie de registo a várias vozes e rasgado por oposições, que importaria ler “Os Lusíadas”.

 

No âmbito de um novo ciclo comemorativo em torno de Camões, a questão de se saber ao certo como se deve e pode ler a sua obra, a começar por “Os Lusíadas”, afigura-se crucial. Antes de mais, há que reconhecer que estamos longe da necessidade de contrapor a um Camões oficial e caracterizado pelos seus dotes nobres e aristocráticos, um poeta conotado com aspetos mais baixos e populares, situado na oposição aos poderes instituídos. Depois, se não temos de reproduzir, hoje, os sucessivos falhanços da oposição ao Estado Novo, podemos finalmente distanciar-nos das estratégias determinadas pelo controle, vigilância e propaganda do regime, as quais foram construídas em função de um culto patrioteiro do poeta. É que foram tais estratégias, mais ou menos falhadas, que levaram a uma espécie de sublimação ou de transferência que encontraram na literatura uma esfera autónoma de expressão de discursos livres, que não podiam ser submetidos às lógicas do poder.

Quando António Valdemar nos lembrou que a bio­grafia de Camões escrita por Aquilino era um livro essencialmente político e de oposição ao Estado Novo, fez bem. Ao fazer essa denúncia, trouxe-nos à memória as esperanças e frustrações que muitos escritores e intelectuais da oposição acalentaram no período posterior à Segunda Guerra Mundial. No entanto, é de notar que a guerra cultural então declarada não se limitava a Camões, e, entre outros escritores do passado, também passava por Eça de Queirós.

A visita de Salazar, em dezembro de 1945, à exposição queirosiana no Grémio Literário, funcionou como uma resposta oficial ao que os colaboradores no “Livro Comemorativo do Centenário de Eça de Queiroz”, publicado nesse mesmo ano, pretenderam fazer crer. Para estes, impunha-se ler Eça de Queirós, libertando-o das grelhas aristocráticas e conservadoras em que os representantes de uma cultura oficial pretendiam encerrar o autor de “Os Maias”. Neste sentido, seria necessário: atender aos processos propriamente literários, da ironia ou da troça, a partir dos quais o escritor procurava a sua autonomia; apreciar plenamente o sentido crítico e a liberdade queirosiana, em contraste com os tempos persecutórios que caracterizaram o período posterior à Segunda Grande Guerra; e, sobretudo no caso de Jaime Cortesão, mas também de Vieira de Almeida, colocava-se com premência a questão social, cuja simples enunciação irritava os mais afetos ao regime no poder.

Também a Jorge de Sena pareciam deploráveis estes usos de Camões, que nos impediam de falar do poeta, votando ao desprezo a “leitura dos seus versos, que são o que nos resta dele”

As guerras culturais e literárias no período posterior à Segunda Guerra Mundial incluem muitos outros aspetos, a começar pelos que foram suscitados pela afirmação do neorrealismo. Porém, no que respeita a Camões e à literatura quinhentista, conviria ter em conta a existência de um tempo de intensidade exemplar assinalado pelos ensaios de Aquilino sobre o poeta, publicados a partir de 1946 e reunidos em livro, em 1949. Quanto à biografia de Camões, não poderá ela ser considerada uma resposta à figura idealizada por Leitão de Barros no filme que lhe dedicou em 1946? E a representação da estátua no Largo de Camões, por Abel Manta, em 1954 — representação na qual o poeta surge sempre de costas —, não será um outro modo de oposição ao culto oficial de Camões? Uma espécie de contraepopeia, como acabou por argumentar, em 1955-1956, António Sérgio, na sua edição da “História Trágico-Marítima”, uma história de naufrágios pejada de críticas à expansão e ao império português?

Na perspetiva de Aquilino, tais guerras literárias eram contra o regime — no duplo sentido já aqui exposto de oposição entre o alto e o baixo, socialmente falando, e de defesa da autonomia do literário, enquanto espaço de autonomia criativa e de liberdade. Por exemplo, não se esqueça o retrato que traçou das capacidades do serrano ou montanhês: “na serra o homem estaria sempre mais a coberto do beleguim, do homem da lei, do fidalgo, em suma da violência do forte e da extorsão do rico”; só o vale era considerado “local pela sua natureza propício à cilada, tornava-se o fojo dos escravos” (“O Homem da Nave”, 1954).

Mas tais guerras culturais, incluindo aquelas que Aquilino travou em torno de Camões, foram também travadas contra o mundo universitário, coimbrão e lisboeta. Só a esta luz se podem compreender algumas das suas outras obras, nomeadamente, “Abóboras no Telhado (Polémica e crítica)” e o conto ‘O Professor Intemerato e a Gaitinha do Capador’ (“Casa do Escorpião”, 1963). Aliás, este último, uma autêntica sátira à vida universitária, que Frederick Hesse Garcia entendeu ser contra o padre José Maria Rodrigues, visava, na opinião de António Valdemar, um outro estudioso de Camões e professor da Faculdade de Letras — Hernâni Cidade. Não se estranhe, por isso, a posição intermédia que Jacinto do Prado Coelho veio a assumir: aclamando o facto de Sena ter aderido à “veemente obra de humanização de um ‘mito nacio­nal’”, mas, ao mesmo tempo, considerando que “o Camões boémio e pedinte” de Aquilino se constituíra no “exemplo mais completo do ensaio psicológico construído fora da obra do biografado” (“A Letra e o Leitor”, 1968).

Em suma, hoje tal como no período que se seguiu à Segunda Guerra Mundial, existem razões de sobra para celebrar pela leitura e perceção do génio criativo o nosso maior poeta. Os inevitáveis riscos de politização da sua figura e da sua obra continuam a estar presentes, tal como sabemos bem que existem modos de autonomizar e preservar o seu carácter mais propriamente poético e literário. No entanto, a reflexão sobre Aquilino — enquanto intérprete de Camões, ao lado de outros críticos e estudiosos do seu tempo, situados dentro e fora da academia e da vida universitária — deverá servir para nos lembrarmos de que o nosso tempo não se pode confundir com o de Aquilino.

Não nos compete, por isso, repetir apenas o que Aquilino ou Jorge de Sena, com a sua capacidade para ler e interpretar Camões, propuseram. Não nos cabe, também, repetir as lutas em que estiveram envolvidos. A nossa obrigação é a de saber e conseguir situar a leitura de Camões em função dos problemas do nosso tempo — sem nunca perder a consciência de que falamos de um poeta que viveu no século XVI —, a começar pelos que se encontram afetos à nossa situação pós-colonial. Da mesma forma que nos compete reconhecer que as condições de investigação em que trabalhamos são, em boa medida, dominadas por conflitos internos à própria academia, uma vez que a universidade ocupa, hoje, um lugar de muito maior destaque no campo da produção cultural.

 https://expresso.pt/cultura/2025-06-05-camoes-o-poeta-que-o-estado-novo-afidalgou-f9bf0245

domingo, 18 de dezembro de 2022

Carlos Coutinho - Casas e causas



* Carlos Coutinho

   PRECISÁMOS de chegar a 1941 para, finalmente, ficarmos com a certeza de que o genial orador e mitómano Padre António Vieira não foi o autor desse também genial texto clássico que é “A Arte de Furtar”. Aquela que é considerada a edição princeps da obra apresenta o seguinte título:  Arte de Furtar,/ Espelho de Enganos,/ Theatro de Verdades,/ Mostrador de Horas Minguadas,/ Gazua Geral/ Dos Reynos de Portugal./ Offerecida a Elrey/ Nosso Senhor/ D. João IV./ Para Que A Emende. Indica seguidamente ter sido “composta pelo Padre António Vieira, Zeloso da Patria” e impressa em Amsterdão, “na Officina Elvizeriana 1652”. 

    Todavia, a autoria da obra, o local e o ano de impressão, bem como o impressor aí indicados, são falsos (a oficina tipográfica é duplamente falsa, pois o seu nome deveria grafar-se como Elzeviriana, mas tudo indica tratar-se de um erro propositado). 

   O manuscrito, composto em 1552, atesta a Wikipédia, “manteve-se inédito durante mais de noventa anos, não sendo de excluir absolutamente que durante esse período possam ter sido feitas algumas cópias. A obra teve, enfim, a sua primeira impressão em1743 ou 1744, em Lisboa, pelo livreiro genovês João Baptista Lerzo, dono de uma tipografia no sítio do Loreto”, atual Largo de Camões.

   A verdade é que António José Saraiva e Óscar Lopes, na sua imprescindível “História da Literatura Portuguesa”, já tinham desautorizado tal hipótese, atribuindo a façanha a outro jesuíta, o Padre Manuel da Costa (1601-1667). Saraiva e Lopes destacam na Arte de Furtar a "graça literária" e o alto "valor informativo", de que, segundo eles, “só a Fastigímia, de Tomé Pinheiro da Veiga, se aproximaria no século XVI. 

   A obra de Manuel da Costa é “um depoimento literário muito completo da realidade social do tempo de D. João IV”, em que “se espelham ao vivo todos os principais problemas com que se debatia a administração interna e todo o jogo das forças sociais. Ao nível da descrição dos factos isolados e dos comportamentos sociais típicos, Saraiva e Lopes acham que o realismo da Arte de Furtar é imbatível, “superando em muito o melhor dos Apólogos Dialogais (de Francisco Manuel de Melo). E acrescentam: 

   "Possivelmente, nenhum panfleto da nossa literatura o iguala.”

 Em 1941, por fim, Francisco Rodrigues explica em parte essa má aceitação e aponta o estudo de J. Pereira Gomes intitulado "Manuel da Costa, autor da Arte de Furtar" (1965), que revelou finalmente os trechos inéditos do dito documento, que “tinham sido mantidos secretos para não enxovalharem a imagem da Companhia”.

   Por outro lado, autores como o português Joaquim Ferreira e o brasileiro Afonso Pena Júnior (1944) não reconhecem ao obscuro jesuíta de Mourão, Alentejo, a “qualidade literária, a veia polémica e satírica, bem como os conhecimentos necessários (militares, administrativos, económicos, jurídicos, etc.) para escrever obra crítica de tão grande vulto, preferindo-lhe as autorias de, respetivamente, D. Francisco Manuel de Melo e de António de Sousa de Macedo”. 

   Mais grave, porém, que a ruína de uma hipótese ou de uma falsa autoria é a de uma casa, sobretudo se for um casarão como o de Romarigães, no concelho de Paredes de Coura, uma casa nobre barroca que passou longos anos em avançado estado de degradação e pertence desde 1921 ao Município que já iniciou obras de reabilitação para musealizar o edificado.

   Aquilino foi genro do dono, o Presidente Bernardino Machado e conta magistralmente a história da mansão no seu romance homónimo A Casa Grande de Romarigães publicado inicialmente em 1957. 

   Há que frisar que o beirão Aquilino se notabilizou, além do mais, pelo estilo pícaro, pela apurada descrição de sensações e pelo vasto léxico utilizado. ~

   Da sua bibliografia hoje pouco visitada pelos leitores comuns - obras de ficção, de história, contos infantis, ensaios e traduções – há que ler ao menos, Quando os Lobos Uivam (1959) e Terras do Demo (1919).

   À tarde

   DO que eu havia agora de me lembrar? Da “Operação Marosca”, mais conhecida por Massacre de Wiriamu, em que uma força especial de comandos, às ordens de um major aerotransportado chamado Jaime Neves assassinou indiscriminadamente pelo menos 380 civis de todas as idades, violou mulheres e até foi capaz de degolar crianças. 

   Homens, mulheres e crianças foram comprovadamente queimados vivos nessa hedionda carnificina.

   Conheci pessoalmente esse futuro general que haveria de criar em Lisboa uma controversa empresa de segurança privada que ficou associada, com ou sem fundamento, ao incêndio necessário ocorrido numa pensão da Avenida da Liberdade que devia ser apropriada por alguém para outros fins. 

   Cruzei-me com Jaime Neves ainda capitão, em 1968, em Vila Cabral, hoje Lichinga, no norte de Moçambique, e mais tarde vim a saber que ele havia sido encarregado de uma operação a que faltou na noite de 24 para 25 de Abril de 1974. Ano e meio depois, foi um dos mais decisivos comandantes operacionais do golpe reacionário de 25 de novembro.

   Vem a propósito recordar que Jaime Alberto Gonçalves das Neves, nasceu na aldeia de Miguel Torga, São Martinho de Anta, no duriense concelho de Sabrosa, no aziago dia 28 de março de 1936 e faleceu em Lisboa a 27 de janeiro de 2013.     

   Quando, muito mais tarde, foi questionado sobre a sua responsabilidade no massacre de Wiriamu, negou qualquer ligação sua à “Operação Marosca” e afirmou secamente: “Sobre isso não falo”. 

   É, no entanto, conhecido que, em 1971, Jaime Neves assumiu a direção do Batalhão de Comandos de Montepuez que reunia as companhias de comandos portuguesas em Moçambique, tornando-se o responsável máximo por 2 500 subordinados, que dirigia por rádio e, na frente de combate, a bordo de um helicóptero. 

   Veio a ser condecorado com a Cruz de Guerra de 1.ª Classe em consequência de ser atingido de raspão por uma bala e, com a patente de major graduado, ainda comandou a 28.ª Companhia de Comandos, em Moçambique. 

   Posteriormente, Jaime Neves irá a Moçambique uma última vez com a missão de impor a rendição de duas companhias de comandos que, acabada a guerra, se negavam a terminar o combate e continuavam a assassinar independentistas contra as ordens do Exército Português. Assim colocou fim à insurreição destas duas companhias, a 20-43 e a 20-45, acordando com os militares revoltosos que nenhum seria detido nem castigado pelos crimes cometidos.

   Já era um tenente-coronel graduado em coronel quando participou nas conspirações da direita ao longo de todo o Verão Quente de 1975. Comandava então o Regimento de Comandos. Em 1981 passou à reserva, depois de proferir declarações que fizeram o Exército aplicar-lhe um castigo disciplinar de dez dias, durante os quais ficou detido no Quartel General da Região Militar de Lisboa, pena dada por cumprida a 12 de dezembro de 1981. 

   Aposentado do Exército, Jaime Neves fundou a 1 de março de 1990, com o capitão comando Sousa Gonçalves, a empresa de segurança privada 20-45, cujo uniforme incluía uma boina vermelha e preta, como alusão aos Comandos Portugueses, e o nome era igualmente uma alusão à companhia de comandos revoltosa, a 20-45 que Jaime Neves dirigia em Moçambique e que se recusou a deixar de combater após decretado o fim da Guerra Colonial.

   Com forte implantação em Angola e Moçambique, onde Jaime Neves e os comandos portugueses combateram, os negócios da empresa 20-45 apenas com o Estado português foram avaliados em 40 milhões e 800 mil euros entre os anos de 2008 e 2020.

   Diferentemente do que fez ao golpista Spínola, que promoveu a marechal, Mário Soares, o então Presidente da República, agraciou Jaime Neves, a 13 de julho de 1995, com o grau de Grande-Oficial da Ordem Militar da Torre e Espada, do Valor, Lealdade e Mérito. As chefias militares também consideraram o seu "mérito e os serviços prestados à Pátria", justificando até a "promoção por distinção" a major-general. 

   Mais tarde, quando já era presidente da Associação 25 de Abril, Vasco Lourenço, que esteve com ele no 25 de Novembro, acabou por declarar ao “Expresso” que "o currículo militar de Jaime Neves não justifica" aquela promoção, considerando que tal só se entende se "quiserem refundar Abril, substituindo Salgueiro Maia por Jaime Neves. Estão a hostilizar e a ofender profundamente os militares de Abril e o próprio 25 de Abril", concluiu. 

Também o PCP se insurgiu contra a promoção soarista de Jaime Neves, ao que ele respondeu: "Os cães ladram, a caravana passa".

   Vale lembrar que o general graduado Vasco Lourenço, durante o seu tempo como governador militar de Lisboa e comandante de sua região militar (desde agosto de 1976), não tinha sob as suas ordens uma única unidade militar da região: nem sequer os comandos do coronel Jaime Neves, aos quais o general Rocha Vieira, chefe do Estado Maior do Exército, decidiu manter sob seu controlo direto. Em 30 de março de 1978, os dois generais – Vasco Lourenço e Rocha Vieira – foram demitidos de seus cargos pelo Presidente da República, Ramalho Eanes.

 A promoção de Jaime Neves a major-general foi também confirmada pelo Presidente seguinte, o marquês de Boliqueime e Aldeia da Coelha, Cavaco Silva, a 14 de Abril de 2009.

 Assim se consagrava para a História Universal da Infâmia o dia 16 de dezembro de 1972, em que quatro caças-bombardeiros largaram várias bombas sobre as povoações de Wiriamu, Juwau e Chawola. Enquanto isso, cinco helicópteros desembarcavam quatro secções especiais da 6.ª Companhia de Comandos.

    Romarigães – a casa a que Aquilino Ribeiro chamou “Grande” e cuja ruína já esteve iminente está a ser recuperada, mas o seu abandono foi tão longo e erosivo que nem as heras o conseguiam disfarçar


2022 12 18
Foto - Casa Grande de Romarigães - Paredes de Coura - Portugal
Autor Vitor Oliveira, de Torres Vedras, PORTUGA
in https://www.flickr.com/photos/vitor107/148717143/ 

domingo, 13 de fevereiro de 2022

João Ramos de Almeida - A lã e a neve liberais do Estado Novo

* João Ramos de Almeida

Deixem-me contar, de forma sucinta, as primeiras cinquenta páginas de um livro que estou a ler. 

"A Lã e a Neve", do Ferreira de Castro, um "romance proletário" passado na Covilhã - , teve a sua primeira edição em 1947, durante a II Grande Guerra, e lê-lo hoje é uma máquina do tempo: pelo que descreve, pela linguagem usada, pelos sentimentos contidos, pelos personagens que nos ressoam a familiares distantes e - é aí que eu quero chegar! - pela desigualdade social tão fortemente hierarquizada e pelo consequente desamparo em que as pessoas viviam. 

Um desamparo a que nos arriscamos a viver cada vez mais, caso as arcaicas e interesseiras teses liberais se reforcem - ainda mais! - no país. A história começa asssim:

O jovem Horácio volta alegre a casa, a uma aldeia de Manteigas, depois de ter feito a tropa. E vem cheio de ideias. Viu Lisboa e o Estoril, as casas, os jardins, a limpeza das ruas e não lhe agradam mais como se vive na sua terra. O escritor é exímio:
Casas "negregosas, velhentas, colavam-se umas às outras, com a parte inferior de granito escurecido pelo tempo e a parte cimeira com folhas de zinco enferrujadas a revestirem as paredes de taipa, mais baratas do que as de pedra. Este e aquele casebre exibiam apodrecidas varandas de madeira e outros, mais raros, umas escadas exteriores, coroadas por um patamarzito quadrado, logradoiro do mulheredo nas horas do paleio com as vizinhas".
Horácio tenta convencer a noiva Idalina a adiar o casamento para que possam viver o seu sonho. Quer deixar o pastoreio que lhe rende pouco e que o faz estar meses afastado, sozinho pela serra de neve, com os animais. Quer fazer-se empregar numa fábrica de lanifícios da Covilhã para ganhar mais e conseguir juntar dinheiro para terem uma casa, limpa, com quintal, onde possam crescer os filhos saudáveis. Mas Idalina tem medo que o casamento se adie para sempre. Não vê como vai ele arranjar esse dinheiro. Horácio insiste e acha que convenceu a Idalina. Mas o sonho mal limado esbarra em obstáculos. 
Fala com o padre, pede-lhe ajuda, mas as fábricas não estão a abrir as portas. Horácio já tem mais de 20 anos e ser aprendiz não é tarefa de mancebo. Além do mais, as fábricas estão limitadas a contratar até 20% de aprendizes. Está tudo cheio. Sai acabrunhado. Encontra o seu parceiro que o deixa pensativo. Ele não trocaria a liberdade pela fábrica, fechado no fio das horas, sem fim. Mas na arte de pastoreio também não se faz fortuna. Rebanhos próprios pouco se aguentam. É uma dor de alma, mas tem de se vender ovelhas para comprar cabras que tudo comem. 
Horácio vai à Covilhã que já a sente comesinha face a Lisboa, e a sua esperança esvazia-se. A mesma história das fábricas sem empregos. Horácio amaldiçoa a escolha para padrinho feita pelos pais. Outro galo cantaria se fosse aquele outro com os seus terrenos comprados aos camponeses em dificuldades e que montou em toda a região fábricas cheias de operários, onde os seus apadrinhados têm sempre lugar porque quando há greves, os apadrinhados não alinham. Tudo lhe parece afundar-se. E se isso não bastasse, os pais estão contra o seu sonho. Lá muito a custo contam-lhe porquê. 
Na sua ausência, o pai adoeceu e tiveram de pedir dinheiro emprestado para o tratar. Não conseguiram hipotecar a propriedade. E a última pessoa a quem pediram foi ao patrão do Horácio, o dono dos rebanhos, a quem garantiram que o que ele ganhasse era para pagar a dívida contraída. Horácio vê-se assim obrigado a ter de trabalhar sem ganhar. O pai ainda lhe propõe que se venda a pequena courela que os pais tinham: "Assim como assim, era para ti". Horácio não aceita. Mas fica a roer-se. E nada pode dizer por causa desse segredo dos pais. Quer contar a Idalina, mas não pode. 
Idalina faz perguntas, mas a medo. Fica triste, em silêncio. Conta aos pais que intervêm, como se o rapaz quisesse esquecer o casório. Filho e pais prometem que nada se altera, sem explicar o que se passa. Mesmo tendo estado longe de Idalina durante todo o tempo da tropa, Horácio decide regressar quanto antes ao pastoreio. Quanto mais cedo pagar a dívida, melhor. 
Veste o seu capote de pastor, assobia ao cão que vem todo feliz ter com ele. A felicidade do cão agredi-o e Horácio atira-lhe uma pedra à pata que o deixa a mancar. Nunca mais o cão saltará feliz à sua frente. Horácio vai ter com a Idalina ao campo onde ela está a sachar. É uma cena de filme. 
Ela triste porque mal esteve com ele e ele a justificar-se que quer acabar com a dependência do seu patrão, desejoso de lhe dizer o que vai na alma, mas não lhe sai. E o tempo silencioso, de poucas palavras, marcado pelo som ritmado das enxadas na terra, como um relógio a empurrar o encontro para o fim porque ela foi contratada para sachar e não para estar ali a conversar. Ele afasta-se com o cão para meses de invernia.

O que ressalta desta história? Para mim, a ausência do papel interventivo do Estado. 

Um Estado capaz de conceder a justiça social onde reina a primária desigualdade, o regime imperial de classe que advém do domínio da propriedade e da propriedade dos instrumentos de produção. Os pais de Horácio teriam tido uma assistência médica universal e - mesmo que fosse! - "tendencialmente gratuita", paga pelos impostos que incidiriam sobre quem mais tem, e não precisariam de se endividar ou de aprisionar o futuro do seu filho, obrigado agora a trabalhar sem nada receber para si, para pagar uma dívida estúpida. Pugnar hoje pela redução da "carga fiscal", cheira a pedir a desobrigação por parte dos mais ricos de contribuir em prol dos mais pobres. Um regresso à selvajaria.

Para ter um emprego do seu agrado, os trabalhadores pobres não teriam de esperar reverencialmente pelo apoio impotente do padre da aldeia ou do beneplácito interesseiro dos padrinhos da terra, nem ter de condicionar a sua opinião ao emprego garantido pelos padrinhosHoje, os trabalhadores inscrevem-se em agências de trabalho temporário ou em plataformas que os transformam em trabalhadores por conta própria, isolados, trabalhadores desmaterializados, erxplorados até ao tutano, a pensar que estão sozinhos na sua vida. Os serviços públicos de emprego foram privatizados e os empregos deixados ao abandono por uma autoridade pública de regulação ou mesmo judicial que deixam que a lei que não seja aplicada (consultar o Código de Trabalho a partir do artigo 139º sobre as modalidades de contrato de trabalho).

Resta esperar que os representantes do Estado de hoje saibam governar no sentido de impedir que a vida de trabalho não seja uma vida de pobreza e que haja empregos para quem queira trabalhar (no 4º trimestre de 2021, a taxa de subutilização do trabalho ainda rondava os 12%) e ter uma vida que possa garantir uma casa condigna, mesmo que a referência ainda seja a ilusória zona senhorial do Estoril, já reconstruída e reforçada por todos os donos que fingem hoje nada se lembrar do passado em que foram reis de todosao mesmo tempo que apoiam a liberdade sem intervenção do Estado, como se fosse uma moda moderna. 

Depois, conto-lhes o que aconteceu ao Horácio.

segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

Capas do cesto dos proibidos (II)


Capa de Fernando Lemos para a edição brasileira da Anhambi de São Paulo de Quando os Lobos Uivam de Aquilino Ribeiro, em 1959.
Em rigor, não foi esta a edição mas a primeira da Bertrand, em 1958, a incorrer na ira da Censura, que a proibiu, proibição que seria o primeiro passo para um processo judicial a Aquilino. Graças a uma campanha internacional de apoio ao autor, e com receio de uma escalada na publicidade negativa numa altura já muito complicada diplomaticamente para o Estado Novo (depois do annus horribilis de Salazar em 1961), o regime desistiria dos seus intentos.
O Brasil liberal de Juscelino Kubitshcek foi uma dor de cabeça para o regime de Salazar: acolhendo todos os notáveis anti-salazaristas, de Delgado em 1958 a Henrique Galvão depois da tomada do Santa Maria, recebeu também inúmeros artistas e escritores portugueses forçados a abandonar o país temporária ou definitivamente. Foi o caso, por exemplo, de José Cardoso Pires, que chegou a colaborar durante uns meses (sob pseudónimo) com a revista carioca Senhor. E foi também o caso de Fernando Lemos, companheiro da primeira geração de surrealistas portugueses, que fixou estes em retratos fotográficos que são, talvez, as suas mais conhecidas obras.
Na aparente singeleza da capa, na sua quase literal tradução visual do título, esconde-se o primeiro sólido e concertado ataque ao muro censório do Estado Novo: depois de décadas em que a questão da censura à edição fora um assunto “interno”, o “caso Aquilino” tornou-a notória em quase todo o mundo, sendo o Brasil o epicentro do núcleo de resistentes que procuraram dar a conhecê-lo. Foi precisamente em São Paulo também que se publicou, ao mesmo tempo desta edição do romance, Quando os Lobos Julgam a Justiça Uiva, um pequeno volume onde se podia ler na íntegra os textos integrais de acusação e defesa no caso, antecedidos de uma introdução de Adolfo Casais Monteiro, exilado no Brasil desde 1954 (e que assina também o prefácio ao romance), uma edição que seria impensável em Portugal então e que tem uma importância histórica no contexto da edição nacional durante o Estado Novo, ao aproximar-se dos modelos de edições sobre processos de censura, como o L’Affaire Sade de Pauvert ou L’Affaire Lolita de Girodias em França, ambos de 1957, ou The Trial of Lady Chatterley, a edição que a Penguin publicou sobre o processo ao livro em 1960.
https://pedromarquesdg.wordpress.com/2016/12/05/capas-do-cesto-dos-proibidos-ii/

domingo, 19 de julho de 2009

Tem bom corpo ... - Trabalhe ! - Aquilino Ribeiro



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Biblioteca online do conto



Aquilino Ribeiro


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– TEM BOM CORPO…
TRABALHE!

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JUSTO – Justo Matias para o servir, meu rico senhor – tinha casinha de seu: duas águas, telha-vã, com dois quartos e lareira, e alguns bens ao luar. No tempo sobejo, ganhava a jorna. Se acontecia ser nos dias grandes, quando a noite é breve como um abrir e fechar de pálpebras, ao voltar do trabalho com a enxada pendurada do ombro como o escudo dum peltasta, aquela enxada de larga ferra que virava a leiva mais fácil que o padre à folha do missal, tomara o costume de sentar-se no amassadoiro do linho que havia à sua porta. Amortalhava o cigarro e, se não estivesse ninguém ao pé, cabeça pendente para o peito, cerrava os olhos. Dormia? Qual, ia fumando e cismando. Dentro de casa estreloiçavam nas mãos da mulher as duas tigelas da ceia, ouvia-se a tagarela dos dois pequenos antes da deita, enquanto a escuridade se tornava mais densa. Dentro em pouco, se não fosse a brasa do cigarro, avivada pelos haustos do fumador, o bronze humano ter-se-ia fundido de todo, até se esvair, na água negra do céu. A mulher, uma vez terminadas as voltas, vinha, não raro, estramontá-lo:

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– Homem, estás a malucar na morte da bezerra! Vem-te deitar...

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A Justo Matias, quarentão, largo de ombros e peitorais de touro, atarracado de estatura, consideravam-no sem favor o melhor jornaleiro da terra. Eram também ali poucos os cabaneiros, cada qual cultivando as suas courelas e vivendo na meia abastança da tulha, da horta, e do porco salgado pelo Santo André. Quando de roga, o Justo pegava da machada ou sachola, e fazia mais trabalho que três negros juntos. Por isso o disputavam os patrões, sendo milagre que andasse algum dia de mãos nos bolsos em qualquer altura do ano.

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Tendo porém os bocadinhos a governar e não possuindo gado de seu, via-se obrigado a preferir aqueles lavradores – nem sempre os mais a seu gosto – que lhos fossem lavrar e semear em equivalência ou elha por elha. Mas eles vinham quando vinham. Lá reza o ditado: quem não tem vacas nem bois, lavra antes ou depois. Primeiro haviam de proceder ao amanho próprio, o que era compreensível. Mas atrás disso vinha uma série de biscates aleatórios, como ir roçar carqueja na serra, trazer um carro de pedra, arrebanhar a caruma dum pinhal, que não perdiam vez, e eles todos, por sistema, haviam de efectuar antes de ocorrer ao capítulo das obrigações com o próximo. E ele, sempre pronto nas jornas, com menoscabo do seu, todo se agoniava que a lavoira das suas terras fosse relegada para resto, tal as sementeiras de Setembro quando as feverinhas nascentes do centeio já reluziam na seara dos vizinhos. E o que lhe sucedia com as sementeiras sucedia com a carreta, os molhos a esbagoarem-se nos rolheiros, com a lenha, que havia de arrumar no cabanal chumbada da água dos primeiros chuviscos do Inverno.

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– Que lhe hás-de fazer?! – obtemperava a mulher, a tia Maria Justa, matrona de grande trabalho, sempre rota e cacarejante. – É assim, é assim. Ninguém deixa a si pelos outros.

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Mas ele, deixava, caramba, ele deixava! Quantas vezes, havendo destinado ir no dia seguinte semear um quartel de feijões na corga dos Frades, lhe vinha uma paqueta bater à porta:

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– Tio Justo, meu pai mandou-me rogá-lo para amanhã. É para arrancar um carvalho na ribeira...

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– Amanhã não posso, menina, vou semear os meus feijõezinhos, que se está a fazer tarde.

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– Meu pai disse que não podia passar sem vossemecê...

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Justo Matias, depois de dar duas vezes à cabeça – sinal da sua cólera mansa: eu não estarei primeiro, como tu estás sempre primeiro, quando preciso de ti!? – e lá ia, remetida a sua tarefa a vê-lo-emos.

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Porque não eram igualmente assim com ele?

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– Sempre assim foi na nossa santa terrinha, homem de Deus! – tornava a mulher.

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Ele bem sabia. O lavrador põe à cabeça do rol a lavoira da casa, o que não era pecado, e serviços conexos, mesmo o que não tem hora de aparecer. E mesmo em hora de pressa a favor de Cristo, se voltasse ao mundo, não alteraria o seu calendário. Era por isso, por «os seus lavradores» darem prioridade a coisas que não perdiam vez, quando de segunda importância, que o assaltavam as mágoas.

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– És um desesperado! – retrauteava a mulher, que era espírito acabado de conformação e humildade. – Sempre assim foi: primeiro passam os ricos! Dá graças, que não andem a cavalo na gente...


– Era o que faltava! Vão andar a cavalo na mãe!

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No fundo, de facto, o Justo era um escravo frenético, sempre de mãos amarradas, mais do que pedia o repertório da vida campestre. As vicissitudes que atravessavam os agros sentia-as como trabuzanas que viessem inscrever-se-lhe no coirão. Chovia quando era altura de fazer sol, ou rechinava quando o sol devia nadar em água – ai Jesus, que há-de ser de nós com tais calamidades! Sofria, até lhe estoirarem as fontes com dores de cabeça, se a sua leira não produzia tantas sementes como a do vizinho ou que, ao vender os alqueires de cereal que lhe sobejavam, ao outro dia lhe surgisse comprador que oferecia mais dez réis em rasa.

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Justo, atormentado noite e dia por estes raladores demónios, não era feliz. O que mais lhe custava era fazer a sua lavoira fora de tempo e horas. Pela santa Ireia, «jongue» os bois e semeia. Onde estavam os bois? Então maldizia da sorte e praguejava:

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– Diabos me levem que não nasci filho de pai abundoso! Minha mãe forjou-me com um pobretão como ela. Mais valera torcerem-me o pescoço à nascença. Quitava de andar a comer o casqueiro que falta a outras bocas!

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O Justo Matias, porém, era pessoa temente a Deus, tirava na Quaresma a bula de seis tostões da Santa Cruzada, não perdia uma missa, e as suas blasfémias, por via de regra de natureza venial, evolavam-se como as fumaças do seu cigarro kentucki.

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Um dia, morreu de velho e com o pão a grelar nas arcas o sogro do seu vizinho Ladislau dos Prazeres – o sogro e o furão só debaixo da terra dão pão – e logo este apareceu de corda em punho a puxar mais uma vaca para a loja. Tinha uma junta delas, ficava com três, não contando as novilhas. Viu depois sair a vaca nova para o lameiro com as mais, e ficaram-lhe os olhos nela.

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O Ladislau, que se apercebeu, acudiu logo à querença:

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– Andavas a sonhar ter um dia uma vaca. Para apraçar, não era? Aqui tens o animal que te convém...

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Justo nem respondeu, sufocado. A Formosa era de facto um bicho de cara. Podia haver melhor estampa, mas com mais ralé não havia na terra. Curtota de corpo, mas pescoceira valente, bonita e bem rimada dos galhos, pelagem cor dos trigos bem maduros, tinha as pestanas ruivas e um olhar doirado como se vê em poucas. Em tudo, uma destas meninas loiraças, salvo seja, que dão água pela barba a quem lhes chama suas. Para ser completa, nada má como leiteira.

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– Paivota, Ladislau?

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– Qual, paivota? Jermela pura. Olha-a bem... Hem? Queres-ma tu comprar?

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– Estás a fazer pouco de mim! Com que ta havia eu de pagar, homem?! O meu dinheiro chega para mandar cantar um cego. Já segundo cego ficava a fazer cruzes na boca...

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– Sempre há maneira de um homem fazer negócio. Ficas-ma a dever...? Não queres. Olha, dá-me a leira de Vale do Coelho e tens a vaca...

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– Não te queres ir virar? E onde hei-de eu ir semear o milho e os gravanços? Que raio de trocas-baldrocas!

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– Pois olha, não te propunha nada fora de razão. A leira não vale mais de dois contos. A vaca pode dar isso e muito mais. Parece-te que te queria lograr?

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Uma grande pausa perpassou entre eles. Justo reflectia. Ladislau, um grande cigano, dera bem conta que o peixe queria morder. Tornou o dono da vaca:

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– Sabes, era para me livrar de ir à feira. Para três vacas, não tenho palhal. Vou com ela a Lamas, se a não vender à porta. Mas eu arrenego de feiras. Um ano, não sei se te lembras, levei lá uma novilha filha da minha Galante, e fiquei escaldado. Um diabo de Decermilo deitou-lhe o olho e veio-me tentar: – Quanto quer, quanto não quer, firmei-me nas sete notas e meia e dali não arredei. – Há-de ser por sete. – Não, senhor. – Há-de ser! – Homem, vá em paz! – Rache-se a diferença. Tanto me importunaram que, mal o homem me viu torcer os beiços, tratou logo de pagar o alvoroque. Bebeu-se, alanzoou-se, e vai diz a um mocete: – Toca lá a vaca para casa, que este tio não desconfia. Na feira dos quinze em Barrelas lá tem o dinheiro... – Olhe que me é muito precisa a conta... – Homem, já dei a minha palavra. Na próxima feira de Barrelas lá tem o seu dinheiro. Pois vi-me e desejei- -me para receber aquela quantia e o que me valeu foi ter um amigo na Administração da vila...

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Entretanto que Ladislau contava a sua história, Justo ia ouvindo e magicando. E não foi preciso que o outro abrisse segunda vez a boca de galrito. Foi ele que se atirou para lá, atontado:

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– A tua vaquinha daria para carroça?

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– Esta vaca tanto dá para jugo, como para tirantes. A ti convinha-te mais carroça, já vejo. E dou-te razão. Além de que não tens muitas terras a trabalhar, em despesas com apeirias, para quem as não tem, é meio por meio.

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E, puxa para aqui, puxa para acolá, o Justo deixou-se cometer. Acabou-se, ficava sem uma terra, mas teria as outras lavradas a tempo e horas, as lenhas recolhidas com a sequeira, e carretados da seara o pão, milhos e milhões, quando pede a sazão. A boa orça na lavoura compensava-o da perda da leira... para mais, que não para menos.

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Consumiu na carroça, apeiros, mais achamboaria, as migalhas de vinte anos. Mas uma vaquinha de cara – não se chamasse ela Formosa – entrou para a sua loja. Lá isso ninguém contestava!

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Ficou logo a ter-lhe grande amor. Mais amor que à mulher, à luz do dia, à sua alma. Levantava-se de noite se ouvia mugir ou se lhe passava pela cabeça que teria sede ou não fora bem acomodada. Nos dias de geada, dava-lhe vianda morna. Cobria-a com a capucha quando entrava suada de algum carreto. A primeira vez que a levou ao boi, para ele foi um sério e magicado acontecimento. O salto, com a respectiva estocada, pesou-lhe mais do que nos próprios ombros. Mas, como episódio fulgurante que era, varreu-se-lhe da lembrança, só para empreender na cria que havia de resultar. De facto, ao ter um bezerrinho, abriu-se- -lhe o coração como a uma Páscoa. Passou a dormir ao lado dela e tratava dele, chegando- -lho aos úberes, melhor que uma ama a um menino.

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A vaca, que era inteligente, cedo apreendeu a afeição que lhe votava o seu dono e retribuía-lha em meiguice e prontitude. E mais confiada nem uma alma cristã. No olhar, no agrado com que fazia tudo o que ele requeria, na ralé que punha a puxar uma carrada onde uma junta emperrava, se lhe via o gosto em corresponder ao bem com que era estimada.

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Com a Formosa, fazia o serviço das suas terras, o serviço dos compadres, e sobrava--lhe tempo. Aceitava então qualquer frete. Sempre extremoso, era ele que a levava para o lameiro com a apreensão de que o filho, um rapazote espigado de doze anos e estoira- -vergas, pudesse maltratá-la. No Verão ia passeá-la pelas rampas e andurriais baldios, onde verdegasse um tufo de erva que tosar, pois que lhe escasseavam os pastos de seu, e a forragem, que era pouca, guardava-a para os pensos de inverno à manjedoira.

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Não obstante os cuidados em matéria de previdência, um ano não houve fenos, nem bons nem maus. Justo viu-se à entrada de Janeiro com meia dúzia de molhos de palha painça e outros tantos de canas de milho no palhal.

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– Que há-de ser da minha vaquinha, santo Deus?

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Logo por desgraça, desabou sobre a serra um temporal desfeito, neve, geada, ventania, chuva, e os gados tiveram que ficar no estábulo a roer os coanhos, quem os tinha, fetos, o cisco dos palhais ou duas folhas da horta, como os porcos.

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O Justo gastou quanta forragem tinha de reserva e passou a dar-lhe baldes de vianda, onde metia o que tirava à boca e à dos seus e o mais que podia. Foi-se assim o pobre monte das batatas, depois as ceveiras e o grãozinho da arca. Acabou por não possuir mais que os nabos de um linhar e a erva de outro. Ceifou uma camada, rapou uma segunda, a terra não teve alento para produzir terceira, chisnada pelo codo. O Justo passou a trazer a vaquinha à rédea pelos caminhos a surrar as ervas que haviam resistido nas rampas. À noite, na manjedoira, deitava-lhe o que lhe vinha à mão, hortaliça, couvaria, sua e do alheio – Deus me perdoe, mulher, Deus me perdoe! – sempre que podia fazê-lo, sem correr a vergonha de que o surpreendessem. Mas com estes pensos abusivos do verde, a vaquinha acabou por destemperar-se. Ela a engolir um punhado de erva e a expulsá-lo logo de seguida. Chamou o veterinário, com quem se afreguesara. O prático foi categórico:

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– Substitui o comestio da vaca e radicalmente. Deita-lhe feno, palha painça, palha triga... Tudo de seco.

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– E onde o tenho eu?!

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– Meu santo...! Se não mudas de manjedoira, perdes a vaca. E é mal-empregada que é um bonito exemplar de jermela!

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O Justo, como sempre que tinha alçada no tribunal da consciência, sentou-se no poial a cismar. Era ali o seu Monte Oreb, onde elevava a alma para as estrelas e para Deus. Uma hora, exalçando-se acima da sua condição, abalançara-se a adquirir a vaquinha. Fora maior afoiteza que lançar-se ao mar. Agora, em vez de pôr olhos no chão, fixava as estrelas: que podia ele, argalho dos argalhos, para mover o mundo a seu favor? Quem lhe valeria? Esteve ali muito tempo, como se esperasse que a remota luz sideral lhe entrasse no cérebro e o dirigisse. Que remédios descobriu a sua obtusa imaginação?

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Foi-se pelas portas suplicar que lhe valessem. Bateu à aldraba do Gedeão ricaço:

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– Bem gostava de te servir, meu homem, mas de feno não me resta uma febra. Levas duas fachas de palha, serve-te?

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– Pois bem haja, para arremediar, serve-me, pois não serve!

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– Homem, quiseste ter vaca, agora torces a orelha. Sempre me palpitou o que te ia assuceder. Não levavas melhor vida quando davas o dia... papo cheio, à noite seis vinténs a chocalhar no bolsinho, sono maciço, sem cuidados... hem? Diz lá...?

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– É a sina da gente! – proferiu para condescender com a macarena.

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Continuou na romaria. O Carpito sacudiu-o com certo desabrimento, abundando no pensar de Gedeão:

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– Para que compraste a vaca, se não tinhas com que a manter? Não tenho feno, para venda. Olha, cada um cinja-se àquilo para que nasce. Querias ser lavrador?! Agora arrota! Queixa-te, queixa-te da má cabeça. Como cabaneiro é que tu nos eras útil e te ias governando menos mal. Lavrador, babau; temos de casa. Olha, volta à enxadinha...

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O Faustino abriu os braços:

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– Feno? Pago-te a dez mil réis o molho; arranjas-mo?

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Foi adiante, estribado no rifão mais dá o cru que o nu, ao José Pedroso somítego, que guardava de uns anos para os outros.

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– Olha, amigo, feno, não te empresto nem te vendo que não chega para o meu gado. Mas dou-te um conselho: vende a vaca, vende-a enquanto é tempo. Eu não ta quero, mas vende-a... Foste um asno! Quem nasceu para dar a jorna, não se adianta a lavrador. Emenda, emenda a mão!

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– A vaca não se vende. Há-de morrer na minha loja. Lá da minha vida, e do que me convém e não convém, só eu sei.

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– Lá farás.

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O Cerejo não lhe minorou a má sorte:

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– Tenho as vacas a palha centeia e duas repas de erva. Já nem dão leite. O Pedroso, se não fosse um unhas-de-fome, é que te podia acudir. Tem feno de há três anos. Até as vacas lho rejeitam de velho. Faltaste-lhe como jornaleiro, se te pudesse trincar a ti e à vaca, trincava-te..

Entrou em casa, vergado, as cordoveias no pescoço desatados barbantes, os olhos imóveis como bugalhos quando secam nos carvalhiços.

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– Mulher, dá-me as arrecadas, a ver se compro uma carradita de feno para a nossa vaquinha...

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A mulher foi-lhe buscar a chorar aquele único oirinho que possuía. Vendeu as arrecadas, mas feno só lá para a Vouga é que encontrava. E quem lho trazia por caminhos excomungados, com chuva a potes?

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Na eira da Boa Vista o Pedroso tinha um palhal repleto de feno e outros comestios para o gado. Justo via sair de lá o moço carregado com um, com dois molhos todos os dias ao anoitecer. Tinham entrado para lá muitas carradas altas como torres, quer nos anos de fartura, quer naquele ano de vacas magras. Era um cão de sorte e, tanto ele o reconhecia, que pagava dobrado ao padre e oferecia boas novenas aos santos. O Justo recalcitrava:

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– Raios partam, porque dá Deus a uns tudo, e a outros deixa o apito da boca para apitar?!

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O lugar no céu que lhe prometia o padre, se pagasse as ementas, cumprisse as obrigações de fiel cristão, e oferecesse aos fartos a garupa para cavalgarem, trocava-o naquela hora contra uma dúzia de molhos de feno se fosse do bom, daquele em que a corcolher faz o ninho e a gadanha, ao tempo que o foiça, ruge como a seda quando os caixeiros a rasgam ao balcão. Oh, se trocava! A vaca, ele a pôr os pés na loja, a olhar para ele com mais tristeza do que uma alma doente que julga trazerem-lhe a salvação. Não podia haver mais tristeza e ternura juntas. Justo passava-lhe a mão pelo lombo e ela deitava a língua de fora, e torcia-se toda em aduela para lha lamber. E ficava em tremuras. Tremuras como quem curte maleitas. Como quando puxava uma carroçada e era preciso botar o fôlego todo. Mas então era de ralé, a chamar a si as forças suplentes que há de reserva em todo o ser vivo, agora de dor ou amargura, quem sabe lá se consumida também de vê-lo a ele presa de tanto desespero! Justo retirava dali a esmagar uma lágrima, envergonhado de si próprio, com as costas da mão.

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Uma daquelas noites, caía água se Deus a dava, deitaram-se mulher e filhos e ele foi deixando dobar as horas, umas sobre outras, de pé no traço da porta a ver as cordas da chuva zebrar a semi-obscuridade do céu. Teria dado a meia-noite, encostou a porta e saiu de casa pela calada, descalço e subtil, de modo a que a mulher, que tinha o sono leve, não desse conta de ele abalar do plantão. Encapuchado, sacho de peta ao ombro, meteu pelas hortas e, apanhando o carreiro de pé posto na aba sul do povo, subiu ao cerro da Boa Vista, coroado pelas medas em capindó como uma senzala de cafres. À desbanda ficavam as duas ou três cardenhas em que os lavradores de mais posses armazenavam a colheita de forragens. Depois de estar um bom espaço acachapado nas sombras, atento aos rumores da noite, as águas que se despenhavam ao longe no açude da ribeira, o ujo que gemia seus lamentos para os pinhais, de ver piscar o olho a umas estrelas e a outras consoante o desfile das nuvens no céu de quarto minguante, foi direito ao palhal do Pedroso. A porta estava fechada à chave e com um pequeno empuxão, que a fez laquear na fecheleira, sondou-lhe a segurança. Inteirado, mediante o prego caibral de que vinha munido, procurou correr o fecho. Na manobra, como resistisse, consumiu muito tempo e nervos, embora a fechadura desse sinais manifestos de devassada e comida pela ferrugem. Três vezes se suspendeu a escutar. Três vezes renovou a tentativa. Ouvia então, primeiro, o seu coração, depois o rocegar do vento nas ramas das árvores, e figurava-se-lhe que a noite, com o imenso corpanzil estendido até lá muito longe, infinitamente longe, para trás da serra, o estava a ver e poderia servir de testemunha. E até o ujo, pois que se calara, não era ponto de fé que se não conjurasse a espreitá-lo. Por fim, aconteceu o prego acertar na falha da mola, e o fecho desandou com rosnido de cão de guarda quando acorda diante de pessoas que nunca vira.

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Santo Deus, o rescendor do feno e da palha seca e bem acondicionada atirou-se a ele e sentiu-se deliciosamente submerso como nos braços duma mulher desejada! E logo, mais pelo cheiro e tacto do que pelo resquício de luz que se coava pela porta entreaberta, foi ao monte do feno e arrancou um, dois, três, cinco molhos. Apertou-os num só vincilho, e com pressurosa atenção, inundado da alegria do sucesso, conseguiu recorrer o fecho. E de molho às costas, encabado no pé do sacho, cauto e veloz como o raposo que leva caça, regressou a penates. Tinha estudado o lance e, para maior salvaguarda, foi esconder o feno debaixo da enxerga depois de tirar um braçado para a Formosa.

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À mulher, que olhava para ele muito pasmada, apenas disse:

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– Não me perguntes nada e cala-te. Se dás à taramela, esgano-te!

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– Vê lá, homem, em que trabalhos te metes! Senhor dos Aflitos, valei-nos!

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A vaca teve o penso recomendado pelo alveitar aqueles dois dias. Na terceira noite, em pés de lobo, paro aqui, excogito além, repetiu o saque. E durante todo aquele frio e impossível mês de Fevereiro foi-lhe azado deste jeito prover à mantença da vaquinha doente. Fizera falta ao ricaço do dono? Duas dúzias de fachas que subtraíra à rima do feno, ela continuava tão soberba e compacta que nem parecia bulida. A bicha arrebitava e o movimento de ternura com que olhava para o dono, baixando as pálpebras de ruiva, tornando a olhar e rompendo a retraçar o feno depois de o circunscrever à boca com duas palhetadas da língua, parecia mesmo um bem haja

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Uma noite que Justo Matias dava, já afoito, os primeiros passos no palhal do Pedroso depois da operação já trivial de forçar a fechadura, cinco vultos descoseram-se das cocas do escuro e caíram sobre ele, mal o deixando estrebuchar. O José Pedroso bateu a dentuça amarela a vomitar palavras atropeladas no escorbuto da cólera:

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– Ladrão, querias engordar o cangalho da tua vaca à custa do meu rico feno!? Quem havia de dizer, esconder-se um ratoneiro destes na pele dum bom-serás! O que tu precisavas, sei eu. Era enforcado, para escarmento dos pobretainas como tu. Ainda há Deus! Ainda há Deus!

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– Perdoe-me, tio Pedroso, eu pago-lhe a dobrar...

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– Pagas, com quê? Quanto tens não paga as carradas de feno que me roubaste!

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– Não diga isso, levei-lhe uma dúzia de fachas. Tinha a vaquinha da minha alma a estalar de fome e com a caganeira. Tenha dó, perdoe-me.

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– Nem que te virasses do avesso. Hás-de ir para a cadeia...

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– Ajusto-me consigo três vezes por semana até o reembolsar...

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– Na minha casa não pões tu mais os pés. Nem que tivesse de deixar as terras a monte.

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– Veja lá, tio Pedroso! Tenho filhos pequeninos a manter...

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– Mas que rela! Rapazes, toca com ele para o regedor – e fez sinal aos cinco quadrilheiros que ali estavam às suas ordens, armados de estadulhos da carreta.

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– Tio Pedroso – disse voltando a cabeça para trás, olhos fitos no ricaço perfilado no traço do palhal – tenha dó dum pobre!... Ouça... Ouça, tome conta da vaquinha. Por alma de sua mãe não me meta na cadeia...

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– Vá, girem!

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Levaram-no ao regedor, o Sigismundo, moleiro ladro e fanhoso que era da conróbia do Pedroso e morava na sede da freguesia. Riram-lhe sete olhos:

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– Caíste na ariosca, meu melro!? Não serias tu que maquiavas também o meu palhal!? Fui encontrá-lo um dia destes tão diminuído!...

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– Senhor Regedor, as mãos me ardam como palhas ao lume se toquei alguma vez no alheio, que não fosse naquele pouco feno do tio Pedroso! E ao fazê-lo, até se me cortava o coração. Eu seja negro se falto à verdade!

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– Homem, não jures. Eu conheço-vos a ladainha. Sois todos os mesmos. Cesteiro que faz um cesto, faz um cento se lhe dão verga e tempo.

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Passou a noite entre os cinco mascates, pois que não havia lugar seguro em que aferrolhá-lo, eles a bebericar e a comer azeitonas, cujos caroços lhe atiravam à cara de mão disfarçada por trás das costas. Com a alba, alba molhada e triste, varrida por um ventinho barbeiro, levaram-no para a vila. Debalde intercedeu, ao passar no seu poviléu, que ficava no caminho:

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– Deixem-me ir despedir da mulher...

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– Não há ordens. O que tens a dizer-lhe eu lho digo quando te deixar em ferros – respondeu o Zé Cartaxo, o mais encarniçado contra ele, irmão duma das concubinas do Pedroso, a Júlia Cartaxo.
Um outro, Manuel Trouxa, que lhe parecia mais comedido, de polainos de junco, capucha de capelo a cobrir-lhe o toitiço calvo, as abas para trás dos cotovelos a esvoaçar, rosnou:

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– Os larápios têm de desaparecer da superfície da terra. A mim também tu roubaste muitas abadas de couves...

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– E és tu que me acusas, Manel?! És tu, que eu fui apanhar dentro de casa a roubar- -me o pão da arca? Vê se te lembras?

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– Isso foi uma grandessíssima calúnia que me ergueste! Andava à procura duma galinha que nos desaparecera, e tinham-me dito que a tua mulher tinha-a fechada em casa.

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– Mas não ia dentro do saco de pão que já levavas às costas...!

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– Anda lá para diante e cala a caixa. E não me abras mais a boca, ouviste? Quem manda aqui sou eu!

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Em grupo, silenciosamente, entraram na vila. O Cartaxo era conhecido velho do carcereiro. Entregou-lhe o preso depois de grandes umbigadas de folgança, com apupos de permeio para o ladrão que se deixara caçar no laço.


*


Quando a porta se cispou e dois ou três presos avançaram para ele, focinho arreganhado de coscuviIhice, própria de gente para quem não há outra evasão ao escoamento infernal das horas, Justo Matias ficou empedernido um bom espaço, pupilas fora da órbita, sem poder falar à malta que o rodeava. E subitamente lançou-se ao chão, as mãos a agatanhar, a bater com os pés, a morder o asfalto.

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– Ai, minha vaquinha! Ai, vaquinha da minha alma, que não te torno a ver! Morres, ninguém te vale!

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Uns riam, outros olhavam para ele como para bicho nunca visto nem imaginado. E ali esteve por muito tempo, neste acesso de loucura mansa, nadando por terra, gemendo e urrando, sem fazer reparo em ninguém, até que ao faxina lá lhe pareceu de mais e decidiu- -se a bater à porta a chamar o carcereiro. Voltou este, um homem de barba ensilvada de oito dias, com um porrete em punho, como sempre que era requerida a sua intervenção. Não foi preciso usar dele; bastou agarrar-lhe pela lapela da vestia com mão tesa:
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– Vens para aqui fazer teatro, meu bruto! Aqui não é sítio para fantochadas...
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– Hum! Hum! Eu não torno... Eu não torno... Desculpe, meu senhor! Eu não torno!
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– Mas que frenicoques são esses, meu animal?
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– Não é nada, meu senhor! É a minha vaca que a não torno a ver, coitadinha! É ela que me morre! Morre, morre! Ai morre!

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Desataram todos a rir e o carcereiro, convencido que se tratava dum maníaco inofensivo, bateu a porta, rosnando:

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– Tem juízo, senão saltas para o segredo que te consolas! Não me obrigues mais a abrir a porta fora das horas!

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Ficaram a chamar-lhe o homem da vaca e era motivo de chacota, que não de piedade, para a grande maioria dos párias que ali purgavam pena, pilhados de mão na arca do próximo, desordeiros das tavernas, rachadores de crânios, valdevinos, e até homicidas à espera de julgamento. Justo metia-se a um canto, indiferente às chufas, sem fraguar com a púrria, e chorava gordas e abundantes lágrimas.
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– Porque chora, homenzinho de Nosso Senhor?
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– Porque hei-de eu chorar...?! Choro pela minha Formosa
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Formosa é a vaca, não é? Mas que é o que lhe fizeram?
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– Não fizeram nada. Não, senhor, não fizeram nada. Sou eu que a deixo morrer de fome. E morre... morre!
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– Arranja outra...
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– Não arranjo, nem posso. Se aquela me falta, adeus! Acabou-se, nunca mais sou gente...
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– Não tem ninguém que lhe trate dela?

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– Tenho mulher, tenho dois filhos, um casal já espigado, mas que vale?! Não há que lhe dar de comer. E a vaquinha morre, pois não morre!

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– Para assim a estimar, faz-lhe muita falta...?

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– Se vossemecê a visse! Quando andava no seu perfeito ser, era uma bonita estampa de jermela. Não é grande, grande, não senhor. Agora mais bem feita não se encontra. É ruiva, da cor da palha, sem mancha nenhuma doutra cor dos pés à cabeça. Então de galhadura, tão igual, cada pau erguido à mesma altura para seu lado, até dá gosto vê-la. E os olhos? Os olhos, não são de animal, são de gente. Mira-me como uma pessoa. Eu e ela conversamos só com o olhar. Nem se pode conceber a amizade que me tem! Se eu lhe gritar: Formosa! ela recolhe-se logo a procurar saber o que eu quero. Às vezes basta-lhe o tom da voz. Uma vez fomos carretar pedra para a residência do senhor Padre. Estava lá uma pedra que ninguém queria carregar. Porque torna, porque deixa, dizia um: – É cá nos fundos; custa a tirar lá para fora dos barrocais; tenho o carro meio escangalhado. Dizia outro: – A vaca amojou agora, não a posso forçar... Um destes era o tio Pedroso, que tem gado alto e arvorado como andores. – Deitem lá a pedra à minha carroça... – digo eu. Subiram a pedra. Cheguei a aguilhada à vaca e falei-lhe em tom que eu sabia que ela me adivinhava: – Eh,Formosa!... Ora, arrancou com a pedra como se fosse um arméu de lã. No festo do caminho, pôs-se a bufar, coitadinha! Nessa noite, dorida de puxar fora da lei, recusou o balde da vianda. Pus-me a anediá-la... viu-me aflito, e mergulhou o focinho na vianda. Dali a pouco, revessava o que comera. Veio a mulher, vieram os filhos, e ali levantámos um coro de gente agoniada. Tanto a encomendámos ao P.e Santo Antão que no dia seguinte estava boa. Vaquinha da minha alma! Ai, vaquinha da minha alma, que te não torno a ver!.

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Quando a mulher e os filhos vieram visitá-lo com a bolinha fresca, uma choiriça cozida embrulhada numa folha de couve, a primeira pergunta foi:

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– A vaca, Maria, a vaca?
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A vaca não ia melhor. Não se arranjava que lhe botar de seco. Os filhos ripavam erva pelas ribanceiras, que por toda a parte estava a reverdecer, mas do que ela precisava era de feno.
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– Feno?! Feno?!... Foi a nossa perdição.
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A nossa perdição foi tu quereres ser lavrador! Não te bastava ser cabaneiro, e cabaneiro atrás de quem todos andavam mais a mim, mais a mim!?
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– Pois foi, mulher, pois foi! Deus não me perdoe a ambição de querer levantar cabeça. Mas a asneira está feita. Vede lá se salvais a vaquinha, tu e os filhos, e deitai-me à margem que o mereço... Vende uma belga... Salvai a vaquinha!
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A mulher fitava-o com olhos torvos, mas não destituídos de afecto:
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– Dás em zorato, Justo! A vaca há-de-se curar, se Deus quiser...
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– E Deus quer? Deus quererá?
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– Entrementes vem o tempo bom, já há que comer até mato na serra...

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– Pois é. Deus Senhor, salvai-me a vaquinha. Padre-nosso, que estais no céu...
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À volta dele a malta soltava surriadas de gáudio:
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– Por alma da vaquinha deste tio: Padre-nosso... ave-Maria, reza tu que eu já não posso.
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Justo sofria todos os achincalhes com paciência e quando a mulher rodava para a serra, embrulhada na capucha, ele metia-se a um canto a chorar, e ouviam-lhe irromper do peito os involuntários soluços do regato que dá salto duma pedra para o pego.


*


Um dia de sol – seria meia manhã, estava ele enfronhado contra a parede –, ouviu que o chamavam pela alcunha que pegara e suplantara o nome de baptismo:

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– Homem da vaca!... Homem da vaca!
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O Justo ergueu-se e caminhou para a porta. Era a mulher, dentro da capuchinha velha, com os filhos descalços, a camisa rota e sem botões no peito.
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– Trazemos-te aqui um guisadinho de coelho. O Tónio armou os ferros...
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– Bem hajas. Basta-me o casqueiro da cadeia. A vaca?
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Não lhe respondeu à pergunta. Quis encarar com ela, viu-lhe os olhos no chão e compreendeu. Desatou em grande e convulso choro:
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– Ai, minha vaquinha! Minha vaquinha! Para mim, o mundo acabou!
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– Olha, homem, morreu sequinha como as palhas. Não segurava nada na tripa. Fartei-me de chorar por ela... Mas ainda mais pela nossa rica leira de Vale do Coelho, onde o Ladislau tem cada rolheiro de pão, que são o pasmo de quem os vê.
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– Morreu a Formosa, para mim o mundo acabou!
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– Não acabou, isso acabou ele?! Hás-de responder na semana que vem por roubo do alheio e arrombamento. O Pedroso não quer que lhe falem em perdão. – Quem no mandou abandonar a vida de cabaneiro!? E eu que tinha sempre que lhe dar a fazer! Está tudo contra ti, os ricos porque são ricos, e os pobres porque são os cães dos ricos. Também o têm de raça. Os ricos dizem-lhes: Ladrai, eles ladram! Mordei, e eles mordem!

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não perdoa... E sempre te digo, é uma sorte se à saída da cadeia tiveres a quem dar o dia!

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– Sim, sim, será uma sorte. Mas, não te aflijas, eu morri! Faz de conta que morri!


*


Chegou o dia do julgamento. Não nomeou advogado nem forneceu testemunhas de defesa. O juiz, que era o tipo perfeito do bom burguês, nem benigno, nem perverso, tendendo porventura para o optimismo, perguntou à sua altura:

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– O réu confessa que roubou?

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– Sim, senhor, roubei o feno a um homem rico da minha terra chamado José Pedroso. Nunca lhe roubei mais nada... nem sequer me tranquei diante dele a roubar-lhe o sol nos soalheiros. Também nunca roubei nada a ninguém.

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– Diz-se na acusação que lhe roubou mais de um carro de feno...

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– Roubei-lhe entre dúzia e meia a duas dúzias de fachas, assim Deus me salve! Num carro, meu senhor, cabem bem oito a dez dúzias.

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– Adiante. Arrombou a porta?

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– Não senhor, toquei-lhe o fecho para trás com um prego...

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– É equivalente. A lei não especifica. Roubou para seu uso ou para ir vender...?

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– Meu senhor, roubei para uma vaquinha, que era o meu único bem. Este ano, saberá Vossoria, não tive pastos, nem bons nem maus, e que remédio senão sustentar a vaca a erva e água de farelos enquanto pude! Depois só lhe dei verde. Mas veio-lhe um grande desvairo que, até a andar, chiscava pelas pernas abaixo. Chamei o veterinário para a ver, que me disse: – Justo, se queres salvar a vaca, põe-na de seco, só de seco. Fui-me logo fazer a romaria das portas que me poderiam valer, só se não quisessem: emprestem-me uns molhinhos de feno até o ano. Na novidade torno-lhos ou começo já a pagar-lhos ao dia... Todos me deram com o não na cara. Uns que me respondiam: – Feno! Quem o dera! Diz-- - -me onde o há que vou comprá-lo para mim. Outros: – Feno, traz-mo que to peso a vinténs. Fui-me ao tio José Pedroso, a quem dei muitos dias, mais dias do que tem o meu filho mais velho, e chega a juntar no palhal feno de três anos. – Por quem é, tio Pedroso, ceda-me uns molhinhos do seu feno. Tem-no a ganhar mofo na cardenha da Boa Vista… – Oh, meu grande piranga, onde tenho eu feno com mofo? É por essas e outras, que de minha casa não vês uma feverinha. – Quais são essas «outras», diga lá vossemecê, que se forem justas, delas me quero remir. – Queres que te fale franco? Olha, deixaste de trabalhar em minha casa, quando te cegou a ambição de teres vaca. Faltaste-me e, desprevenido no primeiro tempo, perdeu-se-me o linho... perdeu-se-me o ervanço... perdeu-se-me o cebolo... eu sei lá o que se me perdeu, porque não encontrei quem me cavasse a terra a tempo e horas. – Mas eu não andava ajustado com vossemecê, tio Pedroso! – Pois não andavas, mas era o mesmo. Eu não tinha outro cabaneiro, e lá nisso de trabalho, honra te seja, levavas vantagem ao mais pintado. Faltaste-me quando eu não contava!

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.Aqui está porque comigo à bola não vais tu mais. O tio Pedroso agarrou-se a esta arguida obrigação e não me emprestou nem vendeu dois molhos de feno que precisava para acalentar a vaquinha em perigo. Pois senhor Juiz, emprestar, ninguém me emprestou comestio. Quis comprá-lo. Vendi o oirinho da mulher. Mas nem com dinheiro na palma da mão fui atendido. Um ainda me chegou a dizer: – Só se me pagares cada molho a libra. Dirá o senhor Juiz: Fosses comprar fora... Isso quis eu, mas quem mo trazia com um inverno daqueles?! E onde é que o havia a vender? Foi assim, na cegueira da minha desgraça, que me tentei a roubar. Sim, senhor Juiz, roubei, pois roubei! Se o senhor Dr. Juiz tivesse visto a minha vaquinha na doença! Uma vez, que não tinha nada que lhe dar, pus-me a chorar, e quer saber, senhor Juiz, não o vou jurar, mas pareceu-me que a vaquinha se pôs a chorar também. Deitou a língua de fora e não fazia senão assoar-se. O senhor Juiz sabe, nas vacas as lágrimas, que lhes vêm, porque sofrem, ou porque lhes aperta a raiva, descem-lhes para as ventas. Ah! Toda a gente admirava a linda estampa daquela vaca, toda ruiva, um pouquinho menos alourada que as libras de cavalinho, muito certa dos galhos, cabeça bem feita, pestanas de mulher sarda! A minha vaquinha, senhor Juiz, morreu, e eu morri com ela. Mande-me para as cadeias celulares, mande-me para onde quiser que não me importa!

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À ordem do juiz, meio perplexo, o oficial de diligências fez entrar as testemunhas de acusação. A primeira foi o Manuel Gedeão. O juiz queria fazer uma ideia das proporções do roubo.

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– Quanto lhe parece que o réu roubou ao José Pedroso. Um carro de feno? Mais? Menos?

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O Gedeão caprichou em mostrar-se imparcial.

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– Saiba o senhor Juiz que só a cálculo, muito por alto, se pode ajuizar. A vaca comeu do feno furtado parte do mês de Fevereiro e parte do mês de Março. Resta saber quando principiou. Se principiou a 15 como parece, e comia os seus dois molhos por dia, podem-se contar como certas as suas cinco dúzias, nunca para menos.

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– Onde fica o carro de feno!? – exclamou o senhor Juiz. – Responda a testemunha: o réu era pessoa bem comportada?

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– Eu, por mim, nunca lhe tinha conhecido manhas ruins. O nosso padre é que se queixava de ele nunca ter tirado a bula da Santa Cruzada.

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A testemunha seguinte, Júlio Carapito, além de avultar o roubo para umas duas carradas, acusou-o de pouco escrupuloso do alheio... Não fora a primeira vez, nem duas que lhe entrara na horta...

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– Que lhe roubou? Couves...? Ou quê?

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– Sim, senhor, palmou-me muitas abadas de caldo. Fechei os olhos. Louvores a Deus, as hortas têm sempre cabonde para a gente da casa e os bácoros.

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– Tem outros agravos contra o réu?

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A testemunha coçou a nuca.

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– Explique-se...

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– Agravos, é como quem diz. O réu dava o dia em minha casa e onde o rogavam. A certa altura pregou-nos a peça de trocar a enxada pela rabiça. Cá a meu ver – e nisso penso bem igualmente com o meu compadre Pedroso – o Justo Matias estava no seu direito e não estava. Quem quer bolota, atrepa, olé que se diz. Mas o Justo quis atrepar e quebrou as unhas. Não é lá tanto por deixar de me fazer o servicinho em casa, que lhe tenho azar. É pelo mau exemplo que dá aos pobretainas como ele. Mau exemplo. De ambição, primeiro. Porque não há-de qualquer filho da mãe ter gado, armar em lavrador? Mas pior: então porque se não tem, há-de roubar-se?

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O advogado oficioso, que era um rapaz novo, pediu licença para instar a testemunha:

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– De maneira que o senhor Carapito avalia o desfalque num montante superior ao que lhe atribuiu a primeira testemunha. Ora diga-me cá: em que se baseia para formular semelhante juízo?

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O Carapito torceu duas vezes o grosso lábio, muito chegado às ventas cavalares, e respondeu:

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– São cá palpites.

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– Palpites não podem servir de prova. A que circunstância, facto, pormenor, se agarrou para assim se ter pronunciado?

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O Carapito, mergulhando de novo no pélago das suas congeminações interiores, volveu a torcer os lábios duas vezes num ricto problemático.

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– Mau Maria! – tornou o advogado, erguendo a voz. – A testemunha declarou, ao contrário do senhor Gedeão – Gedeão não é? – que o desfalque devia ascender às suas duas carradas. Perguntei e torno a perguntar que factos ou jogo de presunções o induziram a formular semelhante afirmativa? O senhor imagina que vir testemunhar é apenas dar satisfação aos seus ódios ou ao seu compadrio e lá de empandeirar um homem para a Penitenciária não tem importância, hem?

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– Se não foram duas carradas, foi mais de uma – rosnou o Carapito.

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– Foi mais de uma... Uma carrada e um molho? Veja lá!

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– Sim, poderá ser – tornou a grunhir, no tom da pessoa que não aspira a outra coisa senão a que a deixem.

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– De modo que, tendo em conta a sua reconsideração, o réu não desviou do haver do seu próximo duas carradas, mas metade de duas carradas, com a diferença de um molho. Ah, ah! ora aqui está uma testemunha de mão cheia, oito ou oitenta. Chama-se a isto exacta consciência! Outra pergunta, se faz favor: O réu teria cometido o seu horroroso crime a partir de que data...?

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O Carapito, mais anojoso que encrespado, fez outra vez com os lábios – por modos o seu melhor instrumento de expressão – sinal de ignorância.

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– A testemunha que o precedeu é de opinião que teria sido a partir de 15 de Fevereiro. Nisto concorda com as declarações do réu. Que lhe parece?

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– Talvez.

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– Talvez. Já dei conta que a testemunha gosta da ambiguidade. O talvez na sua boca é sim. Está certo? Pois que está certo, como acena, o senhor Carapito, que é lavrador, quantas vacas tem? Pode falar franco, que não é para lhas confiscar nem pagar mais tributos. Ouvi dizer que depois do Pedroso era o mais rico da terra. Tem dez, doze, quinze vacas?

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– À manjedoira, tenho quatro vacas e duas novilhas, uma que já foi à cobrição, outra que está para ir.

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– Não é nada mau, seis cabeças, para a serra. Quantos molhos de feno gasta por dia com elas?

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– Depende. A minha vacada vai sempre ao lameiro. Devo gastar aí os seus três a quatro molhos... Os meus molhos são grandes... – e torcia os lábios num esgar de prosápia e soberba.

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– Estimei muito ouvir o que lhe ouvi. E, senhor Juiz, permito-me chamar a atenção de V. Ex.a para a aritmética deste homem. O Justo Matias, com uma só vaca, gastaria uma carrada de feno, mais um molho – mais um molho! – num mês. Vinha a ser, segundo as contas aqui apresentadas, tirando uma média às dúzias de feno que comporta a carrada... 9x12 = 108; a dividir por 30, 3 molhos e meio, pouco mais ou menos, por dia. Quer dizer, uma vaca magra comia tanto como as seis vacas gordas. Apre!

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– É da fisiologia – observou o juiz sorrindo. – Um magro absorve mais nutrimento que um gordo.

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– Em regra é assim, Meritíssimo Juiz – proferiu o advogado em tom ameno de réplica. – Mas é preciso que o gordo e o magro partam de iguais condições, isto é, de manjedoira farta. Se o magro é magro de fome, perdeu o hábito de comer. A testemunha punha a vaca do pobre, que por via de regra jejuava, a devorar como as seis a que nunca faltava o penso. Repare V. Ex.a, senhor Juiz, como o depoimento deste tio é tendencioso, ou melhor iníquo!

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O juiz voltou a sorrir com benevolência ao passo que o Carapito se fazia branco como a cal.

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– Outra pergunta – tornou o advogado, encarando no homem já meio amarrotado. – O José Pedroso que lhe é?

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– É meu compadre.

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– É seu compadre. Ora, diga-me – e veja lá o que responde, que eu estou bem informado, veja lá! – há poucos dias, para as sementeiras da Primavera não andou com o seu compadre Pedroso a arrebanhar da cardanha da Boa Vista, precisamente a cardanha do nosso drama, o feno podre de há dois e três anos, senão mais? Meta a mão na consciência e responda. Se teme as contas que há-de dar a Deus, responda com lisura. É verdade ou não que andou a tirar para as terras, já estrume curtido, o feno do palhal do Pedroso?

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– É verdade – regougou o Carapito.

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– E porque é que apodreceu?

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– Lá estaria empilhado contra a terra... ter-lhe-ia chovido em cima por alguma telha rota...

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– Só por isso?

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O Carapito torceu outra vez os beiços ao passo que sorvia ruidosamente o ar pelas narinas encatarradas.

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– E não seria também por estar ali há muitos anos... ser feno velho?

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O Carapito dobrou a cabeça em sinal de concordância.

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– Senhor Juiz, assinalo a V. Ex.a o quilate moral dos depoentes. Diga-me outra coisa: tem agravos notórios contra o réu?

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– Não senhor.

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– À parte a folha de caldo que lhe apanhou nas hortas...?

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– Não conta.

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– E – compreende-se – o deixar de estar às ordens, como cabaneiro, para o trabalhinho mais pesado e mais urgente, hem? Diga, o seu regalo, quando soube que ele tinha adquirido uma vaquinha, era quebrar-lhe a aguilhada nas costas, diga, não tenha medo de dizer o que pensa...

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– Lá isso...

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– Ainda outra pergunta: quando ele foi a sua casa esmolar uns molhinhos de feno para salvar a vaca, que lhe morria, o amigo tinha os palhais atestados de feno. Tinha ou não tinha? Eu sei tudo...

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– Se tinha era meu. Para o ter, comprei os lameiros e todas as noites eu, os filhos ou o moço lhes vão deitar a água.

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– O réu não tinha lameiros?

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– Tinha vontade deles.

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– E não se condoeu dele em precisão tão grande?

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– Quem lhe mandou mudar de ofício!?

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– Estou satisfeito, senhor Juiz.

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As outras testemunhas abundaram no depoimento das duas primeiras. O Lagoaça, muito instado pela defesa, confessou que nesse ano vendera dois carros de feno. Não estava no seu direito vender a quem lhe apetecesse? Não o emprestou nem vendeu ao Justo, para que se não tivesse feito fino. E ainda para que não atirasse aos quintos a sacholinha de ganhar o dia!

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O advogado limitou-se a denunciar a conjura tácita dos honrados ricaços do lugar, que tiravam a bula da Santa Cruzada, contra o proletário que se escapulira da gleba. Isto lembrava-lhe o que outrora sucedia no sertão quando fugia um escravo... Os fazendeiros concertavam-se para lhe deitar a unha. Despachavam guardas, capatazes, molossos e os próprios escravos a bater o mato. Depois de o agarrar, frigiam-no em azeite. Era para ficar de escarmento... para servir de espelho. Em verdade estes compadres, a começar pelo rico- -avarento do José Pedroso, é que deviam sentar-se no banco dos réus, nada mais que em virtude do seu sórdido egoísmo, ao avesso do que manda a cartilha cristã, que sabem aliás na ponta da língua. E concluiu:

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– Peço a absolvição deste triste, senhor Juiz!

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O Justo Matias entretanto soluçava, grunhia:

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– Morreu-me a vaca, acabei!

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O oficial de diligências, que era da conróbia, dizia para as testemunhas, ao sair da audiência:

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– O ladrão não come mais a broa da cadeia. Ah, ah! Vocês borraram por lá nas calças ao que cheiram de mal!.

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– Malvado de aterrador! – rosnou a meia voz o Carapito – que era bestinha que dava coice. – Se o apanho um dia, lá para a serra, prego-lhe uma chumbada!...

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O juiz não tardou com o veredicto. Em face disto e daquilo, das atenuantes tal e tal a ter em conta a favor do réu Justo Matias, era-lhe dada a pena como cumprida.

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Quando foi à cadeia buscar os manaxos, com a mulher ao lado e os filhos, todos caras de Páscoas, o carcereiro, que era torto, e nunca recebera peita dali, responsou-o na sua gíria de cão de fila:
– Vai, vai! Ficas habilitado para fazer outra. Cá te espero!

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– Pode esperar toda a vida, que os dentes nunca mais eu lhe verei.

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– Quem sabe lá, meu safado! Tem-lo na pinta.


A mulher trazia uma bola com carne, que cozera na véspera porque o dedo mendinho lhe dizia que o seu homem vinha para casa. E, jubilosa, propôs-se meter com ele e os filhos para uma taverna. Justo bamboleou a cabeça que não. Reparou ela então que trazia o cabelo muito crescido em cabana sobre a gola da véstia, e lhe arruçara. Com a barba por fazer, metia medo. Passou-lhe então pela cabeça que o seu homem tivesse vergonha de se mostrar.

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– Vai ao barbeiro, Justo. É ali fora... Tens aqui um tostão... Depois já se não riem de ti...

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– Deixa rir. Eu morri. Estás a ouvir, mulher, morri!


*


Chegaram à terra pouco antes de se pôr o Sol. Já a nuvem de fumo dos lares, que rescende ao sargaço e rosmaninho, se formava sobre os telhados como a copa dum grande pinheiro manso. Os gados chocalhavam pelas vertentes verdes dos montes, com os pastores de capuchas dobradas no ombro e surrões vazios. Como era Primavera, o passaredo voltejava pelos carvalhais e ramalheiras. Entrou em casa, passeou um olhar indiferente por tudo, e não quis ir à loja da vaca, feita pocilga, ver a porca com os berrelhos, orgulho da mulher.

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Sentou-se no poial, o seu degradado Monte Oreb, e logo se ajuntaram as comadres à volta dele, baldadamente cumprimentadeiras e palradoras:

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– Vossemecê vem bô? Está mais gordo...

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– Então não havia de engordar à sombra...

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Justo chorava sem proferir uma só palavra.

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– Deixe lá, homem, não se aflija. Passou, passou. Uma nódoa no bom pano cai!

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– Olha, Justo, ninguém as faça esperançado de que as não paga. Tu pagaste, acabou--se. Olha, muita sorte tiveste tu em dares com um juiz passa-culpas.

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– Atira-me com as mágoas para trás das costas. Tens bom corpo, trabalhas.

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– Os ricaços da terra, quando o aterrador lhes disse que para a cadeia é que deviam ir, se pudessem metiam-se no chão, debaixo do cisco. Foi-lhes bem feita! Vieram a ranger os dentes. O Carapito até deitava lume pelos olhos! Aquilo do doutorzito é que se chamava uma língua afinada!

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O Justo soluçava, o corpo tomado ainda de estremeções, como sacudido por uma vaga interior que ia amainando.

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– Meu santo, volta a página. Agora, vais dar o dia e levas vida farta como antigamente. Perdeste a vaca, mas ficas o mesmo homem.

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– Aquilo foi o Diabo que ta tinha armado no palhal do tio José Pedroso...

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Não respondeu a ninguém. Quando pôde deixar de chorar embrulhou um cigarro, como nos bons tempos de cabaneiro. Iria outra vez trabucar para a vinha dos ricos?

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Afinal as comadres desertaram, perante a sua impenetrabilidade, largando a rosnar: – O homem ficou zorato! – já ele se fundia no escuro da noite. Ali esteve por muito tempo, nem sequer atendendo aos filhos que o chamavam repetidas vezes:

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– Senhor pai, venha cear. O caldo está na tigela...

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– Morri, meus filhos – rosnou uma das vezes.

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Quando a aldeia já sossegava, depois de dar graças e acomodar o gado, o Justo foi- -se a casa pé ante pé. Na enxerga os filhos dormiam. A mulher ressonava enrolada no xale em cima da cama. Cortou uma fatia de pão no açafate, escolheu um saco e, pegando por detrás da porta dum pau, o pé duma sachola desencabada, meteu-se à noite pelo caminho da serra.

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Na madrugada, estava lá longe, para Quijó. Os gados saíam dos estábulos, ao mesmo tempo que os moradores disparavam para os agros a lamber o beiço do arrebenta- -diabos, que havia ainda nas salgadeiras carne das cevas. Tudo floria pelas hortas, pessegueiros, macieiras, couve galega, e o ar andava embalsamado de alecrim e alfazema, por cima do cheiro acre dos estrumes que tiravam das cortes. Bateu à primeira porta. Uma mulher negra, despenteada, veio ao traço:

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– Dê-me uma esmolinha pelas suas obrigações...

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Não sabia a lengalenga dos mendicantes com a encomendação dos mortos e o padre-nosso cantarolado, e a criatura, que era perscrutadora, mediu-o dos pés à cabeça:

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– Não tenho pão para vadios. Tem bom corpo, trabalhe!

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Desandou a cambalear e foi dar a uma quintã onde uma chusma de pedreiros reconstruíam um muro. Um deles pôs-se a olhar muito fito para ele:

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– Você não é o Justo, que esteve preso na cadeia de Moimenta por causa dum biscato que praticou?

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Ficou de olhos parados, a boca aberta diante do homem, sem lhe tornar resposta. O outro repicou:

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– Eu andei na sua terra a fazer uma casa para o tio José Pedroso... hum, um homem que aparava as unhas muito rentes...

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O Justo rompeu a chorar lágrimas gordas, que lhe desciam em bagadas pela cara esquálida.

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– Coitado! É para que uma mãe cria um infeliz! Dêem-lhe lá uma côdea. Maria, dá lá uma côdea a este pobre homem...

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Aceitou-a e foi comê-la mais adiante. O caminho velho estendia-se diante dele, ora lama, ora roído pelo rodado de ferro dos carros, e meteu por ele fora. Levou-o a Pendilhe.

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A mulher do Gedeão, que era dali, estava na terra e logo quis o Demo que o avistasse. Foi, a correr com o cacarejo, alvoroçar o povo:

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– Vocês têm na terra um grande ratoneiro. Cuidado com ele! Fechem as portas...

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Quase o correram à pedra. Ainda lhe deram um empurrão. Não lhe bateram, porque mansidão tão absoluta era coisa de espanto e de temer.

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Tupa, tupa, retrocedeu para a sua terra. O mato que floria, os pássaros que se erguiam aos pares diante dele desafiavam-no para todas as loucuras de viver. Via-os, mas era como se lhe passassem nos olhos por trás duma catarata. Costeou a Póvoa ao apontar das estrelas. Quando já era noite cerrada, encontrava-se diante do palhal do José Pedroso. Havia lua e, sem hesitar, topou ainda o buraquinho da parede com o prego das suas malas- -artes. Foi-se então ao primeiro palheiro e tirou um dos sobrigos, sorte de grandes e sólidos vincilhos que se atam ao corucho, e a toda a roda, com uma pedra em baixo, mantêm a coroça de palha indemne às intempéries do Inverno e do vento.

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Experimentou-o, troço por troço, esticando-o de braços abertos atrás das costas, depois repuxando-o debaixo do pé. E certo da sua resistência, abriu a porta com o prego da maneira fácil que adquirira por experiência.

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Subiu à rima do feno e, alumiado pelo luar, deu um laço no sobrigo e tenteou-o na trave que fazia cumeeira, de empena a empena, por cima do vão. E não fez mais que introduzir a cabeça e precipitar-se.

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In RIBEIRO, Aquilino. Casa do escorpião: Novelas , Lisboa, Bertrand, 1985, pp. 239-287.
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