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terça-feira, 26 de dezembro de 2023

Guilherme d’Oliveira Martins - Coração (Cuore), de Edmondo de Amicis

 


 


Guilherme d’Oliveira Martins

26 Dezembro 2023 — 07:00

O Risorgimento italiano tem raízes muito antigas. Dante, Petrarca e Maquiavel fazem parte de um longo caminho que culminou na unificação de Itália. Entre 1815 e 1870 confrontam-se os partidários da Casa de Saboia e do rei da Sardenha e os companheiros de Mazzini e Garibaldi. A saga contada por Giuseppe Tomasi di Lampedusa (1896-1957) em Il Gattopardo, imortalizada por Visconti, desenha-nos o pano de fundo. A guerra patriótica contra o Império austríaco, os ecos da Primavera dos Povos de 1848, a proclamação do reino de Itália e a anexação dos Estados Pontifícios marcam um tempo que mudou o panorama europeu. Napoleão dividira a Itália em vários reinos e o Congresso de Viena deixaria a península subalternizada ao Império Austro-húngaro. O reino da Sardenha, com o conde Cavour, economicamente moderno, tornou-se a locomotiva do novo Estado, associada ao Risorgimento Letterario, que criou uma nação a partir da língua e do génio poético presentes na grande Comédia de Dante, tornada divina. A história é conhecida e até chegou a Portugal, com o trágico exílo de Carlos Aberto e a sucessão em seu filho Vítor Manuel II, pai da nossa Rainha D. Maria Pia.

Além dos clássicos, o escritor moderno que muito contribuiu para a formação da consciência italiana foi Edmondo de Amicis (1846-1908), autor de Coração, uma obra sublime. Todos os jovens italianos desde 1886 até à geração de Umberto Eco formaram-se a ler o livro de Amicis, talvez demasiado cheio de bons sentimentos, mas indiscutivelmente marcante para a formação de uma consciência cívica liberal e democrática. A obra relata, pela voz de Henrique, um ano letivo dos alunos da 3.ª Classe de uma Escola, onde se lia em cada mês uma verdadeira parábola sobre a liberdade, a generosidade, o respeito, o exemplo, o altruísmo e a salvaguarda das diferenças. O Coração, que eu li integralmente, com grande prazer, e que os meus pais me ajudaram a ler, numa experiência inesquecível com meus irmãos, foi adotado como leitura obrigatória nas escolas de Itália no final do século XIX. Daí a influência que exerceu em diversas gerações também na Europa democrática. Longe do nacionalismo que envenenou a mentalidade europeia - lembramos a carta em que se diz: "Eu amo a minha terra porque a minha mãe nela nasceu; porque o sangue que me corre nas veias é o mesmo sangue; porque na minha terra estão sepultados os mortos que a minha mãe chora e meu pai venera." A cidade, a língua, os livros que me educam, o grande povo no meio do qual vivo, a bela natureza que me cerca, tudo pertence à ideia de pátria. E as histórias contadas pelo mestre-escola ilustram a entrega e a generosidade, a abertura e a autonomia pessoal - como nos casos do pequeno patriota paduano, do pequeno vigia lombardo, do tamborzinho, da viagem dos Apeninos aos Andes - ou do sacrifício do pequeno escrevente florentino - que nas altas horas da noite ajudava, às escondidas, seu pai a realizar um trabalho árduo e repetitivo que compunha o ganha-pão familiar. "Cursava a 4.ª classe. Era um gracioso florentino de 12 anos, negro de cabelos e alvo de rosto; filho mais velho de um empregado dos caminhos de ferro que, tendo muita família e pouco ordenado, vivia com dificuldades." O filho, às escondidas, decidiu ajudar o pai a escrever endereços em cintas para enviar revistas a assinantes. Mas se o trabalho singrava, o pai não compreendia por que razão o aproveitamento do filho se ressentia, até que descobriu que tal era fruto do cansaço pela generosidade... Escritor dotadíssimo, de Amicis dá-nos exemplos de cidadania viva. A verdade é que, em vez de um discurso abstrato, há valores exemplares. Mas além dos contos mensais, há pequenos exemplos na relação entre os companheiros da turma (perante uma dificuldade, uma doença, um acidente ou uma morte) que demonstram a importância do respeito mútuo, do cuidado e da solidariedade. Eis como um livro se torna influente.

Administrador-executivo da Fundação Calouste Gulbenkian

https://www.dn.pt/opiniao/coracao-de-edmondo-de-amicis-17559844.html

quinta-feira, 6 de outubro de 2022

Prémio Nobel da Literatura: esta é a lista completa de vencedores 1907 a 2021



José Saramago  - Foto Rita Barros - Getty Images 

***

Dos “escritos realistas e imaginativos, combinando humor simpático e percepção social aguçada”, de John Steinbeck, à ”importante produção literária" de Albert Camus, “que com seriedade clarividente ilumina os problemas da consciência humana do nosso tempo”, foram muitos os laureados com o Prémio Nobel da Literatura desde 1901. Em 1998 foi a vez de José Saramago

6 OUTUBRO 2022 

 

O Prémio Nobel da Literatura é anunciado esta quinta-feira pela Academia Sueca. O vencedor será conhecido pelas 12 horas, numa cerimónia que pode ser vista em direto.

 

Prémio Nobel de Literatura 2022

O Prémio Nobel de Literatura 2022 ainda não foi entregue. Será anunciado esta quinta-feira, 6 de outubro, pelas 12 horas em Lisboa (11 horas nos Açores)

 

Prémio Nobel de Literatura 2021

Abdulrazak Gurnah “pela sua penetração intransigente e compassiva dos efeitos do colonialismo e do destino dos refugiados no abismo entre culturas e continentes”

 

Prémio Nobel de Literatura 2020

Louise Glück “pela sua inconfundível voz poética que com austera beleza torna universal a existência individual”

 

Prémio Nobel de Literatura 2019

Peter Handke “por um trabalho influente que com engenho linguístico explorou a periferia e a especificidade da experiência humana”

 

Prémio Nobel de Literatura 2018

Olga Tokarczuk “por uma imaginação narrativa que com paixão enciclopédica representa o cruzamento de fronteiras como forma de vida”

 

Prémio Nobel de Literatura 2017

Kazuo Ishiguro “que, em romances de grande força emocional, descobriu o abismo sob nosso senso ilusório de conexão com o mundo”

 

Prémio Nobel de Literatura 2016

Bob Dylan “por ter criado novas expressões poéticas dentro da grande tradição da canção americana”

 

Prémio Nobel de Literatura 2015

Svetlana Alexievich “por seus escritos polifônicos, um monumento ao sofrimento e à coragem em nosso tempo”

 

Prémio Nobel de Literatura 2014

Patrick Modiano “pela arte da memória com a qual evocou os destinos humanos mais inapreensíveis e desvendou o mundo da vida da ocupação”

 

Prémio Nobel de Literatura 2013

Alice Munro “mestre do conto contemporâneo”

 

Prémio Nobel de Literatura 2012

Mo Yan “que com realismo alucinatório mescla contos folclóricos, história e contemporaneidade”

 

Prémio Nobel de Literatura 2011

Tomas Tranströmer “porque, através de suas imagens condensadas e translúcidas, ele nos dá um novo acesso à realidade”

 

Prémio Nobel de Literatura 2010

Mario Vargas Llosa “por sua cartografia das estruturas de poder e suas imagens incisivas da resistência, revolta e derrota do indivíduo”

 

Prémio Nobel de Literatura 2009

Herta Müller “que, com a concentração da poesia e a franqueza da prosa, retrata a paisagem dos despossuídos”

 

Prémio Nobel de Literatura 2008

Jean-Marie Gustave Le Clézio “autor de novas partidas, aventura poética e êxtase sensual, explorador de uma humanidade além e abaixo da civilização reinante”

 

Prémio Nobel de Literatura 2007

Doris Lessing “aquela epicista da experiência feminina, que com ceticismo, fogo e poder visionário submeteu uma civilização dividida ao escrutínio”

 

Prémio Nobel de Literatura 2006

Orhan Pamuk “que na busca da alma melancólica de sua cidade natal descobriu novos símbolos para o choque e o entrelaçamento de culturas”

 

Prémio Nobel de Literatura 2005

Harold Pinter “que em suas peças desvenda o precipício sob a tagarelice cotidiana e força a entrada nos quartos fechados da opressão”

 

Prémio Nobel de Literatura 2004

Elfriede Jelinek “pelo seu fluxo musical de vozes e contra-vozes em romances e peças que com extraordinário zelo linguístico revelam o absurdo dos clichês da sociedade e seu poder subjugador”

 

Prémio Nobel de Literatura 2003

John M. Coetzee “que em inúmeras formas retrata o surpreendente envolvimento do estranho”

 

Prémio Nobel de Literatura 2002

Imre Kertész “pela escrita que defende a frágil experiência do indivíduo contra a bárbara arbitrariedade da história”

 

Prémio Nobel de Literatura 2001

Sir Vidiadhar Surajprasad Naipaul “por ter unido narrativa perceptiva e escrutínio incorruptível em obras que nos obrigam a ver a presença de histórias suprimidas”

 

Prémio Nobel de Literatura 2000

Gao Xingjian “por uma obra de validade universal, insights amargos e engenhosidade linguística, que abriu novos caminhos para o romance e drama chinês”

 

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Prémio Nobel de Literatura 1999

Günter Grass “cujas fábulas negras brincalhonas retratam a face esquecida da história”

 

Prémio Nobel de Literatura 1998

José Saramago que “com parábolas sustentadas pela imaginação, compaixão e ironia continuamente nos permite apreender mais uma vez uma realidade ilusória”

 

Prémio Nobel de Literatura 1997

Dario Fo “que imita os bobos da Idade Média ao flagelar a autoridade e defender a dignidade dos oprimidos”

 

Prémio Nobel de Literatura 1996

Wislawa Szymborska “pela poesia que com precisão irônica permite que o contexto histórico e biológico venha à luz em fragmentos da realidade humana”

 

Prémio Nobel de Literatura 1995

Seamus Heaney “pelas obras de beleza lírica e profundidade ética, que exaltam os milagres cotidianos e o passado vivo”

 

Prémio Nobel de Literatura 1994

Kenzaburo Oe “que com força poética cria um mundo imaginado, onde vida e mito se condensam para formar uma imagem desconcertante da situação humana hoje”

 

Prémio Nobel de Literatura 1993

Toni Morrison “que em romances caracterizados pela força visionária e importância poética, dá vida a um aspecto essencial da realidade americana”

 

Prémio Nobel de Literatura 1992

Derek Walcott “por uma obra poética de grande luminosidade, sustentada por uma visão histórica, fruto de um compromisso multicultural”

 

Prémio Nobel de Literatura 1991

Nadine Gordimer “que através de sua magnífica escrita épica – nas palavras de Alfred Nobel – foi de grande benefício para a humanidade”

 

Prémio Nobel de Literatura 1990

Octavio Paz “pela escrita apaixonada de amplos horizontes, caracterizada pela inteligência sensual e integridade humanística”

 

Prémio Nobel de Literatura 1989

Camilo José Cela “por uma prosa rica e intensa, que com compaixão contida forma uma visão desafiadora da vulnerabilidade do homem”

 

Prémio Nobel de Literatura 1988

Naguib Mahfouz “que, através de obras ricas em nuances – ora clarividente realista, ora evocativamente ambígua – formou uma arte narrativa árabe que se aplica a toda a humanidade”

 

Prémio Nobel de Literatura 1987

Joseph Brodsky “por uma autoria abrangente, imbuída de clareza de pensamento e intensidade poética”

 

Prémio Nobel de Literatura 1986

Wole Soyinka “que em uma ampla perspectiva cultural e com conotações poéticas molda o drama da existência”

 

Prémio Nobel de Literatura 1985

Claude Simon “que em seu romance combina a criatividade do poeta e do pintor com uma profunda consciência do tempo na representação da condição humana”

 

Prémio Nobel de Literatura 1984

Jaroslav Seifert “pela sua poesia que dotada de frescura, sensualidade e rica inventividade fornece uma imagem libertadora do espírito indomável e versatilidade do homem”

 

Prémio Nobel de Literatura 1983

William Golding “pelos seus romances que, com a perspicácia da arte narrativa realista e a diversidade e universalidade do mito, iluminam a condição humana no mundo de hoje”

 

Prémio Nobel de Literatura 1982

Gabriel García Márquez “por seus romances e contos, nos quais o fantástico e o realista se combinam em um mundo de imaginação ricamente composto, refletindo a vida e os conflitos de um continente”

 

Prémio Nobel de Literatura 1981

Elias Canetti “pelos escritos marcados por uma visão ampla, riqueza de ideias e poder artístico”

 

Prémio Nobel de Literatura 1980

Czeslaw Milosz que com clareza intransigente dá voz à condição exposta do homem em um mundo de graves conflitos”

 

Prémio Nobel de Literatura 1979

Odysseus Elytis “pela sua poesia, que, no contexto da tradição grega, retrata com força sensual e perspicácia intelectual a luta do homem moderno pela liberdade e criatividade”

 

Prémio Nobel de Literatura 1978

Isaac Bashevis Singer “pela sua arte narrativa apaixonada que, com raízes na tradição cultural polonesa-judaica, dá vida às condições humanas universais”

 

Prémio Nobel de Literatura 1977

Vicente Aleixandre “por uma escrita poética criativa que ilumina a condição do homem no cosmos e na sociedade atual, ao mesmo tempo que representa a grande renovação das tradições da poesia espanhola entre as guerras”

 

Prémio Nobel de Literatura 1976

Saul Bellow “pela compreensão humana e análise sutil da cultura contemporânea que se combinam em sua obra”

 

Prémio Nobel de Literatura 1975

Eugenio Montale “pela sua distinta poesia que, com grande sensibilidade artística, interpretou os valores humanos sob o signo de uma visão de vida sem ilusões”

 

Prémio Nobel de Literatura 1974

Eyvind Johnson “por uma arte narrativa, que enxerga longe em terras e eras, a serviço da liberdade”

 

Harry Martinson “pelos escritos que captam a gota de orvalho e refletem o cosmos”

 

Prémio Nobel de Literatura 1973

Patrick White “por uma arte narrativa épica e psicológica que introduziu um novo continente na literatura”

 

Prémio Nobel de Literatura 1972

Heinrich Böll “pela sua escrita que, através da combinação de uma ampla perspectiva sobre o seu tempo e uma sensível habilidade de caracterização, contribuiu para a renovação da literatura alemã”

 

Prémio Nobel de Literatura 1971

Pablo Neruda “por uma poesia que com a ação de uma força elemental dá vida ao destino e aos sonhos de um continente”

 

Prémio Nobel de Literatura 1970

Aleksandr Isayevich Solzhenitsyn “pela força ética com que perseguiu as tradições indispensáveis ​​da literatura russa”

 

Prémio Nobel de Literatura 1969

Samuel Beckett “por sua escrita, que – em novas formas para o romance e o drama – na miséria do homem moderno adquire sua elevação”

 

Prémio Nobel de Literatura 1968

Yasunari Kawabata “pelo seu domínio narrativo, que com grande sensibilidade expressa a essência da mente japonesa”

 

Prémio Nobel de Literatura 1967

Miguel Angel Asturias “por sua vívida realização literária, profundamente enraizada nos traços e tradições nacionais dos povos indígenas da América Latina”

 

Prémio Nobel de Literatura 1966

Shmuel Yosef Agnon “pela sua arte narrativa profundamente característica com motivos da vida do povo judeu”

Nelly Sachs “por sua notável escrita lírica e dramática, que interpreta o destino de Israel com força tocante”

 

Prémio Nobel de Literatura 1965

Mikhail Aleksandrovich Sholokhov “pelo poder artístico e integridade com que, em seu épico do Don, ele deu expressão a uma fase histórica na vida do povo russo”

 

Prémio Nobel de Literatura 1964

Jean-Paul Sartre “pelo seu trabalho que, rico em ideias e cheio de espírito de liberdade e busca da verdade, exerceu uma influência de longo alcance em nossa época”

 

Prémio Nobel de Literatura 1963

Giorgos Seferis “pela sua eminente escrita lírica, inspirada num profundo sentimento pelo mundo da cultura helênica”

 

Prémio Nobel de Literatura 1962

John Steinbeck “por seus escritos realistas e imaginativos, combinando humor simpático e percepção social aguçada”

 

Prémio Nobel de Literatura 1961

Ivo Andric “pela força épica com que traçou temas e delineou destinos humanos tirados da história do seu país”

 

Prémio Nobel de Literatura 1960

Saint-John Perse “pelo vôo alto e pelas imagens evocativas de sua poesia que reflete de forma visionária as condições de nosso tempo”

 

Prémio Nobel de Literatura 1959

Salvatore Quasimodo “pela sua poesia lírica, que com fogo clássico exprime a trágica experiência da vida no nosso tempo”

 

Prémio Nobel de Literatura 1958

Boris Leonidovich Pasternak “por sua importante conquista tanto na poesia lírica contemporânea quanto no campo da grande tradição épica russa”

 

Prémio Nobel de Literatura 1957

Albert Camus “pela sua importante produção literária, que com seriedade clarividente ilumina os problemas da consciência humana do nosso tempo”

 

Prémio Nobel de Literatura 1956

Juan Ramón Jiménez “pela sua poesia lírica, que em língua espanhola constitui um exemplo de alto espírito e pureza artística”

 

Prémio Nobel de Literatura 1955

Halldór Kiljan Laxness “pelo seu vívido poder épico que renovou a grande arte narrativa da Islândia”

 

Prémio Nobel de Literatura 1954

Ernest Miller Hemingway “pelo seu domínio da arte da narrativa, mais recentemente demonstrado em O Velho e o Mar, e pela influência que exerceu no estilo contemporâneo”

 

Prémio Nobel de Literatura 1953

Sir Winston Leonard Spencer Churchill “pelo seu domínio da descrição histórica e biográfica, bem como pela brilhante oratória na defesa de valores humanos exaltados”

 

Prémio Nobel de Literatura 1952

François Mauriac “pelo profundo discernimento espiritual e pela intensidade artística com que em seus romances penetrou no drama da vida humana”

 

Prémio Nobel de Literatura 1951

Pär Fabian Lagerkvist “pelo vigor artístico e verdadeira independência de espírito com que se esforça em sua poesia para encontrar respostas para as eternas questões que confrontam a humanidade”

 

Prémio Nobel de Literatura 1950

Earl (Bertrand Arthur William) Russell “em reconhecimento aos seus variados e significativos escritos nos quais ele defende os ideais humanitários e a liberdade de pensamento”

 

Prémio Nobel de Literatura 1949

William Faulkner “por sua contribuição poderosa e artisticamente única para o romance americano moderno”

 

Prémio Nobel de Literatura 1948

Thomas Stearns Eliot “por sua notável e pioneira contribuição para a poesia atual”

 

Prémio Nobel de Literatura 1947

André Paul Guillaume Gide “por seus escritos abrangentes e artisticamente significativos, nos quais os problemas e condições humanas foram apresentados com um amor destemido pela verdade e uma percepção psicológica aguçada”

 

Prémio Nobel de Literatura 1946

Hermann Hesse “por seus escritos inspirados que, embora crescendo em ousadia e penetração, exemplificam os ideais humanitários clássicos e as altas qualidades de estilo”

 

Prémio Nobel de Literatura 1945

Gabriela Mistral “por sua poesia lírica que, inspirada por fortes emoções, fez de seu nome um símbolo das aspirações idealistas de todo o mundo latino-americano”

 

Prémio Nobel de Literatura 1944

Johannes Vilhelm Jensen “pela rara força e fertilidade de sua imaginação poética com a qual se combina uma curiosidade intelectual de amplo alcance e um estilo ousado e recém-criado”

 

Prémio Nobel de Literatura 1943

Nenhum Prémio Nobel foi concedido este ano. O Prémio em dinheiro ficou com 1/3 alocado ao Fundo Principal e 2/3 ao Fundo Especial desta seção de Prémios.

 

Prémio Nobel de Literatura 1942

Nenhum Prémio Nobel foi concedido este ano. O Prémio em dinheiro ficou com 1/3 alocado ao Fundo Principal e 2/3 ao Fundo Especial desta seção de Prémios.

 

Prémio Nobel de Literatura 1941

Nenhum Prémio Nobel foi concedido este ano. O Prémio em dinheiro ficou com 1/3 alocado ao Fundo Principal e 2/3 ao Fundo Especial desta seção de Prémios.

 

Prémio Nobel de Literatura 1940

Nenhum Prémio Nobel foi concedido este ano. O Prémio em dinheiro ficou com 1/3 alocado ao Fundo Principal e 2/3 ao Fundo Especial desta seção de Prémios.

 

Prémio Nobel de Literatura 1939

Frans Eemil Sillanpää “pela sua profunda compreensão do campesinato do seu país e da arte requintada com que retratou o seu modo de vida e a sua relação com a Natureza”

 

Prémio Nobel de Literatura 1938

Pearl Buck “por suas descrições ricas e verdadeiramente épicas da vida camponesa na China e por suas obras-primas biográficas”

 

Prémio Nobel de Literatura 1937

Roger Martin du Gard “pelo poder artístico e verdade com que retratou o conflito humano, bem como alguns aspectos fundamentais da vida contemporânea em seu ciclo de romances Les Thibault ”

 

Prémio Nobel de Literatura 1936

Eugene Gladstone O'Neill “pelo poder, honestidade e emoções profundas de suas obras dramáticas, que incorporam um conceito original de tragédia”

 

 

Prémio Nobel de Literatura 1935

Nenhum Prémio Nobel foi concedido este ano. O Prémio em dinheiro ficou com 1/3 alocado ao Fundo Principal e 2/3 ao Fundo Especial desta seção de Prémios.

 

Prémio Nobel de Literatura 1934

Luigi Pirandello “pelo seu renascimento ousado e engenhoso da arte dramática e cênica”

 

Prémio Nobel de Literatura 1933

Ivan Alekseyevich Bunin “pela arte estrita com a qual ele continuou as tradições clássicas russas na escrita em prosa”

 

Prémio Nobel de Literatura 1932

John Galsworthy “pela sua distinta arte de narrar que assume a sua forma mais elevada em The Forsyte Saga ”

 

Prémio Nobel de Literatura 1931

Erik Axel Karlfeldt "A poesia de Erik Axel Karlfeldt"

 

Prémio Nobel de Literatura 1930

Sinclair Lewis “por sua vigorosa e gráfica arte de descrição e sua capacidade de criar, com sagacidade e humor, novos tipos de personagens”

 

Prémio Nobel de Literatura 1929

Thomas Mann “principalmente por seu grande romance, Buddenbrooks , que ganhou reconhecimento cada vez maior como uma das obras clássicas da literatura contemporânea”

 

Prémio Nobel de Literatura 1928

Sigrid Undset “principalmente por suas poderosas descrições da vida do Norte durante a Idade Média”

 

Prémio Nobel de Literatura 1927

Henri Bergson “em reconhecimento às suas ideias ricas e vitalizantes e à brilhante habilidade com que foram apresentadas”

 

Prémio Nobel de Literatura 1926

Grazia Deledda “pelos seus escritos de inspiração idealista que retratam com clareza plástica a vida na sua ilha natal e com profundidade e simpatia lidam com os problemas humanos em geral”

 

Prémio Nobel de Literatura 1925

George Bernard Shaw “pela sua obra marcada pelo idealismo e pela humanidade, sendo a sua sátira estimulante muitas vezes impregnada de uma beleza poética singular”

 

Prémio Nobel de Literatura 1924

Wladyslaw Stanislaw Reymont “pelo seu grande épico nacional, Os Camponeses ”

 

Prémio Nobel de Literatura 1923

William Butler Yeats “pela sua poesia sempre inspirada, que de uma forma altamente artística dá expressão ao espírito de toda uma nação”

 

Prémio Nobel de Literatura 1922

Jacinto Benavente “pela forma feliz com que deu continuidade às ilustres tradições do drama espanhol”

 

Prémio Nobel de Literatura 1921

Anatole France “em reconhecimento de suas brilhantes realizações literárias, caracterizadas como são por uma nobreza de estilo, uma profunda simpatia humana, graça e um verdadeiro temperamento gaulês”

 

Prémio Nobel de Literatura 1920

Knut Pedersen Hamsun “pelo seu trabalho monumental, Crescimento do solo ”

 

Prémio Nobel de Literatura 1919

Carl Friedrich Georg Spitteler “em especial apreço por sua épica Primavera Olímpica ”

 

Prémio Nobel de Literatura 1918

Nenhum Prémio Nobel foi concedido este ano. O Prémio em dinheiro foi alocado ao Fundo Especial desta seção de Prémios.

 

Prémio Nobel de Literatura 1917

Karl Adolph Gjellerup “pela sua variada e rica poesia, inspirada em elevados ideais”

Henrik Pontoppidan “por suas descrições autênticas da vida atual na Dinamarca”

 

Prémio Nobel de Literatura 1916

Carl Gustaf Verner von Heidenstam “em reconhecimento de sua importância como o principal representante de uma nova era em nossa literatura”

 

Prémio Nobel de Literatura 1915

Romain Rolland “como uma homenagem ao elevado idealismo de sua produção literária e à simpatia e amor à verdade com que descreveu diferentes tipos de seres humanos”

 

Prémio Nobel de Literatura 1914

Nenhum Prémio Nobel foi concedido este ano. O Prémio em dinheiro foi alocado ao Fundo Especial desta seção de Prémios.

 

Prémio Nobel de Literatura 1913

Rabindranath Tagore “por causa de seus versos profundamente sensíveis, frescos e belos, pelos quais, com habilidade consumada, ele fez seu pensamento poético, expresso em suas próprias palavras inglesas, uma parte da literatura do Ocidente”

 

Prémio Nobel de Literatura 1912

Gerhart Johann Robert Hauptmann “principalmente em reconhecimento à sua produção frutífera, variada e notável no campo da arte dramática”

 

Prémio Nobel de Literatura 1911

Conde Maurice (Mooris) Polidore Marie Bernhard Maeterlinck “em reconhecimento de sua multifacetada atividade literária, e especialmente de suas obras dramáticas, que se distinguem por uma riqueza de imaginação e por uma fantasia poética, que se revela, às vezes sob a forma de um conto de fadas, uma inspiração profunda, enquanto de forma misteriosa apelam aos próprios sentimentos dos leitores e estimulam sua imaginação”

 

Prémio Nobel de Literatura 1910

Paul Johann Ludwig Heyse “como uma homenagem à arte consumada, permeada de idealismo, que ele demonstrou durante sua longa e produtiva carreira como poeta lírico, dramaturgo, romancista e escritor de contos de renome mundial”

 

Prémio Nobel de Literatura 1909

Selma Ottilia Lovisa Lagerlöf “em apreciação do idealismo elevado, imaginação vívida e percepção espiritual que caracterizam seus escritos”

 

Prémio Nobel de Literatura 1908

Rudolf Christoph Eucken “em reconhecimento de sua busca sincera pela verdade, seu poder penetrante de pensamento, sua ampla visão e o calor e a força na apresentação com que em suas numerosas obras ele justificou e desenvolveu uma filosofia de vida idealista”

 

Prémio Nobel de Literatura 1907

Rudyard Kipling “em consideração ao poder de observação, originalidade de imaginação, virilidade de ideias e notável talento para narração que caracterizam as criações deste autor mundialmente famoso”

 

https://expresso.pt/revista/culturas/livros/2022-10-06-Premio-Nobel-da-Literatura-esta-e-a-lista-completa-de-vencedores-2bc94182


domingo, 2 de junho de 2019

Quando os grandes romances nasciam nos jornais


Catarina Pires

25 Maio 2019 — 06:21


"Não há nada mais poderoso do que uma boa história", disse Tyrion, o anão de A Guerra dos Tronos, no último episódio da série que há oito anos prende milhões de espectadores. Os jornais perceberam isso há dois séculos e foi assim que nasceram os folhetins e muitos dos grandes romances dos séculos XIX e XX. É o caso de O Mistério da Estrada de Sintra, de Eça de Queirós e Ramalho Ortigão, engendrado nas páginas do Diário de Notícias.

A ideia chegou-lhes numa noite de verão, no passeio público [atual Avenida da Liberdade, em Lisboa], em frente de duas chávenas de café. Os dois amigos, Eça de Queirós, então com 24 anos, e Ramalho Ortigão, de 33, estavam aborrecidos, "penetrados pela tristeza da grande cidade que cabeceava de sono".

Vai daí deliberaram reagir e "acordar tudo aquilo a berros, num romance tremendo, buzinado à Baixa das alturas do Diário de Notícias" [que à época se situava no Bairro Alto], contam eles no prefácio à terceira edição do folhetim em livro.

Um em Leiria (Eça), outro em Lisboa (Ramalho), munidos apenas da sua imaginação, de uma resma de papel, da sua alegria e da sua audácia, puseram mãos à obra e ter-se-ão divertido à brava naqueles dois meses em que enganaram o bom povo que lia o jornal e avidamente acompanhava as cartas ao "Sr. redator do Diário de Notícias", publicadas a partir de 24 de julho de 1870.

Estas, provenientes de diferentes protagonistas da aventura, todos anónimos, narravam misteriosos acontecimentos passados algures entre Sintra e a capital, que envolviam um oficial inglês morto com ópio, e iam formando um puzzle deslindado apenas a 27 de setembro, data em que os autores se deram a conhecer e revelaram a natureza ficcional do folhetim.

A trama, urdida para criar suspense dia após dia, obedecia à lógica folhetinesca, mas ao mesmo tempo subvertia-a na medida em que durante os dois meses em que foi publicada, só os autores e Eduardo Coelho, diretor do jornal e amigo de Ramalho Ortigão, saberiam que tudo aquilo existia apenas na imaginação dos dois escritores. Uma carta, assinada por Z. e antecedida de uma nota do próprio Diário de Notícias, é particularmente deliciosa, se lida a esta luz.

"Senhor redator do Diário de Notícias. - Lisboa, 30 de Julho de 1870. - Escrevo-lhe profundamente indignado. Principiei a ler, como quase toda a gente em Lisboa, as cartas publicadas na sua folha, em que o doutor anónimo conta o caso que essa redação intitulou O Mistério da Estrada de Sintra. Interessava-me essa narrativa e (...) ia-me parecendo ter diante de mim o ideal mais perfeito, o tipo mais acabado do roman-feuilleton, quando inesperadamente encontro no folhetim publicado hoje as iniciais do nome de um homem - A.M.C. - acrescentando-se que a pessoa designada por estas letras é estudante de Medicina e natural de Viseu! O acaso não podia reunir tudo isto. Havia, portanto, o intuito de fazer cobardemente uma insinuação infamíssima. Isto não é lícito a romancista nenhum.

"A primeira impressão que senti foi a da repulsão e do tédio. Saindo de casa pouco depois da leitura do seu periódico, procurei o meu amigo, para lhe ler a passagem que lhe dizia respeito, e pôr-me à sua disposição no caso de que precisasse de mim para pedir, quanto antes, à redação do Diário de Notícias a satisfação de honra, que homens de educação e de brio não poderiam decerto recusar a semelhante agravo. Em casa do meu amigo acabo, porém, de saber, cheio de confusão e de surpresa, que ele desapareceu e que é ignorado o seu destino!"

Era ao povo e à burguesia - às massas - que os folhetins se dirigiam. Eram estas que os jornais queriam atrair, não só para ganharem leitores - e ganhavam - como para as influenciarem, educarem, entreterem, prenderem. Nelas estava o futuro dos jornais.

A.M.C., que na verdade era tão inventado como Z., andava nas bolandas que fariam dele personagem fulcral para o desfecho da história de amor, ciúme, adultério e morte que apaixonou (e fez crescer) os leitores do Diário de Notícias. Uma história sem vilões, apenas trágicos e humanos enganos, na qual, pelo meio, Eça e Ramalho - é também um mistério quem escreveu o quê - vão já espetando umasFarpas, quando dão voz ao estudante de Medicina, e até teorizando sobre a volatilidade feminina e as (evitáveis?) fatalidades da paixão, fazendo lembrar Flaubert e a sua Madame Bovary, também ela publicada primeiro em folhetim - na revista Revue de Paris, em 1856 -, quando a condessa de W faz a sua confissão.

Era ao povo e à burguesia - às massas - que os folhetins se dirigiam. Eram estas que os jornais queriam atrair, não só para ganharem leitores - e ganhavam - como para as influenciarem, educarem, entreterem, prenderem. Nelas estava o futuro dos jornais.

Assim, o rodapé da primeira página, designado de folhetim, onde iam parar os assuntos mundanos, as piadas, as receitas e os diz-que-diz, passou a ser ocupado por romances em série, os tais romans-feuilletons de que falava Z. na sua carta ao senhor redator do Diário de Notícias.

Honoré de Balzac foi um dos pioneiros do género, no jornal La Presse, em 1836, com A Solteirona, Alexandre Dumas fez render a sua pena com O Conde Monte CristoOsTrês Mosqueteiros, entre outros, mas o grande fenómeno aconteceu com Os Mistérios de Paris, de Eugène Sue, publicado no Journal des Débats entre junho de 1842 e outubro de 1843.

O escritor, filho do médico de Napoleão e frequentador dos salões da alta burguesia, desce ao bas fond parisiense e as histórias que resultam dessa incursão são de tal forma poderosas que não só atraem a atenção de milhares de leitores como o transformam também a ele, que de aspirante a dandy passa a ativista na defesa dos direitos do povo. O jornal ganhou leitores, a fórmula espalhou-se mundo fora - Inglaterra, Estados Unidos, Rússia, Brasil - e o folhetim conquistou um lugar de destaque na literatura mundial.

É certo que muita da produção literária impressa em páginas de jornal não ficou para a história, mas também tornou possível romances intemporais, como "Crime e Castigo".

Na senda de Os Mistérios de Paris, e ainda antes do disruptivo Mistério da Estrada de Sintra, Camilo Castelo Branco publicou, no diário portuense O NacionalOs Mistérios de Lisboa, em 1853, e muitas cidades e jornais do mundo tiveram os seus mistérios, atrás do sucesso de Eugène Sue.

É certo que muita da produção literária impressa em páginas de jornal não ficou para a história, mas o facto de permitir aos escritores uma renda regular, que lhes dava tempo e espaço para escrever, tornou possível romances intemporais, como Crime e Castigo, de Dostoievski, ouAnna Karénina, de Tolstoi; Ulisses, de James Joyce, ou os vários Sherlock Holmes, de Sir Arthur Conan Doyle; todos os romances de Charles Dickens ou A Cabana do Pai Tomás, de Harriet Beecher Stowe; A Guerra dos Mundos, de H.G. Wells, ou As Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis, entre muitos outros.

No século XX, ao contrário do que talvez se possa pensar, o aparecimento da rádio e depois da televisão não mataram os folhetins. Um Adeus às Armas, de Heming­way,Terna É a Noite, de Scott Fitzgerald, ou A Sangue Frio, de Truman Capote, foram impressos primeiro em jornais ou revistas. E, enfim, as tramas seriadas foram conquistadas pelos microfones radiofónicos e ecrãs de televisão. As novelas e séries, que continuam a prender-nos, não são mais do que descendentes dos velhos folhetins.



domingo, 2 de março de 2014

poetas de Al Andalus

 

La Época Preislámica
La Época Islámica
La Época Omeya
La Época Andalusí
La Poesía Árabe Moderna

se clicar nos título é direccionado para o correspondente capítulo em ...

... http://www.arabespanol.org/poesia/index.htm

segunda-feira, 23 de setembro de 2013

Morreu o poeta António Ramos Rosa



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Autor de uma das obras poéticas mais extensas e marcantes da poesia portuguesa contemporânea, António Ramos Rosa morreu esta segunda-feira aos 88 anos.
António Ramos Rosa na sua casa em 2004 DAVID CLIFFORD/ARQUIVO

Morreu esta segunda-feira em Lisboa, aos 88 anos, o poeta e ensaísta António Ramos Rosa, um dos nomes cimeiros da literatura portuguesa contemporânea, autor de quase uma centena de títulos, deO Grito Claro (1958), a sua célebre obra de estreia, até Em Torno do Imponderável, um belo livro de poemas breves publicado em 2012. Exemplo de uma entrega radical à escrita, como talvez não haja outro na poesia portuguesa contemporânea, Ramos Rosa morreu por volta das 13h30 desta segunda-feira, em consequência de uma infecção respiratória, em Lisboa, no Hospital Egas Moniz.
Além da sua vastíssima obra poética, escreveu livros de ensaios que marcaram sucessivas gerações de leitores de poesia, como Poesia, Liberdade Livre (1962) ou A Poesia Moderna e a Interrogação do Real (1979), traduziu muitos poetas e prosadores estrangeiros, sobretudo de língua francesa, e organizou uma importante antologia de poetas portugueses contemporâneos (a quarta e última série dasLíricas Portuguesas). Era ainda um dotado desenhador.
Prémio Pessoa em 1988, António Ramos Rosa, natural de Faro, recebeu ainda quase todos os mais relevantes prémios literários portugueses e vários prémios internacionais, quer como poeta, quer como tradutor.
Já muito fragilizado, o poeta, que estava hospitalizado desde quinta-feira, teve ainda forças para escrever esta manhã os nomes da sua mulher, a escritora Agripina Costa Marques, e da sua filha, Maria Filipe. E depois de Maria Filipe lhe ter sussurrado ao ouvido aquele que se tornou porventura o verso mais emblemático da sua obra – “Estou vivo e escrevo sol” –, o poeta, conta a filha, escreveu-o uma última vez, numa folha de papel. 
Para Pedro Mexia, poeta e crítico, Ramos Rosa mostrou, nomeadamente através das revistas que dirigiu e da primeira fase da sua obra poética, “que era necessário superar a dicotomia fácil entre a poesia ‘social’ e a poesia ‘pura’, e que o trabalho sobre a linguagem não impedia o empenhamento cívico”. Como ensaísta, continua Mexia, Ramos Rosa esteve atento ao panorama europeu e mundial, de René Char a Roberto Juarroz, e aos autores portugueses das últimas décadas, incluindo os novos: “Descobri muitos poetas através de obras como Poesia, Liberdade Livre ou Incisões Oblíquas.
Autor "muitíssimo prolífico", "nunca se afastou do seu caminho pessoal, mesmo quando a abundância e a insistência numa 'poesia sobre a poesia' fizeram com que nos esquecêssemos da sua importância decisiva."
O escritor e crítico Fernando Pinto do Amaral prefere eleger como "verdadeiramente singular" em Ramos Rosa “a atmosfera muito espacial que a sua poesia, ou melhor, os seus ciclos de poemas, são capazes de criar”. Atmosfera essa que resulta de uma “conjugação precisa de palavras”: “Isso vê-se muito bem em O Ciclo do Cavalo, de que gosto particularmente, e em Gravitações, onde se sente que há como que uma força cósmica que atrai e repele as palavras e a própria natureza.”
A ideia de respiração é, aliás, muito importante na obra deste autor, continua Pinto do Amaral, admitindo que não é fácil explicar o que dela emana, em parte porque passou por várias fases, “muito distintas”. É numa delas, mais realista, “ligada ao quotidiano e às suas burocracias”, que se insere um dos seus poemas mais conhecidos, O Boi da Paciência. “Ele, que também foi um funcionário de escritório, mostra aqui como pode ser monótona a vida e como é preciso combater a monotonia”: “Mas o homenzinho diário recomeça / no seu giro de desencontros/ A fadiga substituiu-lhe o coração”, escreve.
“Tudo está em tudo na poesia de Ramos Rosa”, “como no movimento constante de inspirar e expirar”, resume o escritor, defendendo que se trata de um poeta que precisará sempre de antologias: “Um jovem leitor que queira iniciar-se na sua poesia vai sentir-se muito facilmente perdido. Ele escreveu muito, publicou muito. Fazer antologias suas não é, no entanto, tarefa fácil, porque há uma unidade muito grande em cada livro, o que torna difícil escolher um poema em detrimento de outro.”
Com Isabel Salema e Lucinda Canelas 

terça-feira, 6 de março de 2012

Crimes de bolso - 60 anos depois das colecções policiais Escaravelho de Ouro e Xis

 Capa de Rosa Duarte para um livro de Dashiel Hammett Lima de Freitas, Dashiel Hammett, The Thin Man 


Capa de Rosa Duarte para um livro de Dashiel Hammett (DR)


Capa de Lima de Freitas para um livro de Raymond Chandler


Capa de Costa Pinto para um livr de Dashiell Hammett


Capa de Edmundo Muge paraum livro de Ellery Queen


Capa de Roberto Araújo Pereira para um livro de Craig Rice








14.09.2010 - 01:22 Por Luís Miguel Queirós



Há 60 anos, nasciam duas colecções policiais, a Escaravelho de Ouro e a Xis, para competir com a Vampiro de Bolso, que ainda se publica. Os seus livros testemunham um fascinante período da edição policial portuguesa. As capas eram ilustradas por artistas talentosos e os autores nacionais desdobravam-se em pseudónimos anglo-saxónicos


O êxito da colecção Vampiro, da editora Livros do Brasil, que fez vingar em Portugal o conceito do "policial de bolso", inspirou outras editoras a seguir-lhe o exemplo. Em 1950, três anos após a Vampiro ter inaugurado a sua colecção com Poirot Desvenda o Passado, de Agatha Christie, surgiam a colecção O Escaravelho de Ouro, da então recém-criada Édipo, e a Xis, da Minerva. Esta última, interrompida no início da década de 70, ainda teve um efémero segundo fôlego nos anos 80 e, quando se extinguiu definitivamente, em 1993, tinha já publicado 210 títulos. A Escaravelho de Ouro durou apenas cinco anos e ficou-se por 40 livros, mas não é certo que seja a menos notável das duas. 


A Vampiro não foi, de modo algum, a primeira colecção policial portuguesa. Desde a colecção Novelas Policiais lançada em 1931 por Reinaldo Ferreira, vulgo Repórter X, até 1947, quando a Livros do Brasil criou a sua colecção de bolso, publicaram-se dezenas de colecções. A mais importante talvez tenha sido a série Os Melhores Romances Policiais, da Livraria Clássica Editora, iniciada também em 1931, que publicou mais de uma centena de títulos, muitos deles várias vezes reeditados. Basta olhar para os dois primeiros números, respectivamente preenchidos pelos autores belgas Stanislas-André Steeman e Georges Simenon, para se verificar o cuidado posto na selecção das obras, bem como a prioridade concedida ao policial francófono. Mas quando a colecção acabou, em meados dos anos 50, já se voltara, também, para os autores ingleses e para o roman noir americano, publicando, por exemplo, o notável Cornell Woolrich (também conhecido pelo pseudónimo William Irish), de quem a Xis começou pela mesma altura a editar as obras mais relevantes. 



Mas a Vampiro tornou-se um inegável caso à parte, alcançando uma popularidade de que nenhuma das suas antecessoras e sucessoras se pode gabar. Dos múltiplos motivos que podem ter concorrido para esse sucesso, talvez se possam destacar quatro ou cinco factores principais. Desde logo, a introdução do policial de bolso, um conceito provavelmente importado do mundo editorial anglo-saxónico, já que a principal referência francesa, a colecção Le Masque, criada em 1927, tinha um formato ligeiramente superior. Decerto não menos relevante foi a sua aposta em autores de língua inglesa, num Portugal ainda largamente dominado pela cultura francesa. O terceiro trunfo foram as suas notáveis capas, boa parte delas desenhadas, no início da colecção, por Cândido Costa Pinto (1911-1976). Companheiro de Mário Cesariny no Grupo Surrealista de Lisboa, as capas que produziu para a Vampiro foram uma verdadeira pedrada no charco das artes gráficas nacionais. Hoje olhamos para elas distraidamente nos escaparates dos alfarrabistas, mas, no cinzento Portugal dos anos 40 e 50, seguramente deslumbraram muitos leitores. Até mudar de grafismo, optando por capas pretas ilustradas com fotografias pouco apelativas, a colecção contou sempre com a colaboração de grandes artistas, entre os quais se destaca, além de Costa Pinto, o pintor Lima de Freitas. 



É ainda plausível que o modo como a Vampiro rapidamente fidelizou leitores possa ter ficado a dever-se ao facto de ter começado por se concentrar num número reduzido de escritores, todos eles da tradição do policial dedutivo, e todos eles criadores de séries, isto é, de um conjunto de livros com o mesmo detective, o que foi uma opção inteligente, já que boa parte dos leitores de policiais se viciam mais facilmente nas criações do que nos criadores. A Vampiro apostou, sobretudo, em Agatha Christie, com o seu Poirot, em Ellery Queen, com o seu detective amador homónimo, em Erle Stanley Gardner, criador do advogado Perry Mason, e, para referir apenas os autores mais recorrentes no início da colecção, em S. S. Van Dine, cujos livros são protagonizados pelo sofisticado investigador diletante Philo Vance. 



Traduções desiguais
A estas inovações, a Vampiro somava o paradoxal mérito de apresentar traduções desiguais - as primeiras eram ainda importadas do Brasil e revistas para português de Portugal -, mas que, apesar de todas as suas fragilidades, eram melhores, e escritas num português mais escorreito, do que a generalidade das traduções de colecções anteriores, em muitos casos "versões livres", mesmo quando não eram assumidas como tal. Dos muitos tradutores que passaram pela colecção, é de inteira justiça realçar, pela qualidade do seu trabalho, o nome de Fernanda Pinto Rodrigues, que os leitores menos familiarizados com o policial conhecerão de edições portuguesas de autores como Jane Austen, Steinbeck, Saul Bellow, Malcolm Lowry, Vladimir Nabokov, Ian McEwan ou Philip Roth, para citar apenas uma ínfima parte dos escritores que traduziu. 



Não se pode dizer, no entanto, que a maioria das traduções da Vampiro fosse recomendável. Hoje parecer-nos-ia mesmo chocante que se publicassem livros de Agatha Christie traduzidos do francês, como se chegou a fazer, e dificilmente acharíamos perdoável que um tradutor resumisse parágrafos mais longos e complexos, ou os saltasse despreocupadamente à frente, como também por vezes acontecia. Mas há que ter em conta várias atenuantes: os tradutores não dispunham dos múltiplos recursos hoje postos à sua disposição, trabalhavam a contra-relógio para satisfazer os prazos das editoras e, no caso dos autores americanos, dispunham de pouquíssima informação sobre a sociedade e cultura dos Estados Unidos. Na sua tese de doutoramento História Crítica do Género Policial em Portugal (1870-1970) - Transfusões e Transferências, ainda sem edição comercial, Maria de Lurdes Sampaio diz que, "dada a quase inexistência de relações interculturais entre Portugal e os EUA, é sobretudo na tradução de romances da tradição americana que se verificam as alterações mais drásticas". Entre os muitos exemplos que apontam, destacam-se os relativos a Raymond Chandler, que sofreu tratos de polé às mãos de sucessivos tradutores. 



Sampaio nota ainda que os desvios face aos originais eram muitas vezes deliberados, quer visando facilitar a leitura por parte de um público heteróclito e parcialmente pouco instruído, quer procurando aproximar as obras do modelo de policial então dominante, que era o romance de tipo dedutivo, para o qual os ingleses inventaram o neologismo "whodunit". 



O sucesso da Vampiro mostra, no entanto, que as deficiências das traduções eram bem toleradas, em parte por ignorância dos leitores, mas também porque, ao mesmo tempo que a edição policial vivia entre nós um período áureo, o género continuava a ser visto como um parente pobre da "verdadeira" literatura, que, essa sim, exigia tradução cuidada. 



O autor e editor António Andrade de Albuquerque, que se celebrizou com o pseudónimo Dick Haskins, chama a antenção para um pormenor que ilustra bem esse estigma de menroridade que pesava sobre o policial. Em 1958, criou e dirigiu a colecção Enigma, inicialmente publicada na Ática. Mas a editora, que publicava livros "sérios" e receava comprometer a sua imagem, optava por se apresentar, na ficha técnica dos volumes da Enigma, como mera "depositária" .



Em Portugal, de resto, só muito recentemente é que os próprios meios académicos começaram a ver no policial um género "aceitável". Daí que, ao contrário do que acontece noutros países, tenhamos uma flagrante falta de obras de referência sobre a edição portuguesa de policiais. E também não é por acaso que a Biblioteca Nacional não possui séries completas de muitas destas colecções, incluindo a Escaravelho de Ouro e a Xis. 



No entanto, estas colecções de bolso, que a censura tendia a ignorar, deram provavelmente a ler alguma da mais subversiva literatura que então se editava no país. E, a par do cinema, deram decerto um contributo relevante para abrir a sociedade portuguesa da época à cultura americana. Se a dicotomia clássica entre literatura popular e erudita, bem como a divisão tradicional da criação literária em géneros mais ou menos estanques, são hoje cada vez mais questionadas, talvez o policial, género entre todos impossível de definir e circunscrever com precisão, seja um local privilegiado para se pensar essas contradições. E traçar a história do género policial, como nota Jacques Breton numa obra sobre as colecções policiais em França, mais do que a tentativa de lhe descobrir antepassados ilustres - Charles Dickens, Wilkie Collins, Edgar Allan Poe ou Conan Doyle, e ainda os franceses Eugène François Vidocq ou Emile Gaborieau, são alguns dos habitualmente citados -, "deveria ser, antes de mais, [fazer] a história da sua edição e, portanto, dos seus editores". Ora, no policial, mais do que em qualquer outro género literário, a edição traduziu-se em colecções. 



Uma revolução gráfica
Outro tema que urgiria estudar a fundo é o que diz respeito ao grafismo: as capas dos policiais de bolso foram um fascinante campo de experimentação e constituem uma espécie de capítulo secreto da história recente das artes plásticas portuguesas. Se a parte desse capítulo que foi escrita pela Vampiro é razoavelmente conhecida, dado que a colecção ainda hoje se edita e conta com numerosos coleccionadores - algumas das suas capas têm mesmo vindo a ser mostradas no estrangeiro, em exposições como a que a Bibliothèque des Litteratures Policières, em Paris, dedicou em 2000 ao romance policial em Portugal -, a não menos notável contribuição de colecções como a Escaravelho de Ouro ou a Xis, ambas há muito desaparecidas, é menos frequentemente lembrada. 



Ambas as colecções tentaram repetir alguns dos factores que tinham contribuído para o êxito da Vampiro, adoptando o formato de bolso, investindo nas capas e, especialmente no caso da Xis, apostando no filão dos autores anglo-saxónicos. Mas, ao mesmo tempo, também procuraram marcar a diferença. 



A Escaravelho de Ouro foi concebida por um grande editor português, recentemente falecido, Joaquim Figueiredo de Magalhães (1916-2008), que a generalidade dos leitores relaciona sobretudo com a prestigiada editora Ulisseia, que fundou e dirigiu. Mas, ainda antes de lançar a Ulisseia, tinha criado a Édipo, que lhe serviu quase exclusivamente para publicar a Escaravelho de Ouro.



O primeiro número da colecção recuperava um autor que fora divulgado em Portugal nos anos 30 pela Livraria Clássica Editora, Stanislas-André Steeman. A obra escolhida, Três Igual a Um, uma bem contada história de suspense em torno de um serial-killer, fora já então adaptada ao cinema por Henri-Georges Clouzot. Para traduzir o livro, o editor convidou Adolfo Casais Monteiro, que, em 1950, era já um escritor consagrado. Amigo de Fernando Pessoa - que, como se sabe, escreveu vários fragmentos de novelas policiais e criou um detective, o Dr. Quaresma -, foi justamente a Casais Monteiro que o poeta, ainda antes de ser editada a Mensagem, escreveu a célebre carta em que se afirmava hesitante entre inaugurar a publicação da sua obra com um livro de poemas ou com uma novela policial. 



A capa de Três Igual a Um, cujas páginas incluem algumas ilustrações do próprio Steeman, ficou a cargo do pintor e ilustrador Roberto Araújo Pereira (1908-1969), contemporâneo e amigo de Almada Negreiros e homem de múltiplos talentos, a quem se devem, entre outras obras, cenários para filmes portugueses, painéis de azulejos e vitrais para igrejas. Menos recordado do que outros ilustradores da época, Roberto Araújo criou, para a Escaravelho de Ouro, 18 capas que podem bem considerar-se, quase sem excepção, pequenas obras-primas do género. As restantes capas da colecção, algumas delas também notáveis, são todas de Rosa Duarte, à excepção da do último número, assinada pelo pintor Marcelino Vespeira, que fora, em 1949, um dos artistas representados na primeira exposição do Grupo Surrealista de Lisboa. Ao contrário da Xis, que teve uma mais visível lógica de competição com a Vampiro, divulgando alguns autores ingleses e americanos que a sua rival não contemplara, a Escaravelho de Ouro limitou-se provavelmente a espelhar o gosto do seu proprietário e, a partir de dada altura, também o de Afonso Baptista de Carvalho, que traduziu mais de uma dúzia de títulos da colecção e que, no número 15, aparece referido como seu director. Serralheiro civil de formação, tendo estudado francês e inglês em cursos nocturnos e obtido a licenciatura em Direito na condição de trabalhador-estudante, Baptista de Carvalho viria a ter alguma notoriedade logo após o 25 de Abril enquanto promotor do Movimento nacional Pró-Divórcio. O seu caso ilustra bem essa espécie de "fraternidade" do policial que existia na época, e que se sobrepunha à rivalidade comercial entre editoras: não só dirigiu, a dada altura, quer a Escaravelho de Ouro, quer a Xis, como traduziu simultaneamente livros para ambas as colecções e também para a Vampiro. Andrade Albuquerque não hesita em confirmar que, por esses anos, "havia mesmo uma comunidade do policial" em que todos se conheciam e acamaradavam. "Tínhamos paixão em descobrir e traduzir autores, e queríamos sempre fazer as coisas o melhor possível", diz o escritor. 



Do ponto de vista da selecção de autores, a Escaravelho de Ouro, cujo título evoca o conto homónimo de Egar Allan Poe, é uma colecção ecléctica, mas na qual é difícil encontrar um livro medíocre. Publicou pioneiros do género, como Conan Doyle ou Gaston Leroux, e também autores de referência do policial de dedução, como Dorothy L. Sayers, Agatha Christie, John Dickson Carr, S. S. Van Dine, Ellery Queen ou Freemans Wills Croft. Este último, hoje muito esquecido, é um caso singular entre os autores da chamada "Golden Age" do policial inglês, já que o seu realismo na descrição da actividade policial o aproxima de autores americanos posteriores. A colecção incluiu também escritores franceses como Simenon, Steeman e o pouco conhecido Lucien Prioly, ou ainda o prolífico autor inglês E. Philips Oppenheim, autor de centena e meia de romances, pioneiro das histórias de espionagem e figura omnipresente em quase todas as colecções policiais portuguesas dos anos 40 e 50. Mas também editou os "pais" do policial genuinamente americano, Dashiell Hammett e Raymond Chandler, criadores de um veio da ficção policial que ficou conhecido como private eye, dado que os protagonistas dos livros são detectives privados profissionais, e não, como na tradição inglesa, amadores excêntricos. No seu ensaio The Simple Art of Murder, Chandler resume com humor lapidar a revolução que Hammett provocou na ficção policial: "Devolveu o crime às pessoas que o praticam com um motivo, e não apenas para fornecer um cadáver, e que usam meios disponíveis, e não pistolas de duelo forjadas à mão, curare ou peixes tropicais". 



Quando a Escaravelho de Ouro publicou, em 1952, O Homem Sombra, de Hammett, a Vampiro já tinha editado O Falcão de Malta, do mesmo autor. Significativamente, ambos os livros são traduzidos por Baptista de Carvalho. Mas cabe à colecção da Édipo a não pequena honra de ter sido a primeira publicar Raymond Chandler, editando, em 1951, o seu romance inaugural, The Big Sleep (1939). A tradução é, mais uma vez, de Baptista de Carvalho, que usou o título À Beira do Abismo, já consagrado no país desde 1948, quando se estreou em Lisboa o filme de Howard Hawks baseado no livro. Uma nota editorial inserta no volume da Escaravelho de Ouro recorda que este foi "um êxito de bilheteira" em Portugal e elogia as prestações de Humphrey Bogart e Lauren Bacall. A editora faz ainda saber aos seus leitores que "está já em negociações com vista à tradução das obras de Chandler, de que foram extraídos filmes de êxito retumbante, e não se poupará a esforços para conseguir os respectivos direitos". Infelizmente, não os terá conseguido, já que não publicou mais nenhum título e Chandler acabou por ser divulgado na Vampiro a partir de 1955, ano em que saiu O Imenso Adeus, traduzido pelo escritor Mário Henrique Leiria. Mas Raymond Chandler, sendo o mais relevante, não foi o único autor que a colecção de Figueiredo de Magalhães revelou em Portugal. Outros exemplos são o recomendável James Hadley Chase, um autor inglês que escrevia histórias de gansgters passadas nos Estados Unidos, embora só conhecesse o país de algumas breves visitas, ou a americana Craig Rice, hoje pouco lida, mas que, nos anos 50, chegou a ser capa da revista Time. Considerada o expoente do policial surrealista, Rice teve dois livros publicados na colecção, incluindo essa obra-prima que é Cilada Triangular, cujo título é bastante mais sugestivo no original: Home Sweet Homicide. Outra obra fundamental publicada pela Édipo foi Suspeita, de Francis Iles, pseudónimo de Anthony Berkeley, que neste livro, originalmente publicado em 1932, antecipa os policiais contados na perspectiva do criminoso, mais tarde popularizados por autoras como Patricia Highsmith.



A Escaravelho de Ouro procurou ainda distinguir-se da concorrência através de pequenos detalhes, como o de publicar notas biográgficas (ou supostamente autobiográficas) dos autores. E tinha ainda o hábito de fazer preceder os romances de uma lista das respectivas personagens, que muitos leitores desprevenidos terão pensado que eram traduzidas do original. Redigidas num registo bem humorado e de sabor surrealista, até quadravam bem com livros como os de Craig Rice, mas entravam obviamente em choque com o estilo de outros autores. Não seria implausível que Rice apresentasse uma personagem como sendo "Frankie Riley, chantagista de má nota e traficante de insignificante categoria, cujo corpo é um crivo de balas", ou que elevasse à condição de protagonista um retrato de família pendurado na casa onde se dá o crime, descrevendo-o como "Tio Herbert, um quadro a óleo com um buraco num olho". Mas já seria bastante menos provável que Chandler apresentasse assim uma personagem: "Vivian Regan, esposa de Rusty, filha mais velha do General. Lindas pernas e nenhuma moral". 



Figueiredo de Magalhães, dotado de bom faro comercial, lembrou-se também de promover a colecção oferecendo viagens. Desde o primeiro número, todos os exemplares traziam cupões que habilitavam os compradores dos livros a concorrer a uma viagem de oito dias, sorteada mensalmente - o primeiro destino escolhido foi o Rio de Janeiro -, e a uma viagem de 30 dias "à volta do mundo", atribuída uma vez por ano. Se o prémio mensal, no Portugal dos anos 50, não era de desdenhar, o anual era uma coisa nunca vista.



Não é muito claro o que ditou o final abrupto da Escaravelho de Ouro, já que, aparentemente, a colecção dava lucro. Catarina Portas, num texto de homenagem a Figueiredo de Magalhães publicado por ocasião da sua morte, diz mesmo que este fundou a Ulisseia, em 1952, com o dinheiro que ganhara com os policiais. Os dois últimos números da colecção foram já publicados, aliás, com a chancela da nova editora. Tal como a Escaravelho de Ouro, a Xis dava prémios, mas um pouco mais parcimoniosos: limitava-se a oferecer um livro a quem comprasse dez. Em termos editoriais, a colecção da Minerva apostava também, como a da Édipo, em oferecer ao leitor algo mais do que o livro propriamente dito, dedicando um conjunto variável de páginas, às vezes bastante extenso, a torneios de resolução de problemas policiais, curiosidades, anedotas, palavras cruzadas e até artigos sobre xadrez. 



A colecção abriu com Um Crime Branco, de James Marcus, supostamente traduzido por J. P Fernandes e A. Fernandes. A dupla Fernandes era, na verdade, autora do livro, mas a Xis levou o requinte de encobrimento do pseudónimo ao ponto de inventar um título original para a obra: White Murder. Embora os autores portugueses não abundassem na colecção - além de três livros de James Marcus, publicou apenas um título de José da Natividade Gaspar, um outro escrito a meias por Francisco Branco e Mascarenhas Barreto, a ainda um livro de W. Strong-Ross (Francisco Valério Rajanto de Azevedo) -, este era um ponto em que se distinguia da Vampiro e da Escaravelho de Ouro e se aproximava quer de colecções anteriores, como a já referida Os Melhores Romances Policiais, entre várias outras que publicaram autores nacionais, muitas vezes ocultos sob pseudónimos anglo-saxónicos, quer de colecções posteriores, como a Enigma, de Dick Haskins/Andrade Albuquerque, ou a Rififi, onde saíram os três singularíssimos romances policiais de Dinis Machado, assinados com o transparente pseudónimo Dennis McShade, e ainda muitos títulos de Ross Pynn, pseudónimo de Roussado Pinto. 



Os anos 50 e 60 foram também um período de intensa produção nacional de romances, novelas e contos policiais, mas que, paradoxalmente, não resultou na afirmação de uma ficção policial portuguesa, já que boa parte dos autores recorria a pseudónimos anglo-saxónicos e fazia decorrer a acção dos seus livros no estrangeiro. Esta será uma das razões pela qual nunca despertaram a atenção da Censura. Andrade de Albuquerque só recorda, na longa história da Enigma, um caso em que teve problemas com o regime. O nono volume da colecção, Heroína, de Ed McBain, um dos pseudónimos do italo-americano Salvatore Lombino, que também assinou livros como Evan Hunter, foi apreendido. E mesmo esta investida ter-se-á ficado a dever, segundo Andrade de Albuquerque, a um azar de "timing", já que tinha havido um escândalo com consumo de drogas numa festa de alta sociedade e o momento era delicado para um livro com aquele título. 



Uma selva de pseudónimos 
A própria escolha de pseudónimos estrangeiros seria menos uma estratégia de fuga à censura do que uma opção comercial. "O público português não compararia policiais escritos por um António Andrade de Albuquerque, e foi por isso que arranjei o pseudónimo Dick Haskins", diz o fundador da Enigma, explicando que a sua intenção era apropriar-se do apelido do actor Jack Hawkins, muito conhecido na época. "Enganei-me a escrever e saiu Haskins". Mas, afirma, "toda a gente sabia que Dick Haskins era português". Ou nem toda. O autor, cujas obras, significativamente revistas, foram recentemente reeditadas pela Asa - e que é o único caso de um autor policial português com verdadeira divulgação internacional, estando traduzido em dezenas de países -, conta, divertido, que recebeu um dia um telefonema do director da Polícia Judiciária, que tinha sido incumbido pelo então ministro da Justiça Antunes Varela de localizar o autor de Premeditação, livro em que Andrade de Albuquerque descrevia elogiosamente a actividade da Judiciária portuguesa. Julgando que se tratava de um autor estrangeiro, o ministro queria homenageá-lo. Boa parte destes autores portugueses que escreviam sob um ou mais pseudónimos estrangeiros - só á sua conta, Gentil Marques usou para aí uma dúzia (James Strong, Marcel Damar, William Forst, G. D. Richardson, Herbert Gibbons, Charles Berry ou D. W. Ritcher, entre outros) - eram também tradutores de policiais e colaboravam nas muitas revistas, antologias e policiários que se publicavam na época. Alguns, como Andrade de Albuquerque e o fotógrafo e arquitecto Victor Palla, director das revistas Vampiro Magazine e Gato Preto, eram ainda autores de capas. 



Na Xis, o principal ilustrador de serviço era Edmundo Muge, que assinou boa parte das capas, embora a série tenha durado o suficiente para ainda poder ter tido números ilustrados por Jorge Colombo, nascido uma dúzia de anos após o arranque da colecção. Com as suas capas e lombadas de fundo preto, os volumes da Xis distinguiam-se facilmente entre as várias colecções da época, o que terá sido, a par da qualidade dos desenhos de Muge e de outros artistas, um dos seus trunfos. 



Competindo directamente com a Vampiro na divulgação de obras de autores que ambas as colecções publicavam, como Agatha Christie, John Dickson Carr, Ellery Queen, Dorothy L. Sayers, Frank Gruber ou Rex Stout, a Xis também procurou explorar filões que esta descurara, apostando em escritores como o escocês W. Murdoch Duncan, criador do inspector D. Reamer (leia-se dreamer, ou seja, sonhador), ou americanos como Patrick Quentin (pseudónimo de Hugh Callingham Wheeler e Richard Wilson Webb), Harold Q. Masur ou Margaret Millar, uma notável autora de thrillers psicológicos, que foi casada com Ross Macdonald, considerado o principal herdeiro de Hammett e Chandler. A Xis publicou ainda oito livros de Cornell Woolrich, além de um volume que compila contos deste autor (assinados William Irish) e de Georges Simenon. Mestre da novela e do conto de suspense, e brilhante na criação de atmosferas sufocantes e negras, Woolrich foi um autor fundamental para vários cineastas, incluindo o francês François Truffaut, cujos filmes A Noiva Estava de Luto e A Sereia do Mississípi são inspirados em obras suas. 



A divulgação de autores do policial negro americano, que, com raras excepções, como Mickey Spillane, a Vampiro não publicava, foi talvez o principal traço distintivo da Xis. Mas, ao contrário de colecções posteriores, como as já referidas Enigma e Rififi, muito centradas na pulp fiction americana, nunca abandonou o policial dedutivo de tradição inglesa. O autor mais publicado na colecção foi, de longe, Ellery Queen, com 22 títulos. No entanto, apesar de se tratar de um autor de referência do policial dedutivo - tinha o hábito de, antes de revelar o assassino, desafiar o leitor a identificá-lo com base nas pistas que lhe fora oferecendo ao longo do livro -, algumas das suas obras publicadas na Xis seriam mais facilmente catalogáveis do lado do policial negro, já que pertecem ao período em que Ellery Queen deixou de ser o pseudónimo exclusivo de Manfred Bennington Lee e Frederic Dannay para se tornar numa espécie de marca registada que ocultava autores muito diversos, como Richard Deming ou Flora Fletcher. Este equilíbrio entre os dois géneros era claramente deliberado, como se confirma numa curiosa nota editorial inserida no 17.º volume da colecção, no qual a Xis publicava pela primeira vez um romance de Patrick Quentin. "Circulam entre os leitores dos livros de feição policial duas importantes correntes de opinião. Uns preferem as obras de dedução (...), outros apenas aceitam os romances de acção, em que os lances se sucedem rapidamente, de maneira imprevista e empolgante", dizia a nota, que prosseguia com este esclarecimento: "A colecção Xis tem envidado os seus esforços no sentido de apresentar ao público livros dos dois géneros, alternando-os na medida do possível." Para lá da confirmação desta política editorial, o que é sugestivo é que a Xis se tenha sentido obrigada a publicar esta justificação num livro de Quentin, Rosas de Sangue, que a mesma nota cataloga como livro de acção. No início dos anos 50, o modelo do policial era ainda, em Portugal, o whodunit de tradição inglesa, e a publicação de autores americanos mais "duros" podia ainda ser vista como uma cedência de gosto duvidoso. O próprio género policial, em geral, requeria ainda legitimação, e não é por acaso que, nas primeiras das oito antologias de contos policiais que a Xis publicou, surgiam escritores consagrados, como Somerset Maugham, John Steinbeck, Aldous Huxley ou Guillaume Apollinaire, que nenhum leitor identificaria como autor policial. 



Foi justamente com uma destas antologias - o n.º 210 da colecção - que a Xis se despediu, em 1993, deixando a Vampiro como única sobrevivente dos gloriosos tempo das colecções de bolso. Mas também esta, embora continue a publicar-se, já pouco tem a ver com a colecção dos anos 50. Desde logo porque resolveu aumentar o formato, uma decisão francamente infeliz, e porque praticamente se limita agora a editar autores cujos direitos já estão no domínio público, sem fazer qualquer esforço para acompanhar a evolução do género.