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domingo, 14 de junho de 2026

Caitlin Johnstone - Toda a espécie humana foi transformada numa máquina geradora de lucros

 

sábado, 13 de junho de 2026

* Caitlin Johnstone


A espécie humana foi essencialmente transformada numa máquina gigante para gerar lucro para as empresas.

Sob o capitalismo, a humanidade existe para servir os interesses da corporação. Somos todos gado; animais de carga usados para transportar a expansão da margem da declaração trimestral para a declaração trimestral. O gozo da vida não tem outro valor senão até que ponto pode ser usado para aumentar o patrimônio líquido dos acionistas.

Por isso todos estão tão infelizes. Não estamos vivendo com propósito. Não estamos trabalhando juntos para construir um mundo melhor e um futuro melhor, estamos apenas puxando alavancas para girar as engrenagens para fazer a linha de seta subir no gráfico na sala de conferências. É uma maneira oca e inútil de as pessoas viverem.

sexta-feira, 5 de junho de 2026

Enrique Dans - A encíclica do Papa Leão XIV, Magnifica Humanitas




LEITURAS MARGINAIS

O PAPA LEÃO XIV ENTENDE A IA COMO PODER. ELE TEM RAZÃO. AGORA, DEVE IDENTIFICAR OS ATORES QUE A EXERCEM

Enrique Dans, 
Medium. Revisão: O’Lima.



A primeira encíclica do Papa Leão XIV, Magnifica Humanitas, é inteiramente dedicada à IA e às suas consequências para a humanidade. Publicada a 25 de maio, por ocasião do 135.º aniversário da Rerum Novarum de Leão XIII sobre o capital e o trabalho, aprofunda-se muito mais do que a grande maioria das declarações empresariais sobre a ética da IA e é muito mais honesta do que muitos livros brancos governamentais que evitam desafiar as grandes empresas tecnológicas.

A encíclica está certa no essencial: a IA não é apenas mais uma tecnologia, uma ferramenta neutra que podemos avaliar exclusivamente pela sua eficiência, precisão ou capacidade de reduzir custos. É uma infraestrutura de poder. Ela decide o que vemos, o que lemos, que empregos desaparecem, que decisões são automatizadas, que formas de vigilância são normalizadas e que partes da realidade partilhada acabam por se transformar em ruído, polarização ou espetáculo. Como resume a Wired, o Papa entende a IA como uma camada invisível que atravessa o trabalho, a informação e as decisões coletivas. Até aqui, tudo bem.

O problema é que, quando a análise deveria transformar-se numa acusação, não são mencionados nomes. O Papa destaca a concentração de poder, mas não identifica quem o concentra. Fala de plataformas, mas evita nomeá-las. Aborda as lógicas de mercado, mas não identifica as empresas que transformaram essas lógicas numa forma de governo privado sobre as nossas vidas. E isso não é um problema teológico, é uma decisão política. É uma encíclica que fala em generalidades e no abstrato.

sábado, 23 de maio de 2026

António Santos - 10 factos chocantes sobre os EUA

* António Santos

1. Os Es­tados Unidos têm a maior po­pu­lação pri­si­onal do mundo, com­pondo menos de 5% da hu­ma­ni­dade e mais de 25% da hu­ma­ni­dade presa. Em cada 100 ame­ri­canos um está preso.A subir em flecha desde os anos 80, a sur­real taxa de en­car­ce­ra­mento dos EUA é um ne­gócio e um ins­tru­mento de con­trolo so­cial: à me­dida que o ne­gócio das pri­sões pri­vadas alastra, uma nova ca­te­goria de mi­li­o­ná­rios con­so­lida o seu poder po­lí­tico. Os donos destes cár­ceres são também donos dos es­cravos que tra­ba­lham em fá­bricas dentro da prisão por sa­lá­rios in­fe­ri­ores a 50 cên­timos por hora. Uma mão-de-obra tão com­pe­ti­tiva que muitos mu­ni­cí­pios hoje so­bre­vivem fi­nan­cei­ra­mente das suas pri­sões ca­ma­rá­rias e graças a leis que vul­ga­rizam sen­tenças até 15 anos de prisão por crimes como roubar pas­tilha elás­tica. Os alvos destas leis são in­va­ri­a­vel­mente os mais po­bres, mas so­bre­tudo os ne­gros, que re­pre­sen­tando apenas 13% da po­pu­lação ame­ri­cana, com­põem 40% da po­pu­lação pri­si­onal do país.

2. 22% das cri­anças ame­ri­canas vivem abaixo do li­miar da po­breza.Cal­cula-se que cerca de 16 mi­lhões de cri­anças ame­ri­canas vivam sem «se­gu­rança ali­mentar», ou seja, em fa­mí­lias sem ca­pa­ci­dade eco­nó­mica para sa­tis­fazer os re­qui­sitos nu­tri­ci­o­nais mí­nimos de uma dieta sau­dável. As es­ta­tís­ticas provam que estas cri­anças têm pi­ores re­sul­tados es­co­lares, aceitam pi­ores em­pregos, não fre­quentam a uni­ver­si­dade e têm uma maior pro­ba­bi­li­dade de, quando adultos, serem presos.

3. Entre 1890 e 2014 os EUA in­va­diram ou bom­bar­de­aram 151 países.
São mais os países do mundo em que os EUA já in­ter­vi­eram mi­li­tar­mente do que aqueles em que ainda não o fi­zeram. Nú­meros con­ser­va­dores apontam para mais de oito mi­lhões de mortes cau­sadas pelas guerras im­pe­riais dos EUA só no sé­culo XX. E por de­trás desta lista es­condem-se cen­tenas de ou­tras ope­ra­ções se­cretas, golpes de es­tado e pa­tro­cí­nios a di­ta­dores e grupos ter­ro­ristas. Se­gundo Obama, lau­reado do Nobel da Paz, os EUA têm neste mo­mento mais de 70 ope­ra­ções mi­li­tares se­cretas a de­correr em vá­rios países do mundo. O mesmo pre­si­dente criou o maior or­ça­mento mi­litar de qual­quer país do mundo desde a Se­gunda Guerra Mun­dial, ba­tendo de longe Ge­orge W. Bush.

4. Os EUA são o único país da OCDE sem di­reito a qual­quer tipo de sub­sídio de ma­ter­ni­dade.
Em­bora estes nú­meros va­riem de acordo com o Es­tado e de­pendam dos con­tratos re­di­gidos pela em­presa, é prá­tica cor­rente que as mu­lheres ame­ri­canas não te­nham di­reito a ne­nhum dia pago antes nem de­pois de dar à luz. Em muitos casos, não existe se­quer a pos­si­bi­li­dade de tirar baixa sem ven­ci­mento. Quase todos os países do mundo con­tem­plam entre 12 e 50 se­manas pagas em li­cença de ma­ter­ni­dade. Os Es­tados Unidos fazem com­pa­nhia à Papua Nova Guiné e à Su­a­zi­lândia com zero se­manas.

5. 125 ame­ri­canos morrem todos os dias por não po­derem pagar o acesso à saúde.
Quem não tiver se­guro de saúde (como 50 mi­lhões de ame­ri­canos não têm) tem boas ra­zões para re­cear mais a am­bu­lância do que o ino­cente ataque car­díaco. Com vi­a­gens de am­bu­lância a cus­tarem em média 500 euros, a es­tadia num hos­pital pú­blico mais de 200 euros por noite e a mai­oria das ope­ra­ções ci­rúr­gicas si­tu­adas nas de­zenas de mi­lhares, é bom que se possa pagar um se­guro de saúde pri­vado.

6. Os EUA foram fun­dados sobre o ge­no­cídio de 10 mi­lhões de na­tivos. Só entre 1940 e 1980, 40% de todas as mu­lheres em re­servas ín­dias foram es­te­ri­li­zadas contra sua von­tade pelo go­verno.
Es­queça a his­tória do Dia de Acção de Graças, com ín­dios e co­lonos a par­ti­lhar pa­ca­ta­mente um peru. A his­tória dos EUA co­meça no pro­grama de er­ra­di­cação dos ín­dios: du­rante dois sé­culos, os na­tivos foram per­se­guidos e as­sas­si­nados, des­po­jados de tudo e em­pur­rados para mi­nús­culas re­servas de terras in­fér­teis, em li­xeiras nu­cle­ares e sobre solos con­ta­mi­nados. Em pleno sé­culo XX, os EUA pu­seram em marcha um plano de es­te­ri­li­zação for­çada das mu­lheres na­tivas, pe­dindo-lhes para as­si­narem for­mu­lá­rios es­critos num língua que não com­pre­en­diam, ame­a­çando-as com o corte de sub­sí­dios ou, sim­ples­mente, cor­tando-lhes o acesso à saúde.

7. Todos os imi­grantes são obri­gados a jurar não serem co­mu­nistas para po­derem viver nos EUA.
Para além de ter que jurar que não é um agente se­creto nem um cri­mi­noso de guerra nazi, vão-lhe per­guntar se é ou al­guma vez foi membro do «Par­tido Co­mu­nista», ou se de­fende in­te­lec­tu­al­mente al­guma or­ga­ni­zação con­si­de­rada «ter­ro­rista». Se res­ponder que sim a qual­quer destas per­guntas, pode ser-lhe ne­gado o di­reito de viver e tra­ba­lhar nos EUA por «prova de fraco ca­rácter moral».

8. O preço médio de uma li­cen­ci­a­tura numa uni­ver­si­dade pú­blica é 80 000 dó­lares.
O En­sino Su­pe­rior é uma au­tên­tica mina de ouro para os ban­queiros. Vir­tu­al­mente todos os es­tu­dantes têm dí­vidas as­tro­nó­micas que, acres­cidas de juros, le­varão em média 15 anos a pagar. Du­rante esse pe­ríodo, os alunos tornam-se servos dos bancos e das suas dí­vidas, sendo amiúde for­çados a con­trair novos em­prés­timos para pagar os an­tigos. Entre 1999 e 2014, a dí­vida total dos es­tu­dantes es­tado-uni­denses as­cendeu a 1.5 tri­liões de dó­lares, su­bindo uns as­sus­ta­dores 500%.

9. Os EUA são o país do mundo com mais armas: para cada 10 ame­ri­canos, há nove armas de fogo.
Não é de es­pantar que os EUA levem o pri­meiro lugar na lista dos países com a maior co­lecção de armas. O que sur­pre­ende é a com­pa­ração com o resto do mundo: no resto do pla­neta há uma arma para cada 10 pes­soas. Nos Es­tados Unidos, nove para cada 10. Nos EUA po­demos en­con­trar 5% de toda a hu­ma­ni­dade e 30% de todas as armas, qual­quer coisa como 275 mi­lhões.

10. São mais os ame­ri­canos que acre­ditam no Diabo do que aqueles que acre­ditam em Darwin.
A mai­oria dos ame­ri­canos são cép­ticos, pelo menos no que toca à te­oria da evo­lução, em que apenas 40% da po­pu­lação acre­dita. Já a exis­tência de Sa­tanás e do in­ferno soa per­fei­ta­mente plau­sível a mais de 60% dos ame­ri­canos. Esta ra­di­ca­li­dade re­li­giosa ex­plica as «con­versas diá­rias» do ex-pre­si­dente Bush com Deus e mesmo as ines­go­tá­veis di­a­tribes sobre a na­tu­reza te­o­ló­gica da fé de Obama.

Avante n.º 2105 (3/04/2014)
https://www.avante.pt/pt/2105//129683

sexta-feira, 22 de maio de 2026

Maria J. Paixão - O estranho caso da cidade-evento


* Maria J. Paixão

21 de maio 2026 

A cidade é hoje um paradoxo: há tanta coisa a acontecer a todo o tempo e, no entanto, há também uma sensação de vazio permanente. As cidades dos nossos dias são cidades de papel – sob o verniz publicitário não há quase nada.

Com a chegada da Primavera, germina, novamente, nas nossas cidades um fenómeno que tem vindo a crescer ao longo dos últimos anos: a “eventificação” de expressões culturais no espaço urbano. Por todo o lado proliferam, incessantemente, os festivais, as mostras, as festas...

Todas estas iniciativas comungam de duas caraterísticas distintivas: por um lado, são acontecimentos pontuais e extraordinários, que não se inserem numa programação cultural regular; e, por outro, são ocorrências efémeras e de curta duração, que, muitas vezes, não duram mais do que umas horas ou um par de dias. Trata-se, portanto, de autênticos “eventos”, que, gerando descontinuidade na vida quotidiana da cidade, não assumem qualquer ambição de criar dinâmicas estruturais. São anunciados com pompa e circunstância e esfumam-se rapidamente; vêm e vão, entretendo, temporariamente, a cidade, sem deixar nada de substancial para trás.

Embora a vivência no espaço urbano sempre tenha sida pontuada por eventos, a sua recente proliferação, bem como a emergência de uma autêntica “época de eventos” nas nossas cidades, são dignas de nota. Recusando enveredar pela superficialidade do moralismo, mas também rejeitando o conformismo acrítico, importa refletir sobre o modo como este fenómeno tem transformado a cidade. Essa reflexão é tanto mais importante quanto a “evento-mania” a que assistimos é subsidiada por recursos públicos e influi decisivamente sobre o modo como o espaço urbano é organizado e ocupado. Se, como parece ser exato, os processos de urbanização são corresponsáveis pelo tipo de comunidade que construímos, então não podemos ignorar as consequências da saturação de eventos na polis.

A “eventificação” que se desenrola por toda a parte pode ser analisada tanto como causa como consequência das específicas dinâmicas de reorganização urbana do nosso tempo. Como nos ensinaram Lefebvre e, mais tarde, Harvey, a criação e recriação do espaço urbano devem ser compreendidas no quadro do modo de produção dominante. A compulsão expansiva do capitalismo, geradora de sucessivas crises de sobreprodução, tem sido, desde os seus primórdios, determinante para a transformação das cidades – das grandes avenidas da belle époque à gentrificação das capitais europeias dos nossos dias, passando pelos fenómenos de suburbanização, privatização do espaço público e, mais recentemente, financeirização do edificado urbano.

A mais recente etapa deste processo de mutação urbana reproduz as caraterísticas principais do estádio de desenvolvimento do capitalismo pós-industrial em que nos encontramos: mercantilização total, homogeneização e atomização. A cidade é hoje um paradoxo: há tanta coisa a acontecer a todo o tempo e, no entanto, há também uma sensação de vazio permanente. As cidades dos nossos dias são cidades de papel – sob o verniz publicitário não há quase nada.

Desde, pelo menos, os anos 90 do século passado temos assistido à desindustrialização acelerada das sociedades ocidentais e à concomitante desmaterialização da economia. Em consequência, o mundo urbano passou a girar em torno do consumo, do turismo e do rentismo. Tudo é um produto, mas nada é produzido. A própria cidade é hoje produto de consumo fácil, mais para ver do que para ser. Em resultado, nos centros gentrificados, o vazio de habitantes contrasta com a saturação de visitantes. E essa transformação arrasta tudo o resto: em vez das mercearias e de comércio tradicional, a profusão de lojas de lembranças; em vez de bairros onde os residentes criam comunidades longevas, alojamentos de curta duração e arrendamentos precários; em vez de espaços públicos de qualidade que permitem circulação pedonal, congestionamento permanente de trânsito automóvel, gerado pela movimentação pendular da população; e em vez de cultura orgânica e participada, eventos.

A financeirização da economia, que tem permitido ao Capital continuar a expandir-se além dos limites materiais dos sistemas produtivos, também se faz sentir sobre as cidades, transformando casas em ativos financeiros e centrando a vida urbana no turismo. Este processo propagou-se, naturalmente, à cultura, que passa a habitar o cruzamento entre a turistificação e a especulação.

Nas cidades gentrificadas, o esvaziamento dos centros urbanos começou por provocar o declínio acentuado da vida cultural de base. Basta pensar na escassez crescente de teatros e cinemas de bairro e de livrarias independentes. A eventificação das cidades é um passo adiante nesse processo: os eventos que hoje se sucedem incessantemente nas nossas cidades não são principalmente culturais; são, antes de mais, comerciais. Trata-se, as mais das vezes, de iniciativas inorgânicas, que vivem, sobretudo, da aparência arrojada, o que lhes garante difusão alargada em meios de comunicação e redes sociais. O essencial é o espetáculo, pois é ele que serve de comburente à publicidade.

Embora propagandeados como veículo de dinamização económica local, os eventos assumem, muitas vezes, na prática, uma tendência extrativista, beneficiando sobretudo agentes económicos externos ao ecossistema local. Mesmo os efeitos locais positivos são, por norma, concentrados no tempo, não criando dinâmicas de revitalização económica duradouras.

Além disso, gerando uma ilusão de dinamismo cultural, a eventificação das cidades desencadeia um processo de substituição de prioridades políticas que tem efeitos perniciosos sobre o setor da cultura. De facto, o próprio conceito de ‘evento’ encerra uma confusão errónea entre cultura e entretenimento. Ainda que recusando moralizar opções individuais, é imperativo distinguir um e outro conceitos, já que os motivos que podem justificar a intervenção pública em cada setor são distintos. O financiamento público da cultura deve nortear-se por objetivos formativos, de promoção da cultura democrática e fomento da reflexão crítica coletiva. Ora, quando confundimos entretenimento com cultura, abrimos porta ao redirecionamento do financiamento público para iniciativas predominantemente comerciais, contribuindo ainda mais para o subfinanciamento crónico das iniciativas culturais orgânicas que prosseguem aqueles objetivos. Ademais, ao saturar a cidade de eventos, promove-se uma relação atomizada e consumista com a cultura, em vez de estimular ecossistemas de participação e envolvimento local que permitam revitalizar os espaços urbanos decadentes.

a sociedade do espetáculo transforma a cidade-arena cívica em cidade-evento

A ideia de que a eventificação das cidades é inócua e de que cabe aos poderes públicos locais apoiar quaisquer iniciativas de dinamização urbana que lhe sejam propostas assenta, em suma, em duas premissas erradas: por um lado, a neutralidade da intervenção pública; e, por outro, a inocuidade do tipo de atividade que ocupa o espaço público. Quando um Município escolhe subsidiar, sistematicamente, eventos sem quaisquer horizontes cívicos está, não só a comprometer o financiamento duradouro e estrutural do setor cultural local, mas também a promover uma cidade de consumo, atomizada e pouco resiliente. A polis só pode subsistir enquanto nela subsistirem espaços, físicos e simbólicos, de participação e reflexão. À medida que a cultura é transformada em produto turístico-financeiro, as nossas cidades afastam-se cada vez mais desse ideal, vendo-se transformadas em montras para negócios que asfixiam a vida em comunidade. Num golpe derradeiro, a sociedade do espetáculo transforma a cidade-arena cívica em cidade-evento.

https://www.esquerda.net/opiniao/o-estranho-caso-da-cidade-evento/98115

quarta-feira, 20 de maio de 2026

hélder moura - O Socialismo segundo Albert Einstein

.hélder moura 20.05.26

 

É sempre recompensador einteressante tentar apercebermo-nos como as inteligências mais reputadas articulam os seus pensamentos. Infelizmente, grande parte dos seus escritos são demasiado técnicos ou especializados, estampados num cânone de si limitativo, o que dificulta essa desejada leitura.

Mas nem sempre é esse o caso, como por exemplo neste artigo de Albert Einstein, por ele intitulado “Why Socialism?”, publicado em maio de 1949 na primeira edição da Monthly Review, que aqui deixo na sua tradução integral:

 

 

Será aconselhável que alguém sem conhecimentos em questões económicas e sociais expresse opiniões sobre o socialismo? Acredito que sim, por uma série de razões.

 

Consideremos em primeiro lugar a questão do ponto de vista do conhecimento científico. Pode parecer que não existem diferenças metodológicas essenciais entre a astronomia e a economia: os cientistas de ambos os campos procuram descobrir leis de aceitabilidade geral para um grupo circunscrito de fenómenos, de modo a tornar a interligação destes fenómenos o mais compreensível possível. Mas, na realidade, tais diferenças metodológicas existem. A descoberta de leis gerais no domínio da economia é dificultada pelo facto de os fenómenos económicos observados serem frequentemente afetados por muitos fatores que são muito difíceis de avaliar separadamente. Além disso, a experiência acumulada desde o início do chamado período civilizado da história da humanidade foi — como é sabido — largamente influenciada e limitada por causas que não são, de modo algum, exclusivamente económicas. Por exemplo, a maioria dos grandes estados da história deve a sua existência à conquista. Os povos conquistadores estabeleceram-se, legal e economicamente, como a classe privilegiada do país conquistado. Monopolizaram a propriedade da terra e nomearam um sacerdócio entre as suas próprias fileiras. Os sacerdotes, no controlo da educação, transformaram a divisão de classes da sociedade numa instituição permanente e criaram um sistema de valores pelo qual o povo passou a ser guiado, em grande parte inconscientemente, no seu comportamento social.

 

Mas a tradição histórica é, por assim dizer, de ontem; em momento algum superamos de facto aquilo a que Thorstein Veblen chamou a “fase predatória” do desenvolvimento humano. Os factos económicos observáveis ​​pertencem a esta fase e mesmo as leis que deles podemos derivar não são aplicáveis ​​a outras fases. Como o verdadeiro propósito do socialismo é precisamente superar e avançar para além da fase predatória do desenvolvimento humano, a ciência económica no seu estado atual pouco pode esclarecer sobre a sociedade socialista do futuro.

 

Em segundo lugar, o socialismo está direcionado para um fim socio ético. A ciência, no entanto, não pode criar fins e, muito menos, incuti-los nos seres humanos; A ciência, no máximo, pode fornecer os meios para atingir determinados fins. Mas os próprios fins são concebidos por personalidades com elevados ideais éticos e — se esses fins não nascerem mortos, mas antes vitais e vigorosos — são adotados e levados avante por muitos seres humanos que, quase inconscientemente, determinam a lenta evolução da sociedade.

Por estas razões, devemos ter cuidado para não sobrestimar a ciência e os métodos científicos quando se trata de problemas humanos; e não devemos presumir que apenas os especialistas têm o direito de se exprimir sobre questões que afetam a organização da sociedade.

 

Inúmeras vozes têm vindo a afirmar desde há algum tempo que a sociedade humana atravessa uma crise, que a sua estabilidade foi gravemente abalada. É característico de tal situação que os indivíduos se sintam indiferentes ou mesmo hostis em relação ao grupo, pequeno ou grande, a que pertencem. Para ilustrar o que quero dizer, permitam-me que registe aqui uma experiência pessoal. Recentemente, conversei com um homem inteligente e bem-intencionado sobre a ameaça de uma outra guerra, que, na minha opinião, colocaria em sério risco a existência da humanidade, e observei que só uma organização supranacional ofereceria proteção contra este perigo. Perante isto, o meu visitante, com muita calma e frieza, disse-me: “Porque se opõe tão veementemente ao desaparecimento da raça humana?”

 

Estou certo de que, há pouco mais de um século, ninguém teria feito uma afirmação deste tipo com tanta leviandade. É a declaração de um homem que se esforçou em vão para alcançar o equilíbrio interior e que, em certa medida, perdeu a esperança de o obter. É a expressão de uma dolorosa solidão e isolamento que afligem tantas pessoas nos dias de hoje. Qual a causa? Existe uma saída?

 

É fácil levantar tais questões, mas difícil respondê-las com qualquer grau de certeza. Devo, contudo, tentar da melhor maneira possível, embora esteja bem ciente de que os nossos sentimentos e aspirações são frequentemente contraditórios e obscuros, e que não podem ser expressos em fórmulas fáceis e simples.

 

O homem é, ao mesmo tempo, um ser solitário e um ser social. Como ser solitário, procura proteger a sua própria existência e a daqueles que lhe são mais próximos, satisfazer os seus desejos pessoais e desenvolver as suas capacidades inatas. Como ser social, procura obter o reconhecimento e o afeto dos seus semelhantes, partilhar os seus prazeres, confortá-los nas suas tristezas e melhorar as suas condições de vida. Só a existência destas aspirações variadas e frequentemente conflituantes explica o carácter especial de um homem, e a sua combinação específica determina até que ponto um indivíduo pode alcançar um equilíbrio interior e contribuir para o bem-estar da sociedade. É bem possível que a força relativa destas duas aspirações seja, em grande parte, determinada pela hereditariedade. Mas a personalidade que finalmente emerge é amplamente formada pelo meio em que o homem se encontra durante o seu desenvolvimento, pela estrutura da sociedade em que cresce, pela tradição dessa sociedade e pela sua avaliação de determinados tipos de comportamento. O conceito abstrato de “sociedade” significa, para o ser humano individual, a soma total das suas relações diretas e indiretas com os seus contemporâneos e com todas as pessoas das gerações anteriores. O indivíduo é capaz de pensar, sentir, lutar e trabalhar por si próprio; mas depende tanto da sociedade — na sua existência física, intelectual e emocional — que é impossível pensar nele, ou compreendê-lo, fora da estrutura da sociedade. É a “sociedade” que fornece ao homem alimento, vestuário, habitação, instrumentos de trabalho, linguagem, formas de pensamento e a maior parte do conteúdo do pensamento; a sua vida torna-se possível graças ao trabalho e às realizações de milhões de pessoas, do passado e do presente, que estão todas escondidas por detrás da pequena palavra “sociedade”.

 

É evidente, portanto, que a dependência do indivíduo em relação à sociedade é um facto da natureza que não pode ser abolido — tal como no caso das formigas e das abelhas. Contudo, enquanto todo o processo vital das formigas e das abelhas é determinado, até o menor detalhe, por instintos hereditários rígidos, o padrão social e as inter-relações dos seres humanos são muito variáveis ​​e suscetíveis a mudanças. A memória, a capacidade de fazer novas combinações e o dom da comunicação oral possibilitaram desenvolvimentos entre os seres humanos que não são ditados por necessidades biológicas. Tais desenvolvimentos manifestam-se nas tradições, instituições e organizações; na literatura; nas conquistas científicas e de engenharia; nas obras de arte. Isto explica como, num certo sentido, o homem pode influenciar a sua vida através da sua própria conduta e como, neste processo, o pensamento e o desejo conscientes podem desempenhar um papel.

 

O homem adquire, à nascença, por hereditariedade, uma constituição biológica que devemos considerar fixa e inalterável, incluindo os impulsos naturais que são característicos da espécie humana. Além disso, ao longo da vida, o indivíduo adquire uma constituição cultural que adota da sociedade através da comunicação e de muitas outras influências. É esta constituição cultural que, com o passar do tempo, está sujeita a alterações e que determina, em grande medida, a relação entre o indivíduo e a sociedade. A antropologia moderna ensinou-nos, através da investigação comparativa das culturas ditas primitivas, que o comportamento social dos seres humanos pode variar muito, dependendo dos padrões culturais predominantes e dos tipos de organização que prevalecem na sociedade. É nisto que aqueles que se esforçam por melhorar a condição humana podem fundamentar as suas esperanças: os seres humanos não estão condenados, por causa da sua constituição biológica, a aniquilarem-se mutuamente ou a estarem à mercê de um destino cruel e autoimposto.

 

Se nos interrogarmos sobre a forma como a estrutura da sociedade e a atitude cultural do homem devem ser alteradas para tornar a vida humana o mais satisfatória possível, devemos estar constantemente conscientes de que existem certas condições que não podemos modificar. Como já foi referido anteriormente, a natureza biológica do homem, para todos os efeitos práticos, não está sujeita a alterações. Além disso, os desenvolvimentos tecnológicos e demográficos dos últimos séculos criaram condições que vieram para ficar. Em populações relativamente densamente povoadas, com os bens indispensáveis ​​à sua sobrevivência, é absolutamente necessária uma divisão extrema do trabalho e um aparelho produtivo altamente centralizado. O tempo — que, olhando para trás, parece tão idílico — passou para sempre, quando indivíduos ou grupos relativamente pequenos podiam ser completamente autossuficientes. Não é exagero afirmar que a humanidade constitui, ainda hoje, uma comunidade planetária de produção e consumo.

 

Cheguei agora ao ponto em que posso indicar brevemente aquilo que, para mim, constitui a essência da crise do nosso tempo. Diz respeito à relação do indivíduo com a sociedade. O indivíduo tornou-se mais consciente do que nunca da sua dependência da sociedade. Mas não vive esta dependência como um ativo positivo, como um laço orgânico, como uma força protetora, mas antes como uma ameaça aos seus direitos naturais, ou mesmo à sua existência económica. Além disso, a sua posição na sociedade é tal que os impulsos egoístas da sua natureza são constantemente acentuados, enquanto os seus impulsos sociais, que são por natureza mais fracos, se deterioram progressivamente. Todos os seres humanos, qualquer que seja a sua posição na sociedade, sofrem com este processo de deterioração. Inconscientemente prisioneiros do seu próprio egoísmo, sentem-se inseguros, solitários e privados do prazer ingénuo, simples e descomplicado da vida. O homem só pode encontrar sentido na vida, curta e perigosa como é, dedicando-se à sociedade.

 

A anarquia económica da sociedade capitalista, tal como existe hoje, é, na minha opinião, a verdadeira fonte do mal. Vemos diante de nós uma vasta comunidade de produtores cujos membros se esforçam incessantemente por privar uns aos outros dos frutos do seu trabalho coletivo — não pela força, mas, em geral, em fiel conformidade com as normas legalmente estabelecidas. A este respeito, é importante perceber que os meios de produção — isto é, toda a capacidade produtiva necessária para a produção de bens de consumo, bem como de bens de capital adicionais — podem ser, e na maioria das vezes são, propriedade privada de indivíduos.

 

Por uma questão de simplicidade, na discussão que se segue, chamarei “trabalhadores” a todos aqueles que não partilham a propriedade dos meios de produção — embora isso não corresponda exatamente ao uso habitual do termo. O proprietário dos meios de produção está em condições de comprar a força de trabalho do trabalhador. Ao utilizar os meios de produção, o trabalhador produz novos bens que passam a ser propriedade do capitalista. O ponto essencial deste processo é a relação entre o que o trabalhador produz e o que lhe é pago, sendo ambos medidos em termos de valor real. Na medida em que o contrato de trabalho é “livre”, o que o trabalhador recebe não é determinado pelo valor real dos bens que produz, mas sim pelas suas necessidades mínimas e pelas exigências dos capitalistas em relação à força de trabalho, considerando o número de trabalhadores que competem por vagas. É importante compreender que, mesmo em teoria, a remuneração do trabalhador não é determinada pelo valor do seu produto.

 

O capital privado tende a concentrar-se em poucas mãos, em parte devido à competição entre os capitalistas e em parte porque o desenvolvimento tecnológico e a crescente divisão do trabalho incentivam a formação de unidades de produção maiores em detrimento das mais pequenas. O resultado destes desenvolvimentos é uma oligarquia do capital privado, cujo enorme poder não pode ser eficazmente controlado nem sequer por uma sociedade política organizada democraticamente. Isto acontece porque os membros dos órgãos legislativos são escolhidos por partidos políticos, amplamente financiados ou influenciados por capitalistas privados que, para todos os efeitos práticos, separam o eleitorado do legislativo. A consequência é que os representantes do povo não protegem, de facto, suficientemente os interesses das camadas menos favorecidas da população. Além disso, nas condições atuais, os capitalistas privados controlam inevitavelmente, direta ou indiretamente, as principais fontes de informação (imprensa, rádio, educação). Assim, torna-se extremamente difícil, e na maioria dos casos praticamente impossível, para o cidadão comum chegar a conclusões objetivas e exercer os seus direitos políticos de forma inteligente.

 

A situação que prevalece numa economia baseada na propriedade privada do capital é, portanto, caracterizada por dois princípios principais: em primeiro lugar, os meios de produção (capital) são propriedade privada e os proprietários dispõem deles como bem entenderem; segundo, o contrato de trabalho é livre. É claro que não existe uma sociedade capitalista pura neste sentido. Em particular, é de notar que os trabalhadores, através de longas e árduas lutas políticas, conseguiram garantir uma forma um pouco melhorada do “contrato de trabalho livre” para certas categorias de trabalhadores. Mas, de um modo geral, a economia atual não difere muito do capitalismo “puro”.

 

A produção é realizada com o objetivo de lucro, não para uso. Não há garantia de que todos os capazes e dispostos a trabalhar encontrarão sempre emprego; um “exército de desempregados” existe quase sempre. O trabalhador vive constantemente com medo de perder o emprego. Como os trabalhadores desempregados e mal remunerados não constituem um mercado lucrativo, a produção de bens de consumo é limitada, resultando em grandes dificuldades. O progresso tecnológico resulta frequentemente em mais desemprego do que numa redução da carga de trabalho para todos. A procura do lucro, em conjunto com a competição entre capitalistas, é responsável por uma instabilidade na acumulação e utilização do capital, o que leva a depressões cada vez mais severas. A competição desenfreada leva a um enorme desperdício de mão-de-obra e ao enfraquecimento da consciência social dos indivíduos, como já referi anteriormente.

 

Considero este enfraquecimento dos indivíduos o pior mal do capitalismo. Todo o nosso sistema educativo sofre deste mal. Uma atitude competitiva exacerbada é inculcada no aluno, que é treinado para idolatrar o sucesso material como preparação para a sua futura carreira.

 

Estou convencido de que só existe uma forma de eliminar estes graves males: o estabelecimento de uma economia socialista, acompanhada de um sistema educativo orientado para os objetivos sociais. Numa tal economia, os meios de produção pertencem à própria sociedade e são utilizados de forma planificada. Uma economia planificada, que ajusta a produção às necessidades da comunidade, distribuiria o trabalho por todos os capazes de trabalhar e garantiria o sustento de todos os homens, mulheres e crianças. A educação do indivíduo, para além de promover as suas capacidades inatas, procuraria desenvolver nele um sentido de responsabilidade para com os seus semelhantes, em vez da glorificação do poder e do sucesso presentes na nossa sociedade atual.

 

Contudo, é necessário lembrar que uma economia planificada ainda não é socialismo. Uma economia planificada, por si só, pode ser acompanhada pela completa escravização do indivíduo. A conquista do socialismo exige a solução de alguns problemas sociopolíticos extremamente difíceis: como é possível, perante a ampla centralização do poder político e económico, impedir que a burocracia se torne omnipotente e prepotente? Como proteger os direitos do indivíduo e, assim, garantir um contrapeso democrático ao poder da burocracia?

 

A clareza sobre os objetivos e os problemas do socialismo é de primordial importância na nossa era de transição. Uma vez que, nas circunstâncias atuais, a discussão livre e desimpedida destes problemas se tornou um forte tabu, considero a fundação desta revista um importante serviço público.

https://otempoemquevivemosotempoemquevivemos.blogs.sapo.pt/


domingo, 22 de fevereiro de 2026

Prabhat Patnaik - Poderia a Europa proporcionar uma "terceira via"?


Desigualdade crescente da riqueza.


Prabhat Patnaik [*]

Com a administração Trump a adotar medidas brutalmente repressivas não só contra os imigrantes mas também contra os cidadãos americanos, surgiu uma tendência nos círculos liberais americanos de olhar para a Europa como uma "terceira via", um "modelo" diferente tanto da China como dos EUA, as duas grandes potências em disputa no mundo atual. É claro que os liberais americanos nunca foram apaixonados pela China; portanto, não é surpreendente que rejeitem o "modelo" chinês. Mas com a democracia a enfraquecer nos próprios EUA, eles veem na Europa um potencial para combinar êxito económico com democracia eficaz, direitos humanos e justiça social. Para que esse potencial se concretize, acreditam que a Europa deve colocar a sua economia em ordem, mantendo as forças de extrema direita à distância.

Embora a democracia europeia possa parecer atraente para os liberais americanos, aos olhos do terceiro mundo ela sempre foi associada ao imperialismo, e isso continua a ser o caso mesmo após o fim formal dos impérios coloniais. A Grã-Bretanha tem sido cúmplice ativa na maioria das conspirações levadas a cabo pelo imperialismo norte-americano contra governos "recalcitrantes" do terceiro mundo que procuraram ou exerceram controlo independente sobre os seus próprios recursos naturais, desde Mossadegh no Irão, a Lumumba no Congo, a Saddam Hussein no Iraque. Quanto à França, a descolonização nunca foi concluída na África francófona, com tropas francesas continuando a estar estacionadas na maioria das antigas colónias francesas formalmente independentes. Quando Thomas Sankara, do Burquina Faso, procurou livrar-se das tropas francesas, foi derrubado e assassinado num golpe de Estado que se suspeita ter sido fortemente apoiado pela França; só agora é que está a ser feito um esforço renovado em alguns países da África Ocidental, incluindo o Burquina Faso, para se livrar das tropas francesas.

O apoio dado pela Europa ao genocídio em Gaza faz parte desse padrão; e, além disso, vários liberais europeus alinharam-se, pelo menos implicitamente, com o apoio de seus governos ao genocídio, como ficou evidente, por exemplo, quando o cineasta alemão Wim Wenders, presidente do júri do Festival de Cinema de Berlim, questionado sobre esse genocídio, disse que a política deveria ser mantida separada do cinema.

Mas vamos esquecer tudo isso; vamos também esquecer o facto de que a Europa é responsável pelo naufrágio dos acordos de Minsk, que poderiam ter evitado a guerra na Ucrânia, e é hoje a oponente mais veemente de qualquer solução pacífica para este conflito. Esqueçamos a sua cumplicidade tanto no esforço para alargar a NATO até à fronteira russa como na derrubada de Viktor Yanukovych, que foi auxiliada e incentivada, como até o Instituto Cato, sediado nos EUA, admite, pela administração liberal de Obama. Examinemos apenas o argumento restrito sobre a possibilidade de a Europa proporcionar uma "terceira via".

O que este argumento geralmente pressupõe é que estas peripécias de Trump são devidas inteiramente às suas falhas pessoais; o que não questiona é por que razão uma pessoa assim chegou ao poder nos EUA e por que razão também na Europa o meio-termo liberal parece estar a desmoronar-se, tal como aconteceu com a eleição de Trump nos EUA. Dito de outra forma, o argumento não relaciona a eleição de Trump, ou as perspetivas políticas da Europa, com quaisquer causas económicas subjacentes, em particular com o estado atual do capitalismo.

A característica mais marcante do capitalismo contemporâneo que caracteriza tanto os EUA como a Europa é um enorme declínio na participação da classe trabalhadora no rendimento nacional. Na verdade, esse declínio foi tão grande que Joseph Stiglitz chega a sugerir que o salário real de um trabalhador americano médio em 2011 era inferior, em termos absolutos, ao de 1968. Também na Europa, de acordo com o Banco Central Europeu, os salários reais, que caíram drasticamente em termos absolutos em 2022-23, não recuperaram o seu nível do quarto trimestre de 2021 até ao quarto trimestre de 2024; e a crise energética na Alemanha, resultante da guerra na Ucrânia, só veio agravar os problemas da sua classe trabalhadora. No entanto, para além das flutuações específicas, tem havido um choque salarial geral para os trabalhadores europeus (tal como, de facto, para os trabalhadores americanos) decorrente do fenómeno da globalização neoliberal, que se prolonga há décadas, em que a mobilidade do capital sujeitou estes trabalhadores ao impacto nefasto das enormes reservas de mão-de-obra do terceiro mundo nas suas reivindicações salariais. A cólera dos trabalhadores dos países capitalistas avançados contra os regimes políticos liberais que promoveram os regimes económicos neoliberais é, portanto, significativa e compreensível; o enfraquecimento das forças políticas liberais em todos esses países, do chamado “meio-termo” entre a extrema direita e a esquerda, é o resultado direto disso.

Na verdade, esses elementos "centristas", seja Hilary Clinton nos EUA, o New Labour no Reino Unido, Macron na França ou Friedrich Merz na Alemanha, também têm sido notavelmente alheios e, portanto, indiferentes à situação dos trabalhadores nos seus respetivos países; e muitos deles são ex-funcionários de grandes empresas, como Merz, que trabalhou na gigante financeira Blackrock. Os trabalhadores, portanto, voltaram-se para a extrema-direita ou para a esquerda; e onde a esquerda foi frustrada pelas maquinações desse “centro”, como foi o caso de Jeremy Corbyn na Grã-Bretanha ou Bernie Sanders nos EUA, eles migraram em grande número para a extrema-direita. Só em França é que uma esquerda unida conseguiu frustrar tais maquinações e emergiu como a formação política mais forte, empurrando a extrema-direita liderada por Marine Le Pen para o segundo lugar.

Reverter o declínio acentuado da participação dos trabalhadores no rendimento nacional, que constitui uma condição necessária para obter o seu apoio e, portanto, para preservar a democracia contra o ataque da extrema direita, requer uma intervenção fiscal ativa por parte do Estado. Mas tal intervenção é impossível num mundo onde não há controlo de capitais, pois qualquer intervenção desse tipo daria origem a uma fuga de capitais do país que a tentasse. Por outras palavras, qualquer reversão do declínio acentuado da participação dos trabalhadores no rendimento nacional requer uma retirada do regime neoliberal, que só a esquerda pode realizar; a extrema direita pode prometer uma melhoria nessa participação, mas necessariamente trairá essa promessa, uma vez que a extrema direita requer, para o seu sucesso, o apoio do capital monopolista, que obviamente não toleraria um declínio na sua própria participação no rendimento.

Os círculos liberais americanos que depositam as suas esperanças na Europa para fornecer um "modelo", uma "terceira via", e gostariam que a sua economia passasse por uma transformação, não abordam este ponto básico. Ou seja, que a espontaneidade do capitalismo, restaurada pelo neoliberalismo após a fase pós-guerra de intervenção estatal keynesiana, implica uma tendência imanente de desigualdade de rendimentos que trouxe sofrimento à classe trabalhadora e cuja consequência foi a ascensão da extrema-direita. A Europa não pode servir de "modelo" de qualquer tipo, a menos que essa espontaneidade seja superada através da intervenção de um governo sensível às necessidades da classe trabalhadora, ou seja, um governo de esquerda, o único capaz de tirar a economia das garras do neoliberalismo, impondo controlos de capitais. Esses círculos podem ver a necessidade de algum recuo em relação ao atual nível de globalização, mas os controlos de capitais vão ao cerne do neoliberalismo.

Não apenas as economias europeias, mas a economia mundial como um todo atingiu hoje um momento crítico, em que a preservação da democracia exige a chegada ao poder de governos sustentados pelo apoio da classe trabalhadora (ou, no caso dos países do terceiro mundo, pelo apoio do povo trabalhador como um todo, composto por trabalhadores, camponeses, trabalhadores rurais e pequenos produtores). Os limites à ação governamental na Europa surgem não por causa da natureza e do nível da integração europeia, mas, como em todas as outras regiões do mundo, por causa da camisa de força do neoliberalismo. O problema com os liberais, o que também se aplica à tendência liberal americana que temos vindo a discutir, é que eles não estão suficientemente conscientes deste facto.

A situação difícil da Europa hoje não é, portanto, diferente da dos Estados Unidos. É verdade que ela teve uma história diferente e, assim, um legado económico diferente dos Estados Unidos, decorrente das correlações muito diferentes das forças de classe no final da Segunda Guerra Mundial; mas todas essas diferenças foram superadas atualmente pela exposição comum às tendências imanentes do capitalismo neoliberal. As consequências dessa exposição exigem não a busca de algum “modelo” europeu distinto do que vem acontecendo nos Estados Unidos, mas a superação do capitalismo neoliberal. Donald Trump, é preciso enfatizar, não conseguiu isso, apesar de sua agressividade tarifária: ele permanece fiel à essência do neoliberalismo por seu compromisso com o livre fluxo de capitais transfronteiriços, especialmente fluxos financeiros.

22/Fevereiro/2026

https://resistir.info/patnaik/patnaik_22fev26.html
Ver também:

World Inequality Report 2026 (para descarregamento, 208 p.)  in  https://wir2026.wid.world/

O original encontra-se em peoplesdemocracy.in/2026/0222_pd/can-europe-provide-“third-way”

sábado, 21 de fevereiro de 2026

Robert Reich - O caso Epstein

Robert Reich
 ·
Amigos,

A polícia no Reino Unido prendeu Andrew Mountbatten-Windsor, o antigo Príncipe Andrew e Duque de Iorque, sob suspeita de má conduta no cargo público - após a divulgação de emails entre Mountbatten-Windsor e o falecido banqueiro desgraçado Jeffrey Epstein.

Ainda não sabemos as cobranças específicas. Mas sabemos que a falecida Virginia Giuffre, uma vítima de Epstein, acusou Mountbatten-Windsor de a violar.

Sabemos também que Mountbatten-Windsor foi o enviado comercial do Reino Unido entre 2001 e 2011 e parece ter enviado ao Epstein relatórios confidenciais do governo de visitas ao Vietname, Singapura e China, incluindo oportunidades de investimento em ouro e urânio no Afeganistão.

O primeiro-ministro Keir Starmer diz: "Ninguém está acima da lei. ” A família de Virginia Giuffre diz: “Ninguém está acima da lei, nem mesmo da realeza. ” diz o promotor-chefe da Grã-Bretanha: “Ninguém está acima da lei. ”

Tudo isso levanta perguntas estranhas sobre as pessoas implicadas deste lado do lago, incluindo a pessoa na Sala Oval que adora ser tratada como um rei, e que aparece nos arquivos Epstein 1.433 vezes (isto é, nos arquivos que foram divulgados para longe). O Príncipe Andrew aparece neles 1.821 vezes.

A América gosta de acreditar que desistimos de reis há quase 250 anos e adoptamos um sistema em que "ninguém está acima da lei. ”

Mas a política externa de Trump tornou-se uma ferramenta pessoal para ele canalizar dinheiro e status para si mesmo e para os seus associados mais próximos. Desde as eleições de 2024, a riqueza pessoal da família Trump aumentou em pelo menos 4 bilhões de dólares de acordo com uma estimativa do The New Yorker.

Tal como acontece com a realeza britânica do século XVI, é tudo pessoal com Trump - tudo sobre expandir o seu poder e aumentar a sua riqueza e a da sua família. Receitas da venda de petróleo venezuelano? “Esse dinheiro será controlado por mim”, diz ele. O presente de um avião do Qatar? “Meu. ” Investimentos dos reinos do Oriente Médio na raquete criptográfica da sua família? “Perfeitamente bem. ”

Tal como a realeza britânica de antigamente, o Rei Trump tem poder arbitrário. Ele aumenta a tarifa da Suíça de 30 para 39 por cento porque a sua ex-presidente Karin Keller-Sutter "apenas me esfregou da maneira errada. ” Ele impõe uma tarifa de 50 por cento ao Brasil porque o Brasil se recusou a interromper a acusação de um aliado político de Trump, o ex-presidente brasileiro Jair Bolsonaro, que foi considerado culpado de tramar um golpe. O Vietnã acelera a aprovação de um campo de golfe da família Trump de 1,5 bilhão de dólares, ao mesmo tempo que procura reduzir a sua taxa de tarifa.

Trump afirma que a Gronelândia é "psicologicamente necessária", embora os Estados Unidos já tenham uma presença militar lá e um convite aberto para expandir as suas bases. Ele pensa sobre fazer do Canadá o “51.o estado. ” Estes são recordações da era do império do século XVI.

Entretanto, Trump criou um sistema de tributo e lealdade que faria com que Henrique VIII ficasse com inveja.

Tim Cook da Apple entrega uma placa baseada em ouro e uma doação para o salão de baile planeado de Trump. Bilionários suíços trazem uma barra de ouro e um relógio de mesa Rolex para a Sala Oval. Jeff Bezos apoia um filme vapido de Melania e entrega-lhe um cheque de 28 milhões de dólares.

Trump perdoa Changpeng Zhao, o magnata bilionário que se declarou culpado de violações de lavagem de dinheiro em 2023, depois disso, a plataforma de negociação de moedas digitais Binance da Zhao torna-se o motor do negócio de criptografia da família Trump, a World Liberty Financial.

A enorme contribuição de Elon Musk para a campanha de 2024 de Trump rendeu a Musk um ducado - um "departamento de eficiência governamental" - e as chaves para o reino na forma de sistemas sensíveis do Departamento do Tesouro dos EUA utilizados para gerir pagamentos federais.

Mas quando o Duque de DOGE começa a tornar-se mais visível do que o Rei Trump, o rei bani-o e revoga o seu ducado. Quando o Musk banido começa a criticar abertamente Trump, o rei ameaça cortar a cabeça de Musk na forma de cortá-lo e à sua SpaceX de contratos governamentais valiosos. Isto acaba com a impertinência de Musk.

O novo TikTok (no qual Trump tem mais de 16 milhões de seguidores) continuará a operar nos Estados Unidos - mas agora com o apoio financeiro da Oracle, aliada de Trump, Larry Ellison, a empresa de investimento aliada da Emirati de Trump, MGX (que já investiu na empresa de criptomoedas da família Trump), e Silver Lake, juntou-se à firma de capital privado fundada pelo genro de Trump, Jared Kushner.

Trump permite que a Nvidia venda fichas para os Emirados Árabes Unidos e Arábia Saudita e estende garantias militares para o Qatar - todos eles investiram no império da família Trump. (Investidores apoiados pela Emirati lançaram 2 bilhões de dólares no World Liberty Financial. )

Em vez de glória nacional, Trump exige glória pessoal - para obter o Prémio Nobel da Paz, para colocar o seu nome no Kennedy Center, na Estação Penn e noutros grandes monumentos e edifícios.

Se os seus comandos não forem cumpridos, ele castiga. Como a Noruega não lhe deu um Nobel (não era da Noruega para dar de qualquer forma), ele "já não se sente obrigado a pensar apenas em paz. ” Porque os artistas se recusam a aparecer no Centro “Trump-Kennedy”, ele fecha-o.

Em vez de burocracias, a América agora tem uma comitiva real. Em vez de instituições, agora temos prerrogativa real. Em vez de legitimidade baseada na vontade do povo, existe um direito divino (“Eu tinha Deus ao meu lado”, “Deus estava a proteger-me”, “Deus está ao nosso lado”).

Marcharemos contra o Rei Trump no próximo Dia Sem Reis em 28 de março - espero que seja o maior protesto da história americana.

Mas a prisão do antigo Príncipe Andrew levanta uma questão que vai muito além de protestar e marchar. O Rei Trump estava evidentemente envolvido nos feitos nefastos de Jeffrey Epstein. Não sabemos exatamente como porque não houve investigação criminal. Não deveria haver?

Trump também vem enriquecendo a si mesmo e à sua família através do seu cargo público, violando múltiplas leis sobre conflitos de interesses.

Se o Reino Unido pode prender o antigo Príncipe Andrew com provas deste tipo de de crime, porque é que a América não deveria prender o Rei Trump? Se ninguém está acima da lei no Reino Unido, nem mesmo da realeza, presumivelmente ninguém está acima da lei nos EUA, nem mesmo um presidente.

Pam Bondi obviamente não vai investigar Trump, porque ela faz parte da corte do Rei Trump. Mas e um grupo de procuradores-gerais do estado?

Quase 250 anos depois de rompermos com George III, a questão deve ser enfrentada agora: Somos uma monarquia ou uma nação de leis?

Bem, o que é que achas?

2026 02 20

https://www.facebook.com/RBReich