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quinta-feira, 9 de maio de 2024

Carlos Coutinho - Termas e termos

 * Carlos Coutinho

QUANDO, naquele infausto inverno pós-africano, comecei a ver o serrilhado com que a Madeira cortava o azul celeste, apercebi-me de que havia muita neve lá em cima.

Depois, com a teimosia mansa do paquete “Moçambique”, dispensado de aportar na véspera em Las Palmas, comecei a ver nitidamente, na crista da ilha, de cor indefinida, uns risquitos esbranquiçados que se esgarçavam antes de atingirem o meio do lombo verde-negro daquela coisa atlântica.

Já era a famosa pátria do famoso grogue, mas ainda estava longe de ser de o ser também do cada vez mais famoso Cristiano Ronaldo, que até consegue sair de um estádio a chorar mas não tem uma estátua em Lisboa, assim como, ao que consta por aí, já havera um lugar cativo para ele no Panteão Nacional, além de vários bólides. Só lhe faltam os costados da ninha falecida e saudosa Carriça, a ilustre cabra que foi tantas vezes o cavalo da minha meninice.

Lembro-me perfeitamente de que essa era a segunda vez que eu aterrava na dureza de pedra do cais do Funchal e de que devo ter ficado um pouco zonzo, porque não percebi logo o que me diziam uns garotos descalços, que acotovelando-se e quase a caírem à água marítima, me garantiam:

– A minha mãe é muito bonita e está à tua espera. Anda comigo. Anda! Anda! Anda!

Um deles ainda acrescentou:

– Ela sabe fazer tudo. Vamos! Vamos! Vamos!

Claro que não fui. Alguns dos militares desmobilizados como eu, assim como dois ou três turistas que desembarcaram comigo, foram. E eu, durante muitos minutos, tal como agora, ao lembrar-me disto, sinto descer-me por dentro do peito aquele frio impuro da neve das cristas madeirenses.

E sei que, durante não poucos anos, ainda acorriam ao cais do Funchal meninos descalços a angariar clientes para as respetivas mães

 https://www.facebook.com/carlos.coutinho.7186896/

sexta-feira, 19 de janeiro de 2018

Catarina Pires - Quanto é que levas ?

* Catarina Pires

«Prostitutas das nove às cinco.» Era este o título de uma reportagem que ficou por escrever quando eu era pouco mais do que estagiária, já lá vão quase vinte anos. Uma manhã, fui para o Intendente. Almirante Reis acima, Almirante Reis abaixo, antes de ganhar coragem para falar com aquelas que me tinham levado ali.

A certa altura, um homem, velho, sujo, pequeno: «Quanto é que levas?» Eu, de repente, depois do espanto, a coragem: «Sou jornalista, podemos conversar?» Não pudemos. Ele fugiu a correr. Queria perguntar-lhe o que procurava, o que fazia com as mulheres a quem pagava por sexo, como as tratava, era de igual para igual?, quanto pagava?, que idades preferia?, usava preservativo?, era casado?, tinha filhas?, e, se sim, como encararia se, em vez de mim ou das mulheres a quem recorria para ter sexo a troco de dinheiro, fosse a filha dele ali, Almirante Reis acima, Almirante Reis abaixo. Fiquei sem respostas.

É sempre aquele homem que me vem à cabeça quando oiço falar na legalização da prostituição. «Quanto é que levas?»

Sou mulher. Sou feminista. Defendo a liberdade de cada um fazer o que quer da sua vida. Defendo que no meu corpo mando eu. Luto todos os dias pela igualdade de género. E sou contra a legalização da prostituição. Não aceito que, por ser mulher, um homem assuma que eu existo para lhe satisfazer as necessidades sexuais e me pergunte: «Quanto é que levas?»

O primeiro argumento apresentado pela Juventude Socialista para a legalização da prostituição é o de que esta deve ser encarada como uma questão de liberdade de escolha individual e do direito de as pessoas poderem dispor do seu próprio corpo como bem entenderem. Quase me convenciam. É um facto que algumas pessoas se prostituem por opção. E podem fazê-lo. A prostituição não é crime. A lei portuguesa não atenta, pois, contra essa liberdade.

No entanto, a esmagadora maioria das pessoas que se prostituem ou são prostituídas – esmagadora maioria essa feita sobretudo de mulheres – não o fazem por liberdade de escolha, mas sim por falta dela. É esta maioria que precisa de respostas. Não precisa que lhe perguntem: «Quanto é que levas?»

Por isso é que sou contra a legalização da prostituição. Melhor dizendo, sou contra a legalização do lenocínio, que é, na prática, a grande mudança que a legalização da prostituição trará. É feia a palavra lenocínio. E a sua prática é crime. De acordo com o artigo 169º do Código Penal, «quem, profissionalmente ou com intenção lucrativa, fomentar, favorecer ou facilitar o exercício por outra pessoa de prostituição é punido com pena de prisão de seis meses a cinco anos». Pena agravada caso o crime seja cometido «por meio de violência ou ameaça grave; através de ardil ou manobra fraudulenta; com abuso de autoridade resultante de uma relação familiar, de tutela ou curatela, ou de dependência hierárquica, económica ou de trabalho; ou aproveitando-se de incapacidade psíquica ou de situação de especial vulnerabilidade da vítima».

Legalizar a prostituição não protege as pessoas que se prostituem ou são prostituídas, antes converte chulos e proxenetas criminosos em respeitáveis empresários ou empresárias; não combate o tráfico de seres humanos (96 por cento do qual se destina à prostituição), antes lhe abre ainda mais as portas (e não me venham falar da Nova Zelândia, cujo modelo de legalização inspira a proposta da JS. É uma ilha isolada e com menos de cinco milhões de habitantes, não comparável a Portugal, ponto estratégico de confluência entre os continentes americano, africano e europeu); não resolve problemas de saúde pública nem promove a educação sexual, antes normaliza a ideia de sexo enquanto serviço (desde que paguem, podem servir-se), perpetuando as relações assimétricas de género e a violência contra as mulheres.

Se fosse hoje, aquela pergunta – quanto é que levas? – não teria ficado sem resposta.


Catarina Pires, jornalista e autora do livro Cinco Conversas com Álvaro Cunhal.

https://www.tsf.pt/delas/interior/amp/quanto-e-que-levas-prostitutas-das-nove-as-cinco-8944828.html

segunda-feira, 7 de julho de 2008

Novas escravidões


(Um prostíbulo medieval in http://www.sewerhistory.org)




Courbet - “l’origine du monde”





5 DE JULHO DE 2008 - 18h42



por Eduardo Bomfim*

Nesta quarta-feira, dois de julho, o jornal Gazeta de Alagoas publicou extensa reportagem sobre o falecimento misterioso de uma jovem alagoana na Espanha. Luciene Maria da Silva vivia como garota de programa em uma boate, descreve a repórter Clarissa Veiga.


Trata-se da morte de uma brasileira vítima da servidão sexual. São centenas, ou milhares, de mulheres de todos os estados da federação que são cooptadas por traficantes da rotas internacionais da prostituição.


Informa a grande mídia global e nativa que os governos da comunidade européia resolveram adotar medidas drásticas em relação aos imigrantes da América Latina, que são usados como mão de obra aviltada e clandestina na velha Europa.


Eles deveriam usar o mesmo rigor policial contra aqueles que em suas terras revivem a vergonha que mancha a História dessas nações, a escravidão oficial.


Sim, porque a maior parte dos castelos, dos museus, do fausto, do ouro e da prata que cobrem os castelos e monumentos que adornam e encantam o velho continente provêm do sangue e suor dos africanos, dos asiáticos, etc.


Foram extraídos do chicote no lombo daqueles que nem eram considerados seres humanos, mas objetos, assim como as coisas ou utensílios pessoais. Ou resultado dos saques das riquezas dos povos indígenas americanos.


Porque cada gesto da nobreza, os modos de fidalguia, os lenços de seda, os punhos de renda, as especiarias, a elegância da aristocracia, todas essas coisas custaram centenas de milhares de vidas.


Os atuais governantes europeus deveriam se preocupar em criar leis rigorosas contra todos os que enriquecessem através do crime doloso da exploração internacional de escravas do sexo e dos imigrantes não regularizados.


Eles são submetidos a condições humilhantes e degradantes de trabalho, ao arrepio da legislação, desprovidos de cidadania sem o reconhecimento das suas nacionalidades.


Cabe às autoridades brasileiras intensificarem a vigilância e a repressão contra os que se utilizam do hediondo enriquecimento através do trabalho escravo, agora sob a bandeira impune da globalização.


Não será menor a desonra de uma nação ao não proteger as suas filhas, as Lucienes, dos exploradores internacionais do sexo, da nova fórmula de escravidão em pleno século 21.




*Eduardo Bomfim, Advogado


* Opiniões aqui expressas não refletem, necessariamente, a opinião do site.
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in Vermelho 2008.07.07
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imagem da responsabilidade de Victor Nogueira
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sexta-feira, 4 de janeiro de 2008

A Prostituição e a Lisboa Boémia do séc. XIX aos Inícios do séc. XX


Editorial Querco, 1985
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Viajar até à Lisboa Boémia do séc. XIX é conhecer o tecido social desse mundo tido como marginal em que participavam fadistas, marialvas, toureiros, boleeiros, vagabundos, marinheiros e, naturalmente, prostitutas, chulos e proxenetas. É confraternizar, de certa maneira, com os espaços sociais dessa vivência boémia: as horas, as esperas de touros, as tabernas, os bordéis.

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Disponível na Livraria Apolo 70

Índice



































































































Introdução5
I - Elementos para uma sociologia do bordel 15
II - A prostituição, o poder e a moral pública no séc. XIX em Portugal 23
III - A Lisboa boémia 43
1. Fadistas e baiucas 45
2. Fadistas e aristocratas 50
2.1. Nas tabernas 53
2.2. Nas esperas de touros 58
2.3. Do marialvismo fadistola à aristocratização do fado 61
IV - Costumes e mudança na prostituição 71
1. Proxenetas 73
2. Chulos 77
3. Prostitutas 80
3.1. Origem e condição social das prostitutas 81
3.2. Esboço de uma estratificação das prostitutas 93
3.2.1. Usos e padrões de comportamento 93
3.2.2. Preços 102
3.2.3. Área habitacional 104
3.2.4. Zonas de giro 107
3.2.5. Clientela 112
V - À laia de conclusão 127
Retirado de

José Machado Pais - Prostituição

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[PDF] CRIMINOSOS, BOÉMIOS, PROSTITUTAS E OUTROS MARGINAIS - O Mundo da Transgressão Social


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