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sábado, 31 de março de 2018

José Falcão - Cartilha do Povo



IV - José Falcão e a "Cartilha do Povo"

José Falcão, para além de ter sido das raras vozes que se ergueram a favor dos revoltosos da Comuna de Paris, foi também um dos mais obstinados divulgadores da ideia republicana. Este propósito de tornar acessível ao povo a nova mensagem política sofria o obstáculo da elevadíssima taxa de analfabetismo. No início do último quartel do século XIX mais de quatro quintos da população portuguesa não sabia ler, escrever e contar. Os livros, brochuras e jornais eram apenas lidos por uma minoria da burguesia culta, concentrada sobretudo em Lisboa, no Porto e em Coimbra. O problema da instrução pública esteve sempre presente nas preocupações dos evangelizadores republicanos. Era necessário encontrar uma fórmula susceptível de levar às massas populares os valores do republicanismo, apesar da calamitosa ignorância que grassava em todo o país. Urgia proceder à elaboração de textos de doutrinação política que fossem redigidos em linguagem muito simples e que pudessem ser escutados por aqueles a quem a monarquia não tinha infundido os benefícios do conhecimento.


Foi esse o objectivo de José Falcão, quando elaborou e fez imprimir a sua memorável Cartilha do Povo. Foi uma obra que surgiu em 1884, uma vez mais anónima, ilustrada com desenhos saídos da mão artística de António Augusto Gonçalves. Impressa em papel modesto, para que os custos pudessem ser facilmente suportados, esta Cartilha obedeceu também à directriz de ser facilmente entendida por gente humilde, caldeada em trabalhos de invulgar dureza e, até então, desprezada pelas regiões da governação. Para isso, o autor praticará nela o método do diálogo. Os assuntos de interesse colectivo, aí versados, são debatidos entre duas figuras, as quais encetam, com amena bonomia, uma participada conversação. À figura mais douta, mais ciente dos reais problemas da Grei, deu José Falcão o nome de João Portugal; à outra, disposta a quebrar a escuridão da sua falta de informação e de cultura e que, por isso, coloca questões e pede esclarecimentos, foi dado o nome de José Povinho. Esta designação traz-nos imediatamente ao espírito o Zé Povinho das famosas caricaturas de Rafael Bordalo Pinheiro, tais como elas haviam aparecido em jornais de boa tiragem, como O António Maria, Pontos nos ii e A Paródia. Essas abordagens eram, ao tempo, a mais perfeita síntese, em registo satírico, da tipologia do português aldeão, bom mas boçal, submetido pacientemente às cargas e derrotas com que os poderosos o albardavam. Pelo contrário, o José Povinho da Cartilha do Povo, de José Falcão, é o ser humano humilde mas atento, que deseja promover-se, que quer aprender e que aspira à construção de um Portugal melhor e mais justo.



A Cartilha do Povo teve uma consagração clamorosa junto dos estratos mais humildes da população. Dela se fizeram várias edições e teriam sido muitos os republicanos que a quiseram divulgar junto dos menos esclarecidos. Aliás, o modelo aqui adoptado teve similitudes com o Catecismo Republicano para uso do Povo, redigido por Carrilho Videira e por Teixeira Bastos. Tanto José Falcão como os responsáveis pelo Catecismo sabiam que os destinatários das suas mensagens careciam da explicação circunstanciada de um conjunto de noções muito elementares, similares à que os sacerdotes transmitiam aos seus pequenos catecúmenos. Também os elementos do povo português eram encarados, com inteiro realismo – mas também com evidente carinho – como crianças a quem tivessem de ser ensinados os rudimentos de uma cidadania interiorizada e consciente. É isto que explica as designações destes livrinhos: cartilha e catecismo, meio de sublinhar, a partir do próprio título, a missão iniciática e patriótica a que se davam estes propagandistas da “nova ideia”. Foi também por este caminho de simplicidade expositiva que enveredou um outro republicano distinto, Consiglieri Pedroso, quando organizou e deu aos prelos a sua Biblioteca Democrática.



É quase comovente a dádiva destes homens às camadas sociais mais desvalidas do seu país. E é também isto que explica que o Partido Republicano tenha sido referido como “o Partido do Povo”, enquanto principal factor da dignificação e de evolução mental dos que lhe escutaram as directrizes doutrinais.


page revision: 8, last edited: 8 Feb 2010, 11:54 (2973 days ago)


 http://lagosdarepublica.wikidot.com/iv-jose-falcao-e-a-cartilha-do-povo



















































FONTE:
http://triplov.com/Venda_das_Raparigas/Cartilha/index.htm

CARTILHA DO POVO: JOSÉ FALCÃO 
Edição popular promovida pelos estudantes republicanos de Coimbra
Tipografia Minerva, Vila Nova de Famalicão, 1896 
www.triplov.org . 12-10-2006
Agradecemos a Luis M. Mateus, presidente da associação República & Laicidade (http://www.laicidade.org/), a simpatia com que nos ofereceu as imagens. 

sexta-feira, 30 de julho de 2010

Biblioteca-museu preservará acervo de Thiago de Mello

 

 

Cultura

Vermelho - 29 de Julho de 2010 - 16h01

O Ministério da Cultura publicou nesta terça-feira (27), edital de licitação para o projeto de restauração, conservação e readequação do antigo Prédio do Tesouro, em Manaus (AM), para a criação da Casa de Leitura Thiago de Mello. A entrega das propostas para obra será dia 27 de agosto.

O espaço, uma biblioteca-museu, será a primeira biblioteca temática do Brasil. O espaço reunirá 8 mil itens, dentre eles estão acervo literário, documentos, correspondências, recortes icnográficos, obras de artes e acervo de multimídia (CDs e DVDs).

A Casa de Leitura Thiago de Mello terá como ponto de partida os acervos pessoais, iconográfico e bibliográfico do poeta, estruturando-se em torno de três grandes temas centrais de sua obra: O homem (a condição humana); A floresta (meio ambiente) e a América Latina (política, cultura e integração).

A previsão de custos do projeto é de R$ 5,99 milhões, com entrega da obra em 150 dias após a assinatura do contrato com a empresa escolhida. No julgamento das propostas, a Comissão levará em conta o menor preço global, desde que atendidas todas as especificações constantes do edital e seus anexos.

O antigo Prédio do Tesouro, Armazém 15, Trapiche do Armazém 15 e Áreas Externas fazem parte do Conjunto Arquitetônico e Paisagístico do Porto de Manaus, tombado pela União em 1987. Os imóveis estão intimamente identificados com a história do surgimento da cidade, na área de ocupação mais antiga do Centro Histórico e também são representativos do Ciclo Áureo da Borracha.

Thiago de Mello

Natural do Estado do Amazonas, Thiago de Mello é um dos poetas mais influentes e respeitados no pais, reconhecido como um ícone da literatura regional. Tem obras traduzidas para mais de trinta idiomas.

Preso durante a ditadura (1964-1985), exilou-se no Chile, encontrando em Pablo Neruda um amigo e colaborador. Um traduziu a obra do outro, e Neruda escreveu ensaios sobre o amigo. No exílio, morou na Argentina, Chile, Portugal, França, Alemanha. Com o fim do regime militar, voltou a sua grande cidade natal, Barreirinha, onde vive até hoje.

Seu poema mais conhecido é Os Estatutos do Homem, onde o poeta chama a atenção do leitor para os valores simples da natureza humana. Seu livro Poesia Comprometida com a Minha e a Tua Vida rendeu-lhe, em 1975, ainda durante o regime militar, prêmio concedido pela Associação Paulista dos Críticos de Arte e tornou-o conhecido internacionalmente como um intelectual engajado na luta pelos Direitos Humanos.

Com agências
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Os Estatutos do Homem (Ato Institucional Permanente)
A Carlos Heitor Cony


Artigo I
Fica decretado que agora vale a verdade.
agora vale a vida,
e de mãos dadas,
marcharemos todos pela vida verdadeira.

Artigo II
Fica decretado que todos os dias da semana,
inclusive as terças-feiras mais cinzentas,
têm direito a converter-se em manhãs de domingo.

Artigo III
Fica decretado que, a partir deste instante,
haverá girassóis em todas as janelas,
que os girassóis terão direito
a abrir-se dentro da sombra;
e que as janelas devem permanecer, o dia inteiro,
abertas para o verde onde cresce a esperança.

Artigo IV
Fica decretado que o homem
não precisará nunca mais
duvidar do homem.
Que o homem confiará no homem
como a palmeira confia no vento,
como o vento confia no ar,
como o ar confia no campo azul do céu.

Parágrafo único:
O homem, confiará no homem
como um menino confia em outro menino.

Artigo V
Fica decretado que os homens
estão livres do jugo da mentira.
Nunca mais será preciso usar
a couraça do silêncio
nem a armadura de palavras.
O homem se sentará à mesa
com seu olhar limpo
porque a verdade passará a ser servida
antes da sobremesa.

Artigo VI
Fica estabelecida, durante dez séculos,
a prática sonhada pelo profeta Isaías,
e o lobo e o cordeiro pastarão juntos
e a comida de ambos terá o mesmo gosto de aurora.

Artigo VII
Por decreto irrevogável fica estabelecido
o reinado permanente da justiça e da claridade,
e a alegria será uma bandeira generosa
para sempre desfraldada na alma do povo.

Artigo VIII
Fica decretado que a maior dor
sempre foi e será sempre
não poder dar-se amor a quem se ama
e saber que é a água
que dá à planta o milagre da flor.

Artigo IX
Fica permitido que o pão de cada dia
tenha no homem o sinal de seu suor.
Mas que sobretudo tenha
sempre o quente sabor da ternura.

Artigo X
Fica permitido a qualquer pessoa,
qualquer hora da vida,
uso do traje branco.

Artigo XI
Fica decretado, por definição,
que o homem é um animal que ama
e que por isso é belo,
muito mais belo que a estrela da manhã.

Artigo XII
Decreta-se que nada será obrigado
nem proibido,
tudo será permitido,
inclusive brincar com os rinocerontes
e caminhar pelas tardes
com uma imensa begônia na lapela.

Parágrafo único:
Só uma coisa fica proibida:
amar sem amor.

Artigo XIII
Fica decretado que o dinheiro
não poderá nunca mais comprar
o sol das manhãs vindouras.
Expulso do grande baú do medo,
o dinheiro se transformará em uma espada fraternal
para defender o direito de cantar
e a festa do dia que chegou.

Artigo Final.
Fica proibido o uso da palavra liberdade,
a qual será suprimida dos dicionários
e do pântano enganoso das bocas.
A partir deste instante
a liberdade será algo vivo e transparente
como um fogo ou um rio,
e a sua morada será sempre
o coração do homem.


Santiago do Chile, abril de 1964 
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http://www.revista.agulha.nom.br/tmello.html#estat.
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