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domingo, 12 de abril de 2026

Prabhat Patnaik - Duas fracturas provocadas pelo neoliberalismo – Competição darwiniana entre os países do Sul Global


Prabhat Patnaik [*]
 
A posição do governo indiano em relação à guerra dos EUA e dos israelenses contra o Irão revela um grau inacreditável de pusilanimidade. A Índia participou na recente reunião de cerca de cinquenta países convocada pelo Reino Unido, onde o Irão foi fortemente criticado por ter fechado o Estreito de Ormuz, mas não proferiu uma única palavra contra a agressão dos EUA e dos israelenses ao Irão. Da mesma forma, a Índia foi um dos patrocinadores de uma resolução na Assembleia Geral da ONU que criticava o Irão por atacar outros países do Golfo (embora o Irão estivesse a atacar apenas as bases militares americanas localizadas nesses países); mas, mais uma vez, não foi proferida uma única palavra nessa resolução condenando a agressão dos EUA e dos israelenses ao Irão. É também digno de nota que a Índia demorou vários dias a manifestar qualquer pesar pelo assassinato do líder supremo do Irão, o aiatolá Ali Khamenei, e várias semanas a manifestar qualquer choque pelo covarde assassinato de 175 alunas inocentes em Minab.

Tal pusilanimidade, no entanto, não se limita à Índia: nada menos que 135 países foram co-patrocinadores da resolução desonesta e hipócrita da AGNU mencionada acima, com medo de que, caso contrário, ofendessem os americanos. Na verdade, com exceção de um punhado de países em todo o mundo, nenhum teve a coragem de condenar inequivocamente a guerra flagrantemente ilegal e imoral desencadeada pela aliança EUA-israelense contra o Irão. Trata-se de um assunto de extrema preocupação, pois o ataque ao Irão revoga o conceito de soberania das nações, que fora o conceito central na luta pela descolonização e que esteve na base de toda a ordem pós-colonial; destrói, por outras palavras, a própria razão de ser da descolonização.

Esta pusilanimidade por parte dos países do Terceiro Mundo é também motivo de grande perplexidade:   afinal, trata-se de países que travaram longas e árduas lutas anticoloniais para alcançar o estatuto de Estados independentes e soberanos; como podem permanecer em silêncio quando essa mesma soberania está a ser violada, no caso de um Estado do Terceiro Mundo, pelo poderio armado do imperialismo norte-americano?

A resposta a esta questão, sem dúvida complexa, deve, no entanto, incorporar o reconhecimento de pelo menos duas fraturas que o neoliberalismo introduziu no nosso mundo. Uma delas é a fragmentação do conceito de "nação", cuja concretização havia sido alcançada pela luta anticolonial. Este conceito de "nação" diferia fundamentalmente do conceito europeu, que se desenvolvera na sequência dos Tratados de Paz de Westfália, pelo menos em três aspetos:   em primeiro lugar, era inclusivo e não identificava qualquer "inimigo interno"; segundo, ao contrário do nacionalismo europeu, rejeitava quaisquer ambições imperiais próprias, no sentido de ter pretensões sobre os recursos de terras distantes; e terceiro, não idolatrava a nação como estando acima do povo, cujo "dever" supostamente era servi-la.

O surgimento deste conceito inclusivo de "nação" foi, por sua vez, um reflexo do facto de a luta anticolonial ser uma luta multi-classista; e o regime económico dirigista que foi erigido após a independência, embora promovesse o desenvolvimento capitalista, também procurava colocar freios ao capitalismo desenfreado em nome da consecução do desenvolvimento "nacional". Isto visava preservar a sua base de apoio multiclasse, à qual nem mesmo os capitalistas monopolistas se opunham naquela altura, uma vez que desejavam uma trajetória de desenvolvimento em que o Estado exercesse relativa autonomia face ao imperialismo. A existência de um vasto setor público fazia parte dessa trajetória. Além disso, a política de não alinhamento seguida por estes regimes dirigistas complementou essa busca pelo desenvolvimento em relativa autonomia face ao imperialismo. Michal Kalecki, o conhecido economista, errou ao chamar tais regimes de "regimes intermediários" e ao sugerir que as classes médias detinham o poder decisivo nesses regimes; mas acertou ao identificar o capitalismo de Estado (setor público) e o não alinhamento como as duas características mais distintivas desses regimes.

Com a globalização do capital, no entanto, as coisas mudaram. A burguesia monopolista interna integrou-se ao capital globalizado e abandonou a sua agenda de seguir uma trajetória de desenvolvimento relativamente autónoma da metrópole. Segmentos das classes profissionais e burocráticas superiores da sociedade, ansiosos por enviar os seus filhos para estudar e estabelecer-se na metrópole, juntaram-se como apoiantes do regime neoliberal que surgiu sob a égide desse capital globalizado. Os ricos proprietários de terras também procuraram a sua sorte dentro desta nova ordem neoliberal, que não só promoveu um capitalismo desenfreado e sem restrições, mas também se voltou fortemente contra os trabalhadores, camponeses, trabalhadores agrícolas, pequenos produtores e a classe assalariada mais baixa. Produziu-se uma cisão na aliança de classes que tinha sido forjada no decorrer da luta anticolonial.

Já não era a "nação" contra a metrópole que estava em foco, mas o grande capital, incluindo o capital multinacional, contra os grupos sociais que se interpunham à instauração de um "desenvolvimento" rápido, definido exclusivamente em termos de taxas de crescimento do PIB. O interesse do grande capital foi, por um truque de prestidigitação, identificado como "interesse nacional", e o dever de todas as classes era promovê-lo. Esta mudança no significado do termo "nação" significou, na prática, uma fractura da "nação" cuja concretização era o desiderato da luta anticolonial. A libertação da "nação" do domínio imperialista, longe de ser o objectivo primordial, deixou de ser sequer um objectivo desejado ou relevante para o governo num contexto neoliberal.

Este é o primeiro caso de "fractura" referido acima. Devido a esta fractura, o critério com base no qual o governo de um regime neoliberal toma decisões não é se uma determinada posição defende a soberania nacional, mas se promove os interesses materiais do grande capital, que são considerados idênticos aos da "nação" no seu novo significado. Alinhar-se com a aliança EUA-israelense parece, em suma, mais vantajoso do que apoiar o Irão, vítima de agressão, do ponto de vista dos interesses do grande capital nos países do Sul global; isto ajudaria a explicar, em certa medida, os silêncios ensurdecedores, mencionados anteriormente, na AGNU e noutras resoluções.

Existe também uma segunda "fratura" provocada pelo regime neoliberal. Embora o regime neoliberal seja "vendido" ao Sul global como o portador de um crescimento impulsionado pelas exportações que traria uma taxa de crescimento do PIB mais elevada para todos os países em comparação com o regime dirigista anterior, esta afirmação é completamente falsa. Uma vez que a taxa de crescimento da procura mundial agregada não aumenta quando mais países seguem uma estratégia de crescimento impulsionado pelas exportações, o regime neoliberal que generaliza esta estratégia entre todos os países está, na prática, a forçá-los a envolver-se numa competição darwiniana entre si, ou seja, a seguir uma estratégia de "empobrecer o vizinho".

A taxa de crescimento mais elevada de alguns países do que antes, ao abrigo da estratégia de crescimento impulsionado pelas exportações, deve, por conseguinte, ser à custa de outros países que agora registam uma taxa de crescimento mais baixa do que antes. Os países envolvidos numa corrida para se superarem uns aos outros dificilmente podem ser considerados como "cooperando" entre si. O efeito da busca generalizada da estratégia neoliberal é, portanto, um abandono de facto do não-alinhamento, de uma trajetória em que os países do Sul global se mantinham unidos para enfrentar o imperialismo. Agora, os países do Sul global, cada um obcecado em alcançar um maior crescimento do PIB e, consequentemente, dentro do paradigma neoliberal, obcecado em atrair mais investimento metropolitano para esse fim, preferem bajular o imperialismo a fim de superar os seus vizinhos. Isto conduz a uma fragmentação do movimento de não alinhamento, que é a segunda fragmentação que mencionámos anteriormente.

O silêncio da maioria dos países do Sul global face à agressão dos EUA e dos israelenses ao Irão, que pode parecer intrigante à primeira vista, não é assim tão intrigante afinal. O neoliberalismo tem vindo a atuar há já algum tempo na subversão tanto do conceito de nação como do conceito de não-alinhamento, abandonando o núcleo anti-imperialista que caracterizava estes conceitos e substituindo-os por conceitos alternativos que dão prioridade à tarefa de angariar o favor do imperialismo acima de tudo o resto. O resultado deste processo é o que vemos hoje.

O capitalismo é invariavelmente hostil a qualquer prática coletiva contra si, mesmo que essa prática coletiva assuma a forma de uma simples ação sindical. Ele acredita na atomização dos agentes económicos. O capitalismo neoliberal, que representa um regresso ao capitalismo desenfreado e descontrolado, traz mais uma vez à tona esta tendência para a atomização dos agentes económicos, através da ruptura da aliança de classes que participara na luta anticolonial e através da subversão do movimento dos não-alinhados, que representava a oposição coletiva dos países do Sul global à hegemonia imperialista.

Cabe aos povos do Sul global, e não aos governos que atualmente promovem os interesses da grande burguesia dominante, estender a solidariedade ao povo do Irão; a luta do Irão contra a aliança EUA-Israel é de importância crucial para a recuperação da soberania do Sul global.

12/Abril/2026
[*] Economista, indiano, ver Wikipedia
O original encontra-se em peoplesdemocracy.in/2026/0412_pd/two-fractures-effected-neo-liberalism

quinta-feira, 8 de fevereiro de 2024

«Capitalism and Freedom»



NA ECONOMIA NEOLIBERAL, QUE QUEREM PPD-PSD, IL & CHEGA, O 'ESTADO SOCIAL' DESAPARECE, OS POBRES VÃO FICAR AINDA MAIS POBRES E DESPROTEGIDOS, E OS RICOS AINDA MAIS RICOS...

- salienta Alfredo Barroso, recordando o que foi o estrondoso fracasso da economia neoliberal no Chile, durante a sangrenta ditadura militar do general Augusto Pinochet, expressamente apoiado e aconselhado por Milton Friedman e Friederich Hayek, teóricos do neoliberalismo

«A contra-revolução neoliberal é essencialmente antidemocrática» – afirmou o economista norte-americano (Prémio Nobel) Paul Krugman. De facto, nenhuma maioria de eleitores desejaria ver reduzida a quase nada a cobertura social que protege a generalidade dos cidadãos. Isso nunca. Por isso mesmo, o único meio de forçar a mão do povo é levá-lo a acreditar que não há alternativa

Na sua obra «Capitalism and Freedom», o economista neoliberal norte-americano Milton Friedman ousa afirmar que, como a obtenção do lucro é a essência da democracia neoliberal, todo o governo que conduza políticas que contrariem o mercado está a portar-se de forma antidemocrática, sendo irrelevante o apoio de que goze por parte da maioria de uma população esclarecida.

Foi esta visão absolutamente perversa da democracia que fez com que ele próprio e Friederich Hayek manifestassem o seu apoio ao golpe de Estado do general Augusto Pinochet, no Chile – que depôs, em 1973, o governo democraticamente eleito do presidente Salvador Allende, dado que este estava a interferir com o controlo dos negócios da plutocracia da sociedade chilena.

Hayek foi mesmo ao ponto de declarar, em defesa do indefensável Pinochet, o seguinte: «Pessoalmente, prefiro uma ditadura liberal a um governo democrático completamente alheado do liberalismo». Foi essa 'ditadura liberal', brutal e selvagem, que os 'Chicago boys' - os discípulos de Milton Friedman - ajudaram a sustentar durante 15 anos, transformando o Chile num laboratório experimental das políticas neoliberais preconizadas por Hayek e Friedman.

Entretanto, ficou a saber-se que Friedrich Hayek, o ‘profeta’ venerado pelo general Pinochet e por Margaret Thatcher, não quis visitar os EUA em 1973 – a convite do milionário norte-americano Charles Koch, um dos pilares do desmantelamento do Estado-Providência – por ter medo de perder os seus direitos à Segurança Social no seu país, a Áustria. De facto, Hayek – que nos seus discursos e palestras proclamava que a Segurança Social é «essencialmente um absurdo» que urge banir – explica com todo o detalhe, na correspondência que trocou com Charles Koch, os benefícios sociais a que tinha direito, e que não queria arriscar-se a perder ausentando-se da Áustria.

Para além da hipocrisia pessoal, o que aqui se manifesta é a hipocrisia de um discurso que consiste em fazer crer às pessoas que aquilo que se pretende é apenas proteger a sua ‘responsabilidade’ e a sua ‘liberdade de escolha’ – quando, afinal, são despojadas dos seus direitos sociais e do seu dinheiro para encher os bolsos da ínfima minoria dos mais ricos do planeta, sem nunca chegarem a ter qualquer ‘liberdade de escolha’ por mais responsáveis que sejam.

Também se tornou patente que o sistema neoliberal gera um perigoso e inevitável subproduto: uma cidadania despolitizada, caracterizada pela apatia e pelo cinismo. O neoliberalismo é, na prática, o primeiro e mais perigoso inimigo de uma genuína democracia participativa. É claro que actua melhor quando existe uma democracia eleitoral meramente formal, mas precisa que a população seja desviada das fontes de informação e dos debates públicos que a habilitem a formar opinião e a intervir nos processos de tomada de decisão.

A partir da noção crucial de «mercado über alles» – «mercado em todo o lado» – a democracia neoliberal cria ‘centros comerciais’ em vez de espaços comunitários e produz ‘consumidores’ em vez de cidadãos. E o resultado prático é uma sociedade atomizada, constituída por indivíduos desenraizados que se sentem desmoralizados e socialmente impotentes.


2024 02 08

ALFREDO BARROSO, no seu livro «Corações de Pedra - a maldição neoliberal» (Porto Editora, 2017)

https://www.facebook.com/somera.simoes 


ADENDA, por Victor Nogueira

Kissinger

  • "Não vejo porque precisamos ficar parados e assistir um país tornar-se comunista por causa da irresponsabilidade do seu povo. As questões são muito importantes para deixarmos os eleitores chilenos decidirem por si mesmos."
Sobre o apoio dos EUA ao golpe que derrubou Salvador Allende, presidente democraticamente eleito do Chile, em 11 de setembro de 1973.
citado em Richard R. Fagen, "The United States and Chile: Roots and Branches", Foreign Affairs, January 1975.

domingo, 21 de janeiro de 2024

Discurso de Javier Milei em Davos (2024)



Javier Milei, na 54ª Reunião Anual do Fórum Económico Mundial, em Davos.

Boa tarde, muito obrigado: estou aqui hoje para vos dizer que o Ocidente está em perigo, está em perigo porque aqueles que deveriam defender os valores do Ocidente encontram-se cooptados por uma visão do mundo que – inexoravelmente – conduz ao socialismo e, consequentemente, à pobreza.

Infelizmente, nas últimas décadas, motivados por alguns desejos bem-pensantes de querer ajudar os outros e outros pelo desejo de pertencer a uma casta privilegiada, os principais líderes do mundo ocidental abandonaram o modelo de liberdade, por diferentes versões, do que chamamos de coletivismo.

Estamos aqui para vos dizer que as experiências coletivistas nunca são a solução para os problemas que afligem os cidadãos do mundo, mas – pelo contrário – são a sua causa. Acreditem, não há ninguém melhor do que nós, argentinos, para testemunhar estas duas questões.

Quando adotamos o modelo de liberdade – em 1860 – em 35 anos tornamo-nos a principal potência mundial, enquanto que quando abraçamos o coletivismo, nos últimos 100 anos, vimos como nossos cidadãos empobrecer sistematicamente, até caírem para o 140º lugar no mundo. Mas antes de podermos ter esta discussão, será importante que olhemos primeiro para os dados que a sustentam porque não só o capitalismo de livre iniciativa é apenas um sistema possível para acabar com a pobreza do mundo, mas é também o único sistema – moralmente desejável – a fazê-lo.

Se considerarmos a história do progresso económico, podemos ver como do ano zero ao ano 1800, aproximadamente, o PIB per capita do mundo permaneceu praticamente constante durante todo o período de referência. Se olharmos para um gráfico da evolução do crescimento econômico, ao longo da história humana, veremos um gráfico em forma de taco de hóquei, uma função exponencial, que permaneceu constante por 90% do tempo, e dispara exponencialmente a partir do século XIX. A única excepção a essa história de estagnação aconteceu no final do século XV, com a descoberta da América. Mas, com esta excepção, durante todo o período, entre o ano zero e o ano de 1800, o PIB per capita, a nível global, manteve-se estagnado.

Ora, não só o capitalismo gerou uma explosão de riqueza a partir do momento em que foi adotado como sistema económico, mas se analisarmos os dados, o que se observa é que o crescimento vem acelerando, ao longo de todo o período.

Ao longo do período – até 1800 – a taxa de crescimento do PIB per capita manteve-se estável em torno de 0,02% ao ano. Ou seja, praticamente nenhum crescimento; a partir do século XIX, com a Revolução Industrial, a taxa de crescimento aumentou para 0,66%. Nesse ritmo, dobrar o PIB per capita exigiria crescimento ao longo de 107 anos.

Agora, se olharmos para o período entre 1900 e 1950, a taxa de crescimento acelera para 1,66%, ao ano. Já não precisamos de 107 anos para duplicar o PIB per capita, mas sim de 66. E se tomarmos o período entre 1950 e o ano 2000 vemos que a taxa de crescimento foi de 2,1% ao ano, o que significaria que em apenas 33 anos poderíamos dobrar o PIB per capita mundial. Esta tendência, longe de parar, ainda hoje está viva. Se considerarmos o período, entre 2000 e 2023, a taxa de crescimento acelerou novamente para 3% ao ano, o que implica que poderíamos dobrar nosso PIB per capita no mundo em apenas 23 anos.

Agora, quando estudamos o PIB per capita, desde o ano de 1800 até os dias atuais, o que observamos é que, após a Revolução Industrial, o PIB per capita mundial se multiplicou por mais de 15 vezes, gerando uma explosão de riqueza que tirou 90% da população mundial da pobreza.

Nunca devemos esquecer que no ano de 1800 cerca de 95% da população mundial vivia em pobreza extrema, mas esse número caiu para 5% em 2020, antes da pandemia.

A conclusão é óbvia: longe de ser a causa de nossos problemas, o capitalismo de livre iniciativa, como sistema económico, é a única ferramenta que temos para acabar com a fome, a pobreza e a miséria em todo o mundo. As evidências empíricas são inquestionáveis.

Por isso, como não há dúvida de que o capitalismo de livre mercado é superior – em termos de produção – a filosofia de esquerda tem atacado o capitalismo por questões de moralidade, por ser, segundo os seus detratores, injusto.

Dizem que o capitalismo é mau porque é individualista e que o coletivismo é bom porque é altruísta. Consequentemente, lutam por justiça social, mas esse conceito, que – desde o Primeiro Mundo – se tornou moda nos últimos tempos no meu país é uma constante no discurso político há mais de 80 anos. O problema é que a justiça social não é justa e não contribui para o bem-estar geral. Pelo contrário, é uma ideia intrinsecamente injusta porque é violenta; É injusto porque o Estado se financia através de impostos e os impostos são recolhidos de forma coerciva. Algum de nós poderá dizer que paga impostos voluntariamente? Isso significa que o Estado se financia por meio da coerção, e quanto maior a carga tributária, maior a coerção, menor a liberdade.

Aqueles que promovem a justiça social partem da ideia de que a economia como um todo é um bolo que pode ser distribuído de uma maneira diferente, mas esse bolo não é dado, é a riqueza que é gerada, no que – por exemplo – Israel Kirzner chama de processo de descoberta de mercado. Se o bem ou serviço oferecido por uma empresa não é desejado, essa empresa vai à falência a menos que atenda ao que o mercado exige. Se produzir algo de boa qualidade a um preço bom e atrativo, vai ter sucesso e produzir mais.

Portanto, o mercado é um processo de descoberta, em que o capitalista encontra o rumo certo à medida que avança, mas se o Estado pune o capitalista por ter sucesso e o bloqueia nesse processo de descoberta, destrói os seus incentivos, e a consequência disso é que ele produzirá menos e o bolo será menor, gerando danos à sociedade como um todo.

O colectivismo – ao inibir esses processos de descoberta e ao dificultar a apropriação do que foi descoberto – amarra as mãos do empresário e impossibilita que ele produza melhores bens e ofereça melhores serviços a um preço mais baixo. Como pode ser, então, que a academia, as organizações internacionais, a política e a teoria económica demonizem um sistema económico que não só tirou 90% da população mundial da pobreza extrema e o está a fazer cada vez mais depressa, como também é justo e moralmente superior?

Graças ao capitalismo de livre iniciativa, hoje, o mundo está no seu melhor. Nunca houve, em toda a história da humanidade, um tempo de maior prosperidade do que aquele que vivemos hoje. O mundo de hoje é mais livre, mais rico, mais pacífico e mais próspero do que em qualquer outro momento da nossa história. Isto aplica-se a todos, mas particularmente aos países livres, onde respeitam a liberdade económica e os direitos de propriedade dos indivíduos. Porque os países que são livres são 12 vezes mais ricos do que os que são reprimidos. O decil mais baixo da distribuição de países livres, vive melhor do que 90% da população de países reprimidos, tem 25 vezes menos pobres e 50 vezes menos pessoas em pobreza extrema. E como se isso não bastasse, os cidadãos de países livres vivem 25% mais do que os cidadãos de países reprimidos.

Agora, para entender o que estamos aqui a defender, é importante definir do que falamos quando falamos de libertarianismo. Para defini-lo, volto às palavras do maior herói das ideias de liberdade, da Argentina, o professor Alberto Benegas Lynch Jr., que diz: “libertarianismo é o respeito irrestrito ao projeto de vida dos outros, baseado no princípio da não agressão, em defesa do direito à vida, à liberdade e à propriedade, cujas instituições fundamentais são a propriedade privada, os mercados livres da intervenção do Estado, a livre concorrência, a divisão do trabalho e a cooperação social.”

Por outras palavras, o capitalista é um benfeitor social que, longe de se apropriar da riqueza alheia, contribui para o bem-estar geral. Em suma, um empreendedor de sucesso é um herói.

Este é o modelo que propomos para a Argentina do futuro. Um modelo baseado nos princípios fundamentais do libertarianismo: a defesa da vida, da liberdade e da propriedade.

Ora, se o capitalismo de livre iniciativa e a liberdade económica têm sido ferramentas extraordinárias para acabar com a pobreza no mundo; E estamos hoje no melhor momento da história da humanidade, por que digo então que o Ocidente está em perigo?

Digo que o Ocidente está em perigo precisamente porque nos países que deveriam defender os valores do livre mercado, da propriedade privada e das outras instituições do libertarianismo, sectores do establishment político e económico, uns por erros no seu enquadramento teórico e outros por ambição de poder, estão a minar os fundamentos do libertarianismo, abrindo as portas ao socialismo e potencialmente condenando-nos à pobreza. miséria e estagnação.

De facto, nunca se deve esquecer que o socialismo é sempre e em toda a parte um fenómeno empobrecedor que fracassou em todos os países onde foi tentado. Foi um fracasso económico. Foi um fracasso social. Foi um fracasso cultural. E também assassinou mais de 100 milhões de seres humanos.

O problema essencial do Ocidente de hoje é que não devemos confrontar apenas aqueles que, mesmo após a queda do muro e a esmagadora evidência empírica, continuam a lutar pelo empobrecimento do socialismo; mas também aos nossos próprios líderes, pensadores e académicos que, sob o disfarce de um quadro teórico defeituoso, minam os alicerces do sistema que nos deu a maior expansão de riqueza e prosperidade da nossa história.

O corpo teórico a que me refiro é o da teoria económica neoclássica, que desenha um sistema que, sem querer, promove a interferência do Estado, levando ao socialismo e à degradação da sociedade. O problema dos neoclassicistas é que, como o modelo pelo qual se apaixonaram não se enquadra com realidade, atribuem esse erro a supostas falhas de mercado, em vez de reverem as premissas do seu modelo.

Sob o pretexto de uma alegada falha do mercado, são introduzidas regulamentações que apenas geram distorções no sistema de preços, que impedem o cálculo económico e, consequentemente, a poupança, o investimento e o crescimento.

Este problema reside essencialmente no facto de mesmo os economistas supostamente libertários não compreenderem o que é o mercado, porque, se o fizessem, rapidamente veriam que é impossível que existam falhas de mercado.

O mercado não é uma curva de oferta e procura num gráfico. O mercado é um mecanismo de cooperação social em que as trocas são voluntárias. Por conseguinte, tendo em conta esta definição, uma falha de mercado é um oximoro. Não existe qualquer falha do mercado.

Se as transações forem voluntárias, o único contexto em que pode haver uma falha do mercado é se houver coação. E o único com a capacidade de coagir de forma generalizada é o Estado, que tem o monopólio da violência. Consequentemente, se alguém considerar que existe uma falha de mercado, recomendo que verifique se existe pelo meio alguma intervenção estatal. E se achar que não há intervenção estatal, sugiro que faça a análise novamente porque está definitivamente errado. Não existem falhas de mercado.

Um exemplo das supostas falhas de mercado descritas pelos neoclassicistas são as estruturas concentradas da economia. No entanto, sem funções que apresentam um retorno crescente à escala, cuja contrapartida são as estruturas concentradas da economia, não conseguiríamos explicar o crescimento económico desde 1800 até ao presente.

Repare-se como é interessante. A partir do ano de 1800, com a população a multiplicar-se mais de 8 ou 9 vezes, a produção per capita cresceu mais de 15 vezes. Há retornos crescentes, que levaram a pobreza extrema de 95% para 5%. No entanto, essa presença de retornos crescentes implica estruturas concentradas, o que seria chamado de monopólio.

Como é possível para os teóricos neoclássicos que algo que gerou tanto bem-estar seja uma falha de mercado? Economistas neoclássicos “saiam da caixa”! Quando o modelo falha, não precisam irritar-se com a realidade. Têm de se irritar com o modelo e mudá-lo.

O dilema que o modelo neoclássico enfrenta é que afirmam querer melhorar o funcionamento do mercado atacando o que consideram ser fracassos, mas ao fazê-lo não só abrem as portas ao socialismo, como também minam o crescimento económico.

Por exemplo, regular os monopólios, destruir os lucros e esmagar os rendimentos crescentes destruiria automaticamente o crescimento económico.

Por outras palavras, cada vez que se quer corrigir uma suposta falha do mercado, inexoravelmente, porque não se sabe o que é o mercado ou porque se apaixonou por um modelo falhado, está-se a abrir as portas ao socialismo e a condenar as pessoas à pobreza.

No entanto, face à demonstração teórica de que a intervenção estatal é nociva, e à evidência empírica de que falhou – porque não podia ser de outra forma –, a solução que os coletivistas irão propor não é uma maior liberdade, mas sim uma maior regulação, gerando uma espiral descendente de regulações até ficarmos todos mais pobres. E a vida de todos nós depende de um burocrata sentado num escritório chique.

Dado o fracasso retumbante dos modelos coletivistas e os inegáveis avanços do mundo livre, os socialistas foram forçados a mudar sua agenda. Deixaram para trás a luta de classes baseada no sistema económico para a substituir por outros supostos conflitos sociais igualmente prejudiciais à vida comunitária e ao crescimento económico.

A primeira dessas novas batalhas foi a ridícula e antinatural conflito entre homem e mulher.

O libertarianismo já estabelece a igualdade entre os sexos. A pedra fundamental do nosso credo diz que todos os homens são criados iguais, que todos temos os mesmos direitos inalienáveis concedidos pelo criador, entre os quais estão a vida, a liberdade e a propriedade.

A única coisa que essa agenda do feminismo radical se tornou é numa maior intervenção do Estado para dificultar o processo económico, para dar trabalho a burocratas que não contribuem em nada para a sociedade, seja na forma de ministérios da mulher ou organizações internacionais dedicadas a promover essa agenda.

Outro dos conflitos que os socialistas colocam é o do homem contra a natureza. Argumentam que os seres humanos prejudicam o planeta e que ele deve ser protegido a todo custo, chegando ao ponto de defender mecanismos de controle populacional ou a agenda sangrenta do aborto.

Infelizmente, estas ideias nocivas têm permeado fortemente a nossa sociedade. Os neomarxistas conseguiram cooptar o senso comum do Ocidente. Conseguiram isso graças à apropriação dos meios de comunicação, da cultura, das universidades e, sim, também das organizações internacionais.

Felizmente, cada vez mais gente como nós ousa levantar a voz. Porque vemos que, se não combatermos estas ideias de frente, o único destino possível é o de ter cada vez mais Estado, mais regulação, mais socialismo, mais pobreza, menos liberdade e, consequentemente, um pior nível de vida.

O Ocidente, infelizmente, já começou a trilhar esse caminho. Sei que pode soar ridículo para muitos sugerir que o Ocidente se voltou para o socialismo. Mas só é ridículo na medida em que se restringe à definição económica tradicional de socialismo, que afirma que é um sistema económico onde o Estado é dono dos meios de produção.

Esta definição deveria, para nós, ser actualizada às circunstâncias actuais. Hoje, os Estados não precisam controlar diretamente os meios de produção para controlar todos os aspectos da vida dos indivíduos.

Com ferramentas como emissão monetária, empréstimos, subsídios, controles de taxas de juros, controles de preços e regulamentações para corrigir as chamadas “falhas de mercado”, eles podem controlar os destinos de milhões de seres humanos.

É assim que chegamos ao ponto em que, sob diferentes nomes ou formas, boa parte das propostas políticas geralmente aceites na maioria dos países ocidentais são variantes colectivistas.

Sejam eles abertamente comunistas, socialistas, social-democratas, democratas-cristãos, neokeynesianos, progressistas, populistas, nacionalistas ou globalistas.

No final, não há diferenças substantivas: todos defendem que o Estado deve dirigir todos os aspetos da vida dos indivíduos. Todos eles defendem um modelo contrário àquele que conduziu a humanidade ao progresso mais espetacular da sua história.

Viemos aqui hoje para convidar os outros países do Ocidente a retomarem o caminho da prosperidade. A liberdade económica, o governo limitado e o respeito irrestrito pela propriedade privada são elementos essenciais para o crescimento económico.

Este fenómeno de empobrecimento produzido pelo colectivismo não é uma fantasia. Nem fatalismo. É uma realidade que nós, argentinos, conhecemos muito bem.

Porque já vivemos isso. Nós estivemos lá. Porque, como disse antes, desde que decidimos abandonar o modelo de liberdade que nos enriqueceu, estamos presos numa espiral descendente em que somos cada dia mais pobres.

Nós já experimentamos isso. E estamos aqui para alertá-los sobre o que pode acontecer se os países do Ocidente que enriqueceram com o modelo de liberdade, continuarem nesse caminho de servidão.

O caso argentino é a demonstração empírica de que não importa quão rico seja, quantos recursos naturais tenha, não importa quão qualificada seja a população, ou quão educada ela seja, ou quantas barras de ouro existam nos cofres do banco central.

Se forem tomadas medidas que impeçam o livre funcionamento dos mercados, a livre concorrência, os sistemas de preços livres, se o comércio for dificultado, se a propriedade privada for violada, o único destino possível é a pobreza.

Para concluir, quero deixar uma mensagem a todos os empresários aqui presentes e àqueles que nos observam de todos os cantos do planeta.

Não vos deixeis intimidar nem pela casta política nem pelos parasitas que vivem do Estado. Não se rendam a uma classe política que só quer perpetuar-se no poder e manter os seus privilégios.

Vocês são benfeitores sociais. Vocês são heróis. Vocês são os criadores do período mais extraordinário de prosperidade que já vivemos. Que ninguém lhes diga que a sua ambição é imoral. Se ganham dinheiro, é porque oferecem um produto melhor a um preço melhor, contribuindo assim para o bem-estar geral.

Não cedam ao avanço do Estado. O Estado não é a solução. O Estado é o próprio problema.

Vocês são os verdadeiros protagonistas desta história, e sabem que, a partir de hoje, têm um aliado inabalável na República Argentina.

Muito obrigado e Viva la libertad carajo!

 Discurso do Presidente da Nação Argentina, Javier Milei
Javier Milei, na 54ª Reunião Anual do Fórum Económico Mundial, em Davos.

Boa tarde, muito obrigado: estou aqui hoje para vos dizer que o Ocidente está em perigo, está em perigo porque aqueles que deveriam defender os valores do Ocidente encontram-se cooptados por uma visão do mundo que – inexoravelmente – conduz ao socialismo e, consequentemente, à pobreza.

Infelizmente, nas últimas décadas, motivados por alguns desejos bem-pensantes de querer ajudar os outros e outros pelo desejo de pertencer a uma casta privilegiada, os principais líderes do mundo ocidental abandonaram o modelo de liberdade, por diferentes versões, do que chamamos de coletivismo.

Estamos aqui para vos dizer que as experiências coletivistas nunca são a solução para os problemas que afligem os cidadãos do mundo, mas – pelo contrário – são a sua causa. Acreditem, não há ninguém melhor do que nós, argentinos, para testemunhar estas duas questões.

Quando adotamos o modelo de liberdade – em 1860 – em 35 anos tornamo-nos a principal potência mundial, enquanto que quando abraçamos o coletivismo, nos últimos 100 anos, vimos como nossos cidadãos empobrecer sistematicamente, até caírem para o 140º lugar no mundo. Mas antes de podermos ter esta discussão, será importante que olhemos primeiro para os dados que a sustentam porque não só o capitalismo de livre iniciativa é apenas um sistema possível para acabar com a pobreza do mundo, mas é também o único sistema – moralmente desejável – a fazê-lo.

Se considerarmos a história do progresso económico, podemos ver como do ano zero ao ano 1800, aproximadamente, o PIB per capita do mundo permaneceu praticamente constante durante todo o período de referência. Se olharmos para um gráfico da evolução do crescimento econômico, ao longo da história humana, veremos um gráfico em forma de taco de hóquei, uma função exponencial, que permaneceu constante por 90% do tempo, e dispara exponencialmente a partir do século XIX. A única excepção a essa história de estagnação aconteceu no final do século XV, com a descoberta da América. Mas, com esta excepção, durante todo o período, entre o ano zero e o ano de 1800, o PIB per capita, a nível global, manteve-se estagnado.

Ora, não só o capitalismo gerou uma explosão de riqueza a partir do momento em que foi adotado como sistema económico, mas se analisarmos os dados, o que se observa é que o crescimento vem acelerando, ao longo de todo o período.

Ao longo do período – até 1800 – a taxa de crescimento do PIB per capita manteve-se estável em torno de 0,02% ao ano. Ou seja, praticamente nenhum crescimento; a partir do século XIX, com a Revolução Industrial, a taxa de crescimento aumentou para 0,66%. Nesse ritmo, dobrar o PIB per capita exigiria crescimento ao longo de 107 anos.

Agora, se olharmos para o período entre 1900 e 1950, a taxa de crescimento acelera para 1,66%, ao ano. Já não precisamos de 107 anos para duplicar o PIB per capita, mas sim de 66. E se tomarmos o período entre 1950 e o ano 2000 vemos que a taxa de crescimento foi de 2,1% ao ano, o que significaria que em apenas 33 anos poderíamos dobrar o PIB per capita mundial. Esta tendência, longe de parar, ainda hoje está viva. Se considerarmos o período, entre 2000 e 2023, a taxa de crescimento acelerou novamente para 3% ao ano, o que implica que poderíamos dobrar nosso PIB per capita no mundo em apenas 23 anos.

Agora, quando estudamos o PIB per capita, desde o ano de 1800 até os dias atuais, o que observamos é que, após a Revolução Industrial, o PIB per capita mundial se multiplicou por mais de 15 vezes, gerando uma explosão de riqueza que tirou 90% da população mundial da pobreza.

Nunca devemos esquecer que no ano de 1800 cerca de 95% da população mundial vivia em pobreza extrema, mas esse número caiu para 5% em 2020, antes da pandemia.

A conclusão é óbvia: longe de ser a causa de nossos problemas, o capitalismo de livre iniciativa, como sistema económico, é a única ferramenta que temos para acabar com a fome, a pobreza e a miséria em todo o mundo. As evidências empíricas são inquestionáveis.

Por isso, como não há dúvida de que o capitalismo de livre mercado é superior – em termos de produção – a filosofia de esquerda tem atacado o capitalismo por questões de moralidade, por ser, segundo os seus detratores, injusto.

Dizem que o capitalismo é mau porque é individualista e que o coletivismo é bom porque é altruísta. Consequentemente, lutam por justiça social, mas esse conceito, que – desde o Primeiro Mundo – se tornou moda nos últimos tempos no meu país é uma constante no discurso político há mais de 80 anos. O problema é que a justiça social não é justa e não contribui para o bem-estar geral. Pelo contrário, é uma ideia intrinsecamente injusta porque é violenta; É injusto porque o Estado se financia através de impostos e os impostos são recolhidos de forma coerciva. Algum de nós poderá dizer que paga impostos voluntariamente? Isso significa que o Estado se financia por meio da coerção, e quanto maior a carga tributária, maior a coerção, menor a liberdade.

Aqueles que promovem a justiça social partem da ideia de que a economia como um todo é um bolo que pode ser distribuído de uma maneira diferente, mas esse bolo não é dado, é a riqueza que é gerada, no que – por exemplo – Israel Kirzner chama de processo de descoberta de mercado. Se o bem ou serviço oferecido por uma empresa não é desejado, essa empresa vai à falência a menos que atenda ao que o mercado exige. Se produzir algo de boa qualidade a um preço bom e atrativo, vai ter sucesso e produzir mais.

Portanto, o mercado é um processo de descoberta, em que o capitalista encontra o rumo certo à medida que avança, mas se o Estado pune o capitalista por ter sucesso e o bloqueia nesse processo de descoberta, destrói os seus incentivos, e a consequência disso é que ele produzirá menos e o bolo será menor, gerando danos à sociedade como um todo.

O colectivismo – ao inibir esses processos de descoberta e ao dificultar a apropriação do que foi descoberto – amarra as mãos do empresário e impossibilita que ele produza melhores bens e ofereça melhores serviços a um preço mais baixo. Como pode ser, então, que a academia, as organizações internacionais, a política e a teoria económica demonizem um sistema económico que não só tirou 90% da população mundial da pobreza extrema e o está a fazer cada vez mais depressa, como também é justo e moralmente superior?

Graças ao capitalismo de livre iniciativa, hoje, o mundo está no seu melhor. Nunca houve, em toda a história da humanidade, um tempo de maior prosperidade do que aquele que vivemos hoje. O mundo de hoje é mais livre, mais rico, mais pacífico e mais próspero do que em qualquer outro momento da nossa história. Isto aplica-se a todos, mas particularmente aos países livres, onde respeitam a liberdade económica e os direitos de propriedade dos indivíduos. Porque os países que são livres são 12 vezes mais ricos do que os que são reprimidos. O decil mais baixo da distribuição de países livres, vive melhor do que 90% da população de países reprimidos, tem 25 vezes menos pobres e 50 vezes menos pessoas em pobreza extrema. E como se isso não bastasse, os cidadãos de países livres vivem 25% mais do que os cidadãos de países reprimidos.

Agora, para entender o que estamos aqui a defender, é importante definir do que falamos quando falamos de libertarianismo. Para defini-lo, volto às palavras do maior herói das ideias de liberdade, da Argentina, o professor Alberto Benegas Lynch Jr., que diz: “libertarianismo é o respeito irrestrito ao projeto de vida dos outros, baseado no princípio da não agressão, em defesa do direito à vida, à liberdade e à propriedade, cujas instituições fundamentais são a propriedade privada, os mercados livres da intervenção do Estado, a livre concorrência, a divisão do trabalho e a cooperação social.”

Por outras palavras, o capitalista é um benfeitor social que, longe de se apropriar da riqueza alheia, contribui para o bem-estar geral. Em suma, um empreendedor de sucesso é um herói.

Este é o modelo que propomos para a Argentina do futuro. Um modelo baseado nos princípios fundamentais do libertarianismo: a defesa da vida, da liberdade e da propriedade.

Ora, se o capitalismo de livre iniciativa e a liberdade económica têm sido ferramentas extraordinárias para acabar com a pobreza no mundo; E estamos hoje no melhor momento da história da humanidade, por que digo então que o Ocidente está em perigo?

Digo que o Ocidente está em perigo precisamente porque nos países que deveriam defender os valores do livre mercado, da propriedade privada e das outras instituições do libertarianismo, sectores do establishment político e económico, uns por erros no seu enquadramento teórico e outros por ambição de poder, estão a minar os fundamentos do libertarianismo, abrindo as portas ao socialismo e potencialmente condenando-nos à pobreza. miséria e estagnação.

De facto, nunca se deve esquecer que o socialismo é sempre e em toda a parte um fenómeno empobrecedor que fracassou em todos os países onde foi tentado. Foi um fracasso económico. Foi um fracasso social. Foi um fracasso cultural. E também assassinou mais de 100 milhões de seres humanos.

O problema essencial do Ocidente de hoje é que não devemos confrontar apenas aqueles que, mesmo após a queda do muro e a esmagadora evidência empírica, continuam a lutar pelo empobrecimento do socialismo; mas também aos nossos próprios líderes, pensadores e académicos que, sob o disfarce de um quadro teórico defeituoso, minam os alicerces do sistema que nos deu a maior expansão de riqueza e prosperidade da nossa história.

O corpo teórico a que me refiro é o da teoria económica neoclássica, que desenha um sistema que, sem querer, promove a interferência do Estado, levando ao socialismo e à degradação da sociedade. O problema dos neoclassicistas é que, como o modelo pelo qual se apaixonaram não se enquadra com realidade, atribuem esse erro a supostas falhas de mercado, em vez de reverem as premissas do seu modelo.

Sob o pretexto de uma alegada falha do mercado, são introduzidas regulamentações que apenas geram distorções no sistema de preços, que impedem o cálculo económico e, consequentemente, a poupança, o investimento e o crescimento.

Este problema reside essencialmente no facto de mesmo os economistas supostamente libertários não compreenderem o que é o mercado, porque, se o fizessem, rapidamente veriam que é impossível que existam falhas de mercado.

O mercado não é uma curva de oferta e procura num gráfico. O mercado é um mecanismo de cooperação social em que as trocas são voluntárias. Por conseguinte, tendo em conta esta definição, uma falha de mercado é um oximoro. Não existe qualquer falha do mercado.

Se as transações forem voluntárias, o único contexto em que pode haver uma falha do mercado é se houver coação. E o único com a capacidade de coagir de forma generalizada é o Estado, que tem o monopólio da violência. Consequentemente, se alguém considerar que existe uma falha de mercado, recomendo que verifique se existe pelo meio alguma intervenção estatal. E se achar que não há intervenção estatal, sugiro que faça a análise novamente porque está definitivamente errado. Não existem falhas de mercado.

Um exemplo das supostas falhas de mercado descritas pelos neoclassicistas são as estruturas concentradas da economia. No entanto, sem funções que apresentam um retorno crescente à escala, cuja contrapartida são as estruturas concentradas da economia, não conseguiríamos explicar o crescimento económico desde 1800 até ao presente.

Repare-se como é interessante. A partir do ano de 1800, com a população a multiplicar-se mais de 8 ou 9 vezes, a produção per capita cresceu mais de 15 vezes. Há retornos crescentes, que levaram a pobreza extrema de 95% para 5%. No entanto, essa presença de retornos crescentes implica estruturas concentradas, o que seria chamado de monopólio.

Como é possível para os teóricos neoclássicos que algo que gerou tanto bem-estar seja uma falha de mercado? Economistas neoclássicos “saiam da caixa”! Quando o modelo falha, não precisam irritar-se com a realidade. Têm de se irritar com o modelo e mudá-lo.

O dilema que o modelo neoclássico enfrenta é que afirmam querer melhorar o funcionamento do mercado atacando o que consideram ser fracassos, mas ao fazê-lo não só abrem as portas ao socialismo, como também minam o crescimento económico.

Por exemplo, regular os monopólios, destruir os lucros e esmagar os rendimentos crescentes destruiria automaticamente o crescimento económico.

Por outras palavras, cada vez que se quer corrigir uma suposta falha do mercado, inexoravelmente, porque não se sabe o que é o mercado ou porque se apaixonou por um modelo falhado, está-se a abrir as portas ao socialismo e a condenar as pessoas à pobreza.

No entanto, face à demonstração teórica de que a intervenção estatal é nociva, e à evidência empírica de que falhou – porque não podia ser de outra forma –, a solução que os coletivistas irão propor não é uma maior liberdade, mas sim uma maior regulação, gerando uma espiral descendente de regulações até ficarmos todos mais pobres. E a vida de todos nós depende de um burocrata sentado num escritório chique.

Dado o fracasso retumbante dos modelos coletivistas e os inegáveis avanços do mundo livre, os socialistas foram forçados a mudar sua agenda. Deixaram para trás a luta de classes baseada no sistema económico para a substituir por outros supostos conflitos sociais igualmente prejudiciais à vida comunitária e ao crescimento económico.

A primeira dessas novas batalhas foi a ridícula e antinatural conflito entre homem e mulher.

O libertarianismo já estabelece a igualdade entre os sexos. A pedra fundamental do nosso credo diz que todos os homens são criados iguais, que todos temos os mesmos direitos inalienáveis concedidos pelo criador, entre os quais estão a vida, a liberdade e a propriedade.

A única coisa que essa agenda do feminismo radical se tornou é numa maior intervenção do Estado para dificultar o processo económico, para dar trabalho a burocratas que não contribuem em nada para a sociedade, seja na forma de ministérios da mulher ou organizações internacionais dedicadas a promover essa agenda.

Outro dos conflitos que os socialistas colocam é o do homem contra a natureza. Argumentam que os seres humanos prejudicam o planeta e que ele deve ser protegido a todo custo, chegando ao ponto de defender mecanismos de controle populacional ou a agenda sangrenta do aborto.

Infelizmente, estas ideias nocivas têm permeado fortemente a nossa sociedade. Os neomarxistas conseguiram cooptar o senso comum do Ocidente. Conseguiram isso graças à apropriação dos meios de comunicação, da cultura, das universidades e, sim, também das organizações internacionais.

Felizmente, cada vez mais gente como nós ousa levantar a voz. Porque vemos que, se não combatermos estas ideias de frente, o único destino possível é o de ter cada vez mais Estado, mais regulação, mais socialismo, mais pobreza, menos liberdade e, consequentemente, um pior nível de vida.

O Ocidente, infelizmente, já começou a trilhar esse caminho. Sei que pode soar ridículo para muitos sugerir que o Ocidente se voltou para o socialismo. Mas só é ridículo na medida em que se restringe à definição económica tradicional de socialismo, que afirma que é um sistema económico onde o Estado é dono dos meios de produção.

Esta definição deveria, para nós, ser actualizada às circunstâncias actuais. Hoje, os Estados não precisam controlar diretamente os meios de produção para controlar todos os aspectos da vida dos indivíduos.

Com ferramentas como emissão monetária, empréstimos, subsídios, controles de taxas de juros, controles de preços e regulamentações para corrigir as chamadas “falhas de mercado”, eles podem controlar os destinos de milhões de seres humanos.

É assim que chegamos ao ponto em que, sob diferentes nomes ou formas, boa parte das propostas políticas geralmente aceites na maioria dos países ocidentais são variantes colectivistas.

Sejam eles abertamente comunistas, socialistas, social-democratas, democratas-cristãos, neokeynesianos, progressistas, populistas, nacionalistas ou globalistas.

No final, não há diferenças substantivas: todos defendem que o Estado deve dirigir todos os aspetos da vida dos indivíduos. Todos eles defendem um modelo contrário àquele que conduziu a humanidade ao progresso mais espetacular da sua história.

Viemos aqui hoje para convidar os outros países do Ocidente a retomarem o caminho da prosperidade. A liberdade económica, o governo limitado e o respeito irrestrito pela propriedade privada são elementos essenciais para o crescimento económico.

Este fenómeno de empobrecimento produzido pelo colectivismo não é uma fantasia. Nem fatalismo. É uma realidade que nós, argentinos, conhecemos muito bem.

Porque já vivemos isso. Nós estivemos lá. Porque, como disse antes, desde que decidimos abandonar o modelo de liberdade que nos enriqueceu, estamos presos numa espiral descendente em que somos cada dia mais pobres.

Nós já experimentamos isso. E estamos aqui para alertá-los sobre o que pode acontecer se os países do Ocidente que enriqueceram com o modelo de liberdade, continuarem nesse caminho de servidão.

O caso argentino é a demonstração empírica de que não importa quão rico seja, quantos recursos naturais tenha, não importa quão qualificada seja a população, ou quão educada ela seja, ou quantas barras de ouro existam nos cofres do banco central.

Se forem tomadas medidas que impeçam o livre funcionamento dos mercados, a livre concorrência, os sistemas de preços livres, se o comércio for dificultado, se a propriedade privada for violada, o único destino possível é a pobreza.

Para concluir, quero deixar uma mensagem a todos os empresários aqui presentes e àqueles que nos observam de todos os cantos do planeta.

Não vos deixeis intimidar nem pela casta política nem pelos parasitas que vivem do Estado. Não se rendam a uma classe política que só quer perpetuar-se no poder e manter os seus privilégios.

Vocês são benfeitores sociais. Vocês são heróis. Vocês são os criadores do período mais extraordinário de prosperidade que já vivemos. Que ninguém lhes diga que a sua ambição é imoral. Se ganham dinheiro, é porque oferecem um produto melhor a um preço melhor, contribuindo assim para o bem-estar geral.

Não cedam ao avanço do Estado. O Estado não é a solução. O Estado é o próprio problema.

Vocês são os verdadeiros protagonistas desta história, e sabem que, a partir de hoje, têm um aliado inabalável na República Argentina.

Muito obrigado e Viva la libertad carajo!

 

Nota: tradução e destaques pela Oficina da Liberdade.

https://oficinadaliberdade.pt/discurso-do-presidente-da-nacao-argentina-javier-milei/

quinta-feira, 13 de dezembro de 2007

A UNIÃO EUROPEIA NA ENCRUZILHADA - artigos e debates


No âmbito dos encontros regulares realizados em parceria com o Instituto Franco-Português destinados a promover o debate sobre artigos do jornal comuns à edição original francesa e à edição portuguesa, este mês propomos a discussão em torno do artigo de Bernard Cassen «Ressureição da "Constituição" europeia» da edição de Dezembro. Poderá ler um excerto deste artigo sítio Internet do jornal.

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Disponíveis em linha estão também os artigos do dossiê publicado na edição de Julho «A UNIÃO EUROPEIA NA ENCRUZILHADA», «Neoliberalismo e crise do projecto europeu» de João Rodrigues e Ricardo Paes Mamede, «Por uma Europa federal e democrática» de Pedro Nuno Santos e «A "Europa dos cidadãos" tem medo dos cidadãos da Europa» de António Figueira.

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Na semana da assinatura do Tratado de Lisboa, este debate reveste-se de uma enorme actualidade e importância.

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O debate contará com a presença de António Figueira, Daniel Oliveira e Ricardo Paes Mamede,
e terá lugar na zona do bar do Instituto Franco-Português no dia 14 de Dezembro, sexta-feira, a partir das 21h30.

A entrada é livre. Participe!


Clique aqui para ver o mapa com a localização do Instituto Franco-Português (Av. Luís Bivar, n.º 91, em Lisboa - junto ao Saldanha).
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Assine a edição portuguesa do Le Monde diplomatique até ao final de Dezembro e receba a oferta do livro Uma Sociedade à Deriva, de Cornelius Castoriadis.

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Mais informações em Le mondediplo.Portugal
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