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domingo, 7 de junho de 2026

Jorge Wemans - As “coisas novas” da primeira encíclica de Leão XIV


O Papa Leão XIV assina a a sua primeira encíclica, a Magnifica Humanitas, a 15 de Maio, numa fotografia divulgada pelos serviços de comunicação do Vaticano VATICAN MEDIA - VIA REUTERS

As “coisas novas” da primeira encíclica de Leão XIV


Este Papa não esperou que amadurecesse o debate sobre o impacte da IA. Leão XIV arrisca a sua palavra quando muitos outros responsáveis ainda nada disseram sobre as “coisas novas” do nosso tempo.

Jorge Wemans

7 de Junho de 2026


É sobre “a sede de inovações que se apoderou das sociedades” esta encíclica. A frase escreveu-a Leão XIII em 1895 a abrir a encíclica Rerum Novarum, mas aplica-se por inteiro à Magnifica Humanitas de Leão XIV. Há 150 anos a Revolução Industrial, hoje a Inteligência Artificial (IA). Tempos e questões diferentes, uma mesma preocupação: que “temíveis conflitos” são criados e alimentados por estas inovações, que humanidade edificam? O olhar do actual Papa sobre os desafios do mundo de hoje leva-o a inovar em múltiplos aspectos, de tal forma que esta sua encíclica difere de todas as anteriores dedicadas à “questão social”.

segunda-feira, 21 de abril de 2025

MENSAGEM URBI ET ORBI DO PAPA FRANCISCO - PÁSCOA 2025

 
MENSAGEM URBI ET ORBI DO PAPA FRANCISCO  - PÁSCOA 2025

Praça São Pedro - Domingo, 20 de abril de 202

 


Cristo ressuscitou, aleluia!

Irmãos e irmãs, Feliz Páscoa!

Hoje ressoa finalmente na Igreja o Aleluia, que corre de boca em boca, de coração a coração, e o seu cântico faz chorar de alegria, no mundo inteiro, o povo de Deus.

Do sepulcro vazio de Jerusalém chega até nós um anúncio sem precedentes: Jesus, o Crucificado, «não está aqui; ressuscitou!» (Lc 24, 6). Não está no túmulo, está vivo!

O amor venceu o ódio. A luz venceu as trevas. A verdade venceu a mentira. O perdão venceu a vingança. O mal não desapareceu da nossa história e permanecerá até ao fim, mas já não lhe pertence o domínio, não tem qualquer poder sobre quem acolhe a graça deste dia.

Irmãs e irmãos, especialmente vós que passais pela dor e pela angústia, o vosso grito silencioso foi ouvido, as vossas lágrimas foram recolhidas e nem sequer uma só se perdeu! Na paixão e morte de Jesus, Deus tomou sobre si todo o mal do mundo e, com a sua infinita misericórdia, derrotou-o: erradicou o orgulho diabólico que envenena o coração humano e semeia violência e corrupção por toda a parte. O Cordeiro de Deus venceu! Por isso, hoje exclamamos: «Ressuscitou Cristo, minha esperança» (Sequência Pascal).

Sim, a ressurreição de Jesus é o fundamento da esperança: a partir deste acontecimento, ter esperança já não é uma ilusão. Não! Graças a Cristo crucificado e ressuscitado, a esperança não engana! Spes non confundit! (cf. Rm 5, 5). E não se trata duma esperança evasiva, mas comprometida; não é alienante, mas responsabilizadora.

Quem espera em Deus coloca as suas mãos frágeis na mão grande e forte d’Ele, deixa-se levantar e põe-se a caminho: juntamente com Jesus ressuscitado, torna-se peregrino de esperança, testemunha da vitória do Amor e do poder desarmado da Vida.

Cristo ressuscitou! Neste anúncio encerra-se todo o sentido da nossa existência, que não foi feita para a morte, mas para a vida. A Páscoa é a festa da vida! Deus criou-nos para a vida e quer que a humanidade ressurja! Aos seus olhos, todas as vidas são preciosas! Tanto a da criança no ventre da mãe, como a do idoso ou a do doente, considerados como pessoas a descartar num número cada vez maior de países.

Quanto desejo de morte vemos todos os dias em tantos conflitos que ocorrem em diferentes partes do mundo! Quanta violência vemos com frequência também nas famílias, dirigida contra as mulheres ou as crianças! Quanto desprezo se sente por vezes em relação aos mais fracos, marginalizados e migrantes!

Neste dia, gostaria que voltássemos a ter esperança e confiança nos outros, mesmo naqueles que não nos são próximos ou que vêm de terras distantes com usos, modos de vida, ideias e costumes diferentes dos que nos são familiares, porque somos todos filhos de Deus!

Gostaria que voltássemos a ter esperança de que a paz é possível! A partir do Santo Sepulcro, Igreja da Ressurreição, onde este ano a Páscoa é celebrada no mesmo dia por católicos e ortodoxos, se irradie sobre toda a Terra Santa e sobre o mundo inteiro a luz da paz. Sinto-me próximo dos cristãos que sofrem na Palestina e em Israel, bem como do povo israelita e palestiniano. É preocupante o crescente clima de antissemitismo que se está a espalhar por todo o mundo. E, ao mesmo tempo, o meu pensamento dirige-se ao povo, em particular, à comunidade cristã de Gaza, onde o terrível conflito continua a gerar morte e destruição e a provocar uma situação humanitária dramática e ignóbil. Apelo às partes beligerantes que cheguem a um cessar-fogo, que se libertem os reféns e se preste assistência à população faminta, desejosa de um futuro de paz!

Rezemos pelas comunidades cristãs do Líbano e da Síria – este último país a atravessar uma fase delicada da sua história –, que anseiam por estabilidade e participação no futuro das respetivas nações. Exorto toda a Igreja a acompanhar com atenção e oração os cristãos do amado Médio Oriente.

Dirijo também um pensamento especial ao povo do Iémen, que está a viver uma das piores crises humanitárias “prolongadas” do mundo devido à guerra, e convido todos a encontrar soluções através de um diálogo construtivo.

Que Cristo ressuscitado derrame o dom pascal da paz sobre a martirizada Ucrânia e encoraje as partes envolvidas a prosseguirem os seus esforços para alcançar uma paz justa e duradoura.

Neste dia de festa, recordemos o Sul do Cáucaso e rezemos pela rápida assinatura e aplicação de um definitivo Acordo de paz entre a Arménia e o Azerbaijão, que leve à tão desejada reconciliação na região.

Que a luz da Páscoa inspire propósitos de concórdia nos Balcãs Ocidentais e apoie os responsáveis políticos a trabalhar para evitar uma escalada de tensões e crises, bem como inspire os parceiros da região a rejeitar comportamentos perigosos e desestabilizadores.

Que Cristo ressuscitado, nossa esperança, conceda paz e conforto aos povos africanos vítimas de violência e conflitos, especialmente na República Democrática do Congo, no Sudão e no Sudão do Sul, e apoie todos quantos sofrem devido às tensões no Sahel, no Corno de África e na Região dos Grandes Lagos, tal como os cristãos que em muitos lugares não podem professar livremente a fé.

Não é possível haver paz onde não há liberdade religiosa ou onde não há liberdade de pensamento nem de expressão, nem respeito pela opinião dos outros.

Não é possível haver paz sem um verdadeiro desarmamento! A necessidade que cada povo sente de garantir a sua própria defesa não pode transformar-se numa corrida generalizada ao armamento. A luz da Páscoa incita-nos a derrubar as barreiras que criam divisões e que acarretam consequências políticas e económicas. Incita-nos a cuidar uns dos outros, a aumentar a solidariedade mútua, a trabalhar em prol do desenvolvimento integral de cada pessoa humana.

Neste momento, não falte a nossa ajuda ao povo do Myanmar que, atormentado por anos de conflito armado, enfrenta com coragem e paciência as consequências do devastador sismo em Sagaing, causador da morte de milhares de pessoas e de sofrimento para muitos sobreviventes, incluindo órfãos e idosos. Rezemos pelas vítimas e pelos seus entes queridos e agradeçamos de todo o coração a generosidade dos voluntários que levam a cabo as operações de socorro. O anúncio do cessar-fogo por parte de vários intervenientes no país é um sinal de esperança para todo o Myanmar.

Apelo a todos os que, no mundo, têm responsabilidades políticas para que não cedam à lógica do medo que fecha, mas usem os recursos disponíveis para ajudar os necessitados, combater a fome e promover iniciativas que favoreçam o desenvolvimento. Estas são as “armas” da paz: aquelas que constroem o futuro, em vez de espalhar morte!

Que o princípio da humanidade nunca deixe de ser o eixo do nosso agir quotidiano. Perante a crueldade dos conflitos que atingem civis indefesos, atacam escolas e hospitais e agentes humanitários, não podemos esquecer que não são atingidos alvos, mas pessoas com alma e dignidade.

E, neste ano jubilar, que a Páscoa seja também uma ocasião propícia para libertar os prisioneiros de guerra e os presos políticos!

Queridos irmãos e irmãs

Na Páscoa do Senhor, a morte e a vida enfrentaram-se num admirável combate, mas agora o Senhor vive para sempre (cf. Sequência Pascal) e infunde em cada um de nós a certeza de que somos igualmente chamados a participar na vida que não tem fim, na qual já não se ouvirá o fragor das armas nem os ecos da morte. Entreguemo-nos a Ele, o único que pode renovar todas as coisas (cf. Ap 21, 5)!

Feliz Páscoa para todos!


Copyright © Dicastero per la Comunicazione - Libreria Editrice Vaticana

https://www.vatican.va/content/francesco/pt/messages/urbi/documents/20250420-urbi-et-orbi-pasqua.html

terça-feira, 1 de abril de 2025

António Gil - A ilusão de uma Europa pacífica



* António Gil

Um mito persistente mas agora moribundo.

Durante décadas acreditou-se que a União Europeia (antes CEE) seria a garantia de paz no continente. Eu mesmo, quando jovem acreditava nisso mas acordei para a dura realidade há mais de 3 décadas, por ocasião da guerra na ex Jugoslávia.

A crença era partilhada por muitos não europeus. Não por acaso, o neo con Robert Kagan escreveu que "Os americanos são de Marte e os europeus são de Vénus". Marte, como se sabe, era o Deus romano da guerra e Vénus a Deusa do amor. E a expressão resultou de uma conversão do título de um livro do filósofo John Gray ‘’Os homens são de Marte e as mulheres são de Vénus’’.

Bom, ambas as ideias estão erradas. No que ao impulso belicista diz respeito, a Europa esteve na origem de duas guerras mundiais. E depois disso, não apenas no caso jugoslavo mas também na Líbia, os europeus (franceses e ingleses, no caso) foram os verdadeiros iniciadores da guerra, a administração Obama acabou por se lhes juntar mais tarde.

Se algum mérito Trump teve, no caso da guerra da Ucrânia, foi dar a machadada final na crença que os EUA são entusiastas da guerra e os europeus apenas os seguem. Ninguém agora pode mais acreditar nisso.

A indignação de Macron, Starmer, Baerbock e Merz diante da possibilidade dos EUA simplesmente se retirarem de uma guerra que eles teimam em continuar é evidente. Os apelos de Ursula, Kallas e Mark Rutte (um holandês) para o rearmamento europeu, falam por si.

Isto é tanto mais grave quanto sabemos que duas guerras mundiais na Europa arruinaram o continente e levaram a sua perda de influência mundial. Uma terceira guerra generalizada ao continente devia, por isso, fazer soar todos os alarmes e despertar todos os terrores.

No entanto, não se nota, nas opiniões públicas europeias qualquer agitação. Em alguns países fala-se de serviço militar obrigatório, a Dinamarca irá mobilizar também as mulheres, Ursula propõe um kit ridículo de sobrevivência para 3 dias e poucos cidadãos reagem a tais propostas.

Há um sonambulismo incompreensível dos europeus quanto a esta verdadeira ameaça a sua sobrevivência e ainda não entendi se ela resulta do cepticismo (ninguém acreditar em tal possibilidade) se de conformismo ou preguiça de reagir.

https://antoniojfgil.substack.com/p/the-illusion-of-a-peaceful-europe? 

quinta-feira, 20 de março de 2025

Domingos Lopes - Gira, el mundo gira

 * Domingos Lopes  

Admite-se a dificuldade em acompanhar as grandes mudanças no mundo. Normalmente é mais fácil seguir o curso normal. Porém, o curso normal das coisas não é seguro. Muda, às vezes. Estamos a assistir e a participar num desses momentos de mudança. O que levou o nosso Camões a dizer que – todo o mundo é composto de mudança, tomando novas qualidades – e cá vamos nós atrás das mudanças que outros vão à frente.

A guerra nunca teria acontecido se a Rússia não tivesse invadido a Ucrânia e os EUA /UE/Zelenski não quisessem a invasão/guerra. Os ucranianos davam o sangue, a UE o apoio material (em boa medida) e os EUA alimentavam-na com sua poderosa máquina de guerra. Daí ser uma guerra do Ocidente por via dos proxys ucranianos que dependiam dos EUA em matéria de armamento.

Se recuarmos no tempo, os dirigentes ocidentais, designadamente os da UE posicionam-se hoje em frontal contradição com as suas declarações a garantir que não havia espaço para negociações e a Rússia teria de sofrer uma derrota estratégica. Em todos os media, salvo três ou quatro honrosas exceções, esta era a verdade única, a que podia ser difundida e foi ad nauseam.

A arrogância ocidental atingia o pico himalaiano. Os russos nem sequer tinham botas e as armas eram da 1ª guerra mundial. E provavelmente muitos daqueles fazedores de opinião acreditavam no que diziam, tão grande era, por que não dizê-lo, a sua burrice e, nalguns casos, a cretinice.

Esta guerra contribuiu para mudar o mundo. Os que a viam, perdidos no tempo dos filmes sem som e a preto e branco, não têm agora capacidade (talvez alguns mais refinados não queiram) de encarar a novidade no mundo. Ainda vivem no mundo hegemónico ocidental.

Os que seguiam os EUA para onde quer que eles fossem, não compreendem que o papel dos subservientes é serem-no e assim está cumprido o seu papel. Quando já não servem, são descartáveis. A História demonstra-o.

O aparecimento de um novo chefe de fila do grande Império com ideias iguais às do ex-chefe, mas com um caminho diferente para manter a hegemonia, baralhou os súbditos e deixou-os a esbracejar e a fazer proclamações ocas e próprias, na linguagem de Nitzsche, da décadence evidente partout.

António Costa, refiro-o por ser de cá do burgo, passou o seu tempo enquanto Primeiro-Ministro a proclamar que a Rússia tinha de ser derrotada. Ele e o seu governo. Ele e quase todos os dirigentes do PS. Ia atrás da Sra. Ursula, do Sr. Scholtz, do Sr. Macron, do Sr. Riki, do Sr. Steimer, do Sr. Borrel, do Sr. Stoltenberg e do atual Sr. Rutte e da Sra. Kaya Kallas e de tutti quanti.

O Sr. Presidente do Conselho Europeu acordou ontem no meio de esta longa letargia para vir acusar a Rússia de não querer negociar e, por isso, era preciso obrigá-la a negociar…Depois de terem prometido a Zelenski que se não assinasse o Acordo de Istambul, lhe daria todo o apoio as long as it takes.

Esta nata de dirigentes da UE são irresponsáveis e movem-se num mundo paralelo à realidade material. É de admitir que se sintam fora do tempo. Só que não voltam para dentro do tempo e continuam a correr numa realidade paralela e abusivamente a tentar impor às nações da UE e aos povos destas nações o fardo do partido da guerra.

Abraçaram – socialistas, liberais novos e antigos, populares e democratas-cristãos, certos verdes e outros de outras cores – o partido único, o partido da guerra.

Já nada têm a propor à Europa, a não ser a guerra. A Alemanha rearma-se e a França assusta-se. Macron está de partida. Mertz tem 30% e sem o SPD e os Verdes não anunciaria o que anunciou. Falou em 800 000 milhões para armas, grande parte delas para comprar aos EUA…

O rearmamento da Europa não é só para dar cobertura à russofobia; destina-se a manter os povos em estado de alienação e tentar cada uma das potências ficar com mais poder que a outra. A NATO quanto tempo durará? Sem o cimento do patrão…

Trump tenta dividir o eixo Rússia/Irão/China. O novo imperador trata de se ocupar de outros assuntos dada a quase insignificância da UE com tais senhoras e cavalheiras à frente dos seus destinos. Trump “compreendeu” que a escalada na guerra atingiria perigosamente o patamar nuclear. A UE, como não dispõe tal armamento, afirma-se como um garnizé frente ao galo da capoeira. Por isso, a UE está como está, com governos minoritários à espera de fazer aceitar o que já muitos aceitam, a extrema-direita.

Nem nestas circunstâncias, únicas para fazer a diferença, a UE e seus dirigentes são capazes de confiar nos povos respetivos e mobilizá-los para fazer do nosso fantástico continente um continente de paz, harmonia, liberdades, direitos, com um ambiente sustentável e de cooperação com todos os povos do mundo numa plataforma de segurança para todos, ucranianos, russos e todos, mesmo todos. Essa seria a melhor defesa da Europa. Os russos vieram a este lado da Europa para derrotarem em Berlim Hitler e a Paris atrás do exército napoleónico e regressaram de imediato. Os que vivem na Europa são europeus, desde Lisboa aos Urais. A Europa precisa de paz e cooperação para ser diferente e importante no mundo.

20 de Março de 2025 

https://ochocalho.com/2025/03/20/gira-el-mundo-gira/

domingo, 16 de março de 2025

Aureliano - De quoi parlons-nous quand nous parlons de negociations?

Outro dos meus ensaios em francês 

* Aureliano

16 de março de 2025

Por favor, junte-se a mim mais uma vez para agradecer a Hubert Mulkens por outra tradução brilhante de um ensaio recente meu. Esta é uma tradução francesa do meu ensaio "Sobre o que falamos, quando falamos sobre conversas", que apareceu pela primeira vez em 19 de fevereiro. (E obrigado mais uma vez a Catherine por ler e comentar a tradução.) Suscitou um interesse considerável e alguns comentários na versão inglesa: esta tradução irá, espero, dar àqueles que têm o francês como primeira língua, uma oportunidade de ler e comentar também. Como sempre, estou muito feliz que as traduções dos meus ensaios para outros idiomas apareçam: peço apenas que você me informe e forneça um link para o original. Então agora vamos dar a palavra a Hubert ...

O novo secretário de Defesa dos EUA, Sr. Hegseth, anunciou com um timing impecável a revisão da política dos EUA em relação à Ucrânia, na esteira da conversa telefônica Trump/Putin, assim como meu último ensaio foi publicado. Portanto, ainda não tive a chance de escrever nada sobre esses desenvolvimentos, mas se você ler o site recomendado "Naked Capitalism" naquele dia (o que deveria), terá visto alguns dos meus primeiros pensamentos em e-mails trocados com Yves Smith. E como Yves gentilmente me deu a entender que eu poderia produzir um ensaio útil sobre o assunto, particularmente sobre o aspecto da negociação, bem, decidi fazê-lo.
 

sábado, 8 de março de 2025

Viriato Soromenho-Marques - PORTUGAL À DERIVA NA TEMPESTADE – quatro notas de leitura

Os EUA nunca acreditaram, ao contrário da ignara arrogância de Bruxelas, que a máquina de guerra russa poderia ser derrotada no plano convencional. Como o secretário da Defesa L. Austin afirmou, logo em maio de 2022, o objetivo dos EUA era o de fazer “sangrar a Rússia”, enquanto Kiev tivesse capacidade para o fazer.

* Viriato Soromenho-Marques


As grandes crises revelam os grandes líderes. Contudo, apenas quando os povos têm a sorte e a capacidade de os produzirem. A guerra da Ucrânia, que já entrou no seu quarto ano é, sem dúvida, a maior crise existencial de toda a história portuguesa, pois é a primeira vez que Portugal tem um governo que se deixou, com entusiástica estultícia, enrolar num confronto com a Rússia, totalmente contrário ao interesse nacional mais elementar, o salus populi suprema lex esto (seja a salvação do povo a lei suprema), imortalizado no De Legibus, de Cícero. Nem os fanáticos que queriam declarar guerra ao império britânico, na sequência do Ultimato de 1890, nem o furioso Afonso Costa, colocando Lisboa a ferro e fogo em maio de 1915 para enviar, por decisão unilateral, milhares de soldados analfabetos para a Flandres, se comparam à façanha do mesquinho consenso nacional que vai de António Costa a Rui Tavares, numa contemporânea demonstração da veracidade da tese de Unamuno que considerava ser Portugal um país de suicidas. O que continua em causa é a possibilidade de Portugal ser destruído num conflito total com a Rússia, o país com o mais poderoso e moderno arsenal nuclear do planeta.

Estamos a falar de acontecimentos vertiginosos, desde a chegada de Trump à Casa Branca. Vejamos, apenas, alguns das dimensões mais permanentes, neste quadro de incerta mudança.

Primeira. As negociações de paz, iniciadas por Trump com a Rússia, são boas notícias para os povos da Europa e do mundo. Afastam, pelo menos provisoriamente, o pior cenário, para onde estaríamos a rumar caso a linha de escalada bélica seguida por Biden tivesse prosseguido. Essas negociações, onde nem Zelensky nem a UE contam, revelam a justeza dos analistas, entre os quais me encontro desde sempre, que consideraram esta guerra como uma guerra de procuração (proxy war) dos EUA contra a Rússia, usando o território e o sangue ucranianos como instrumentos. Bruxelas protesta, porque Trump deixou cair o véu de Maia, a cortina ilusória, que fazia do apoio da UE à Ucrânia um assunto de direito internacional. Na verdade, tratava-se da prova de que os nossos governantes europeus não hesitam em sacrificar a qualidade de vida e a segurança dos seus povos, para servirem o império americano, e o seu desígnio persistente de fragmentar a Rússia. O caso mais aberrante de autoflagelação europeia é o da Alemanha, quando o governo de Scholz tudo fez para manter a lealdade canina com Washington, imolando para isso a qualidade de vida e a saúde económica do seu próprio país.

Segunda. As perspetivas de “paz imperfeita”, mil vezes melhor do que a continuação do conflito, só foram possíveis, para além das mudanças em Washington, pela clara superioridade militar das forças convencionais russas, apesar da valentia das tropas ucranianas e das correntes inesgotáveis de material bélico recebido dos países da NATO ao longo destes três anos. Os EUA nunca acreditaram, ao contrário da ignara arrogância de Bruxelas, que a máquina de guerra russa poderia ser derrotada no plano convencional. Como o secretário da Defesa L. Austin afirmou, logo em maio de 2022, o objetivo dos EUA era o de fazer “sangrar a Rússia”, enquanto Kiev tivesse capacidade para o fazer. No cenário, altamente improvável, de as tropas de Kiev com o apoio de “voluntários” ocidentais se aproximarem de uma derrota das forças convencionais russas, Moscovo não se renderia. Faria o que a sua doutrina há décadas promulga: escalaria ao uso limitado do nuclear, para obrigar o inimigo a pensar duas vezes antes de prosseguir até à guerra total. Por outras palavras, a vitória convencional e limitada da Rússia, parece ter salvo os povos da Europa de serem vítimas da irresponsabilidade estratégica dos seus dirigentes.

Terceira. A paz que está a ser negociada só poderá ser duradoura se se traduzir num tratado que defina as regras do jogo no sistema internacional europeu, pretensão que a Rússia sempre perseguiu, mesmo desde os tempos de Gorbachev. Há, contudo, dois obstáculos no caminho. Por um lado, aquilo que prevalece no discurso europeu (com apoio da administração Trump) é a ideia de a UE fazer da corrida armamentista o novo objetivo estratégico (rasgando e substituindo o famoso Pacto Ecológico, onde a minha derradeira credulidade se esgotou). A Rússia jamais permitirá que uma nova guerra seja preparada à sua vista, sem nada fazer. Por outro lado, Trump está a jogar perigosamente não só com os seus aliados, mas também com o próprio aparelho de Estado federal e com alguns dos poderosos interesses nele instalados. Considero bastante provável que um atentado contra Trump, desta vez bem-sucedido, possa desencadear uma segunda guerra civil americana, cujas consequências são totalmente imprevisíveis.

Quarta. Só um milagre poderia impedir as forças centrífugas dentro da UE de prevalecer. Não sei quanto tempo ainda teremos antes de este edifício, cheio de fissuras, nos tombar sobre a cabeça. A zona Euro, totalmente dependente de Wall Street e da Reserva Federal, irá contribuir para que governos e povos fiquem paralisados à espera do pior. Curiosamente, os furiosos governos anti-russos do Leste da Europa, darão, provavelmente, lugar a novos governos favoráveis à colaboração com Moscovo. A UE será a grande vítima da guerra da Ucrânia. Os insensatos que em Bruxelas abraçaram uma política totalmente oposta às realidades históricas e geopolíticas da Europa, serão, pelo menos, testemunhas do imperdoável caos em que nos fizeram mergulhar.

(Publicado no Jornal de Letras, edição de 5 de março de 2025)

Post scriptum. O artigo acima foi escrito antes da famosa “disputa” de Zelensky contra Trump e toda a sua equipa na Sala Oval, no dia 28 de fevereiro de 2025. Aconselho os leitores do Azorean Torpor a visionarem o filme completo (49’47’’), antes de fazerem coro com a transformação de Zelensky numa vítima heróica. Fazer um juízo a partir da parte final dessa conversa, satisfaz o alinhamento manipulatório que foi dado na Europa a essa longa conversa. Também não tenho simpatia por Trump, mas reconheço que existe um esforço sério da sua administração para acabar com esta guerra, em absoluto contraste com a corrida para o confronto total com a Rússia a que nos conduziria a continuação da política de Biden e Blinken. Pelo contrário, Zelensky aproveitou a amabilidade dos seus anfitriões norte-americanos para mostrar, perante um auditório universal, a sua total oposição a esse processo de paz. Para um cidadão europeu, ao fim de três anos de guerra, não perceber onde é que está o nosso interesse vital, preferindo o discurso de ódio ao discurso da via diplomática, significa até que ponto chagámos na Europa a um lamentável estado de degradação da nossa capacidade coletiva e individual de distinguir entre o que é essencial e o que é perigosamente ilusório.

2025 03 06 

https://azoreantorpor.wordpress.com/2025/03/06/

segunda-feira, 9 de setembro de 2024

Prabhat Patnaik - O estado bizarro da democracia ocidental


 * Prabhat Patnaik  [*]


Durante todo o período do pós-guerra em que existiu nos países metropolitanos, a democracia nunca esteve num estado tão bizarro como o atual. Supõe-se que a democracia significa a prossecução de políticas que estão em conformidade com os desejos do eleitorado. A conformidade entre os dois é tipicamente assegurada sob o domínio burguês pelo governo que decide sobre as políticas de acordo com os interesses da classe dominante, e depois tem uma máquina de propaganda que persuade o povo sobre a sabedoria dessas políticas. A conformidade entre a opinião pública e o que a classe dominante quer é assim alcançada de uma forma complexa cuja essência reside na manipulação da opinião pública.

Mas o que se passa atualmente é completamente diferente:   a opinião pública, apesar de toda a propaganda que lhe é dirigida, quer políticas completamente diferentes das que são sistematicamente seguidas pela classe dominante. Por outras palavras, as políticas favorecidas pela classe dominante estão a ser prosseguidas apesar de a opinião pública se opor palpável e sistematicamente a elas. Isto é possível graças ao facto de a maioria dos partidos políticos se alinhar por essas políticas; ou seja, graças ao facto de um espetro muito vasto de formações políticas ou partidos apoiar essas políticas contra a vontade da maioria do eleitorado. A situação atual caracteriza-se, portanto, por duas caraterísticas distintas:   em primeiro lugar, uma ampla unanimidade entre a maior parte das formações políticas (partidos); e, em segundo lugar, uma total falta de congruência entre o que estes partidos acordam e o que as pessoas querem. Esta situação não tem precedentes na história da democracia burguesa. Além disso, estas políticas não dizem respeito a questões menores relativas a este ou aquele assunto, mas a questões fundamentais de guerra e paz.

Tomemos o exemplo dos Estados Unidos. A maioria das pessoas naquele país, de acordo com todas as sondagens de opinião disponíveis, está chocada com a guerra genocida de Israel contra o povo palestino; gostariam que os EUA pusessem fim à guerra e não continuassem a fornecer armas a Israel para a prolongar. Mas o Governo dos EUA está a fazer precisamente o contrário, mesmo correndo o risco de fazer escalar a guerra para envolver todo o Médio Oriente. Da mesma forma, a opinião pública nos EUA não quer a continuação da guerra na Ucrânia. É a favor do fim do conflito através de uma paz negociada; mas o governo dos EUA (juntamente com o do Reino Unido) tem sistematicamente torpedeado todas as possibilidades de uma solução pacífica. A sua oposição aos acordos de Minsk, uma oposição transmitida à Ucrânia através da viagem do primeiro-ministro britânico Boris Johnson a Kiev, foi o que deu início à guerra; e mesmo agora, quando Putin tinha feito algumas propostas para estabelecer a paz, incitou a Ucrânia a lançar a sua ofensiva de Kursk, que pôs fim a todas as esperanças de paz. O que é significativo é o facto de tanto os Republicanos como os Democratas nos EUA estarem de acordo com esta política de fornecimento de armas a Netanyahu e Zelensky, apesar de a opinião pública desejar a paz e apesar de qualquer aventureirismo da Ucrânia correr o risco de desencadear uma conflagração nuclear.

Este contraste entre o que o povo quer, apesar de toda a propaganda a que tem sido sujeito, e o que o establishment político ordena, aflige todos os países metropolitanos; mas em nenhum outro lugar é tão flagrante como na Alemanha. A guerra da Ucrânia afecta diretamente a Alemanha de uma forma que não atinge nenhum outro país metropolitano, uma vez que a Alemanha estava inteiramente dependente do gás russo para as suas necessidades energéticas. As sanções contra a Rússia causaram uma escassez de gás; e a importação de substitutos mais caros dos EUA fez subir os preços do gás para níveis que afectam fortemente o nível de vida dos trabalhadores alemães. Os trabalhadores alemães exigem urgentemente o fim da guerra na Ucrânia, mas nem a coligação no poder, constituída pelos Sociais-Democratas, os Democratas Livres e os Verdes, nem a principal oposição, constituída pelos Democratas-Cristãos e os Socialistas-Cristãos, estão a mostrar qualquer interesse numa resolução pacífica do conflito. Pelo contrário, a classe política alemã está a tentar suscitar o medo de que apareçam tropas russas nas fronteiras alemãs, quando, ironicamente, são tropas alemãs que estão atualmente estacionadas na Lituânia, nas fronteiras da Rússia!

No seu desespero para pôr fim à guerra na Ucrânia, os trabalhadores alemães estão a voltar-se para o AfD neofascista, que professa ser contra a guerra (embora se saiba que irá inevitavelmente trair esta promessa assim que se aproximar do poder) e para o novo partido de esquerda de Sahra Wagenknecht, que se separou do partido de esquerda-mãe, Die Linke, precisamente por causa desta questão da guerra.

Exatamente o mesmo se passa com as atitudes alemãs em relação ao genocídio em Gaza. Enquanto a maior parte da população alemã se opõe a este genocídio, o governo alemão criminalizou toda a oposição ao genocídio israelense, alegando que constitui “anti-semitismo”. Chegou mesmo a interromper uma convenção que estava a ser organizada para protestar contra o genocídio, para a qual tinham sido convidados oradores de renome internacional como Yanis Varoufakis. A utilização do bastão do “anti-semitismo” para derrotar toda a oposição à agressão de Israel também é generalizada noutros países metropolitanos. Na Grã-Bretanha, Jeremy Corbyn, o antigo líder do Partido Trabalhista, foi expulso do partido, ostensivamente com base no seu chamado “anti-semitismo”, mas na realidade devido ao seu apoio à causa palestina; e as autoridades universitárias dos EUA invocaram esta acusação contra os protestos universitários generalizados que abalaram o país.

Este tipo de domínio sobre a opinião pública é normalmente conseguido mantendo estas questões candentes da paz e da guerra fora da discussão política. Nas próximas eleições presidenciais americanas, por exemplo, uma vez que ambos os candidatos, Donald Trump e Kamla Harris, concordam com o fornecimento de armas a Israel, esta questão em si não figurará em nenhum debate presidencial ou na campanha presidencial. Enquanto outros temas em que divergem ocuparão um lugar central, o tema crucial que afecta as pessoas e sobre o qual têm uma opinião diferente da dos concorrentes não será objeto de debate.

Uma razão para o apoio do establishment político às acções israelenses, que está longe de ser negligenciável, é o generoso financiamento ao mesmo de doadores pró-Israel. De acordo com um relatório publicado na Delphi Initiative (21 de agosto), metade do gabinete de Keir Starmer, o recém-eleito primeiro-ministro trabalhista da Grã-Bretanha, havia recebido dinheiro de fontes pró-Israel para disputar as eleições que os levaram ao poder. O mesmo número da mesma revista informa também que um terço dos membros conservadores do parlamento britânico havia recebido dinheiro de fontes pró-Israel para as eleições. Por outras palavras, o dinheiro a favor de Israel está disponível para ambos os principais partidos da Grã-Bretanha, o que torna o apoio às ações israelenses um assunto bipartidário.

Por outro lado, o que acontece àqueles que se colocam ao lado da Palestina é ilustrado por dois casos nos EUA:   os membros do Congresso, Jamaal Bowman e Cori Bush, ambos representantes negros progressistas, que simpatizavam com a causa palestina e eram fortes críticos do genocídio israelense, foram derrotados pela intervenção do AIPAC (American-Israel Public Affairs Committee), um poderoso lobby pró-Israel, que investiu milhões de dólares no esforço. A Delphi Initiative de 31 de agosto informa que foram gastos 17 milhões de dólares para a derrota de Bowman e 9 milhões de dólares para a campanha publicitária contra Cori Bush. É interessante notar que a campanha contra Cori Bush não mencionou a agressão de Israel a Gaza, pois a AIPAC sabia que, nessa questão específica, o público teria apoiado Cori Bush e não o seu adversário, frustrando assim os seus planos para a sua derrota. O que tudo isto significa é que uma decisão fundamental sobre a guerra e a paz, que afecta toda a gente, está a ser tomada nos países metropolitanos , contra a vontade dos povos, por um establishment político que é financiado por lóbis com interesses instalados.

Assim, na metrópole, passou-se da “manipulação do dissenso” através da propaganda para a ignorância total do dissenso, mesmo o dissenso de uma maioria que se revelou imune à propaganda. Trata-se de uma nova etapa na atenuação da democracia, uma etapa caracterizada por uma falência moral sem precedentes do poder político. Essa falência moral do poder político tradicional constitui também o contexto para o crescimento do fascismo; mas, quer o fascismo chegue ou não ao poder, a atenuação da democracia nas sociedades metropolitanas já retirou ao povo um poder sem precedentes.

08/Setembro/2024

[*] Economista, indiano, ver Wikipedia

O original encontra-se em peoplesdemocracy.in/2024/0908_pd/bizarre-state-western-democracy

Este artigo encontra-se em resistir.info


quinta-feira, 8 de agosto de 2024

Fausto Neves - A Música e a Paz



*  Fausto Neves

Ainda de olhos hú­midos pelo horror da 2.ª Grande Guerra e na an­gústia do mundo não ter apren­dido ainda com o con­flito, os eu­ro­peus as­sis­tiram à es­treia em 1962 do “War Re­quiem” do in­glês Ben­jamin Britten: uma missa de de­funtos de­di­cada à morte da guerra.

Mis­tu­rando o tra­di­ci­onal texto li­túr­gico com po­esia pa­ci­fista de Wil­fred Owen que co­teja as pa­la­vras bí­blicas, Britten, ob­jector de cons­ci­ência in­glês, co­ra­jo­sa­mente as­su­mido em plena guerra, e Owen, obri­gado a com­bater e morto na 1.ª guerra mun­dial, vi­eram mu­ni­ciar a obra com os seus exem­plos. Ainda a re­levar a sim­bo­logia da co­e­xis­tência de duas or­ques­tras (sin­fó­nica e de câ­mara) com um coro gi­gan­tesco e três so­listas (ori­gi­nal­mente so­prano russo, tenor in­glês e baixo alemão), e a es­treia na re­cons­truída ca­te­dral de Con­ventry (ar­ra­sada pelas bombas alemãs).

É a Mú­sica um veí­culo po­de­roso para a Paz e para a luta que esta nos me­rece?

Sim e… não, como toda a Arte no con­texto so­cial en­vol­vente, no âm­bito de classe pos­si­dente do mo­mento his­tó­rico.

A poucos dias da Festa, sa­bemos da força da en­to­ação co­lec­tiva de um Avante, ca­ma­rada! ou de uma In­ter­na­ci­onal. “Eles” também o sabem e desde há muito: pen­semos no uso que Hi­tler fez da Mú­sica para ali­enar mul­ti­dões…

Só que o fu­turo é só um: o do pro­gresso. E pro­gresso é paz, não guerra; é a eman­ci­pação do Homem e não o obs­cu­ran­tismo, com as opo­nentes “carnes para ca­nhão”, lan­çadas em lutas sempre fra­tri­cidas.

E a Arte, com a Mú­sica in­cluída, não re­siste a longo apri­si­o­na­mento, ao travar da His­tória ou mesmo re­tardar-lhe o passo: ha­verá sempre quem lembre “aos amigos para mu­darem de tom, de som”, como fez Be­ethoven na inu­si­tada en­trada de uma voz so­lista na sua 9.ª sin­fonia.

E se a prá­tica coral pode ser ex­ce­lente exemplo da co­o­pe­ração entre vozes e idi­os­sin­cra­sias na cons­trução de um som co­lec­tivo; se o fa­moso “El Sis­tema” bo­li­va­riano de or­ques­tras, aces­sí­veis a todos os alunos de mú­sica sem qual­quer obs­tá­culo de acesso, é ex­por­tado – às es­con­didas… para tantos países com su­cesso, num exemplo de eman­ci­pação so­cial pela prá­tica mu­sical de qua­li­dade; se a Or­questra West-Eas­tern Divan, criada por Da­niel Ba­rem­boim, pôs jo­vens ju­deus, pa­les­ti­ni­anos e árabes em geral a dar con­certos ines­que­cí­veis por todo o mundo, ar­ra­sando exem­plar­mente os ac­tuais gro­tescos tam­bores do horror, temos entre nós um fe­nó­meno que me­rece al­gumas li­nhas, ainda no ca­pí­tulo de in­ter­venção pela mú­sica: uma vez mais a nossa “Car­va­lhesa”!

As “car­va­lhesas” são ir­re­sis­tí­veis danças, to­cadas por gai­teiros (con­junto de gaita-de-foles, caixa e bombo), sem letra as­so­ciada. A “Car­va­lhesa” que co­nhe­cemos, se­gundo re­colha de Kurt Schin­dler, ofe­re­cida ao PCP pelo seu mi­li­tante Mi­chel Gi­a­co­metti e mais tarde ar­ran­jada por Fausto Bor­dalo Dias na sua versão mais po­pular, não sendo can­tada, “não possui qual­quer sig­ni­fi­cado in­ter­ven­tivo”, como é de­fen­dido por mu­si­có­logos para quem a mú­sica só ganha um sen­tido com letra.

Quem vai à Festa per­cebe fa­cil­mente que, pelo menos, esta te­oria terá ex­cep­ções (!): se­guindo a sua vo­cação ini­cial, a “Car­va­lhesa”, às pri­meiras notas, é mola im­pul­si­o­na­dora de mul­ti­dões para a dança!

Além disso a “Car­va­lhesa”, pela sua po­pu­la­ri­dade e cunho etno-mu­sical ge­nuíno, re­siste na sua jo­vial fun­ci­o­na­li­dade ao afo­ga­mento cri­mi­noso en­ce­tado em força pela mú­sica co­mer­cial de má qua­li­dade, que tenta se­parar o ci­dadão, quer da sua mú­sica tra­di­ci­onal, quer do pa­tri­mónio mu­sical de todos os tempos a que tem di­reito e ne­ces­si­dade. Na Festa re­cria de certa ma­neira a his­tória e a evo­lução da Mú­sica com o po­si­ci­o­na­mento do Homem pe­rante ela: solta em todos a te­lú­rica pulsão pri­mária da Dança, nos pri­mór­dios li­gada in­ti­ma­mente à Mú­sica, e que, por ne­ces­si­dade de es­pe­ci­a­li­zação ins­tru­mental e cres­cente abs­tracção hu­mana, se foi sa­cri­fi­cando; deixa de­mo­cra­ti­ca­mente o seu usu­fruto à es­colha livre do pú­blico – a) ex­pri­mindo fi­si­ca­mente as suas pul­sões; b) fa­zendo-o pru­den­te­mente, abrindo os olhos em si­mul­tâneo para o es­pec­tá­culo co­lec­tivo; c) pro­cu­rando em ex­clu­sivo um local ele­vado com visão pri­vi­le­giada sobre o es­pec­tá­culo inol­vi­dável.

Numa pe­nada, temos a origem da Mú­sica um­bi­li­cal­mente li­gada à Dança, a pos­si­bi­li­dade morna de po­dermos usu­fruir em si­mul­tâneo do mo­vi­mento e do es­pec­tá­culo e, por úl­timo, a po­sição de pú­blico so­li­dário e vi­brante com o quadro es­pec­ta­cular ob­ser­vado.

No meio de tudo isto, é claro, a Paz e a ale­gria de viver: o fu­turo será sempre nosso.

2024 08 09

https://www.avante.pt/pt/2645/argumentos/176540/A-M%C3%BAsica-e-a-Paz.htm

sábado, 18 de maio de 2024

Pedro Almeida Vieira - Um irresponsável populista chamado Gouveia e Melo


* Pedro Almeida Vieira
/ Maio 15, 2024

Gouveia e Melo andou em ‘conspirações de maledicência nos corredores militares‘ – irrelevantes e inúteis para a sociedade nacional e internacional – até lhe cair no colo a tarefa logística de vacinar contra a covid-19 até o periquito, incluindo, claro, crianças e jovens que jamais integravam grupos de risco.
A ‘medalha’ foi a sua ascensão, primeiro ao posto mais elevado do Almirantado da Marinha e depois ao cargo, para nosso encargo, de Chefe do Estado-Maior da Armada. E à boleia veio a peregrina ideia de ser ele um putativo candidato a Presidente da República, sustentada e promovida por jornais como o Diário de Notícias, que se transformou no seu órgão oficial, tanto é o palco que lhe concedem.
Desde aí, Gouveia e Melo, um especialista em submarinos, aproveita qualquer oportunidade para vir à tona mostrar a sua existência – e, hélas, tentar-nos convencer da suposta necessidade de o termos por perto, mesmo se ele tem vontade de mandar alguns de nós – presumo, os mais novos – morrer longe.
Em mais uma entrevista publicada hoje no Diário de Notícias, em parceria com a TSF (do mesmo grupo de media) somos confrontados com tiradas populistas e irresponsáveis, o que não admira porque vem de um irresponsável populista. Gouveia e Melo nada mais faz do que instigar um conflito grave. Fala das habituais passagens de navios russos na nossa gigantesca Zona Económica e Exclusiva (a quinta maior da Europa) – que deve ser fiscalizada com naturalidade – como se estivessem associadas a preparativos de uma invasão ou de um iminente conflito mundial. E, perante um conflito localizado geograficamente nos confins da Europa, face à nossa posição, e que deve ser tratado sobretudo pela via diplomática, e não por militares sedentos de bacoco protagonismo, destapa a sua veia – ou variz – bélica, prometendo insensatamente ‘carne lusa para canhão’.
Não é minimamente aceitável que em Portugal, em modelo democrático e em pleno século XXI, venha uma alta patente militar, como Gouveia e Melo, dizer estas duas simples frases a pretexto de um conflito armado grave, humanamente lastimável, mas que se circuscreve à mesma região há mais de dois anos: “E podem ter certeza absoluta de que se a Europa for atacada e a NATO nos exigir, vamos morrer onde tivermos de morrer para defender a Europa, que é a nossa casa comum. Afinal, estamos a defender o nosso modo de vida, a democracia, os nossos sistemas, a nossa economia“.
“Defender o nosso modo de vida, a democracia, os nossos sistemas, a nossa economia” não se faz, primeiro, através de uma organização militar a EXIGIR o que quer que seja a um povo, ainda mais ao povo de um país soberano com quase 900 anos de existência. A ideia de ‘carne para canhão’ não se conjuga bem como o ‘nosso modo de vida’ no século XXI.


Não se defende “o nosso modo de vida, a democracia, os nossos sistemas, a nossa economia” PROMETENDO que “vamos morrer onde tivermos de morrer”, sobretudo quando o senhor que assim promete não é o Mel Gibson a armar-se em romântico William Wallace – que, na realidade, foi enforcado e esquartejado por alta traição aos 35 anos – mas sim um homem de 63 anos, almirante e Chefe do Estado-Maior da Armada de um país da NATO, antevendo-se assim que, ficando tudo torto, ficará ele no recato do lar ou no conforto do seu gabinete a esquadrinhar estratégias e tácticas militares enquanto a gente (jovem) que ele enviou está a morrer onde tiver de morrer – e a matar. Tudo para supostamente se defender a Europa, como se fosse uma angélica pomba da paz.
Aliás, a ideia de “defender a Europa, que é a nossa casa comum”, colocando a Europa como um modelo, constitui uma pérola do populismo, ainda mais por meter a Rússia como pária. E nem é por a Rússia e a Ucrânia serem nações consideradas europeias, e nem é por ambos os países lamentavelmente não saberem o que é uma democracia, mas sim por o almirante Gouveia e Melo querer fazer-nos de parvos.
Se há um Continente do Mundo que é belicista, esse é a Europa, com conflitos seculares, mais ou menos duradouros, mais ou menos grotescos nas causas. Antes das chamadas Primeira Guerra Mundial (1914-1918) e da Segunda Guerra Mundial (1939-1945), já houvera muitos mais conflitos armados à escala planetária, e se as duas do século XX foram marcantes deve-se sobretudo à capacidade tecnológica de letalidade e de afectar mais vidas de civis. E em todos esses conflitos de grande dimensão, não me parece ter sido a Rússia a má da fita.


Se erro histórico houve para que a Europa não tenha evoluído nas últimas décadas em conjunto com os mesmo valores – aproveitando a Queda do Muro de Berlim e o colapso da União Soviética – foi o ostracismo a que se botou a Rússia – para agradar aos Estados Unidos –, não promovendo, por outro lado, através de vias diplomáticas, a resolução de evidentes disputas territoriais, como as da Crimeia e do Donbass.
A forma como se permite que militares se interponham em querelas que devem antes ser diplomáticas é um erro crasso. Ouvir um chefe militar anunciar alegremente que “vamos morrer onde tivermos de morrer para defender a Europa, que é a nossa casa comum” é um ultraje, porque uma guerra é a pior das formas de se atingir a paz.
Acham que foi melhor, por exemplo, a compra da Louisana aos franceses em 1803 ou seria preferível uma guerra franco-americana?
Acham que foi melhor, por exemplo, o Tratado de Montevideu em 1828 que consagrou a independência do Uruguai ou seria preferível antes dirimir uma anexação oportunista de Portugal aos territórios da Cisplatina antes ocupados por Espanha através de uma guerra entre o então recém-independente Brasil e os independentistas uruguaios?
Acham que foi melhor, por exemplo, os milhares de acordos e tratados para se resolverem os milhares de disputas territoriais a nível mundial ou seria preferível que milhares de Gouveias e Melos por este Mundo fora enviassem milhares de inocentes para morrerem (e matarem) em nome de uma suposta “casa comum”?



Uma das coisas mais absurdas destes tempos modernos é a desmesurada vontade de muitos responsáveis políticos e militares em levarem toda a Europa para uma guerra fratricida, que é regional, e que assim deve continuar até que surja uma paz moderada pela diplomacia e bom senso.
E o bom senso inclui permitir que o almirante Gouveia e Melo falar opine sobre o envio de ‘carne para canhão’ contra a Rússia, mas não que o faça como Chefe do Estado-Maior da Armada. Sem funções militares, pode ele mandar as postas de pescadas que assim quiser como comentador de assuntos militares. Ser-me-á indiferente. Mas tê-lo assim, nesta postura, como alta patente militar, assusta-me mais do que os mísseis russos.

https://paginaum.pt/2024/05/15/um-irresponsavel-populista-chamado-gouveia-e-melo/

segunda-feira, 13 de maio de 2024

Gouveia e Melo e os tambores da guerra: "Não haverá manteiga nas nossas mesas sem canhões que as garantam"

A JUVENTUDE E GOUVEIA E MELO, O ALMIRANTE DAS VACINAS, por José Manuel Correia Pinto

A nossa juventude parece desconhecer que a situação em que hoje se encontra, apesar das dificuldades e de algumas carências inegáveis, é incomparavelmente melhor - muitíssimo melhor - do que a da juventude há 50 anos.

Essa melhoria gradualmente alargada a todas as camadas da população deve- se - é bom nunca o esquecer - à generosa e corajosa acção de um grupo de jovens militares que derrubou um governo retrógado e instalou, com o apoio popular, um regime de igualdade de direitos para todos, dando voz a quem nunca a tinha tido. A primeira grande conquista que esses jovens militares alcançaram foi a que pôs termo a uma guerra injusta, que se arrastava há treze anos, e que mantinha refém dela toda a juventude portuguesa.

Depois veio a paz, a juventude foi gradualmente esquecendo a guerra, até ter chegado à triste situação de acreditar estar esse problema resolvido para sempre, desinteressando -se dele, como assunto que deixava de lhe dizer respeito.

Erro fatal da juventude. Se a juventude não tomar em suas mãos a defesa da paz não faltará agora, como sempre, quem a queira mergulhar na guerra, fazendo dela a primeira vítima desses tenebrosos propósitos.

Por isso o apelo que faço à juventude, a toda a juventude e não apenas à que frequenta as universidades, é que leiam o discurso proferido em Aveiro, pelo do Chefe do Estado Maior da Armada, Gouveia e Melo, conhecido como o almirante das vacinas, e se revoltem contra o belicismo criminoso de quem quer fazer de vós carne para canhão.

Portugal não está ameaçado por nenhum país. Porém, Portugal pertence a uma organização militar, agressiva, que desde há trinta anos não tem feito outra coisa que agredir Estados e fomentar a guerra.

No actual momento histórico a situação é particularmente grave por ter incentivado uma guerra na Europa, que lhe está a correr muito mal, e por isso se prepara para nela intervir directamente por vosso intermédio, enviando-vos para o campo de batalha com o falso pretexto de que ireis defender-nos dos que nos querem atacar .

É mentira. O que se passa é exactamente o contrario. Se a juventude não quiser ser a primeira vítima do massacre em grande escala que dessa guerra resultará, ela terá de lutar pela paz, denunciar e expulsar dos lugares de responsabilidade todos aqueles que querem fazer a guerra.

Se esse combate não for travado hoje, amanhã já será tarde.

Está nas vossas mãos, nas mãos da juventude, viver em paz ou morrer na guerra .

Não será depois de terdes sido mobilizados para combater no campo de batalha que o protesto pode ser feito. Para ser eficaz, ele terá de começar imediatamente e somente terminar quando o espectro da guerra tiver sido afastado

Viver em paz ou morrer na guerra depende vós, apenas de vós, e não de qualquer militar ou de qualquer politico!

https://www.facebook.com/josemanuel.correiapinto.9/

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Gouveia e Melo assume a necessidade de a Marinha e as forças armadas estarem em estado de prontidão, preparando as reservas e olhar para o serviço militar. A ameaça é real, por Alexandra Machado, Texto, e Luis Soares, Texto

12 maio. 2024,

"Não haverá manteiga nas nossas mesas sem canhões que as garantam", declarou Gouveia e Melo.

A Marinha está a considerar “bastante” a possibilidade de poder “entrar em operações reais”, pelo que “encara” o futuro “numa perspetiva de maior prontidão”. Henrique Gouveia e Melo, chefe do Estado Maior da Armada, fez estes avisos este domingo em Aveiro, dizendo ser necessário preparar as forças armadas para o que aí vem, nomeadamente preparando as reservas materiais e humanas.

“Na perspetiva da Marinha importa perceber que, pela primeira vez em muitos anos, a possibilidade de poder vir a entrar em operações reais é bastante considerada”, havendo, pois, “a necessidade de apressar o aprestamento dos navios, reforçar o treino e preparar as reservas, sejam materiais ou humanas. Vamos viver tempos difíceis com elevada tensão e incerteza que nos obrigarão a encarar o nosso futuro numa perspetiva de maior prontidão”.

Sublinhando não pretender ser “pessimista ou alarmista”, acrescentou, num discurso em Aveiro, onde a Marinha recebeu a medalha de ouro do município, que “a dissuasão é certamente a melhor estratégia e o reforço do nosso espírito anímico para cumprirmos com os deveres que nos são exigidos será posto à prova. Tenho a certeza que a marinha portuguesa essencialmente a sua componente humana estará à altura dos acontecimentos, esteja Portugal também à altura deles”.

“Os tempos que se avizinham são perigosos, ignorá-los não é uma opção, estamos perante um momento em que dois pilares, a nossa segurança e prosperidade, NATO e União Europeia, poderão vir a ser submetidos às maiores provações e testes de stress” e Portugal “deverá ter em conta que na sua posição geoestratégica, apesar de aparentemente afastada da linha da frente de batalha, não poderá ignorar as tempestades que se aproximam”.

Gouveia e Melo pede reação da sociedade e que saia “do estado de comodismo e de indiferença e de uma certa preocupação inconsequente em que nos encontramos”. E clama que se ponha em marcha “um plano efetivo”.

“A defesa dos nossos interesses, as nossas vidas exige mais do que nunca uma atitude ativa e vigilante. Anseio que a Europa e Portugal, à dimensão dos nossos interesses, perscrutemos o horizonte, colocando em marcha um plano efetivo, percebendo que o conflito tampão da Ucrânia é decisivo para a segurança europeia”, e, por isso, é “importante desenvolver rapidamente um forte complexo militar e industrial europeu, olhar para o sistema de recrutamento e conscrição [por regra associado ao serviço militar obrigatório] generalizada e prepararmo-nos para reforçar de vez o pilar europeu da NATO.

As declarações de Gouveia e Melo sobre o serviço militar obrigatório têm vindo a suscitar algum debate público. Primeiro, em artigo de opinião no Expresso, em março deste ano, defendeu que este tipo de recrutamento poderá ter de ser reequacionado. Para mais tarde explicar que “o modelo antigo [do Serviço Militar Obrigatório] é precisamente isso, o modelo antigo. Tem que se encontrar uma nova resposta. Isso não é algo que se encontre amanhã, tem que ser discutida, tem que ser uma resposta que o poder político aceite, que a população aceite, porque só todos nós em conjunto podemos dar uma resposta que seja uma resposta do próprio país”, explicou em abril.

Explicou, novamente, em Aveiro as suas preocupações. “O chapéu protetor dos EUA será posto em causa não só por Donald Trump como pelos desafios que os EUA enfrentam no Pacífico. Não havendo espaço para cooperar, na Europa dissuadir será sempre melhor e mais económico que combater. É tempo de perceber que não haverá manteiga nas nossas mesas sem canhões que as garantam”.

 

https://observador.pt/2024/05/12/gouveia-e-melo-possibilidade-de-poder-vir-a-entrar-em-operacoes-reais-e-bastante-considerada/

domingo, 12 de maio de 2024

Entrevista a Serguéi Karaganov

 11 DE MAIO DE 2024

https://karaganov.ru/en

 É claro que o complexo industrial-militar-media anglo-saxónico, com a ajuda dos seus vassalos, pretende preservar a todo o custo a sua hegemonia global e as suas conquistas colonialistas.

A hegemonia não pode aceitar a mudança de paradigma de um mundo multipolar emergente.

Qualquer discussão sobre paz, diplomacia ou negociações relativas às guerras que iniciou está fora de questão. As populações ocidentais, cujas mentes estão contaminadas pelo neoliberalismo e pela russofobia, estão actualmente aterrorizadas por uma “iminente invasão russa”… O delírio em massa está a impedir que a RAZÃO regresse ao Ocidente. Como o resto do mundo pode lidar com esta loucura? E o que o resto do mundo pode esperar?

Voltamo-nos para o Professor Sergei A. Karaganov* – Presidente Honorário do Conselho de Política Externa e de Defesa (a principal organização pública de política externa da Rússia) e Diretor Acadêmico da Faculdade de Economia Mundial e Política Mundial da 'Escola Superior de Economia da Universidade de Moscou Universidade Nacional de Investigação – uma vez que há muito que oferece opiniões perspicazes sobre temas como a utilização da dissuasão nuclear como um alerta ao Ocidente para restaurar o bom senso e a necessária articulação da Rússia do Ocidente para o Oriente.

* * *

ALERTAR O OCIDENTE CONTRA A ESCALADA

Pergunta: Para alertar o Ocidente contra uma escalada da guerra na Ucrânia e contra a sua crescente agressão contra a Rússia, você argumentou a favor da dissuasão nuclear... Você acredita que os líderes ocidentais, a maioria dos quais estão dando um sentimento totalmente irracional, podem leva essas ameaças a sério?

Professor Karaganov: Muitas elites ocidentais já não têm noção de história e perderam o sentido de autopreservação. Chamo essa condição de “parasitismo estratégico”. O mesmo se aplica a boa parte da população ocidental, que se tornou complacente em relação à paz, em grande parte garantida pela dissuasão nuclear, que não compreende. Além disso, o nível intelectual da maioria das elites caiu drasticamente devido a mudanças nos padrões morais e à deterioração do seu sistema de ensino superior – especialmente na Europa. Portanto, há muito poucas pessoas que entendem essas questões.

A situação é um pouco melhor nos Estados Unidos, que parece ter retido pelo menos os restos de uma classe política com mentalidade estratégica, mas obviamente não está a comandar o espectáculo. No entanto, alguns permanecem próximos do poder e podem, por vezes, influenciar aqueles que estão no poder.

De qualquer forma, a situação ali é bastante preocupante. Apenas um exemplo: o Presidente Biden e o seu Secretário de Estado Blinken disseram recentemente que o aquecimento global é tão mau ou pior do que a guerra nuclear. Fiquei bastante chocado. É muito louco.

As populações ocidentais, habituadas durante décadas à democracia, à prosperidade e ao consumo de massa, parecem paralisadas e não resistirão a parar e privar o lobby da guerra do seu poder. A diplomacia também não funciona mais. O que você acha que está por trás dessa complacência ocidental? Falta de imaginação sobre como poderia ser a guerra em seu próprio solo? Um caso de deficiência cognitiva, delírios patológicos, orgulho, ignorância da história? Um disfarce para seu desespero e ansiedade em relação à sua própria existência? Ou poderia ser apenas uma fachada para uma estratégia friamente calculada da parte deles?

Todos os fatores que você mencionou desempenham um papel. Embora eu acredite que o fator mais importante seja a sua incapacidade e recusa em enfrentar a realidade. As pessoas estão tão acostumadas com essas imagens tremeluzentes em suas telas que as confundem com a realidade. Este é um problema para todas as nações, mas especialmente para aquelas mais afetadas pela tecnologia digital.

Há pessoas nos círculos dominantes do Ocidente – nos Estados Unidos, mas especialmente na Europa – que estão a perder a capacidade de governar o seu povo devido a problemas crescentes que não conseguem gerir ou mesmo enfrentar… como o aumento das desigualdades sociais, migração, até mesmo questões climáticas. Claro, eu poderia continuar e continuar…

O capitalismo moderno é um sistema totalmente inadequado. Baseia-se no crescimento sem fim do consumo, que acaba por matar a Terra. Em vez de tentar reduzir o consumo, as classes políticas ocidentais modernas estão a tentar transferir o fardo do combate à poluição e até a culpar as alterações climáticas nos fabricantes (a maioria dos quais estão no mundo “em desenvolvimento”), mas não nos consumidores – a maioria dos quais). estão nos países em desenvolvimento. no chamado mundo “desenvolvido”.

A lista de problemas e desafios não resolvidos é muito longa. Os círculos dirigentes tentam desviar a atenção dos seus cidadãos destes problemas criando um inimigo. Desta vez é a Rússia... Um alvo fácil devido à sua russofobia já generalizada e profundamente enraizada, mas também porque a Rússia é relativamente "pequena" em termos de economia, e perder a Rússia como parceiro económico custa mais barato do que perder a China. (Mas o sentimento anti-China também está a aumentar, especialmente nos Estados Unidos.)

Há uma camada crescente entre as elites ocidentais que começaram a preparar os seus cidadãos para a guerra. Entretanto, os líderes ocidentais cortaram completamente todos os laços entre os seus cidadãos, os russos e a própria Rússia. O comércio e até mesmo o discurso com os russos são mais ou menos proibidos, e quem visita a Rússia acaba sendo interrogado pela polícia ou pelos serviços de segurança. É sintomático de uma preparação para a guerra, deste aumento da hostilidade. Já conseguiram transformar a maioria dos ucranianos num rebanho de odiadores, todos os quais se dirigem obedientemente para o matadouro. Em seguida vêm algumas nações europeias.

Isto tudo é bastante sombrio. Estamos a observar isto com atenção e estamos conscientes de que algumas classes políticas ocidentais ou classes dominantes estão hoje tão desesperadas que instigam guerras para esconder a sua incompetência e/ou crimes.

OS ALVOS FÁCEIS DO OCIDENTE

Muitos notaram claramente a falta de interesse da Alemanha e da UE em investigar a destruição dos gasodutos Nord Stream… Depois vieram os “Taurus Leaks”, nos quais oficiais militares alemães puderam ser ouvidos  pela primeira vez discutindo ataques na Crimeia com o Forças Armadas dos Estados Unidos. oficiais  , quatro meses antes de Scholz e Pistorius tomarem conhecimento desses planos.

Recentemente, a Suécia e a Finlândia renunciaram à sua neutralidade estatal e acolhem agora bases da NATO no seu território, o que, segundo eles, lhes proporcionará mais segurança. O que você acha que está por trás desse comportamento? Por que se permitem tornar-se os primeiros alvos de uma guerra quente contra a Rússia? Porque é que estas pessoas estão a sacrificar os seus próprios países ao estado profundo americano? A quem eles realmente servem? A sua lealdade é a outra entidade e não ao seu próprio país?

Na verdade, o nível de inteligência e o sentido de responsabilidade da maioria das classes dominantes – particularmente na Europa – deterioraram-se seriamente. Os Estados Unidos – que neste caso quase tenho de aplaudir – criaram uma imensa classe compradora na Europa… uma classe que tem muito mais no coração os interesses dos Estados Unidos e as ordens que lhe dão do que os interesses dos seus próprios países. e povos.

O estado profundo americano não está apenas ancorado nos Estados Unidos… há também uma extensão na Europa. É constituída pelo que poderíamos chamar de “a classe imperialista liberal global” que visa servir “interesses comuns”. Mas os europeus são ainda piores do que os americanos, porque sacrificam abertamente os interesses das suas nações. Eles são claramente traidores da sua pátria... E é por isso que encobriram crimes como provocar a guerra na Ucrânia, a explosão do Nord Stream... é por isso que estão até dispostos a arriscar o fornecimento de armas de longo alcance à Ucrânia. . (Curiosamente, os Americanos não fornecem abertamente armas de longo alcance, porque entendem que isso poderia levar a uma escalada, mesmo nuclear.) Portanto, os Americanos estão simplesmente a sacrificar os Europeus. Eles já estão a usar a Ucrânia como bucha de canhão… e parece que estão a preparar-se para usar os seus aliados europeus também como bucha de canhão.

Observamos estes desenvolvimentos com grande preocupação e estamos conscientes de que, infelizmente, não temos praticamente parceiros razoáveis ​​na Europa. Estamos, portanto, nos preparando para o pior cenário possível. No entanto, esperamos que, ao intensificar a nossa prática de dissuasão nuclear, possamos acalmar algumas pessoas na Europa e nos Estados Unidos. Se isto não for bem sucedido, as numerosas crises que assolam o mundo acabarão por se transformar numa Terceira Guerra Mundial.

CRISES GLOBAIS EMERGENTES

Estas crises globais emergentes são o resultado de mudanças tectónicas na actual ordem mundial, baseadas principalmente na dominação de quinhentos anos do Ocidente, em grande parte baseada na sua superioridade militar. A pólvora e os canhões foram inventados na China. Mas os europeus, constantemente em guerra, aproveitaram-no melhor e tiveram um melhor sistema de organização do seu exército. Com base nisso, começaram a colonizar o resto do mundo, suprimindo e até destruindo certas civilizações (astecas, incas), primeiro extraindo renda colonial, depois neocolonial. Mas essa base começou a ser abalada pela antiga União Soviética, quando alcançou a paridade nuclear, e agora por uma Rússia ressuscitada. A convulsão de todo este sistema deu origem a inúmeras crises e conflitos. Mas, acima de tudo, ajudou a libertar “o resto”, “o Sul global” ou, melhor, “a maioria global”.

Agora a questão não é apenas como parar o Ocidente, mas também como parar as ondas crescentes de conflitos militares em todo o mundo. Ao abordarmos os nossos principais interesses de segurança, libertámos simultaneamente o resto do mundo do domínio ocidental e minámos a sua capacidade de desviar riqueza de outros países.

O Ocidente está agora num estado de desespero. Para incutir-lhes algum bom senso, precisamos de restaurar o “medo saudável”, isto é, restaurar a validade da dissuasão nuclear. Infelizmente, não vejo outra solução neste momento. Porque muitas pessoas, especialmente no Ocidente, parecem ter perdido a cabeça e o sentido de responsabilidade. 

O GENOCÍDIO EM CURSO...

Hoje, o genocídio bárbaro que “Israel” – como outra potência colonialista ocidental – está a levar a cabo contra os palestinianos continua inabalável. O sofrimento da população civil palestiniana é inconcebível e o resto do mundo continua a observá-lo. O que está a “comunidade internacional” a fazer – para acabar com os massacres perpetrados por “Israel” e a destruição da pátria palestiniana… e para fazer com que os Estados Unidos e a União Europeia parem de apoiar “Israel”? E… diria que o genocídio na Palestina (juntamente com os ataques militares em curso na Síria) e a guerra na Ucrânia são essencialmente parte de uma “Grande Guerra” contra as nações soberanas da maioria mundial que se recusam a tornar-se vassalos do Hegemon? ?

No actual “sistema global”, a “comunidade internacional” fará muito pouco para ajudar os palestinianos.

Vejo todo o conflito palestiniano como um elo numa cadeia de conflitos desencadeada por mudanças tectónicas de poder no sistema actual e pelas tentativas desesperadas do Ocidente para manter o seu domínio. É claro que os Estados Unidos – embora se retirem externamente dos muitos países e territórios em todo o mundo que ocuparam e dominaram – estão secretamente a causar instabilidade nesses territórios, a fim de criar problemas aos seus futuros líderes. E a maioria desses territórios fica na Eurásia.

Devo dizer que nunca teria imaginado como os israelitas poderiam ter lançado esta guerra [contra a Palestina] sem o apoio aberto dos Estados Unidos. Para todos os efeitos, parece que alguns setores nos Estados Unidos decidiram iniciar uma nova grande guerra no Médio Oriente para desestabilizar toda a região (de qualquer forma, os Estados Unidos já não dependem do petróleo e do gás do Médio Oriente). Leste, portanto, não tinham interesse em manter qualquer estabilidade ali).

O massacre em Gaza minou a legitimidade de Israel e não vejo como essa legitimidade poderia alguma vez ser restaurada. Parece que temos as sementes de uma nova grande guerra no Médio Oriente e de uma nova tragédia – também para o povo judeu, que também está a ser sacrificado pela estupidez e arrogância dos líderes israelitas. Não entendo os políticos israelenses. Obviamente perderam a cabeça… tal como a classe política europeia. E os palestinos continuam a ser massacrados por causa deste programa.

Para além da utilização da ameaça nuclear como meio de dissuasão... e considerando que as "instituições globais" como a ONU e o Tribunal Internacional de Justiça são ineficazes para impedir guerras e genocídios, e que são - poder-se-ia dizer - essencialmente nas mãos das elites ocidentais… não poderíamos conceber uma medida dissuasora adicional – como uma “Aliança de Resistência” global, actuando como uma “frente” activa contra o poder unipolar?

A maioria global é potencialmente muito mais poderosa do que o antigo Movimento Não-Alinhado e está, naturalmente, a tornar-se um factor muito mais importante na política internacional. Um novo sistema irá emergir nas próximas décadas – isto é, se sobrevivermos a este período de crises e guerras… e se pudermos evitar uma Terceira Guerra Mundial, que seria provavelmente a última guerra… e devemos fazer tudo o que estiver ao nosso alcance para evitar isto.

Não vejo qualquer possibilidade de criar o que poderia ser chamado de "Aliança de Resistência" num futuro próximo... no entanto, uma Comunidade de nações livres - "livres" no sentido de serem capazes de viver e trabalhar de acordo com os seus interesses nacionais - seria uma contribuição importante para a paz mundial. Mas para alcançar um futuro mundo de nações livres, para criar mais segurança e reduzir potenciais tensões, precisaremos de reintroduzir “bloqueios de segurança” no sistema internacional.

De momento, existe apenas um “bloqueio de segurança”: a dissuasão nuclear. Precisamos também de construir um novo sistema institucional paralelamente ao sistema existente que está em colapso. A ONU pode continuar a existir, mas obviamente não pode voltar a ser eficaz, porque o seu secretariado é dominado por funcionários orientados para o Ocidente. Deveríamos, portanto, construir um sistema institucional inteiramente novo baseado no BRICS+, SCO+ e outras instituições semelhantes.

Na verdade…precisamos de um novo conjunto de instituições que não sejam dominadas pelo Ocidente, cujo poder está em declínio e cuja autoridade moral desapareceu, porque falhou em todos os sentidos – política, económica e acima de tudo eticamente – depois de desencadear incontáveis ​​actos brutais. de violência. agressão quando teve a oportunidade de ditar o destino da comunidade mundial. Esta era do momento unipolar atingiu o seu auge na década de 1990 e no início de 2000.

As potências ocidentais mostraram o que valem. Eles agora devem ser deixados de lado. Temos de construir um sistema paralelo de governação global – um sistema que seja mais justo e mais eficaz. Precisamos de um novo Tribunal Internacional de Justiça, de instituições que ajudem a reduzir a fome no mundo e de instituições que trabalhem para melhorar a saúde global (durante a pandemia de Covid vimos como as nações ocidentais, que praticamente controlavam as instituições globais, não conseguiram lidar com a situação). enfrentar este desafio de forma adequada e adequada).

COLONIALISMO VERSUS INTERNACIONALISMO

A Rússia czarista era uma potência colonial e estava em competição feroz com os estados coloniais da Europa Ocidental, particularmente o Império Britânico. Como o colonialismo russo czarista diferia, digamos, do colonialismo britânico?

Sim, em muitos aspectos a Rússia czarista era uma potência colonial, mas era muito diferente das potências coloniais ocidentais. Quando os russos avançaram para leste e sul, conquistando e desenvolvendo a Sibéria, não recorreram a meios genocidas. Como os russos se misturaram com as elites locais, houve um grande número de casamentos interétnicos, de modo que os russos não eram colonialistas nos moldes ocidentais. Os czares até convidaram as elites locais para se juntarem à nobreza russa. Parece que quase duplicámos o número de príncipes que tínhamos quando incorporámos a Geórgia, cuja nobreza afirmava ser príncipe. Metade da nobreza russa era etnicamente não-russa. A Rússia absorveu as culturas dos povos colonizados em vez de suprimi-las. O racismo é quase completamente estranho aos russos.

Embora a Rússia tenha beneficiado naturalmente da riqueza dos países vizinhos, na maioria dos casos subsidiou-os... e este foi particularmente o caso durante a era soviética, quando a Rússia era o principal fornecedor de riqueza. Acredito que todas as repúblicas da antiga União Soviética, exceto uma, foram fortemente subsidiadas.

Somos, portanto, uma potência colonial apenas no nome. Em muitos aspectos, a Rússia metropolitana era uma colónia dos seus subúrbios. Depois, devido à sua necessidade de segurança, a Rússia expandiu-se, mas em muitos casos pagou um preço económico por esta expansão. Por exemplo, após a Segunda Guerra Mundial, a Ucrânia foi reconstruída antes de áreas da Rússia propriamente dita que tinham sofrido com a ocupação nazi. Podemos também constatar com certo orgulho que a maior parte das civilizações dos povos nórdicos da Sibéria persistiram até aos dias de hoje (ao contrário destes territórios usurpados nos Estados Unidos ou noutros lugares). Algumas das suas populações até aumentaram, por exemplo em Yakutia. Estudiosos russos e, especialmente, soviéticos criaram línguas escritas para esses povos e, claro, trouxeram a educação com eles. As línguas escritas das regiões bálticas, hoje estados, foram desenvolvidas em São Petersburgo no final do século XIX.

A Rússia não era, portanto, “colonialista” no sentido tradicional do termo. Em última análise, tratava-se da criação de um Estado comum em que as elites locais e as populações locais – que não eram de etnia russa – pudessem desempenhar um papel igual, e por vezes até mais importante e privilegiado, do que os próprios russos étnicos. É também uma consequência da nossa história... Fomos colonizados pelo império de Genghis Khan, mas os mongóis não nos impuseram a sua cultura, a sua língua ou as suas crenças. Nossa expansão imitou mais ou menos esse tipo de expansão. Portanto, não descreveria a nossa expansão como “colonialista”, mas sim “internacionalista”.

E, claro, a nossa expansão trouxe-nos recursos, especialmente da Sibéria. Primeiro foram as peles, o que chamamos de “ouro macio”, depois todos os tipos de pedras preciosas, prata, ouro, depois petróleo, gás. E agora a Sibéria é o celeiro da Rússia, a base do nosso futuro. A Sibéria fornecerá à Rússia e à Eurásia alimentos, água e recursos naturais durante décadas, senão séculos.

IMPÉRIOS VERSUS CIVILIZAÇÕES

Alguns defensores de um futuro mundo multipolar falam em reunir regiões geográficas do mundo em “impérios”… Qual seria então a posição da Rússia? A noção de “construir vários impérios” não representaria um problema num mundo multipolar?

É muito cedo para falar em impérios futuros, mas um império – além de ter sido por vezes um território de poder que reprimiu outros povos – foi também por vezes uma área que proporcionou segurança e bem-estar a muitos povos.

Não tenho certeza se veremos um mundo com vários impérios importantes. Acredito que já ultrapassamos esse período da história. Se falarmos da Rússia, será um dos centros culturais, políticos, económicos e militares do mundo. Será uma “civilização de civilizações” abrangendo muitos grupos étnicos… uma civilização eurasiana aberta a outros.

Pessoalmente, não gostaria que a Rússia se tornasse novamente um vasto império, porque a forma russa de construir um império foi, em última análise, à custa dos próprios russos. Os seus objectivos podem ter sido nobres, mas tiveram um custo demasiado elevado para o povo russo. Prefiro ver-nos como uma civilização de civilizações: respeitando os outros, aprendendo com as experiências de todas as nações... um guardião político-militar que garante a liberdade de outras nações escolherem o seu próprio caminho. Libertar o mundo da hegemonia é, em última análise, o nosso destino manifesto.

OLHANDO PARA O ORIENTE E PARA A MAIORIA MUNDIAL

A Rússia é a anfitriã do BRICS+ este ano… A Rússia também organizou e acolheu recentemente a Conferência Multipolaridade, o Festival Internacional da Juventude e muitos outros eventos para reunir a maioria mundial… O que poderia a Rússia aprender com a Ásia? África? América latina? E o que estas regiões poderiam aprender com a Rússia?

Aprendemos uns com os outros. Os russos têm a particularidade de ser uma nação culturalmente aberta. Esta abertura cultural é na verdade a própria essência de ser “russo”. Nascemos como uma “nação de nações”. Somos conhecidos como uma civilização estatal. Mas, mais uma vez, eu chamar-nos-ia “uma civilização de civilizações”. Ao longo dos séculos do nosso desenvolvimento, acolhemos muitas civilizações e somos, quase por definição, internacionalistas. É claro que temos racistas e chauvinistas na Rússia. Mas, no geral, os russos são excepcionalmente internacionalistas. Estamos, portanto, mais bem preparados do que a maioria para enfrentar o mundo multipolar, multicultural e multirracial de amanhã. Devemos aprender uns com os outros a viver em paz, respeitar e apoiar as culturas uns dos outros, desenvolver a nossa própria cultura e promovê-la em todo o mundo. Mas acima de tudo, devemos respeitar o carácter único de cada povo e promover um enriquecimento intercultural positivo.

Estou muito optimista em relação ao mundo que está por vir, se conseguirmos evitar uma Terceira Guerra Mundial. Mas esta é a nossa tarefa comum.

* * *

*Sergey Aleksandrovich Karaganov

Biografia detalhada:  https://karaganov.ru/en/

Especialização: Políticas externas e de defesa soviética/russa, aspectos económicos e de segurança da interacção russo-europeia, pivô russo para o Oriente.

Autor e editor de 28 livros e panfletos, publicou cerca de 600 artigos sobre política externa econômica, controle de armas, estratégia de segurança nacional, política externa e de defesa da Rússia. Artigos e livros foram publicados em mais de 50 países.

Presidente do conselho editorial e editor da revista “Russia in Global Affairs”. As opiniões mencionadas neste artigo não refletem necessariamente a opinião de Al Mayadeen, mas expressam exclusivamente a opinião do seu autor.

Publicada por Pena Preta à(s) sábado, maio 11, 2024 

https://foicebook.blogspot.com/2024/05/entrevista-de-karaganov.html