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sexta-feira, 22 de maio de 2026

Maria J. Paixão - O estranho caso da cidade-evento


* Maria J. Paixão

21 de maio 2026 

A cidade é hoje um paradoxo: há tanta coisa a acontecer a todo o tempo e, no entanto, há também uma sensação de vazio permanente. As cidades dos nossos dias são cidades de papel – sob o verniz publicitário não há quase nada.

Com a chegada da Primavera, germina, novamente, nas nossas cidades um fenómeno que tem vindo a crescer ao longo dos últimos anos: a “eventificação” de expressões culturais no espaço urbano. Por todo o lado proliferam, incessantemente, os festivais, as mostras, as festas...

Todas estas iniciativas comungam de duas caraterísticas distintivas: por um lado, são acontecimentos pontuais e extraordinários, que não se inserem numa programação cultural regular; e, por outro, são ocorrências efémeras e de curta duração, que, muitas vezes, não duram mais do que umas horas ou um par de dias. Trata-se, portanto, de autênticos “eventos”, que, gerando descontinuidade na vida quotidiana da cidade, não assumem qualquer ambição de criar dinâmicas estruturais. São anunciados com pompa e circunstância e esfumam-se rapidamente; vêm e vão, entretendo, temporariamente, a cidade, sem deixar nada de substancial para trás.

Embora a vivência no espaço urbano sempre tenha sida pontuada por eventos, a sua recente proliferação, bem como a emergência de uma autêntica “época de eventos” nas nossas cidades, são dignas de nota. Recusando enveredar pela superficialidade do moralismo, mas também rejeitando o conformismo acrítico, importa refletir sobre o modo como este fenómeno tem transformado a cidade. Essa reflexão é tanto mais importante quanto a “evento-mania” a que assistimos é subsidiada por recursos públicos e influi decisivamente sobre o modo como o espaço urbano é organizado e ocupado. Se, como parece ser exato, os processos de urbanização são corresponsáveis pelo tipo de comunidade que construímos, então não podemos ignorar as consequências da saturação de eventos na polis.

A “eventificação” que se desenrola por toda a parte pode ser analisada tanto como causa como consequência das específicas dinâmicas de reorganização urbana do nosso tempo. Como nos ensinaram Lefebvre e, mais tarde, Harvey, a criação e recriação do espaço urbano devem ser compreendidas no quadro do modo de produção dominante. A compulsão expansiva do capitalismo, geradora de sucessivas crises de sobreprodução, tem sido, desde os seus primórdios, determinante para a transformação das cidades – das grandes avenidas da belle époque à gentrificação das capitais europeias dos nossos dias, passando pelos fenómenos de suburbanização, privatização do espaço público e, mais recentemente, financeirização do edificado urbano.

A mais recente etapa deste processo de mutação urbana reproduz as caraterísticas principais do estádio de desenvolvimento do capitalismo pós-industrial em que nos encontramos: mercantilização total, homogeneização e atomização. A cidade é hoje um paradoxo: há tanta coisa a acontecer a todo o tempo e, no entanto, há também uma sensação de vazio permanente. As cidades dos nossos dias são cidades de papel – sob o verniz publicitário não há quase nada.

Desde, pelo menos, os anos 90 do século passado temos assistido à desindustrialização acelerada das sociedades ocidentais e à concomitante desmaterialização da economia. Em consequência, o mundo urbano passou a girar em torno do consumo, do turismo e do rentismo. Tudo é um produto, mas nada é produzido. A própria cidade é hoje produto de consumo fácil, mais para ver do que para ser. Em resultado, nos centros gentrificados, o vazio de habitantes contrasta com a saturação de visitantes. E essa transformação arrasta tudo o resto: em vez das mercearias e de comércio tradicional, a profusão de lojas de lembranças; em vez de bairros onde os residentes criam comunidades longevas, alojamentos de curta duração e arrendamentos precários; em vez de espaços públicos de qualidade que permitem circulação pedonal, congestionamento permanente de trânsito automóvel, gerado pela movimentação pendular da população; e em vez de cultura orgânica e participada, eventos.

A financeirização da economia, que tem permitido ao Capital continuar a expandir-se além dos limites materiais dos sistemas produtivos, também se faz sentir sobre as cidades, transformando casas em ativos financeiros e centrando a vida urbana no turismo. Este processo propagou-se, naturalmente, à cultura, que passa a habitar o cruzamento entre a turistificação e a especulação.

Nas cidades gentrificadas, o esvaziamento dos centros urbanos começou por provocar o declínio acentuado da vida cultural de base. Basta pensar na escassez crescente de teatros e cinemas de bairro e de livrarias independentes. A eventificação das cidades é um passo adiante nesse processo: os eventos que hoje se sucedem incessantemente nas nossas cidades não são principalmente culturais; são, antes de mais, comerciais. Trata-se, as mais das vezes, de iniciativas inorgânicas, que vivem, sobretudo, da aparência arrojada, o que lhes garante difusão alargada em meios de comunicação e redes sociais. O essencial é o espetáculo, pois é ele que serve de comburente à publicidade.

Embora propagandeados como veículo de dinamização económica local, os eventos assumem, muitas vezes, na prática, uma tendência extrativista, beneficiando sobretudo agentes económicos externos ao ecossistema local. Mesmo os efeitos locais positivos são, por norma, concentrados no tempo, não criando dinâmicas de revitalização económica duradouras.

Além disso, gerando uma ilusão de dinamismo cultural, a eventificação das cidades desencadeia um processo de substituição de prioridades políticas que tem efeitos perniciosos sobre o setor da cultura. De facto, o próprio conceito de ‘evento’ encerra uma confusão errónea entre cultura e entretenimento. Ainda que recusando moralizar opções individuais, é imperativo distinguir um e outro conceitos, já que os motivos que podem justificar a intervenção pública em cada setor são distintos. O financiamento público da cultura deve nortear-se por objetivos formativos, de promoção da cultura democrática e fomento da reflexão crítica coletiva. Ora, quando confundimos entretenimento com cultura, abrimos porta ao redirecionamento do financiamento público para iniciativas predominantemente comerciais, contribuindo ainda mais para o subfinanciamento crónico das iniciativas culturais orgânicas que prosseguem aqueles objetivos. Ademais, ao saturar a cidade de eventos, promove-se uma relação atomizada e consumista com a cultura, em vez de estimular ecossistemas de participação e envolvimento local que permitam revitalizar os espaços urbanos decadentes.

a sociedade do espetáculo transforma a cidade-arena cívica em cidade-evento

A ideia de que a eventificação das cidades é inócua e de que cabe aos poderes públicos locais apoiar quaisquer iniciativas de dinamização urbana que lhe sejam propostas assenta, em suma, em duas premissas erradas: por um lado, a neutralidade da intervenção pública; e, por outro, a inocuidade do tipo de atividade que ocupa o espaço público. Quando um Município escolhe subsidiar, sistematicamente, eventos sem quaisquer horizontes cívicos está, não só a comprometer o financiamento duradouro e estrutural do setor cultural local, mas também a promover uma cidade de consumo, atomizada e pouco resiliente. A polis só pode subsistir enquanto nela subsistirem espaços, físicos e simbólicos, de participação e reflexão. À medida que a cultura é transformada em produto turístico-financeiro, as nossas cidades afastam-se cada vez mais desse ideal, vendo-se transformadas em montras para negócios que asfixiam a vida em comunidade. Num golpe derradeiro, a sociedade do espetáculo transforma a cidade-arena cívica em cidade-evento.

https://www.esquerda.net/opiniao/o-estranho-caso-da-cidade-evento/98115

sexta-feira, 25 de agosto de 2023

Sophia de Mello Breyner - Pelo negro da terra e pelo branco do muro

* Sophia de Mello Breyner Andresen

 10 de Agosto de 2002, 0:00

Há uma beleza que nos é dada: beleza do mar, da luz, dos montes, dos animais, dos movimentos e das pessoas. Mas há também uma outra beleza que o homem tem o dever de criar: ao lado do negro da terra é o homem que constrói o muro branco onde a luz e o céu se desenham. A beleza não é um luxo para estetas, não é um ornamento da vida, um enfeite inútil, um capricho. A beleza é uma necessidade, um princípio de educação e de alegria. Diz S. Tomás de Aquino que a beleza é o esplendor da verdade. Pela qualidade e grau de beleza da obra que construímos se saberá se sim ou não vivemos com verdade e dignidade. A obra do homem é sempre um espelho onde a consciência se reconhece. Quando olhamos à nossa roda as aldeias, vilas e cidades de Portugal temos de constatar que quase tudo quanto se construiu nas últimas décadas é feio. Feio e - ai de nós! - para durar. Feias as obras públicas e feias as obras particulares. As excepções à regra de fealdade são raras. Costuma dizer-se que a nossa pobreza é a origem dos nossos males. Mas o que caracteriza grande parte da nossa arquitectura desta época é o novo-riquismo. Um novo-riquismo exibicionista - quase sempre sem funcionalidade e sempre sem cultura e sem sensibilidade. Isto é especialmente triste quando comparamos o presente com o passado: de facto olhando os antigos solares de pedra e cal vemos que a nossa arquitectura soube criar nobreza sem riqueza. Daí a pureza e a dignidade de tantas casas antigas. Agora não se trata evidentemente de copiar o passado: a arquitectura é uma arte e a arte é criação e não imitação. Continuar não é imitar e imitar é sempre ofender e trair aquilo que é imitado. Mas é necessário que exista aquela consciência do passado e do presente a que chamamos cultura. Somos um país antigo. Dizem-nos que somos um país pobre. É estranho que destas coordenadas resulte uma arquitectura de novos ricos. A construção da cidade moderna traz problemas difíceis de resolver: problemas de espaço e de circulação. Mas entre nós estes problemas só existem em Lisboa e no Porto. No resto do país os problemas são quase unicamente problemas de humanidade, de bom senso, e de bom gosto ou seja problemas de moral, de inteligência e de sensibilidade e cultura. A regra a seguir é esta: uma casa para todos e beleza para todos. E a beleza não é cara. É geralmente menos cara do que a fealdade que quase sempre se chama luxo, monumentalismo, pretensão. A beleza é simplicidade, verdade, proporção. Coisas que dependem muito mais da cultura e da dignidade do que do dinheiro. Penso neste momento especialmente na terra do Algarve, com suas praias, suas grutas, seus promontórios, seus muros brancos, sua luz claríssima. É preciso não destruir estas coisas. É preciso que aquilo que vai ser construído não destrua aquilo que existe.  arte é sempre a expressão duma relação do homem com o mundo que o rodeia. A arquitectura é especificamente a expressão duma relação justa com a paisagem e com o mundo social. Fora destas coordenadas só há má arquitectura. Afirma-se que é necessário desenvolver turisticamente o Algarve. Para isso será preciso construir. Mas é necessário que aqueles que vão construir amem o espaço, a luz e o próximo. Existem todas as condições para que se possa criar no Algarve uma boa arquitectura: ali temos uma paisagem e uma luz que pedem "arquitectura", ali encontramos um uso belo e tradicional do barro e da cal; ali temos uma arquitectura local lisa e pura como uma arquitectura moderna, uma arquitectura popular cujos temas o arquitecto poderá desenvolver duma forma mais técnica e mais culta: ali temos um clima que facilita a vida e propõe soluções de extrema simplicidade. Ali poderemos ter os materiais, as inovações, a técnica e a cultura do nosso tempo. Ali poderão trabalhar os arquitectos competentes que existem no nosso país. Mas é urgente evitar os seguintes perigos:- A incompetência- O saloísmo- As especulações com os terrenos- Os maus arquitectos- O falso tradicionalismo- A mania do luxo e da pompa- As obras de fachada Acima de tudo é preciso evitar a falta de amor. De todas as artes a arquitectura é simultaneamente a mais abstracta e a mais ligada à vida. Aqueles que não amam nem o espaço, nem a sombra, nem a luz, nem o cimento, nem a pedra, nem a cal, nem o próximo, não poderão criar boa arquitectura.

(Publicado em Janeiro de 1963, no nº 21 da "Távola Redonda")

https://www.publico.pt/2002/08/10/jornal/pelo-negro-da-terra-e-pelo-branco-do-muro-173555

terça-feira, 13 de dezembro de 2022

Francisco Louçã - Se até o Quinto Império não tinha departamento de proteção civil

* Francisco Louçã

Vive Lisboa em pânico, como se os marcianos tivessem desembarcado, mas é a repetição de cheias como em dezenas de anos. Faltou o milagre que, afinal, era só um projeto orçamentado e calendarizado e, claro, nunca concluído. Triste sina, esta de ter autarcas que sabem que podem enganar a sua cidade

13 DEZEMBRO 2022 

Não passa um carro, a cidade entrou em pânico, as escolas meteram água e as crianças e adultos fecharam-se em casa. As autoridades, mais assustadas do que o povo que já viu muito disto, bombardeiam os telemóveis com mensagens apocalípticas, esbracejando uma diligência que faltou quando foi mais necessária e cuja exibição pretende ocultar anos de promessas calculistas e indiferença cínica sobre obras urgentes nunca concluídas ou sequer começadas.

Pela manhã pouco chove, depois das litradas da noite, mas sentimo-nos como se tivesse passado o maremoto de 1755. As televisões emitem em modo de catástrofe, como se Orson Welles tivesse voltado a anunciar a chegada dos marcianos e vamos espreitar a esquina para vermos os disparos dos raios da morte dos sanguinários ocupantes saídos da sua nave reluzente. E, apesar do espetáculo do medo, isto é mesmo uma cheia, pequenina aqui, enorme ali. As águas procuram a sua história e marcham pelos leitos de ribeiras entretanto sepultados em alcatrão, pelo que, sem surpresa, inundam caves e túneis. Como sempre fizeram.

Triste sina esta de viver em Lisboa, a mítica cidade fundada por Ulisses e por onde Ulisses nunca passou, como lembrou com algum sarcasmo Eduardo Lourenço, e onde os autarcas, ministros e demais entidades se sucederam ao longo de décadas anunciando tranquilizantes prazos e engenharias que sabiam inutilmente destinadas a uma gaveta.

Se há um risco de calamidade, aliás comprovada por um longo cadastro de repetições, a melhor solução continua a ser formar uma comissão ou, se se chegar ao ponto da cabeça perdida, prometer uma obra, e assim procederam uns e outros ao longo do tempos. Que usem sempre o mesmo subterfúgio e com os mesmos resultados, já diz tudo sobre a experiência sobrevivente destes autarcas e de como consideram o seu povo, que esperam que seja desmemoriado e aceite o próximo enlevo eleitoral como se não houvesse ontem.

Perante a mesquinhez destas águas, ouve-se a tristeza, fado repetido. Afinal, tudo corre mal: há inundação mas, pior, Portugal perdeu com Marrocos. Ora, está tudo relacionado, como não podia deixar de ser, pelo menos na fantasmagoria: num caso e noutro volta a agitar-se o espectro de Alcácer Quibir, coisa no primeiro caso excessivamente dramática para um só jogo, no segundo deslocado do campo de batalha, mas nem menos por isso revelador de como se enunciam as identidades míticas (e, neste caso, místicas).

A regra é esta: sempre que há fracasso, fala-se da grandeza perdida e da saudade do que não existiu, a culpa é de outro ou, pela certa, das conjugações cósmicas que nos atraiçoam. Mouros e chuvas têm o mesmo lugar nesse pensamento mágico, que é o que resta quando não há mais nada a dizer.

O disfarce que permite estes estratagemas discursivos é somente uma recapitulação do passado. Quando as autoridades não sabem o que fazer, repetem o que sempre fizeram mal; quando não há explicações, prometem o que sempre prometeram. Nada de novo neste sebastianismo serôdio: dizia Lourenço que uma “hiperidentidade” nacional foi constitutiva da projeção fantasmática de um povo que foi chamado de predestinado aos grandes feitos do Império, mas a derrota do rei-menino em Marrocos rompeu esse ciclo desde o seu início e criou desde então uma “não-história”, uma falsificação de si própria disfarçada na crueza da colonização, do tráfico negreiro, da escravatura, conduzindo ao “póstumo” fracasso final. Não continuará a ser assim?

A assombração insepulta desse Quinto Império transmutou-se na nossa contemporaneidade num discurso delirante sobre a carruagem da frente, sobre a glória europeia, sobre a voz forte no concerto das nações, sobre os portugueses “de sucesso”, de banqueiros a governantes, se bem que nem todos conduzindo o seu mister com o maior prestígio. Quem diria então que essa modernidade avançada, tecnologicamente segura, engenhosa e inventiva, desabaria perante uma chuvada, ainda por cima previsível, anunciada, teimosamente repetida e de resultados antecipáveis.

O ciclo do sebastianismo foi “o máximo de existência irrealista que nos foi dado viver; de um máximo de coincidência com o nosso ser profundo, pois esse sebastianismo representa a consciência delirada de uma fraqueza nacional, de uma carência, e essa carência é real”, escrevia Lourenço no “Labirinto da Saudade”. Numa palavra, resumia, estamos sempre à espera do “milagre”. Fraca consolação será agora saber que também no caso deste dia cinzento, o milagre era um projeto aprovado, orçamentado e calendarizado, que ficou enigmaticamente para as calendas, como parece ser uma regra não escrita da gestão das coisas sérias.

https://expresso.pt/opiniao/2022-12-13-Se-ate-o-Quinto-Imperio-nao-tinha-departamento-de-protecao-civil-213bc159


segunda-feira, 12 de dezembro de 2022

Henrique Raposo - Não, não estamos em 1967


* Henrique Raposo

OPINIÃO - 

Em 1967, uma tempestade idêntica à de quinta-feira passada matou 700 pessoas. Ou melhor, o regime assumiu 700 mortos, mas esse número peca por escasso. Aqueles migrantes, portugueses e clandestinos, moravam em barracas ao lado de ribeiras como a de Odivelas e de Frielas e foram levados pelas enxurradas. Centenas de corpos ficaram espalhados nas ruas, entalados entre carros, até na copa das árvores. Reparem: as pessoas subiram às árvores mas morreram afogadas na mesma. Na quinta-feira passada, uma chuvada idêntica só matou uma pessoa. Não digam que Portugal não muda ou que Portugal não evolui, porque isso é errado e sobretudo injusto

Éuma das coisas que mais me irrita: quando alguma coisa negativa rebenta em Portugal (um caso de corrupção ou uma tragédia natural), a atitude de boa parte dos portugueses é esta: “isto só neste país”, “pá, só neste país”. É uma espécie de excepcionalismo ao contrário. O excepcionalismo americano ou francês leva os respetivos indígenas a pensar que as coisas boas só podem acontecer nos EUA ou França. O excepcionalismo português assume o contrário: as coisas más só acontecem em Portugal e “lá fora” só há coisas boas. É como se os outros países não tivessem corrupção, pobreza ou cheias.

Este mecanismo mental não é um pormenor: é um traço cultural que dificulta duas coisas. Primeira: entorpece o debate sobre as reformas do país. Se o país é sempre a choldra, se é geneticamente assim, inferior, decadente, ineficaz, então para quê o esforço, então para quê mudar seja o que for? Este baixo queirosianismo iliba o português de um compromisso sério com a melhoria da sua comunidade.

O segundo efeito está, portanto, à vista: o desapego permanente entre o português e Portugal, que só é interrompido nos picos emocionais do futebol. Em Portugal, parece que só há um superpatriotismo, aliás, um nacionalismo agressivo e místico na altura dos jogos da seleção; no dia a dia, porém, na resolução dos problemas reais do país, esse nacionalismo esvazia-se até à indiferença e as pessoas caem no cinismo do “isto já deu o que tinha a dar”, “este país não muda”. Muda, muda. E muitas vezes muda para melhor.

Em 1967, uma tempestade idêntica à de quinta-feira passada matou 700 pessoas. Ou melhor, o regime assumiu 700 mortos, mas esse número peca por escasso. Aqueles migrantes, portugueses e clandestinos, moravam em barracas ao lado de ribeiras como a de Odivelas e de Frielas e foram levados pelas enxurradas. Centenas de corpos ficaram espalhados nas ruas, entalados entre carros, até na copa das árvores. Reparem: as pessoas subiram às árvores mas morreram afogadas na mesma. Na quinta-feira passada, uma chuvada idêntica só matou uma pessoa. Não digam que Portugal não muda ou que Portugal não evolui, porque isso é errado e sobretudo injusto.

O baixo queirosianismo do “isto é uma choldra” ou “isto já deu o que tinha a dar” revela preguiça e alguma ingratidão por aquilo que se fez no último meio século em Portugal e, repito, iliba as pessoas de uma ação concreta sobre problemas concretos.

12 DEZEMBRO 2022 

https://expresso.pt/opiniao/2022-12-12-Nao-nao-estamos-em-1967-e4d69841


segunda-feira, 8 de abril de 2019

Nós aqui (também) não temos paisagem




ENSAIO
Por sobre este cenário quase arqueológico, paira o imenso dossel de betão por onde deslizam milhares de veículos, milhões de cavalos embutidos em motores.
7 de Abril de 2019, 7:01
Foto

ÁLVARO DOMINGUES
“Dizia eu que a paisagem é uma forma de evidência do lugar que está longe de se confinar a uma visão idílica dos seus componentes. (…) as paisagens literais ou metafóricas representadas dão conta de diversíssimas formas de o humano se auto-perceber. É na literatura que tal também acontece” (1)

Procurando outros assuntos, encontrei este texto de Helena Buesco sobre a paisagem na literatura. Buscando por uma coisa, encontrei outra, como os Três Príncipes de Serendip — de tanto sucesso que Horace Walpole teve com esta história, se cunhou a palavra inglesa serendipity: descobertas afortunadas que aparecem quando se procuram outras. Como Serendip é a denominação dos árabes antigos para o Sri Lanka e o Sri Lanka é Ceilão e Ceilão é a Taprobana, fica esclarecido o maravilhoso que tal lugar encerra, o que aí se pode encontrar e o que está ainda além.


Dizia então a Helena que a paisagem é uma forma de evidência do lugar e dos humanos se autoperceberem pela forma como experienciam, narram, vivem ou representam esses lugares. Certeiro, a literatura é uma forma de pensar que nos faz muita falta.

Neste lugar parece que tudo se derreteu pela sobreposição dos tempos e pela multiplicação dos espaços. No início era um velho caminho, torto e mal calcetado como foram os caminhos ao longo de milhares de órbitas que o planeta conta. Veio depois o caminho da água, pedra sobre pedra para apoiar caleiras (de pedra) por onde corria uma levada. Desta água das pedras se tirou um fio para uma bica. No descanso da jornada, animais e bestas bebiam e descansavam antes de retomar o caminho e a caminhada. Podiam ser os Príncipes de Serendip, fixados no destino da viagem e retidos ali no momento em que uma princesa passou e lhes trocou os planos e as voltas. Vede nobres senhores, disse ela, que bela paisagem que daqui se avista, subi ao aqueduto, subi e esguardai que frondoso vale, o rio ao fundo, os campos de meu pai. E eles subiram. Quando desceram, nem princesa, nem as moedas nos alforges. Em vão procuraram por ela. Tudo o que tinham planeado ficava por ali, por aquela bica dos maus encontros.

Passaram muitos anos, muita enxurrada pelo caminho, mulas, dias de sol escaldante, poeira, viajantes, mulheres que vinham lavar roupa no tanque que havia atrás, gado e procissões.

Certo dia foi uma nervoseira de máquinas que não tinha termo. Escavadoras, camiões, gruas, guindastes. Uma longuíssima e larga estrada começava a sobrevoar o caminho das pedras. Era o gigantesco viaduto. Por força da obra, o aqueduto ia-se desfazendo e as pedras amontoavam-se no estaleiro (os ductos nem sempre se dão uns com os outros quando se misturam com prefixos e perdem o c antes do t).


Concluída e descofrada a obra de arte auto-estradal, o caminho foi reposto, empedrado novo e passeio generoso como mandam as regras do conforto e da segurança de circulação de peões; o aqueduto foi reconstruído numa versão ruiniforme tosca que lhe aumenta a sensação de intemporalidade. Ficaram alguns panos de um muro que havia e a bica, qual pequeno templo desidratado. Atrás do muro existem tanques novos e cordas para estender roupa a secar. Os tanques estão secos e as cordas, vazias, apesar de a corrente de ar e a protecção da chuva favorecerem tais funções. Não há nada que não se acabe.

Por sobre este cenário quase arqueológico, paira o imenso dossel de betão por onde deslizam milhares de veículos, milhões de cavalos embutidos em motores. O caminho está um sossego, nem um cavalo; passa-lhe quase tudo por cima. Entre a caleira de pedra e a cobertura que vai ganhando uma patine cor de ferrugem, fica um desligamento que aumenta a força cenográfica do acontecimento havido neste lugar. O ruído contínuo do tráfego e a reverberação acústica completam os efeitos especiais desta ambiência, da sua luz.

Paisagem não há. Se alguém subir ao aqueduto, não verá o frondoso vale, o rio ao fundo, os campos do pai da tal princesa. Se se esticar muito, é capaz de dar com a cabeça no betão. Das diversíssimas formas de o humano se auto-aperceber, como escrevia H. Buesco, vive aqui uma paisagem ausente sem sinal de visões idílicas. A autora cita Almeida Garrett, para exemplificar algumas tonalidades românticas sobre desencantamentos:

(…) em verdade não sei explicar a impressão que me faz uma ruína neste estado. Desafinam-me os nervos, vibram-me numa discordância e dissonância insuportável. Queria ver estes altares expostos às chuvas e aos ventos do céu — que o sol os queimasse de dia, — que à noite, à luz branca da lua, ou ao tíbio reflexo das estrelas, piasse o mocho e sussurrasse a coruja sobre seus arcos meio caídos. (…) Quero-me ir embora daqui!

Contudo, o que existe é suficientemente potente para convocar imaginários sobre este olhar oblíquo para a intersecção desnivelada, a ruína velha e a nova estrada. Pobre Garrett, escapou-se-lhe o genius loci, desmaravilhou-se o olhar romântico para o lugar. O passado fixou-se, o grande lençol do tempo deixou aqui uma prega esquecida, um poema de pedras velhas que inquieta os humanos e o modo como percebem os mochos, as corujas e muita ratazana que aqui anda.

1. Helena Carvalhão Buescu (2012), Paisagem Literária: Imanência e Transcendência, in C. reis; J.A.C. Bernardes; M.H. Santana (coord), Uma Coisa na Ordem das Coisas — Estudos para Ofélia Paiva Monteiro, Coimbra: Imprensa da Universidade de Coimbra, pp. 193-202, p.202


sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

Manuel Alegre, política e Lisboa - mcor Celeste Ramos

heróis da guerra do Ultramar
Manuel Alegre - um DESERTOR +mcor
 .
Sr maj-general da FAP
 .
Não sei o que é FAP (forças armadas portuguesas ?)
 .
 Escrevi-vos o que pensava (muito pouco) de M.Alegre dizendo que meu irmão – menino – de 18 anos embarcou no 1º barco saído de Alcântara em 1961, tendo eu dito que meu irmão não FUGIU para Paris – foi para o Dondo + Carmona + Nambuangongo + sei lá onde, não quero lembrar-me de mais do que não consigo esquecer – ele fez a guerra, mas também eu fiz OUTRA e tratei dele como sabia – pois NINGUÉM havia para o fazer
 .
Nem mesmo depois (menos ainda) da construção do mamarracho aos “heróis da guerra do Ultramar” a cujos encontros só começou a ir muito tarde pois nem queria AVIVAR memórias que só ele tinha e guardou em silêncio
 .
Assim, como entre os que escrevem para os Heróis do Mar há 2 Celeste (eu-celeste ramos – Lisboa – e outra senhora celeste amado que, creio, ser de São Paulo) – mas não tem importância, nem é grave – só esclareço - e escrevo sempre mcor A pouco e pouco cada um vai dando mais “pormenores de quem é quem e onde habita” e o que pensa sobre “como vai este país” – quer habitem o Brasil e/ou Portugal, e até Alemanha, creio
 .
 .

Assim, tenha eu dito o que disse, não recordo ter chamado DESERTOR, embora não me incomode o termo, mas não quero ser muito “juiz” dos outros com “nome” – mas o artigo de hoje conta timtim por timtim o que foi alegre desde “menino”, sem falar em quantas reformas completas acumula, como se tivesse 5 vidas, (não falo claro do que usufrui do que escreve e publica que não vem aqui para o caso)
 .
E não guardo os mails que envio – guardo apenas os que recebo
.
E embora eu seja altamente crítica desde há muitos anos penso que estará a pensar na Srª D.Celeste Amado (S.Paulo) e não eu
 .
Assim só quero dizer que fiquei de “boca aberta” com o artigo de hoje (28 janeiro) sobre quem muito de perto conviveu com o poeta – como eu não conheço senão pelo que publicamente MOSTRA e por ser amigo de uma amiga e colega que o acolheu (escondeu) nas sua fuga (era e é amiga dele e minha) e um dia quiz-me dizer “coisas” (quando estive em casa dela de férias – no norte) mas calou-se e eu não quis saber
 .
Para algumas pessoas basta-me conhecê-las pela OBRA que deixam – não se esconde o que é tão visivel
 .
Os Heróis do mar como disse no meu 1º mail INVADIRAM-ME o meu mail e como achei graça à designação de Heróis do MAR - respondi praticamente sempre excepto quando não sei sequer o que dizer pois que – da guerra – vivi apenas a RECTAGUARDA – por ter um irmão lá (Angola) e pelas consequências de que nunca se livrou já que, qual stress de guerra qual carapuça, ele até era silencioso, mas ao regressar vi muita coisa que, igualmente continuou a transtornar-me já que era irmão ÚNICO que já cá não está para nos “olharmos e falarmos em silêncio” tal era o nosso entendimento interior
 .
MAS posso chamar o que me apetecer ao senhor alegre – até parece o programa – como está senhor alegra – como está ser feliz – não si quê não sei quê – o meu país – com o que se tornou um parvalhão brejeiro

Estou cansada e já tenho por hoje q.b. porque o FRIO não me faz nada bem, embora tenha nascido em terra fria de Santarém (e meu irmão fez a tropa na Escola Prática de Cavalaria e um CURSO diabólico de comandos em Lamego
 .
Mas eu odeio Santarém e marialvas e outras coisas elo que não sairia de Lisboa por nada do mundo, tal me habituei a este clima excepcional de Lisboa que está mudando, e muito, há 2 ou 4 anos e Lisboa é a “cidade do meu encantamento” para onde vim estudar e nunca mais deixei – embora esteja irreconhecível em coisas boas mas muito pior em coisas inacreditáveis, fruto da ignorância e arrogância de quem a tem GOVERNADO e permitido destruir porque isto de ser presidente da municipalidade tem muito que se lhe diga e mesmo tendo arqtº como vereadores + economistas + outras coisas – desfizeram a Cidade porque não sabem ORDENAMENTO urbano e gerem a cidade como um condomínio camarário +++ etc
 .
Assim, como o sr. coronel, eu também estou na linha da FRENTE para “abalar” e nos dias “não” ,fico mais triste por ver que vou MORRER com a CIDADE que, ela também, nasceu para morrer
 .
E poderia ser uma das mais belas do mundo, porque é a 1ª cidade moderna do MUNDO que o sr.Marquês sabia entender a quem solicitar como a RESTAURAR e fazer OUTRA, após 1755
 .
MAS nunca vi um só presidente da CML) nem importa de que partido e vereação – sobretudo do urbanismo – disseram coisas tão parvas como os mais ILETRADOS não dizem, e muito menos fazem
 .
Por acaso, e como me especializei em “ordenamento urbano” em 1981 de entre 63 equipes concorrentes, fui parte de uma equipe (só eu + 1 arqtº) em que do júri fez parte o arqtº Távora de que ninguém duvida a sua excelência e competência mas também já cá não está
 .
Hoje todos sabem tudo e improvisam e decidem sem saber (nem estudar mais nem terem equipe interdisciplinar mais competente + etc – ídolos cada um no seu nicho e tão seguros de si mesmos sem se darem conta que outros ficam sem grande qualidade de vida porque têm toas as ideias feitas)
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Assim não é só ver “alegre” como PR pois que todos os PR passam e a CIDADE fica – DESMANTELADA e, que eu saiba, (ou deveria ser), nenhum projecto é executado sem a aprovação da CML e conhecimento de ??? de quem ??’ do presidente ???
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Quando o coronel não conhece os soldados se calhar também é menos coronel do que os que os conhecem, e com eles falam
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Pois é, estamos ambos na “linha da frente” e não teremos tempo de ver o país RESTAURADO em todos os sentidos pois os Free-port são CRIMES ecológicos, os condomínos fechados como o do mau bairro (talvez dos 1ºs da cidade do tempo em que era Presidente da VML João Soares (que subiu de ESCADA e anda lá para as EU – como se os piores fossem xutados pela escada acima, ou para o esconderijo que é a CGDepósitos e a EU ou são MEDALHADOS com as maiores distinções, só porque é “tradição” condecorar os primeiros ministros, mesmo que tenham sido NÓDOAS, como foi quando presidente da CM de Figª da FOZ + de Lisboa + sei lá o quê)
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Cada macaco no seu galho e a pior arrogância é atingir um certo POSTO e não saber olhar para BAIXO e ver quem sabe OUTRAS coisas importantes e que são os OBREIROS do país, já que quem manda, manda, mão não tem a sabedoria de todos os saberes necessários que uma cidade exige, e os seus habitantes, ou seja, não sabe mandar
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Mandam só porque lhes é legalmente permitido e para tanto foram eleitos – mas não são OS eleitos – são uns TRABALHADORES de outro degrau da pirâmide e só pelo lugar pensam que SABEM tudo – pena – pois que não é ASSIM
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O que é que sabe e fez a Helena Roseta que só foi política e já nem bocas diz ?? e percorreu todos os partidos à procura de quê ??
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E são tão viajadas e nem ao menos sabem olhar as belas cidades europeias que não se assassinam como se assasssina LISBOA ??
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E agora o que vão fazer ao RIO ??? e as suas margens , que já está, a margem norte, entulhada de mammarrachos dos arqt. TAÍNHAS (tão bons mas ignorantes do que é o rio e a paisagem e os direitos de TODOS os cidadão e não apenas das “elites” para quem desenham e constroem +++ etc
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Não há nada mais ignorante (e arrogante) do que um arqtº - faz belos edifícios isoladamente – mas no LOCAL mais errado
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É mais grave do que fazer mau edifício em local certo já que, repito, o arqtº passa, tudo passa, e a TERRA fica
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São 04h e falam de Obama e do Afeganistão – os USA não ganharão a GUERRA do Afeganistão nem do Iraque – são outros VIETNAM – programa que é repetido há já alguns dias – não quero VER
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Acho que a mais importante guerra de OBAMA é a saúde e o ensino dos habitantes do seu país, o que tem mais “cadeias” per capita no mundo e ainda têm Pena de Morte – são DEUSES mas não abrandam o CRIME gratuito dos meninos das escolas secundárias que matam professores e colegas
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E Portugal – os meninos – começam a IMITAR, também eles, o pior dos outros países – imitam os MENINOS e os grandes que “mandam” na vida de cada um – RAIS os parte –
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No entanto hoje aconteceu algo bonito com “meninos”
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Por baixo do prédio onde habito há uma bela pastelaria onde vou ler o jornal e, hoje, ao entrar, havia um “bando de meninas e menos meninos” a falar normal, em bicha a tomar a sua vez para pagarem o seu “almoço”
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Como fui professora (part time) de pequenos e grandes, não tenho a menor dificuldade em abordar os Jóvens quando me apetece
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E ao ver tal ordem e depois sentadinhos a comer por impulso perguntei na mesa ao lado que “porcarias” estavam a comer e a beber para almoçar ???
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Foram tão imediatos como eu e lá estivemos em conversa sobre os seus estudos (e notas -se calhar aldrabaram-me mas não faz mal pois o que queria saber não passava por aí) e acabei por falarmos em “enxurradas” e coisas do quotidiano e pareciam uma ESPONJA a ouvir, em silêncio – lindos -  e para já nem sabiam o que era enchurrada – lá expliquei – depois de disseram que era tão simples  o que eu dizia mas lá foram “preocupados” em não entrar tarde na Escola que há aqui no Bairro
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Há muitas escolas neste bairro desde creche até Universidade pelo que de vez em quando há BANDOS de meninos, alguns que se portam muito mal como se não houvesse mais ninguém e os paizinhos (e prof) não lhes tivessem dito que em casa não é igual a estar na rua e que, nem num nem noutro local, é indiferente o comportamento
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Estes “dias e situações como a de hoje” compensam os “alegres”, mas nunca se sabe se, ao crescerem, a atitude muda
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Pois é – quem gosta do país, e dos outros, e das cidades, pelo menos a que habita, quem tem sentido de bem estar e qualidade do colectivo, fica TRISTE ao ver “patetas alegres”
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Pois que o ambiente, tanto quanto consigo perceber, marca mais do que a herança genética que temos
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O “ambiente faz o ladrão” (a ocasião)
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Pois é sr.coronel, acho que não está errado
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Mas se eu quizer pensar em quem poderia “enfrentar” o lugar de PR – não votaria em Marcello
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Andando apenas um bocadinho para trás, votaria em Sampaio que quando presidente da CML até se notou que aprendeu muito, se calhar em coisas em que não tinha tido tempo de pensar já que de origem é advogado, mas vê-se que aprendeu pelo que disse – e FEZ
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E se quizer ir mais atrás ainda, não posso esquecer um homem de honra – EANES – que tão vilipendiado, e maltratado foi pelos “intelectuais” e muito gostaria eu de saber se teriam sido capazes de REGER a orquestra que ele regeu no tempo histórico em que se estava
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E até nem deixou de estudar e ir para a universidade, já bem tarde, mas foi, e não anda por aí a pavonear-se – pena – se calhar ainda tem muito para dar e “ensinar”
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E se alguém deu um PASSO (grande) por TIMOR, foi ELE – e toda a gente esquece
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De pavões só gosto dos pavões de Jardim e de repente lembro que um dia fiz o cenário para exterior de um filme português (amigo que já cá não está) – o cenário de exterior era um JARDIM – que construí dentro da TOBIS, com aquela luz e calor infernal – e tinha um lindo pavão AZUL – majestoso
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Por acaso o filme foi premiado como Leopardo de Oiro de Locarno, o 1º, creio, que o país recebeu – o meu jardim “mereceu” uma quota parte disse – filme OBOBO de Alexandre Herculano transposto para o séc XX
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Nunca tinha feito nada tão imprevistamente atrevido – sozinha com 2 “ajudantes” – o filho de O’Neil e o filho de Fernando Lopes – não quis mais ajudas – fiz tudo no mesmo DIA – de rajada sem ninguém a xatiar e dar bocas – para substituir o HORRIVEL que tinha sido feito por empresa que levou caro, vi o desconsolo na cara do realizador (que já cá não está) que de facto não gostou e a quem, impulsivamente disse se me deixava fazer o que nunca tinha feito – deixou e gostou e nunca abriu a coca senão quando acabei e perguntei – que TAL ??
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E foi por isso que o jardim até mereceu UM PAVÃO AZUL
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Pena mas nunca mais este filme voltou aos écrans
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Alias este realizador tina anteriormente feito, para a Gulbenkian – um filme sobre Vieira da Silva (com entrevista com ela e ArpadZen) fantástico – “Ma femme chamada Bicho” – não foi um filme sobre ela – foi filme sobre arte e história, e Lisboa e a Vieira e seu marido – relíquia da Gulbenkian que o mostrou mais do que uma b«vez – mas terá mais de 40 anos – mas acho que não envelheceu – há coisas “sem tempo” – falam de essências
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Por hoje “estejamos” alegres da forma possível
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mcor    Celeste Ramos - sex 29-01-2010 11:51
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