Textos e Obras Daqui e Dali, mais ou menos conhecidos ------ Nada do que é humano me é estranho (Terêncio)
sexta-feira, 22 de maio de 2026
Maria J. Paixão - O estranho caso da cidade-evento
sexta-feira, 25 de agosto de 2023
Sophia de Mello Breyner - Pelo negro da terra e pelo branco do muro
* Sophia de Mello Breyner Andresen
10 de Agosto de 2002, 0:00
Há uma beleza que nos é dada: beleza do mar, da luz, dos montes, dos animais, dos movimentos e das pessoas. Mas há também uma outra beleza que o homem tem o dever de criar: ao lado do negro da terra é o homem que constrói o muro branco onde a luz e o céu se desenham. A beleza não é um luxo para estetas, não é um ornamento da vida, um enfeite inútil, um capricho. A beleza é uma necessidade, um princípio de educação e de alegria. Diz S. Tomás de Aquino que a beleza é o esplendor da verdade. Pela qualidade e grau de beleza da obra que construímos se saberá se sim ou não vivemos com verdade e dignidade. A obra do homem é sempre um espelho onde a consciência se reconhece. Quando olhamos à nossa roda as aldeias, vilas e cidades de Portugal temos de constatar que quase tudo quanto se construiu nas últimas décadas é feio. Feio e - ai de nós! - para durar. Feias as obras públicas e feias as obras particulares. As excepções à regra de fealdade são raras. Costuma dizer-se que a nossa pobreza é a origem dos nossos males. Mas o que caracteriza grande parte da nossa arquitectura desta época é o novo-riquismo. Um novo-riquismo exibicionista - quase sempre sem funcionalidade e sempre sem cultura e sem sensibilidade. Isto é especialmente triste quando comparamos o presente com o passado: de facto olhando os antigos solares de pedra e cal vemos que a nossa arquitectura soube criar nobreza sem riqueza. Daí a pureza e a dignidade de tantas casas antigas. Agora não se trata evidentemente de copiar o passado: a arquitectura é uma arte e a arte é criação e não imitação. Continuar não é imitar e imitar é sempre ofender e trair aquilo que é imitado. Mas é necessário que exista aquela consciência do passado e do presente a que chamamos cultura. Somos um país antigo. Dizem-nos que somos um país pobre. É estranho que destas coordenadas resulte uma arquitectura de novos ricos. A construção da cidade moderna traz problemas difíceis de resolver: problemas de espaço e de circulação. Mas entre nós estes problemas só existem em Lisboa e no Porto. No resto do país os problemas são quase unicamente problemas de humanidade, de bom senso, e de bom gosto ou seja problemas de moral, de inteligência e de sensibilidade e cultura. A regra a seguir é esta: uma casa para todos e beleza para todos. E a beleza não é cara. É geralmente menos cara do que a fealdade que quase sempre se chama luxo, monumentalismo, pretensão. A beleza é simplicidade, verdade, proporção. Coisas que dependem muito mais da cultura e da dignidade do que do dinheiro. Penso neste momento especialmente na terra do Algarve, com suas praias, suas grutas, seus promontórios, seus muros brancos, sua luz claríssima. É preciso não destruir estas coisas. É preciso que aquilo que vai ser construído não destrua aquilo que existe. arte é sempre a expressão duma relação do homem com o mundo que o rodeia. A arquitectura é especificamente a expressão duma relação justa com a paisagem e com o mundo social. Fora destas coordenadas só há má arquitectura. Afirma-se que é necessário desenvolver turisticamente o Algarve. Para isso será preciso construir. Mas é necessário que aqueles que vão construir amem o espaço, a luz e o próximo. Existem todas as condições para que se possa criar no Algarve uma boa arquitectura: ali temos uma paisagem e uma luz que pedem "arquitectura", ali encontramos um uso belo e tradicional do barro e da cal; ali temos uma arquitectura local lisa e pura como uma arquitectura moderna, uma arquitectura popular cujos temas o arquitecto poderá desenvolver duma forma mais técnica e mais culta: ali temos um clima que facilita a vida e propõe soluções de extrema simplicidade. Ali poderemos ter os materiais, as inovações, a técnica e a cultura do nosso tempo. Ali poderão trabalhar os arquitectos competentes que existem no nosso país. Mas é urgente evitar os seguintes perigos:- A incompetência- O saloísmo- As especulações com os terrenos- Os maus arquitectos- O falso tradicionalismo- A mania do luxo e da pompa- As obras de fachada Acima de tudo é preciso evitar a falta de amor. De todas as artes a arquitectura é simultaneamente a mais abstracta e a mais ligada à vida. Aqueles que não amam nem o espaço, nem a sombra, nem a luz, nem o cimento, nem a pedra, nem a cal, nem o próximo, não poderão criar boa arquitectura.
(Publicado em Janeiro de 1963, no nº 21 da "Távola Redonda")
https://www.publico.pt/2002/08/10/jornal/pelo-negro-da-terra-e-pelo-branco-do-muro-173555
terça-feira, 13 de dezembro de 2022
Francisco Louçã - Se até o Quinto Império não tinha departamento de proteção civil
* Francisco Louçã
Vive Lisboa em pânico, como se os
marcianos tivessem desembarcado, mas é a repetição de cheias como em dezenas de
anos. Faltou o milagre que, afinal, era só um projeto orçamentado e
calendarizado e, claro, nunca concluído. Triste sina, esta de ter autarcas que
sabem que podem enganar a sua cidade
13 DEZEMBRO 2022
Não passa um carro, a cidade
entrou em pânico, as escolas meteram água e as crianças e adultos fecharam-se
em casa. As autoridades, mais assustadas do que o povo que já viu muito disto,
bombardeiam os telemóveis com mensagens apocalípticas, esbracejando uma
diligência que faltou quando foi mais necessária e cuja exibição pretende
ocultar anos de promessas calculistas e indiferença cínica sobre obras urgentes
nunca concluídas ou sequer começadas.
Pela manhã pouco chove, depois
das litradas da noite, mas sentimo-nos como se tivesse passado o maremoto de
1755. As televisões emitem em modo de catástrofe, como se Orson Welles tivesse
voltado a anunciar a chegada dos marcianos e vamos espreitar a esquina para
vermos os disparos dos raios da morte dos sanguinários ocupantes saídos da sua
nave reluzente. E, apesar do espetáculo do medo, isto é mesmo uma cheia,
pequenina aqui, enorme ali. As águas procuram a sua história e marcham pelos
leitos de ribeiras entretanto sepultados em alcatrão, pelo que, sem surpresa,
inundam caves e túneis. Como sempre fizeram.
Triste sina esta de viver em
Lisboa, a mítica cidade fundada por Ulisses e por onde Ulisses nunca passou,
como lembrou com algum sarcasmo Eduardo Lourenço, e onde os autarcas, ministros
e demais entidades se sucederam ao longo de décadas anunciando tranquilizantes
prazos e engenharias que sabiam inutilmente destinadas a uma gaveta.
Se há um risco de calamidade,
aliás comprovada por um longo cadastro de repetições, a melhor solução continua
a ser formar uma comissão ou, se se chegar ao ponto da cabeça perdida, prometer
uma obra, e assim procederam uns e outros ao longo do tempos. Que usem sempre o
mesmo subterfúgio e com os mesmos resultados, já diz tudo sobre a experiência
sobrevivente destes autarcas e de como consideram o seu povo, que esperam que
seja desmemoriado e aceite o próximo enlevo eleitoral como se não houvesse
ontem.
Perante a mesquinhez destas
águas, ouve-se a tristeza, fado repetido. Afinal, tudo corre mal: há inundação
mas, pior, Portugal perdeu com Marrocos. Ora, está tudo relacionado, como não
podia deixar de ser, pelo menos na fantasmagoria: num caso e noutro volta a
agitar-se o espectro de Alcácer Quibir, coisa no primeiro caso excessivamente
dramática para um só jogo, no segundo deslocado do campo de batalha, mas nem
menos por isso revelador de como se enunciam as identidades míticas (e, neste
caso, místicas).
A regra é esta: sempre que há
fracasso, fala-se da grandeza perdida e da saudade do que não existiu, a culpa
é de outro ou, pela certa, das conjugações cósmicas que nos atraiçoam. Mouros e
chuvas têm o mesmo lugar nesse pensamento mágico, que é o que resta quando não
há mais nada a dizer.
O disfarce que permite estes
estratagemas discursivos é somente uma recapitulação do passado. Quando as autoridades
não sabem o que fazer, repetem o que sempre fizeram mal; quando não há
explicações, prometem o que sempre prometeram. Nada de novo neste sebastianismo
serôdio: dizia Lourenço que uma “hiperidentidade” nacional foi constitutiva da
projeção fantasmática de um povo que foi chamado de predestinado aos grandes
feitos do Império, mas a derrota do rei-menino em Marrocos rompeu esse ciclo
desde o seu início e criou desde então uma “não-história”, uma falsificação de
si própria disfarçada na crueza da colonização, do tráfico negreiro, da
escravatura, conduzindo ao “póstumo” fracasso final. Não continuará a ser
assim?
A assombração insepulta desse
Quinto Império transmutou-se na nossa contemporaneidade num discurso delirante
sobre a carruagem da frente, sobre a glória europeia, sobre a voz forte no
concerto das nações, sobre os portugueses “de sucesso”, de banqueiros a
governantes, se bem que nem todos conduzindo o seu mister com o maior
prestígio. Quem diria então que essa modernidade avançada, tecnologicamente
segura, engenhosa e inventiva, desabaria perante uma chuvada, ainda por cima
previsível, anunciada, teimosamente repetida e de resultados antecipáveis.
O ciclo do sebastianismo foi “o
máximo de existência irrealista que nos foi dado viver; de um máximo de
coincidência com o nosso ser profundo, pois esse sebastianismo representa a
consciência delirada de uma fraqueza nacional, de uma carência, e essa carência
é real”, escrevia Lourenço no “Labirinto da Saudade”. Numa palavra, resumia,
estamos sempre à espera do “milagre”. Fraca consolação será agora saber que
também no caso deste dia cinzento, o milagre era um projeto aprovado,
orçamentado e calendarizado, que ficou enigmaticamente para as calendas, como
parece ser uma regra não escrita da gestão das coisas sérias.
segunda-feira, 12 de dezembro de 2022
Henrique Raposo - Não, não estamos em 1967
* Henrique Raposo
OPINIÃO -
Em 1967, uma tempestade idêntica
à de quinta-feira passada matou 700 pessoas. Ou melhor, o regime assumiu 700
mortos, mas esse número peca por escasso. Aqueles migrantes, portugueses e
clandestinos, moravam em barracas ao lado de ribeiras como a de Odivelas e de
Frielas e foram levados pelas enxurradas. Centenas de corpos ficaram espalhados
nas ruas, entalados entre carros, até na copa das árvores. Reparem: as pessoas
subiram às árvores mas morreram afogadas na mesma. Na quinta-feira passada, uma
chuvada idêntica só matou uma pessoa. Não digam que Portugal não muda ou que
Portugal não evolui, porque isso é errado e sobretudo injusto
Éuma das coisas que mais me
irrita: quando alguma coisa negativa rebenta em Portugal (um caso de corrupção
ou uma tragédia natural), a atitude de boa parte dos portugueses é esta: “isto
só neste país”, “pá, só neste país”. É uma espécie de excepcionalismo ao
contrário. O excepcionalismo americano ou francês leva os respetivos indígenas
a pensar que as coisas boas só podem acontecer nos EUA ou França. O
excepcionalismo português assume o contrário: as coisas más só acontecem em
Portugal e “lá fora” só há coisas boas. É como se os outros países não tivessem
corrupção, pobreza ou cheias.
Este mecanismo mental não é um
pormenor: é um traço cultural que dificulta duas coisas. Primeira: entorpece o
debate sobre as reformas do país. Se o país é sempre a choldra, se é
geneticamente assim, inferior, decadente, ineficaz, então para quê o esforço,
então para quê mudar seja o que for? Este baixo queirosianismo iliba o
português de um compromisso sério com a melhoria da sua comunidade.
O segundo efeito está, portanto,
à vista: o desapego permanente entre o português e Portugal, que só é
interrompido nos picos emocionais do futebol. Em Portugal, parece que só há um
superpatriotismo, aliás, um nacionalismo agressivo e místico na altura dos
jogos da seleção; no dia a dia, porém, na resolução dos problemas reais do
país, esse nacionalismo esvazia-se até à indiferença e as pessoas caem no
cinismo do “isto já deu o que tinha a dar”, “este país não muda”. Muda, muda. E
muitas vezes muda para melhor.
Em 1967, uma tempestade idêntica
à de quinta-feira passada matou 700 pessoas. Ou melhor, o regime assumiu 700
mortos, mas esse número peca por escasso. Aqueles migrantes, portugueses e
clandestinos, moravam em barracas ao lado de ribeiras como a de Odivelas e de
Frielas e foram levados pelas enxurradas. Centenas de corpos ficaram espalhados
nas ruas, entalados entre carros, até na copa das árvores. Reparem: as pessoas
subiram às árvores mas morreram afogadas na mesma. Na quinta-feira passada, uma
chuvada idêntica só matou uma pessoa. Não digam que Portugal não muda ou que
Portugal não evolui, porque isso é errado e sobretudo injusto.
O baixo queirosianismo do “isto é
uma choldra” ou “isto já deu o que tinha a dar” revela preguiça e alguma
ingratidão por aquilo que se fez no último meio século em Portugal e, repito,
iliba as pessoas de uma ação concreta sobre problemas concretos.
12 DEZEMBRO 2022
https://expresso.pt/opiniao/2022-12-12-Nao-nao-estamos-em-1967-e4d69841