Mostrar mensagens com a etiqueta Emigração. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Emigração. Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, 24 de agosto de 2022

Emigração - um texto de Filipe Tourais

* Filipe Tourais

Filipe Tourais está 📷a sentir-se positivo. 2022 08 24  
·
Bolas, que isto agora é tudo em grande. Há pouco, como faço sempre ao pequeno-almoço, liguei a rádio. Estava a dar aquele programa da rádio pública que nasceu quando o Passos Coelho convidou a malta jovem toda a emigrar e surgiu a necessidade de dourar a pílula, uma rubrica de entrevista a casos de sucesso, sempre de sucesso, de portugueses que resolveram o seu problema de falta de oportunidades, que deixou de ser seu quando se piraram daqui.

Ali ninguém é emigrante. Relatam-se “experiências internacionais”, nada a ver com ser emigrante e  ter que emigrar porque o país ficou como ficou, que também não é tema abordado. Quem está mal que faça como os entrevistados, todos de sucesso, não há que ter medo, que seja “resiliente”, agora toda a gente é,  e parta “à aventura”. Depois é questão de esperar por um contacto para contar na rádio de viva voz as suas “experiências internacionais” de felicidade absoluta, sem nunca falar dos que ficam nem do país maravilhoso que deixaram para trás e lhes desperta saudades várias, a família, a gastronomia única que temos, o sol, as paisagens, os pasteis de nata, essas coisas que depois os avós gostam de ouvir aos netinhos que este país avançado até pôs a falar na rádio.

O programa é todo ele “pela positiva. Não se diz “mal” de nada e é muito moderno e cosmopolita até na gramática. Os entrevistados falam “desde” ou “a partir” das cidades onde estão a viver. No tempo em que havia emigrantes é que se mandavam beijos de Paris e não a partir de Paris ou desde Paris. Evoluímos tanto, caramba.

Peço desculpa. Caramba, não, agora diz-se brutal, fantástico, incrível. A expressão “caramba” tem uma genética muito negativa de inconformismo, perplexidade e, em casos extremos a evitar pelo seu potencial de perturbação da normalidade, até de protesto.   E toda a gente sabe que as coisas são como são, que vivemos na mais absoluta normalidade apesar da resiliência que às vezes as situações nos impõem.

No bloco noticioso que passou um pouco antes, falaram do caso de uma resiliente. Mais uma.  Uma grávida que foi obrigada a fazer 150 Kms em 5 horas de ambulância para dar à luz devido ao dilúvio de encerramentos de urgências obstétricas  que está a afectar a região da grande Lisboa e, como qualquer dilúvio que se dê ao respeito,  decerto estará relacionado com aquilo das alterações climáticas e assim. O episódio conta-se em duas penadas. A rapariga  fez o trajecto por duas vezes. Primeiro, foi encaminhada para o Hospital de Santarém. Azar nítido. Garantiram ao pessoal da ambulância que havia obstetra mas esqueceram-se que não havia anestesista. Enfim. Nada que não se resolva. Teve que ser reencaminhada para as Caldas da Rainha e foi aí que a Benedita finalmente nasceu.

Aqui, perdoem, mas parece-me um caso flagrante de falta de pontaria. Faziam mais uns quilómetros e a Benedita teria nascido na Benedita. Faria imensamente mais sentido uma Benedita nascer na Benedita do que ter nascido no Seixal, onde reside a mãe e onde não nasceu por mera sorte. Bom, se houvesse obstetra e se houvesse anestesista na Benedita. Há "casos pontuais" em que felizmente não há. Daí ter feito a viagem que a salvou de nascer no Seixal.

Coitadinha da Benedita. Se isto continuar a descambar ao ritmo a que está a descambar, vai ter que ser mesmo muito resiliente  e partir para onde possa enviar beijos desde ou a partir do palco da sua “experiência internacional”. Ela depois conta-nos tudo na rádio. Eu só não me conformo com aquilo de não a terem levado à Benedita para nascer Benedita. Ó pá. Não se fazia. Andavam apenas mais 19,3 Kms e a notícia "positiva" da Benedita da Benedita faria  muita gente feliz. A vida pode ser tão simples. Um gajo tem é que ser positivo e abster-se de reparar que  a filha mais pequenina da normalidade também já partiu para a sua experiência internacional. Não emigrou, atenção. A palavra acho que até já nem existe.

sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

Olhares .. sobre a emigração portuguesa em França




EI-LOS QUE CHEGAM*
QUINTA-FEIRA, 10 DE SETEMBRO DE 2015
PUBLICADO POR RICARDO M SANTOS

“São esquisitos, baixos e com bigodes e barbas. Chegam, na esmagadora maioria, homens. Elas, quando vêm, cobrem os cabelos com panos e não usam saia acima do joelho. Muitas são proibidas pelos maridos de cortarem o cabelo. Por vezes, eles ameaçam-nas com uma chapada ou um murro; elas, subservientes, baixam a cabeça e colam as mãos ao ventre. Trazem com eles uma paixão fervorosa pela religião. Usam colares com o símbolo das suas crenças e são capazes de dar mais do que têm para que o seu local de culto, na sua terra natal, tenha um relógio ou um telhado novo. Rezam, pelo menos, de manhã e à noite. Se puder ser, ao final da tarde, cumprem mais um ritual.

Chegam sem falar uma palavra da nossa língua. Parece que fogem de uma guerra qualquer lá no país deles, da fome e da miséria. Não têm, por isso, noção de amor à nação. Fogem em vez de defenderem o seu país e lutarem por uma vida melhor lá, na terra deles, vêm para aqui sujar o nosso país com a sua imundície. Atravessam países inteiros a pé ou à boleia para chegarem aqui. Pagam milhares para saírem do seu país e vêm ficar na miséria. Alguns têm muitos filhos, muito mais do que aquilo a que estamos habituados. Deixam-nos sozinhos ou com os irmãos mais velhos, que não vão à escola. Mas são muito trabalhadores.

Bem, na verdade, não roubam exactamente o nosso trabalho, porque aqui há leis que não nos permitem trabalhar 18 horas diárias, embora isso exista e dê jeito a alguns patrões. Mas de certeza que nos roubam qualquer coisa. São diferentes de nós e isso causa-nos má impressão.

Não são muito limpos, cospem para o chão e as suas maneiras em público deixam muito a desejar. Vivem em bairros de lata que mais parecem campos de refugiados. Não sei como conseguem. Se é para viverem na miséria, mais valia ficarem na terra deles.”

Diário de um Parisiense,1969

*Embora pudesse ser um relato verdadeiro, demonstrativo da nossa estupidez colectiva, este texto é ficção. É da minha autoria. Não está em mais lado nenhum que não no blogue nem é excerto de coisa alguma. 

* Foto de  Gérald Bloncourt (http://bloncourtblog.net/2014/07/l-immigration-portugaise.html)
* Texto original de Ricardo M. Santos em 
http://manifesto74.blogspot.pt/2015/09/ei-los-que-chegam.html




http://www.bloncourtblog.net/2014/07/l-immigration-portugaise.html


quarta-feira, 12 de abril de 2017

Cantares da emigração

PRA A HABANA!

V

Este vaise i aquel vaise,
E todos, todos se van,
Galicia, sin homes quedas
que te poidan traballar.
Tés, en cambio, orfos e orfas
E campos de soledad.
E nais que non teñen fillos
E fillos que non tén pais.
E tés corazóns que sufren
Longas ausencias mortás,
Viudas de vivos e mortos
Que ninguén consolará.

Rosalía de Castro
in Follas Novas, 1880

CANTAR DA EMIGRAÇÃO 

Este parte, aquele parte
e todos, todos se vão
Galiza ficas sem homens
que possam cortar teu pão

Tens em troca órfãos e órfãs
tens campos de solidão
tens mães que não têm filhos
filhos que não têm pai

Coração que tens e sofre
longas ausências mortais
viúvas de vivos mortos
que ninguém consolará


Repete 1ª quadra
Tradução: José Niza Interpretação: Adriano Correia de Oliveira 
Album: Cantaremos, 1970

in http://folhadepoesia.blogspot.pt/2014/09/pra-habana-cantar-de-emigracao.html





segunda-feira, 20 de maio de 2013

José Luís Peixoto - Livro


Quero Um Livro
 07 Janeiro 2011
***
  
"Este livro elege como cenário a extraordinária saga da emigração portuguesa para França, contada através de uma galeria de personagens inesquecíveis e da escrita luminosa de José Luís Peixoto. Entre uma vila do interior de Portugal e Paris, entre a cultura popular e as amais altas referências da literatura universal, revelam-se os sinais de um passado que levou milhares de portugueses à procura de melhores condições e de um futuro com dupla nacionalidade. Avassalador e marcante, Livro expõe a poderosa magnitude do sonho e a crueza, irónica, terna ou grotesca, da realidade. Através de histórias de vida, encontros e despedidas, os leitores de Livro são conduzidos a um final desconcertante onde se ultrapassam fronteiras da literatura."



José Luís Peixoto nunca foi um autor que me chamasse à atenção, aliás sempre achei que não gostava dele... Não faço ideia de onde vinha essa certeza, que me lembre nunca tinha lido nada dele até hoje. Pode ter acontecido ter-me passado pelas mãos algum livro dele, quando era muuuiittoooo mais nova e não ter gostado, mas sinceramente não me recordo. Aponto mais para o facto de ter, por alguma razão, confundido o nome dele com o de algum autor que não gostei. É possível, visto a minha memória para nomes ser má e o meu conhecimento de escritores portugueses contemporâneos ser vergonhosamente deficiente. :/ O importante aqui é que esse erro foi corrigido e José Luís Peixoto entrou na lista dos escritores que gosto e que quero continuar a ler. :)


Livro de José Luís Peixoto está dividido em duas partes, claramente distintas uma da outra. Na primeira parte o autor narra a história de amor de Ilídio e Adelaide, numa aldeia do interior de Portugal. Um amor feito de olhares, de sentimentos não falados, de silêncios e de desencontros gerados pela miséria, pela vergonha, pela ignorância e pela inveja. Quando Adelaide é forçada a partir para França, Ilídio parte atrás dela. Adelaide e Ilídio servem de pretexto para que conheçamos as condições duras da viagem mas, também a solidariedade dos espanhóis que ajudavam os portugueses até à fronteira francesa. É através deste dois, que partiram por razões completamente diferentes das dos seus companheiros de viagem, que José Luís Peixoto nos vai dando conta das condições difíceis que esperavam os portugueses em França com a descriminação e o trabalho duro.

Esta primeira parte do livro é angustiante, é triste, miserável como a vida de quase todos os que nele aparecem. José Luís Peixoto consegue, com as palavras e pela forma como as utiliza, transmitir emoções fortes, consegue chocar-nos, deixar-nos confusos e muitas vezes enojados, apanha-nos desprevenidos e somos confrontados com situações que nos deixam sem defesas e sem reacção, engolimos em seco. Ao mesmo tempo o Livro consegue fazer-nos sorrir, porque nem tudo na vida são desgraças, porque existem situações caricatas, estranhas, quase cómicas e porque as personagens são na sua essência puras, inocentes e a esperança acaba por ser um sentimento que vagueia pelas páginas do livro. De alguma forma, temos a certeza de que tudo acabará bem. :)

A segunda parte do livro é mais leve, o estilo de escrita muda completamente e o cenário é mais luminoso e risonho. Não será coincidência que a primeira parte acabe pouco dias depois do 25 de Abril. :) Aqui José Luís Peixoto, como diz a sinopse, ultrapassa as fronteiras da literatura e interage com o leitor, provocando-o. Esta parte termina a história, não sem alguma estranheza pela personagem que nela nos é apresentada... Quase irreal, quase uma personagem ela própria. :)

Porque vim de um livro completamente diferente (The Cider House Rules) em termos de escrita, John Irving enche as histórias de pormenores e normalmente chego ao fim dos livros dele cansada, fisicamente cansada, entrar na escrita mais simples, sem ser linear de José Luís Peixoto custou-me um pouco. Adaptar-me a uma linguagem mais próxima dos sentimentos, mais límpida foi uma questão que tive de ultrapassar no início. Mas depois desse período de adaptação a leitura, embora feita de uma forma calma, foi de certa forma compulsiva. Não acho que este livro deva ser um livro de leitura rápida mas sim um daqueles em que saboreamos as palavras e a musicalidade da escrita.

Gostei e agora gostava de ler um dos anteriores do José Luís Peixoto pois, pelo que me consta este é diferente de todos os outros.

Recomendo sem reservas!

Boas leituras!
Publicada por N. Martins à(s) 12:10 
Diário de Notícias

LIVROS

José Luís Peixoto dá vida ao rapaz 'Livro'

por Lusa25 agosto 2010Comentar
Escritor José Luís Peixoto
Escritor José Luís Peixoto
Fotografia © Dn / Gonçalo Villaverde

No novo romance de José Luís Peixoto, que chega às livrarias portuguesas a 24 de Setembro, 'Livro' é nome de pessoa, do protagonista da história, centrada na emigração portuguesa para França nas décadas de 1960 e 1970.
'A história é maravilhosa, desde a primeira frase do livro', disse hoje à Lusa Francisco José Viegas, director editorial da Quetzal, que está a reeditar a obra de José Luís Peixoto. E a primeira frase é 'A mãe pousou o livro nas mãos do filho'.
'Uma mãe abandona um filho para poder emigrar e, muitos anos depois, os seus destinos voltam a cruzar-se, num enredo de coincidências portuguesas, amores desencontrados, bibliotecas, livros de que se gosta muito -- e é já o 25 de Abril, com uma segunda geração de emigrantes que são portugueses em França e franceses em Portugal', resumiu.
O livro -- explicou o editor -- está dividido em duas partes distintas: 'A primeira trata especificamente de uma história de emigração, dramática, muito realista, cheia de histórias e de episódios que dificilmente esqueceremos'.
'A segunda trata deste personagem curioso e fascinante, que tem um nome ainda mais estranho: Livro. É o nome dele, do rapaz. Livro. E é um brilhante delírio sobre literatura, bibliofilia, Portugal, a emigração, o cruzamento de culturas...', prosseguiu.
José Luís Peixoto, de 35 anos, vencedor do Prémio Literário José Saramago em 2001 com o seu romance de estreia, 'Nenhum Olhar', publicou depois mais dois romances, 'Uma Casa na Escuridão' (2002) e 'Cemitério de Pianos' (2006), que a crítica considerou estarem ainda sob a sombra do primeiro.
Quanto a 'Livro', o quarto romance, diz Francisco José Viegas que 'é o romance dessa libertação, sem dúvida'.
'Já não é tão autobiográfico, se se quiser; é uma construção romanesca muito séria, muito trabalhada, muito pensada para além do espaço pessoal e intimista', sustentou.
'Penso que é a grande obra da maturidade de José Luís Peixoto que, mantendo os sinais e as marcas que construíram o seu universo de leitores e admiradores, vai mais além, ultrapassa o universo 'dos fãs' e conquistará certamente mais leitores', defendeu o editor.
Segundo Viegas, 'não é por acaso que este livro demorou tanto tempo a ser escrito. É o resultado de um amadurecimento. E também de uma confiança natural, que nasce do facto de o José Luís Peixoto ser um dos autores portugueses mais traduzidos, lidos e apreciados no estrangeiro'.
A Quetzal, que reeditou já, com a colaboração do autor, toda a sua ficção, desde 'Morreste-me' até 'Cemitério de Pianos', prepara-se agora para reeditar a sua poesia ('A Criança em Ruínas', 'A Casa, a Escuridão' e 'Gaveta de Papéis'), que inaugurará a colecção de poesia da editora.
'Vai ser uma colecção muito bonita -- afiançou Francisco José Viegas -- graficamente ainda mais cuidada do que já costumam ser os livros da Quetzal, onde, para abrir, além do José Luís Peixoto, vamos publicar o João Luís Barreto Guimarães e a obra completa de um grande autor cabo-verdiano, um poeta notável e praticamente desconhecido, João Vário'.
Além disso, indicou ainda, no próximo ano a editora publicará um livro infantil de José Luís Peixoto, 'Mãe, Mãe', e, em finais de 2011, um conjunto de novelas.

José Luís Peixoto
TERÇA-FEIRA, 21 DE SETEMBRO DE 2010
Romance-resumo
Crítica a Livro, in Jornal de Letras
Por Miguel Real

Desde a década de 60 que a historiografia do romance português tem provado que não só a forma (a estrutura) ilumina o conteúdo como marca indelevelmente a singularidade de cada narrativa, prestando-lhe um rosto literário específico. Estamos hoje longe, cronológica e teoreticamente, do tempo em que da prisão "António Vale"/Álvaro Cunhal ditava não ter qualquer razão de ser "a objecção de que a sobreposição do conteúdo à forma não é fecunda no ato de criação artística. No próprio processo de criação, como norma para alcançar um nível superior, é válido o princípio - primeiro o conteúdo", bem como o tempo em que Almeida Faria e Nuno Bragança submetiam o conteúdo narrativo ao primado da forma.

Possivelmente, o novo romance de José Luís Peixoto, Livro, ficará na história da literatura portuguesa como o símbolo máximo da sobredeterminação da forma face ao conteúdo. Com efeito, se o autor tivesse optado por outra organização estrutural, o romance, ainda que com o mesmo conteúdo, seria todo outro, radicalmente outro.

Neste sentido, dando primazia à forma, Livro é, espantosamente, uma síntese da história do romance português desde Eça e Camilo.

Primeiro, quando ao conteúdo, é profundamente realista ("a realidade bem observada e a observação bem exprimida", Eça), narrando a história de uma família desencontrada (sem apelido) e de uma vila (sem nome) portuguesas ao longo de 70 anos do século XX, descrevendo situações típicas do subdesenvolvimento do interior rural, bem como da reacção campesina, emigrando para França, na década de 60.

Segundo, Livro abandona-se, não raro, ao naturalismo (vida de Galopim e do irmão deficiente; mulher lobo na raia entre Portugal e Espanha; a morte da velha Lubélia; a existência diária do Daquele da Sorna...).

Terceiro, com a adolescência de Livro (nome do narrador personagem, não título do romance) em Paris, os "eus" psicológicos, até então profundamente sólidos, dotados de entidade pessoal, estilhaçam-se, multiplicando as pulsões no seu interior (Livro opera uma deriva existencial; Adelaide, sua mãe, divide-se interiormente entre educação portuguesa provinciana e os novos costumes parisienses; Constantino, seu putativo pai, falhado o maio de 68 e a Revolução dos Cravos, esquizofreniza-se, incorporando a figura revolucionária de "Lenine", tratando o filho por pai e a mulher por mãe). É a pulsão "presencista" (psicologista) do romance português, nomeadamente a multiplicação dos "eus" de O Jogo da Cabra Cega (1934), de José Régio.

Em quarto lugar, criticando o neorrealismo (p. 238), o narrador assume, na segunda parte, o desconstrutivismo das décadas de 60 e de 70, o fragmentarismo, a auto-referencialidade, o pós-modernismo (p.227), a confluência sincrética, por vezes caótica, de estilos, de textos de proveniência diversa (citação amiúde de nomes de autores, listas de livros, inquérito ao leitor...), evidencia ointelectualoidismo narrativo próprio daquelas décadas (grafia de "Heraclito, o Efésio" em grego clássico), o privilégio da conotação face à denotação...

Em quinto lugar, enquanto totalidade romanesca, recupera a categoria de "grande narrativa" (décadas de 80 e 90) como arte de contar uma história com princípio, meio e fim (as vidas de Adelaide e Ilídio).

Assim, Livro estatui-se, tanto estilisticamente quanto ao nível do conteúdo, como um romance resumo da história do romance português de Eça de Queirós a Francisco José Viegas. Parafraseando Pessoa, Livro é uma espécie de novelo narrativo com a ponta virada para fora, puxada a qual se desenrola a nossos olhos a história portuguesa dos últimos 70 anos (Salazar e a Pide; os párocos de aldeia, coniventes com o poder político; a miséria dos campos; os ricos - a família de Dona Milú - e os pobres - a vila inteira, sem esgotos, sem ruas alcatroadas, sem água canalizada; a história da emigração; o 25 de abril e a adesão à Europa; a riqueza de pato-bravo dos emigrantes; as casas de fachada forrada de azulejos de casa de banho...).

De forma circular, automanifestando a génese do narrador e das condições existenciais da narração, operando por vezes um diálogo explícito com o narratário (p.247), substituindo os capítulos clássicos por fragmentos titulados por letras, números e datas, jogando um puzzle de peças soltas unificadas pela consciência do leitor, Livro constitui um magnífico retrato, à entrada do século XXI, do modo de narração de uma história, simultaneamente obedecendo e subvertendo a tirania da cronologia.

História de uma dupla educação (Ilídio e Livro), José Luís Peixoto mantém o seu lirismo singular em Livro, estatuindo a frase entre a racionalidade do realismo descritivo e a emoção do verso poético. Porém, à medida que nos afastamos deMorreste-me e de Nenhum Olhar, suas primeiras narrativas, o lirismo tem vido a perder uma carga hiperbolizante, denotada pela figura da reiteração, amplificando fragmentos de sentido na consciência do leitor, tornando-se pragmaticamente comedido. De qualquer modo, Livro possui a explícita marca do lirismo, com o princípio da subjectividade do narrador, envolvendo e dominando o princípio da objetividade (o realismo). Lexicalmente, assiste-se a confluência entre um vocabulário rural e um vocabulário urbano, e, por vezes, sobretudo nas falas de Cosme da segunda parte, explicita-se o patuá da emigração portuguesa para França.

Se deveras não nos irritasse o prefixo da palavra "pós-modernismo" (uma mera moda literária que preenche a ausência da palavra correta que a todos nos falta para designar a literatura de hoje), estaríamos tentados a classificar Livro como o grande romance do pós-modernismo português. Preferimos, antes, chamar a atenção do leitor para o facto, iniludível, de que, com Livro, se inicia a maturidade literária de um grande escritor.
***

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Livro
Escrito por Mariana e André   
9789725648995
Livro, José Luís Peixoto
José Luís Peixoto
Este livro elege como cenário a extraordinária saga da emigração portuguesa para França, contada através de uma galeria de personagens inesquecíveis e da escrita luminosa de José Luís Peixoto.
.
Entre uma vila do interior de Portugal e Paris, entre a cultura popular e as mais altas referências da literatura universal, revelam-se os sinais de um passado que levou milhares de portugueses à procura de melhores condições e de um futuro com dupla nacionalidade.
.
Avassalador e marcante, Livro expõe a poderosa magnitude do sonho e a crueza, irónica, terna ou grotesca, da realidade.
.
Através de histórias de vida, encontros e despedidas, os leitores de Livro são conduzidos a um final desconcertante onde se ultrapassam fronteiras da literatura.
.
A história narra a vida de um rapazinho que é deixado pela mãe num fontanário, de madrugada. Antes de partir, ela entrega-lhe um livro e promete que voltará dentro de algumas horas. Mas abandona-o e vai para França, trilhando os caminhos da emigração. Acolhido por uma família da aldeia, e sem nunca mais saber da mãe, o rapaz vai crescer enamorado por uma rapariga da terra que o corresponde nos sentimentos. Chegados à idade adulta, decidem ambos emigrar para França, mas partem separados.
.
O livro - único objecto de valor que o rapaz possuiu em toda a sua vida - servirá para os manter ligados e é através dele que se vão reencontrar.

 http://www.cortegaca.pt/pt/sugestaoliteratura
.
.

sexta-feira, 16 de maio de 2008

A EMIGRAÇÃO ITALIANA



POR QUE OS COLONOS ITALIANOS FUGIRAM PARA O BRASIL E OUTROS PAÍSES
.
A Itália, em 1887, passava por grandes dificuldades; teve que vender tudo o que era possível vender: terras do Estado, bens eclesiásticos, linhas férreas, a Régia dos Tabacos. E
sobrecarregou o povo com taxas desumanas. Havia falta de escolas, de estradas, de hospitais, de água tratada e de saneamento básico.

.

A malária matava 40.000 pessoas por ano; a pelagra, 100.000. Entre 1884 e 87 o cólera tinha matado 55.000 pessoas. As estatísticas falam em 400.000 mortes por ano.

.

Metade eram crianças com menos de cinco anos, porque a comida era escassa, a higiene quase nula e a consulta médica a um preço proibitivo.

.

Dos 3.672 trabalhadores nas minas sicilianas de enxofre, só 203 foram declarados sãos e aptos para o serviço militar.

.

O resto era tudo doente.

.

Dos 30.000.000 de habitantes, 21.000.000 eram colonos. O arado era ainda aquele de prego, o mesmo usado por Cincinato,
2.000 anos antes. Entretanto, a Inglaterra, a França e a Alemanha já haviam ingressado na era industrial. A Itália parecia um País de miseráveis analfabetos. Só o Piemonte e a planície do Pó demonstravam um pouco de progresso agrícola.

.
Não havia dinheiro para comprar remédios e as roupas se enchiam de remendos superpostos; os doentes eram colocados em mangedoura por falta de leitos hospitalares, e o porco vivia dentro de casa como um da família. A venda de crianças como mercadoria era um costume muito difundido, tanto no Sul como no Norte da Itália.

.
Centenas de milhares de italianos viviam ainda em grutas ou cabanas de pau a pique e barro, sem janelas, ou em escavações feitas na rocha. Segundo dados de 1879, aí viviam na média 10 pessoas por vão.

.
No Norte, os colonos comiam carne somente uma vez por mês; no Sul, uma vez por ano. No Norte, comiam exclusivamente milho, porque era mais barato e alimentava mais. Os trabalhadores braçais comiam quase só pão preto de cevada, feito somente duas ou três vezes por ano. E sobre esse pedaço de pão, escasso e duro como uma pedra, foi imposta uma taxa, que causou revoltas sangrentas na Sicília e ao longo do Pó.
.
Em 1861, somente 600.000 podiam votar: eram aqueles que tinham um patrimônio ou uma renda. Eram os "Signori". E só os abastados podiam ser votados. Portanto, o povo comum não tinha representantes no Congresso. Os colonos não tinham propriedades; viviam do trabalho escravo.
.
As massas populares não eram consideradas povo. Quando se falava em "povo", entendia-se a burguesia: os funcionários, os comerciantes, os advogados, os médicos, etc. Os outros (e eram os quatro quintos) não contavam nada. Os cargos políticos eram impostos pelo Rei.
.
Com essa situação, com as autoridades insensíveis às necessidades das massas populares, começaram os primeiros movimentos emigratórios. Os colonos fugiam de um País ingrato, que nunca foi sua verdadeira Pátria.

.

Só então foi concedido a todos os italianos o direito de votar, mesmo àqueles que já tivessem emigrado para outros países. E entre os que ficaram, afinal o Governo começou a erradicar o analfabetismo. E para facilitar esta tarefa, introduziu entre o povo leituras amenas, como "As Aventuras de Pinóquio".

.

Em 1861, sobre os 26.000.000 de habitantes, apenas 600.000 falavam o italiano. Em 1886, sobre 100 italianos, pelo menos 70 ainda assinavam o nome com uma cruz. Nas escolas se usava o dialeto. O próprio Rei era fraco na língua italiana. Cada Região falava o seu dialeto. Faltava uma língua comum. Finalmente, ficou decidido que a língua oficial seria o toscano, porque foi a língua usada por Dante Aleghieri, quando escreveu "A Divina Comédia", obra-prima da literatura italiana. Assim, todos tiveram que aprendê-la. Mas os emigrantes eram considerados "miserabili analfabeti".

.

Não era só a pobreza e o analfabetismo, mas também o problema da cultura. Os burgueses sempre ignoraram os humildes, que para não morrerem de fome, foram obrigados a fugir, a emigrar.

.

Em 1850, sobre 1.800 Comunas do Reino de Nápoles, 1.500 não tinham estradas. Em muitas regiões, não sabiam o que era o dinheiro; as trocas se faziam em natura, como no tempo de Cícero. "Il sostentamento di un bracciante costa meno di quello di un asino." O sustento de um trabalhador braçal custa menos do que o de um burro.

.

As terras pertenciam a quem não tinha amor ao campo; quem trabalhava os campos era um servo, o descendente dos escravos. Havia grandes propriedades burguesas, conseguidas pelos "notabili" através da usurpação e da aquisição de terras tiradas da Igreja. Nessas propriedades os colonos eram explorados; não tinham nenhum vínculo com a terra. Por isso, havia uma vontade terrível de terra, não somente de possuí-la, mas de sair do nada, de conquistar uma dignidade. Foi assim que acolheram com entusiasmo a Giuseppe Garibaldi, porque esperavam a distribuição das terras e se atiraram com fúria sobre as propriedades dos "galantuomini", latifundiários, mas foram barrados e espancados.

.

Entre 1860 e 1865 houve revoltas e massacres no Sul da Itália; muitos bispos foram expulsos ou presos. Aqui começa o período da longa emigração.

.

A Sicília, no final de 1798, era uma nação a parte. Lá ainda estava em voga o feudalismo. Dois terços da população vivia na miséria: não tinha direito a nada. Um terço era constituído dos "nobili", que tinham todas as terras em suas mãos. Eram 142 príncipes, 788 marqueses, 1500 entre duques e barões. Os habitantes eram os servos da gleba: nela trabalhavam gratuitamente. Fora do feudo não havia outras terras disponíveis. Se o colono quisesse viver, era obrigado a sofrer em silêncio. Para fugir dessa escravidão, só lhe restava a emigração. A viagem para a América será a sua liberdade.

.
Alguns repetiam: "Sarà quel che sarà. Peggio del presente non sarà. Tentiamo la sorte. E poiché abbiamo, presto o tardi, da morire, tanto vale di lasciare la nostra pelle in America come in Europa... Viva l`America! Morte ai signori!... Noi andiamo in Brasile. Ora toccherà ai padroni lavorare la terra."

.

Apesar dessas exclamações, o êxodo se desenvolve em clima pacífico. Geralmente, o padre da localidade os acompanha para assisti-los, porque o Governo nada faz para protegê-los. Às vezes, os emigrantes eram obrigados a esperar vários dias no porto a chegada do navio.

.

A travessia do Atlântico, em velhos navios, era dramática. Vejamos:
. No navio "Carlo Raggio" 34 emigrantes morreram de fome.
. No navio "Matteo Bruzzo" 18 passageiros morreram de fome.
. No navio "Frisca" 27 passageiros, amontoados de modo incrível, morreram asfixiados.
. No navio "Pará" 39 morreram de sarampo.

.

O Governo Italiano era anticlerical: matou padres, fechou seminários, confiscou seus bens. O povo, por ser religioso, preferiu ficar do lado da Igreja. Por isso, a pedido da mesma, ficou 50 anos sem acorrer às eleições. Assim, os emigrantes não receberam nenhuma ajuda do Estado.

.

No Brasil, os emigrantes se dirigiram para os Estados do Sul (Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul) e os Estados do Sudeste (São Paulo, Minas Gerais e Espírito Santo). Aqui fundaram pedaços da Itália: Nova Roma, Nova Vicenza, Nova Veneza, Nova Trento, Novo Treviso, Nova Pádua, Nova Údine, Vale Vêneto, etc. Mas onde se deram melhor foi nos Estados do Sul.

.

Grandes levas dirigiram-se também para a Argentina, Uruguai, Estados Unidos, Canadá, México, Austrália e principais países da Europa. Mas de chegada sofreram muito. No Paraná foram colocados no litoral (Antonina), onde tiveram que conviver com a malária e muito calor. Alguns morreram, outros, desenganados com o "Paese della Cucagna", voltaram para a Itália; os que ficaram subiram a Serra do Mar e se localizaram em Curitiba, no Bairro de Santa Felicidade, hoje o mais próspero e sofisticado Centro Gastronômico do País.

.

Graças à vontade férrea, a maioria venceu na vida e se tornou proprietário, alguns bem abastados. "Dove lo Stato era fallito, gli straccioni erano riusciti" (Manzotti). "Onde o Estado faliu, os maltrapilhos tiveram sucesso."

.

Alertada por Scalabrini, bispo de Piacenza, a Igreja viu a necessidade de proteger os emigrantes e dar-lhes assistência religiosa. O próprio Scalabrini fundou uma Ordem Eclesiástica para formar padres que atendessem a esses coitados, abandonados à própria sorte. Depois de formados, os enviou a todos os Países onde houvesse emigrantes. São chamados Padres Scalabrinianos, que ainda hoje os há pelo Brasil e pelas diversas partes do mundo.

.

Scalabrini tornou-se o bispo querido dos emigrantes: dedicou toda a sua vida na defesa deles. Na Itália, lutou durante 30 anos para que o Governo fizesse leis justas que os amparassem, leis que saíram somente em 1901.

.

O bispo de Piacenza quis verificar in loco a situação dos emigrantes nos diversos países. Foi aos Estados Unidos, onde foi recebido pelo Presidente Roosevelt. Em 1904 veio ao Brasil. Visitou São Paulo, percorreu algumas fazendas de café, onde trabalhavam os emigrantes em lugar dos escravos negros, que foram libertados pela "Lei Áurea". Inaugurou escolas, hospitais e orfanatos. Depois veio ao Paraná: visitou Santa Felicidade; achou bonita a igreja. De Curitiba, foi até Ponta Grossa, "l`ultimo confine della civiltà; il resto è tutto bosco; all`interno vivono gli indiani, nello stato selvaggio, discendenti della popolazione che i Gesuiti, nel 1700, avevano convertito."

.

Terminada a visita ao Paraná, vai a Santa Catarina e Rio Grande do Sul: aqui visita Encantado, Veranópolis, Garibaldi, Caxias do Sul, "la prima e la piú civile delle colonie italiane". Em toda parte, o bispo Scalabrini era sempre esperado com festa, muita alegria e muito carinho. Todas essas andanças eram feitas no lombo do cavalo e já doente.

.

De volta a Piacenza, faleceu como um santo, em 1905, quando o Papa Pio X cogitava em sagrá-lo Cardeal, e já era visto como o futuro Papa.

.

Em 1935, começou o processo de sua beatificação.

.

Os emigrantes italianos, com sua saída, permitiram o progresso da Itália, diminuindo a população e fazendo sobrar alimento para os que ficaram. Mas, os coitados, indiretamente expulsos da Pátria, e recomeçando sua vida no meio do mato e entre animais ferozes, e com falta de tudo, ainda enviavam tanto dinheiro aos parentes no "Paese" de origem, que o Ministro das Finanças da Itália considerou essas remessas um "ruscello d`oro", um filete de ouro. Porém, a Itália só ultimamente começou a se interessar por seus filhos "all`estero" (no estrangeiro), calculados em 20.000.000, a maioria vivendo no Brasil.

.

Esta é a triste história da emigração italiana, "una storia dimenticata", uma história esquecida do Governo Italiano. Os descendentes desses emigrantes devem dar muito valor à luta de seus antepassados.

.


Traduzido e resumido por Rafael Baldissera do livro "STORIA DIMENTICATA'' do escritor italiano Deliso Villa, que pode ser encontrado em:
SAGRA - DC LUZZATO
Rua João Alfredo, 448
Cidade Baixa
90050-230
Porto Alegre-RS

.

http://br.geocities.com/genealogiabaldissera/aemigracaoitaliana.htm

.
.

quarta-feira, 23 de abril de 2008

O Brasil na vida e na obra de Ferreira de Castro

.

.

* Maria Saraiva de Jesus
.
Poucos autores como José Maria Ferreira de Castro possuem uma obra tão inextricavelmente ligada à sua vida..

.

A sua experiência de vida na Amazónia, dos 12 aos 16 anos, é apro­veitada para as intrigas de Criminoso por Ambição (1916), Carne Faminta (1922), «O Escravo Redimido» (texto integrado no volume de novelas Sendas de Lirismo e de Amor - 1925), A Selva (1930) e Instinto Supremo (1968). A observação da vida de outros emigrantes serviu-lhe para a escrita de Emigrantes (1928), tendo localizado no estado de São Paulo uma intriga que certamente seria também verosímil em outros estados do Brasil.

.
Das três primeiras obras citadas pouco se sabe, pois o autor não permitiu a sua reedição, considerando-as apenas experiências de juventude.
.
Criminoso por Ambição, redigida no seringai Paraíso, quando o autor tinha 14 anos, é, no entanto, estudada por José Tavares 1, que dela transcreve extensos parágrafos. De Ossela, freguesia onde nasceu Ferreira de Castro, parte o herói, pobre e digno, para o Brasil, a fim de ganhar fortuna que o possa aproximar da sua amada, menina rica que lhe corresponde na paixão, mas que é também pretendida por um homem rico e de mau carácter. Após algumas aventuras, Simão vai trabalhar para um seringal, nas margens do rio Purus, no alto Amazonas, mas não alcança por esse meio a fortuna pretendida. E com um bilhete da lotaria que enriquece, deixando a seguir o Pará para ir casar com a sua amada a Ossela. Nesta ingénua narrativa de acção, o cenário brasileiro do Amazonas e do Pará está apenas brevemente marcado, como o está em Carne Faminta e em «O Escravo Redimido».
.
Estas duas novelas são analisadas por Alexandre Cabral como ante­cedentes d'A Selva 2, pois também se passam em seringais amazónicos, apresentando algumas coincidências de enredo que serão mais desenvolvidas n'A Selva. Carne Faminta trata de um incesto entre mãe e filho, num espaço social em que não há outras mulheres. Também A Selva sublinha a frustração sexual dos seringueiros e demais empregados, num cenário em que as mulheres escasseiam e as poucas existentes são guardadas pelos maridos, que não hesitariam em matar a hipotética adúltera e o seu amante. Em «O Escravo Redimido», tal como n'A Selva, aparece o ex-escravo Tiago, em ambas as obras também conhecido pela alcunha «Estica», por coxear de uma perna, e em ambas este negro incendeia o barracão, causando a morte do dono do seringai. Nas duas obras o negro Tiago solidariza-se, no episódio do incêndio, com os seringueiros, vítimas do sistema esclavagista posto em prática pelo patrão. Em «O Escravo Redimido» os actos esclavagistas são provocados pela revolta dos seringueiros, causada pelo aumento dos preços dos géneros alimentícios, num contexto de desvalorização da borracha, e Tiago recebe claramente a soli­dariedade do autor, o que, aliás, é evidente no título da novela. N'A Selva, o acto de Tiago é directamente provocado pelo facto de o patrão ter mandado prender a um tronco cinco fugitivos com débito e de os ter mandado chicotear até provocar sangue com um peixe-boi. Alberto imagina-se num tribunal, como advogado de acusação de Tiago, e a atitude de solidariedade do autor fica, assim, mais diluída.
.
O facto de o autor apenas aflorar a sua experiência amazonense nestas obras de juventude deveu-se ao misto de medo e fascínio com que o autor considera as suas reminiscências daquele «inferno verde», nas palavras sugestivas de Olavo Bilac. O autor confessa-o na introdução que escreveu para a edição comemorativa d'A Selva, de 1955:
.
Foi também por isso, talvez, que durante muitos anos tive medo de revivê-la literariamente. Medo de reabrir, com a pena, as minhas feridas, como os homens lá avivavam, com pequenos machados, no mistério da grande floresta, as chagas das seringueiras. [...] .
.

Esse velho terror dominou-me sempre que tentei aproximar-me da selva nos meus primeiros livros; e das poucas vezes que o fiz, para eles colhi apenas alguns ramos marginais, nunca indo além do passeante distraído que estende o braço e, sem parar, arranca a folha do arbusto erguido à beira do seu caminho 3.
.
É A Selva a obra que mais coincidências oferece com a vida do autor, apesar dos elementos fictícios. Tal como Alberto, Ferreira de Castro também emigra para Belém, capital do Pará, recomendado a um conterrâneo, que logo se descarta da responsabilidade de o sustentar, enviando-o para o seringai Paraíso, numa das margens do rio Madeira, no alto Amazonas. Mas enquanto Ferreira de Castro emigra com apenas 12 anos, após a conclusão do ensino primário, Alberto é um jovem estudante do 4.º ano de Direito e tem 26 anos, quando se vê forçado a ir para Espanha e daí para o Brasil, para fugir à perseguição de que são alvo os monárquicos, após a derrota de Monsanto. No caso de Alberto, é um tio que o recebe em Belém do Pará e que o convence a ir para o seringai Paraíso. Tanto Ferreira de Castro como Alberto para lá se dirigem na terceira classe do barco «Justo Chermont»; Ferreira de Castro regressa a Belém do Pará no «Sapucaia» e para Alberto também se anuncia o retorno a Belém no mesmo barco. Ferreira de Castro regressa com 16 anos, tendo passado quatro no seringai, primeiro como seringueiro e depois como empregado no armazém aviador do seringai. Alberto também começa a trabalhar como seringueiro, passando para o armazém e o escritório, devido às circunstâncias de não produzir muito na colecta da borracha, de ter habi­litações superiores às de todas as outras personagens e também pelo facto de Binda, o antigo empregado do armazém, ser necessário para a fiscalização do seringai. Alberto e Ferreira de Castro têm várias outras tarefas, entre elas a de limparem e conservarem aceso o farol que indicava à navegação a localização do seringai. Mas, quando se consegue libertar, após alguns meses, Alberto planeia a partida imediata de Belém para Portugal, e Ferreira de Castro passa ainda cinco anos em Belém, totalmente abandonado pelo conterrâneo que se incumbira da sua protecção. Foram anos em que passou da extrema miséria, em grandes períodos de desemprego ou ocupando-se de actividades mal remuneradas, à relativa consideração que as suas actividades jornalísticas e a publicação em folhetins do seu primeiro romance, Criminoso por Ambição, lhe granjearam. Assim, em 1918 visita Manaus, convidado por uma associação de poveiros, e em 1919 faz uma viagem ao Sul do país, visitando o Rio de Janeiro, São Paulo e outras cidades.

.
Foi provavelmente nessa viagem que obteve os vastos conhecimentos sobre a paisagem e as relações de trabalho que se verificavam no estado de São Paulo, de que dá mostras no romance Emigrantes.

.
Tanto Emigrantes como A Selva possuem personagens individualizadas, no percurso das quais se centra a acção. No primeiro caso trata-se de Manuel da Bouça, pobre camponês analfabeto que emigra para o Brasil em busca de melhor sorte, com a esperança de ganhar um dote para a filha e de poder comprar as terras circunvizinhas às suas courelas, onde pensa construir uma casa nova. No segundo caso, é Alberto que centraliza os eventos narrados.

.
Tanto Manuel da Bouça como Alberto regressam a Portugal tão pobres como tinham partido.

.
Manuel da Bouça, após nove anos de dura labuta no interior e na cidade de São Paulo, vem mesmo muito mais pobre, porque entretanto perdera as suas courelas, hipotecadas para pagar os gastos da viagem de ida, e porque lhe morrera a mulher. O trabalho no Brasil não permite a nenhum deles sequer pagar a viagem de regresso. Manuel da Bouça só pudera comprar a passagem devido ao facto de, durante a confusão originada por uma revolução, ter roubado os anéis, a corrente e um relógio a um morto. Alberto só logra libertar-se da situação de quase escravidão que vivera no seringai Paraíso por a sua mãe se ter sacrificado para lhe enviar o dinheiro da viagem, depois de saber que os monárquicos tinham sido amnistiados em Portugal.
.
N'A Selva assume maior importância a experiência de vida no Brasil. Por isto o romance inicia-se em Belém do Pará, desenvolve a descrição da viagem de vários dias no «Justo Chermont» e centra os episódios mais importantes na descrição da floresta amazónica e na vida vivida no seringai. Uma primeira macro-sequência passa-se em Belém, no barco e na chegada ao seringai, consistindo nos primeiros quatro capítulos. A macro-sequência que narra a vida na selva está estruturada em três sequências menores. Do capítulo V ao VIII, descreve-se a selva e o trabalho dos seringueiros. Do capítulo IX ao XIV, apresentam-se as relações sociais de Alberto com as personagens que vivem mais próximas do patrão e narra-se a fuga de cinco seringueiros, com c auxílio de Alberto. No capítulo XV prepara-se a partida de Alberto, com a recepção da personagem que o vem substituir, narra-se a chegada dos cinco seringueiros capturados, o castigo que lhes é aplicado e o incêndio do barracão.
.
Emigrantes compõe-se de um percurso transatlântico que se organiza em três macro-sequências: Portugal - Brasil - Portugal. A primeira parte, introdutória, localiza-se do primeiro ao capítulo IX e apresenta as experiências na aldeia e na vila, aonde Manuel da Bouça vai tratar da documentação, os vários passos que dá em Lisboa, a viagem na terceira classe do navio «Darro» e os primeiros contactos com a paisagem brasileira, quando da entrada na baía da Guanabara e do passeio por algumas ruas do Rio de Janeiro. A parte referente à vida no Brasil, mais extensa, pode subdividir-se em três sequências menores. Na primeira ( do capítulo X até ao XI) desenvolve-se a consciencialização da dificuldade de encontrar trabalho em Santos e a contratação de Manuel da Bouça para ir trabalhar num cafezal do interior de São Paulo. A segunda sequência ( do capítulo XII ao XV) centra na fazenda Santa Efigénia as várias experiências das personagens, migrantes brasileiros e estrangeiros. A terceira sequência (desde o início da «Segunda Parte» até ao capítulo V) localiza na capital uma nova experiência de trabalho de Manuel da Bouça. Carregador num armazém, Manuel da Bouça encontra nesta tentativa o mesmo insucesso. Contacta com outro emigrante que vem na mesma ilusão de enri­quecimento e com outras personagens pobres, tendo algumas delas esperanças de construírem uma sociedade melhor, com uma revolução contra o governo. Manuel da Bouça, na sua alienação, pouco compreende e pouco participa na revolução. Embarcando em Santos, regressa a Portugal. A terceira macro-sequência (entre o capítulo VI da segunda parte e o capítulo VIII), cuja acção se localiza em Portugal, mostra na personagem a consciência de que já não tem lugar na sua aldeia. Envergonhado do seu fracasso, Manuel da Bouça mente, dando a impressão de que tivera sucesso, e vai para Lisboa esconder a pobreza, destinado «a uma outra vida que era ainda, para ele, um enigma» 4 . Na aldeia, num contraste irónico com as expectativas da partida, descobre que quem fizera um palacete na terra que pretendia comprar fora o Nunes, que lhe tinha tratado do passaporte e da passagem, agora enriquecido com a emigração de outros camponeses iludidos. Este facto não causa surpresas ao leitor, pois na primeira macro-sequência já o narrador omnisciente tinha revelado as mentiras da propaganda que o Nunes faz imprimir num jornal.
.
Apesar de Emigrantes e A Selva possuírem protagonistas individualizados, torna-se evidente que ambos representam outras personagens, iden­tificadas nos títulos.
.
Por detrás de Alberto, está a grande personagem da obra: a própria selva, da qual faz parte o grupo humano que nela vive, tentando domesticá-la para a extracção das suas riquezas. Em numerosos trechos, a selva encontra-se animizada, dotada de um poder de agressão comparado ao das suas feras, e mesmo antropomorfizada, como uma força oculta que combate o avanço dos seringueiros:
.
Era um mundo à parte, terra embrionária, geradora de assombros e tirânica, tirânica! [...] Ali não existia mesmo a árvore. Existia o emaranhado vegetal, louco, desorientado, voraz, com alma e garras de fera esfomeada. Estava de sentinela, silencioso, encapotado, a vedar-lhe todos os passos, a fechar-lhe todos os caminhos, a subjugá-lo no cativeiro. Era a grande muralha verde e era a guarda avançada dos arbustos que vinham crescer em redor da cacimba e, degolados pelo terçado de Firmino, brotavam de novo, numa teima absurda e alucinante. A selva não aceitava nenhuma clareira que lhe abrissem e só descansaria quando a fechasse novamente, transformando a barraca em tapera, dali a dez, a vinte, a cinquenta, não importava a quantos anos - mas um dia! [...] A ameaça andava no ar que se respirava, na terra que se pisava, na água que se bebia, porque ali somente a selva tinha vontade e imperava despoticamente. Os homens eram títeres manejados por aquela força oculta, que eles julgavam, ilusoriamente, ter vencido com a sua actividade, o seu sacrifício e a sua ambição [p. 158].
.
A Selva é, nitidamente, um romance de espaço, na clássica classificação de Wolfgang Kayser 5. É, sobretudo, um espaço geográfico e telúrico, em que se vem inscrever o espaço social. A função de Alberto, personagem com maior capacidade de reflexão, é a de orientar a focalização do mundo narrado, vendo os seres e as situações com olhos críticos, veiculando assim a visão do mundo do autor textual. Reagindo face aos mistérios e à exuberância da selva, Alberto está preparado para se dar conta do drama da luta insana dos cearenses maranhenses e pernambucanos que dela tentam arrancar meios para a sobrevivência, num sistema de trabalho que os acorrenta ao dono do seringai, numa dívida constante que os escraviza. Trata-se, também aqui, de migrações internas e externas, que vêm fazer incidir a luz sobre o drama do homem transplantado do seu meio, na luta pela vida.
.
Mas é em Emigrantes que a temática da emigração mais tipicamente se revela. Trata-se de um romance de espaço social. Manuel da Bouça é um tipo social que representa todos os emigrantes, como se torna evidente no plural do título. A divisão em três cenários (Portugal - Brasil - Portugal) vem representar o percurso do emigrante português que foi típico no século XIX e na primeira metade do século XX.
.
Joel Serrão comenta um quadro de João Evangelista que revela o destino dos emigrantes portugueses no continente americano. Entre 1880 e 1960, o Brasil recebeu 75,7 % da emigração portuguesa 6. Noutro quadro de João Evangelista apresenta-se o número de repatriados em estado de indigência. Entre 1919 e 1930, do Brasil regressam 9 596 indigentes, num total de 10 496 distribuídos pelo Brasil, os Estados Unidos da América, a França, a Espanha e diversos 7.

.
Apesar desses dados, o Brasil representava então o Eldorado, paraíso de todas as opulências. A América do Norte também já começava a mitificar-se, através da propaganda dos engajadores, como se torna evidente na primeira macro-sequência da obra e na queixa final de Manuel da Bouça, ao pensar que, se tivesse ido para a América, talvez tivesse enriquecido.
.
Mas não apenas em Portugal se difundia o mito do Brasil-Eldorado. De toda a Europa saíam pobres camponeses em busca das milagrosas riquezas do Brasil. As descrições do grupo humano da terceira classe dos navios e também no Brasil mostra italianos, espanhóis, polacos, romenos, russos, sérvios, croatas e eslovenos, etc. - personagens que embarcam no limiar da miséria, esperando ascender, pelo valor do seu trabalho, a um nível de vida verdadeiramente humano, e que afinal vão encontrar a mesma miséria no Brasil. São descritos por um narrador enternecido, em imagens colectivas que consideram globalmente o grupo humano: são «o rebanho» [pp. 88, 136, 141, 153, etc], «dóceis animais» [p. 87], «o grupo» [p. 135], «o feixe humano» [p. 135], «a sinistra manada» [p. 137], «o magote de homens» [p. 154]. A terceira classe em que viajam é o «curral humano» [p. 253].
.
São Paulo, interessado em fazer produzir a lavoura no interior, organizava a recepção a estes emigrantes, oferecendo-lhes durante seis dias comida e estadia numa hospedaria, aonde iam ter os engajadores que lhes ofereciam trabalho nas fazendas. Alguns iam a expensas do governo estadual, com a promessa de ganharem grandes lotes de terra para cultivo. Depois, na Hospedaria dos Imigrantes, viam que as promessas se reduziam a um trabalho rude e mal pago por algum coronel proprietário que com eles queria enriquecer depressa. O dono da fazenda vendia-lhes a crédito ferramentas e géneros alimentícios, pelo dobro do seu valor. Daí que, com o seu pequeno salário, não conseguissem saldar a dívida e muito menos economizar dinheiro para a ascensão tão desejada.

.
Também A Selva apresenta uma relação de trabalho semelhante, com a agravante de os produtos serem vendidos aos migrantes pelo triplo e até pelo quádruplo do seu valor, num contexto de desvalorização progressiva da borracha. Os seringueiros estavam quase sempre em débito, pelo que dificilmente conseguiam saldar a dívida e regressar ao seu estado. Quando algum tentava fugir, tinha atrás de si a polícia e era geralmente levado para o seringai, onde recebia duro castigo.
.
Referem-se ainda imigrantes japoneses, vistos no «Justo Chermont», para o cultivo de mandioca, cana e milho, nos seringais pouco produtivos. No contexto da crise mundial dos anos 20 e 30, no Brasil a única saída para a imigração era então a agricultura, tendo passado o tempo em que, no comércio das cidades, havia lugar para os portugueses que se estabeleciam e que em alguns casos faziam sócios os seus caixeiros, como aparece na literatura do século XIX, em especial na obra de Camilo Castelo Branco. Tanto Alberto como Manuel da Bouça, nas cidades em que aportam, são esclarecidos sobre a falsidade dessa ilusão. A ficção certamente contribuiu para se difundir o mito do Brasil-Eldorado, mas já no século XIX Gomes de Amorim representa, no romance Aleijões Sociais (1870), a consciência das mentiras dos engajadores e o sistema de exploração a que eram sujeitos os imigrantes no Brasil.
.
Para além das obras referidas, Ferreira de Castro publica em 1968 a sua última obra, cuja acção é passada em cenário brasileiro. Trata-se de Instinto Supremo, novela que narra a missão de pacificação dos índios parintintins, na selva amazónica, por um grupo de discípulos do general Cândido Rondon. O famoso lema de Rondon orienta a acção dos homens enviados pelo Serviço de Protecção aos índios e transmite-se aos trabalhadores por eles recrutados: «Morrer se necessário for; matar, nunca!» 8 . O etnólogo Curt Nimuendajú, um alemão naturalizado brasileiro, é a personagem que assume maior relevância, servindo de porta-voz do autor, na defesa da civilização a que querem levar os índios:
.
Não há dúvida que a civilização está cheia de contradições. Está. [...] Mas só quem for cego pode admitir que a vida primitiva e a ignorância trazem a felicidade aos homens, como pensam alguns. Há muitas pequenas e grandes satisfações que somente os espíritos instruídos podem ter. E elas compensam largamente as nossas responsabilidades e mesmo alguns novos sofrimentos que a nossa evolução nos tenha dado e nos dê [p. 983].
.
A evolução da acção é linear. Uma primeira macro-sequência pode ser identificada até ao capítulo VI, com a derrubada da mata para o acampamento, a chegada de Nimuendajú, o recrutamento da turma expedicionária e a ida para a floresta. No capítulo VII ergue-se o acampamento e, no terceiro dia, realiza-se o primeiro contacto, hostil, com os índios. Vários episódios de con­fronto e tentativas de pacificação preenchem esta segunda macro-sequência. Finalmente, o capítulo XII pode consistir numa última macro-sequência, pois nele dá-se a pacificação dos índios. Com a actuação de um intérprete, a comunicação entre civilizados e selvagens torna-se mais eficaz. A novela conclui-se com um telegrama em que se dá a notícia das pazes feitas e pede-se roupas e um professor primário. A obra baseia-se em factos históricos, acontecidos em 1922, indicando o autor a bibliografia em que se baseou. Mas, para Jacinto do Prado Coelho, «O Instinto Supremo é muito menos uma novela histórica que uma epopeia: se o episódio narrado tem raízes na história recente do Brasil, amplifica-se no espírito do leitor pelo seu vasto significado, como expressão da luta vitoriosa do Homem contra a Natureza - essa luta que dá um sentido à vida e um motivo para o Homem se orgulhar da sua dignidade» 9.

.
Nas três obras da fase de maturidade cuja acção se passa no Brasil, estão bem representadas as características da realidade brasileira. Os diálogos utilizam um léxico e uma organização sintáctica típicos do português do Brasil, estando nalguns casos marcada a pronúncia das classes populares. Sobretudo A Selva, mas também O Instinto Supremo, apresentam um riquíssimo conjunto de informações sobre a fauna e a flora da região amazónica. Podemos, portanto, reafirmar o grande enriquecimento que ofereceu a Ferreira de Castro a sua experiência de vida no Brasil, apesar de todos os obstáculos que teve de enfrentar.

__________
Folhas, Letras & Outros Ofícios, Ano II, N.º 3 . Aveiro: Grupo Poético de Aveiro (Junho, 1998), 30-37.

_____________
1 - JOSÉ TAVARES, Homenagem de Oliveira de Azeméis a Ferreira de Castro, separata do Arquivo do Distrito de Aveiro, Aveiro, 1970.
2 - ALEXANDRE CABRAL, «Antecedentes de "A Selva"» in Livro do Cinquentenário da Vida Literária de Ferreira de Castro: 1916-1966, Lisboa, Portugália Editora, 1967, pp. 43-56.
3 - FERREIRA DE CASTRO, A Selva, Lisboa, Guimarães & Ca, [s.d.], pp. 19-20. Daqui para diante, as páginas desta obra serão indicadas no corpo de trabalho.
4 - FERREIRA DE CASTRO, Emigrantes, Lisboa, Guimarães & Ca, [s.d.], p. 290. Daqui para diante, as páginas desta obra serão indicadas no corpo de trabalho.
5 - Cf. WOLFGANG KAYSER, Análise e Interpretação da Obra Literária (Introdução à Ciência da Literatura), 6a ed. revista pela 16.ª alemã por Paulo Quintela, Coimbra, Arménio Amado, Editor, Sucessor, 1976, pp. 399-406.
6 - Cf. JOEL SERRÃO, A Emigração Portuguesa: Sondagem Histórica, 4.ª edição, Lisboa, Livros Horizonte, 1982, p. 46.
7 - Cf. Idem, ibidem, p. 38.
8 - FERREIRA DE CASTRO, Obras de Ferreira de Castro, 3.ª ed., vol. Ill, Porto, Lello & Irmão - Editores, 1979, 4 vols., p. 959. Outra página desta obra será indicada no corpo do trabalho.
9 - JACINTO DO PRADO COELHO, «"O Instinto Supremo": quando a ética se torna humanitária», in In Memoriam de Ferreira de Castro, intr. e estruturação de Adelino Vieira Neves, [Cascais], Arquivo Bio-Bibliográfico dos Escritores e Homens de Letras de Portugal, 1976, pp.47-49 (p. 49).
.
Gravura - A Selva: romance / Ferreira de Castro; [capa de Bernardo Marques]. - [1.ª ed.]. - Porto: Civilização, 1930. - 333 p.; 19 cm. - Broch.
.
.
.

sábado, 19 de abril de 2008

Ferreira de Castro - Emigrantes (excerto)

.

.
clicar nas imagens para ler
.
Extracto da obra Emigrantes
.
Ferreira de Castro - Obras Completas volume I - RBA Lisboa 2005
.
.
.
.