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segunda-feira, 21 de março de 2016

Alice no país das maravilhas matemáticas




Alice no país das maravilhas matemáticas

No 150º aniversário da primeira edição em inglês de Alice no País das Maravilhas – e no 75º da sua estreia em português (do Brasil), nada como uma volta às “maravilhas” matemáticas escondidas no celebérrimo livro de Lewis Carroll.

Apesar de muitos terem dado os parabéns à Alice e às suas loucas aventuras em 2015, quase se poderia dizer que foram parabéns de não-aniversário, como diria o próprio Lewis Carroll (1832-1898), autor do celebérrimo livro Alice no País das Maravilhas.
É que, olhando melhor, a data que aparece na primeira edição oficial do livro no Reino Unido – bem como nos EUA – é… 1866. Ou seja, The Adventures of Alice in Wonderland faz este ano 150 anos.
A razão para só agora felicitarmos é, por isso, totalmente legítima. Mas, como as coisas não podiam ser assim tão simples, é verdade que há uma primeiríssima edição de Alice, de 2000 exemplares – essa sim, datada de 1865 –, mas ela foi, segundo relata o norte-americano Gordon Norton Ray (1915-1986), especialista da época vitoriana e coleccionador de livros, rapidamente retirada do mercado porque a qualidade da impressão não era do agrado de John Tenniel, ilustrador da obra. Mas há mais complicações: apesar de a primeira edição oficial ter sido publicada em Novembro de 1865, o ano que surge na capa daquela edição é de facto 1866, como se de um absurdo erro de lógica ao estilo de Lewis Carroll se tratasse. Quinze anos mais tarde, em 1871, Lewis Carroll publicaria a sequela, Alice do Outro Lado do Espelho.
Seja como for, em 1931 – há 75 anos, portanto – também era publicada a primeira tradução de Alice no País das Maravilhas em português, pela mão do escritor brasileiro Monteiro Lobato (o mesmo do Sítio do pica-pau amarelo). Temos assim não um, mas dois números redondinhos para desejar muitos anos de vida à pequena-grande heroína destas estrambólicas aventuras.
O livro tornou-se um best-seller quase instantâneo entre miúdos e graúdos e desde então já foi traduzido para 180 línguas e adaptado para o cinema, em particular por Walt Disney e Tim Burton.
A personagem central de Alice no País das Maravilhas é inspirada numa menina chamada Alice a quem, reza a história, Charles Dodgson, matemático e diácono britânico, contara pela primeira vez, de improviso, as aventuras da sua homónima imaginária durante um passeio de barco no Tamisa em 1862. Todavia, naquela primeira versão do relato faltavam episódios fundamentais – tais como o lanche com o Chapeleiro Louco ou o sorriso do Gato de Cheshire a flutuar no ar. Dodgson demoraria três anos a aperfeiçoá-lo e publicaria a versão final sob o pseudónimo de Lewis Carroll.
Absurdo universal

Por que é que as aventuras de Alice continuam a ser tão fascinantes ao fim de 150 anos? Parece óbvio que o lado absurdo das situações em que a menina cheia de curiosidade se vê envolvida não é alheio à atracção que estes textos exercem sobre os leitores – mesmo quando estes não percebem totalmente do que se trata.

“Não há quase nenhum enigma ou problema fascinante para o intelecto humano que não [surja] nestes livros num clima de louca alegria e de difícil compreensão”, escrevia há uns meses o ensaísta norte-americano Adam Gopnik na revista New Yorker.
E a seguir, exemplificava: “Quando Ted Cruz [candidato às primárias do Partido Republicano para as presidenciais deste ano nos EUA] explicou recentemente (…) que não pode existir um consenso científico sobre o aquecimento global porque os cientistas são supostamente críticos – sendo portanto que o que é consensual não pode ser científico –, estava a produzir uma absurdidade aparentemente lógica” digna do próprio Humpty Dumpty.
As aventuras de Alice no país das maravilhas já foram interpretadas à luz da linguística, do mundo da infância, da psicanálise, da lógica, da política, da sociologia. E, a partir dos anos 1960, o norte-americano Martin Gardner, divulgador da ciência conhecido pela sua célebre coluna Mathematical Games na revista Scientific American, foi o primeiro a descodificar, ao longo de várias edições do seu igualmente célebre The Annotated Alice, muitos dos enigmas matemáticos e jogos de palavras contidos nos livros de Alice.  
Todavia, o papel da matemática – e em particular da álgebra – nestes livros foi relativamente descurado até recentemente. Diga-se que, quando Lewis Carroll publicou o seu primeiro Alice, era professor de matemática na Universidade de Oxford há uns dez anos. Ora, precisamente nesse local e nessa época, a álgebra moderna – uma álgebra mais abstracta, contra-intuitiva – estava a nascer. E o diácono Dodgson era um religioso e um matemático muito conservador.
Subtexto crítico

Haveria assim, nos livros de Alice, um subtexto de crítica ao que estava a acontecer na sua área de estudo e ensino por parte do seu autor?

Foi em 1984 que Helena Pycior, matemática e historiadora da Universidade do Wisconsin (EUA), emitiu essa hipótese. Num artigo publicado na revista Victorian Studies, esta cientista argumentava que “os livros de Alice encarnam as apreensões de Dodgson, o matemático, acerca da chamada álgebra simbólica, o principal contributo britânico para a matemática da primeira metade do século XIX”.
Vinte anos depois, Melanie Bayley, da Universidade de Oxford, estava a fazer um doutoramento em literatura da época vitoriana quando quis perceber o que teria levado Lewis Carroll a enriquecer de tal maneira a versão inicial de Alice, ao ponto de lhe duplicar o número de páginas.
Houve um artigo que interessou esta investigadora mais do que os outros: o texto que Helena Pycior publicara em 1984. “O século XIX foi um período turbulento para a matemática”, escreveu Melanie Bayley em 2009 na revista New Scientist, “com muitos novos conceitos controversos tais como os números imaginários [um sistema numérico onde os números negativos têm uma raiz quadrada] a serem cada vez mais aceites pela comunidade dos matemáticos”.
E dá mais um passo: “Ao colocarmos Alice no País das Maravilhasneste contexto, torna-se claro que Dodgson, um matemático teimosamente conservador, terá usado algumas das cenas acrescentadas para fazer uma sátira dessas novas ideias radicais.”
Melanie Bayley faz notar que Lewis Carroll era um ferrenho defensor do rigor do raciocínio patente n’Os Elementos de Euclides, o matemático da antiguidade grega que nos deu as bases da geometria e da trigonometria. A partir de “verdades irrecusáveis” (axiomas), a geometria euclidiana enuncia e demonstra, com passos lógicos simples, teoremas complexos.
Para Lewis Carroll, diz Melanie Bayley, a nova matemática abstracta era absurda. E, para a criticar, argumenta, recorreu, no Alice, à técnica euclidiana dita de “redução ao absurdo”. Como? Levando as premissas dessa nova matemática até às suas últimas consequências lógicas, “com resultados malucos”, explica Melanie Bayley. “O resultado é Alice no País das Maravilhas, conclui.
O lanche dos quaterniões

Claro que a tese de Melanie Bayley é apenas uma teoria. Mas a explicação de alguns dos episódios do livro à luz desta interpretação das intenções de Lewis Carroll revela-se bastante convincente.

Um dos exemplos que a cientista analisa por este prisma é o muito conhecido episódio do lanche do Chapeleiro Maluco e da Lebre de Março.
Segundo Bayley, o que está a ser posto em causa nesta cena são uns estranhos números de quatro componentes (quatro dimensões) chamados “quaterniões”. Inventados em 1843 pelo matemático britânico William Hamilton, seguem regras complicadas de multiplicação. Em particular, esta operação não é comutativa neste sistema numérico: a ordem dos factores altera o resultado.
Apesar de parecerem totalmente abstrusos, os quaterniões têm aplicações práticas. “Recentemente, têm sido reconhecidos como uma das maneiras mais eficazes de comunicar informação sobre rotações a um computador”, lê-se por exemplo no site do Departamento de Matemática da Universidade Brown, nos EUA. Mas já na época de Carroll a importância dos quaterniões tinha sido reconhecida, na medida em que permitiam calcular rotações de forma puramente algébrica (o que significa, justamente, que hoje estes cálculos estão ao alcance de um programa de computador).
Todavia, salienta Melanie Bayley, Hamilton tinha passado anos a trabalhar com números com apenas três termos (uma para cada dimensão do espaço), mas só conseguia fazê-los efectuar rotações num plano e não no espaço tridimensional. E foi ao acrescentar uma quarta dimensão aos quaterniões que conseguiu o resultado pretendido. Só que, como Hamilton não percebia bem o que era essa quarta dimensão, achou natural supor que representava o tempo.
O que fez o céptico Lewis Carroll aos pobres dos quaterniões? Transformou os seus três primeiros termos respectivamente num Chapeleiro Maluco, numa lebre (de Março) igualmente louca e num arganaz (uma espécie de rato) cheio de sono, todos sentados bem juntinhos num dos cantos de uma grande mesa cheia de loiça para lanchar.
Onde está o Tempo? Alice é informada que o Tempo não veio à festa porque ele e o chapeleiro se zangaram um com o outro no mês de Março – e que, ainda por cima, para se vingar, o Tempo não deixa, desde então, a hora avançar para além das seis da tarde.
“Lendo esta cena com a matemática de Hamilton em mente”, escreve Melanie Bayley, “(…) esses três personagens não conseguem levantar-se da mesa, sendo obrigados a deslocarem-se constantemente à sua volta [ou seja, no plano da mesa] à procura de chávenas e pires limpos”. E infelizmente, como Alice não consegue substituir o Tempo, a sua presença só contribui para aumentar a confusão.
“Atrever-me-ia a dizer que, sem a feroz sátira de Dodgson dirigida aos seus colegas, Alice no País das Maravilhas nunca se teria tornado famoso e Lewis Carroll não seria recordado como o mestre sem rival da ficção do absurdo”, conclui a cientista.
https://www.publico.pt/ciencia/noticia/alice-no-pais-das-maravilhas-matematicas-1726556?page=-1

Texto do livro em 
http://www.ebooksbrasil.org/adobeebook/alicep.pdf

domingo, 28 de fevereiro de 2016

Traduzindo Jabberwocky, de Lewis Carroll

26 de fevereiro de 2016 - 15h37 

A tradução de Jabberwocky*, de Lewis Carroll, foi uma aventura de interpretação meio surrealista e absolutamente pessoal de uma das obras primas do nonsense literário.

Por Flávio Aguiar**, no Blog da Boitempo


 Adaptação do poema Jabberwocky, de Lewis Carroll, feita pelo artista gráfico Eran Cantrell para a antologia Cânone Gráfico: clássicos da literatura universal em quadrinhos, da Boitempo

Divulgação / Boitempo

Adaptação do poema Jabberwocky, de Lewis Carroll, feita pelo artista gráfico Eran Cantrell para a antologia Cânone Gráfico: clássicos da literatura universal em quadrinhos, da BoitempoAdaptação do poema Jabberwocky, de Lewis Carroll, feita pelo artista gráfico Eran Cantrell para a antologia Cânone Gráfico: clássicos da literatura universal em quadrinhos, da Boitempo Lembrei-me de uma frase do professor canadense Northrop Frye, de quem tive a honra e o prazer de ser aluno, no Victoria College, em Toronto, nos anos 80 do século passado. Ele dizia que um professor atinge sua máxima potência quando pode realizar o que chamava de “improvisação erudita”, isto é, pode improvisar na sala de aula a partir, por exemplo, de uma pergunta que introduz um tema não previsto, com a mobilização de seus conhecimentos acumulados ao longo dos anos. Neste contexto improvisação não tem nada de negativo, pelo contrário: é como no jazz, toma-se um motivo e sai-se por pautas e acordes nunca dantes navegados. É claro que isto envolve conhecimento, estudo, análise e interpretação do original e seu contexto, de sua fortuna crítica, tudo feito com bastante cuidado e atenção. Mas depois é necessário entregar-se a um fluxo de consciência, talvez até junto de alguma semiconsciência, para captar e reconstruir aquela energia poética na própria língua do tradutor. Tem que haver uma combinação de cálculo e espontaneidade. O professor Frye também costumava dizer que os poetas maduros não criam poemas; são estes que, estando latentes na linguagem, encontram os seus poetas…

Dou como exemplo minha escolha para a tradução de “vorpal sword”: usei a palavra “espada” e rebatizei-a como “Tizonum”, que deve-se pronunciar “Tizonúm”. Fui buscar ajuda no vizinho – no caso, no espanhol – me valendo de uma variação para a espada chamada de “Tizona” que, com a “Colada” eram as armas preferidas de El Cid, o Campeador. Chamei a arma de Tizonum num lance de dicção, porque me pareceu que seu ritmo se aproximava do “vorpal sword” do original, com acento e ao mesmo tempo fechamento na última sílaba da expressão. A busca também me foi inspirada pela solução do desenhista, já que a espada que ele concebeu é algo parecida com a “Tizona” do Cid, com o formato de T invertido no punho. Isto ilustra que o tradutor, no caso, de uma versão em quadrinhos de um determinado poema, pode, sim, se inspirar nas soluções do desenhista.





Já a ideia de traduzir o monstro que dá título ao poema me veio de repente, “Jabberwocky” por “Dragodonte”, que mistura “dragão” com “pteranodonte”, por exemplo, ou algo assim. Mas a solução me pareceu pertinente, porque o pteranodonte era um pássaro, e na nossa imaginação dragões costumam ter asas, mesmo que pequenas.

Uma das interpretações do poema de Lewis Carroll afirma que ele é, entre outras coisas, uma paródia do poema épico Beowulf, cuja versão escrita que temos é em anglo-saxão arcaico e data do século 11, embora provavelmente ele tenha sido criado antes. Lewis (cujo nome original era Charles Lutwidge Dodgson) começou a escrevê-lo em 1855, quando tinha 23 anos, para publicação num jornalzinho de divertimento familiar. Carroll apresentou a sua primeira estrofe como “um poema (“stanza” no original) anglo-saxão. Tinha, portanto, um ar de brincadeira, paródia e divertimento. Dez anos mais tarde, já completo, ele foi incluído no Alice no país dos espelhos.

Para a minha tradução escolhi como primeiro foco manter este tom divertido entre o épico e o brejeiro, tentando preservar o ritmo e o jogo das rimas. Já em sua versão, que considero brilhante e inspiradora, Augusto de Campos dá a impressão de ter posto seu primeiro foco na erudição em torno das palavras, sobretudo, é claro, dos neologismos e do nonsense. São versões paralelas que na minha visão não entram em conflito, mas se complementam. Seguindo uma tradição musical, eu diria que, para mim, Augusto criou uma peça entre o Adagietto e o Andantino, enquanto eu criei algo entre o Andante e o Allegro Moderato… Numa outra visada (ou será risada, no sentido simpático?), o Augusto nacionalizou o poema de Carroll, com o seu “Jaguadarte”, enquanto eu, com o meu “Dragodonte”, joguei-o no meio do “Jurassic Park”… 

*A tradução de Flávio Aguiar integra a antologia Cânone Gráfico: clássicos da literatura universal em quadrinhos, que reúne adaptações gráficas de obras canônicas do século 19 

**Flávio Aguiar é pesquisador e professor de Literatura Brasileira da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, tem mais de trinta livros publicados, ganhou o prêmio Jabuti três vezes, sendo um deles com o romance Anita.

Fonte: Boitempo

http://www.vermelho.org.br/noticia/276824-11

quarta-feira, 2 de setembro de 2015

Aos 150, Alice ainda desacata

31 de julho de 2015 - 15h06 


Naquele verão de 1862 o passeio de barco com a família do reverendo Henry Liddell parecia uma boa ideia para Charles Dodgson, escritor e matemático da Universidade de Oxford, na Inglaterra. Tímido e retraído entre os adultos, Dodgson ficava mais à vontade com crianças. No bote que flutuava ao sol da tarde, não demorou muito, no entanto, para que Alice, uma das filhas do padre, fosse tomada pelo tédio. 

Por Patrícia Mariuzzo, na revista Ciência e Cultura


Divulgação

Ilustração original de John Tenniel, de 1865

Acostumado a inventar histórias para entreter seus irmãos menores, o escritor começou a contar a história de outra Alice, que, também entediada, passa a perseguir um coelho apressado, acaba mergulhando em sua toca e vai parar em outro país. Charles Dodgson é o nome verdadeiro de Lewis Carroll, autor de Alice no país das maravilhas, clássico da literatura infanto-juvenil, um dos livros mais traduzidos de todos os tempos, cuja primeira edição completa 150 anos em 2015. Em todo o mundo, exposições, espetáculos de teatro e de dança comemoram o aniversário de Alice.

Lewis Carroll Society criou um site na internet com uma lista de eventos em todo o mundo. Na capital mineira, por exemplo, comemorou-se o Carrollsday, no Memorial Vale, no dia 4 de julho. O evento envolveu literatura e poesia nonsense, artes plásticas, moda, música e performances. Em Londres, na Inglaterra, o Museu da Infância (V&A Museum of Childhood) apresenta uma exposição com roupas, fotografias e objetos mostrando como a menina, com seu vestido rodado e os sapatos-boneca, foi, ao longo das inúmeras edições do livro, uma lançadora de tendências. O visual de Alice (The Alice look), em cartaz até novembro deste ano, tem ainda edições raras do livro, ilustrações de campanhas publicitárias e, é claro, desfiles de moda. 

“Alice é uma fonte inesgotável de criatividade e invenção, tanto no mundo das imagens quanto nas ideias. Foi um dos livros que mais influenciaram as artes em todos os tempos, permitindo reinvenções em diversas mídias e linguagens”, afirma a artista gráfica Adriana Peliano, fundadora e presidente da Sociedade Lewis Carroll do Brasil.

História para ver

“Mas, afinal, de que serve um livro sem figuras nem diálogos?”, pergunta Alice para sua irmã que lia, recostada no jardim. Uma característica que certamente contribuiu para o grande sucesso desse livro são suas ilustrações. Alice é também um livro para ver. Os primeiros desenhos foram feitos pelo próprio Carroll, em um manuscrito que o autor deu de presente para Alice Liddell e cuja versão digital está disponível no site da Biblioteca Britânica. Vários artistas ilustraram o livro, alguns famosos como Salvador Dalí que, em 1969, recebeu uma encomenda para ilustrar uma edição especial do clássico e produziu 12 heliogravuras, uma para cada capítulo do livro. Alice no país das maravilhas é um dos livros mais ilustrados de todos os tempos. “Até recentemente esse universo iconográfico era fortemente marcado pelas ilustrações originais de Tenniel”, explica. “Nas últimas duas décadas, no entanto, cada vez mais essa influência vem sendo desafiada em trabalhos que buscam um diálogo mais aberto e enigmático com a obra, superando uma abordagem ligada à descrição das cenas e personagens”, acredita Peliano.



Ilustração de Adriana Peliano para a edição comemorativa dos 150 anos de Alice


No Brasil, o livro ganhará uma reedição especial pela editora Zahar. As ilustrações originais de John Tenniel, de 1865, foram revisitadas por Adriana Peliano por meio de colagens criadas digitalmente. “Mais que uma técnica, a colagem é um jogo conceitual em que o conhecido muda de lugar, e temos de sair do lugar comum e da nossa zona de conforto. Somos então confrontados por uma nova lógica que propõe enigmas e quebra-cabeças num convite ao sonho e ao nonsense”, conta a artista.

Um mundo de ponta cabeça

Escrito originalmente para uma criança, Alice encanta públicos de todas as idades porque mistura elementos fantásticos, em um mundo onde pouca coisa é impossível, com uma fina crítica política da sociedade inglesa do século 19. “Lewis Carroll colocou de cabeça para baixo a cultura vitoriana, expondo o mal-estar, a impostura e a esterilidade de uma sociedade fechada e repressiva”, escreveu Nicolau Sevcenko, em posfácio para a edição de Alice no país das maravilhas, de 2009, da Cosac Naify. Para o historiador, as criaturas fantásticas do livro – que fazem as crianças se sentirem em casa – encarnam as instituições e os personagens de uma sociedade rígida e pouco flexível. 

Alice se rebela contra eles, se mostrando ora indignada, ora espantada: “Onde já se viu dar a sentença antes de julgar se o acusado é culpado ou não?”, diz, em um dos tantos momentos em que questiona a autoridade. “Lewis satiriza e Alice desacata, para a diversão e a desforra dos leitores”, completou Sevcenko.

A passagem de Alice para o “país das maravilhas” é uma longa queda. A menina chega a adormecer enquanto desce. Sonhar que estamos caindo é uma das experiências oníricas mais recorrentes nos seres humanos. Para Suelt Gevertz, psicanalista da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), a história de Alice comporta diversos elementos oníricos. “O livro pode ser visto como um sonho que elabora questões do crescimento que são comuns a todas as pessoas. A passagem do tempo, o desejo impossível, amor, amizade, hierarquia”, afirma. Segundo ela, essa é uma das razões para a história permanecer atual e atraente 150 anos depois de seu lançamento. “É um livro tão fascinante que pode ser visto de diferentes maneiras”, complementa.

Sonho ou alucinação, para Adriana Peliano, Alice é uma fonte infinita de criatividade e invenção, “uma história capaz de levar o leitor a outros mundos, mundo de ‘alicinações’”, pontua a artista. “É um livro de perguntas, uma obra habitada por enigmas e paradoxos complexos, mas também íntimos de muitos leitores, que se identificam profundamente com os desafios de Alice e com os personagens que ela encontra em sua viagem”. 


http://www.vermelho.org.br/noticia/268323-11