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domingo, 2 de agosto de 2026

Ângelo Alves - A 'invasão« de migrantes

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* Ângelo Alves
 
Alguém pode por favor explicar a alguns comentadores e a outros seres que vendo nos primeiros os deuses da sabedoria, parecem desprovidos dessa incomum capacidade de pensar pela sua própria cabeça, duas coisinhas muito simples? 

1 - Ceuta é um território situado no continente Africano! É um muito pequeno enclave espanhol, que faz fronteira directa com Marrocos. Portanto, por mais que isto entristeça os manipuladores de direita e extrema direita, não,  não houve dezenas de milhares de pessoas a nadar de Marrocos para o continente europeu. E a menos que fossem todos profissionais do maratonismo de natação, nunca conseguiriam e nunca conseguirão fazer essa travessia a nado. O que aconteceu é que uns nadaram contornando um quebra mar e outros pura e simplesmente passaram a pé.

sexta-feira, 31 de julho de 2026

Miguel Sousa Tavares - Sinais de fogo

*  Miguel Sousa Tavares

1.  Enquanto a França e a Espanha começavam a arder, no que viriam a ser os piores incêndios de ambos os países em décadas, Luís Montenegro estava em viagem oficial a Itália — que juntamente com Portugal e Grécia, completa o eixo de fogo que todos os Verões, em simultâneo ou à vez, devasta o sul da Europa. Mas em Roma, Montenegro e Meloni conversaram sobre outro tipo de fogo, que de tal forma aqueceu os seus corações que Montenegro declarou mesmo que ali se tinha atingido o ponto mais alto das relações Portugal-Itália, também em décadas. Porém, este novo êxito da nossa diplomacia e esta renovada amizade vêm com um custo: 3,9 mil milhões de euros, que é o preço que iremos pagar pelas três fragatas que encomendámos em Itália para a nossa Marinha de Guerra. O custo representa mais de metade do que Portugal prometeu gastar a armar-se para a anunciada guerra contra a Rússia e para cumprir as ordens de Trump, e é assumido ao abrigo da estratégia consagrada pelo programa de rearmamento europeu SAFE: encomende agora, pague depois. E o depois não será provavelmente apenas um problema financeiro, mas também operacional: quem nos diz que quando as fragatas forem entregues elas ainda farão algum sentido na guerra do mar, se já hoje os drones submarinos e os avanços militares com a IA estão a mudar tudo? (Veja-se como, sem nenhuma fragata, o Irão anda há cinco meses a humilhar a força naval e aérea, carregadas de testosterona, dos Estados Unidos…) Seria mais prudente, pensarão, começar por encomendar apenas uma fragata e esperar para ver, mas tal é impossível, pois que se dá com as fragatas o mesmo que com os submarinos: é preciso comprar três de uma vez, porque enquanto uma está no mar, outra está de prevenção acostada na base e a terceira está no estaleiro em reparação. São brinquedos muito caros. São tão caros e o negócio é de tal maneira rentável para os vendedores — mais ainda que o tráfico de droga — que desta vez anunciaram-nos que seria nomeada uma das tais “comissões independentes”, para tentar garantir “transparência” e seriedade nos negócios em que seremos sempre compradores. Porém, ainda nem a comissão está composta e Montenegro já gastou €3,9 mil milhões sem dar justificações do essencial: porquê fragatas, porquê italianas e porquê a pressa.

Valha a verdade que o nosso primeiro-ministro se limita a acompanhar e cumprir o que ficou acordado com a NATO, a UE e os EUA de Donald Trump (as três entidades confundem-se hoje em dia). Devagar e passo a passo, encomenda a encomenda, comprometemo-nos a caminhar em direcção aos 5% do PIB em gastos militares, ao mesmo tempo que se anunciam investimentos públicos de há muito não vistos: um novo aeroporto para Lisboa, o TGV Lisboa-Porto, uma nova ponte no Porto e outra e mais um túnel no Tejo, em Lisboa, mantendo intactos o sistema de pensões e os restantes apoios sociais, bem como a satisfação, sempre premente, das reivindicações das corporações do Estado. A perspectiva é de tal maneira insana que, aqui ao lado, Pedro Sánchez declarou logo que a Espanha governada por ele não cumpriria os 5%. Mas foi o único entre todos os dirigentes europeus, reduzidos voluntariamente à condição de capachos obedientes do ‘aliado’ americano, com quem não poupam gestos de apaziguamento, todavia inúteis, como se viu na recente Cimeira da NATO em Ancara. Muitas vezes, e até para justificar este desvario guerreiro, esta gente e os seus propagandistas têm defendido as suas decisões com a necessidade de não repetir o erro de Chamberlain em Munique, tentando fazer-nos acreditar que a inacção perante a ameaça que Putin representará é igual à que Hitler representava em 1938. Mas não só a Europa, no seu conjunto, dispõe de muito mais poderio militar convencional do que a Rússia (a qual, ao mesmo tempo, nos garantem estar exaurida por quatro anos de guerra na Ucrânia), como também as duas situações não são nem objectiva nem subjectivamente comparáveis. Aliás, não fosse esta uma geração lastimável de dirigentes europeus — de que o defunto Keir Starmer era o perfeito exemplo do líder plastificado, desde o cérebro até aos sapatos — e poderiam dar-se uma pausa para meditação sobre os verdadeiros grandes problemas e grandes inimigos que a Europa tem de enfrentar. Se o fizessem, se por um momento quisessem pensar pela própria cabeça, esquecendo as ordens de Trump ou do seu capacho Mark Rutte, talvez chegassem à conclusão de que os dois grandes inimigos da Europa chamam-se Donald Trump e alterações climáticas.


Sinais de fogo, por Hugo Pinto
 
1Sobre o primeiro inimigo da Europa, Donald Trump, já tudo foi dito e sabido e só não vê o perigo que ele representa quem não quer ver ou está interessado em não ver. Sobre a ameaça presente do descontrolo do clima (clear and present danger, chamar-lhe-iam os americanos, no tempo em que ainda eram uma democracia decente), tem-se visto como a UE tem recuado e abandonado todas as suas metas definidas e ajuramentadas para enfrentar as consequências das alterações climáticas. A Europa, o continente mais exposto ao aquecimento global, o território do fogo descontrolado, corta nas verbas destinadas a combatê-lo, em benefício das verbas destinadas a combater a Rússia, no dia em que nos juram que Putin virá por aí abaixo. Portugal é um bom exemplo disso mesmo: na necessidade que houve de realocar verbas do PRR, tirando de um lado para pôr no outro, os dois maiores cortes, ambos de 15%, foram nos investimentos previstos para a transição climática e a transição digital da economia — outro sector crítico, em que a Europa não se limita a ficar para trás relativamente à China e Estados Unidos, mas assim cava a sua dependência futura, como já a tem na energia, entusiasmada que anda, por exemplo, a sequestrar navios-fantasmas da frota petroleira russa — verdadeiros actos de pirataria, sem qualquer sustentação legal.

Em França, cujo Presidente passou de intermediário para tentar evitar a guerra na Ucrânia a defensor da continuação e agravamento da mesma, anunciando o reforço extraordinário das capacidades militares da França, Emmanuel Macron acabou esta semana a ter de recorrer aos militares para ajudarem a dominar o grande incêndio de Bordéus. Afinal, parece que, na hora da verdade, aquilo que os cidadãos esperam da sua República é que lhes garanta a segurança de pessoas e bens contra um perigo real e presente e não contra um hipotético perigo futuro. Daqui a uns anos os nossos filhos e netos hão-de perguntar-nos o que andámos nós a fazer, gastando fortunas em armamento e alimentando os lucros das multinacionais das armas e da energia, enquanto víamos, fingindo surpresa, as terras a arder, o gelo dos pólos a derreter e as temperaturas a subir sempre.

2.  2Sinal destes tempos de mentira organizada e desinformação planeada, o Governo de Israel, depois de matar todos os jornalistas árabes que conseguiram estar em Gaza (para cima de 150!) e proibir a entrada da imprensa ocidental independente, aposta agora em profissionais da aldrabice, dispostos a serem contratados para negar o que vimos e sabemos: Gaza reduzida a cinzas, 73 mil mortos, dos quais mais de 20 mil crianças, a Cisjordânia transformada num faroeste, onde os colonos israelitas, apoiados pela IDF, caçam palestinianos, ocupam as suas terras, destroem as suas casas e culturas. Vemos, ouvimos e lemos. Mas é possível fingir ignorar: entre os €500 milhões que o Governo de Netanyahu já destina anualmente para propaganda amiga, estão verbas para convidar uns mercenários da verdade a visitarem a “única democracia do Médio Oriente”. Oito tristes patetas portugueses, ditos influencers, responderam assim à chamada e lá foram eles, descobrindo, cito, que “o mais fixe em Israel é que eles não têm a intenção de se vingar de ninguém. O amor é a palavra que mais usam”. E lá foram recebidos por um anfitrião, dito jornalista, Henrique Cymerman, a quem chamaram um “anjo da paz” e o qual lhes fez uma prelecção sobre as mentiras que a imprensa ocidental veicula sobre Israel, sobrepondo-se ao silêncio cúmplice dos dirigentes europeus. Os 73 mil mortos vítimas do amor de Israel, de facto, é como se nunca tivessem existido.

2026 Julho 31

quinta-feira, 30 de julho de 2026

Bruno de Carvalho - [Injluencers ... influenciados por Israel[

 * Bruno Carvalho

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A propagandista Rute Sousa, entre outros, foi a Israel numa viagem paga pelas autoridades daquele Estado. Em várias declarações diz que foram mostrar aquilo que as televisões não querem mostrar e, no entanto, não tem feito outra coisa senão estar nesses mesmos canais por estes dias.
 
Num dos seus últimos vídeos atacou os jornalistas, falou do militante do PCP que esteve como repórter de guerra no Donbass e que teria afirmado que ali não tinha acontecido nada. Esse jornalista sou eu. E é muito curioso porque enquanto jornalista com carteira profissional, com trabalhos publicados em meios nacionais e estrangeiros, eu fui ao lado da guerra onde mais ninguém estava. A propagandista Rute Sousa foi ao lado onde já todos estão. Não há meio conhecido que não tenha enviado alguém a Israel nos últimos anos. Aliás, Israel é tão incrível para este grupo de influencers ao serviço da propaganda de Telavive que não conseguiram explicar porque é que Israel não permite a entrada sem barreiras de jornalistas na Faixa de Gaza. 

Para alguns destes elementos que se gravaram a dançar em cima do chão de um território que está a ser alvo de um genocídio, nunca surgiu a questão sobre porque é que foi aprovada uma pena de morte exclusiva para palestinianos. Tampouco conseguiram explicar porque é que foram assassinados mais jornalistas na Faixa de Gaza do que em qualquer uma das guerras modernas, incluindo a mortífera Segunda Guerra Mundial. Não conseguiram porque esse não é o seu papel. 

Da mesma forma que um publicitário serve para promover uma marca ou um produto, estes influencers são pagos para lavar a cara de Israel no pior momento da sua história. E por muito que o jornalismo esteja a passar por uma grave crise existencial, os jornalistas estão obrigados a cumprir um código ético e deontológico. Quando estive no Donbass, ao contrário do que diz Rute Sousa, nunca disse que ali não tinha acontecido nada. Repeti-o várias vezes: qualquer crime de guerra deve ser condenado e isso aconteceu em ambos os lados. Nunca me pus a defender Putin ou a Rússia, como faz Rute Sousa com Israel, nem me pus a dar a minha opinião ou a fazer análises segundo as minhas crenças religiosas (mesmo sendo ateu) como Rute Sousa. O trabalho de um jornalista não é opinar. 

Noutro tempo, a Alemanha nazi teria feito a mesma operação de charme para atrair influencers, quem sabe para nos convencer de que não havia qualquer genocídio contra judeus, soviéticos e comunistas. Num mundo cada vez mais dominado pelos conteúdos em redes sociais controladas por grandes oligarcas, a tendência será para que os influencers com mais seguidores acabem por determinar a opinião pública. E o problema é precisamente que o algoritmo promova apenas aqueles que pensem como os seus donos. O que disse Rute Sousa, e o seu entourage, poderia perfeitamente ser dito por Elon Musk ou Mark Zuckerberg. 

E o mais grave não é apenas que tenham ido a Israel branquear um Estado assassino. O mais grave é que canais como a CNN e o Now, entre outros meios, legitimem essa operação de turismo de propaganda dando voz à desinformação. É a prova de que o jornalismo gosta de cavar a sua própria sepultura

30 Junho 2026
https://www.facebook.com/pedro.bala/posts/ 

segunda-feira, 27 de julho de 2026

Tiago Franco - OS AVENÇADOS DE ISRAEL |



* Tiago Franco

Por achar que já não tenho irritações que cheguem na vida, o algoritmo desta rede passa a vida a bombardear-me com "influencers" portugueses, de extrema-direita, pagos pelo estado de Israel para andarem por Gaza a repetir as narrativas que lhes são ditadas.

Vou deixar de lado esta coisa, muito do século XXI, da malta arranjar sustento a dizer banalidades e transmiti-las para uma geração onde, apesar da informação ao minuto, sobra ignorância. Quando vejo pessoal da minha idade, e mais velhos, a repetirem ideias destes gajos, vou perdendo um pouco a fé na humanidade. 

Não vou fazer publicidade a esta gente, são as novas Ferro Gouveia em potência e provavelmente vocês já os/as terão visto por aí. A gorducha da voz irritante, o anafado do táxi, a cruela da voz rouca e mais umas quantas azedas que por aqui andam.

Também não vou discutir o investimento que Israel faz em publicidade com influencers de vários países. Isso é do conhecimento público e nem aquele estado genocida o nega. 

Até percebo que se tenha que meter comida na mesa e, trabalhar, é algo que a poucos apetece.   Estou solidário nessa parte. Se pudesse andar a bater mundo e alguém me fosse pagando as contas, certamente chegaria mais depressa a alguns dos sonhos que me faltam concretizar. 

Mas não há um limite, de decência vá, para o preço da nossa alma? Por mais ódio e frustração que a vida nos traga, por mais racistas e intolerantes que sejamos, por mais xenófobos, conservadores ou islamofóbicos...não há uma linha vermelha a partir do qual se diz, "tenho que arranjar outra forma de pagar as contas"?

Há algum ser humano com coluna que, vendo o que os colonos na Cisjordânia estão a fazer, consiga encontrar um ponto de vista que justifique aquele terror e a expulsão dos palestinianos?

Alguém, que não siga fanaticamente a vida por um qualquer livro religioso, a bíblia, a tora, o corão ou outra merda qualquer, consegue encontrar uma justificação para as constantes chacinas em Gaza? Ainda se fala no 7 de Outubro como justificação? Os 70 000 (número onde parou a contagem) palestinianos mortos, maior parte deles mulheres e crianças, ainda não chegam para justificar o "direito de defesa" sobre a morte de 800 civis israelitas?

Quando vemos aquele inenarrável ministro de extrema-direita, Ben-Gvir, a entrar por Gaza a dentro, com uma horda de colonos, a gritar "quem diria, há 3 anos, que hoje estaríamos a controlar 70% da faixa de Gaza?", ainda conseguimos procurar uma narrativa que justifique as atrocidades de Israel?

Quase 2 milhões de pessoas, em Gaza, enfiadas num quintal, em condições desumanas e outros tantos na Cisjordânia, a sofrerem um processo de expulsão, patrocinado pelas IDF. E prestam-se estes "influencers", um pouco por todo o mundo, a troco de umas viagens e uns trocos para ficarem em casa a fazer vídeos mais uns meses, a mentir para as suas comunidades, fazendo parte de uma tentativa, à escala global , de limpar a imagem de Israel. 

Mas como? Sim, como meus amigos? Dá para apagar a morte de milhares de mulheres e crianças inocentes? Ou ainda estamos a vender a história de que cada pedra em Gaza era um terrorista do Hamas? Dá para apagar os vídeos diários de novos colonatos na Cisjordânia? Dá para apagar os vídeos do Ben-Gvir a celebrar a pena de morte para palestinianos? 

Também já perdi um pouco a paciência para as discussões das perspectivas ou das opiniões. Não há duas visões em crimes tão óbvios e tão desproporcionais.

Quem, a troco de dinheiro (ou não), se presta ao papel de tentar justificar um estado genocida, está exactamente a entrar no papel de colaboracionista, mas sem aquela desculpa clássica e histórica de quem luta pela sobrevivência. 

São, no fundo e apenas, uns filhos da puta

27 Junho 2026
https://www.facebook.com/tiago.franco.735

terça-feira, 21 de julho de 2026

Margarida Davim - Muletas para pobres, burcas, ciganos e as ficções que engolimos


 

Foto Maxicam| Dreamstime.com

* Margarida Davim

Há uma coisa que a minha experiência me tem demonstrado: quando optamos por não virar as costas a quem não pensa como nós, há uma porta que se entreabre. Quando não tratamos o outro como um monstro, aproximamo-nos

Ele parece velho. As costas curvadas, a barriga protuberante, as calças beges, o casaco azul-escuro de malha clássico. O jeito pausado e definitivo de falar. Não fossem as marcas do acne ainda recente e os olhos azuis quase infantis no rosto muito redondo e nada diria que tem apenas 25 anos. Conheci-o em Curitiba, onde me serviu de guia para a empresa turística onde trabalha desde os 14 anos, um emprego infantil que a lei brasileira permite ao abrigo dos “estágios mirins”, que obrigam a que os menores tenham bom aproveitamento escolar e horários compatíveis com as atividades letivas para poderem desempenhar funções administrativas remuneradas e com descontos. Filho da classe trabalhadora, furou a vida com o método irrepreensível com que regista todas as atividades do dia e as notas das reuniões no seu Moleskine preto e o ímpeto de trabalho que o fez não ter fins de semana nem folgas durante um ano e meio seguido.

sexta-feira, 17 de julho de 2026

Miguel Sousa Tavares - A ‘selenação’: um fado lusitano

* Miguel Sousa Tavares

A derrota e humilhação da selecção, erigida em exemplo do melhor que a pátria portuguesa tem, é toda uma lição sobre os nossos males profundos

16 julho 2026

Esta saga dos “heróis do mar”, feita parte fundamental da mensagem do nosso infeliz hino nacional, há-de perseguir-nos até à eternidade ou até ao dia em que nos deixarmos render à verdade histórica: nós não somos descendentes desses portugueses que partiram literalmente à aventura para demandar Índias, embarcados em banheiras de pinho vagamente flutuantes, ou dos que mais tarde embarcaram em baleeiros americanos para lhes ensinar como se caçava a “Moby Dick” nas águas do Pacífico, ou até mesmo daqueles que, ainda mais tarde, mas sempre em navios feitos de madeira, andaram a pescar bacalhau nas águas geladas de Newfoundland. Não, nós não somos descendentes desses que partiram: somos descendentes dos que ficaram. Pelo que já é tempo de acabarmos com essa história dos heróis do mar, que há muito deixámos de ser, e olharmos para nós próprios tal como somos hoje, com os nossos defeitos e as nossas qualidades, os nossos feitos e os nossos fracassos.

terça-feira, 16 de junho de 2026

«A Emília» - Livro de Leitura da 1.ª Classe (oficial e único do Minho a Timor)

No livro da 1º CLASSE antes do 25 de abril havia um texto sobre a 'Emília' que queria ser uma dona de casa- É possível aceder a esse texto?

Sim, é possível recordar e aceder a esse texto! Esse é um dos exemplos mais citados quando se analisa o papel da mulher e a ideologia de género transmitida através do sistema educativo durante o Estado Novo (antes do 25 de Abril de 1974).

O texto em questão pertencia ao Livro de Leitura da 1.ª Classe (oficial e único na altura) e reflete perfeitamente o ideal da época de que o destino primordial da mulher era a vida doméstica, o casamento e a maternidade.

segunda-feira, 15 de junho de 2026

Daniel Oliveira - O trilionário que promove pogroms

 Opinião

As redes não são apenas espaço público digital, são sistemas de comando emocional nas mãos de milionários, onde paramilícias encontram uma nova logística para os seus pogroms. Musk não é um nome lateral no que aconteceu em Belfast. É um dos seus maiores instigadores e promotores. E Belfast não é apenas Belfast. É um aviso. Ou os governos europeus regulam as redes ou podem organizar as exéquias das suas democracias.

Se há cidade europeia que sabe o que é um motim, é Belfast. Cada bairro tem memória, cada rua tem um lado, cada muro recorda uma ferida antiga. Por isso, as imagens pareceram tão familiares. Casas queimadas, lojas vandalizadas, famílias arrancadas dos seus prédios a meio da noite, um bebé de dois meses retirado de casa pela polícia, agentes feridos, mais de duas dezenas de pessoas sem teto. Belfast conhece de cor todas as declinações da violência sectária. Só mudou o alvo.

sexta-feira, 12 de junho de 2026

Daniel Oliveira - A bebedeira suicida do PSD

* Daniel Oliveira

Montenegro está a cavar uma crise de identidade no PSD. Sim, pode matá-lo. A Europa é um cemitério de partidos estruturantes da democracia. E a forca foi, quase sempre, demasiado cálculo para pouca política

11 junho 2026  

Ométodo diz da função. Em poucas semanas, o Governo multiplicou-se em chico-espertices que sintetizam a carreira da inseparável parelha Montenegro-Soares. A votação da lei laboral foi marcada para meio do Mundial, para facilitar a negociação com o Chega, que está mortinho por aprová-la. Uma autorização legislativa sobre a Prestação Social Única (PSU) retira ao Parlamento o essencial do debate, impondo a chantagem do risco de perder €620 milhões do PRR por um prazo que o Governo conhecia há anos. O Chega apresentou a sua proposta de revisão constitucional, a lei dava um mês para outros o fazerem, mas Aguiar-Branco, para permitir a negociação com o PSD, não a admitiu e criou o precedente de ser ele a definir quando começam a contar os prazos. Votar pela calada, chantagear com urgências fabricadas, dobrar regras que incomodam.

Quanto à política, depois dos de baixo da imigração, chegou a vez dos de baixo da pobreza. O padrão é excitar o ressentimento que rende. Na lei da imigração o Governo recorreu à demagogia das “portas escancaradas” e as primeiras consequências, segundo notícias, estão a ser a partida de imigrantes de que a economia depende. Na PSU o alvo mudou, mas a lógica mantém-se. A ideia era, unificando 13 prestações, simplificar o acesso, reduzir a estigmatização, tornar o sistema mais legível. O Governo complexificou o acesso, introduziu novas formas de exclusão e transformou a reforma num instrumento de controlo. Num país desigual, que gasta em proteção social menos percentagem do PIB do que a Europa, a pobreza é tratada como um vício de que se suspeita, se vigia e se pune. Está prevista uma equipa para gerir denúncias de vizinhos sobre quem tem carro, usa smartphone e pede apoio, nada para mais acompanhamento ou inserção. E propõe-se trabalho social obrigatório sem qualquer estratégia de empregabilidade. Só trabalho sem salário, sem direitos, sem contrato, sem horizonte. Não quebra nenhuma espiral de dependência com formação e acesso a oportunidades, apenas pune quem nela está.

A política do ressentimento pode garantir aplausos, mas não constrói um perfil de governo sustentável. O PSD parece acreditar que, pegando nas bandeiras mais populares do Chega, disputa os seus eleitores. Só que as pessoas vão aprendendo a farejar o oportunismo. Quem queria um Governo com a agenda do Chega votou no Chega. Do PSD esperava resultados na habitação e no SNS, duas das três principais preocupações dos portugueses, depois da corrupção, onde a imagem também não é a melhor. A última sondagem para o Expresso exibe o equívoco de Montenegro. Os eleitores do PSD avaliam o Chega com 2,8 em 10 — pior do que o BE e o PCP (2,9) e muito pior do que o PS (4,5). E quando se lhes pede uma palavra para descrever os apoiantes do Chega, 23% escolhem “ameaça extremista”, 41% usam termos como “fascistas”, “extremistas”, “corruptos” ou “malucos”. Montenegro está a fazer política para um eleitorado que os seus eleitores consideram uma ameaça. Há, claro, a possibilidade de o taticismo ser ainda mais retorcido e, depois do bruaá, recuar na PSU para ter o voto do PS, aprovar a lei laboral com o Chega e, limitando-se a apresentar o modelo inicial da prestação, dar a ideia de equidistância. À hora que escrevo não o sei. Sei que é sempre o mesmo: tática, tática e mais tática.

Costa desbaratou a maioria absoluta de 2022 porque o cálculo esteve sempre à frente de qualquer desígnio. O resultado foi o desastre que se seguiu e uma dificuldade do PS em recuperar os eleitores que perdeu. De tal forma que se pôs a hipótese de o declínio ser irreversível. Montenegro está a cometer o mesmo erro, com um taticismo ainda mais desalmado. Só que o contexto é mais instável, o espaço político à sua direita está em rapidíssima mutação e as consequências podem ser mais destrutivas. O problema não é apenas estar a governar mal, ao ponto de, ao fim de dois anos, Carneiro o ter ultrapassado nas sondagens. É estar a cavar uma crise de identidade no PSD. Conhecemos este filme noutros países europeus: partidos de centro-direita (e até de centro-esquerda) que tentaram competir com a extrema-direita no seu próprio terreno acabaram por perder dos dois lados. E o esvaziamento do PSD é até mais fácil de consumar do que o do PS: à direita há vários partidos prontos a absorver os fugitivos e o PS pode facilmente ocupar o centro deixado vago. Ou então o cenário alternativo, porventura mais perigoso: um Chega com eleitorado sólido e fidelizado, enquanto PS e PSD se vão esburacando e alternando no poder. Sim, Montenegro pode matar o PSD. A Europa é um cemitério de partidos estruturantes da democracia. E a forca foi, quase sempre, demasiado cálculo para pouca política.

 https://expresso.pt/opiniao/2026-06-11-a-bebedeira-suicida-do-psd 


domingo, 7 de junho de 2026

Daniel Oliveira - Pôr os de baixo na ordem

 


Foto Tiago Miranda


* Daniel Oliveira

Os debates sobre imigração, apoios sociais e produtividade foram capturados por uma elite rentista que naturaliza a desigualdade persistente, prometendo pôr na ordem os de baixo — imigrantes, pobres e trabalhadores —, enquanto os mobiliza contra os que estão no degrau inferior da escada classista

04 junho 2026  

Aburguesia nacional fez-se sobretudo pela captura de rendas e pela proximidade ao poder político. À sombra do ouro do Brasil, dos monopólios coloniais, do condicionalismo industrial, das privatizações que lhe ofereceram monopólios ou oligopólios, de fundos europeus desbaratados, de concessões de serviços públicos. Em cada momento histórico açambarcou valor em vez de o criar. Hoje, assistimos ao bloqueio a qualquer regulação da transferência massiva de capital de áreas produtivas para o imobiliário, que não arrisca ou compete. Mas o rentismo não produziu apenas uma estrutura económica viciada e avessa à inovação. Produziu uma cultura.

segunda-feira, 25 de maio de 2026

Vasco Cardoso - A água suja do anti-comunismo

* Vasco Cardoso

Membro da Comissão Política do Comité Central do PCP

Apesar de tanta sentença de morte, de tanto silenciamento e deturpação, de tanta “irrelevância” com que a maioria dos comentadores hoje o tratam, apesar de tudo isto, o PCP e o projecto comunista continua a estar no centro dos grandes debates e das lutas

Perdi a conta à rajada de artigos contra o PCP que foram publicados no seguimento da morte de Carlos Brito. À diversidade de autores – na maioria dos casos repetentes neste tema -, não correspondeu propriamente diversidade de argumentos, quanto muito a disputa por ver quem é que adjectivava de forma mais grotesca, quem fazia a melhor caricatura dos comunistas e do seu Partido. É nessa disputa que o artigo de Henrique Raposo se destaca. Pelo nível do insulto, pelo ódio incontido e, sobretudo, pela mentira grosseira e delirante, que nos vai tomando conta dos dias e que está para lá de Trump ou Ventura, como se sabe e se vê.

Como outros, HR julgou estar perante uma boa oportunidade para dar lastro ao seu anti-comunismo. É uma espécie de obrigação moral que assume e que tem estado presente em muitos dos seus textos. Compreende-se que assim seja, não é fácil viver do que se escreve... “Comunista do interior” - é este o título do artigo – é assim uma espécie de roteiro pelos mais primários preconceitos. Lá encontramos muito do que se destila por aí: comunismo igual a fascismo; comunismo depende da “irracionalidade“; o PCP queria substituir uma ditadura por outra ditadura; comunista bom é um ex-comunista.

Mas onde a mentira se junta com o delírio é quando HR passa à reescrita da história. É aí que HR se superioriza a intelectuais da estirpe de José Milhazes, numa espécie de vale tudo. As teses, mais coisa menos coisa, são estas: Álvaro Cunhal “não queria o 25 de Abril” e tudo fez para o “travar”, ao contrário de CB; AC e outros dirigentes do PCP que se encontravam no exílio (“parisiense”) durante o fascismo vivia no bem bom e “não conhecia o País”, ao contrário de CB que vivia na clandestinidade (no “interior”) e enfrentava a PIDE, pois claro!

HR estará convencido de que a distância temporal que nos separa da Revolução de Abril, somada às sucessivas campanhas contra o PCP (mais uma!) e ao processo de reescrita da história - que visa transformar os fascistas em democratas e os comunistas em inimigos da democracia -, serão suficientes para que as suas mentiras ganhem asas nestes tempos de “pós-verdade”. Mas a consistência dos “argumentos” é tão miserável, tão distante da memória e experiência concreta de milhões de portugueses que corre o risco de se virar contra o próprio autor. Como é comum e recorrente em muitos destes anti-comunistas primários aí está a tentativa de credibilizar o seu texto, invocando ser neto de um membro do PCP. Como se isso lhe desse autoridade suficiente (a ele, ou alguém) para fazer passar o seu contrabando ideológico.

É claro que HR sabe que está a mentir com quantos dentes tem na boca. Um partido que lutou ao longo de 48 anos para derrotar o fascismo, fê-lo para tornar possível o 25 de Abril, não para o impedir, como insinua HR. Um partido que, perante assassinatos, prisões, tortura e mil tentativas de liquidação, colocou alguns dos seus principais quadros no estrangeiro, fê-lo, não por privilégio de alguns, mas como forma de defender o Partido da acção repressiva do fascismo e da PIDE. Um Partido cujos dirigentes e militantes vieram das fábricas e dos campos, que passaram anos a fio nas prisões fascistas, que calcorrearam o País de lés-a-lés, que viviam com as mesmas dificuldades com que vivia a maioria da população, que tinham profunda ligação a sectores intelectuais, não é um partido que desconhecia a realidade, mas aquele que mais profundamente nela tinha mergulhado, facto que poderá ser confirmado na vida e na imensa obra teórica de AC.

Mas não é só, nem fundamentalmente, o passado do PCP que incomoda HR. Quanto muito, dificulta-lhe a vida. O que incomoda verdadeiramente HR é o que o PCP representa hoje, o que o seu ideal e projecto significam no presente e para o futuro. Apesar de tanta sentença de morte, de tanto silenciamento e deturpação, de tanta “irrelevância” com que a maioria dos comentadores hoje o tratam, apesar de tudo isto, o PCP e o projecto comunista continua a estar no centro dos grandes debates, e das lutas, que se travam na nossa sociedade.

O que incomoda é o facto do PCP estar ao lado dos trabalhadores quando lhes querem impingir o Pacote Laboral, é a denúncia do sórdido negócio dos grupos privados que ameaça destruir o SNS, é o combate às privatizações e ao domínio do capital estrangeiro sobre a economia nacional, é a defesa dos interesses de Portugal perante imposições de Washington e Bruxelas, é luta pela paz quando muitos se deixam seduzir pelos tambores da guerra. E é a sua acção prática, quotidiana, aparentemente invisível, que se desenvolve em muitos locais onde vive gente de carne e osso, e que muitos destes escribas, nem suspeitam que possam existir. Uma intervenção corajosa e que, neste tempo de sombras, aponta um caminho de ruptura e alternativa, que não deixa os trabalhadores e o povo à mercê dos que se julgam donos disto tudo. Tudo isto tem muita força, como bem sabe HR, e é um poderoso capital de atracção junto de todos os que vivem mais perto das dificuldades do que dos jornais. No fundo, HR exprime o medo que sempre sentiram as classes dominantes ao longo de séculos. É o medo que empurra HR para o delírio e a mentira.

2026 05 22 

https://expresso.pt/opiniao/2026-05-22-a-agua-suja-do-anti-comunismo-d75124b7

sábado, 23 de maio de 2026

Gonçalo Portocarrero de Almada - Assim se vê como é o PCP!


* Gonçalo Portocarrero de Almada 

Um partido ao serviço do imperialismo da ex-URSS; cúmplice da ditadura em Cuba; e que não reconhece a liberdade de pensamento e de expressão.

23 mai. 2026c

Anda meio mundo zangado com o Partido Comunista Português (PCP), por três intervenções políticas em âmbito parlamentar (ou, melhor dizendo, para lamentar …). Com efeito, este partido, cuja representação na Assembleia da República está agora reduzida a uma troïka, protagonizou três polémicas intervenções. A saber: por ocasião da recente visita do presidente do Parlamento ucraniano a Portugal; a propósito da caracterização política do regime de Cuba; e na sequência do recente falecimento de um seu líder histórico, que presidiu ao seu grupo parlamentar e foi seu candidato à presidência da República. Não obstante a multitudinária desaprovação do modo como os comunistas portugueses reagiram a estes factos recentes, o PCP está de parabéns.

A título de declaração de interesses, devo esclarecer que sempre fui contrário à ideologia do PCP, por tradição familiar, pela educação recebida e pelo meu modo de ser independente e, portanto, incapaz de fazer parte de uma organização de pensamento único. Subscrevo os princípios humanistas e democráticos que aquele partido, com exemplar coerência, sempre repudiou. Graças à minha fé cristã, absolutamente oposta ao ideário comunista, também não posso ter, como é óbvio, nenhuma afinidade com o PCP.

Quando era liceal e jovem militante da juventude do então Partido Popular Democrático (PPD), participei activamente na vida política do Liceu Pedro Nunes, tendo concorrido, em lista com outros colegas da JSD, para o seu conselho de gestão. Depois, por exigência da minha formação universitária, fui para o estrangeiro e abandonei, por completo, a militância partidária. Com a ordenação sacerdotal, abdiquei também de qualquer actuação política, mas sem desistir da intervenção cívica como cidadão, sobretudo em defesa da vida, da dignidade e da liberdade humanas, segundo os princípios da Doutrina Social da Igreja e com total independência de todos os partidos políticos.

O primeiro caso parlamentar recente relativo ao PCP ocorreu quando, no passado dia 6, o presidente da Assembleia da República recebeu o seu homólogo ucraniano. Os deputados comunistas fizeram questão de se ausentar da sala do plenário na sessão de boas-vindas, alegando que “Ruslan Stefanchuk é presidente de um parlamento antidemocrático que é expressão de um poder suportado por forças xenófobas, belicistas, fascizantes e nazis.” Este pretexto não releva os deputados do PCP da indelicadeza da sua atitude, que ofende a dignidade da Assembleia da República e de Portugal, na medida em que esse órgão de soberania representa o povo português.

Tem o seu quê de contraditório, ou de anedótico, que o PCP proteste pelo facto de o Parlamento ucraniano não ser democrático, pois não há nenhum regime comunista que tenha um parlamento eleito livre e democraticamente. Por outro lado, mesmo que o Parlamento ucraniano fosse, como dizem, “suportado por forças xenófobas, belicistas, fascizantes e nazis”, mais belicista é, com toda a certeza, o Estado que invadiu a Ucrânia, que se limitou a reagir em legítima defesa. Por último, é muito infeliz a referência ao suposto carácter “nazi” dos dirigentes ucranianos, pois foi a URSS que pactuou, pelo ignominioso tratado Ribbentrop-Molotov, com o regime nacional-socialista de Hitler, acordando, a 23-8-1939, a invasão e partilha, por nazis e comunistas, da inocente e martirizada Polónia.

O segundo caso respeita à situação de Cuba. Num despacho de 8 de Maio, a Agência Lusa noticiou: “O PCP agendou para hoje um debate sobre a situação política e social de Cuba, que atravessa uma grave crise económica e social, acentuada nos últimos meses pelo bloqueio petrolífero imposto pela administração norte-americana de Donald Trump, que ameaça uma ação militar contra a ilha. O projeto de resolução comunista, que condenava a ‘escalada de agressão e de ameaças dos EUA contra Cuba’ e propunha a ‘exigência do respeito da soberania e dos direitos do povo cubano’ foi chumbado, tal como uma iniciativa do Bloco de Esquerda ‘sobre a crise humanitária em Cuba e a necessidade de Portugal assumir uma posição activa pelo fim das sanções unilaterais e pela proteção da população civil cubana’.”

É significativo que o regime comunista cubano, depois de sessenta e sete anos de revolução, não consiga garantir ao seu povo condições mínimas de sobrevivência. Em nome do bem-estar da população, o comunismo defende e pratica a supressão das liberdades políticas dos cidadãos, impondo um regime ditatorial que, em princípio, deveria resultar numa sociedade justa e igualitária. Não se conhece, contudo, nenhum país que, tendo feito esta experiência, tenha conseguido sequer chegar a uma situação minimamente eficiente em termos socioeconómicos. Ajudar a população cubana não passa, pois, por financiar o regime que a oprime, mas pela aposta na sua reforma política, que se espera que possa acontecer quanto antes, se possível por meios pacíficos e sem intervenção estrangeira. Qualquer apoio prestado ao regime comunista cubano traduz-se, necessariamente, em cumplicidade com o vigente sistema repressivo.

Como era expectável, “o projeto de resolução comunista (…) foi chumbado (…). Por outro lado, os deputados aprovaram em plenário resoluções do Chega, a recomendar ao Governo ‘que realize todos os esforços políticos e diplomáticos no sentido de pressionar o regime cubano e conduzir à plena democratização da República de Cuba’; da Iniciativa Liberal, a propor ao executivo que ‘defenda o povo cubano e promova o respeito pelos direitos, liberdades e garantias fundamentais em Cuba’, e do CDS-PP, ‘em defesa do povo cubano contra a tirania do regime comunista’.”

Em terceiro lugar, foi deplorável a atitude do PCP em relação a um seu líder histórico, cuja memória nem sequer respeitou por ocasião da sua morte, a 7 de Maio passado. Felizmente, o voto de pesar, por unanimidade, da Assembleia da Republica, prestou-lhe a homenagem de que o partido em que militou tantos anos não foi capaz.

Apesar de estas três atitudes deploráveis do PCP, por curiosa coincidência ocorridas nos dias 6, 7 e 8 de Maio de 2026, o partido está de parabéns porque, se fosse a favor da Ucrânia, defendesse a democracia em Cuba, e lamentasse o falecimento de um seu líder histórico, não obstante a sua divergência política, poder-se-ia pensar que é um partido anti-imperialista, democrático e humanista quando, pelo contrário, continua a ser o que sempre foi. Com efeito, é uma força política ao serviço do imperialismo da ex-URSS, pois a sua líder parlamentar teve até a infelicidade de declarar, na Assembleia da República, que “a União Soviética, infelizmente que há muitos anos terminou, infelizmente porque de facto foram anos extraordinários para o povo”. É também um partido cúmplice da ditadura cubana e que não reconhece a liberdade de pensamento e de expressão. Graças a estas suas tão desastradas intervenções, o PCP afirma, de forma inequívoca, o que sempre foi e é e, por isso, está de parabéns. Em formato de slogan, que não destoaria na festa do Avante!, poder-se-ia dizer que assim se vê como é o PCP!

 https://observador.pt/opiniao/assim-se-ve-como-e-o-pcp/ 

domingo, 10 de maio de 2026

Porfírio Silva - Podemos travar o revisionismo histórico da internacional reacionária


* Porfírio Silva 

Passou despercebida em Portugal, mas a fracassada visita de Ayuso ao México foi uma derrota de uma provocação colonialista, instrumentalizada para a direita radical espanhola dar uma ajuda à direita radical mexicana, num fundo de revisionismo histórico típico de certas guerras culturais. A coisa correu mal à senhora Ayuso, mas o episódio serve para mostrar que vale a pena desmontar as manobras dos revisionistas reacionários. 

Vamos fazer uma revisão dos acontecimentos em torno da viagem de Ayuso ao México.

No centro da controvérsia da viagem esteve a leitura histórica defendida por Isabel Díaz Ayuso, presidente da Comunidade de Madrid, dirigente do Partido Popular (PP) e uma das figuras mais destacadas da direita conservadora espanhola, sobre Hernán Cortés, a Conquista e a relação entre Espanha e México. Ayuso apresentou a história comum como uma trajetória de cinco séculos de mestiçagem, língua, laços familiares e continuidade cultural. Defendeu que essa história deveria ser lida mais como encontro civilizacional do que como genocídio, e descreveu a mestiçagem como uma mensagem de esperança e alegria. No ato “Celebração pela Evangelização e a Mestiçagem no México: Malinche e Cortés”, na Cidade do México, afirmou que a relação entre Espanha e México era uma história de “cinco séculos de amor, não de ódio”, e pediu que a liberdade nunca tivesse de pedir perdão por ser liberdade. A tese de Ayuso, portanto, era que Cortés, Isabel a Católica, Malinche e a evangelização faziam parte de uma herança hispânica comum que não devia ser julgada apenas pela linguagem da culpa, do saque ou da reparação histórica.

A presidente mexicana, Claudia Sheinbaum, contestou essa leitura. Para ela, reivindicar Cortés significava minimizar a violência da Conquista contra os povos indígenas. Em 5 de maio, durante a comemoração da Batalha de Puebla, Sheinbaum afirmou que aqueles que reavivam a Conquista como salvação estão destinados à derrota, e que aqueles que procuram reivindicar Hernán Cortés e as suas atrocidades também estão destinados à derrota. Dois dias depois, em 7 de maio, na sua conferência diária, disse que a homenagem a Cortés revelava ignorância da própria história espanhola, sustentando que a violência exercida por Cortés e pelo seu exército contra os povos indígenas tinha sido documentada em Espanha, e caracterizando o conquistador como um dos invasores mais cruéis. Sheinbaum contrapôs a essa visão a ideia de que a grandeza do México vem dos valores dos seus povos originários. 

A viagem de Ayuso ao México estava prevista para decorrer de 3 a 12 de maio de 2026. A Comunidade de Madrid apresentou-a como uma visita institucional destinada a reforçar laços económicos e culturais com o país. A agenda anunciada incluía atos na Cidade do México, Aguascalientes, Monterrey e Riviera Maya, além da presença prevista nos Prémios Platino Xcaret, marcados para 9 de maio, no Parque Xcaret, na Riviera Maya. 

Ayuso iniciou a deslocação em 3 de maio, na Basílica de Guadalupe, na Cidade do México, onde assistiu à missa dominical. O cardeal Carlos Aguiar Retes saudou a comitiva espanhola e disse que rezavam pela relação entre Espanha e México. 

No dia 4 de maio, na Cidade do México, estava previsto o ato sobre “Evangelização e Mestiçagem no México: Malinche e Cortés”, inicialmente associado à Catedral Metropolitana. O ato acabou por ser transferido para o Frontón México, espaço ligado ao musical Malinche. A Arquidiocese explicou que a produção não reunia a totalidade das autorizações necessárias. Nesse contexto, Ayuso defendeu a mestiçagem, rejeitou leituras baseadas, segundo ela, no ódio, e afirmou que a liberdade não devia pedir perdão por ser liberdade. Há sempre quem preze a liberdade de explorar e esmagar o outro...

Em 5 de maio, durante a comemoração da Batalha de Puebla, em Puebla, Sheinbaum respondeu politicamente ao discurso de Ayuso, sem a nomear diretamente. Disse que aqueles que reavivam a Conquista como salvação estão destinados à derrota, e que aqueles que procuram reivindicar Hernán Cortés e as suas atrocidades estão igualmente destinados à derrota. No mesmo dia, Ayuso participou num encontro na Universidad de la Libertad, na Cidade do México.

Em 6 de maio, quando Ayuso chegou ao aeroporto de Aguascalientes, foi abordada pela deputada mexicana Anayeli Muñoz, do Movimiento Ciudadano, que lhe pediu que reconhecesse os abusos da Conquista. Mais tarde, no Palácio do Congresso do Estado de Aguascalientes, na Plaza de la Patria 109, Ayuso recebeu a **Medalla de la Libertad** do Congresso estadual.

Ainda em Aguascalientes, houve protestos no exterior e uma interrupção durante um ato por Martha Márquez, regidora de Morena, que exibiu uma faixa com a frase “Não temos água”. A contestação juntava críticas locais, ligadas à gestão da água, com objeções ao discurso de Ayuso sobre a Conquista e o período colonial.

Em 7 de maio, na sua conferência diária no México, Sheinbaum voltou a criticar diretamente o ato em torno de Hernán Cortés. Disse que a homenagem revelava ignorância histórica, argumentou que Cortés se caracterizara por ordenar massacres e afirmou que a grandeza do México vinha dos povos originários. Ao mesmo tempo, sublinhou que Ayuso tinha podido falar livremente no país, dizendo que ela tinha ido dizer o que quis e que no México há liberdade e democracia. 

Entre 7 e 8 de maio, Ayuso deslocou-se para a Riviera Maya, onde estava prevista a sua presença nos Prémios Platino Xcaret. A imprensa espanhola noticiou que a agenda institucional pública ficara sem atos nesse trecho da viagem.

O episódio central ocorreu em 8 de maio. A Comunidade de Madrid publicou um comunicado acusando o Governo mexicano de ter boicotado a presença de Ayuso nos Prémios Platino. Segundo essa versão, o Governo mexicano teria ameaçado fechar o complexo onde se realizaria a gala caso Ayuso comparecesse. No mesmo comunicado, a Comunidade de Madrid anunciou que Ayuso não iria à gala e que suspendia a parte final da viagem, incluindo a deslocação prevista a Monterrey, regressando a Madrid. 

Também em 8 de maio, o Grupo Xcaret, anfitrião do evento, negou ter recebido ameaças ou instruções da presidente mexicana ou de qualquer funcionário do Governo do México. A empresa afirmou que pedira aos organizadores a retirada do convite a Ayuso para evitar que a gala fosse usada como plataforma política, depois das suas declarações públicas durante a viagem.

No mesmo dia, a Secretaría de Gobernación mexicana também negou qualquer tentativa de impedir atos de Ayuso. Afirmou que a visita decorrera num ambiente de total liberdade e que em nenhum momento se tentara evitar qualquer uma das suas apresentações públicas ou privadas. 

A gala dos XIII Premios Platino Xcaret realizou-se em 9 de maio, no Teatro Gran Tlachco, no Parque Xcaret, na Riviera Maya, sem a presença de Ayuso.

Podemos, portanto, concluir: há um agressivo revisionismo de direita, querendo rever a história para promover as guerras culturas; é possível fazer frente a esse revisionismo; a ferramenta do revisionismo histórico faz parte da estratégia da internacional reaccionária; isso exige que sejamos, nós também, atentos a essa dimensão internacional.

Porfírio Silva, 10 de Maio de 2026

https://maquinaespeculativa.blogspot.com/2026/05/podemos-travar-o-revisionismo-historico.html

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A Conquista de Tenochtitlán (representação da queda da capital do Império Asteca em 1521). Autor mexicano desconhecido da segunda metade do século XVII. Biblioteca do Congresso, Washington - DC

  • A Queda de Tenochtitlan: A obra representa o cerco final e a conquista da capital asteca, Tenochtitlan, pelas forças espanholas lideradas por Hernán Cortés em 1521.
  • Contexto Artístico: Esta pintura faz parte da série "Conquista do México", datada da segunda metade do século XVII.
  • Alianças Indígenas: A vitória espanhola não foi alcançada sozinha; ela dependeu crucialmente de aliados indígenas, notavelmente os Tlaxcaltecas, que buscavam se libertar do domínio asteca.
  • Fatores de Vitória: Além da superioridade tática e alianças, a conquista foi facilitada pela introdução de doenças europeias, como a varíola, que devastaram a população local  (AI Overview)

sábado, 9 de maio de 2026

Maria Vladimirovna Zakharova - [O Dia da Vitória e as mistificações do 'ocidente']



* Maria Vladimirovna Zakharova

O chanceler alemão, Merz, surpreendeu com o seu comentário nas redes sociais: "O dia 8 de maio de 1945 trouxe a libertação - para milhões de pessoas, para a Alemanha, para a Europa. Ele lembra-nos que nunca devemos esquecer o que o ódio pode provocar. Obriga-nos a defender uma Alemanha livre, democrática e solidária numa Europa forte". 

Ele não disse quem libertou quem. Provavelmente esqueceu-se de onde tudo começou. Mas os seus próprios cidadãos lembraram-lhe. Quando um jornalista perguntou quem libertou a Alemanha do nazismo, o vice-representante oficial do governo alemão, Steffen Maier, respondeu inicialmente que "isto está claramente documentado na história", mas ficou em silêncio quando a pergunta foi repetida. 

Mas a noite não foi tranquila e, no final do dia, o Presidente dos EUA, Donald Trump, ganhou o jackpot de interpretações do 8 de maio e da vitória europeia. Ele assinou uma proclamação por ocasião do aniversário da derrota da Alemanha de Hitler, na qual afirmou claramente, desafiando os seus vassalos, o que o 8 de maio realmente significa: "Celebramos a grande vitória da América sobre a tirania e o mal na Europa, alcançada graças à força das nossas forças armadas e dos nossos aliados". 

Uma vez que o Ocidente rejeitou a nossa proposta de uma abordagem unificada para preservar a memória histórica, para ser honesta, estou satisfeita com o progresso da sua bipolaridade - os aliados da OTAN não decepcionaram uns aos outros. De tudo o que foi mencionado acima, só se pode concluir uma coisa. Enquanto houver debates no "Ocidente colectivo" sobre quem fez mais para afirmar o seu domínio sobre o resto do mundo, a Rússia entra confiantemente no Dia da Vitória, a 9 de maio, orgulhosamente carregando a Bandeira da Vitória, hasteada pela Exército Vermelho sobre o Reichstag derrotado. 

O mundo foi salvo pela contribuição determinante do soldado soviético. Este facto não pode ser alterado. "Este fogo eterno, que nos foi legado por ele, guardamo-lo nos nossos corações". O Dia da Vitória, a 9 de maio, foi e será nosso! Junte-se a nós!!!

@MariaVladimirovnaZakharova

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domingo, 26 de abril de 2026

Graça Castanheira - E o porco gosta

 * Graça Castanheira

 A coragem cívica de Pacheco Pereira está em ter entrado num terreno onde ganhar talvez fosse impossível, mas sabendo que era ali — na televisão — que se criava a oportunidade para a ação imperativa.

A frase de Bernard Shaw que se associou ao debate entre Pacheco Pereira e André Ventura é mais interessante do que a sua leitura moral sugere. Quem a cita fica-se geralmente pelo primeiro movimento — não lutes com um porco, porque te sujas — e esquece o segundo, que é decisivo: e o porco gosta. Gostar, aqui, significa que o terreno da lama é o habitat do adversário, aquele em que ele se move com desenvoltura e onde qualquer gesto do antagonista, mesmo o mais justo, se dissolve no lamaçal.

O problema não é só a sujidade, é a impossibilidade de enquadramento. É aqui que a questão se torna cinematográfica. Há uma diferença de dispositivo entre o combate e o retrato. O combate é um campo-contracampo, exige duas presenças, uma alternância que produz equivalência mesmo quando as posições são assimétricas. Foi este o princípio que o cinema entendeu desde cedo: ao alternar dois planos, o espectador é levado a ler as duas figuras como termos comparáveis de uma mesma equação, independentemente daquilo que cada uma diz. O debate televisivo herda esta gramática, e por isso, antes de qualquer conteúdo, concede ao adversário metade do que ele precisa, que é o estatuto de interlocutor legítimo — e é exatamente esta concessão que se critica a Pacheco Pereira. A alternativa que o cinema conhece é o plano-sequência, e em particular o plano fixo, que obriga a figura a habitar sozinha o enquadramento até a retórica se desmontar pela duração. É a estratégia de muitos documentários observacionais, e a extrema-direita tende a receá-los porque precisa da contracena para a poder interromper e sabotar.

Acontece que o retrato exige condições que se foram perdendo: um espectador disponível para a duração, uma pedagogia do olhar, um espaço de escuta. Num sistema que premeia o fragmento contra a duração, o plano fixo do porco não compete pela atenção política em tempo real. Quem defende o plano sustentado contra o combate televisivo está a defender um recurso cultural que em escala pública já não existe. Entre dois dispositivos imperfeitos, o combate tem pelo menos a virtude de ocupar o terreno; o retrato, na atual paisagem política, corre o risco de não passar de uma forma elegante de desdém.

Foi a forma como André Ventura reagiu — as torções, as fugas, as falsas equivalências, a invenção de uma história sem PIDE, os bebés mortos como licença para a brutalidade colonial, a ridícula acusação de o seu interlocutor estar contra as Forças Armadas — que produziu o conteúdo que circulou a seguir. E é aqui que está o ganho real do debate: na revelação involuntária que o dirigente do Chega fez de si próprio, sob a pressão de ter de defender em tempo real o seu ponto de vista. A coragem cívica de Pacheco Pereira está em ter entrado num terreno onde ganhar talvez fosse impossível, mas sabendo que era ali — no campo-contracampo, na televisão — que se criava a oportunidade para a ação imperativa. À saída do debate, esses momentos tornaram-se cultura pop, contraditório partilhável, companhia argumentativa. Duas semanas passadas, abriram-se discussões laterais que de outro modo não teriam acontecido — a reflexão sobre a crueldade como linguagem política foi uma delas, e não a menor.

A frase de Shaw é uma observação de classe: pressupõe a possibilidade de nos mantermos limpos. E essa hipótese, hoje, em democracias sob pressão como as nossas, é precisamente o privilégio de que se deve duvidar. Pacheco Pereira ter-se-á enlameado, mas transformou a sujidade em prova pública — a lama como revelador fotográfico.

26 de Abril de 2026

domingo, 19 de abril de 2026

O pecado original de Pacheco Pereira

Pacheco Pereira não se arrepende do frente-a-frente com Ventura: “Se fosse hoje, repetiria”

Em declarações ao DN, José Pacheco Pereira defende sem hesitações a decisão de desafiar André Ventura para um debate e rejeita as críticas de quem considera que saiu a perder. Para o historiador, discutir o populismo à distância é um erro: “Tem mesmo de se meter a mão na massa”, diz, depois de ter enfrentado o líder do Chega. E recusa uma “espécie de snobismo intelectual”.

Alexandra Tavares-Teles

16 Abr 2026,  

“Estou muito contente com o que fiz e se fosse hoje repetiria”. José Pacheco Pereira defende sem reservas a decisão de desafiar André Ventura para um debate e rejeitou as críticas de quem entende que o historiador perdeu ao aceitar o frente-a-frente transmitido pela CNN Portugal na noite de 13 de abril, depois de Ventura ter insistido na tese de que houve mais “presos políticos” após o 25 de Abril do que em vésperas da revolução, afirmação que Pacheco Pereira classificou publicamente como uma “comparação absurda”.

Sim, tem mesmo de se meter a mão na massa”, afirmou, sublinhando que não aceita a ideia de que o combate político ao populismo se faça à distância. “Não alinho nessa posição. Se as pessoas têm pruridos em sujar as mãos, fazem mal. Em casos destes, é preciso sujar as mãos”, acrescentou.

O historiador respondeu assim à metáfora, repetida nos últimos dias em artigos de opinião e comentários nas redes sociais, de que “nunca se deve lutar com um porco”, fórmula usada por vários observadores para criticar o tom do confronto com o líder do Chega,  com comentadores a argumentarem que o frente-a-frente acabou por arrastar Pacheco Pereira para o terreno preferido de Ventura.

Mas o antigo dirigente do PSD recusa a conclusão. “A ideia de que não devemos rebaixar-nos tem a ver com medo. Há muito medo”, diz o historiador. E vai mais longe: “A história diz-nos que, nos anos 30 e, mais recentemente, em França, com a Frente Nacional, esse caminho, inicialmente seguido,  foi depois revertido por uma razão: não se pode deixar que digam certas coisas sem reação.”

Para Pacheco Pereira, o erro está precisamente em deixar o espaço público livre para esse tipo de discurso. “Há uma esquerda que assume uma espécie de snobismo intelectual - eles são maus, discutem à bruta e, portanto, não se fala com eles. Sabe qual é o efeito que isso tem? Encontro esse efeito na rua, nas pessoas que me abordam depois daquele debate”, relatou. “É um número muito significativo de pessoas que vem ter comigo, que saem da mesa do restaurante para me cumprimentar. Não são apenas pessoas da elite. São pessoas  que não se sentem representadas.”

Segundo o historiador, a reação popular ao debate mostrou que existe um sentimento de vazio no campo democrático perante a ascensão do discurso populista. “Vêm ter comigo com uma certa dose de emoção e essa emoção tem a ver com o facto de não se sentirem representadas nesses outros debates”, afirmou, defendendo que o confronto direto é uma forma de responder a esse mal-estar.

Pacheco Pereira considera ainda que o frente-a-frente teve uma utilidade concreta: "expor afirmações de Ventura sobre o 25 de Abril que nunca tinha dito. E só isso foi uma enorme vantagem”, concluiu Pacheco Pereira, sustentando que o debate permitiu tornar visível, de forma mais nítida, a leitura que o líder do Chega faz da democracia saída da Revolução dos Cravos. Ainda que lamente: “O mais grave é que as frases mais significativas que o Ventura disse, inclusivamente que o 25 de Abril era miserável, ninguém as reproduziu”.

https://www.dn.pt/pol%C3%ADtica/pacheco-pereira-no-se-arrepende-do-frente-a-frente-com-ventura-se-fosse-hoje-repetiria#google_vignette

 

Opinião DN

O pecado original de Pacheco Pereira

Paulo Guinote, Professor do Ensino Básico

16 Abr 2026

Não sou dos que acha que não vale a pena “debater com fascistas”, estando em causa André Ventura. Porque ele é, antes de mais, um político oportunista, demagogo mais do que populista (ele só promete tudo às “pessoas de bem”, o que reduz muito o universo…) e porque, em alguns contextos, é essencial desmascarar as mentiras e mistificações que algumas figuras apresentam como verdades irrevogáveis e, nesse particular, Ventura está longe de ser o único mistificador no activo.

André Ventura só é “fascista” nos momentos em que esse tipo de discurso ou atitude se revelam vantajosos para a angariação de votos. Ou de apoios de bastidores. Ou de financiamentos. Porque já o vimos ser um pouco de tudo: cristão devoto (mais ou menos católico), proto-sindicalista empedernido (do apoio a sindicatos de polícias, ao esquecido anúncio da criação de uma nova federação sindical), nacionalista dos quatro costados, a par de atlantista bissexto. Pactua com grupos neo-nazis, desde que isso não ganhe destaque público e é acérrimo inimigo dos corruptos, a menos que lhe facilitem ancoragem financeira. Ora, qualquer “fascista” digno desse apodo teria vergonha de colocar cartazes com mensagens que depois se tentam reinterpretar de forma manhosa.

O “verdadeiro fascista” não pratica o toca-e-foge ou o desdisse-o-que disse. Ventura é apenas um simulacro para os tempos que temos, marcados pela promoção de produtos para consumo mediático de massas, se possível com aroma a “sangue”, não interessando se é coerente no percurso, desde que pareça “assertivo” de cada vez que faz uma curva ou inversão de marcha. Se pode ser perigoso, chegando-se muito ao poder? Sim, se isso corresponder ao abrir de portas à peculiar confederação de interesses que congregou graças ao seu sucesso no mercado político-mediático.

Pacheco Pereira sabe isto, pois foi claro quando declarou que nunca qualificou Ventura como fascista. Mas equivocou-se ao considerar que um debate entre os dois serviria para algo mais do que produzir audiências ao canal anfitrião. Porque podem muitos bater no peito que nunca assistiriam a tal confronto que a curiosidade mórbida vence quase sempre essas proclamações. O único “vencedor” do debate foi, pois, a CNN Portugal.

Ao desafiar Ventura, Pacheco Pereira cometeu um duplo erro de cálculo: concedeu ao seu interlocutor um estatuto de equivalência intelectual que, gostemos mais ou menos do trajecto de JPP, muito poucos reconhecem e achou que seria possível uma espécie de “duelo de cavalheiros”. Achou que apresentando “regras”, isso impediria o atropelamento no discurso ou o escorregar para a luta na lama retórica. Acreditou que apelando à apresentação de “factos” isso teria o mesmo significado para o seu oponente. Considerou que levando livros e documentação variada conseguiria “provar” uma verdade, cuja validade a outra parte não reconhece. A Ventura chega um punhado de fotocópias para fazer o seu número e exibir indignação. Pacheco Pereira pensou que a racionalidade calma venceria a emoção encenada. Enganou-se.

Todos cometemos erros, por arrogância intelectual, por inconsciência das circunstâncias ou má avaliação das qualidades, próprias e alheias. Pacheco Pereira parece não ter percebido que nada tinha a ganhar com este debate e Ventura nada a perder. Foi esse o seu pecado original.

Escreve sem aplicação do novo Acordo Ortográfico

https://www.blogger.com/blog/post/edit/7624295442706210520/3893848410623296261


Ventura sabe que mentiu?

Pedro Tadeu, Jornalista

17 Abr 2026,  

No debate, segunda-feira na CNN, com Pacheco Pereira, André Ventura disse que os políticos “do sistema” não admitem os crimes políticos do pós-25 de Abril e citou conclusões do Relatório da Comissão de Averiguação de violências sobre presos sujeitos às autoridades militares”, o chamado “Relatório das Sevícias” – mas ao fazê-lo desmentiu-se a si próprio.

Esse relatório, publicado em julho de 1976, foi elaborado por indicação do Conselho da Revolução no rescaldo do 25 de Novembro de 1975. Este facto foi omitido por Ventura.

O documento foi um instrumento político dos vitoriosos desse último golpe e muito do que lá se diz não está devidamente sustentado, nem inclui a defesa das pessoas e instituições acusadas de serem autoras das ditas sevícias. É parcial e duvidoso, mas, sem dúvida, também conterá verdades.

O ponto central para esta discussão não é esse. O ponto é que, ao contrário do argumento de Ventura, o regime democrático que o 25 de Abril criou em 1974 já discutia abertamente, a nível oficial e menos de dois anos depois, os abusos que o próprio regime teria cometido, coisa que durante 48 anos de fascismo português nunca aconteceu – de resto, o dito relatório está disponível, para toda a gente, no site da Presidência da República, não está escondido.

Portanto, quando André Ventura afirma que em 50 anos de democracia a classe política dominante não admitiu a existência de abusos de Direitos Humanos no pós-25 de Abril está a mentir e contradiz-se quando apresenta como prova um relatório que até foi elaborado por alguns atores do dia 25 de Abril de 1974, como, por exemplo, o jornalista Francisco Sousa Tavares.

Outra manipulação de André Ventura é a de dizer que nunca Salazar e Caetano assinaram ordens de prisão, o que só teria acontecido no pós-25 de Abril.

Nem Salazar, nem Caetano precisavam de escrever ordens de prisões políticas porque as davam verbalmente. Por exemplo, Silva Pais, que foi diretor da PIDE a partir de 1962, aparece mencionado 119 vezes nas agendas de audiências individuais de Salazar, que saiu do poder seis anos depois. Dá quase 20 vezes por ano.

Ventura queixou-se de que houve três mil presos políticos a seguir ao 25 de Abril e que 30 mil pessoas fugiram do país.

Em 1974, segundo a Comissão de Extinção da PIDE/DGS, havia 3000 agentes da polícia política e mais de 20 mil informadores (os chamados “bufos”). Se a isto somarmos vários militares, polícias, membros da Legião Portuguesa, muitas outras autoridades como governadores civis, ministros, secretários de Estado, altos funcionários públicos, quadros das comissões de censura, juízes dos tribunais plenários e alguns outros milhares de pessoas que participavam ativamente, mesmo de forma indireta, nas estruturas de repressão política do regime fascista, teremos de perguntar: “Poderia uma revolução que deita abaixo um regime repressor manter as pessoas que exerciam essa repressão em liberdade?”

Na verdade, até seria de esperar que houvesse mais prisões e mais fugas, mas, apenas 17 meses depois, tal como André Ventura acabou por dizer, quase todos estavam livres ou começavam a voltar. E isso demonstra a tolerância do 25 de Abril.

Mais de 30 mil resistentes e patriotas não tiveram essa sorte durante o fascismo. Álvaro Cunhal, por exemplo, amargou mais de 11 anos na cadeia e só se libertou porque fugiu do Forte de Peniche. Esteve 14 anos fora do seu país... até ao 25 de Abril.

Como é que se pode comparar uma coisa com a outra?!

https://www.dn.pt/opiniao-dn/ventura-sabe-que-mentiu

terça-feira, 14 de abril de 2026

Em tormo do 25 de Abril, entre Pacheco Pereira e André Ventura

 


Uma palmatória, comparações "absurdas" e "traições à pátria": o debate entre Pacheco Pereira e Ventura sobre presos políticos

Uma frase de Ventura que levou os deputados constituintes a abandonarem uma sessão no Parlamento levou a um debate tenso, longo, com relatórios pelo meio e até uma palmatória.

Mariana Lima Cunha. Texto

14 abr. 2026

A premissa era simples: contrariar a ideia, lançada por André Ventura na sessão solene pelos 50 anos da Constituição portuguesa, de que houve mais presos políticos a seguir ao 25 de Abril do que (imediatamente) antes. O repto foi lançado por Pacheco Pereira, Ventura aceitou, e o que se seguiu foi 1h20 de debate (e alguns gritos) em que os dois discutiram as prisões, a descolonização e a corrupção durante a ditadura portuguesa, com diferentes armas: muitos livros, um dossiê com relatórios e uma palmatória, levada por Pacheco Pereira para ilustrar as torturas levadas a cabo pelos portugueses nas antigas colónias.

O debate organizado pela CNN andou sempre à volta da mesma ideia: André Ventura queria defender que houve prisões políticas e tortura no período da transição para a democracia, o que significaria que nem tudo na democracia é bom e “nem tudo [na ditadura] foi mau”; Pacheco Pereira considerava a comparação “absurda”, uma vez que punha em confronto as prisões, torturas e outras restrições às liberdades que aconteceram durante 48 anos de ditadura e a “turbulência própria” dos meses seguintes, a que se pôs termo com a normalização do regime democrático.

O líder do Chega explicou inicialmente que o que “quis dizer” no dia da sessão da Constituição foi que especificamente no dia 24 de Abril de 1974 havia menos presos políticos em Portugal do que haveria uns meses depois, referindo-se também aos expatriados que foram “perseguidos pelos novos donos de sistema”. Falou da forma como cresceu em Mem Martins, sem “privilégio”: “Estou à vontade para dizer: o sistema anterior errou mas o que veio não trouxe naqueles meses tudo de bom. Eu gostava era de ter uma democracia plena, em que não houvesse presos políticos e torturados e expropriações”.

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Além disso, Ventura arrancou o debate contestando a ideia de que todas as pessoas presas nas colónias fossem presos políticos, mostrando as imagens de bebés mortos pela UPA em 1961 e defendendo que alguns presos o foram por estarem a “atacar os nossos militares”.

“Você mete-se em cada sarilho…”, cometou Pacheco Pereira, lembrando o número de presos a 24 de Abril — 127 em Portugal continental, 4249 nas colónias — e lembrando também que o número de guerrilheiros presos era relativamente baixo, até porque muitos eram executados; grande parte dos presos seriam “enfermeiros, funcionários dos correios, pastores protestantes, professores, estudantes aliciados a regressarem a Portugal”. Além disso, argumentou, quem se defendia da “ocupação portuguesa” deveria ser considerado preso político. “Se Espanha invadisse Portugal o que fazia? É uma atitude política”, frisou. “Como bom nacionalista que é, admite que estavam a lutar pelo seu país”.

Por entre ataques vários — “hoje não tem aqui a Alexandra Leitão, é o André Ventura”; “Eu gosto muito do meu país, em muitos aspetos mais do que o André Ventura” — os debatentes foram comparando números e também os castigos corporais que existiram, em muito maior número durante o Estado Novo. “Trouxe uma palmatória que era usada nos castigos corporais”, mostrou Pacheco Pereira, lendo descrições de torturas da PIDE em Moçambique: “Violação anal com garrafas, mutilação do pénis com queimaduras, choques elétricos, suspensão do tecto de cabeça para baixo, Sabe qual é o problema? É que estes são pretos. Eram tratados como sub-homens. Vários deles desapareceram. Estas violências eram sistemáticas e aconteceram durante todo o período do império colonial”.

Já Ventura leu as descrições de torturas que aconteceram já depois do 25 de Abril, incluindo de “carpinteiros, comerciantes, advogados e reformados, pessoas que discordavam da extrema-esquerda”, e ironizou: se a ditadura era “tão feroz”, não poderiam existir apenas “cento e tal presos em Lisboa” (número que se referia apenas à véspera do 25 de Abril).

“Podemos concordar que tudo o que é tortura é mau, mas não me venham com a história de que a violência de direita é má e a de esquerda é boa”, foi repetindo o líder do Chega, enquanto o historiador defendia que há “comparações que são elas próprias mentira“, como a que Ventura faz entre 48 anos de ditadura e os dois anos posteriores. “É tão pontual que é incomparável”, disse, frisando que não nega que tenha havido violência e tortura já no período da liberdade, mas que a da ditadura foi “sistemática”. “Sabe o que são 48 anos de tortura sistemática, de humilhação das pessoas comuns, de violência, de censura? Isso cria uma situação em que a transição portuguesa, mesmo com esses casos, foi relativamente pacífica. Deixou uma enorme herança de vingança e ressentimento“.

Inevitavelmente, a discussão passou por nomes particularmente controversos — Pacheco Pereira descreveu Marcelino da Mata como um “assassino” que se “gabava” de matar homens, mulheres e crianças, Ventura respondeu que Otelo Saraiva de Carvalho é que era “um assassino e um bandido”. Ventura defendeu que PCP e UDP deviam pagar as “expropriações erradas” do pós-25 de Abril e que em toda a ditadura não se encontra uma ordem de Salazar ou Marcelo Caetano para mandar prender alguém — não precisavam, já que tinham uma polícia política ao dispor, contrapôs o historiador.

Houve ainda tempo, num debate com mais meia hora do que o anunciado, para falar da descolonização, que Ventura considerou “criminosa” (“Queriam tanto a independência e hoje estão a vir para cá viver”) e para Pacheco Pereira concluir que o interlocutor “justifica a ditadura”. “Com esse tipo de afirmação de extrema-direita, [o Chega] é um partido fascista“. “Eu nasci em 1983, não quero saber da ditadura para nada”, respondeu Ventura. “É a história da Humanidade, temos de estar do lado da nossa pátria”, exclamou, confrontado com o número de pessoas mortas na guerra colonial.

Com Pacheco Pereira a culpar Salazar pelos erros na descolonização, Ventura acusou-o de “trair a sua pátria”. “Devíamos ter tido uma transição democrática, não comunistas a assaltar o poder. Os senhores, incluo-o a si, estavam tão cheios de chama do espírito de comunista não olharam a meios. Por isso Portugal está na cauda da Europa”. “Essa ‘revolução miserável’ deu a liberdade a Portugal e para dizer o que diz. Quem lutou contra a ditadura lutou por Portugal. Eu amo o meu país”, respondeu Pacheco Pereira.

A discussão passou ainda pelos grupos terroristas de extrema-esquerda e extrema-direita após o 25 de Abril, tendo a ELP “beneficiado” da condescendência “gigantesca” das autoridades e sido, como as FP-25, “amnistiada com a ideia de que se ia pacificar a sociedade”. Os últimos, frisou Pacheco Pereira, chegaram a ser condenados porque “a democracia nessa altura estava a funcionar”.

Ainda houve tempo para uma breve incursão pelo tema da corrupção, com Ventura a dizer que na ditadura “havia corrupção como agora há” — “Então porque é que não pôs um cartaz a dizer 100 anos de corrupção?”, questionou Pacheco Pereira, referindo-se ao cartaz em que o Chega diz que já lá vão “50 anos de corrupção” — isto é, referindo-se apenas ao tempo de democracia. Ventura acabou por dizer que “Sócrates roubou muito mais do que Salazar” e que o “sistema está podre de corrupção”, acabando por prometer que se tivesse nascido mais cedo, no tempo da ditadura, lá estaria também a lutar contra o problema.

A troca de acusações final teve a ver com cristianismo — “eu sou ateu”, disse Pacheco Pereira; “faz mal”, respondeu Ventura”; “o seu partido é o mais anticristão. Não há uma declaração dos dois últimos Papas que não seja diretamente contra as posições do Chega na imigração”, atirou o historiador; “Não me dá lições de cristianismo porque fazemos (…) luta contra a islamização”, respondeu o líder partidário. Teriam continuado por ali fora, mas já não havia mais tempo.

 https://observador.pt/2026/04/14/uma-palmatoria-comparacoes-absurdas-e-traicoes-a-patria-o-debate-entre-pacheco-pereira-e-ventura-sobre-presos-politicos/