Textos e Obras Daqui e Dali, mais ou menos conhecidos ------ Nada do que é humano me é estranho (Terêncio)
domingo, 2 de agosto de 2026
Ângelo Alves - A 'invasão« de migrantes
sexta-feira, 31 de julho de 2026
Miguel Sousa Tavares - Sinais de fogo
quinta-feira, 30 de julho de 2026
Bruno de Carvalho - [Injluencers ... influenciados por Israel[
segunda-feira, 27 de julho de 2026
Tiago Franco - OS AVENÇADOS DE ISRAEL |
terça-feira, 21 de julho de 2026
Margarida Davim - Muletas para pobres, burcas, ciganos e as ficções que engolimos
sexta-feira, 17 de julho de 2026
Miguel Sousa Tavares - A ‘selenação’: um fado lusitano
terça-feira, 16 de junho de 2026
«A Emília» - Livro de Leitura da 1.ª Classe (oficial e único do Minho a Timor)
No livro da 1º CLASSE antes do 25 de abril havia um texto sobre a 'Emília' que queria ser uma dona de casa- É possível aceder a esse texto?
Sim, é possível recordar e aceder a esse texto! Esse é um
dos exemplos mais citados quando se analisa o papel da mulher e a ideologia de
género transmitida através do sistema educativo durante o Estado Novo (antes do
25 de Abril de 1974).
O texto em questão pertencia ao Livro de Leitura da 1.ª
Classe (oficial e único na altura) e reflete perfeitamente o ideal da época
de que o destino primordial da mulher era a vida doméstica, o casamento e a
maternidade.
segunda-feira, 15 de junho de 2026
Daniel Oliveira - O trilionário que promove pogroms
Opinião
As redes não são apenas espaço público digital, são sistemas de comando emocional nas mãos de milionários, onde paramilícias encontram uma nova logística para os seus pogroms. Musk não é um nome lateral no que aconteceu em Belfast. É um dos seus maiores instigadores e promotores. E Belfast não é apenas Belfast. É um aviso. Ou os governos europeus regulam as redes ou podem organizar as exéquias das suas democracias.
Se há cidade europeia que sabe o
que é um motim, é Belfast. Cada bairro tem memória, cada
rua tem um lado, cada muro recorda uma ferida antiga. Por isso, as imagens
pareceram tão familiares. Casas queimadas, lojas vandalizadas, famílias
arrancadas dos seus prédios a meio da noite, um bebé de dois meses
retirado de casa pela polícia, agentes feridos, mais de duas dezenas de pessoas
sem teto. Belfast conhece de cor todas as declinações
da violência sectária. Só mudou o alvo.
sexta-feira, 12 de junho de 2026
Daniel Oliveira - A bebedeira suicida do PSD
* Daniel Oliveira
Montenegro está
a cavar uma crise de identidade no PSD. Sim, pode matá-lo. A Europa
é um cemitério de partidos estruturantes
da democracia. E a forca foi, quase sempre, demasiado cálculo
para pouca política
11 junho 2026
Ométodo diz da
função. Em poucas semanas, o Governo multiplicou-se em chico-espertices que
sintetizam a carreira da inseparável parelha Montenegro-Soares. A votação da
lei laboral foi marcada para meio do Mundial, para facilitar a negociação com o
Chega, que está mortinho por aprová-la. Uma autorização legislativa sobre a
Prestação Social Única (PSU) retira ao Parlamento o essencial do debate,
impondo a chantagem do risco de perder €620 milhões do PRR por um prazo que o
Governo conhecia há anos. O Chega apresentou a sua proposta de revisão
constitucional, a lei dava um mês para outros o fazerem, mas Aguiar-Branco,
para permitir a negociação com o PSD, não a admitiu e criou o precedente de ser
ele a definir quando começam a contar os prazos. Votar pela calada, chantagear
com urgências fabricadas, dobrar regras que incomodam.
Quanto à
política, depois dos de baixo da imigração, chegou a vez dos de baixo da
pobreza. O padrão é excitar o ressentimento que rende. Na lei da imigração o
Governo recorreu à demagogia das “portas escancaradas” e as primeiras
consequências, segundo notícias, estão a ser a partida de imigrantes de que a
economia depende. Na PSU o alvo mudou, mas a lógica mantém-se. A ideia era,
unificando 13 prestações, simplificar o acesso, reduzir a estigmatização,
tornar o sistema mais legível. O Governo complexificou o acesso, introduziu
novas formas de exclusão e transformou a reforma num instrumento de controlo.
Num país desigual, que gasta em proteção social menos percentagem do PIB do que
a Europa, a pobreza é tratada como um vício de que se suspeita, se vigia e se
pune. Está prevista uma equipa para gerir denúncias de vizinhos sobre quem tem
carro, usa smartphone e pede apoio, nada para mais acompanhamento ou inserção.
E propõe-se trabalho social obrigatório sem qualquer estratégia de
empregabilidade. Só trabalho sem salário, sem direitos, sem contrato, sem
horizonte. Não quebra nenhuma espiral de dependência com formação e acesso a
oportunidades, apenas pune quem nela está.
A política do
ressentimento pode garantir aplausos, mas não constrói um perfil de governo
sustentável. O PSD parece acreditar que, pegando nas bandeiras mais populares
do Chega, disputa os seus eleitores. Só que as pessoas vão aprendendo a farejar
o oportunismo. Quem queria um Governo com a agenda do Chega votou no Chega. Do
PSD esperava resultados na habitação e no SNS, duas das três principais
preocupações dos portugueses, depois da corrupção, onde a imagem também não é a
melhor. A última sondagem para o Expresso exibe o equívoco de Montenegro. Os
eleitores do PSD avaliam o Chega com 2,8 em 10 — pior do que o BE e o PCP (2,9)
e muito pior do que o PS (4,5). E quando se lhes pede uma palavra para
descrever os apoiantes do Chega, 23% escolhem “ameaça extremista”, 41% usam
termos como “fascistas”, “extremistas”, “corruptos” ou “malucos”. Montenegro
está a fazer política para um eleitorado que os seus eleitores consideram uma
ameaça. Há, claro, a possibilidade de o taticismo ser ainda mais retorcido e,
depois do bruaá, recuar na PSU para ter o voto do PS, aprovar a lei laboral com
o Chega e, limitando-se a apresentar o modelo inicial da prestação, dar a ideia
de equidistância. À hora que escrevo não o sei. Sei que é sempre o mesmo:
tática, tática e mais tática.
Costa
desbaratou a maioria absoluta de 2022 porque o cálculo esteve sempre à frente
de qualquer desígnio. O resultado foi o desastre que se seguiu e uma
dificuldade do PS em recuperar os eleitores que perdeu. De tal forma que se pôs
a hipótese de o declínio ser irreversível. Montenegro está a cometer o mesmo
erro, com um taticismo ainda mais desalmado. Só que o contexto é mais instável,
o espaço político à sua direita está em rapidíssima mutação e as consequências
podem ser mais destrutivas. O problema não é apenas estar a governar mal, ao
ponto de, ao fim de dois anos, Carneiro o ter ultrapassado nas sondagens. É
estar a cavar uma crise de identidade no PSD. Conhecemos este filme noutros
países europeus: partidos de centro-direita (e até de centro-esquerda) que
tentaram competir com a extrema-direita no seu próprio terreno acabaram por
perder dos dois lados. E o esvaziamento do PSD é até mais fácil de consumar do
que o do PS: à direita há vários partidos prontos a absorver os fugitivos e o
PS pode facilmente ocupar o centro deixado vago. Ou então o cenário
alternativo, porventura mais perigoso: um Chega com eleitorado sólido e
fidelizado, enquanto PS e PSD se vão esburacando e alternando no poder. Sim,
Montenegro pode matar o PSD. A Europa é um cemitério de partidos estruturantes
da democracia. E a forca foi, quase sempre, demasiado cálculo para pouca
política.
domingo, 7 de junho de 2026
Daniel Oliveira - Pôr os de baixo na ordem
* Daniel Oliveira
Os debates
sobre imigração, apoios sociais e produtividade foram capturados por uma elite
rentista que naturaliza a desigualdade persistente, prometendo pôr na ordem os
de baixo — imigrantes, pobres e trabalhadores —, enquanto os mobiliza contra os
que estão no degrau inferior da escada classista
04 junho 2026
Aburguesia
nacional fez-se sobretudo pela captura de rendas e pela proximidade ao poder
político. À sombra do ouro do Brasil, dos monopólios coloniais, do
condicionalismo industrial, das privatizações que lhe ofereceram monopólios ou
oligopólios, de fundos europeus desbaratados, de concessões de serviços
públicos. Em cada momento histórico açambarcou valor em vez de o criar. Hoje,
assistimos ao bloqueio a qualquer regulação da transferência massiva de capital
de áreas produtivas para o imobiliário, que não arrisca ou compete. Mas o
rentismo não produziu apenas uma estrutura económica viciada e avessa à
inovação. Produziu uma cultura.
segunda-feira, 25 de maio de 2026
Vasco Cardoso - A água suja do anti-comunismo
sábado, 23 de maio de 2026
Gonçalo Portocarrero de Almada - Assim se vê como é o PCP!
* Gonçalo Portocarrero de Almada
Um partido ao serviço do
imperialismo da ex-URSS; cúmplice da ditadura em Cuba; e que não reconhece a
liberdade de pensamento e de expressão.
23 mai. 2026c
Anda meio mundo zangado com o
Partido Comunista Português (PCP), por três intervenções políticas em âmbito
parlamentar (ou, melhor dizendo, para lamentar …). Com efeito, este partido,
cuja representação na Assembleia da República está agora reduzida a uma troïka,
protagonizou três polémicas intervenções. A saber: por ocasião da recente
visita do presidente do Parlamento ucraniano a Portugal; a propósito da
caracterização política do regime de Cuba; e na sequência do recente
falecimento de um seu líder histórico, que presidiu ao seu grupo parlamentar e
foi seu candidato à presidência da República. Não obstante a multitudinária
desaprovação do modo como os comunistas portugueses reagiram a estes factos
recentes, o PCP está de parabéns.
A título de declaração de
interesses, devo esclarecer que sempre fui contrário à ideologia do PCP, por
tradição familiar, pela educação recebida e pelo meu modo de ser independente
e, portanto, incapaz de fazer parte de uma organização de pensamento único.
Subscrevo os princípios humanistas e democráticos que aquele partido, com
exemplar coerência, sempre repudiou. Graças à minha fé cristã, absolutamente
oposta ao ideário comunista, também não posso ter, como é óbvio, nenhuma
afinidade com o PCP.
Quando era liceal e jovem militante da juventude do então Partido Popular Democrático (PPD), participei activamente na vida política do Liceu Pedro Nunes, tendo concorrido, em lista com outros colegas da JSD, para o seu conselho de gestão. Depois, por exigência da minha formação universitária, fui para o estrangeiro e abandonei, por completo, a militância partidária. Com a ordenação sacerdotal, abdiquei também de qualquer actuação política, mas sem desistir da intervenção cívica como cidadão, sobretudo em defesa da vida, da dignidade e da liberdade humanas, segundo os princípios da Doutrina Social da Igreja e com total independência de todos os partidos políticos.
O primeiro caso parlamentar
recente relativo ao PCP ocorreu quando, no passado dia 6, o presidente da
Assembleia da República recebeu o seu homólogo ucraniano. Os deputados
comunistas fizeram questão de se ausentar da sala do plenário na sessão de
boas-vindas, alegando que “Ruslan Stefanchuk é presidente de um
parlamento antidemocrático que é expressão de um poder suportado por forças
xenófobas, belicistas, fascizantes e nazis.” Este pretexto não releva
os deputados do PCP da indelicadeza da sua atitude, que ofende a dignidade da
Assembleia da República e de Portugal, na medida em que esse órgão de soberania
representa o povo português.
Tem o seu quê de contraditório,
ou de anedótico, que o PCP proteste pelo facto de o Parlamento ucraniano não
ser democrático, pois não há nenhum regime comunista que tenha um parlamento
eleito livre e democraticamente. Por outro lado, mesmo que o Parlamento
ucraniano fosse, como dizem, “suportado por forças xenófobas,
belicistas, fascizantes e nazis”, mais belicista é, com toda a certeza, o
Estado que invadiu a Ucrânia, que se limitou a reagir em legítima defesa. Por
último, é muito infeliz a referência ao suposto carácter “nazi” dos
dirigentes ucranianos, pois foi a URSS que pactuou, pelo ignominioso tratado
Ribbentrop-Molotov, com o regime nacional-socialista de Hitler, acordando, a
23-8-1939, a invasão e partilha, por nazis e comunistas, da inocente e
martirizada Polónia.
O segundo caso respeita à
situação de Cuba. Num despacho de 8 de Maio, a Agência Lusa noticiou: “O
PCP agendou para hoje um debate sobre a situação política e social de Cuba, que
atravessa uma grave crise económica e social, acentuada nos últimos meses pelo
bloqueio petrolífero imposto pela administração norte-americana de Donald
Trump, que ameaça uma ação militar contra a ilha. O projeto de resolução
comunista, que condenava a ‘escalada de agressão e de ameaças dos EUA contra
Cuba’ e propunha a ‘exigência do respeito da soberania e dos direitos do povo
cubano’ foi chumbado, tal como uma iniciativa do Bloco de Esquerda ‘sobre a
crise humanitária em Cuba e a necessidade de Portugal assumir uma posição
activa pelo fim das sanções unilaterais e pela proteção da população civil
cubana’.”
É significativo que o regime
comunista cubano, depois de sessenta e sete anos de revolução, não consiga
garantir ao seu povo condições mínimas de sobrevivência. Em nome do bem-estar
da população, o comunismo defende e pratica a supressão das liberdades políticas
dos cidadãos, impondo um regime ditatorial que, em princípio, deveria resultar
numa sociedade justa e igualitária. Não se conhece, contudo, nenhum país que,
tendo feito esta experiência, tenha conseguido sequer chegar a uma situação
minimamente eficiente em termos socioeconómicos. Ajudar a população cubana não
passa, pois, por financiar o regime que a oprime, mas pela aposta na sua
reforma política, que se espera que possa acontecer quanto antes, se possível
por meios pacíficos e sem intervenção estrangeira. Qualquer apoio prestado ao
regime comunista cubano traduz-se, necessariamente, em cumplicidade com o
vigente sistema repressivo.
Como era expectável, “o
projeto de resolução comunista (…) foi chumbado (…). Por outro lado, os
deputados aprovaram em plenário resoluções do Chega, a recomendar ao Governo
‘que realize todos os esforços políticos e diplomáticos no sentido de
pressionar o regime cubano e conduzir à plena democratização da República de
Cuba’; da Iniciativa Liberal, a propor ao executivo que ‘defenda o povo cubano
e promova o respeito pelos direitos, liberdades e garantias fundamentais em
Cuba’, e do CDS-PP, ‘em defesa do povo cubano contra a tirania do regime
comunista’.”
Em terceiro lugar, foi deplorável
a atitude do PCP em relação a um seu líder histórico, cuja memória nem sequer
respeitou por ocasião da sua morte, a 7 de Maio passado. Felizmente, o voto de
pesar, por unanimidade, da Assembleia da Republica, prestou-lhe a homenagem de
que o partido em que militou tantos anos não foi capaz.
Apesar de estas três atitudes
deploráveis do PCP, por curiosa coincidência ocorridas nos dias 6, 7 e 8 de
Maio de 2026, o partido está de parabéns porque, se fosse a favor da Ucrânia,
defendesse a democracia em Cuba, e lamentasse o falecimento de um seu líder
histórico, não obstante a sua divergência política, poder-se-ia pensar que é um
partido anti-imperialista, democrático e humanista quando, pelo contrário,
continua a ser o que sempre foi. Com efeito, é uma força política ao serviço do
imperialismo da ex-URSS, pois a sua líder parlamentar teve até a infelicidade
de declarar, na Assembleia da República, que “a União Soviética,
infelizmente que há muitos anos terminou, infelizmente porque de facto foram
anos extraordinários para o povo”. É também um partido cúmplice da
ditadura cubana e que não reconhece a liberdade de pensamento e de expressão.
Graças a estas suas tão desastradas intervenções, o PCP afirma, de forma
inequívoca, o que sempre foi e é e, por isso, está de parabéns. Em formato
de slogan, que não destoaria na festa do Avante!,
poder-se-ia dizer que assim se vê como é o PCP!
domingo, 10 de maio de 2026
Porfírio Silva - Podemos travar o revisionismo histórico da internacional reacionária
* Porfírio Silva
Passou despercebida em Portugal, mas a fracassada visita de Ayuso ao México foi uma derrota de uma provocação colonialista, instrumentalizada para a direita radical espanhola dar uma ajuda à direita radical mexicana, num fundo de revisionismo histórico típico de certas guerras culturais. A coisa correu mal à senhora Ayuso, mas o episódio serve para mostrar que vale a pena desmontar as manobras dos revisionistas reacionários.
Vamos fazer uma revisão dos acontecimentos em torno da viagem de Ayuso ao México.
No centro da controvérsia da viagem esteve a leitura histórica defendida por Isabel Díaz Ayuso, presidente da Comunidade de Madrid, dirigente do Partido Popular (PP) e uma das figuras mais destacadas da direita conservadora espanhola, sobre Hernán Cortés, a Conquista e a relação entre Espanha e México. Ayuso apresentou a história comum como uma trajetória de cinco séculos de mestiçagem, língua, laços familiares e continuidade cultural. Defendeu que essa história deveria ser lida mais como encontro civilizacional do que como genocídio, e descreveu a mestiçagem como uma mensagem de esperança e alegria. No ato “Celebração pela Evangelização e a Mestiçagem no México: Malinche e Cortés”, na Cidade do México, afirmou que a relação entre Espanha e México era uma história de “cinco séculos de amor, não de ódio”, e pediu que a liberdade nunca tivesse de pedir perdão por ser liberdade. A tese de Ayuso, portanto, era que Cortés, Isabel a Católica, Malinche e a evangelização faziam parte de uma herança hispânica comum que não devia ser julgada apenas pela linguagem da culpa, do saque ou da reparação histórica.
A presidente mexicana, Claudia Sheinbaum, contestou essa leitura. Para ela, reivindicar Cortés significava minimizar a violência da Conquista contra os povos indígenas. Em 5 de maio, durante a comemoração da Batalha de Puebla, Sheinbaum afirmou que aqueles que reavivam a Conquista como salvação estão destinados à derrota, e que aqueles que procuram reivindicar Hernán Cortés e as suas atrocidades também estão destinados à derrota. Dois dias depois, em 7 de maio, na sua conferência diária, disse que a homenagem a Cortés revelava ignorância da própria história espanhola, sustentando que a violência exercida por Cortés e pelo seu exército contra os povos indígenas tinha sido documentada em Espanha, e caracterizando o conquistador como um dos invasores mais cruéis. Sheinbaum contrapôs a essa visão a ideia de que a grandeza do México vem dos valores dos seus povos originários.
A viagem de Ayuso ao México estava prevista para decorrer de 3 a 12 de maio de 2026. A Comunidade de Madrid apresentou-a como uma visita institucional destinada a reforçar laços económicos e culturais com o país. A agenda anunciada incluía atos na Cidade do México, Aguascalientes, Monterrey e Riviera Maya, além da presença prevista nos Prémios Platino Xcaret, marcados para 9 de maio, no Parque Xcaret, na Riviera Maya.
Ayuso iniciou a deslocação em 3 de maio, na Basílica de Guadalupe, na Cidade do México, onde assistiu à missa dominical. O cardeal Carlos Aguiar Retes saudou a comitiva espanhola e disse que rezavam pela relação entre Espanha e México.
No dia 4 de maio, na Cidade do México, estava previsto o ato sobre “Evangelização e Mestiçagem no México: Malinche e Cortés”, inicialmente associado à Catedral Metropolitana. O ato acabou por ser transferido para o Frontón México, espaço ligado ao musical Malinche. A Arquidiocese explicou que a produção não reunia a totalidade das autorizações necessárias. Nesse contexto, Ayuso defendeu a mestiçagem, rejeitou leituras baseadas, segundo ela, no ódio, e afirmou que a liberdade não devia pedir perdão por ser liberdade. Há sempre quem preze a liberdade de explorar e esmagar o outro...
Em 5 de maio, durante a comemoração da Batalha de Puebla, em Puebla, Sheinbaum respondeu politicamente ao discurso de Ayuso, sem a nomear diretamente. Disse que aqueles que reavivam a Conquista como salvação estão destinados à derrota, e que aqueles que procuram reivindicar Hernán Cortés e as suas atrocidades estão igualmente destinados à derrota. No mesmo dia, Ayuso participou num encontro na Universidad de la Libertad, na Cidade do México.
Em 6 de maio, quando Ayuso chegou ao aeroporto de Aguascalientes, foi abordada pela deputada mexicana Anayeli Muñoz, do Movimiento Ciudadano, que lhe pediu que reconhecesse os abusos da Conquista. Mais tarde, no Palácio do Congresso do Estado de Aguascalientes, na Plaza de la Patria 109, Ayuso recebeu a **Medalla de la Libertad** do Congresso estadual.
Ainda em Aguascalientes, houve protestos no exterior e uma interrupção durante um ato por Martha Márquez, regidora de Morena, que exibiu uma faixa com a frase “Não temos água”. A contestação juntava críticas locais, ligadas à gestão da água, com objeções ao discurso de Ayuso sobre a Conquista e o período colonial.
Em 7 de maio, na sua conferência diária no México, Sheinbaum voltou a criticar diretamente o ato em torno de Hernán Cortés. Disse que a homenagem revelava ignorância histórica, argumentou que Cortés se caracterizara por ordenar massacres e afirmou que a grandeza do México vinha dos povos originários. Ao mesmo tempo, sublinhou que Ayuso tinha podido falar livremente no país, dizendo que ela tinha ido dizer o que quis e que no México há liberdade e democracia.
Entre 7 e 8 de maio, Ayuso deslocou-se para a Riviera Maya, onde estava prevista a sua presença nos Prémios Platino Xcaret. A imprensa espanhola noticiou que a agenda institucional pública ficara sem atos nesse trecho da viagem.
O episódio central ocorreu em 8 de maio. A Comunidade de Madrid publicou um comunicado acusando o Governo mexicano de ter boicotado a presença de Ayuso nos Prémios Platino. Segundo essa versão, o Governo mexicano teria ameaçado fechar o complexo onde se realizaria a gala caso Ayuso comparecesse. No mesmo comunicado, a Comunidade de Madrid anunciou que Ayuso não iria à gala e que suspendia a parte final da viagem, incluindo a deslocação prevista a Monterrey, regressando a Madrid.
Também em 8 de maio, o Grupo Xcaret, anfitrião do evento, negou ter recebido ameaças ou instruções da presidente mexicana ou de qualquer funcionário do Governo do México. A empresa afirmou que pedira aos organizadores a retirada do convite a Ayuso para evitar que a gala fosse usada como plataforma política, depois das suas declarações públicas durante a viagem.
No mesmo dia, a Secretaría de Gobernación mexicana também negou qualquer tentativa de impedir atos de Ayuso. Afirmou que a visita decorrera num ambiente de total liberdade e que em nenhum momento se tentara evitar qualquer uma das suas apresentações públicas ou privadas.
A gala dos XIII Premios Platino Xcaret realizou-se em 9 de maio, no Teatro Gran Tlachco, no Parque Xcaret, na Riviera Maya, sem a presença de Ayuso.
Podemos, portanto, concluir: há um agressivo revisionismo de direita, querendo rever a história para promover as guerras culturas; é possível fazer frente a esse revisionismo; a ferramenta do revisionismo histórico faz parte da estratégia da internacional reaccionária; isso exige que sejamos, nós também, atentos a essa dimensão internacional.
Porfírio Silva, 10 de Maio de 2026
https://maquinaespeculativa.blogspot.com/2026/05/podemos-travar-o-revisionismo-historico.html
~~~~~~ooo0ooo~~~~~~
A Conquista de Tenochtitlán (representação da queda da capital do Império Asteca em 1521). Autor mexicano desconhecido da segunda metade do século XVII. Biblioteca do Congresso, Washington - DC
- A Queda de Tenochtitlan: A obra representa o cerco final e a conquista da capital asteca, Tenochtitlan, pelas forças espanholas lideradas por Hernán Cortés em 1521.
- Contexto Artístico: Esta pintura faz parte da série "Conquista do México", datada da segunda metade do século XVII.
- Alianças Indígenas: A vitória espanhola não foi alcançada sozinha; ela dependeu crucialmente de aliados indígenas, notavelmente os Tlaxcaltecas, que buscavam se libertar do domínio asteca.
- Fatores de Vitória: Além da superioridade tática e alianças, a conquista foi facilitada pela introdução de doenças europeias, como a varíola, que devastaram a população local (AI Overview)
sábado, 9 de maio de 2026
Maria Vladimirovna Zakharova - [O Dia da Vitória e as mistificações do 'ocidente']
domingo, 26 de abril de 2026
Graça Castanheira - E o porco gosta
A coragem cívica de Pacheco Pereira está em ter entrado num terreno onde ganhar talvez fosse impossível, mas sabendo que era ali — na televisão — que se criava a oportunidade para a ação imperativa.
A frase de Bernard Shaw que se associou ao debate entre Pacheco Pereira e André Ventura é mais interessante do que a sua leitura moral sugere. Quem a cita fica-se geralmente pelo primeiro movimento — não lutes com um porco, porque te sujas — e esquece o segundo, que é decisivo: e o porco gosta. Gostar, aqui, significa que o terreno da lama é o habitat do adversário, aquele em que ele se move com desenvoltura e onde qualquer gesto do antagonista, mesmo o mais justo, se dissolve no lamaçal.
O problema não é só a sujidade, é a impossibilidade de enquadramento. É aqui que a questão se torna cinematográfica. Há uma diferença de dispositivo entre o combate e o retrato. O combate é um campo-contracampo, exige duas presenças, uma alternância que produz equivalência mesmo quando as posições são assimétricas. Foi este o princípio que o cinema entendeu desde cedo: ao alternar dois planos, o espectador é levado a ler as duas figuras como termos comparáveis de uma mesma equação, independentemente daquilo que cada uma diz. O debate televisivo herda esta gramática, e por isso, antes de qualquer conteúdo, concede ao adversário metade do que ele precisa, que é o estatuto de interlocutor legítimo — e é exatamente esta concessão que se critica a Pacheco Pereira. A alternativa que o cinema conhece é o plano-sequência, e em particular o plano fixo, que obriga a figura a habitar sozinha o enquadramento até a retórica se desmontar pela duração. É a estratégia de muitos documentários observacionais, e a extrema-direita tende a receá-los porque precisa da contracena para a poder interromper e sabotar.
Acontece que o retrato exige condições que se foram perdendo: um espectador disponível para a duração, uma pedagogia do olhar, um espaço de escuta. Num sistema que premeia o fragmento contra a duração, o plano fixo do porco não compete pela atenção política em tempo real. Quem defende o plano sustentado contra o combate televisivo está a defender um recurso cultural que em escala pública já não existe. Entre dois dispositivos imperfeitos, o combate tem pelo menos a virtude de ocupar o terreno; o retrato, na atual paisagem política, corre o risco de não passar de uma forma elegante de desdém.
Foi a forma como André Ventura reagiu — as torções, as fugas, as falsas equivalências, a invenção de uma história sem PIDE, os bebés mortos como licença para a brutalidade colonial, a ridícula acusação de o seu interlocutor estar contra as Forças Armadas — que produziu o conteúdo que circulou a seguir. E é aqui que está o ganho real do debate: na revelação involuntária que o dirigente do Chega fez de si próprio, sob a pressão de ter de defender em tempo real o seu ponto de vista. A coragem cívica de Pacheco Pereira está em ter entrado num terreno onde ganhar talvez fosse impossível, mas sabendo que era ali — no campo-contracampo, na televisão — que se criava a oportunidade para a ação imperativa. À saída do debate, esses momentos tornaram-se cultura pop, contraditório partilhável, companhia argumentativa. Duas semanas passadas, abriram-se discussões laterais que de outro modo não teriam acontecido — a reflexão sobre a crueldade como linguagem política foi uma delas, e não a menor.
A frase de Shaw é uma observação de classe: pressupõe a possibilidade de nos mantermos limpos. E essa hipótese, hoje, em democracias sob pressão como as nossas, é precisamente o privilégio de que se deve duvidar. Pacheco Pereira ter-se-á enlameado, mas transformou a sujidade em prova pública — a lama como revelador fotográfico.
26 de Abril de 2026
domingo, 19 de abril de 2026
O pecado original de Pacheco Pereira
Pacheco
Pereira não se arrepende do frente-a-frente com Ventura: “Se fosse hoje,
repetiria”
Em
declarações ao DN, José Pacheco Pereira defende sem hesitações a decisão de
desafiar André Ventura para um debate e rejeita as críticas de quem considera
que saiu a perder. Para o historiador, discutir o populismo à distância é um
erro: “Tem mesmo de se meter a mão na massa”, diz, depois de ter enfrentado o
líder do Chega. E recusa uma “espécie de snobismo intelectual”.
16 Abr 2026,
“Estou muito
contente com o que fiz e se fosse hoje repetiria”. José Pacheco Pereira defende
sem reservas a decisão de desafiar André Ventura para um debate e rejeitou as
críticas de quem entende que o historiador perdeu ao aceitar o frente-a-frente
transmitido pela CNN Portugal na noite de 13 de abril, depois de Ventura ter
insistido na tese de que houve mais “presos políticos” após o 25 de Abril do
que em vésperas da revolução, afirmação que Pacheco Pereira classificou
publicamente como uma “comparação absurda”.
“Sim, tem
mesmo de se meter a mão na massa”, afirmou, sublinhando que não aceita a ideia
de que o combate político ao populismo se faça à distância. “Não alinho nessa
posição. Se as pessoas têm pruridos em sujar as mãos, fazem mal. Em casos
destes, é preciso sujar as mãos”, acrescentou.
O historiador
respondeu assim à metáfora, repetida nos últimos dias em artigos de opinião e
comentários nas redes sociais, de que “nunca se deve lutar com um porco”,
fórmula usada por vários observadores para criticar o tom do confronto com o
líder do Chega, com comentadores a argumentarem que o frente-a-frente
acabou por arrastar Pacheco Pereira para o terreno preferido de Ventura.
Mas o antigo
dirigente do PSD recusa a conclusão. “A ideia de que não devemos rebaixar-nos
tem a ver com medo. Há muito medo”, diz o historiador. E vai mais longe: “A
história diz-nos que, nos anos 30 e, mais recentemente, em França, com a Frente
Nacional, esse caminho, inicialmente seguido, foi depois revertido por
uma razão: não se pode deixar que digam certas coisas sem reação.”
Para Pacheco
Pereira, o erro está precisamente em deixar o espaço público livre para esse
tipo de discurso. “Há uma esquerda que assume uma espécie de snobismo
intelectual - eles são maus, discutem à bruta e, portanto, não se fala com
eles. Sabe qual é o efeito que isso tem? Encontro esse efeito na rua, nas
pessoas que me abordam depois daquele debate”, relatou. “É um número muito
significativo de pessoas que vem ter comigo, que saem da mesa do restaurante
para me cumprimentar. Não são apenas pessoas da elite. São pessoas que
não se sentem representadas.”
Segundo o
historiador, a reação popular ao debate mostrou que existe um sentimento de
vazio no campo democrático perante a ascensão do discurso populista. “Vêm ter
comigo com uma certa dose de emoção e essa emoção tem a ver com o facto de não
se sentirem representadas nesses outros debates”, afirmou, defendendo que o
confronto direto é uma forma de responder a esse mal-estar.
Pacheco
Pereira considera ainda que o frente-a-frente teve uma utilidade concreta:
"expor afirmações de Ventura sobre o 25 de Abril que nunca tinha dito. E
só isso foi uma enorme vantagem”, concluiu Pacheco Pereira, sustentando que o
debate permitiu tornar visível, de forma mais nítida, a leitura que o líder do
Chega faz da democracia saída da Revolução dos Cravos. Ainda que lamente: “O
mais grave é que as frases mais significativas que o Ventura disse,
inclusivamente que o 25 de Abril era miserável, ninguém as reproduziu”.
O pecado
original de Pacheco Pereira
Paulo Guinote, Professor do
Ensino Básico
16 Abr 2026
Não sou dos que
acha que não vale a pena “debater com fascistas”, estando em causa André
Ventura. Porque ele é, antes de mais, um político oportunista, demagogo mais do
que populista (ele só promete tudo às “pessoas de bem”, o que reduz muito o
universo…) e porque, em alguns contextos, é essencial desmascarar as mentiras e
mistificações que algumas figuras apresentam como verdades irrevogáveis e,
nesse particular, Ventura está longe de ser o único mistificador no activo.
André Ventura
só é “fascista” nos momentos em que esse tipo de discurso ou atitude se revelam
vantajosos para a angariação de votos. Ou de apoios de bastidores. Ou de
financiamentos. Porque já o vimos ser um pouco de tudo: cristão devoto (mais ou
menos católico), proto-sindicalista empedernido (do apoio a sindicatos de
polícias, ao esquecido anúncio da criação de uma nova federação sindical),
nacionalista dos quatro costados, a par de atlantista bissexto. Pactua com
grupos neo-nazis, desde que isso não ganhe destaque público e é acérrimo
inimigo dos corruptos, a menos que lhe facilitem ancoragem financeira. Ora,
qualquer “fascista” digno desse apodo teria vergonha de colocar cartazes com
mensagens que depois se tentam reinterpretar de forma manhosa.
O “verdadeiro
fascista” não pratica o toca-e-foge ou o desdisse-o-que disse. Ventura é apenas
um simulacro para os tempos que temos, marcados pela promoção de produtos para
consumo mediático de massas, se possível com aroma a “sangue”, não interessando
se é coerente no percurso, desde que pareça “assertivo” de cada vez que faz uma
curva ou inversão de marcha. Se pode ser perigoso, chegando-se muito ao poder?
Sim, se isso corresponder ao abrir de portas à peculiar confederação de
interesses que congregou graças ao seu sucesso no mercado político-mediático.
Pacheco Pereira
sabe isto, pois foi claro quando declarou que nunca qualificou Ventura como
fascista. Mas equivocou-se ao considerar que um debate entre os dois serviria
para algo mais do que produzir audiências ao canal anfitrião. Porque podem
muitos bater no peito que nunca assistiriam a tal confronto que a curiosidade
mórbida vence quase sempre essas proclamações. O único “vencedor” do debate
foi, pois, a CNN Portugal.
Ao desafiar
Ventura, Pacheco Pereira cometeu um duplo erro de cálculo: concedeu ao seu
interlocutor um estatuto de equivalência intelectual que, gostemos mais ou
menos do trajecto de JPP, muito poucos reconhecem e achou que seria possível
uma espécie de “duelo de cavalheiros”. Achou que apresentando “regras”, isso
impediria o atropelamento no discurso ou o escorregar para a luta na lama
retórica. Acreditou que apelando à apresentação de “factos” isso teria o mesmo
significado para o seu oponente. Considerou que levando livros e documentação
variada conseguiria “provar” uma verdade, cuja validade a outra parte não
reconhece. A Ventura chega um punhado de fotocópias para fazer o seu número e
exibir indignação. Pacheco Pereira pensou que a racionalidade calma venceria a
emoção encenada. Enganou-se.
Todos cometemos
erros, por arrogância intelectual, por inconsciência das circunstâncias ou má
avaliação das qualidades, próprias e alheias. Pacheco Pereira parece não ter
percebido que nada tinha a ganhar com este debate e Ventura nada a perder. Foi
esse o seu pecado original.
Escreve sem
aplicação do novo Acordo Ortográfico
https://www.blogger.com/blog/post/edit/7624295442706210520/3893848410623296261
Ventura sabe que mentiu?
Pedro Tadeu, Jornalista
17 Abr 2026,
No debate,
segunda-feira na CNN, com Pacheco Pereira, André Ventura disse que os políticos
“do sistema” não admitem os crimes políticos do pós-25 de Abril e citou
conclusões do Relatório da Comissão de Averiguação de
violências sobre presos sujeitos às autoridades militares”, o chamado
“Relatório das Sevícias” – mas ao fazê-lo desmentiu-se a si próprio.
Esse relatório,
publicado em julho de 1976, foi elaborado por indicação do Conselho da
Revolução no rescaldo do 25 de Novembro de 1975. Este facto foi omitido por
Ventura.
O documento foi
um instrumento político dos vitoriosos desse último golpe e muito do que lá se
diz não está devidamente sustentado, nem inclui a defesa das pessoas e
instituições acusadas de serem autoras das ditas sevícias. É parcial e
duvidoso, mas, sem dúvida, também conterá verdades.
O ponto central
para esta discussão não é esse. O ponto é que, ao contrário do argumento de
Ventura, o regime democrático que o 25 de Abril criou em 1974 já discutia
abertamente, a nível oficial e menos de dois anos depois, os abusos que o
próprio regime teria cometido, coisa que durante 48 anos de fascismo português
nunca aconteceu – de resto, o dito relatório está disponível, para toda a
gente, no site da Presidência da República, não está escondido.
Portanto,
quando André Ventura afirma que em 50 anos de democracia a classe política
dominante não admitiu a existência de abusos de Direitos Humanos no pós-25 de
Abril está a mentir e contradiz-se quando apresenta como prova um relatório que
até foi elaborado por alguns atores do dia 25 de Abril de 1974, como, por
exemplo, o jornalista Francisco Sousa Tavares.
Outra
manipulação de André Ventura é a de dizer que nunca Salazar e Caetano assinaram
ordens de prisão, o que só teria acontecido no pós-25 de Abril.
Nem Salazar,
nem Caetano precisavam de escrever ordens de prisões políticas porque as davam
verbalmente. Por exemplo, Silva Pais, que foi diretor da PIDE a partir de 1962,
aparece mencionado 119 vezes nas agendas de audiências individuais de Salazar,
que saiu do poder seis anos depois. Dá quase 20 vezes por ano.
Ventura
queixou-se de que houve três mil presos políticos a seguir ao 25 de Abril e que
30 mil pessoas fugiram do país.
Em 1974,
segundo a Comissão de Extinção da PIDE/DGS, havia 3000 agentes da polícia
política e mais de 20 mil informadores (os chamados “bufos”). Se a isto
somarmos vários militares, polícias, membros da Legião Portuguesa, muitas
outras autoridades como governadores civis, ministros, secretários de Estado,
altos funcionários públicos, quadros das comissões de censura, juízes dos
tribunais plenários e alguns outros milhares de pessoas que participavam
ativamente, mesmo de forma indireta, nas estruturas de repressão política do
regime fascista, teremos de perguntar: “Poderia uma revolução que deita abaixo
um regime repressor manter as pessoas que exerciam essa repressão em
liberdade?”
Na verdade, até
seria de esperar que houvesse mais prisões e mais fugas, mas, apenas 17 meses
depois, tal como André Ventura acabou por dizer, quase todos estavam livres ou
começavam a voltar. E isso demonstra a tolerância do 25 de Abril.
Mais de 30 mil
resistentes e patriotas não tiveram essa sorte durante o fascismo. Álvaro
Cunhal, por exemplo, amargou mais de 11 anos na cadeia e só se libertou porque
fugiu do Forte de Peniche. Esteve 14 anos fora do seu país... até ao 25 de
Abril.
Como é que se
pode comparar uma coisa com a outra?!
terça-feira, 14 de abril de 2026
Em tormo do 25 de Abril, entre Pacheco Pereira e André Ventura
Uma palmatória, comparações
"absurdas" e "traições à pátria": o debate entre Pacheco
Pereira e Ventura sobre presos políticos
Uma frase de Ventura que levou os deputados constituintes a abandonarem uma sessão no Parlamento levou a um debate tenso, longo, com relatórios pelo meio e até uma palmatória.
Mariana Lima Cunha. Texto
14 abr. 2026
A premissa era simples: contrariar
a ideia, lançada por André Ventura na sessão solene pelos 50 anos da
Constituição portuguesa, de que houve mais presos políticos a
seguir ao 25 de Abril do que (imediatamente) antes. O repto foi lançado por
Pacheco Pereira, Ventura aceitou, e o que se seguiu foi 1h20 de debate (e
alguns gritos) em que os dois discutiram as prisões, a descolonização e a
corrupção durante a ditadura portuguesa, com diferentes armas: muitos livros,
um dossiê com relatórios e uma palmatória, levada por Pacheco
Pereira para ilustrar as torturas levadas a cabo pelos portugueses nas antigas
colónias.
O debate organizado pela CNN andou
sempre à volta da mesma ideia: André Ventura queria defender que houve prisões
políticas e tortura no período da transição para a democracia, o que
significaria que nem tudo na democracia é bom e “nem tudo [na ditadura] foi
mau”; Pacheco Pereira considerava a comparação “absurda”, uma vez
que punha em confronto as prisões, torturas e outras restrições às liberdades
que aconteceram durante 48 anos de ditadura e a “turbulência própria” dos meses
seguintes, a que se pôs termo com a normalização do regime democrático.
O líder do Chega explicou
inicialmente que o que “quis dizer” no dia da sessão da Constituição foi que
especificamente no dia 24 de Abril de 1974 havia menos presos
políticos em Portugal do que haveria uns meses depois, referindo-se também aos
expatriados que foram “perseguidos pelos novos donos de sistema”. Falou da
forma como cresceu em Mem Martins, sem “privilégio”: “Estou à vontade para dizer:
o sistema anterior errou mas o que veio não trouxe naqueles meses tudo de bom.
Eu gostava era de ter uma democracia plena, em que não houvesse
presos políticos e torturados e expropriações”.
Ouça
aqui a reportagem da Rádio Observador
Além disso, Ventura arrancou o
debate contestando a ideia de que todas as pessoas presas nas colónias fossem
presos políticos, mostrando as imagens de bebés mortos pela UPA em 1961 e
defendendo que alguns presos o foram por estarem a “atacar os
nossos militares”.
“Você mete-se em cada sarilho…”,
cometou Pacheco Pereira, lembrando o número de presos a 24 de Abril — 127 em
Portugal continental, 4249 nas colónias — e lembrando também que o número de
guerrilheiros presos era relativamente baixo, até porque muitos eram
executados; grande parte dos presos seriam “enfermeiros, funcionários dos
correios, pastores protestantes, professores, estudantes aliciados a
regressarem a Portugal”. Além disso, argumentou, quem se defendia da “ocupação
portuguesa” deveria ser considerado preso político. “Se Espanha invadisse
Portugal o que fazia? É uma atitude política”, frisou. “Como bom
nacionalista que é, admite que estavam a lutar pelo seu país”.
Por entre ataques vários — “hoje
não tem aqui a Alexandra Leitão, é o André Ventura”; “Eu gosto muito do meu
país, em muitos aspetos mais do que o André Ventura” — os debatentes foram
comparando números e também os castigos corporais que
existiram, em muito maior número durante o Estado Novo. “Trouxe uma palmatória
que era usada nos castigos corporais”, mostrou Pacheco Pereira, lendo
descrições de torturas da PIDE em Moçambique: “Violação anal com
garrafas, mutilação do pénis com queimaduras, choques elétricos, suspensão do
tecto de cabeça para baixo, Sabe qual é o problema? É que estes são pretos.
Eram tratados como sub-homens. Vários deles desapareceram. Estas
violências eram sistemáticas e aconteceram durante todo o período do império
colonial”.
Já Ventura leu as descrições de
torturas que aconteceram já depois do 25 de Abril, incluindo de “carpinteiros,
comerciantes, advogados e reformados, pessoas que discordavam da
extrema-esquerda”, e ironizou: se a ditadura era “tão feroz”, não
poderiam existir apenas “cento e tal presos em Lisboa” (número que se referia
apenas à véspera do 25 de Abril).
“Podemos concordar que tudo o que
é tortura é mau, mas não me venham com a história de que a violência de direita
é má e a de esquerda é boa”, foi repetindo o líder do Chega, enquanto o
historiador defendia que há “comparações que são elas próprias mentira“,
como a que Ventura faz entre 48 anos de ditadura e os dois anos posteriores. “É
tão pontual que é incomparável”, disse, frisando que não nega que tenha havido
violência e tortura já no período da liberdade, mas que a da ditadura foi “sistemática”.
“Sabe o que são 48 anos de tortura sistemática, de humilhação das pessoas
comuns, de violência, de censura? Isso cria uma situação em que a transição
portuguesa, mesmo com esses casos, foi relativamente pacífica. Deixou uma
enorme herança de vingança e ressentimento“.
Inevitavelmente, a
discussão passou por nomes particularmente controversos — Pacheco Pereira
descreveu Marcelino da Mata como um “assassino” que se
“gabava” de matar homens, mulheres e crianças, Ventura respondeu que Otelo
Saraiva de Carvalho é que era “um assassino e um bandido”. Ventura
defendeu que PCP e UDP deviam pagar as “expropriações erradas” do pós-25 de
Abril e que em toda a ditadura não se encontra uma ordem de Salazar ou Marcelo
Caetano para mandar prender alguém — não precisavam, já que
tinham uma polícia política ao dispor, contrapôs o historiador.
Houve ainda tempo, num debate com
mais meia hora do que o anunciado, para falar da descolonização,
que Ventura considerou “criminosa” (“Queriam tanto a independência e hoje estão
a vir para cá viver”) e para Pacheco Pereira concluir que o interlocutor
“justifica a ditadura”. “Com esse tipo de afirmação de extrema-direita, [o
Chega] é um partido fascista“. “Eu nasci em 1983, não quero saber
da ditadura para nada”, respondeu Ventura. “É a história da Humanidade, temos
de estar do lado da nossa pátria”, exclamou, confrontado com o número de
pessoas mortas na guerra colonial.
Com Pacheco Pereira a culpar
Salazar pelos erros na descolonização, Ventura acusou-o de “trair a
sua pátria”. “Devíamos ter tido uma transição democrática, não comunistas a
assaltar o poder. Os senhores, incluo-o a si, estavam tão cheios de chama do
espírito de comunista não olharam a meios. Por isso Portugal está na cauda da
Europa”. “Essa ‘revolução miserável’ deu a liberdade a Portugal e para dizer o
que diz. Quem lutou contra a ditadura lutou por Portugal. Eu amo o
meu país”, respondeu Pacheco Pereira.
A discussão passou ainda pelos
grupos terroristas de extrema-esquerda e extrema-direita após o 25 de Abril,
tendo a ELP “beneficiado” da condescendência “gigantesca” das
autoridades e sido, como as FP-25, “amnistiada com a ideia de
que se ia pacificar a sociedade”. Os últimos, frisou Pacheco Pereira, chegaram
a ser condenados porque “a democracia nessa altura estava a funcionar”.
Ainda houve tempo para uma breve
incursão pelo tema da corrupção, com Ventura a dizer que na
ditadura “havia corrupção como agora há” — “Então porque é que não pôs um
cartaz a dizer 100 anos de corrupção?”, questionou Pacheco Pereira,
referindo-se ao cartaz em que o Chega diz que já lá vão “50 anos de corrupção”
— isto é, referindo-se apenas ao tempo de democracia. Ventura acabou por dizer
que “Sócrates roubou muito mais do que Salazar” e que o “sistema
está podre de corrupção”, acabando por prometer que se tivesse nascido mais
cedo, no tempo da ditadura, lá estaria também a lutar contra o problema.
A troca de acusações final teve a
ver com cristianismo — “eu sou ateu”, disse Pacheco Pereira; “faz mal”,
respondeu Ventura”; “o seu partido é o mais anticristão. Não há uma
declaração dos dois últimos Papas que não seja diretamente contra as posições
do Chega na imigração”, atirou o historiador; “Não me dá lições de cristianismo
porque fazemos (…) luta contra a islamização”, respondeu o líder partidário.
Teriam continuado por ali fora, mas já não havia mais tempo.






.png)

