Mostrar mensagens com a etiqueta Cavaco Silva. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Cavaco Silva. Mostrar todas as mensagens

segunda-feira, 11 de março de 2024

Banqueiros, governo psd/cds e fascismo



 
quarta-feira, 5 de julho de 2023


Quando dava o fanico a Cavaco, o BES já em falência e o governo aumentava a austeridade e a repressão, se previa o desaparecimento do CDS, a vitória do PSD sem maioria e a possibilidade do PS ir para o governo e mais tarde a necessidade de maioria absoluta. Estávamos em 2014

Banqueiros e governo almejam o fascismo

Foi o presidente do BPI, como tem sido habitual em situações semelhantes, um dos primeiros a vituperar a decisão dos juízes do Tribunal Constitucional em chumbar as normas ilegais da Lei do Orçamento de Estado que levaram aos cortes dos salários dos trabalhadores da função pública, utilizando argumentos falaciosos, em sentido análogo ao dos governantes e dirigentes do psd, querendo justificar os interesses da classe dos banqueiros a todo o custo. Custo da política de austeridade que continua e irá redobrar no horizonte mais próximo, certo e sabido até 2019 (é o incontornável governador do Banco de Portugal que o afirma, mais uma vez bota palavra), e assacado ao povo português.

Conta que irá agravar-se, nem que seja por razões “nacionais”, por exemplo, o banco do regime, o também inconfundível BES, desvenda mais um pouco o buraco em que se encontra: o BES Angola apresenta um rombo de 5,7 mil milhões de dólares, resultante de empréstimos concedidos a altas figuras do regime corrupto daquele país, mas que a gerência diz não saber bem onde foi parar o dinheiro, numa demonstração clara de impunidade e de confiança de quem alguém (o povo português e possivelmente o povo angolano) irá pagar o desfalque.

O fascismo é o governo exercido pelos banqueiros

Nunca se tinha visto banqueiros e governadores do BdP, para além dos habituais economistas, ex-ministros e outros comentadores/paineleiros, a botar faladura com tanta frequência e prosápia sobre política e, principalmente, sobre as contrariedades governativas. Os argumentos são mais que falaciosos, são demagógicos, mentirosos, deliberadamente confusos e enganadores para a opinião pública.

Argumentar que o TC está a imiscuir-se na actividade legislativa e que “assuntos económicos” não são da sua competência, e vão para além da questão jurídica, é dizer, através de uma fraseologia pretensamente técnica, que vale tudo, que o Parlamento, nas mãos do executivo, pode decidir a bel-prazer, ou seja, se pode governar em ditadura, desta vez sem fechar o Parlamento como já aconteceu em outros períodos de profunda crise política da história do povo português, estamos lembrados da ditadura de João Franco, em véspera do regicídio e do imediato fenecimento da monarquia.

Não há dúvidas de que os banqueiros controlam abertamente o governo, sem intermediários e disfarces, só falta serem eles os ministros, como acontece na actual fascista Ucrânia em que os principias governantes, desde o Presidente da República recentemente eleito em eleições fantoches aos governadores das regiões, são os indivíduos mais ricos do país, enriquecidos, diga-se de passagem, pelo saque das empresas públicas que foram “vendidas” dez vezes mais baixo que o seu real valor.

E se há partidos e gente que faz o frete não será somente por serem corruptos e de estarem à espera de boa recompensa em lugares de conforto nos conselhos de administração dos bancos e de outras empresas que enriqueceram à custa dos negócios com o estado, mas porque a nossa burguesia e os partidos que a servem fizeram profissão de fé aliarem-se ao grande capital financeiro europeu, com o alemão em posição dominante, com o duplo objectivo de sobreviverem e de sobre-explorarem os trabalhadores e o povo português.

Os fanicos do senhor Silva




Enquanto o povo caminha a passos largos para a miséria e o país para bancarrota, sendo indisfarçável a necessidade de um segundo resgate e daí o preparar da opinião pública para tal, ao PR senhor Silva dá-lhe o fanico em situação de contestação pública e em dia de comemoração da “raça”, e ao PS, o “principal partido da oposição”, dá-lhe a guerra intestina pela disputa do pote e para salvação do regime e dos banqueiros e capitalismo nacionais.

O fanico do senhor Silva, ao que consta é o terceiro (e não o segundo, o primeiro foi quando os estudantes uma vez irromperam pelo gabinete quando era professor) desde que se meteu na política, vale pelo simbolismo, ele é também a falência do governo psd-cds e do próprio regime de democracia de opereta. Os espasmos vagais são resultantes não de uma hipotética doença de Alzheimer, como alguém quer fazer crer, mas próprios de personalidades histriónicas que não admitem a contrariedade nem a frustração, são expressão de um mau carácter, de quem deseja e prepara o fascismo; que bem pode vir pela mão de um ps, com ou sem o Costa.

Porque a revolta do povo a isso obrigará, fazendo com que a burguesia adopte formas de governo mais musculadas que, por sua vez, irão precipitar e provar sem margem para dúvidas que a única alternativa que os trabalhadores têm para a saída da crise do capitalismo é o socialismo.

Enquanto se adensam no horizonte próximo as nuvens da austeridade levada a expoente máximo, o tal de “principal partido da oposição” desintegra-se em disputas internas em vez de envidar todos os esforços e recursos para o derrube do governo fascista psd/cds. Contudo a verdadeira natureza das pretensas divergências internas torna-se clara e evidente: não se pretende um ps com uma direcção forte para fazer inverter a 180 graus a política defendida e aplicada pelo psd/cds, mas para impor a mesma política em grau redobrado.

O PS como tábua de salvação do capitalismo

Não será um ps sem maioria absoluta, e com a impossibilidade de se aliar mais uma vez com o cds, que irá ser reduzido à sua expressão mais simples em termos eleitorais, que conseguirá colocar em prática as medidas económicas que mantenham ou venham mesmo aumentar a exploração do povo português para salvação do capitalismo nacional e para benefício dos lucros e da concentração do grande capital financeiro europeu e internacional (norte-americano, mais precisamente, via FMI).

O partido que foi fundado pelos herdeiros da I República e com os marcos da social-democracia alemã será ainda o único capaz de trazer de novo o apoio da dita “classe média” causticada pela política de austeridade do governo ainda em funções a uma política de pretensa “salvação nacional”, mas para tal precisará de maioria absoluta. O resultado das eleições europeias revelaram que não só o ps não consegue formar governo sozinho, como o cds irá desaparecer do mapa, como o psd também pode ganhar as eleições mas também sem maioria e sem possibilidade de repetir a aliança com o actual parceiro, e que só duas saídas estarão disponíveis: ou a aliança de ps com psd, tão de agrado do senhor Silva e de alguns altos dirigentes do ps, ou ps terá de criar uma maioria que não sabemos como conseguirá atendendo a que o povo português, apesar de ser acusado frequentemente de amnésia, ainda está bem recordado do que foi o governo ps/engº Sócrates.

Caso o Costa de Lisboa alcance o poder dentro do partido e venha a ser o primeiro ministro de Portugal a seguir a 2015, e as eleições terão que ser realizadas na data prevista para que haja tempo para o assalto ao castelo, daí o ps nunca se ter empenhado em derrubar o governo, virá a revelar-se um “filho da puta” (estamos a falar em termos políticos, como é óbvio) muito parecido senão pior que o dito “engenheiro Sócrates”. Ele igualmente bom para ir buscar o fascismo, pese o rótulo de “democrata” colado pela extrema-esquerda, ansiosa de também aceder à gamela do orçamento e do aparelho da administração burguesa.

São mais que numerosos os sinais enviados pelo psd/cds e seus amos banqueiros para o regresso do fascismo em Portugal e em curto prazo de tempo. O senhor Silva não enviou a Lei do Orçamento para o Tribunal Constitucional porque os pareceres que lhe apresentaram não detectaram qualquer inconstitucionalidade e o senhor Coelho depois do chumbo do TC quer mudar os critérios de nomeação dos juízes daquela instituição apesar de dos 13 juízes 10 serem de nomeação partidária. É o oitavo chumbo do TC, os dirigentes dos psd e cds eriçam-se porque não podem cumprir a tarefa de transferência da riqueza do trabalho para o capital sem obstáculos, querem tomar as medidas que bem entendem, fazendo do Parlamento, o órgão por excelência e símbolo da democracia dos cravos, um simples ornamento.

O fascismo é sempre bem-amado pela elite

Querem o fascismo, a acumulação do capital não se compraz com democracias quando se tornam um estorvo, estas servem só na justa medida em que permitem uma mais fácil ilusão dos trabalhadores a fim de se deixaram explorar mais docilmente. Quando isto começa a deixar de resultar, então o mais prático e rápido é o fascismo; a Ucrânia é neste momento a melhor prova desta mudança de actuação do grande capital. E a exemplo do que se passa na União Europeia, onde os órgãos eleitos mais não passam de decoração de um regime autoritário onde tudo o que é essencial é decidido em órgãos não eleitos. Razão que justifica em grande medida a enorme abstenção nas eleições do passado dia 25 de Maio.

E a par da abstenção assistiu-se à subida dos partidos da extrema-direita e dos ditos eurocéticos, em geral, que, no dizer de certa esquerda nacional (resistir.info) até apresentou “propostas perfeitamente razoáveis, corajosas e até meritórias”, ou seja, o caminho a seguir será o da “saída do euro, defesa da indústria nacional, ruptura com a globalização e a independência”, tout court. 

Em suma, entre a extrema-direita e a esquerda que ainda se arvora oficialmente do comunismo, como é no caso presente, não há diferença de monta, depois não venham queixar-se da ascensão eleitoral dos partidos da extrema-direita e a quebra (ou inútil ténue subida) dos PC's ortodoxos de ex-tendência soviética, já para não falar do quase desaparecimento de BE's (o grego Syriza será a excepção, porque ocupando o lugar do Pasok). Esta gente, e não terá sido só o ps, meteu o socialismo na gaveta, e pior ainda, enfiaram o socialismo e o comunismo em cova bem funda, ficando-se pela social-democracia, o quer dizer, o aperfeiçoamento e regulação do capitalismo, de preferência, um capitalismo com cor nacional; que é onde conduzem as medidas avançadas por um FN da família le Pen.

O caminho é o socialismo/comunismo

Quando o capitalismo se encontra na sua fase última de vida, em estertor que, e apesar e por isso mesmo, pode ser demorado e doloroso para o mundo do trabalho, esta gente não aponta abertamente para uma solução socialista, porque presas aos medos e complexos da classe de onde provém a maioria dos dirigentes destes partidos, a classe média, melhor dizendo, a pequena-burguesia que tem mais medo do comunismo que do fascismo. Querem pôr a roda da história a andar para trás, depois não venham queixar-se do regresso do fascismo ou de soluções populistas, do género Marinho e Pinto, que a prazo conduzem ao mesmo.

O caminho é o do socialismo/comunismo e não das pretensas “democracias do século XXI” ou das “revoluções democratas e patrióticas” chinesas, como se a situação na Europa meridional e periférica (PIIGS) fosse ainda semelhante à que existia no mundo não industrializado da primeira metade do século passado. Neste mundo globalizado capitalista a alternativa é o socialismo/comunismo, não há etapas intermédias, estas servem para empatar e dar mais fôlego à burguesia e prolongar o capitalismo. Cada vez mais se sente a necessidade de uma alternativa socialista e revolucionária, ou seja, o comunismo.

15 Junho 2014

www.osbarbaros.org

Postado por O BÁRBARO às 14:53 
https://cronicasdobarbaro.blogspot.com/2023/07/banqueiros-governo-psdcds-e-fascismo.html

quarta-feira, 10 de abril de 2019

João Ramos de Almeida - O carácter de Cavaco



QUARTA-FEIRA, 10 DE ABRIL DE 2019

Estive vai-não vai para escrever um post parecido com aquele que o Diogo Martins escreveu sobre o eleitoralismo de Cavaco. Mas depois achei que me bastava ver a pasta de dentes na boca do Ricardo Araújo Pereira (7'30'').

Acrescento só três coisas. Duas curtas e uma longa.

1. Nas suas memórias, Cavaco Silva omite a sua própria participação, como ministro das Finanças de Sá Carneiro, na adopção das medidas eleitoralistas previstas para as eleições de 5 de Outubro de 1980 e descritas no post do Diogo Martins. Pior: dá a entender que a responsabilidade foi, sim, do finado - e portanto incomunicável - primeiro-ministro e do igualmente morto João Morais Leitão (ministro dos Assuntos Sociais), que o tentaram convencer.

"Recordo-me de ele ter organizado  um almoço no Restaurante Tavares, comigo e com o ministro dos Assuntos Sociais, João Morais Leitão, para me convencer a aceitar um aumento extraordinário das pensões de reforma"

E - malvados! - conseguiram. Conseguiram desviar um pobre técnico ingénuo. E isso diz alguma coisa do carácter de Cavaco Silva. Estranhamente, Cavaco Silva esquece-se do rol de medidas que foram aprovadas então, nomeadamente a revalorização do escudo, num contexto de arrefecimento da procura externa, o que iria agravar o défice externo, numa conjuntura já negativa.

2. A prazo, os efeitos desastrosos das medidas eficazes do ponto de vista eleitoral contribuíram para justificar a intervenção externa do FMI. Mas quando o Banco de Portugal se apresentou para negociar a carta de intenções com os técnicos do FMI, Cavaco Silva - já à frente do Departamento de Estudos e Estatísticas - esquivou-se e mandou seguir a directora Teodora Cardoso, evitando assim  ser confrontado com os disparates que fizera enquanto ministro. Outra boa prova do seu elevado carácter.

3. E finalmente a mais longa. Mas é apenas para os mais resistentes.

Ler citações, artigos e memórias do então primeiro-ministro sobre o seu passado na década de 80, quando Cavaco Silva decidiu ser um político, é assistir a uma remontarem de um filme. Faltam imagens, foram apagadas. Há silêncios e omissões.

Em Setembro de 1978, com 39 anos, Cavaco afirma que assistiu ao 34º Congresso do Instituto de Finanças Públicas  e que o debate o entusiasmou. A tal ponto, que tentou sistematizar "as razões do falhanço da escolha pública que se podem considerar associadas à actuação dos políticos".
"A ideia do político como criatura dedicada à prossecução dos interesses da sociedade como um todo é hoje considerada um mito pela generalidade dos economistas", escreveu ele citando uma intervenção de James Buchanan em Lisboa, nesse mesmo ano (Políticos, burocratas e economistas, Revista Economia).   

Toda a sua vida, ele seria isso: a execução prática de uma linha de pensamento contra a ideia política dos políticos se assumirem como políticos, em defesa de um interesse colectivo. Um manipulador que finge não o ser, afirmando-se apenas como um espírito puro, ingénuo. Cavaco seria apenas mais um a executar a linha política de um combate fortemente marcado pelo anticomunismo da  Guerra Fria, baseado na ideia estúpida de que, egoistamente, se cada um pensar apenas em si, conseguirá defender melhor a sua comunidade...

Veja-se o documentário The Trap

O estranho é que, na altura em que escreveu este paper, Cavaco Silva está já embrenhado na vida política aos mais alto nível. Conhecia os políticos, ouvia-os, falava com eles, discutia com eles pontos de vista, encontrava-se mesmo à beira de ser nomeado ministro das Finanças do Governo de Sá Carneiro. Estava, ele próprio, à beira de se tornar um político profissional.

Cavaco conta na sua autobiografia (1) que, em Maio de 1974, pouco depois do 25 de Abril foi convidado por Alfredo de Sousa "para participar numa reunião de economistas e outros profissionais ligados ao PPD que acabara use de ser fundado por Francisco Sá Carneiro, Francisco Pinto Balsemão e Joaquim Magalhães Mota". O objectivo era "discutir a situação económica portuguesa e as políticas que deviam ser adoptadas". Cavaco Silva foi. "Aceitei o convite pela vontade de dizer o que pensava sobre o tema, mas também por uma certa curiosidade em relação ao novo partido". Claro que sim.

Mas a sua curiosidade e entusiasmo tornam-se em militância política. "Fui ao Pavilhão dos Desportos, em Outubro de 1974, assistir ao primeiro comício do PPD em Lisboa e deixei-me contagiar pelo entusiasmo que envolveu os oradores. Participei em várias reuniões do gabinete de estudos do partido dirigido por Alfredo de Sousa e António Pinto Barbosa, ajudando a preparar os documentos sobre política económica, inclusivé textos para o programa do partido, que foi aprovado em Novembro de 1974 que teve lugar em, Lisboa. Fui designado para participar no congresso, em representação do gabinete de estudos, mas acabei por não estar presente devido à morte do pai da minha mulher, cujo funeral foi no Algarve". E foi se entrosando ainda mais. "Assisti a várias reuniões em que os ministros do PPD ou dirigentes do partido faziam a análise da situação política".

E tanto participa em reuniões, mesmo de militantes, que é - pasme-se! - convidado para ser deputado nas eleições para a Assembleia Constituinte em Abril de 1975. Mas recusa - "nem pensar nisso" - porque queria continuar a sua carreira académica.

Em Setembro de 1976, Cavaco Silva filia-se no PPD "com alguns colegas da Universidade". Porquê? "A motivação fundamental era ajudar a construir uma força partidária que pudesse travar a onda de loucura em que o país parecia mergulhado e defender ideias políticas do tipo das que dominavam nos países da Europa democrática, adaptadas à realidade portuguesa".

Recorde-se que nessa altura, já pós- 25 de Novembro, era Mário Soares primeiro-ministro, embora Carlos Mota Pinto participasse no governo.

Cavaco Silva estava, pois, muito activo. Cruza-se várias vezes  "nas escadas e salas da sede do PSD, primeiro no Largo do Rato e depois da Duque de Loulé", com Sá Carneiro e outros dirigentes. Cruza-se nas escadas, mas não passa despercebido. "Eles foram tomando conhecimento da minha existência pelas qualidades de economista e, também, pelas minhas análises que fazia em sessões de esclarecimento partidário". Tanto assim que Sá Carneiro, depois do seu regresso à presidência do PSD, no congresso de Julho de 1978, passou a chamá-lo "de vez em quando". "Penso que, por sugestão, do Dr. Loureiro Borges, administrador do Banco de Portugal, para me ouvir sobre as questões económicas nacionais".

No verão de 1979, o PSD começou a tornar-se um partido com possibilidade de chegar ao poder. Cria-se a Aliança Democrática com o CDS e o PPM. Em Outubro desse ano, Sá Carneiro chama-o ao seu gabinete e, depois de uma prelecção sobre a situação política, convidou-o para ministro das Finanças, caso a AD ganhasse as eleições. Cavaco diz que foi "apanhado de surpresa" e recusa. Mas não o deve ter feito de forma muito peremptória porque Sá Carneiro "não ficou muito convencido" e disse-lhe que depois se falaria nisso. E assim foi. A AD ganha e uma semana depois já estava Sá Carneiro a ligar-lhe, sabendo Cavaco ao que ele vinha. "Convidou-me para ministro das Finanças e, brilhante como era na argumentação, foi contrariando as minhas objecções". Que objecções eram essas? Nada se diz. "Embora com algumas hesitações, a minha inclinação era para não aceitar o convite". Apesar disso, pediu mais tempo para pensar. Não lhe apetecia mesma nada... E "foi com este estado de espírito que cheguei a casa de Sá Carneiro às 18h do dia 11 de Dezembro de 1979 para uma segunda conversa". Cavaco nada conta sobre o que se passou naquele final de tarde, mas sabe-se o que aconteceu depois.

A sua experiência como ministro dá a entender que ele era muito rígido para os seus colegas e que os restantes políticos apenas queriam ganhar as eleições, inclusivamente o primeiro-ministro.

"Beneficiei sempre de um apoio inequívoco da parte do primeiro-ministro, mas algumas vezes ele deve ter pensado que eu era demasiado exigente e pouco flexível e que não tinha em devida conta a importância das eleições de Outubro de 1980 para a concretização do projecto da AD e até para as orientações que eu defendia pudessem ser levadas à prática
".

Mas claro a culpa foi de Sá Carneiro com aquela ideia de aplicar medidas eleitoralistas. "Recordo-me de ele ter organizado  um almoço no Restaurante Tavares, comigo e com o ministro dos Assuntos Sociaia, João Morais Leitão, para me convencer a aceitar um aumento extraordinário das pensões de reforma". Ora aí está!

Mas qual foi a conclusão do almoço? Cavaco omite esse pormenor nas suas memórias. Numa entrevista que deu ao seminário Tempo, a 31/12/1980, Cavaco afirmou: "Eu tenho um estilo próprio de exercer o cargo de ministro, estilo esse que se caracteriza mais ou menos pelo seguinte: uma grande preocupação com o rigor e de fundamentação nas decisões; uma exigência para comigo próprio e com os outros; e renitência em deixar-me influenciar por pressões, quando penso que essas pressões não se situam na linha mais adequada para o país".

Cavaco deve, pois, ter sido obrigado, porque a medida foi aprovada, como todas as outras: aumento de salários da Função Pública, melhoria das prestações sociais, estímulos à procura interna, também através do alargamento do crédito, revalorização do escudo facilitando a importação e dificultando as exportações (numa altura de contracção da procura externa). Teria ele pensado que poderia manipular a economia e depois compensar as medidas de forma inversa? E que teria tempo para isso?  Se foi isso, a ideia correu mal.

A AD ganha as eleições e cinco dias depois Cavaco Silva, segundo ele, impôs fortes condições para aceitar ser ministro. A política económica não podia ser aprovada contra o seu parecer. "Passarão a ser assinados pelo ministro das Finanças (para além do primeiro-ministro) nos termos da letra e do espírito do artigo 11º do DL 49-B/76 todos os diplomas que envolvam aumento de despesas. Como corolário, tais diplomas não deverão ser agendados para Conselho de Ministros antes de obtida a concordância do ministro das Finanças (...) Independentemente dessas condições, quero ainda deixar claro que não permanecerei no governo se se vier a desenvolver uma atitude de hostilidade para comigo da parte da maioria dos membros do Conselho de Ministros".

A negociação é interrompida com a morte de Sá Carneiro em Dezembro de 1980. "Fiquei surpreendido, mas também lisonjeado quando verifiquei que o meu nome também era mencionado, embora com pouca consistência" para a sucessão de Sá Carneiro.

E deve ter ficado de alguma forma desiludido quando o governo seguinte passa a ser coordenado por Pinto Balsemão, que prefere para ministro das Finanças, primeiro João Morais Leitão e, desde Setembro de 1981, João Salgueiro. E todos viram-se a braços com as consequências das medidas adoptadas. Sobre si próprio, Cavaco afirmou - sem explicar - que, no princípio de 1981, tinha uma boa imagem política porque "os resultados conseguidos tinham contribuído muito para a vitória da AD" (2).

O próprio Cavaco sai, desejoso de voltar: "Ao sair da pasta das Finanças, trouxe comigo um interesse pela política maior do que aquele que tinha quando entrei para o Governo de Sá Carneiro, nos primeiros dias de Janeiro de 1980", ou seja, um ano antes.

E não se ficou pelo desejo. Quis à viva força recuperar o palco perdido. Balsemão não deve ter enobrecido as posições de Cavaco Silva e Cavaco Silva fez-lhe a vida negra.

"No período de 1981/82, deixei-me envolver na vida partidária, mundo que eu conhecia mal e acumulei erros e desilusões". Ah o político mal amado. Detesta esse mundo, mas sente por ele uma rara atracção. Em 1990, pintou esse período de outra forma. Diz que fez uma "travessia do deserto político de 1981 a 1985" e que "remete-se por iniciativa própria a uma acção política o mais discreta possível" (3). As suas memórias pormenorizam essa discreta travessia.

"Aceitei ser delegado ao primeiro congresso nacional do PSD depois da morte de Sá Carneiro" que se desenrolou em Lisboa, no Pavilhão dos Desportos, em Fevereiro de 1981. Entra na lista de Eurico de Melo contra o governo Balsemão. "Foi aí que fiz o meu primeiro discurso em congresso do partido""O meu envolvimento partidário foi ainda reforçado pela eleição em Abril de 1981 para presidente da Assembleia Distrital da Área metropolitana de Lisboa""O facto de ter apresentado ao congresso do PSD uma lista para o conselho nacional fez com que, no ano de 1981, me envolvesse bastante na vida partidária, não que tivesse descoberto uma vocação nesse sentido, mas porque, face à degradação da situação política, sentia uma certa responsabilidade perante os muitos militantes que expressavam, confiança em mim e Son haviam com uma alternativa à liderança do partido". Claro que sim!

Cavaco nega que tenha conspirado contra Balsemão ou feito jogos bizantinos de corredor. O que havia era "militantes que comigo trocavam impressões". Era o caso de Eurico de Melo, Montalvão Machado, Amândio de Azevedo, Rui Amaral, Rui Almeida Mendes, António Maria Pereira, Fernando Correia Afonso, Apolinário Vaz Portugal, Helena Roseta, Manuela Aguiar, Pedro Santana Lopes, Dinah Alhandra e outros. "Eram os chamados críticos que foram objecto de ataques violentos dos apoiantes de Pinto Balsemão". Mas não havia facção, nem acção organizada, assegura Cavaco.

Só que no conselho nacional de 8 e 9 de Agosto de 1981, Pinto Balsemão apresentou demissão de primeiro-ministro e a comissão distrital de Lisboa propôs o nome de Cavaco Silva. Cavaco diz ter recusado, "apesar das pressões a que fui sujeito". E Pinto Balsemão é de novo reconduzido a 16/8/1981. Aproximava-se uma bernarda económica e aquele não era ainda o momento. Cavaco volta a assegurar que não conspirou. Só que nas suas memórias lá está a sua ida ao Congresso de Dezembro de 1981: "Antes tive duas conversas com Pinto Balsemão, a seu pedido. Falou-me da composição dos órgãos a serem eleitos, procurando evitar que eu apresentasse uma lista própria para o conselho nacional, o que ele considerava uma atitude de confronto". Estavam bem um para o outro: um a querer derrubar o adversário, e este a não querer concorrentes...

Cavaco não apresenta listas, o que - apesar de não estar a conspirar - "frustrou muitos militantes que viam em mim uma alternativa". Mas por que não queria intervir se a correlação de forças até lhe era favorável? "Não queria servir de alibi para as dificuldades que o Governo e o partido enfrentavam e" - atenção a um argumento recorrente em muitos baixos do ciclo económico - "desejava afastar-mãe da vida partidária activa. Estava cada vez mais absorvido na minha actividade profissional no Banco de Portugal, na Universidade e também no conselho nacional do plano".

Apesar disso, não parou. "Discretamente, eu trocava impressões com algumas pessoas, em particular com Eurico de Melo e fazia algumas intervenções, umas mais tºecnicas e outras mais políticas, em reuniões e jantares de militantes, procurando ser cuidadoso nas críticas em relação ao Governo"."Dois dos meus colaboradores - o chefe de gabinete, José Veiga de Macedo, e lo adjunto, Rui Carp - eram entusiastas da política e sonhavam com uma intervenção mais activa da minha parte". Ele tudo geria. Em 1982, segundo a comunicação social, Cavaco estava a liderar a oposição interna ao Governo. Num jantar em Vila Nova de Gaia, Cavaco fez um discurso, uma conferência política, em que defendeu que as eleições autárquicas eram um sinal claro para a gestão governamental e serviu para mais umas alfinetadas a Balsemão.

Face à figura fraca do PM e a sua tibieza, com a sua dificuldade em respirar, Cavaco fez um retrato oposto, parecido consigo mesmo: "Para que um governo tenha êxito (são coisas amplamente conhecidas) é preciso preencher várias condições e uma delas é conseguir uma imagem de força, de coerência e de capacidade para resolver os problemas do país, É preciso coordenação entre os vários departamentos ministeriais para fazer emergir o governo como um todo e não como uma federação de ministros e secretários de Estado""Eu, como ministro, nunca iria à televisão falar de aumentos de preços. Eu, como ministro e como economista, só posso ir à televisão dizer que os preços vão subir menos. É óbvio que um ministro não pode dizer que os preços vão subir. Tem de dizer que vão baixar (...) Um ministro não pode dar uma conferência de imprensa dizendo hoje que os preços dos transportes aumentam e que se preparem porque em Setembro vão aumentar outros preços (...) Isso é a mesma coisa que dar duas bofetadas a um miúdo e dizer-lhe 'Não te esqueças que daqui a uma semana levas mais duas'"Ou ainda, revelando ser a pessoa que conhece a altura certa: "É preciso imprimir um ritmo e uma dinâmica apropriada à governação. É preciso saber qual é o tempo adequado para cada coisa no Governo. É o chamado timing. Uma das coisas mais importantes em governação é o tempo" (4).    

Nada destes momentos surgem na autobiografia. O seu texto perde o colorido cru do momento. Apenas revelam uma calma que não existia na altura. "Em Julho de 1982, convicto de que a vida político-partidária e a situação económica continuavam a degradar-se perigosamente" - ou seja, ano e meio de ter deixado o governo -"publiquei uma carta aberta com Eurico de Melo". E assim continuará até Maio de 1985, quando já se pressentem as melhorias económicas, pós intervenção do FMI. E o timing chegara.

"Aceitei no entanto o convite de alguns militantes da minha secção para integrar uma lista de delegados ai congresso nacional que fora convocado para meados de Maio de 1985, no Casino da Figueira da Foz (...). Fui eleito como número dois de uma lista encabeçada pelo presidente da secção D da área de Lisboa, mas mantive-me afastado das discussões". Quem acredita nisso? Faz contactos com Freitas do Amaral para preparar a sua proposta de candidatura à Presidência da República, a apresentar no congresso. "Muitos foram militantes que tentaram falar comigo para ouvir a minha opinião ou convencer-me a candidatar-me a presidente do partido". E para "surpresa geral, incluindo a minha acabei por ser eu a ganhar o congresso".

É esta sonsice política, esta constante preocupação de reconstrução da sua personagem e da História, que o caracteriza. Hoje, Cavaco é apenas uma sombra do que foi. Sem o viço da juventude, ficou apenas a procura crónica por uma lenda coxa.

Notas:  
(1) Autobiografia Política, Temas e Debates
(2) As revelações de Cavaco Silva, entrevista a Cavaco Silva, Público, 28/3/1995
(3) Família Cavaco Silva condena prendas materiais, Gente, 5/12/1990
(4) Aníbal contra Cavaco, Carlos Magno, Expresso, 18/10/1993

domingo, 13 de março de 2016

Alexandra Lucas Coelho - A pele de Cavaco e os milagres de Marcelo

OPINIÃO

Portugal, que não é um fado, continua a viver com a ilusão dos eleitos

 1. Portugal largou Cavaco como se mudasse de pele. Nenhuma transição desde o fim da ditadura gerou este alívio, quase uma libertação nacional. Marcelo tomou posse do momento, impaciente de optimismo e ecumenismo: apaziguar, unir, sorrir, curar. Descendo a minha rua, vi lágrimas no meio do povo, aos pés da Assembleia. No item empatia, foi a passagem do zero para a maioria absoluta. E aí vai Portugal para a Primavera de 2016, cheio de fé renovada.
2. Fé em cima de amnésia, toda uma tendência. Portugal erra entre aquilo que larga e aquilo a que se agarra, de qualquer das formas sem pensar muito. Um exemplo daquilo a que se agarra é a aventura épica dos séculos XV-XVI. Um exemplo do que larga é a violência ainda encoberta do Império. As navegações não deixam de ser épicas porque o Império foi violento e vice-versa, os prismas têm várias faces, mas Portugal teme que um ângulo anule o outro, então tapa um e mitifica o outro, em glorificações não apenas ultrapassadas, tendo em conta o que é hoje o conhecimento histórico, como sobretudo sem coragem. Celebrar os Descobrimentos será um suplemento de ânimo sempre à mão; já ir ao fundo do que foi o Império implica enfrentar o que os portugueses também foram/são, ou afinal não. Eis o que o discurso oficial continua a falhar, nas escolas, na política, perante os países de língua portuguesa e a vocação universal de que falou Marcelo.
3. O presente faz e refaz a História, para a frente, para trás. Seremos fontes da história futura, que resultará da forma como Cavaco for pensado agora, do que estes 10, aliás, 20, aliás, 36 anos dizem sobre Portugal. Cavaco foi ministro, primeiro-ministro e presidente com milhões de votos em múltiplas eleições. Não é uma breve pele do acaso que a história há-de ler nas calendas. Os milhões que votaram nele constituem uma grande parte deste país. Várias vezes escolheram um homem baço, sério, rígido, desconfiado, conservador, autoritário, espécie de âncora, o contrário da aventura. Na cronologia, e por feitio, Cavaco estabelece o grande arco entre a figura de Salazar e a era democrática, com a inserção na União Europeia. E, desde o 25 de Abril, simbolizará como nenhum outro governante uma limitação portuguesa. Nas fabulosas oportunidades de contacto com outros, os portugueses tentaram muito mais transformá-los ou buscar rendimento do que transformarem-se, aproveitarem para ser outros: mais. A proverbial acomodação emigrante reforça isto. Saudosa e idealmente temporária, a diáspora molda-se mais do que muda. Mas Cavaco tinha pouco de maleável e essa resistência à transformação encontrou nele um expoente, foi-se sedimentando ao longo de 36 anos. Não tanto uma pele do país, Cavaco será um fóssil, a petrificação daquilo que limita os portugueses, os impede de mudar, e portanto é preciso ler.
4. Dos manuais escolares à política, o Portugal passado cobre-se de glória. Entretanto, quem encara os buracos negros tende a ser comido pelas formigas. Depois de se doutorar em Direito Canónico, estudar Letras, traduzir, editar, intervir, ser leitor em Madrid e ter escrito alguns dos mais lancinantes poemas do século XX, Ruy Belo morreu desempregado, sem lugar numa universidade. No recente documentário, Ruy Belo, era uma vez, José Tolentino Mendonça diz que Portugal precisa de uma refundação, ecoando um apelo que vem da própria obra de Ruy Belo, e mais do que nunca me parece urgente. Portugal, que não é um fado, continua a viver com a ilusão dos eleitos, seja o Quinto Império, o Mundial de Futebol, ou o Michelin do Turismo. Não mais brando do que os violentos, matou, escravizou milhões, extraiu riquezas, e isso também tem de ser integrado na narrativa oficial. Caberá a cada um rodar o prisma o bastante para não continuarmos a ver apenas uma imagem que nos repete, e repete, e repete.
5. Apurado intérprete do momento, Marcelo viu a que ponto Cavaco, o país e o mundo deixaram de coincidir. E sendo o cristão hiperactivo que é, ao mesmo tempo empático e solitário, parece haver nele certa vocação refundadora, começando pela imagem da figura paterna de todos os portugueses. Um pater saltarico, risonho, maleável, que vai a pé para a posse, e reza ao lado de evangélicos, ortodoxos, judeus, baha’is, hindus, ismaelitas, xiitas, sunitas, sikhs, mórmones. Idealmente, a religião deveria ficar fora dos rituais de estado, mas a relevância política da cerimónia ecuménica sobrepôs-se a isso. Se, desta forma, mais gente sentiu que é parte de Portugal, e tanta gente viu que Marcelo incentiva isso, fica marcada a diferença. Não será demais sublinhar este gesto inaugural, com tanta gente à porta da Europa.
6. Mas o discurso da posse integrou os lugares comuns habituais, uns para a direita, outros para a esquerda, com a novidade de um tom caloroso, e o recuo a um saudosismo messiânico. Por exemplo, Marcelo enumerar as singularidades nacionais, e à pobre da saudade, que mal se aguenta nas canetas, suceder a “crença em milagres de Ourique”. Imagino resmas de portugueses sub-40 a pesquisarem milagres de Ourique no telemóvel. Entretanto, o orador citava já aquele “Herói Português do século XIX” segundo o qual “este Reino é obra de soldados”. Mais resmas de portugueses não estariam a ver quem seria esse herói, mas com certeza o presidente de Moçambique, saudado no parágrafo anterior, percebeu: porque o tal herói é nada menos do que Mouzinho de Albuquerque, que no século XIX capturou e desterrou Gungunhana, futuro mito da resistência para os moçambicanos. Em resumo, perante o ex-colonizado, Marcelo citou o colonizador vencedor, não aludindo ao vencido, e Portugal apareceu como reino e obra de soldados. Tudo isto, rematado pela frase “converter o Império Colonial em Comunidade de Povos e Estados independentes, prometendo a paz, o desenvolvimento e a justiça para todos”, sem uma palavra sobre a violência desse império, cujas consequências se mantêm vivas até hoje, como sabe quem conhece países da CPLP. O império passa suavemente a CPLP, nenhum sub-40 terá nada para googlar, em breve ninguém saberá do que aconteceu a não ser em calhamaços, que em breve ninguém lerá. O irónico é que, a seguir, abrindo uma longa citação de Miguel Torga, vinha a chave do problema de Portugal e deste discurso: “Nunca soubemos olhar-nos a frio.” Mas a parte que Marcelo pretendia acentuar era a sequência disso, a do povo-eleito em versão Torga: “Somos a própria inquietação encarnada. Foi ela que nos fez transpor todos os limites espaciais e conhecer todas as longitudes humanas… Temos ainda um grande papel a desempenhar no seio das nações, como a mais ecuménica de todas.” Comentário-síntese de Marcelo: “Valemos muito mais do que pensamos ou dizemos.” É mesmo? Eu tanto diria isso como o contrário, porque os portugueses oscilam entre a falta e o excesso de auto-estima. Talvez o verdadeiro desafio seja pensar essa perpétua descoincidência. Determinado a apostar todas as fichas na auto-estima, Marcelo concluiu: “O essencial, é que o nosso génio – o que nos distingue dos demais – é a indomável inquietação criadora que preside à nossa vocação ecuménica. Abraçando o mundo todo. Ela nos fez como somos. Grandes no passado. Grandes no futuro.” Não acredito nisto, não me parece caminho justo e não aplaudiria.
7. Grande não seria Portugal romper o ufanismo? De que adianta suturar, unir e rir, se por baixo a coisa continuar preta? Enquanto alguém quiser o pastiche de uma nau ou um museu para “celebrar os Descobrimentos” não teremos avançado. Portugal continuará a repetir os velhos mitos que o confortam e adiam, ora desconfiado, ora ufano, nunca mudando o ponto de vista. Não se trata de celebrar ou largar o passado, mas de o encarar a partir do que investigadores têm feito e, espera-se, continuarão a fazer (veio, aliás de um historiador, Diogo Ramada Curto, o comentário mais interessante que li ao discurso de Marcelo, incluindo mencionar a ausência de um Jaime Cortesão, ele que, exilado político no Brasil, tanto pensou a relação com o ex-Império). Incorporar esse refazer da história nas escolas, na política, na diplomacia, sem saudade e sem lamento, seria a coragem que ainda não houve.
          

quarta-feira, 9 de março de 2016

Carlos Barbosa de Oliveira - O abcesso e o antibiótico




quarta-feira, 9 de março de 2016

* Carlos Barbosa de Oliveira

 O abcesso e o antibiótico

Todos os que por aqui passam sabem que não votei Marcelo e que lhe tenho feito múltiplas críticas ao longo dos anos.

Essa constatação não me impede, porém, de me sentir aliviado. A saída de cena de Cavaco é um alívio para  mim e - penso eu- para o país não troglodita.

Sinto-me como se me tivesse visto livre de um abcesso, depois de tomar um antibiótico.

Marcelo é o antibiótico de que o país precisava para aliviar as dores que lhe foram provocadas pelo abcesso Cavaco.

Não sou tão ingénuo, ao ponto de confundir  Marcelo com um redentor. O seu mérito é  ser culto, humano, inteligente e  revelar alguma sensibilidade com os problemas das pessoas,  receita que parece suficiente  para nos aliviar da boçalidade, arrogância e dor provocada pelo abcesso que hoje foi extirpado em Belém.

O facto de Passos Coelho ter recusado  ir ao almoço de Marcelo, demonstra bem que os últimos meses mudaram muito mais neste país, do que se vê à vista desarmada.

Precisamos, no entanto, de estar conscientes que os antibióticos fazem desaparecer os abcessos, mas não curam as infecções. 

Eu sei que se não tratar o dente,  passado algum tempo o abcesso regressa. Porventura com mais dores e obrigando a uma extracção dolorosa.

Não nos deixemos, pois, adormecer pelas palavras bonitas e pelos sinais de esperança que Marcelo hoje enviou aos portugueses. Precisamos de continuar atentos e não descurar o tratamento do dente infectado que continua a minar a nossa democracia.

Por uns instantes sentimos o alívio da dor, mas as causas da infecção permanecem.

Temos um presidente e um pm civilizados, mas não temos uma democracia consolidada, suficientemente robusta para combater as desigualdades e erradicar a pobreza. E nunca a teremos se entregarmos essa tarefa a um antibiótico.


Postado por Carlos Barbosa de Oliveira às quarta-feira, março 09, 2016 

http://cronicasdorochedo.blogspot.pt/2016/03/o-abcesso-e-o-antibiotico.html

Daniel Oliveira - O homem que queria ser como Salazar mas faltavam-lhe todas as qualidades



Antes pelo contrário

* Daniel Oliveira 

O homem que queria ser como Salazar mas faltavam-lhe todas as qualidades

08.03.2016 às 18h00


Cavaco conseguiu, sem precisar de recorrer a grandes talentos oratórios ou a qualquer instrumento de coação, convencer a maioria dos portugueses a entregar-lhe por cinco vezes o poder. As eleições deram-lhe absoluta e incontestada legitimidade democrática. Mas o instinto de Cavaco Silva é autoritário. Penso que na própria cabeça de Cavaco a imagem do professor de Finanças austero, que despreza o debate e encarna em si mesmo toda a Nação, o levou a ver-se como uma espécie Salazar da era democrática. Mas para se comparar à trágica grandeza do ditador falta-lhe tudo o resto: a cultura histórica que lhe permita representar a Nação, a cultura política que lhe permita ter um desígnio para o País e a cultura ética que lhe permita ser um modelo. Cavaco Silva é autoritário apenas porque é demasiado ignorante para compreender as razões profundas da superioridade da democracia e porque é demasiado egocêntrico para aceitar a transitoriedade do poder. É autoritário por feitio, não por convicção. Por ignorância, não por predestinação. Cavaco é afinal só Cavaco. O seu ego é o seu programa político

A frase que melhor define o “pensamento” político de Cavaco Silva é esta: “duas pessoas sérias com a mesma informação têm de concordar”. Esta afirmação, parecendo ser apenas pueril, esteve sempre presente na incapacidade de Cavaco compreender a função de quem lhe fazia oposição. Apesar de involuntário, é o melhor resumo do processo mental de um ditador que acredita na virtude da sua autoridade. Quem discorda do projeto que ele tem para o País ou é ignorante ou mal intencionado. Se é ignorante, deve ser ignorado. Se é mal intencionado, deve ser reprimido. Se a política se resume à construção de consensos entre pessoas bem formadas e informadas, contrariadas por ignorantes ou mal intencionados, a democracia é um absurdo. Sábios honestos dispensariam, com ganho para todos, o confronto de ideias, a oposição ou as eleições.

Quando Cavaco Silva se apresenta como um não político, apesar de ser o mais veterano dos profissionais da política, não o faz por mera tática populista. Ele acredita, sendo coerente com o “pensamento” expresso no parágrafo anterior, que políticos são aqueles que perdem tempo em confrontos inúteis. Que ignoram os problemas reais para se entreterem com divagações fúteis e se entregarem a interesses mesquinhos. Ele, pessoa séria e informada, defensor incontestável do que é bom para o País, não pertence a essa casta medíocre. Ele é um técnico, um académico, um economista, que não se deixando abalar por jogos políticos, persegue apenas os interesses da Nação.

Quando deixei entre aspas o “pensamento” de Cavaco não o fiz por despeito ou provocação. Estou convicto que este raciocínio de Cavaco não resulta de qualquer tipo de elaboração ideológica. Pouco dado a leituras e ao debate com os outros, onde se aprende o que não se leu, Cavaco não tem consciência das consequências e antecedentes do que ele próprio defende. O pensamento de Cavaco, transportando em si a vulgata de um qualquer líder autoritário, é instintivo e primário, manifestando-se mais por via de deslizes não preparados do que por afirmações estruturadas ou com alguma sofisticação ideológica.

Outros deslizes que teve, como a utilização do termo “dia da raça” para falar do 10 de junho ou as pensões que deu a ex-agentes da PIDE e recusou à viúva de Salgueiro Maia, também resultaram mais de ignorância do que de uma convicção firmada. Mas não deixam de resultar de automatismos políticos. Os mesmos que o levaram, enquanto primeiro-ministro e já longe dos momentos conturbados do PREC, a usar com enorme frequência a repressão policial contra manifestações de trabalhadores, estudantes ou camionistas. Ou a tratar o Tribunal Constitucional e restantes instituições que servem de contrapeso ao poder executivo e legislativo como “forças de bloqueio”.

De formas simbólicas ou mais diretas, Cavaco nunca compreendeu que as instituições que dirigiu o transcendiam. Ao contrário do que é costume dizer-se, Cavaco Silva é o oposto de um institucionalista. No dia 5 de outubro de 2012 decidiu que não falaria ao povo da varanda da praça do Município, em Lisboa. Para não ter que enfrentar previsíveis protestos depois das manifestações de 15 de setembro (usou o argumento da poupança), exigiu que a coisa se fizesse à porta fechada, o que sucedeu pela primeira vez desde 1910. No ano passado foi mais longe e faltou às cerimónias. Estaria a refletir na solução de governo. Centrado sempre tudo nas suas preocupações e humores pessoais, Cavaco não compreende que a nações têm as suas liturgias, que lhe dão estabilidade simbólica. Não compreende que é essa liturgia que determina o seu comportamento nestes momentos de afirmação da memória coletiva, e não o oposto. Que ele é objeto das instituições, não é o seu sujeito. Um conservador, mais do que eu, teria o dever de o entender. Mas acontece com o conservadorismo de Cavaco o mesmo que acontece com o seu autoritarismo: a sua ignorância histórica, a sua estreiteza política e a total incapacidade de abandonar o seu colossal ego impedem-no de ser mais do que ele mesmo.

Dirão: tudo isso não passa de simbolismos. Mas é esta incapacidade de se adaptar ao cargo que ocupa, sendo o cargo perene e ele transitório, sendo o cargo maior e ele mais pequeno, que o levou a fazer o discurso que fez sobre o PCP e o Bloco de Esquerda, não compreendendo que a um Presidente está interdito, no exercício das suas funções, o desrespeito institucional por forças políticas que representam um quinto dos eleitores. Ou que o levou a fazer um discurso de reeleição carregado de ódio pessoal e vingança. Ou que o levou, num dos mais sórdidos episódios da nossa democracia, a mandar um assessor seu espalhar na imprensa que estaria a ser escutado pelo governo sem nunca esclarecer verdadeiramente essa acusação. Ou a pôr os seus conflitos com José Saramago acima da homenagem que o Estado português devia ao Nobel da Literatura. E a condecorar o responsável por um ato de censura a este autor, como pequeno gesto de vingança pessoal. Tudo isto aconteceu pela mesma razão que Cavaco se cita quase exclusivamente a si mesmo: o seu ego é o seu programa político. E esse ego toma conta das instituições, das tradições, das liturgias, das relações com os outros. A sua opinião substitui as regras, as suas embirrações tornam-se embirrações de Estado.

A total incompreensão dos fundamentos da democracia, confundindo convicções pessoais com interesse nacional e separação de poderes com “forças de bloqueio”, e a incapacidade de separar o seu ego do cargo que ocupa, tornando-se ele na própria instituição que dirige, dão a Cavaco o perfil de um ditador em potência. Um ditador primário, instintivo, incapaz de compreender as motivações das suas próprias convicções autoritárias, mas ainda assim um ditador. Faltaria a Cavaco Silva, para além das condições políticas que felizmente o transcendem, quase tudo o que seria necessário.

O modelo de imagem pública de Cavaco sempre foi o modelo austero que a propaganda desenhou de Salazar. Sejamos justos e reconheçamos que não foi o primeiro, em democracia, a alimentar essa imagem. É, aliás, um elemento central nos políticos que mais respeito conquistaram dos portugueses. De Ramalho Eanes a Álvaro Cunhal. O problema é que a imagem austera que Cavaco sempre tentou passar de si é oposta à realidade, ao contrário do que acontecia com Salazar (e Cunhal e Eanes). Cavaco Silva sempre foi, nas despesas ligadas ao seu cargo, um perdulário. Cavaco optou pela sua reforma em vez do salário de Presidente da República que, sendo mais baixo, seria obviamente o indicado para dignificar o cargo. Já para não falar na sua relação promíscua com o BPN, não tendo o episódio das ações sido nunca cabalmente esclarecido. O mesmo homem que inventou Dias Loureiro, Oliveira e Costa ou Duarte Lima, só para pegar nos exemplos mais escabrosos, não pestanejou ao dizer que para ser mais sério do que ele seria preciso nascer duas vezes. Ainda assim, a imagem austera perdurou muito tempo no imaginário popular. Até Cavaco ter dito o que disse sobre o seu salário. Seria mais uma vez o autocentramento nos seus próprios problemas que o iria trair.

As contradições de Cavaco também são programáticas. O mais parecido com o retrato que o Presidente Cavaco Silva faz de um mau chefe de governo foi o primeiro-ministro Cavaco Silva. Se de 1986 a 1989, graças ao crescimento económico garantido pela entrada de rios de dinheiro no país e um enorme crescimento económico, se conseguiu passar de 7,4% para 2,9% de défice orçamental, ele voltou a aumentar para valores superiores a 6% de 1990 a 1995. Ou seja, no pico das facilidades europeias Cavaco conseguiu, quando Maastricht já impunha o limite de 3%, voltar a colocar o défice em valores semelhantes à pré-adesão à CEE. Só depois de Cavaco sair de São Bento se iniciou uma trajetória de redução.

O modelo de desenvolvimento do cavaquismo baseou-se na obra pública sem critério, em distribuir dinheiro sem rigor ou controlo (quem não se lembra dos célebres cursos profissionais?), numa gestão orçamental eleitoralista e na destruição de todas as atividades produtivas em troca de financiamento europeu. Cavaco representou, como primeiro-ministro, uma oportunidade histórica perdida. Não foi o único, mas marcou uma forma de governar. E, no entanto, não encontramos maior arauto da contenção orçamental e das boas contas que o Presidente Cavaco Silva. Ele é o homem que avisa para o futuro depois de o ter ignorado quando era ele que governava. Mais uma vez, estou convencido que Cavaco acredita no seu próprio discurso. Nos vários que foi tendo. Porque Cavaco nunca se engana e, coisa bem mais perigosa, raramente tem dúvidas.

Por fim, falta a Cavaco a mais importante qualidade que se exige a um político, seja um democrata ou um autoritário: a coragem. Não me refiro apenas à coragem política. Até fisicamente Cavaco é cobarde. Viveu sempre tomado pela paranoia da segurança, fazendo exigências insensatas e dispendiosas. Sempre evitou o contacto direto com os cidadãos. Nunca foi ao Parlamento debater com os seus adversários. Tirando nas presidenciais, em que a vitória era incerta e faltar teria sido fatal, são raros os debates com concorrentes eleitorais. E mesmo nos debates presidenciais exigiu que as mesas estivessem viradas para o moderador, evitando o contacto visual com os adversários. A cobardia política e física que sempre revelou é, do meu ponto de vista, o seu traço de personalidade mais desprezível.

Não é difícil, depois destas linhas, escritas por alguém que tinha 11 anos quando Cavaco Silva chegou pela primeira vez a um cargo executivo, perceber que este texto é escrito com tristeza. Tristeza por perceber que alguém com estas características conseguiu, sem precisar de recorrer a grandes talentos oratórios ou a qualquer instrumento de coação, convencer a maioria dos portugueses a entregar-lhe por cinco vezes o poder. Sempre respeitei, por convicção democrática, essa decisão da maioria. Ela deu-lhe absoluta e incontestada legitimidade democrática. Mas sempre me senti oprimido por ela.

O instinto de Cavaco Silva é autoritário. Ele acredita que é o portador do interesse nacional, moldando as instituições aos seus próprios caprichos. Que o debate é ocioso e a divergência perda de tempo. E embrulha tudo isto numa falsa capa austera. Mas faltam a este homem todas as qualidades que se exigem a um autoritário conservador, de recorte salazarista: a cultura histórica que lhe permita encarnar a Nação, a cultura política que lhe permita ter um desígnio para o país e a cultura ética que lhe permita ser um modelo. Cavaco Silva é autoritário apenas porque é demasiado ignorante para compreender as razões profundas da superioridade da democracia e porque é demasiado egocêntrico para compreender a transitoriedade do poder. É autoritário por feitio, não por convicção. Por ignorância, não por predestinação.

Penso que na própria cabeça de Cavaco a imagem do professor de Finanças austero, um autoritário que despreza o debate e encarna em si mesmo toda a Nação, o levou a ver-se como uma espécie Salazar da era democrática. Mas o perfil de Cavaco Silva apenas se assemelha ao de Salazar na medida em que foi, como muitos portugueses da sua geração, moldado nessa cultura. Não tendo outra, apenas juntou ao imaginário do Estado Novo as regras formais da democracia, sem nunca as compreender verdadeiramente. Mas para se comparar à trágica grandeza do ditador falta-lhe tudo o resto: a cultura de quem molda o pensamento dos outros, a disciplina ética de quem é modelo para os outros e a coragem de quem lidera os outros. Cavaco é afinal só Cavaco. A sua tragédia é ser demasiado pequeno para todo o poder que teve. Talvez tenha sido só um longuíssimo equívoco.

http://expresso.sapo.pt/blogues/opiniao_daniel_oliveira_antes_pelo_contrario/2016-03-08-O-homem-que-queria-ser-como-Salazar-mas-faltavam-lhe-todas-as-qualidades

quinta-feira, 19 de novembro de 2015

João Mendes - O Presidente da República das Bananas


Quando o país atravessa uma crise política, Cavaco Silva faz a mala e ruma à Madeira. Foi assim em 2013 quando Gaspar e Portas se demitiram, repete-se a façanha esta semana com o país em suspenso à espera que sua majestade delibere. O que o presidente não faz pela estabilidade da nação!
Na Madeira, Cavaco fez-se acompanhar pelo novo regime mas não perdeu a oportunidade de se encontrar com os valorosos sociais-democratas que passavam férias à custa dos contribuintes. Numa das suas visitas, quiçá inspirado pela traquinice jardinista, Cavaco aproveitou o momento para, em tom maroto, elogiar as bananas madeirenses, maiores e mais saborosas, depois de uma primeira incursão pelo humor brejeiro quando explicava à comitiva, de sorriso travesso, que o dourado não era o macho da dourada.
Enquanto Cavaco passeia e graceja, o país espera. Ciente da situação como é seu apanágio, Cavaco aproveitou as férias na Madeira para mandar uns recados para o “contenente”, avisando os netos e os hereges de esquerda que também ele esteve em gestão durante 5 meses e aproveitando os holofotes para fazer, com é seu hábito, o frete à propaganda do PàF. Sorte das cagarras que desta vez não tiveram que o aturar. Haja pagode que o país pode esperar. Tudo pela nação, nada contra a nação!
http://aventar.eu/2015/11/18/o-presidente-da-republica-das-bananas/

quinta-feira, 29 de outubro de 2015

Portugal. A CRIATURA


quinta-feira, 29 de outubro de 2015




Que não está cá para matemáticas. O governo é coisa séria. Não há cá esquerdices para ninguém. Um milhão de votos? Brinquem no parlamento. No governo só maiorias amigas. Era o que mais faltava.

Alice Brito – Esquerda, opinião

Quando a criatura fala a mediocridade delira. A criatura é um homem cinzento. Da cor do cimento. Às vezes parece mansa. Sonsa. Lassa. De uma lentidão de azeite. Mas não é. A criatura, quando é chamada a decidir, esganiça-se, sobe o tom e a velocidade. Discursa. Mal, mas discursa. Só fel.

A criatura absolve e branqueia crimes cometidos pelos seus oficiais. Trava combates a descair para a peçonha.

A criatura é míope de alma. É um homem sem visão. Pior que isso, é um homem sem olhar. Há por ali uns orifícios que contêm olhos. Só isso. Nem expressão, nem qualquer evidência de que ali haja outra coisa que denote um mínimo de vida interior.

O que terá lido a criatura ao longo da vida? Com sorte o Pato Donald. Aposto que nunca leu o Asterix. Asterix? Demasiado ousado, eventualmente subversivo.

Por isso dá erros. Fala em “cidadões” porque realmente o que ele domina é a gramática dos interesses. Tem, aliás, razão para isso. Bem lucrou com ela!

A criatura gostaria de ter à sua frente uma esquerda letárgica, num ensimesmado torpor sonolento. Uma esquerda pianinha, conformada, coisa menor e recatada.

Saiu-lhe ao caminho uma esquerda lampeira e a criatura passou-se.

Quando há tempos soou o grito helénico a criatura avisou. Cuidado.

Os avisos são aliás a sua especialidade. Ele avisa que o sol vai nascer, que o inverno vai ser mais frio que o Verão, e que os mercados estão indispostos. A semana passada pediu-lhes que vomitassem.

No dia em que a criatura saltou do ecrã e entrou descaradamente em casa das pessoas disparou mais um discurso: Pensei em tudo. Nos cenários, na música, coreografia e actores e texto.

E tão honesto, tão dado à disciplina e ao rigor, tão vertical nos seus compromissos, roncou um grito de guerra convocando alguns deputados para o exercício da facada. Não votem com o vosso partido. Votem com o meu.

O discurso fez ricochete e o tipo lixou-se. Os destinatários da encomenda da traição fizeram-lhe um grandessíssimo manguito. Podou dúvidas e fez crescer certezas. O homem é, de facto, um traste.

Até os apaniguados do costume abanaram a cabecinha.

Entretanto, a lei constitucional contorce-se na aflição do incumprimento.

Cá fora, neste Outono inseguro, longe dos cenários e decisões e dislates, a passividade treinada ao longo de décadas sucessivas deu de si enquanto, por outro lado, se anuncia uma coisa parecida com um governo. Uma coisa volátil como éter, efémera como uma guinada de abcesso. Mesmo assim, notável na dimensão do descaramento. É a continuidade a que acresce o piorzinho da utensilagem laranja.

Ainda não tomou posse e já ali se pressente a penugem do bolor.

Vamos ver o que a criatura fará, quando cair sem história nem glória o pano sobre a farsa.

Vamos ver até onde nos levará o narcisismo cavaquista. Continuaremos a empobrecer em duodécimos? Continuaremos com esta tribo a governar-nos?

Esta gente não presta. É gente filha do séc. XXI e de mais qualquer coisa.

Alice Brito - Advogada, dirigente do Bloco de Esquerda. Escreve com a grafia anterior ao acordo ortográfico de 1990