Textos e Obras Daqui e Dali, mais ou menos conhecidos ------ Nada do que é humano me é estranho (Terêncio)
domingo, 19 de abril de 2026
Discurso de Chaplin em 'Monsieur Verdoux'
domingo, 28 de setembro de 2025
Antonio Gnoli - Retrato de Claudia Cardinale
Postado por Fany / Raffaella Spinazzi
(Tradução automática, sem revisão do texto)
Jaime Nogueira Pinto - Claudia Cardinale (1938-2025)
O desaparecimento de Claudia
Cardinale lembra-nos o muito que nos trouxe e ao cinema e damos graças pelo dom
da vida e pelo que de bom e de belo constantemente se cruza connosco e nos toca
neste mundo
27 set. 2025
Quando comecei a ver cinema (a
“ir ao cinema”, como se dizia), o cinema italiano era um grande cinema, para
não dizer o grande cinema. A começar pelos realizadores, os Visconti, os
Fellini, os Pasolini, os Antonioni, os Monicelli, os Risi, os Rossellini, os De
Sica, criadores admiráveis em todos os géneros, da comédia mais divertida à
tragédia mais shakespeariana.
Mas para nós, miúdos, muito mais
do que os realizadores, que até à adolescência nos passavam relativamente
despercebidos, impressionavam-nos os actores – um cómico admirável, como
Antonio de Curtis, Totó, um actor genial para papéis mais sérios,
como Marcelo Mastroianni, ou alguém preparado para todos os géneros, como
Vittorio Gassman. E mais ainda que os actores, fascinavam-nos as actrizes.
Estávamos no Portugal dos anos
1960, a sair da Igreja pré-conciliar de Pio XII, e as nossas “referências
artísticas” eram americanas (como a Marilyn Monroe, a Rita Hayworth ou a Ava
Gardner, que víamos nos filmes e nas páginas do Século Ilustrado),
francesas (como a Brigitte Bardot de Et Dieu créa la
femme ou a Catherine Deneuve de Belle de Jour) e
italianas (como a Silvana Mangano, a Sofia Loren, a Gina Lollobrigida, a
Monica Vitti… e a Claudia Cardinale).
Claudia Cardinale era uma
italiana nascida na Tunísia, então um domínio francês, onde, com 19 anos,
ganhara um concurso de beleza. O primeiro prémio dava direito a uma semana em
Veneza com acompanhante. Claudia levou a mãe e voltou para a Tunísia. Estávamos
em 1957. Não passou um ano até que saísse da Tunísia para o grande écran,
com I Soliti Ignoti, de Mario Monicelli.
Era o começo. Em 1960, estava
em Rocco e i Suoi Fratelli, de Visconti, com Alain Delon, em
61 era La Ragazza con la Valigia no filme de Valerio Zurlini,
e em 63 dava corpo à Ragazza di Bube, de Luigi Comencini. No
mesmo ano, Visconti voltava a escolhê-la, desta vez para desempenhar o papel de
Angelica em Il Gattopardo. Angelica era a bela filha do
burguês Dom Calogero Sedara, parte do exercício de transição política e social
que “o Leopardo”, o príncipe de Salina (Burt Lancaster), vai protagonizar para
que a estrutura social não sofra muitos abalos com a passagem da monarquia
tradicionalista dos Bourbon-Duas Sicílias para a monarquia liberal e
revolucionária dos Saboia.
São raros os grandes filmes de
grandes livros, ou da adaptação de grandes livros, vá-se lá a saber porquê…
Talvez porque os livros falem outra linguagem, mais intimista, centrada na
palavra e deixando a imaginação visual à solta, e o cinema encontre o seu
encanto sobretudo na imagem, no movimento, na acção, num apelo mais directo aos
sentidos. Por alguma razão nem as adaptações francesas de Le
Rouge et le Noir ou de La Chartreuse de Parme, de
Stendahl, resultaram em grandes filmes, nem os livros que serviram de guião aos
geniais tratados do poder e da condição humana que são Os Padrinhos de
Coppola eram obras-primas.
Il Gattopardo, de
Lampedusa, é uma excepção. É um romance admirável que, pela mão de Visconti,
inspira um filme admirável. Livro e filme são obras diferentes e assumem essa
diferença. Visconti, ao sabor do seu tempo, da sua arte e da sua condição de
aristocrata-comunista, faz uma leitura marxista do romance de Lampedusa, a
narrativa nostálgica da viagem à Sicília do aristocrata Giuseppe Tomasi de
Lampedusa à procura de um tempo perdido.
Claudia Cardinale veste bem a
pele de Angelica, a filha de Dom Calogero (Paolo Stoppa), o burguês em ascensão
social que, nas terras feudais dos Salina, ajuda a evitar a revolução que a
sucessão dos “homens novos” aos aristocratas e o fim do Ancien Régime podia
provocar. Visconti encerra o filme com Claudia Cardinale a rodopiar no salão
dos Salina nos braços do patriarca, um Burt Lancaster que nos tínhamos
habituado a ver nas fitas americanas como trapezista, pirata, cowboy ou
até índio (no Último Apache), mas que o realizador italiano se
atreve a transformar no aristocrata nostalgicamente maquiavélico que muda o que
for preciso (o acessório) para que o essencial (a propriedade dos meios de
produção – segundo Visconti, conde de Lonate Pozzolo, com casa em Milão, cheia
de criadagem e dois chefs de cozinha, segundo o amigo e rival
Fellini) continue na mesma. E sim, o filme é diferente do livro também no
essencial.
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A versatilidade de Claudia
Cardinale não será menor do que a do trapezista, pirata, cowboy, índio e
príncipe, Burt Lancaster. Em 1968, em Hollywood, vai protagonizar entre
vaqueiros, caminhos-de-ferro, maus muito maus (Henry Fonda) e um bom com cara
de mau (Charles Bronson) Aconteceu no Oeste, um filme de Sergio
Leone, que trabalhara com mestres como Vittorio de Sica e Luigi Comencini e se
lançara nos chamados Western Spaghetti com fitas como Por um Punhado
de Dólares e O Bom, o Mau e o Vilão.
Contrastando em quase tudo com a
Angélica de O Leopardo, Claudia é, em Once Upon a Time in
the West, Jill McBain, uma mulher de vida fácil (ou difícil) de Nova
Orleães que vem para a terra onde se passa a acção porque casa com o homem que
é assassinado, com a família, logo no princípio da história. E desce, linda e
feliz, do comboio, para enfrentar o que der e vier.
Vi este Aconteceu no
Oeste num dia que é sempre inesquecível: o dia seguinte ao do último
exame da época; o dia ou a noite em que, pela primeira vez depois de um tempo
de grande azáfama e sofrimento, em pleno Verão, estamos livres, soltos e
podemos jantar bem e ir ao cinema.
Pude, por isso, apreciar mais
ainda a beleza da Cardinale, ajudado pela música de Ennio Morricone e por
aqueles desfechos típicos dos Westerns, com os maus a serem
punidos e tudo a acabar bem.
E vi-a em muitas outras fitas –
como Claudia, no 8 ½ de Fellini, como dona de uma casa de
passe, no Fitzcarraldo de Werner Herzog, como chefe de
quadrilha em Les Petroleuses, de Christian-Jacques (que
juntava na mesma quadrilha Bardot e Cardinale, BB e CC). Vi-a sempre
bela, como princesa Dala na Pantera Cor de Rosa sempre bem,
ainda na tela ou já a sair de cena e a envelhecer.
Dizem que em 1967, na Basílica de
S. Pedro (Paulo VI quisera receber um grupo de actrizes italianas), o
Papa conversou alguns minutos a sós com ela e Claudia saiu a chorar.
Especula-se que teriam falado do que lhe acontecera aos 17 anos: a violação, a
hesitação em abortar e a decisão de ter o filho, o seu Patrick, que o futuro
marido, Franco Cristaldi, iria perfilhar.
O desaparecimento de Claudia
Cardinale lembra-nos o muito que nos trouxe e ao cinema, a sua forma única de
passar pelo tempo. E lembra-nos também aquilo de que muitas vezes nos
esquecemos: de dar graças pelo dom da vida e pelo que de bom e de belo constantemente
se cruza connosco e nos toca neste mundo. Que descanse em paz.
sábado, 12 de novembro de 2022
Netflix, Amazon ou Disney “são grandes magnatas que vão controlar tudo”, diz o cineasta Pedro Costa
domingo, 21 de fevereiro de 2021
João Lopes - Scorsese, Fincher, Netflix & etc.
* João Lopes
Na edição de março da Harper's Magazine, surge um artigo de Martin Scorsese (disponível no site da revista) que tem tido significativo impacto nos meios cinematográficos, a começar, naturalmente, pelos EUA. O título, "Il Maestro", refere-se a Fellini, um dos autores mais amados na trajetória de Scorsese, decisivo na definição da sua vocação. O subtítulo é desencantado: "Federico Fellini e a magia perdida do cinema".
Para lá da celebração da herança de Fellini, o autor
de Taxi Driver, A Última Tentação de Cristo e O Lobo de Wall Street vem dar
conta, com gélida lucidez, do estado das coisas: passámos da era da cinefilia
ao mercado dos "conteúdos". A cultura comunitária ligada ao
conhecimento dos filmes nas salas escuras deu origem ao consumo anónimo das
plataformas de streaming em
que os filmes... já não são filmes, apenas "produtos" expostos em
prateleiras mais ou menos vistosas, à maneira de um supermercado.
Evitemos atrair o simplismo dos discursos panfletários.
Scorsese não vem apontar o streaming como
o "mal" que importa expurgar, lembrando, aliás, que as plataformas
criaram uma conjuntura que também é "boa para os cineastas, eu
incluído". E tem razões para isso: depois de mais de uma década de recusas
dos estúdios clássicos de Hollywood, só conseguiu concretizar esse filme
prodigioso que é O Irlandês graças ao valor descomunal (160 milhões de dólares)
que a Netflix investiu no projeto.
O que está em jogo é algo que, em boa verdade, envolve temas
e problemas que alguma crítica de cinema (nos EUA e não só) tem vindo a
escalpelizar há pelo menos duas décadas, desde que os super-heróis passaram a
ser o "conteúdo" privilegiado pelas estruturas tradicionais de
Hollywood, com efeitos muito diretos na dinâmica da maior parte dos mercados
nacionais. A saber: o crescente desinteresse, para não dizer brutal menosprezo,
com que algumas grandes entidades, direta ou indiretamente ligadas à
distribuição/exibição, passaram a lidar com a memória dos filmes e,
genericamente, o património cinematográfico.
A linguagem de Scorsese pouco ou nada tem que ver com a
secura muito cordial da maior parte dos pontos de vista expressos deste lado do
Atlântico. A banalização social e comercial da palavra "conteúdo"
leva-o mesmo a denunciar o triunfo de uma forma específica de ignorância, em
tudo e por tudo, como ele sublinha, alheia às apaixonadas discussões clássicas
sobre a dialética "forma/conteúdo". Assim, diz ele, essa palavra
"passou a ser cada vez mais aplicada por pessoas que tomaram conta das
companhias de media, muitas das
quais nada sabiam sobre a história desta forma de arte nem sequer se
preocupavam o suficiente para pensar que talvez devessem saber". E
sublinha o facto de a palavra "conteúdo" se ter tornado um
"termo dos negócios para todas as imagens em movimento: um filme de David
Lean, um vídeo de um gato, um anúncio do Super Bowl, uma sequela de um
super-herói, um episódio de uma série."
Scorsese não vem instaurar uma "caça às bruxas",
antes lembrar que de Aurora (Murnau)
a 2001 (Kubrick) o cinema é
"um dos grandes tesouros da nossa cultura" e, por isso, "como
tal deve ser tratado". Paradoxalmente ou não, vamos lendo, com inusitada
frequência, notícias sobre acordos de produção que os mais diversos cineastas
estão a estabelecer com plataformas de streaming (Netflix,
Amazon, HBO, etc.). E não é caso para menos: muitos deles conseguem encontrar
aí a liberdade criativa - e a disponibilidade financeira, como é óbvio - para
concretizar projetos que, na maior parte dos casos, deixaram de encontrar lugar
nos planos de produção de um universo que, da produção à difusão, tem vindo a
encerrar-se na expectativa do próximo blockbuster com
super-heróis...
Recorde-se, a propósito, o caso modelar de Mank, o filme de David Fincher sobre
Herman J. Mankiewicz (Gary Oldman), revisitando as memórias da escrita do
argumento desse clássico dos clássicos que é Citizen Kane/O Mundo a Seus Pés (1941), de Orson Welles. Raras
vezes a relação criativa com a memória do próprio cinema foi tão depurada e
cristalina. Que tudo isso aconteça com chancela da Netflix não é um erro do
"sistema", tão-só um dado objetivo que não pode ser ignorado.
21 Fevereiro 2021 — 00:25
Jornalista
https://www.dn.pt/opiniao/scorsese-fincher-netflix-etc-13374455.html
sexta-feira, 30 de junho de 2017
Raymond Chandler - O Imenso Adeus (excerto)
segunda-feira, 28 de setembro de 2015
Ruy Belo - Esplendor na Relva
Ruy Belo: uma poesia que aprendeu a ver com o cinema
domingo, 17 de novembro de 2013
o domingo na poesia segundo vários escritores - 15 - o circo 03













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