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domingo, 19 de abril de 2026

Discurso de Chaplin em 'Monsieur Verdoux'


Aguardando a execução por seus crimes, Verdoux diz a um jornalista: "Um assassinato faz de alguém um vilão... milhões fazem de alguém um herói. Os números santificam meu bom amigo."



Transcrição das declarações finais de Verdoux ao tribunal durante seu julgamento em Monsieur Verdoux :

Juiz: Senhor Verdoux, o senhor foi considerado culpado. Tem algo a dizer antes que a sentença seja proferida?

Verdoux: Sim, senhor, eu tenho. Por mais negligente que o promotor tenha sido em me elogiar, pelo menos admite que eu tenho cérebro. Obrigado, senhor, eu tenho. E por trinta e cinco anos o usei honestamente, depois disso… ninguém o quis. Então fui forçado a abrir meu próprio negócio. Quanto a ser um assassino em massa, o mundo não o incentiva? Não é construir armas de destruição com o único propósito de matar em massa? Não explodiu mulheres e crianças inocentes em pedaços, e o fez de forma muito científica? Como assassino em massa, sou um amador em comparação. No entanto, não quero perder a cabeça, porque muito em breve perderei a cabeça. Mesmo assim, ao deixar esta centelha de existência terrena, tenho isto a dizer… Vejo vocês todos muito em breve… muito em breve…


As seguintes linhas foram suprimidas do discurso, presumivelmente para satisfazer o gabinete de Breen:

Ficar chocado com a natureza do meu crime não passa de uma farsa… uma simulação! Vocês se deleitam no assassinato… vocês o legalizam… vocês o adornam com galões de ouro! Vocês o celebram e o exibem! Matar é a atividade que sustenta o seu Sistema, a base da sua indústria!


Trecho de uma carta do Escritório Breen para Chaplin, parte de uma correspondência relativa à censura "necessária" do filme antes de seu lançamento: "A alegação de Verdoux é, derivativamente, que é ridículo se chocar com a extensão de suas atrocidades, que elas são uma mera 'comédia de assassinatos' em comparação com os assassinatos em massa legalizados da guerra, que são embelezados com galões de ouro pelo 'Sistema'."

Naturalmente, a alegação de Verdoux não foi bem recebida pelos responsáveis ​​pela censura.

https://www.charliechaplin.com/en/articles/244-Speech-from-Monsieur-Verdoux

domingo, 28 de setembro de 2025

Antonio Gnoli - Retrato de Claudia Cardinale

 



Domingo, 31 de agosto de 2014

No dia 21 de julho, La Repubblica publicou um grande retrato de Riccardo Mannelli e uma entrevista com Claudia Cardinale de Antonio Gnoli.

Claudia Cardinale: "Nunca quis ser diva, descobri tarde que sou bonita."

Sua infância em Túnis, o primeiro diretor que se encantou com ela, sua estreia com Monicelli. E depois Visconti, Fellini, Germi. Memórias de uma atriz que escolheu se defender do sucesso: "Tive sorte, guiei bem meu destino seguindo apenas uma regra: viver como se fosse o primeiro dia, não o último."


As faculdades menos óbvias de uma grande atriz são a timidez, a solidão, um corpo que muda impiedosamente, mas que continua a conservar um senso de mistério. Ao assistir a uma grande atriz, nos sentimos solidários com a imagem que ela transmitiu em seus muitos filmes. Alguns nós amamos. Outros nós esquecemos. Mas é como se através deles descobríssemos não apenas sua metamorfose, mas também uma parte de nossa história, nossos gostos, nossos desejos mais ou menos remotos. É cinema. Com seu poder imaginativo. E a comunhão latente que sentimos nos enche de espanto.

"Nunca me considerei uma grande atriz. Sinto-me desconfortável diante da imagem de alguém que me faz falar alto. Nunca pensei em me tornar como Greta Garbo ou Marlene Dietrich. Acho...

que atuar ainda é a mais humilde e gratificante das profissões. Fiz 141 filmes. Cada vez era como descer para dentro de mim mesma, para a escuridão daquele pequeno mundo interior que, quando revelado, equivale a um nascimento. Quantas vezes nasci na minha vida?" Enquanto Claudia Cardinale acende seu primeiro cigarro, ela deixa a pergunta cair como uma carta de tarô jogada na mesa: "Não sou supersticiosa, gosto de brincar com os signos do zodíaco, sou de Áries, afinal, mas no fundo acho que o destino está apenas em nossas mãos. " 

Ela já sentiu que estava perdendo o controle?
"Quando você está em uma crise, pode sentir que está perdendo o controle sobre as coisas. É desconcertante aprender nesses momentos o quão fraca ou frágil você pode ser. Mas, afinal, fui uma mulher de sorte que guiou bem seu destino. E acho que não vale a pena se atormentar com perguntas que não têm saída. Sempre me impus uma regra básica: Claudia, viva não como se fosse o último dia da sua vida, mas o primeiro.

Toda vez, a primeira vez?
"Para quem faz cinema, muitas vezes é assim. Se eu não tivesse essa paixão, essa necessidade de me surpreender com o que faço, dificilmente teria durado muito. E isso parece ainda mais surpreendente quanto mais penso no meu começo, que foi completamente por acaso."

Você não era uma dessas garotas determinadas a trilhar seu caminho?
"Eu tinha 16 anos, morava em Túnis, onde nasci. Dois diretores me viram em frente à escola. Eles estavam procurando uma adolescente para um pequeno papel. Convenceram meu pai, apesar da minha resistência. E assim estreei no papel de uma árabe completamente velada."

Você gostou?
"Não sei. Senti uma sensação de intolerância. Então, na última cena, uma rajada de vento rasgou meu véu. Um close incrível foi criado, encantando o diretor. Ele me ofereceu um novo papel em um filme estrelado por Omar Sharif.

E ela aceitou?
"Relutantemente. Por um lado, era um mundo que me intrigava, por outro, me entediava. Eu pensava no set como uma gaiola."

Como era Sharif?
"Bonito, com olhos doces e irônicos. Mais tarde, nos tornamos amigos. Ele tinha uma mania de jogo. Se eu ligasse para ele, ele frequentemente estava sentado em uma mesa de cassino tentando a sorte."

Falando em beleza, ela tinha consciência da sua?
"Nem um pouco. Eu me achava feia. Então, aconteceu de eu ganhar um concurso de beleza e o prêmio era uma viagem a Veneza. Fui convidada para o festival de cinema, onde uma das seções era dedicada ao cinema tunisiano. Inesperadamente, começou o cerco de fotógrafos e produtores.Todos queriam que eu fizesse filmes. Não resisti e voltei para Túnis no primeiro avião. Eu tinha 18 anos.

Ele descobriu o pior lado do cinema.
"Como em todas as coisas, há um lado menos agradável. Muitas pessoas, que tinham começado a cercar minha família, tentaram convencer meu pai de que o cinema era um ótimo caminho a seguir. E, finalmente, meu pai me mostrou as muitas cartas e telegramas sobre mim. Ele timidamente disse: talvez valesse a pena tentar. Foi assim que vim para Roma e entrei no centro de cinema experimental."

Onde ele morava em Roma?
"Com uma tia que morava fora da cidade. Peguei o ônibus para casa. Eles me alertaram sobre o risco da 'mão morta'. Perguntei: 'O que é essa 'mão morta'?' E minha tia riu: 'Você vai entender imediatamente quando sentir alguém apalpando furtivamente seu traseiro.'

E aconteceu?
"Infelizmente, sim. Virei-me com raiva para um homem que fugiu."

De que anos estamos falando?
"Era 1956. Depois da experiência no 'Centro', voltei para Túnis, determinado a deixar tudo para trás novamente. Resumindo, levei um tempo para me convencer de que este seria o meu mundo."

Seu primeiro filme de verdade, ou melhor, um grande filme, foi um papel em I Soliti Ignoti. O que você lembra dessa estreia?
"Era 1958, e aquele foi o início da comédia italiana. No filme, eu estava flertando com Renato Salvadori, que fingia ser meu irmão: 'Sou Michele, esqueci minhas chaves'. E eu, virtuosamente, bati a porta na cara dele. Fiz isso com tanta violência que Renato machucou o olho. Monicelli, depois da cena, gritou para mim: 'Claudia, no cinema, você finge. Lembre-se, nada é real, embora tudo seja real!'"

Que lembranças você tem de Monicelli?
"Um homem aparentemente rude. Penso nele com infinita gratidão. Alguns anos antes de morrer, nos encontramos em Paris para uma homenagem que o cinema francês lhe prestou. Ele subiu no palco, eu estava na primeira fila. E quando ele me viu, disse: "Olha aquela garota, a Claudia, ela começou comigo." Foi comovente. Apesar das diferenças, ele me lembrou, em alguns aspectos, o Pietro Germi."

Outro diretor incomum.
"Muito talentoso e subestimado. Ele era fechado, introvertido como eu. Bastava olhar nos olhos um do outro para nos entendermos."

Você não dá a impressão de ser introvertido.
"Não gosto de multidões. Gosto de ficar sozinho. "

O sucesso não te envolve?
"Faço de tudo para não me deixar abater por ele."

O auge foi alcançado em 1963, quando você filmou "O Leopardo" e "8 1/2" ao mesmo tempo.
"Tive que me dividir entre dois 'monstros' governados por impulsos opostos. Com Luchino era como estar no teatro. Com Federico, o set era uma espécie de happening.Tudo aconteceu sob o signo da improvisação."

Com quem você se deu melhor?
Visconti era obcecado por detalhes. Tudo tinha que ser perfeito. Fellini não tinha roteiro. Ele frequentemente improvisava. Luchino e eu nos tornamos amigos. Assistimos ao Festival de Música de Sanremo, fomos ao teatro. Eu me senti adotada. Fizemos nossa última viagem a Londres juntos, para um show da Marlene Dietrich. Descobri que eles eram amigos. E foi uma surpresa. Quando se encontraram para jantar, ela caiu no choro."

E ele?
"Ele gostava de confortá-la. Ele sabia como sentir o lado oculto das pessoas. O que era útil na preparação de um filme. Lembro-me de quando Burt Lancaster chegou ao set de O Leopardo, Alain Delon olhou para ele e disse: 'O quê, eles escolheram um caubói para interpretar o príncipe?' E, em vez disso, ele foi extraordinário. Pobre Alain."

Vocês eram amigos?
"Ainda somos. Profundamente. Ele teve alguns problemas com um filho e com a parceira que o deixou. Mas conversamos com frequência."

Falando em filhos, ela disse que, ao retornar a Túnis, descobriu que estava grávida.
"Não quero falar sobre isso."

Não é crime.
"É um assunto privado. Enfim, se decidi fazer filmes, foi para aquela criança, para me sentir independente."

Não deve ter sido fácil.
"Não foi. O agravante foi que Franco Cristaldi, meu produtor, me aconselhou, por questões de carreira, a manter segredo. Para evitar escândalos."

E ela concordou?
"Por um tempo, sim. No fim, decidi contar a eles. No fundo, eu me sentia uma mulher livre. Posso acender um cigarro?" De nada.
"Aprendi a fumar depois que Visconti me obrigou em Vaghe stelle dell'orsa."

Depois do sucesso com Visconti, ela atuou em Hollywood.
"Meu primeiro filme americano, dirigido por Henry Hathaway, foi com John Wayne e Rita Hayworth. Uma noite, Rita entrou no meu camarim e disse algo que me fez chorar: Eu também já fui bonita como você. Ela disse isso com infinita dor em suas palavras. Ela estava claramente chateada. Havia uma sensação insuperável de decadência nela, mas para mim ela continuava sendo Gilda."

O que é beleza para uma mulher bonita?
"Não é um objetivo, mas uma ferramenta. Pasolini escreveu um dos primeiros artigos sobre mim. Ele disse que minha beleza estava contida no meu olhar."

Você o conheceu?
"Que bom. Porque nessa época comecei a namorar Alberto Moravia."

Eu sei que ele dedicou um livro a você.
"Um livro que nasceu depois de uma longa entrevista."

O que o grande escritor fez você sentir?
"Eu não o conhecia. Fui à casa dele pela primeira vez para aquela famosa entrevista. Encontrei-o sentado à máquina de escrever.Um pouco rígido. Fiquei envergonhado."

Por quê?
"Ele me disse que se interessava pelo corpo de uma atriz. As sensações que esse corpo proporcionava. Ele me fez perguntas desconcertantemente simples. Qual é a primeira coisa que ele faz ao acordar de manhã? Quando está no banheiro, na banheira, em que pensa? E assim por diante."

O que a impressionou naquele encontro?
"A total falta de pretensão intelectual. Eu não estava me exibindo, e ele também não."

Você já se sentiu uma diva?
"Nunca. Eu sempre disse: me julguem pelos filmes que fiz, não pela minha vida privada. O estrelato confunde os dois níveis."

Mas sua vida privada se entrelaçou com seu trabalho.
"Sobre o que você pensa?"

Gostaria de retornar por um momento a Cristaldi. Tem-se a sensação de que a presença dele a afetou.
"Certas imposições, certas durezas, me amarguraram. Nosso relacionamento nunca foi verdadeiramente único."

Você frequentemente compartilhou sua vida com homens particularmente durões.
"Gosto deles fortes, mas justos. Como Pasquale Squitieri."

Qual o papel que ele desempenhou?
"Ele era o homem da minha vida."

Por quê?
"Faz um tempo que não estamos juntos. Mas ainda conversamos com frequência. Entre outras coisas, temos uma filha juntos."

Doeu quando terminou?
"Não, tive o mesmo problema quando decidi me mudar para Paris. Agora moro lá. Sozinha. Silenciosa. Numa linda casa às margens do Sena."

Sinto uma leve melancolia.
"É a tristeza de tudo que nunca mais volta. Como você era e como seus amigos eram. Revi O Leopardo há algum tempo, na versão restaurada por Martin Scorsese. Foi uma noite estranha. Eu tinha Delon ao meu lado, e ele segurou minha mão durante todo o filme. Parecia estar tentando arrancá-la. Então eu o ouvi chorar. E perguntei a ele o que estava acontecendo, Alain. Somos os únicos que restam vivos, ele disse. Essa é a grande tristeza. Steve McQueen, que recebi em Roma; Cary Grant, com quem fui a um show dos Beatles em Los Angeles; Marcello e Vittorio, com quem fiz minha estreia. Pessoas que eu amava, ou talvez odiava, e que não estão mais entre nós. O que resta?" O que resta?
"Algumas lembranças e um pouco de fé. "

Quanto?
"O suficiente para entrar em uma igreja. O importante é que ela esteja vazia. Me incomoda ser reconhecido."

O sucesso pesa sobre você?
"Eu não acreditava no sucesso. Parecia absurdo. Então aconteceu."

Moravia perguntou a ela sobre seu corpo. Como você se sente em relação a ele hoje?
"Não gosto de atrizes que fazem cirurgia plástica. Você se olha no espelho e não sabe mais quem é. Não dá para parar o tempo. Não dou muita importância a isso."O que transparece através da tela é, acima de tudo, a capacidade de comunicar emoções."

A tela não mente?
"Ou mente demais. Às vezes, faz você sonhar."

Você sonha?
"Sim, eu vou para a cama tarde. Fecho os olhos e anseio por ver os rostos dos meus entes queridos. "

Sonhos são involuntários.
"Eu costumo esquecê-los. Quando criança, sonhava com frequência que me jogava de uma janela. Sempre penso nisso quando olho da sacada da minha casa em Paris. Penso naquele sonho e na minha África."

Quais são seus sentimentos?
"Sinto vontade de chorar quando penso no que está acontecendo naquele continente. Estou envolvida com várias organizações humanitárias. Há mulheres para defender, crianças para proteger, natureza para preservar, doenças para erradicar. As pessoas quase nunca têm a chance de falar. Ou são tratadas apenas com demagogismo. Gostaria que pudéssemos recomeçar daqui."

Postado por Fany / Raffaella Spinazzi 

(Tradução automática, sem revisão do texto)

 https://fany-blog.blogspot.com/2014/08/ritratto-di-claudia-cardinale.html

Jaime Nogueira Pinto - Claudia Cardinale (1938-2025)



* Jaime Nogueira Pinto

O desaparecimento de Claudia Cardinale lembra-nos o muito que nos trouxe e ao cinema e damos graças pelo dom da vida e pelo que de bom e de belo constantemente se cruza connosco e nos toca neste mundo

27 set. 2025

Quando comecei a ver cinema (a “ir ao cinema”, como se dizia), o cinema italiano era um grande cinema, para não dizer o grande cinema. A começar pelos realizadores, os Visconti, os Fellini, os Pasolini, os Antonioni, os Monicelli, os Risi, os Rossellini, os De Sica, criadores admiráveis em todos os géneros, da comédia mais divertida à tragédia mais shakespeariana.

Mas para nós, miúdos, muito mais do que os realizadores, que até à adolescência nos passavam relativamente despercebidos, impressionavam-nos os actores – um cómico admirável, como Antonio de Curtis, Totó, um actor genial para papéis mais sérios, como Marcelo Mastroianni, ou alguém preparado para todos os géneros, como Vittorio Gassman. E mais ainda que os actores, fascinavam-nos as actrizes.

Estávamos no Portugal dos anos 1960, a sair da Igreja pré-conciliar de Pio XII, e as nossas “referências artísticas” eram americanas (como a Marilyn Monroe, a Rita Hayworth ou a Ava Gardner, que víamos nos filmes e nas páginas do Século Ilustrado),  francesas (como a Brigitte Bardot de Et Dieu créa la femme ou a Catherine Deneuve de Belle de Jour)  e italianas  (como a Silvana Mangano, a Sofia Loren, a Gina Lollobrigida, a  Monica Vitti… e a Claudia Cardinale).

Claudia Cardinale era uma italiana nascida na Tunísia, então um domínio francês, onde, com 19 anos, ganhara um concurso de beleza. O primeiro prémio dava direito a uma semana em Veneza com acompanhante. Claudia levou a mãe e voltou para a Tunísia.  Estávamos em 1957. Não passou um ano até que saísse da Tunísia para o grande écran, com I Soliti Ignoti, de Mario Monicelli.

Era o começo. Em 1960, estava em Rocco e i Suoi Fratelli, de Visconti, com Alain Delon, em 61 era La Ragazza con la Valigia no filme de Valerio Zurlini, e em 63 dava corpo à Ragazza di Bube, de Luigi Comencini. No mesmo ano, Visconti voltava a escolhê-la, desta vez para desempenhar o papel de Angelica em Il Gattopardo.  Angelica era a bela filha do burguês Dom Calogero Sedara, parte do exercício de transição política e social que “o Leopardo”, o príncipe de Salina (Burt Lancaster), vai protagonizar para que a estrutura social não sofra muitos abalos com a passagem da monarquia tradicionalista dos Bourbon-Duas Sicílias para a monarquia liberal e revolucionária dos Saboia.

São raros os grandes filmes de grandes livros, ou da adaptação de grandes livros, vá-se lá a saber porquê… Talvez porque os livros falem outra linguagem, mais intimista, centrada na palavra e deixando a imaginação visual à solta, e o cinema encontre o seu encanto sobretudo na imagem, no movimento, na acção, num apelo mais directo aos sentidos.  Por alguma razão nem as adaptações francesas de Le Rouge et le Noir ou de La Chartreuse de Parme, de Stendahl, resultaram em grandes filmes, nem os livros que serviram de guião aos geniais tratados do poder e da condição humana que são Os Padrinhos de Coppola eram obras-primas.

Il Gattopardo, de Lampedusa, é uma excepção. É um romance admirável que, pela mão de Visconti, inspira um filme admirável. Livro e filme são obras diferentes e assumem essa diferença. Visconti, ao sabor do seu tempo, da sua arte e da sua condição de aristocrata-comunista, faz uma leitura marxista do romance de Lampedusa, a narrativa nostálgica da viagem à Sicília do aristocrata Giuseppe Tomasi de Lampedusa à procura de um tempo perdido.

Claudia Cardinale veste bem a pele de Angelica, a filha de Dom Calogero (Paolo Stoppa), o burguês em ascensão social que, nas terras feudais dos Salina, ajuda a evitar a revolução que a sucessão dos “homens novos” aos aristocratas e o fim do Ancien Régime podia provocar. Visconti encerra o filme com Claudia Cardinale a rodopiar no salão dos Salina nos braços do patriarca,  um Burt Lancaster que nos tínhamos habituado a ver nas fitas americanas como trapezista, pirata, cowboy  ou até índio (no Último Apache), mas que o realizador italiano se atreve a transformar no aristocrata nostalgicamente maquiavélico que muda o que for preciso (o acessório) para que o essencial (a propriedade dos meios de produção – segundo Visconti, conde de Lonate Pozzolo, com casa em Milão, cheia de criadagem e dois chefs de cozinha, segundo o amigo e rival Fellini) continue na mesma. E sim, o filme é diferente do livro também no essencial.

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A versatilidade de Claudia Cardinale não será menor do que a do trapezista, pirata, cowboy, índio e príncipe, Burt Lancaster. Em 1968, em Hollywood, vai protagonizar entre vaqueiros, caminhos-de-ferro, maus muito maus (Henry Fonda) e um bom com cara de mau (Charles Bronson) Aconteceu no Oeste, um filme de Sergio Leone, que trabalhara com mestres como Vittorio de Sica e Luigi Comencini e se lançara nos chamados Western Spaghetti com fitas como Por um Punhado de Dólares O Bom, o Mau e o Vilão.

Contrastando em quase tudo com a Angélica de O Leopardo, Claudia é, em Once Upon a Time in the West, Jill McBain, uma mulher de vida fácil (ou difícil) de Nova Orleães que vem para a terra onde se passa a acção porque casa com o homem que é assassinado, com a família, logo no princípio da história. E desce, linda e feliz, do comboio, para enfrentar o que der e vier.

Vi este Aconteceu no Oeste num dia que é sempre inesquecível: o dia seguinte ao do último exame da época; o dia ou a noite em que, pela primeira vez depois de um tempo de grande azáfama e sofrimento, em pleno Verão, estamos livres, soltos e podemos jantar bem e ir ao cinema.

Pude, por isso, apreciar mais ainda a beleza da Cardinale, ajudado pela música de Ennio Morricone e por aqueles desfechos típicos dos Westerns, com os maus a serem punidos e tudo a acabar bem.

E vi-a em muitas outras fitas – como Claudia, no 8 ½ de Fellini, como dona de uma casa de passe, no Fitzcarraldo de Werner Herzog, como chefe de quadrilha em Les Petroleuses, de Christian-Jacques (que  juntava na mesma quadrilha Bardot e Cardinale, BB e CC). Vi-a sempre bela, como princesa Dala na Pantera Cor de Rosa sempre bem, ainda na tela ou já a sair de cena e a envelhecer.

Dizem que em 1967, na Basílica de S. Pedro  (Paulo VI quisera receber um grupo de actrizes italianas), o Papa conversou alguns minutos a sós com ela e Claudia saiu a chorar. Especula-se que teriam falado do que lhe acontecera aos 17 anos: a violação, a hesitação em abortar e a decisão de ter o filho, o seu Patrick, que o futuro marido, Franco Cristaldi, iria perfilhar.

O desaparecimento de Claudia Cardinale lembra-nos o muito que nos trouxe e ao cinema, a sua forma única de passar pelo tempo. E lembra-nos também aquilo de que muitas vezes nos esquecemos: de dar graças pelo dom da vida e pelo que de bom e de belo constantemente se cruza connosco e nos toca neste mundo. Que descanse em paz.

https://observador.pt/opiniao/claudia-cardinale-1938-2025/?

sábado, 12 de novembro de 2022

Netflix, Amazon ou Disney “são grandes magnatas que vão controlar tudo”, diz o cineasta Pedro Costa


O realizador português participa esta semana na 60ª edição do Festival Internacional de Cinema de Guijón, ao mesmo tempo que, em Barcelona, a exposição “Canción de Pedro Costa” dá a conhecer obras suas, com curadoria de Javier Codesal


*  Luciana Leiderfarb Jornalista
12 NOVEMBRO 2022, 

Participa esta semana na 60ª edição do Festival Internacional de Cinema de Guijón, mas não é somente por isso que o nome de Pedro Costa está a ter tanto eco no país vizinho. Em Barcelona, o La Virreina —Centro de Imagen, a exposição “Canción de Pedro Costa” dá a conhecer obras do realizador português, com curadoria do também cineasta Javier Codesal. Momentos que celebram um cinema cru como poucos, levado a cabo com o mínimo dos meios e com pessoas reais que “podem ser tão impressionantes como Robert de Niro e Meryl Streep”.

Numa entrevista que faz a capa do suplemento Babelia deste sábado, no jornal espanhol “El País”, Pedro Costa explica a ideia que norteia o seu olhar: “A câmara serve para procurar e não para fingir coisas.”

O realizador conta como, após longas metragens como “Casa de Lava” (1994) e “Ossos” (1997), decidiu mudar de rumo. “Não me apetecia continuar a trabalhar da forma convencional como até então o tinha feito. Truffaut dizia que para fazer cinema corrente era preciso ser-se um pouco estúpido e ingénuo (naive), senão, não se aguenta. Quando vou pela rua e vejo uma filmagem, tenho de virar a cara para não morrer de riso por assistir a uma atividade patética. Eu faço um trabalho profundo com estas pessoas que necessita de tempo e de paciência, talvez um pouco de resistência no sentido de não desistir”, diz Pedro Costa notando que, o que o salva, é “não acreditar noutro tipo de cinema”.

Em 2000, ao instalar-se no bairro das Fontaínhas, quis um “fazer trabalho de investigação”. “Consegui um quarto e pensei que seria positivo estar ali, naquele momento não tinha laços nem obrigações, tinha cortado com tudo, estava sozinho, e pensava que não precisava de ninguém. Depois cheguei à conclusão de que precisava de três ou quatro pessoas, para fazer um filme, e hoje sabemos que somos quatro e que nunca seremos quarenta”, recorda. Ele, que estudou História e aprendeu a lidar com fontes e arquivos, “nas Fontaínhas era como se pudesse pôr em prática algumas coisas [desse curso], ir ao fundo das coisas e trazer à superfície. Pegar na vida completa de um imigrante como a pessoa que ele é e não só com os problemas da imigração. Finalmente o que gostava de fazer e o cinema se encontraram, um trabalho próximo da investigação que se faça de forma económica, consequente, adaptado ao que tenho à minha frente. Não posso filmar em locais como as Fontaínhas com a maquinaria poderosa e capitalista do cinema, que são camiões, maquilhadoras, caterings e croquetes, que muitos consideram indispensáveis mas não o são.”

Pedro Costa sabe que o “sonho dos ministros da Cultura, dos institutos e dos festivais de cinema” é que os autores filmem para um público de massas: “Não é o meu mundo, é um ambiente subjugado ao poder, muito dependente do dinheiro e ignorante em matéria de cinema. A colonização americana está consumada, e também os intelectuais portugueses fazem cambalhotas perante as séries da moda e se gabam de nunca ter visto um filme do Manoel de Oliveira.”

A culpa é de plataformas como Netflix, Amazon ou Disney, “os grandes magnatas que vão controlar tudo, influenciar o gosto e inflacionar os salários. Oferecem 1.500 euros por semana a um jovem como primeiro assistente de câmara, que não come e trabalha mais de 16 horas diárias. É algo inumano, uma exploração contra a qual lutaram milhões de pessoas com armas e palavras”, afirma Pedro Costa. Em Portugal, explica ao “El País”, “não é raro que os chamados filmes comerciais portugueses tenham entre 7 mil e 10 mil espectadores em 50 ou 60 salas do país. A mim, quando muito, dão-me três ou quatro salas em Lisboa, Porto e pouco mais. Os meus filmes rondam os 5 mil espectadores. No meio desta esquizofrenia, não me posso queixar”.

O bairro das Fontaínhas foi demolido, os seus habitantes realojados. Mas, aos 63 anos, o realizador não voltará a filmar em Lisboa, que considera “uma cidade destruída, rendida ao despropósito e vítima do capitalismo mais selvagem”. Prefere manter a simplicidade: “Quando mostro os meus filmes em Los Angeles, ficam intrigados pelo modo como estão feitos. Digo-lhes sempre que não há segredos, que há uma racionalidade que tem a ver com o que o mundo é e com a eliminação de outras mentiras, como que o cinema é muito caro e que só algumas pessoas com muito talento o podem fazer.” O cineasta, diz Costa, não é um filósofo: “Tem décadas de sedimentação esta ideia de que Takovski, Fellini ou Bergman não são apenas realizadores, mas também mestres de filosofia, política, sociologia, que conseguem ver tudo antes do que os outros. O curioso é que, do meu ponto de vista, estes cineastas filósofos são os menos subversivos e revolucionários. Godard, que morreu há pouco tempo, era um investigador, mas não tinha uma ideia do mundo. Considerava a câmara como um telescópio e um microscópio ao mesmo tempo. Via coisas pequenas que mais ninguém tem paciência para ver.”

“As nossas vidas tornaram-se numa loucura absoluta que nos faz até esquecer os mortos. Mas nós precisamos disso e esse é um trabalho que pode ser feito pelo cinema, o teatro, a música ou a pintura”, conclui Pedro Costa.1

https://expresso.pt/cultura/2022-11-12-Netflix-Amazon-ou-Disney-sao-grandes-magnatas-que-vao-controlar-tudo-diz-o-cineasta-Pedro-Costa-6923d88d

domingo, 21 de fevereiro de 2021

João Lopes - Scorsese, Fincher, Netflix & etc.

 

 * João Lopes

Na edição de março da Harper's Magazine, surge um artigo de Martin Scorsese (disponível no site da revista) que tem tido significativo impacto nos meios cinematográficos, a começar, naturalmente, pelos EUA. O título, "Il Maestro", refere-se a Fellini, um dos autores mais amados na trajetória de Scorsese, decisivo na definição da sua vocação. O subtítulo é desencantado: "Federico Fellini e a magia perdida do cinema".

Para lá da celebração da herança de Fellini, o autor de Taxi DriverA Última Tentação de Cristo e O Lobo de Wall Street vem dar conta, com gélida lucidez, do estado das coisas: passámos da era da cinefilia ao mercado dos "conteúdos". A cultura comunitária ligada ao conhecimento dos filmes nas salas escuras deu origem ao consumo anónimo das plataformas de streaming em que os filmes... já não são filmes, apenas "produtos" expostos em prateleiras mais ou menos vistosas, à maneira de um supermercado.

Evitemos atrair o simplismo dos discursos panfletários. Scorsese não vem apontar o streaming como o "mal" que importa expurgar, lembrando, aliás, que as plataformas criaram uma conjuntura que também é "boa para os cineastas, eu incluído". E tem razões para isso: depois de mais de uma década de recusas dos estúdios clássicos de Hollywood, só conseguiu concretizar esse filme prodigioso que é O Irlandês graças ao valor descomunal (160 milhões de dólares) que a Netflix investiu no projeto.

O que está em jogo é algo que, em boa verdade, envolve temas e problemas que alguma crítica de cinema (nos EUA e não só) tem vindo a escalpelizar há pelo menos duas décadas, desde que os super-heróis passaram a ser o "conteúdo" privilegiado pelas estruturas tradicionais de Hollywood, com efeitos muito diretos na dinâmica da maior parte dos mercados nacionais. A saber: o crescente desinteresse, para não dizer brutal menosprezo, com que algumas grandes entidades, direta ou indiretamente ligadas à distribuição/exibição, passaram a lidar com a memória dos filmes e, genericamente, o património cinematográfico.


David Fincher e Gary Oldman durante a rodagem de "Mank": fazer filmes a partir da memória do próprio cinema

A linguagem de Scorsese pouco ou nada tem que ver com a secura muito cordial da maior parte dos pontos de vista expressos deste lado do Atlântico. A banalização social e comercial da palavra "conteúdo" leva-o mesmo a denunciar o triunfo de uma forma específica de ignorância, em tudo e por tudo, como ele sublinha, alheia às apaixonadas discussões clássicas sobre a dialética "forma/conteúdo". Assim, diz ele, essa palavra "passou a ser cada vez mais aplicada por pessoas que tomaram conta das companhias de media, muitas das quais nada sabiam sobre a história desta forma de arte nem sequer se preocupavam o suficiente para pensar que talvez devessem saber". E sublinha o facto de a palavra "conteúdo" se ter tornado um "termo dos negócios para todas as imagens em movimento: um filme de David Lean, um vídeo de um gato, um anúncio do Super Bowl, uma sequela de um super-herói, um episódio de uma série."

Scorsese não vem instaurar uma "caça às bruxas", antes lembrar que de Aurora (Murnau) a 2001 (Kubrick) o cinema é "um dos grandes tesouros da nossa cultura" e, por isso, "como tal deve ser tratado". Paradoxalmente ou não, vamos lendo, com inusitada frequência, notícias sobre acordos de produção que os mais diversos cineastas estão a estabelecer com plataformas de streaming (Netflix, Amazon, HBO, etc.). E não é caso para menos: muitos deles conseguem encontrar aí a liberdade criativa - e a disponibilidade financeira, como é óbvio - para concretizar projetos que, na maior parte dos casos, deixaram de encontrar lugar nos planos de produção de um universo que, da produção à difusão, tem vindo a encerrar-se na expectativa do próximo blockbuster com super-heróis...

Recorde-se, a propósito, o caso modelar de Mank, o filme de David Fincher sobre Herman J. Mankiewicz (Gary Oldman), revisitando as memórias da escrita do argumento desse clássico dos clássicos que é Citizen Kane/O Mundo a Seus Pés (1941), de Orson Welles. Raras vezes a relação criativa com a memória do próprio cinema foi tão depurada e cristalina. Que tudo isso aconteça com chancela da Netflix não é um erro do "sistema", tão-só um dado objetivo que não pode ser ignorado.

21 Fevereiro 2021 — 00:25  

Jornalista

https://www.dn.pt/opiniao/scorsese-fincher-netflix-etc-13374455.html


sexta-feira, 30 de junho de 2017

Raymond Chandler - O Imenso Adeus (excerto)




* Raymond Chandler


- Eu estive nos comandos. Eles não aceitam tipos feitos de algodão em rama. Fui ferido e o trabalhinho que os médicos nazis me fizeram não teve muita graça. Sinto-lhe as onsequências.
- Eu sei Terry. Você, sob muitos aspectos, é um tipo muito simpático. Eu não estou a julgá-lo. Nunca o julguei. Simplesmente você já não existe.
Já deixou de existir há muito. Está bem vestido, todo perfumado e tão elegante como uma prostituta de cinquenta dólares.
- Isto faz parte do disfarce - respondeu-me quase desesperadamente.
- Mas você diverte-se, não diverte?
A boca torceu-se-lhe num sorriso amargo. Depois encolheu os ombros expressivamente, à latina.
- Claro que me divirto. Tudo quanto hoje existe é teatro. Não há mais nada. Aqui - e bateu no peito com o isqueiro - não há nada. Eu estou pronto, Marlowe. E já o estava há muito. Bom, parece-me que não há mais nada a dizer.
Ele levantou-se. Eu levantei-me. Ele estendeu a mão esguia. Eu apertei-a.
- Até à vista, Sr. Maioranos. Gostei muito de o conhecer, apesar de o nosso contacto ter sido tão breve.
- Adeus.
Ele voltou-se, atravessou o escritório e saiu. Fiquei a ver a porta fechar-se. Ouvi-lhe os passos afastarem-se no corredor que pretendia ser de mármore. Tornaram-se cada vez mais fracos até que deixei de os ouvir.
Mas continuei à escuta. Porquê? Seria que eu esperava que ele parasse de repente e voltasse para trás e falasse comigo até que eu deixasse de me sentir como me sentia? Mas ele não voltou. Foi a última vez que o vi.
E nunca mais vi nenhum dos outros - excepto os polícias. A esses, ainda não se inventou um processo de lhes dizer adeus.

Titulo: O imenso adeus
Autor: Raymond Chandler
Titulo Original: The long goodbye
Tradutor: Mário Henrique Leiria
Capa: Cândido Costa Pinto

"A primeira vez que vi o Terry Lennox estava ele perdido de bêbedo dentro de um Rolls Royce último modelo estacionado à entrada do terraço do Dancers Club. O guarda do parque trouxera o carro até à entrada e segurava a porta porque o pé esquerdo de Terry Lennox ainda balouçava no exterior, como se ele se estivesse esquecido de que o tinha. Tinha uma cara jovem, mas o cabelo era branco como papel. Pelos olhos reconhecia-se que estava bêbedo até aos cabelos, mas de resto tinha um aspecto igual ao de qualquer outro tipo simpático vestindo um «smoking» e tendo gasto mais do que devia numa casa que existe precisamente para esse fim"... 


Realizador Robert Altman

segunda-feira, 28 de setembro de 2015

Ruy Belo - Esplendor na Relva




* Ruy Belo


Eu sei que deanie loomis não existe
mas entre as mais essa mulher caminha
e a sua evolução segue uma linha
que à imaginação pura resiste


A vida passa e em passar consiste
e embora eu não tenha a que tinha
ao começar há pouco esta minha
evocação de deanie quem desiste


na flor que dentro em breve há-de murchar?
(e aquela que no auge a não olhar
que saiba que passou e que jamais

lhe será dado a ver o que ela era)
Mas em deanie prossegue a primavera
e vejo que caminha entre as mais 





in Poemas com Cinema, Assírio & Alvim, 2010



Ruy Belo: uma poesia que aprendeu a ver com o cinema


No dia em que o cinema Medeia Monumental acolhe em Lisboa uma sessão dedicada à relação da poesia de Ruy Belo com a sétima arte, que encerrará com a exibição de Esplendor na Relva, o PÚBLICO revela o manuscrito original do célebre soneto que o filme de Elia Kazan inspirou ao autor de Homem de Palavra(s).

“Eu sei que deanie loomis não existe/mas entre as mais essa mulher caminha/ e a sua evolução segue uma linha/ que à imaginação pura resiste”. Com esta quadra, que evoca a protagonista de Esplendor na Relva (Splendour in the Grass, 1961), interpretada por Natalie Wood no filme de Elia Kazan, inicia Ruy Belo (1933-1978) um dos seus mais notáveis e discutidos poemas, de que aqui apresentamos o manuscrito original, e ainda um posterior dactiloscrito emendado à mão, dois documentos inéditos cedidos pela mulher do poeta, Teresa Belo.

Este e outros poemas do autor nos quais comparecem expressamente filmes e actores, como No way out, Humphrey Bogart, Vício de matar ou Na morte de Marilyn, irão ser ditos hoje à noite pelo actor Pedro Lamares, no Medeia Monumental, em Lisboa, a abrir uma sessão dedicada à funda e persistente relação que a poesia de Ruy Belo estabeleceu com o cinema. A noite fechará com a exibição de Esplendor na Relva, mas antes ainda será possível ouvir o ensaísta António M. Feijó falard’A Deanie Loomis de Ruy Belo, e assistir a um breve filme que o linguista e filólogo Luís Filipe Lindley Cintra rodou do casamento do poeta com Teresa Belo, celebrado em Vila do Conde, donde esta é natural, em 1966.

Ruy Belo evoca este momento no poema Portugal sacro-profano - Vila do Conde, que também se irá ouvir no Monumental, mas na voz do actor e encenador Luís Miguel Cintra, filho do cineasta de ocasião, que também assistiu à boda quando tinha 17 anos. O seu pai, de resto, não foi apenas o realizador de serviço, tendo assumido também funções de produção.

Desde logo, conta Luís Miguel Cintra, foi preciso desencantar o noivo, que não aparecia. “Faltou à hora do casamento e alguém disse que se calhar se tinha distraído e ainda estava na pensão. O meu pai foi procurá-lo e lá estava ele: era fim de tarde e distraiu-se a ver o pôr-do-sol”.

Mas “o mais engraçado”, acrescenta o actor, é que “eram tão ingénuos, tão puros, que não tinham combinado onde iam passar a lua-de-mel, não sabiam o que iam fazer a seguir, e foi o meu pai que os meteu no carro, depois do copo de água, à procura de um sítio simpático onde os pudesse deixar”.

Teresa Belo precisa que o local escolhido acabou por ser Espinho. E se ignora em que momento Ruy Belo escreveu o poema de Vila do Conde, esse “lugar onde o coração se esconde/ e a mulher eterna tem a luz na fronte”, sabe, em contrapartida, que Literatura explicativa, o poema inicial de Homem de Palavra(s), “foi escrito em Espinho, nessa lua-de-mel improvisada”. E tendo em conta os caeirianos versos que o abrem, tudo indica que o poeta continuava fascinado com os pores-do-sol que já o distraíam em Vila do Conde: “O pôr-do-sol em espinho não é o pôr-do-sol/ nem mesmo o pôr-do-sol é bem o pôr-do-sol (…)”.

Ruy Belo não costumava datar os manuscritos, de modo que Teresa Belo também não sabe quando este escreveu a primeira versão de Esplendor na Relva, mas o mais provável é que tenha sido logo após ter visto a obra de Kazan, que se estreou em Portugal em 1962. “Começámos a namorar em 1961, e deve ter sido mais ou menos por essa altura que fomos ver o filme ao antigo cinema Eden”, conta.

E não a surpreende que Ruy Belo tenho esperado até ao final da década para dar a conhecer este soneto em Homem de Palavra(s), publicado em 1969 na icónica colecção dos Cadernos de Poesia da D. Quixote. “Ele escrevia livros muito organizados, e portanto ficavam bastantes poemas de fora à espera de um livro onde coubessem.”

As duas versões, manuscrita e dactiloscrita, que encontrou nos seus papéis e que nos autorizou a reproduzir mostram como o poema evoluiu até Ruy Belo se dar por satisfeito. Sendo que aquele que foi porventura o mais virtuoso fabbro da poesia portuguesa da segunda metade do século XX tendia a só se satisfazer com a exactidão.

É talvez por isso que, sendo emocionante ver agora na elegante caligrafia do poeta um soneto que os leitores de Ruy Belo tantas vezes leram em letra de forma, não deixa também de causar uma certa estranheza constatar que este Esplendor na relva possa ter tido versões anteriores, que não tenha nascido logo inteiro e perfeito, como sempre o conhecemos. Mas o que nos deveria espantar é justamente o contrário: que só alguns detalhes, ainda que bastante decisivos, distanciem esta primeira tentativa, escrita ao correr da caneta, do que veio a ser o resultado final.

Ruy Belo escreveu o poema depois de ver o filme de Kazan, que por sua vez se inspirou numa conhecida ode de William Wordsworth, fundador do Romantismo inglês e um poeta central na genealogia literária do poeta português, o que complica a aparente linearidade poema-filme-poema. Não por acaso, Esplendor na relva é um dos poemas de Ruy Belo que mais tinta tem feito correr, a começar pela do próprio autor, que em 1978, no prefácio à segunda edição de Homem de Palavra(s), o integra nos “poemas onde o cinema [o] ensinou a ver”.

Também o poeta e ensaísta Joaquim Manuel Magalhães, autor de alguns dos mais importantes e pioneiros textos críticos sobre Ruy Belo, e organizador da primeira compilação da sua obra poética, alude a este poema, vendo nele um exemplo da lição wordsworthiana: a da “poesia como memória, como transbordar de sentimentos após ter passado a emoção de os ter vivido”. Uma perspectiva que Pedro Serra, num ensaio mais recente, tenta pelo menos matizar, servindo-se deste mesmo poema para tentar demonstrar as dimensões pós-românticas da poesia de Ruy Belo.

Para lá de hesitações menos significativas - e descontando as maiúsculas nos nomes próprios, que o poeta viria a abolir em toda a sua poesia, para que "palavra alguma levante a cabeça no meio da frase" -, a versão manuscrita apresenta dois versos diferentes (e consideravelmente menos interessantes): onde hoje estão os já citados “e a sua evolução segue uma linha/ que à imaginação pura resiste”, o poeta começara por escrever: “e tem comportamento de rainha/ só possível a quem no ser persiste”. Versos que transitam ainda para o dactiloscrito, onde são depois riscados e corrigidos à mão para a sua versão definitiva.

E estes dois versos posteriores serão justamente aqueles em que irá centrar-se João Bénard da Costa, num texto que, sendo uma apreciação do filme de Kazan, é também do que de mais belo se escreveu sobre o poema que este inspirou. O histórico director da Cinemateca pergunta: “Resiste à ‘imaginação pura’ (…) ou resiste, ‘pura’, à imaginação? (…) Ou seja, o adjectivo ‘pura’ refere-se à imaginação ou a Deanie Loomis? Ou – pode ser também – à ‘linha que resiste’? Nestas três perguntas está o cerne de Deanie Loomis, de Natalie Wood e de Splendor in the Grass. São mulheres e filme da nossa imaginação? Ou são mulheres e filme que resistem à nossa imaginação? Ou são mulheres e filme que resistem a uma linha evolutiva que só na nossa imaginação existe?”.

Admite não ter respostas e suspeita de que o poeta também as não teria. O que sabe é que concorda com o que o próprio Ruy Belo escreveu, e que explica bem a importância do cinema na sua obra: “Ninguém, no futuro, nos perdoará não termos sabido ver, esse verbo que tão importante era já para os gregos”.

http://www.publico.pt/culturaipsilon/noticia/ruy-belo-uma-poesia-que-aprendeu-a-ver-com-o-cinema-1709272?page=-1

domingo, 17 de novembro de 2013

o domingo na poesia segundo vários escritores - 15 - o circo 03


17 de Novembro de 2013 às 22:10
Para variar, ficam também algumas propostas de filmes - cómicos ou sérios ou de animação - com hiperligações para que possam visioná-los, se quiserem.

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* Gomes Leal

Soneto d'um clown

Talvez cansado já dos teus abraços,
Eu morto busque um dia o céu sem metas,
E ainda vá morar nos planetas,
Eu que tenho vivido entre palhaços.

E que ali deslocando os membros lassos,
Faça com saltos, e evoluções secretas,
Que Deus caia, de riso, dos espaços,
com fortes gargalhadas dos ascetas.

Os Santos olvidando então o rito,
Darão saltos mortais no Infinito,
E eu uma claque arranjarei no Inferno.

Construirei um circo ali no Céu
E tu virás então morar mais eu
Na água furtada azul do Padre Eterno.


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* PADRE ANTONIO TOMAZ
(1868-1941)

O PALHAÇO

Ontem, viu-se-lhe em casa a esposa morta
E a filhinha mais nova, tão doente!
Hoje, o empresário vai bater-lhe à porta,
Que a platéia o reclama, impaciente.

Ao palco, em breve surge... pouco importa
o seu pesar àquela estranha gente...
E ao som das ovações que os ares corta,
trejeita, canta e ri, nervosamente.

Aos aplausos da turba, ele trabalha
para esconder no manto em que se embuça
a cruciante angústia que o retalha.

No entanto, a dor cruel mais se lhe aguça
e enquanto o lábio trêmulo gargalha,
dentro do peito o coração soluça.


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* Fernando Pessoa

Sou Eu

Sou eu, eu mesmo, tal qual resultei de tudo,
Espécie de acessório ou sobressalente próprio,
Arredores irregulares da minha emoção sincera,
Sou eu aqui em mim, sou eu.

Quanto fui, quanto não fui, tudo isso sou.
Quanto quis, quanto não quis, tudo isso me forma.
Quanto amei ou deixei de amar é a mesma saudade em mim.

E, ao mesmo tempo, a impressão, um pouco inconseqüente,
Como de um sonho formado sobre realidades mistas,
De me ter deixado, a mim, num banco de carro elétrico,
Para ser encontrado pelo acaso de quem se lhe ir sentar em cima.

E, ao mesmo tempo, a impressão, um pouco longínqua,
Como de um sonho que se quer lembrar na penumbra a que se acorda,
De haver melhor em mim do que eu.

Sim, ao mesmo tempo, a impressão, um pouco dolorosa,
Como de um acordar sem sonhos para um dia de muitos credores,
De haver falhado tudo como tropeçar no capacho,
De haver embrulhado tudo como a mala sem as escovas,
De haver substituído qualquer coisa a mim algures na vida.

Baste! É a impressão um tanto ou quanto metafísica,
Como o sol pela última vez sobre a janela da casa a abandonar,
De que mais vale ser criança que querer compreender o mundo —
A impressão de pão com manteiga e brinquedos
De um grande sossego sem Jardins de Prosérpina,
De uma boa-vontade para com a vida encostada de testa à janela,
Num ver chover com som lá fora
E não as lágrimas mortas de custar a engolir.

Baste, sim baste! Sou eu mesmo, o trocado,
O emissário sem carta nem credenciais,
O palhaço sem riso, o bobo com o grande fato de outro,
A quem tinem as campainhas da cabeça
Como chocalhos pequenos de uma servidão em cima.

Sou eu mesmo, a charada sincopada
Que ninguém da roda decifra nos serões de província.

Sou eu mesmo, que remédio! ...

Álvaro de Campos, in "Poemas"
Heterónimo de Fernando Pessoa
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O Circo, de Charlot - 1928

charlie-chaplin-the-circus- 1928 Cartaz
charlie-chaplin-the-circus- 1928 Cartaz
charlie-chaplin-the-circus- 1928 Cartaz
charlie-chaplin-the-circus- 1928 Cartaz

trailer

filme completo

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D Roberto, de Ernesto de Sousa 1962

cartaz filme dom roberto - ernesto de sousa - 1962
cartaz filme dom roberto - ernesto de sousa - 1962


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 Os Saltimbancos, de Manuel de Guimarães - 1952

os saltimbancos - manuel guimarães 1952 cartaz
os saltimbancos - manuel guimarães 1952 cartaz

cenas iniciais do filme

filme completo

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O Maior Espectáculo do Mundo, de Cecil B. De Mille - 1952

o maior espectáculo do mundo - cartaz do flme - realizado por Cecil B. De Mille - 1952
o maior espectáculo do mundo - cartaz do flme - realizado por Cecil B. De Mille - 1952

cena do filme

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La Strada, de Frederico Fellini - 1954

Federico Fellini's "La Strada" (1954)
Federico Fellini's "La Strada" (1954)

trailer

filme completo

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Snoopy (Charlie Brown) - A vida é um circo Charlie Brown


filme completo

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MISTER MAGOO NO CIRCO TRES ARGOLAS


filme completo

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Pink Panther - Pinkadilly Circus


filme completo

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Tom e  Jerry - Circus Cact


filme completo

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Circus Rookies, de  Edward Sedgwick - 1928

mais informação em


Circus Rookies, de  Edward Sedgwick - 1928
Circus Rookies, de Edward Sedgwick - 1928

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* Henri Michaux

 CLOWN

    Un jour.
     Un jour, bientôt peut-être.
     Un jour j’arracherai l’ancre qui tient mon navire loin des mers.
     Avec la sorte de courage qu’il faut pour être rien et rien que rien, je lâcherai ce qui paraissait m’être indissolublement proche.
     Je le trancherai, je le renverserai, je le romprai, je le ferai dégringoler.
     D’un coup dégorgeant ma misérable pudeur, mes misérables combinaisons et enchaînement « de fil en aiguille ».
     Vidé de l’abcès d’être quelqu’un, je boirai à nouveau l’espace nourricier.
     A coup de ridicules, de déchéances (qu’est-ce que la déchéance ?), par éclatement, par vide, par une totale dissipation-dérision-purgation, j’expulserai de moi la forme qu’on croyait si bien attachée, composée, coordonnée, assortie à mon entourage et à mes semblables, si dignes, si dignes, mes semblables.
     Réduit à une humilité de catastrophe, à un nivellement parfait comme après une intense trouille.
     Ramené au-dessous de toute mesure à mon rang réel, au rang infime que je ne sais quelle idée-ambition m’avait fait déserter.
     Anéanti quant à la hauteur, quant à l’estime.
     Perdu en un endroit lointain (ou même pas), sans nom, sans identité.

     CLOWN, abattant dans la risée, dans le grotesque, dans l’esclaffement, le sens que contre toute lumière je m’étais fait de mon importance.
     Je plongerai.Sans bourse dans l’infini-esprit sous-jacent ouvert
     à tous
ouvert à moi-même à une nouvelle et incroyable rosée
à force d’être nul
et ras…
et risible…
Henri Michaux, « Peintures » (1939,) in L’espace du dedans, Pages choisies, Poésie / Gallimard, 1966, p.249
Clown, Henri Michaux
Un día.
Un día, pronto quizá.
Un día arrancaré el ancla que retiene a mi navío lejos de los mares.
Con esa especie de coraje necesario para ser nada y nada más que nada.
Me soltaré de todo lo que me parecía indisolublemente próximo.
Lo cortaré, lo voltearé, lo romperé, lo haré precipitarse en el abismo.
De golpe destapando mi pudor miserable, mis miserables combinaciones y encadenamiento "paso a paso".
Vaciado del absceso de ser alquien, beberé de nuevo el espacio estimulante.



A fuerza de ridiculeces, de venirme abajo (¿qué es venirse abajo?), por estallido, por vacío, por una total disipación-irrisión-purgación, expulsaré de mi la forma que se creía tan bien adherida, compuesta, coordinada, adecuada a mi contorno y a mis semejantes, tan dignos, tan dignos mis  semejantes.



Reducido a una humildad de catástrofe, a una nivelación perfecta como después de una intensa batahola.
Devuelto por debajo de todo medida a mi rango real, al rango ínfimo del que no sé qué idea-ambición- me hiciera [desertar.
Aniquilando en cuanto a la altura, en cuanto a la estimación.
Perdido en un rincón lejano (o ni eso), sin nombre, sin identidad.



CLOWN, derribando en la carcajada, en la risotada, en lo grotesco, la sensación que contra toda evidencia me había [hecho de mi importancia,
Me hundiré.
Sin un centavo en el infinito-espíritu subyacente abierto a todos, abierto yo mismo a un nuevo e increíble rocío
a fuerza de ser nulo
y chato...
y risible...


(Peintures, 1939.)


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