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sábado, 13 de junho de 2026

Pedro Tadeu - A REVOLUÇÃO, AFINAL, COMEÇA NA PRAIA?

 * Pedro Tadeu 

Antes de o capitalismo se desenvolver plenamente, foi necessário separar os produtores diretos dos seus meios de produção. Camponeses que tinham acesso à terra, a baldios, a instrumentos de trabalho ou a formas comunitárias de sobrevivência foram desapossados. Sem terra, nem recursos próprios, passaram a depender do salário. Ao mesmo tempo, a propriedade fundiária, o dinheiro e os instrumentos produtivos concentraram-se nas mãos de proprietários e capitalistas.

sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

Pedro Tadeu - TEMOS DE SER VASSALOS OU ESCRAVOS DE TRAMP?

🤔
Por Pedro Tadeu - Jornalista 

"Ser um vassalo feliz é uma coisa. Ser um escravo infeliz é outra coisa.” Esta frase de protesto contra o presidente norte-americano, Donald Trump, dita na segunda-feira em Davos no Forum Económico Mundial, pelo primeiro-ministro da Bélgica, Bart de Wever, desvenda, por um lado, como as elites europeias sempre aceitaram pacificamente uma subserviência com características medievais face aos Estados Unidos da América e, por outro lado, como não desejam o fim desta forma de feudalismo e aceitam ter um suserano desde que ele, magnânimo, lhes dê algumas benesses.

Durante décadas a União Europeia e o Reino Unido viveram numa condição de subserviência estratégica, disfarçada de aliança e parceria. A narrativa que nos contaram após o fim da União Soviética era a de que passava a vigorar uma “ordem internacional baseada em regras”. A União Europeia até integrou a definição no artigo 21.º do Tratado da UE, mas ligou-a ao cumprimento do direito internacional e da Carta das Nações Unidas. Contudo, essa ordem continha, desde o seu início, a semente da hegemonia norte-americana, que sempre se esteve nas tintas para a ONU.~

Tivemos assim a intervenção da NATO na Jugoslávia (1999). Esta ação não foi autorizada pelo Conselho de Segurança da ONU, a Carta da ONU. Os europeus, vassalos, aceitaram e participaram.

Tivemos a invasão do Iraque pela coligação liderada pelos EUA e pelo Reino Unido em 2003, também sem aprovação do Conselho de Segurança, baseada em justificações falsas, como a alegação de armas de destruição massiva. Os europeus, vassalos, aceitaram e participaram.

Tivemos intervenções com “mudança de regime” e uso abusivo de mandados da ONU, como foi o caso da Líbia, em 2011. Os europeus, vassalos, aceitaram e participaram.

Temos o caso do embargo a Cuba. Desde 1962, os EUA mantêm um embargo e, ano após ano, a ampla maioria dos países vota na Assembleia Geral da ONU a condenação dessa política. Os europeus, vassalos, aceitam a vontade norte-americana.

Temos casos de duplo-padrão na adesão às instituições jurídicas internacionais. Por exemplo, a Convenção da ONU sobre o Direito do Mar (UNCLOS): os EUA não ratificaram o tratado, mas invocam as suas disposições em patrulhas de “liberdade de navegação” no Mar do Sul da China.

O mesmo se passa no caso do Tribunal Penal Internacional (TPI): os EUA recusaram aderir ao Estatuto de Roma, mas apoiam o recurso ao TPI contra lideranças de países adversários.

E há o duplo-critério. Um exemplo recorrente é a relação dos EUA com Israel, que viola imensas resoluções do Conselho de Segurança e da Assembleia-Geral, mas tem uma garantia de excecionalidade que até lhe permitiu fazer um verdadeiro genocídio em Gaza.

Os europeus são cúmplices e participantes de tudo isto.

Esta subserviência política, esta aceitação de um sistema de “regras” definidas por Washington, foi consentida e alimentada durante décadas pelos europeus, muito antes de Trump decidir que quer ficar com a Gronelândia, de raptar o presidente da Venezuela, de fazer uma “ONU privada” com o seu Conselho da Paz e de querer dominar todo o continente americano. É uma “ordem internacional baseadas em regras” variáveis, como acontece desde o fim da Guerra Fria, mas agora com vítimas que se achavam donas do mundo e se vêem agora no papel de vassalos ou, pior, de escravos.~

Por mim, nem vassalagem, nem escravidão.


23 Jan 2026

 https://www.dn.pt/opiniao/temos-de-ser-vassalos-ou-escravos-de-trump

quarta-feira, 17 de setembro de 2025

Patrícia Reis - O estado da Nação


* Patrícia Reis

 
Diário de Notícias 02 Set 2025 
 
Os Países Baixos têm as crianças mais felizes, dizem os estudos. Crianças que passam muito tempo na rua, com chuva ou sol, uma carga de atividades extra reduzida. E podem ficar entediadas, porque aprender a gerir a frustração faz parte da vida. Não têm satisfações imediatas, não usam as novas tecnologias como uma extensão do corpo, leem e são estimuladas a conversar, nada de jantares ao som das breaking news do mundo. Os pais estimulam a autonomia, são pouco vigilantes, menos controladores, vá.  

Por aqui a história é outra, porque as crianças acumulam quadros de ansiedade, não sabem lidar com a rejeição nem com a frustração, precisam de estar sempre em movimento (quem disse que a malta tem de estar sempre ocupada?) e se uma criança vai para a escola a pé, a um quarteirão de distância da sua casa, é um ai Jesus. Não, os pais não perderam a cabeça, talvez estejam apenas a promover autonomia, segurança.  

A história mais bizarra que ouvi, há umas semanas, prende-se com jovens adultos. Um professor universitário contou-me que é confrontado com os pais dos alunos regularmente. Interpelam-no, pedem esclarecimentos sobre notas, intervêm como fazem na escola primária. “Isto não ajuda nada. A cereja no topo do bolo é a mãe que vem falar comigo, porque chumbei o filho e eu precisei de lhe mostrar as folhas de presença e de dizer: ‘O seu filho nunca veio a uma aula que eu tivesse dado’”. Cara de urso da mãe, imagino.  

O que leva os pais a controlar tanto a vida dos filhos? Porque precisarão eles de os ter fixos no ninho, mal preparados para o mundo real? Que exemplo damos a um jovem, se não acreditamos que seja capaz de resolver as suas questões, assumir responsabilidades?  

A educação é um dos pilares da sociedade, defendemos a ideia fundadora de oportunidades e princípios, mas a nossa aposta na educação é fraca. As redes sociais aceleraram a vida. Os jovens abusam das ferramentas de IA nos seus trabalhos escolares, reduzindo o tempo de pesquisa e de leitura; abandonaram a possibilidade enriquecedora de correlacionar informações que permitem um desenvolvimento de raciocínio, outras perspetivas. Ora, se não estimularmos o cérebro, ele encolhe. 

O neurocientista francês Michel Desmurget, autor do livro A Fábrica de Cretinos Digitais (2021, Bertrand Editora), explica que o mundo digital está a prejudicar o desenvolvimento neural de crianças e jovens e que, pela primeira vez desde a Segunda Guerra Mundial, o Quociente de Inteligência desceu.  

O QI é medido por um teste-padrão e é afetado por variáveis distintas, entre elas os sistemas educativos e de saúde ou as questões alimentares. A diminuição do QI foi já testada e documentada em vários estudos na Noruega, Dinamarca, França, Estados Unidos, entre outros. Michel Desmurget explica: “Vários estudos têm mostrado que quando o uso de televisão ou videogame aumenta, o QI e o desenvolvimento cognitivo diminuem” e acrescenta: “Os principais alicerces da nossa inteligência são afetados: linguagem, concentração, memória, cultura (definida como corpo de conhecimento que nos ajuda a organizar e a compreender o mundo). Em última análise, esses impactos levam a uma queda significativa no desempenho académico.”  

A super estimulação provoca uma diminuição cognitiva – pode parecer paradoxal, mas é para isso que os estudos apontam. Menos interação social e menos atividades estimulantes criativamente (música, artes, leitura) levam a perturbações do sono e têm um impacto real na forma de o cérebro processar informação. Sem alimento, certas zonas tornam-se, digamos, menos ativas, como se metessem férias. Os mais jovens precisam de estímulos, e não de tantos ecrãs e de informação proveniente apenas do universo digital. Estes alertas têm vindo a ser feitos em diferentes plataformas, de académicos a cientistas, de especialistas de educação a psicólogos. Ouvimos e não fazemos nada, o que é pouco inteligente. Entretanto os pais, hiper vigilantes, optam por sobreproteger os filhos. Como se desenrascará esta geração? Como diz o povo, o futuro a Deus pertence. 

Escritora e jornalista

 https://www.dn.pt/opiniao/o-estado-da-na%C3%A7%C3%A3o

Parícia Reis - O Estado da nação 2


* Patrícia Reis, 

Diário de Notícias, 16/09/2025)


O partido teve mais de um milhão de votos. Se todas as pessoas que votaram lerem este livro, dificilmente cometem o mesmo erro. O drama, com o qual este partido conta, é que a malta lê pouco, não é? E se provássemos o contrário? Não era incrível?

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A malta lê, lê até muito, garantem-me, e eu aposto que estamos a falar de ler o feed das redes sociais e pouco mais do que isso. Os livros parecem assustar os mais novos e os mais velhos, e mesmo fenómenos literários no Tik Tok de book influencers (só a designação me provoca desconforto) aparentam ser uma boa-prática mas, muitas vezes, são isentas de critério. Fui à livraria e preciso de vos dizer isto: existem livros maravilhosos.

A Literatura é um alimento para o cérebro e ajuda-nos a perceber temas e realidades, a mudar de ideias, a pensar. A Literatura serve para pensar. Agustina Bessa-Luís costumava dizer que escrevia para incomodar, o princípio é o mesmo. O entretenimento é, como a palavra indica, outra coisa: eu diria até que serve precisamente o fim oposto – enquanto estamos entretidos, não estamos a pensar..

Hoje temos livros publicados com a aparência da grande Literatura e que, espremidos, são apenas para isso, entreter. Temos livros com fonte de letra em tamanho grande, entrelinhas generosas, capítulos pequenos, tudo para facilitar o cérebro do leitor, mas temos também temáticas que são ondas, obedecem a tendências.

Neste momento há no mercado uma santa trindade: violência – saúde mental – autoficção. Ora, ninguém consegue viver só com desgosto e um leitor treinado sabe que, por pior que seja a história narrada, preferencialmente, deve existir sempre qualquer coisa que salve, qualquer coisa que permita uma certa redenção. É assim nos grandes clássicos, do Cem Anos de Solidão de Gabriel García Márquez a Ensaio Sobre a Cegueira de José Saramago; de Luzes de Leonor de Maria Teresa Horta à Ronda da Noite de Agustina Bessa-Luís.

A imaginação é o território fundador de qualquer escritor que pode, e deve, ser um observador da natureza humana – do seu tempo, caso opte por escrever sobre o que lhe é contemporâneo –; mas a imaginação, “a louca da casa”, conforme a designou Santa Teresa de Ávila (e cuja expressão Rosa Montero, a escritora espanhola, aproveitou como título de um dos seus livros, corram a ler, caso não o tenham feito já!), precisa de ser estimulada. Um escritor não faz decalques da realidade, vai muito mais longe. E sente o que as personagens sentem, vive o que elas vivem. Não é o contrário, as personagens não servem para imitar a vida real. A Literatura é mais do que isso.

O jornalismo, que tanto namora com a Literatura, é outra arte que importa cuidar. Miguel Carvalho, jornalista freelancer, publicou o livro Por Dentro do Chega (edições Objetiva) e o momento em que abri o volume foi de imensa satisfação. Por várias razões: o Miguel Carvalho é o melhor jornalista de investigação da sua geração, tem do jornalismo o mesmo entendimento que eu e que tem por base uma coisa muito simples, mas cada vez mais difícil de encontrar: a capacidade de ouvir os outros, estar com eles, tentar compreender as suas razões, mesmo que discordando. Este livro, em vésperas de eleições autárquicas e presidenciais, é um ato de correção social, chamar-lhe-ia a grande escritora e jornalista Maria Teresa Horta. Miguel Carvalho trabalhou neste volume de 752 páginas durante cinco anos, e fê-lo com a intensidade das coisas que apaixonam, porque é a única forma de fazer jornalismo. Aí concordamos novamente. O retrato do partido que hoje ocupa um lugar que era inimaginável em 2020 é, também, o retrato de um país, de uma desilusão, de um sistema. É igualmente um trabalho de uma seriedade a toda a prova, com os dados bem claros, as fontes confirmadas e reconfirmadas, os documentos lidos uma e outra vez. Como o jornalista nos leva pela mão é uma arte. E, não sendo esta uma obra de Literatura, representa outra maneira de promover pensamento, de agitar ideias e de corrigir factos. É um livro sobre a verdade de um partido, dos seus militantes, financiadores, apoiantes isolados ou até escondidos. Miguel Carvalho é um fervoroso defensor da democracia, a Liberdade talvez seja a sua palavra mais estimada. Este livro, depois de todos os que já assinou, comprova: o bom jornalismo está vivo e recomenda-se; e mostra que o medo não tem qualquer hipótese de vergar aquilo que se sabe ser certo. Conta-se a história de um partido de extrema-direita com a lisura com que se contaria outra qualquer história, porque é indiferente se este partido é hoje distinto do que era há cinco anos, quando se pensava que Marrocos poderia ser um destino para o seu líder; quando se advogava a hipótese de ser considerado um partido ilegítimo. Hoje estamos longe deste cenário, não há planos de fuga nem gente incrédula com o que acabou de ouvir, há uma dimensão de boçalidade que arrepia e que vive da grande ilusão de um discurso construído em cima da figura do líder, do seu putativo carisma, e pouco mais.

O partido teve mais de um milhão de votos. Se todas as pessoas que votaram lerem este livro, dificilmente cometem o mesmo erro. O drama, com o qual este partido conta, é que a malta lê pouco, não é? E se provássemos o contrário? Não era incrível?

Escritora e jornalista   
https://estatuadesal.com/2025/09/17/o-estado-da-nacao-2/

sexta-feira, 8 de agosto de 2025

António Barreto - As notícias na televisão

* António Barreto 

“É simplesmente desmoralizante. Ver e ouvir os serviços de notícias das três ou quatro estações de televisão é pena capital. A banalidade reina. O lugar-comum impera. A linguagem é automática. A preguiça é virtude. O tosco é arte. A brutalidade passa por emoção. A vulgaridade é sinal de verdade. A boçalidade é prova do que é genuíno. A submissão ao poder e aos partidos é democracia. A falta de cultura e de inteligência é isenção profissional.

Os serviços de notícias de uma hora ou hora e meia, às vezes duas, quase únicos no mundo, são assim porque não se pode gastar dinheiro, não se quer ou não sabe trabalhar na redacção, porque não há quem estude nem quem pense. Os alinhamentos são idênticos de canal para canal.

Quem marca a agenda dos noticiários são os partidos, os ministros e os treinadores de futebol. Quem estabelece os horários são as conferências de imprensa, as inaugurações, as visitas de ministros e os jogadores de futebol.

Os directos excitantes, sem matéria de excitação, são a jóia de qualquer serviço. Por tudo e nada, sai um directo. Figurão no aeroporto, comboio atrasado, treinador de futebol maldisposto, incêndio numa floresta, assassinato de criança e acidente com camião: sai um directo, com jornalista aprendiz a falar como se estivesse no meio da guerra civil, a fim de dar emoção e fazer humano.

Jornalistas em directo gaguejam palavreado sobre qualquer assunto: importante e humano é o directo, não editado, não pensado, não trabalhado, inculto, mal dito, mal soletrado, mal organizado, inútil, vago e vazio, mas sempre dito de um só fôlego para dar emoção! Repetem-se quilómetros de filme e horas de conversa tosca sobre incêndios de florestas e futebol. É o reino da preguiça e da estupidez.

É absoluto o desprezo por tudo quanto é estrangeiro, a não ser que haja muitos mortos e algum terrorismo pelo caminho. As questões políticas internacionais quase não existem ou são despejadas no fim. Outras, incluindo científicas e artísticas, são esquecidas. Quase não há comentadores isentos, ou especialistas competentes, mas há partidários fixos e políticos no activo, autarcas, deputados, o que for, incluindo políticos na reserva, políticos na espera e candidatos a qualquer coisa! Cultura? Será o ministro da dita. Ciência? Vai ser o secretário de Estado respectivo. Arte? Um director-geral chega.

Repetem-se as cenas pungentes, com lágrima de mãe, choro de criança, esgares de pai e tremores de voz de toda a gente. Não há respeito pela privacidade. Não há decoro nem pudor. Tudo em nome da informação em directo. Tudo supostamente por uma informação humanizada, quando o que se faz é puramente selvagem e predador. Assassinatos de familiares, raptos de crianças e mulheres, infanticídios, uxoricídios e outros homicídios ocupam horas de serviços.

A falta de critério profissional, inteligente e culto é proverbial. Qualquer tema importante, assunto de relevo ou notícia interessante pode ser interrompido por um treinador que fala, um jogador que chega, um futebolista que rosna ou um adepto que divaga.

Procuram-se presidentes e ministros nos corredores dos palácios, à entrada de tascas, à saída de reuniões e à porta de inaugurações. Dá-se a palavra passivamente a tudo quanto parece ter poder, ministro de preferência, responsável partidário a seguir. Os partidos fazem as notícias, quase as lêem e comentam-nas. Um pequeno partido de menos de 10% comanda canais e serviços de notícias.

A concepção do pluralismo é de uma total indigência: se uma notícia for comentada por cinco ou seis representantes dos partidos, há pluralismo! O mesmo pode repetir-se três ou quatro vezes no mesmo serviço de notícias! É o pluralismo dos *papagaios no seu melhor!

Uma consolação: nisto, governos e partidos parecem-se uns com os outros. Como os canais de televisão.

Publicado a: 
Atualizado a: 

https://www.dn.pt/arquivo/diario-de-noticias/as-noticias-na-televisao-5407534.html

sábado, 8 de março de 2025

Viriato Soromenho-Marques - Na tempestade de fogo


Na guerra, mesmo os sobreviventes prosseguem um cruel combate. Entre culpa e redenção, para resgatar uma réstia de bondade humana dos campos de batalha.

* Viriato Soromenho-Marques


Na guerra da Ucrânia, os soldados dos dois lados, mortos e feridos, não têm direito à revelação completa dos nomes. A lista de baixas está transformada num segredo de Estado. A batalha que se trava nos jornais e nas televisões é de pólvora seca verbal. Que sabemos, verdadeiramente, sobre a experiência desses soldados, homens e mulheres, ucranianos e russos, dilacerados nesse inferno de fogo e sangue lavrando há quase três anos?


Para nos aproximarmos de uma resposta teremos de recuar à I Guerra Mundial (I GM). As semelhanças esmagam. Duas guerras de dominância industrial e tecnológica. Novas e antigas armas encontram-se reunidas num concerto letal, colocando o mais treinado e valente dos guerreiros numa situação de impotência e acaso perante o fogo de artilharia, o ataque de drones e mísseis, as minas, a investida dos tanques, o tiro furtivo dos snipers, o fogo de armas ligeiras, os ataques aéreos a distâncias que inibem qualquer defesa por antecipação. Na I GM não ameaçavam drones assassinos, mas imperavam os gases venenosos, banidos hoje dos teatros de operações. Na I GM, o combate desenrolou-se, a partir do final de 1914, numa linha contínua de fortificações, que, na frente ocidental, correspondia aos 750 km que vão do Mar do Norte até à fronteira franco-suíça. Na Ucrânia, a frente fortificada estende-se por mais de 1200 km. Nos dois conflitos a maioria das baixas é causada pela arma de artilharia. As condições dos combatentes nas trincheiras são, em ambos os casos, de enorme dureza, e os tempos médios de sobrevivência (sem algum tipo de ferimento), podemos alvitrar, serão de escassos meses.


Ernst Jünger
Para quem queira conhecer (e sentir) melhor a brutalidade do esforço que Kiev e Moscovo pedem aos seus soldados nesta guerra (nada comparável com as campanhas assimétricas travadas pelos EUA contra rivais muito inferiores) aconselho a leitura do melhor livro sobre a I GM: Tempestades de Aço (edição portuguesa de Guerra & Paz, 2023), da autoria do grande escritor alemão Ernst Jünger (1895-1998), na altura um jovem oficial, miraculosamente sobrevivente a quatro anos de combate contínuo, pontuado por catorze ferimentos graves: “Cinco tiros de espingarda, dois estilhaços de granada, uma bala de granada, quatro granadas de mão e dois estilhaços de projétil de espingarda” (p. 278). Em setembro de 1918, Jünger receberia a mais alta condecoração militar prussiana, Pour le Mérite, normalmente apenas atribuída a generais e marechais.


O livro baseia-se nas anotações dos seus diários de guerra. Nele se pratica um hercúleo exercício de distanciamento e objetividade, tratando a guerra como se fosse um cataclismo natural, semelhante a um sismo ou um furacão. A narrativa está povoada pelos nomes de companheiros mortos, por gratidão com camaradas que por ele deram a vida, pela lembrança de soldados inimigos, mortos pelas suas armas, ou por ele poupados. Entre 1920 e 1978, o livro conheceu sete edições, revistas parcialmente. Na última edição, Jünger, a propósito de um jovem soldado inglês abatido pela sua espingarda, acrescenta o seguinte: “Mais tarde, pensei nele muitas vezes, cada vez mais, com o decorrer dos anos. O Estado, que nos isenta da responsabilidade, não nos pode libertar da dor; temos de ser nós a lidar com ela. Ele penetra até às profundezas dos nossos sonhos” (p. 235). Na guerra, mesmo os sobreviventes prosseguem um cruel combate. Entre culpa e redenção, para resgatar uma réstia de bondade humana dos campos de batalha.

Diário de Notícias, 2025/01/03

https://azoreantorpor.wordpress.com/2025/01/04/


James Brown - I feel good (Good Morning Vietnam Soundtrack) 1988

Jailme Nogueira Pinto - A Europa e a decadência,

 Opinião

* Jaime Nogueira Pinto

DN 07 Mar 2025, 00:27

Por vezes a resposta à realidade desagradável é ignorá-la; outras vezes é passar a tratá-la ao modo de Cruzada contra o Mal, o mal absoluto, contra o qual vale tudo; e nessa narrativa alternativa, concentrar tudo o que possa contraditar a realidade, usando argumentos laterais, colaterais, formais, por importantes que sejam, mas fugindo ao cerne da questão.

É este o juízo que me parece mais próprio, vendo o alheado agitar, esbracejar e passarinhar dos líderes europeus para longe do centro da intriga (o almejado fim do conflito Rússia-Ucrânia), perante a nova Administração americana e o seu dilúvio diplomático e executivo.

Em vez de caírem na realidade e nas consequências da realidade, “os europeus”, ou seja, essencialmente o duo Macron-Stamer (a que Merz ameaça juntar-se), continuam em manobras de diversão que, além de inconsequentes, se podem tornar perigosas.

Isto porque a Europa mudou neste último século. A Europa foi o centro do poder e da economia mundial até à Grande Guerra de 1914-1918. E saiu da guerra com os impérios alemão e austro-húngaro vencidos e desfeitos e com o vizinho império otomano também vencido e esfrangalhado.

Entretanto, na Rússia, dera-se uma revolução radical de esquerda, utópica e marxista, que praticava e prometia o genocídio de classe. Uma revolução que, posta em marcha, ameaçava a Europa, onde vários Estados - da Itália fascista ao Portugal da Ditadura Militar - adoptaram soluções autoritárias.

Para vencer a Alemanha, os aliados franco-britânicos tinham trazido os norte-americanos que, com o presidente Wilson, um cruzado da democracia mundial com nostalgias sulistas, quebravam o isolacionismo dos Founding Fathers e de Monroe.

Na Segunda Guerra passou-se algo semelhante; outra vez, contra uma forte corrente isolacionista, liderada pelo então “herói americano” Charles Lindbergh e pelo seu movimento America First, F.D. Roosevelt, depois de os japoneses atacarem Pearl Harbour, conseguiu levar a América para a guerra. E outra vez os americanos - com os russos de Estaline a vir do Leste atrás dos invasores hitlerianos - desembarcaram na Europa e resgataram os Ocidentais, vencidos e ocupados pelos alemães.

Estas “guerras civis europeias” - fosse qual fosse a sua justiça e sentido - além de causarem grandes destruições humanas, materiais e morais, marcaram o fim do mundo eurocêntrico. Na verdade, para ganhar a guerra e lograr o concurso dos seus colonizados no esforço de guerra contra a Alemanha e o Japão, os Aliados tiveram de lhes prometer o autogoverno. Nem de outro modo podia ser. Os impérios ultramarinos iam ser a principal vítima colateral da nova ordem mundial, redigida e fixada na Carta das Nações Unidas. E a Europa vencida, constrita e ocupada, iria avançar com projectos de união aduaneira e económica e até, para algumas elites políticas e tecno-burocráticas, de união e federação, sonhando e copiando o que acontecera nos Estados Unidos.

E face ao perigo comunista, que ocupara uma série de países da Europa Oriental, confiou-se com gratidão no amigo americano, a nova superpotência que, arcando com a defesa comum, libertava aos europeus recursos para, em democracia, construírem o Estado Social.

É isso que, agora, pode estar para acabar: os Estados Unidos não vão abandonar a NATO nos próximos tempos, mas também não parecem dispostos a tolerar o jogo duplo dos que vão a Washington ao beija-mão, mas bloqueiam a paz; dos que falam em rearmamento, mas se encolhem quando se trata dos seus filhos ou do seu dinheiro; dos que mandam os outros fazer peito aos poderosos e depois estender-lhes a mão.

Politólogo e escritor

O autor escreve de acordo com a antiga ortografia

https://www.dn.pt/opiniao/a-europa-e-a-decad%C3%AAncia?utm_source=website&utm_medium=related-stories

sexta-feira, 28 de fevereiro de 2025

João Lopes - Na solidão de Gene Hackman


Opinião

* João Lopes
 
28 Fev 2025, 00:46
 
Como nos lembramos de um ator? Ao saber da morte de Gene Hackman, contava 95 anos, pensei no seu papel, secundário, mas muito significativo, em Lilith (1964), obra-prima de Robert Rossen. O seu diálogo com Warren Beatty envolve as questões com que este supostamente se confronta no asilo de loucos em que trabalha como assistente, em particular na maneira de lidar com as mulheres aí recolhidas. Muito antes do simplismo moralista que o politicamente correto instilou nas nossas vidas, Hackman expõe uma monstruosidade especificamente masculina, sem nunca perder aquela bonomia bem-disposta que nos aproxima dele e, de algum modo, nos mobiliza - é tudo muito sereno e infinitamente perturbante.

Não haverá muitos que como ele tenham sabido expor, assim, com tal rigor e depuração, as contradições de que somos feitos - e a resistência a percebermos como somos feitos. Sem qualquer preocupação exaustiva, e para lá dos Óscares que ganhou - em Os Incorruptíveis contra a Droga (William Friedkin, 1971) e Imperdoável (Clint Eastwood, 1992), respetivamente como ator principal e secundário -, lembro o seu misto de transparência e mistério em filmes tão diversos como O Espantalho (Jerry Schatzberg, 1973), Um Lance no Escuro (Arthur Penn, 1975), Uma Outra Mulher (Woody Allen, 1988), Mississípi em Chamas (Alan Parker, 1988), A Firma (Sydney Pollack, 1993), O Golpe (David Mamet, 2001)... sem esquecer os seus invulgares dotes de comédia, por exemplo em Casa de Doidas (Mike Nichols, 1996).



'O Vigilante' (1974), ou a tragédia do poder. FOTO: D.R. / Arquivo

Há um filme algo esquecido de Francis Ford Coppola que pode simbolizar o prodigioso talento de Hackman. Chama-se no original The Conversation (1974), tendo sido lançado entre nós como O Vigilante. Inspirado em algumas personagens verídicas, o argumento, da autoria do próprio Coppola, dá-nos a conhecer Harry Caul, figura enigmática, fechada sobre si mesma, que trabalha numa equipa de sonoplastas que aceitam “encomendas” para efetuar escutas da vida privada de outras pessoas.

O filme não pode ser desligado de um contexto de acelerada transfiguração das vidas humanas pela evolução tecnológica, para mais contaminado por múltiplas formas de descrença política - e escusado será sublinhar que as suas inquietações não desapareceram neste nosso século XXI. Era o tempo em que os cartazes dos filmes não receavam usar frases relativamente longas e não resisto a lembrar a de O Vigilante: “Harry Caul é um invasor da privacidade. O melhor no negócio. Consegue gravar qualquer conversa entre duas pessoas em qualquer lugar. Até agora, morreram três pessoas por causa dele.”

A certa altura, há uma cena em que Caul monta a sua parafernália numa casa de banho. Para escutar melhor, enrosca-se, literalmente, por baixo de uma prateleira... e fica ali, com os seus auscultadores, a olhar para o vazio. É bem verdade que o filme tende a ser visto como a tragédia daqueles que são escutados - o que, aliás, de acordo com a frase promocional do cartaz, possui uma lógica irrefutável. Mas sinto sempre que essa visão “apaga” aquilo que temos ali mesmo, à nossa frente: a solidão irredutível do homem que escuta.

Dito de outro modo: O Vigilante é também um filme sobre a dispersão de uma personalidade no interior de um sistema de poder por ele servido, tanto quanto por ele desconhecido. Não que tal dispersão desresponsabilize Caul - longe disso. Acontece que ele serve um poder que, através do imponderável da tecnologia, tende a rasurar a própria noção de responsabilidade.

Hackman foi esse ator, capaz de encarnar personagens na fronteira da dimensão humana, à deriva no interior de um espaço social incapaz de os libertar de tão cruel solidão. Apesar de parco nas palavras, há um momento em que Caul discute com um dos colegas o valor da curiosidade na atividade dos humanos. Diz ele: “Se há uma regra segura que aprendi neste negócio é que não sei nada sobre a natureza humana. Não sei nada sobre a curiosidade, não tem nada a ver com aquilo que faço.”

Jornalista   
https://www.dn.pt/opiniao/na-solid%C3%A3o-de-gene-hackman

sexta-feira, 28 de junho de 2024

Fernanda Câncio - ATAQUE A RESTAURANTE ISRAELITA EM LISBOA

 


Um dos escritos que na noite de 11 de junho foi pichado pelo Coletivo pela Libertação da Palestina na parede do restaurante Tantura, em Lisboa. DR

26 junho 2024 às 14h16

“Não sabíamos das alegações sobre um massacre de palestinianos em Tantura”

O casal israelita que explora o restaurante Tantura - vandalizado a 11 de junho por “militantes antissionistas” - garante que quando o abriu nada sabia sobre o massacre alegadamente ocorrido em 1948 na aldeia palestiniana do mesmo nome. Para eles, dizem, é “o de uma das mais belas praias de Israel”.

Fernanda Câncio

Grande repórter

 “Tantura é um massacre”; “Free Palestine [Palestina livre]”. As duas frases foram pichadas, na noite de 11 de junho, na parede e montra do restaurante lisboeta Tantura, inaugurado em 2017 por um casal israelita. Imagens da pichagem foram publicadas na página de Instagram do Coletivo pela Libertação da Palestina (CLP), apelando ao “boicote do restaurante” em “solidariedade com a resistência palestiniana”, num ato que o CDS/PP, dias depois, qualificou como “crime de ódio antissemita”, exortando “todos os partidos democráticos” a “condenar veementemente” este tipo de crimes.

Também o embaixador de Israel em Portugal, Dor Shapira, qualificou, no Twitter, a 21 de junho, no texto que acompanha uma foto sua no restaurante abraçado aos donos, as pichagens de "vandalismo antissemita", garantindo: "A humanidade sempre dominará o ódio!"

Em resposta a perguntas enviadas pelo DN, os proprietários do restaurante, Elad Budenshtiin e Itamar Eliyahu, que se apresentam como “dois israelo-portugueses que se apaixonaram tanto por Portugal que decidimos viver aqui e fazer o que fazemos melhor”, não quiseram dizer se consideram as pichagens um crime de ódio ou um ato antissemita ou esperam que seja investigado como tal. Limitam-se a manifestar, através de um comunicado enviado pelo respetivo advogado, “extrema tristeza pela vandalização do restaurante” e “extremamente comovidos e agradecidos pelo nível de solidariedade que recebemos após este incidente, desde as autoridades ao cliente ocasional”.

E acrescentam: “Não somos políticos. Estamos a viver num país que amamos, aproximando pessoas e culturas através da comida. (…) Abrimos um restaurante, chamámos-lhe Tantura - nome de uma das mais bonitas praias de Israel - e o resto é história.”

Ora, de acordo com o comunicado que os autores da pichagem enviaram às redações, foi precisamente a história de Tantura, e o facto de os donos do restaurante do mesmo nome a elidirem, que motivou a ação.

“Tantura era uma pequena vila costeira palestiniana onde viviam cerca de 1500 pessoas”, lê-se no dito comunicado. “Na noite de 22 de maio de 1948, uma semana após a declaração do Estado de Israel, foi atacada e ocupada por uma brigada do exército sionista. Esta foi apenas uma das cerca de 530 aldeias palestinianas que foram destruídas para dar lugar ao Estado sionista (…) num ato de limpeza étnica (…) ao qual as pessoas palestinianas chamam Nakba - catástrofe, em árabe.”

Porém, prossegue a narrativa, “o destino de Tantura foi pior que o da maioria. Testemunhos de aldeães palestinianos e soldados israelitas afirmam que (…) o exército massacrou até 250 civis e membros da resistência palestiniana - na sua maioria jovens desarmados (…). A aldeia foi quase toda destruída. Hoje, as valas comuns onde enterraram os corpos estão sob parte de um resort de praia a que chamam Dor. No entanto, em toda a presença online ou offline do restaurante (…) não parece haver qualquer tipo de reconhecimento do massacre de Tantura ou de Tantura ser uma aldeia palestiniana destruída pelo projeto colonial israelita.”

Os testemunhos a que o CLP faz referência foram pela primeira vez revelados publicamente em 2000, na imprensa israelita, na sequência de uma tese de mestrado da Universidade de Haifa, da autoria de Ted Katz, sobre o que sucedeu a aldeias árabes/palestinanas após a declaração de independência de Israel, quando o jovem país enfrentava uma invasão por todos os seus vizinhos árabes. Katz acabaria processado por membros da brigada do exército israelita que ocupou Tantura, e, no início do julgamento, assinou uma carta na qual escreveu: “Não quis dizer que houve um massacre em Tantura e hoje digo que não houve um massacre em Tantura”. Viria depois a querer retirar essa capitulação, mas o tribunal não permitiu; apelou para o Supremo, mas este não aceitou o recurso.

22 anos depois, um documentário intitulado Tantura, do realizador israelita Alon Schwarz, recuperou a investigação de Katz, revelando entrevistas atuais de membros da brigada que reconhecem - por vezes em tom chocantemente chocarreiro - a ocorrência, após a tomada de Tantura, de execuções de palestinianos desarmados e de atos de violência sexual perpetrados pelos soldados. Malgrado estes testemunhos, a existência de um massacre no local continua a ser - até porque nunca houve uma tentativa de inumar os mortos (há comprovadas, até por documentos contemporâneos do exército israelita, valas comuns na área) - controversa (como veremos mais à frente).

Questionados pelo DN sobre o seu silêncio - confirmado pelo jornal quer no site do restaurante e respetivo menu quer em entrevistas concedidas desde 2017 a 2024 - em relação à história de Tantura, Elad e Itamar justificam-se, no citado comunicado: “Quando abrimos o restaurante, em 2017, não conhecíamos as referidas alegações [sobre o massacre] sobre Tantura. O documentário [cujo link o jornal lhes enviou] só saiu em 2022.”

“Devem ler sobre o que os vossos ancestrais [portugueses] andaram a fazer”

Não fica claro quando Elad e Itamar se deram conta das ditas alegações e ainda menos o que pensam delas (perguntas que lhes foram feitas pelo DN). Nem por que motivo se referem, em várias entrevistas, inclusive em 2024, e também no site do restaurante, a Tantura como “uma aldeia israelita (…) de onde “chegámos a Lisboa”; "onde se conheceram e casaram"; na qual teriam vivido “quatro anos; onde teriam “uma pequena empresa de catering”; onde Itamar, que tem 45 anos, nasceu, e onde a sua família explorou “um pequeno negócio de arrendamento turístico”Na resposta enviada ao jornal, nenhuma das perguntas sobre a ligação do casal ao local a que dão o nome de Tantura foi esclarecida, nomeadamente se ali viveram, se Itamar ali nasceu e, nesse caso, desde quando a sua família ali residiu.

Ora é incontroverso que Tantura foi o nome de uma aldeia árabe/palestiniana ocupada pelo exército israelita logo a seguir à fundação de Israel, há 76 anos, e que o local, após a saída/expulsão dos palestinianos, passou a chamar-se Dor (recuperando a antiga designação Dor - ou Dar, em hebraico antigo - da povoação portuária de Canaã, a bíblica “terra prometida dos judeus, que existiu ali há milhares de anos).

Aliás, colocando no Google a palavra Tantura não surge qualquer referência a um local contemporâneo em Israel; nem sequer nos sites dos resorts/hotéis de Dor consultados pelo DN se encontrou esse nome. Na Encyclopedia Britannica, na entrada Dor, lê-se: “A aldeia árabe de Tantura que existia no local foi tomada pelo IDF [Israeli Defense Forces, ou Forças de Defesa Israelitas] em maio de 1948; no ano seguinte foi ali estabelecida, por imigrantes judeus-gregos, a povoação moderna de Dor. A norte de Dor, situa-se o kibbutz de Nahsolim, fundado em 1948.” De acordo com a informação encontrada pelo jornal, Dor terá cerca de 465 habitantes.

Inquiridos especificamente sobre se o nome Tantura ainda é usado em Israel para designar Dor, Elad e Itamar não responderam.

Já em junho de 2023 a equipa do restaurante teria sido questionada, por email, sobre a referida ausência de menção, em materiais promocionais, ao facto de o nome Tantura ser o de uma aldeia palestiniana. É o Coletivo pela Libertação da Palestina que o garante num panfleto intitulado “Tantura, sabores de um massacre”, e que terá sido distribuído na festa de aniversário do restaurante. Segundo o panfleto, a equipa respondeu ao contacto do CLP remetendo para a história de Portugal: “Antes de discutirmos as nossas visões políticas, acho que devem ler um pouco sobre história portuguesa, para verem o que os vossos ancestrais andaram a fazer no passado (…). Antes de decidirem quem tem razão façam uma pesquisa mais aprofundada. Se precisarem de ajuda, poderemos dar-vos alguma informação.”

A crer neste relato do CLP, a informação aludida nunca terá sido enviada. Também na resposta às perguntas enviadas pelo DN a Elad Budenshtiin e Itamar Eliyahu, como já referido, não foi adiantada qualquer informação, ou posição, sobre a história da localidade que designam de Tantura.

“As pessoas escolhem esquecer o que não é conveniente”

“Muitos israelitas não conhecem a história do país. Muitos acreditam naquela história ingénua de que os palestinianos fugiram de motu proprio.” As palavras são de Alon Schwarz, o autor do já citado documentário Tantura, numa entrevista de dezembro de 2022 sobre o filme. O qual, explica, além de ser sobre a expulsão dos palestinianos das zonas ocupadas pelo novo Estado judeu - zonas delineadas pelo plano de partição decidido pela Organização das Nações Unidas em 1947 - e sobre os crimes de guerra cometidos durante a mesma, e portanto sobre o que designa de “a história não contada do mito fundador de Israel”, é também sobre “como as pessoas escolhem esquecer, ou não lembrar, o que é inconveniente”, “como escolhemos dulcificar a história do nosso país”.

Trata-se assim, para Schwarz, de uma mistura entre ignorância genuína e deliberação de ignorar. Como acusam vários académicos que entrevistou para o documentário: “Quando em 1988 Israel celebrou os 40 anos da guerra da independência, era suposto as Forças de Defesa Israelitas divulgarem a documentação sobre a guerra. Mas quando foram ver o arquivo disseram: ‘Não podemos divulgar isto.’ E escreveram uma ordem detalhando o critério para divulgar documentos”, afirma o historiador Adam Ratz, autor do livro, a publicar em setembro, Loot. How Israel Stole Palestinian Property/Saque. Como Israel roubou a propriedade palestiniana, enquanto mostra o documento em causa. “O Estado decidiu que não quer divulgar material que diga respeito a ‘deportação de árabes’; ‘evacuação de comunidades e residentes’; ou, e esta é a minha preferida, ‘comportamento violento em relação a prisioneiros, que viole a convenção de Genebra’ ou ‘comportamento violento dirigido à população árabe e atos de crueldade, homicídio, mortes que não ocorram em combate, violação, roubo, saque’, material ‘que possa afetar a imagem das IDF, apresentando-as como um exército de ocupação, destituído de princípios éticos’.”

Que aprendemos com isto, pergunta Ratz, e responde: “Que o Estado de Israel quer preservar, de todas as formas possíveis, o mito fundador da ‘israelidade’: de que somos o exército e a sociedade mais morais do mundo. O que nós, o público, encontramos, quando vamos aos arquivos, é o que passou este filtro. Ou seja, material que mostra que não houve expulsão, que não houve transferência de população, não houve destruição de aldeias. Mas isso é mentira.  E o Estado, sabendo que o é, investe tremendos recursos para impedir que, não as pessoas de fora, mas as deste país, descubram a verdade sobre o seu passado”.

Partindo do material recolhido por Ted Katz, o já citado investigador da Universidade de Haifa que no final do século XX fez a sua tese de mestrado sobre a ocupação e depopulação de várias aldeias palestinianas, entrevistando ex-moradores e membros da brigada do exército israelita que tomou Tantura - a brigada Alexandroni -, o documentário vai à procura das testemunhas que restam, incluindo Katz. Este é apresentado como um homem destruído pelo que lhe sucedeu - o processo, a carta de abjuração que assinou e que, por sua vez, quis, sem sucesso, abjurar, e o facto de a sua universidade, que lhe tinha outorgado uma ótima nota na defesa da tese, lhe ter imposto que a revisse, impedido-o de prosseguir o doutoramento.

O filme é um documento avassalador, sobretudo pelos testemunhos de membros da brigada Alexandroni que reconhecem a existência de crimes de guerra e contra a humanidade - execução de prisioneiros desarmados, violação de mulheres, ocultação dos mortos em valas comuns. Ainda assim, há quem o considere, e ao alegado “grande massacre”, uma fraude. É o caso do historiador Ben Morris, que diz ter sido entrevistado por Schwarz “durante mais de duas horas” e descoberto que nem aparece no documentário.

Se houve um massacre em Tantura, porque não é referido na historiografia árabe?

Num artigo publicado em 2022 no diário israelita de esquerda Haaretz, Morris, que recentemente qualificou a ocupação israelita da Cisjordânia como “um regime de apartheid baseado não na raça, como o da África do Sul, mas no nacionalismo”, diz que Schwarz não quis incluir no filme a sua visão porque contradizia a narrativa que queria vender, a de que “os judeus se portaram como nazis”. A visão de Morris, que explica no texto, é que se há historiadores israelitas, como ele próprio - num artigo de 2004 intitulado The Tantura “massacre” affair- a reconhecer que os soldados israelitas cometeram “pequenos crimes de guerra” em Tantura [execução de sete snipers palestinianos, violações e saques], rejeitam a narrativa do “grande massacre”. 

“Se houve um massacre de 200 a 250 pessoas em Tantura, terá sido o maior dos massacres de 1948. Mas não existe nenhum documento disponível de 1948 que mencione um massacre em Tantura (…). Estranho, muito estranho, porque todos os massacres perpetrados por judeus em 1948 são pelo menos mencionados, se não mesmo descritos, em documentos de 1948 (…). Deir Yassin, Burayr, Ein Zeitun, Lod, Hunin, Dawayima, Eilabun, Arab al-Mawasi, Majd al-Kurum, Saliha, Jish, Safsaf, Bi’na-Deir al Asad – os massacres perpetrados pelos judeus nestes locais e outros são todos mencionados em documentos contemporâneos, alguns em detalhe. Só não o de Tantura - nenhuma menção”, escreveu Morris no artigo de 2022, perguntando: "Alguém acredita que entre os mil deportados, que já não estavam sob controlo judaico, nem um se tenha incomodado em dizer aos oficiais iraquianos ou à ONU ou à Cruz Vermelha que, já agora, tinham assistido a um massacre horrendo dos seus pais, irmãos, filhos (…)?” E conclui: “É simplesmente inconcebível, se tivesse ocorrido um massacre em larga escala que eles tivessem testemunhado ou do qual pelo menos tivessem ouvido falar.”

Outro argumento que lhe parece decisivo no sentido de refutar a narrativa do “grande massacre de Tantura” é a inexistência de menção na historiografia árabe/palestiniana credível: “Um memorando do Alto Comissariado Árabe intitulado ‘As atrocidades dos judeus’, enviado para a ONU em julho de 1948, não menciona Tantura (…). O livro considerado a bíblia da Nakba, os seis volumes intitulados Al-Nakba, publicados entre 1956 e 1960 pelo cronista Are al-Aref, não menciona um massacre em Tantura. Tão-pouco Walid Khalidi, o mais importante e mais sério dos historiadores palestinianos, menciona um massacre em Tantura, apesar de dedicar duas páginas e meia à aldeia no seu enciclopédico livro de 1992 sobre as aldeias perdidas, All that remains/Tudo o que resta.” 

Por fim, respondendo ao artigo, também no Haaretz, em que, segundo ele, Schwarz o tenta apresentar como um negacionista da Nakba, Morris adverte: “É possível sustentar que não houve ‘um massacre em larga escala’ em Tantura e ainda assim afirmar que judeus massacraram árabes noutros locais e que os palestinianos sofreram uma ‘nakba’ (catástrofe).”

O DN tentou chegar à fala com membros do Coletivo pela Libertação da Palestina para os confrontar com a acusação, expressa pelo CDS/PP referindo a ação contra o restaurante de Elad Budenshtiin e Itamar Eliyahu, de crime de ódio e antissemitismo. O CLP, que no seu manifesto assevera rejeitar “qualquer tipo de perseguição ou discriminação de pessoas com base nas suas características, como retórica anti-árabe ou antissemita” e só criticar “posições políticas”, optou por não responder.

Em 14 de junho, o DN pediu à PGR informação sobre a eventual abertura de um inquérito relacionado com a pichagem do Tantura, e sobre se este, a existir, investigaria o eventual cometimento de um crime tipificado no artigo 240º do Código Penal (Discriminação e incitamento ao ódio e à violência), não tendo obtido resposta até ao momento. 

https://www.dn.pt/2909639589/nao-sabiamos-das-alegacoes-sobre-um-massacre-de-palestinianos-em-tantura/

quarta-feira, 19 de junho de 2024

Paula Cardoso - Encontrei um corpo na bagageira do Uber, mas não é dos “nossos”

 OPINIÃO

 * Paula Cardoso 

Fundadora da Rede Afrolink

12 junho 2024

Conhecemo-nos entre pausas para café. Ela e ele estavam em dupla, ao serviço de uma empresa de segurança, eu andava por ali a desdobrar-me entre painéis de discussão.

Conversa puxa conversa, fomos desfiando trivialidades quotidianas e enormidades trabalhistas quando as deslocações de Uber se tornaram tema.

Sem que nada o fizesse prever, ele contou-nos a surpresa de uma das últimas viagens: “Encontrei um corpo na bagageira”.

Adepta ferrenha de séries e documentários de investigação criminal, pus-me imediatamente a imaginar um cenário com sangue, intervenção policial, e um vigilante transformado em herói acidental. Viajei no meu enredo por escassos segundos, porque depressa a realidade da descrição se impôs.

Embora o meu horror continuasse a ser totalmente justificado, e não restassem dúvidas sobre a natureza criminosa daquela realidade, os motivos eram completamente diferentes.

Para começar, o corpo encontrado estava bem vivo, e isso, garantiu a testemunha, sobressaía da forma como roncava.

“Acho que enquanto um dormia, o outro conduzia e, dessa forma, o carro continuava a girar, sem parar”, apontou, rápido nas associações. “Não me diga que nunca repararam nas fotos dos motoristas. Comecem a reparar. Vão ver que muitas vezes não batem certo com quem apanham ao volante!”.

Assumi que tenho andado distraída, mais focada em matrículas e cores de carros, quando a colega juntou à conversa mais uma camada de indignidade quotidiana: “Com o preço que se cobra por um simples quarto, se calhar a bagageira tornou-se a única possibilidade de abrigo”.

De repente, instalou-se entre nós um silêncio sepulcral, e algo cúmplice, próprio de quem partilha a consciência de que qualquer que fosse a hipótese, ela representaria sempre condições de vida inaceitáveis num Estado que se quer de Direito, e com direitos para todas as pessoas.

Reconhecer isso implica ser humano, característica que, sem aparente constrangimento e com evidente acolhimento, cada vez mais gente revela não ter, evocando um Estado para “os nossos”, e um Estado para “as outras pessoas”.

Mas, quem são “os nossos”? Quem são “as outras pessoas”?

As classificações vêm com uma série de construções desumanizantes, estrategicamente engendradas por sucessivos poderes para conservar privilégios, legitimar a exploração trabalhista, e normalizar violações de Direitos Humanos.

É uma pessoa do nosso tempo, e não de outro, aquela que, em 2024, despreza  Iqbalh Hossain porque decidiu que ele, por ser do Bangladesh, não é dos "nossos". Ou, escrito de outro modo, é inferior. Portanto, pouco importa que, para proteger a filha do racismo e xenofobia crescentes em Portugal, a tenha retirado do país, e sofra com esse afastamento. O que interessa é saber se “cumpre as regras”.

São igualmente pessoas do nosso tempo, ainda que corroídas de saudades de eras imperiais e coloniais, aquelas que, munidas de protecção policial, desfilam ódio racista pelas ruas e gozam do estatuto de “nacionalistas”.

A quem serve este rótulo?  Em entrevista ao programa “Roda Viva”, da TV Cultura do Brasil, Grada Kilomba puxa pelos nossos questionamentos, a partir dos seus.

“Não podemos esquecer que essa questão da nacionalidade e da nação é um dos instrumentos mais violentos, hoje em dia, em que nós excluímos quem é que pode pertencer e quem não, e quem é que pode atravessar quais nações. Tudo está ligado, e, portanto, não é nenhuma surpresa que tantas artistas e pensadoras pensem: ‘Eu estou aqui, mas eu relaciono-me; a minha relação com o mundo vai para além da ideia de nação’”.

Nascida em Portugal, com raízes em Angola e São Tomé e Príncipe, residência na Alemanha e uma carreira sem fronteiras, Grada sublinha que “é muito importante perceber quem é incluído numa nação, e quem é que pode representar uma nação”. No fundo, “quais são os corpos que podem representar uma nação, e que podem representar o cânone nacional, e também quais os corpos que atravessam várias diásporas”, como o seu.

Lembrando os estragos da Conferência de Berlim, de 1885, a artista multidisciplinar afirma: “Eu não estou interessada em representar uma nação. Estou interessada em questionar o que é uma nação (…) o que é interessante é desmembrar e entender de onde vêm estas construções [de nação e de nacionalidade], que estão intimamente ligadas com uma história de violência, com uma história colonial. Portanto, não devem ser repetidas com simplicidade”.

Mas são, e continuarão a sê-lo enquanto insistirmos em ignorar o corpo na bagageira. Só e apenas por não ser “o nosso”.

 

Fundadora do Afrolink

https://www.dn.pt/1678935828/encontrei-um-corpo-na-bagageira-do-uber-mas-nao-e-dos-nossos/ 


Paula Cardoso - Era uma vez esta crónica

 ENTRE MEADAS -

* Paula Cardoso

Fundadora da Rede Afrolink

19 junho 2024

"Escrever sobre o quê, afinal?”. Conto, no prefácio do primeiro livro que publiquei, da minha marca “Força Africana”, que, a determinada altura da infância, vivia obstinada em me encontrar naquilo que lia.

Passo a especificar: “Lembro-me, a certa altura, de inspeccionar com minúcia as ilustrações a preto e branco de um dos livros da minha colecção favorita, numa procura obsessiva por um reflexo da minha identidade. Este é como nós, cheguei a celebrar com uma das minhas irmãs, que rapidamente me arrancou desse ansiado lugar de pertença. Ele não era como nós. Nenhum dos personagens, apresentados naquela ilustração mal impressa, era como nós.”

Trago este pedaço de memória já publicada para enquadrar a resposta àquela pergunta, que se repete a cada espaço de opinião que ocupo: “Escrever sobre o quê, afinal?”.

Quando o Ricardo Cabral Fernandes me desafiou para assinar uma crónica no Setenta e Quatro, explicando que se estava a construir um projecto plurivocal, fez questão de não me fechar numa caixa. Disse-me mais ou menos isto: “Como é óbvio, tens liberdade para escrever sobre o que quiseres. Não te sintas obrigada a falar sobre racismo.”

Pouco depois, ouvi a mesma prescrição de amplitude temática do Gerador, onde entrei por convite da então responsável editorial, Andreia Monteiro.

Com a entrada para o DN, no início deste ano, sob recomendação de Nuno Ramos de Almeida e direcção de José Júdice, o acolhimento não foi diferente, mas, no meu percurso, representou uma diferença assinalável. Pela primeira vez em cerca de 20 anos de imprensa escrita, pude assinar opinião num media mainstream, saindo da bolha dos nichos, onde me fiz visível com o Afrolink.

Notei a mudança logo ao primeiro texto, porque, ao contrário do que observei no Setenta e Quatro e no Gerador, onde as audiências convivem regularmente com a temática racial, no DN estas discussões ainda suscitam repúdio, tornando-se, aos meus olhos, especialmente necessárias.

Aliás, quando dei a esta crónica o nome “Entre Meadas”, pensava na urgência de criarmos espaços de resistência a ruídos de polarização, e a manobras de exclusão de vozes sub-representadas. Continuo a defender a importância de o fazermos, mas deixarei de o fazer por aqui.

Por decisão da actual direcção, que me foi comunicada por e-mail na semana passada, e justificada por constrangimentos financeiros, este é o meu último artigo nesta coluna.

“Escrever sobre o quê, no final?”. 

Escolhi trazer a “Força Africana”, porque foi a partir dela que, conscientemente e assumidamente, comecei a fazer da escrita arma e resistência.

Se escrevo sobre racismo, não é por falta de tema, mas por causa do sistema.

Num espaço mediático povoado de redacções sem diversidade nem consciência étnico-racial, onde as vidas negras são demasiadas vezes reduzidas a estereótipos e notas de rodapé, como não escrever sobre a minha identidade negra, profundamente atravessada pelo racismo?

Sinto o dever de o fazer e, mais do que isso, de honrar todas as vozes que, muito antes da minha, deram a vida para que hoje eu possa ocupar este lugar.

Embora não me veja como porta-voz de ninguém, a não ser de mim própria, sei bem a importância que a minha simples presença pode ter junto de outras pessoas negras, sobretudo crianças e jovens.

Não me caso de partilhar, por exemplo, como precisei de ver o José Mussuaili a apresentar notícias na televisão, para começar a olhar para o jornalismo como uma possibilidade.

Continuar a ter de escrever sobre isto, em 2024, é exasperante. Reconhecer que pouco mudou cerca de três décadas depois é desolador.

E, regressando ao prefácio da “Força Africana”, despeço-me com as palavras da professora Eugénia da Luz Silva Foster, para quem importa reconhecer que “a discriminação racial ocorre também pela invisibilidade, pelos silêncios e pelas ausências, quer nos textos literários, quer nas imagens, nas ilustrações, que ensinam a desvalorização do negro”.

Seja onde for, continuarei a escrever contra isso.

https://www.dn.pt/2934567558/era-uma-vez-esta-cronica/

sábado, 15 de junho de 2024

Anselmo Borges - O humor, o riso e o divino

* Anselmo Borges

Pediram-me uma vez uma reflexão precisamente sobre o tema em epígrafe. Aí fica uma tentativa. Sobre Deus que sabemos nós? Ele é infinito e está para lá de tudo o que possamos pensar ou dizer. O que sabemos dEle sabemo-lo através de Jesus, a sua revelação no mundo.

Através de Jesus, sabemos que Deus é, como se lê na Primeira Carta de São João, Agapê: Amor incondicional. Mas o Evangelho segundo São João também diz que Deus é Logos: Razão, Inteligência e que tudo foi criado pelo Logos. Por isso, Deus tem sentido de humor, pois o humor é sinal de inteligência. Não é o humor fino revelador de uma inteligência fina?

Logo no primeiro livro da Bíblia, o Génesis, há uma passo belíssimo em conexão com o riso. "O Senhor apareceu a Abraão quando ele estava sentado à porta da sua tenda", sob a figura de três homens. "Onde está Sara, tua mulher?" Ele respondeu: "Está aqui na tenda. Um deles disse: Passarei novamente pela tua casa dentro de um ano, nesta mesma época, e Sara, tua mulher, terá já um filho". Ora, Sara estava a escutar à entrada da tenda. Abraão e Sara eram já velhos, e Sara já não estava em idade de ter filhos. Sara riu-se consigo mesma e pensou: "Velha como estou, poderei ainda ter esta alegria, sendo também velho o meu senhor?"." O que é facto é que "o Senhor visitou Sara, como lhe tinha dito, e realizou nela o que lhe prometera. Sara concebeu e, na data marcada por Deus, deu um filho a Abraão, quando este era já velho. Ao filho que lhe nasceu de Sara deu Abraão o nome de Isaac. Abraão tinha cem anos quando nasceu Isaac, seu filho. Sara disse: Deus concedeu-me uma alegria, e todos quantos o souberem alegrar-se-ão comigo."

Há aqui dois tipos de riso: Sara ri-se para dentro: como é possível, velha, ter um filho? Mas ao filho é dado o nome de Isaac, que, em hebraico, quer dizer "riso", sendo aqui o riso um riso intenso de alegria: Isaac também quer dizer "aquele que traz alegria".

De Jesus diz-nos o Evangelho que chorou: chorou pela morte do seu amigo Lázaro, também sobre Jerusalém. Não se diz que riu. O nome da rosa, de Umberto Eco, anda também à volta dessa questão. Mas já Santo Tomás de Aquino observou que é evidente que Jesus riu. A prova: Jesus é homem e rir é característica essencial do ser humano. Jesus participou em festas de casamento e alguém imagina uma festa de casamento sem risos, sem piadas festivas? O Evangelho testemunha que Jesus experienciou o melhor sentimento face à vida e ao seu milagre: o do maravilhamento e do contentamento.

O humor e o riso, repito, são um sinal evidente de inteligência, desdramatizam a vida, permitem viver de modo sadio consigo próprio, fazem bem à saúde, abrem transcendências. A Igreja está atravessada pelo bom humor, porque "um santo triste é um triste santo". E há piadas fatais. Lá está o dito famoso: ridendo castigat mores: a rir castiga-se e corrige-se os costumes. Gil Vicente foi exemplar nisso. Digo: ai da Igreja e dos crentes sem a crítica mordaz, ácida, pela palavra e pela caricatura! O que não se pode é cair na boçalidade, pois esta apenas significa falta de inteligência. O riso também cura a vaidade oca: "Mesmo no mais alto trono do mundo, está-se sentado sobre o cu", escreveu Montaigne.

Na Idade Média, realizava-se a chamada Festa dos Loucos, uma crítica brutal ao poder eclesiástico. Pegava-se num subdiácono, o grau mais baixo da hierarquia, era vestido de bispo, colocado em cima de um burro, entrava na igreja com a face voltada para a cauda, de costas para o altar. Em momentos fundamentais da liturgia, o celebrante e o povo zurravam. Na transmissão simbólica do báculo episcopal, rezava-se o Magnificat naquele passo: "e Deus derrubou os poderosos e exaltou os humildes." Chamada a pronunciar-se, a Faculdade de Teologia de Paris, justificou-a com a necessidade de dar expansão à crítica, voltando depois a ordem.

A propósito da força crítica da piada e da caricatura, fica aí esta sobre o Vaticano e todo aquele luxo, que blasfema do Evangelho de Jesus, no fausto de uma procissão com cardeais, arcebispos, bispos, monsenhores... Veio São Pedro à janela do Céu e viu aquilo e, estarrecido, chamou Jesus, que olhou e apenas comentou: "E pensarmos nós, Pedro, que começámos aquilo, entrando de burro em Jerusalém onde fui crucificado... Lembras-te?" Por isso, respondi uma vez a uma jornalista: "Não. Jesus não entraria no Vaticano, porque não o deixariam entrar."

Francisco socorre-se também do bom humor, e todos os dias reza a Oração do bom humor, oração atribuída a São Tomás Moro, o autor de A Utopia, o ex-chanceler que não se esqueceu de levar a gorjeta para o carrasco que ia decapitá-lo. Francisco recomendou-a também aos membros da Cúria Romana, onde tem tantos adversários e até inimigos, a quem falta o bom humor divino: "Dá-me, Senhor, uma boa digestão e também algo para digerir./ Dá-me um corpo saudável e o bom humor necessário para mantê-lo./Dá-me uma alma simples que sabe valorizar tudo o que é bom/ e que não se amedronta facilmente diante do mal, /mas, pelo contrário, encontra os meios para voltar a colocar as coisas no seu lugar./ Concede-me, Senhor, uma alma/ que não conhece o tédio,/ os resmungos,/ os suspiros/ e as lamentações,/ nem os excessos de stress por causa desse estorvo chamado "Eu"./ Dá-me, Senhor, o sentido do bom humor./ Concede-me a graça de ser capaz de uma boa piada, uma boa piada para descobrir na vida um pouco de alegria/ e poder partilhá-la com os outros./ Ámen."

08 julho 2022

Padre e professor de Filosofia.

Escreve de acordo com a antiga ortografia

https://www.dn.pt/opiniao/amp/o-humor-o-riso-e-o-divino-15003359.html/

Anselmo Borges - O cómico e o riso no Vaticano


*  Anselmo Borges

 

1. Este texto foi escrito antes da realização de um acontecimento que julgo muito significativo e que teria lugar no Vaticano no dia de ontem: o encontro do Papa Francisco com mais de 100 humoristas de todo o mundo, entre eles Joana Marques, Maria Rueff e Ricardo Araújo Pereira.

Um encontro organizado pelo Dicastério para a Cultura e a Educação e pelo Dicastério da Comunicação. O seu objectivo: “estabelecer um diálogo entre a Igreja Católica e os humoristas”. “Francisco reconhece o grande impacto que a arte da comédia tem no mundo da cultura contemporânea. Através do talento humorístico e do valor unificador do riso nos dias de hoje, são oferecidas reflexões únicas sobre a condição humana e a situação histórica. Além disso, a arte da comédia pode contribuir para um mundo mais empático e solidário”, referia o comunicado do Vaticano, acrescentando que “o encontro entre Francisco e os actores cómicos do mundo pretende celebrar a beleza da diversidade humana e promover uma mensagem de paz, amor e solidariedade, e promete ser um momento significativo de diálogo intercultural de partilha de alegria e esperança.”

2. Estando a escrever antes do acontecimento, só posso esperar que assim seja. E, sobre o tema, deixo aí algumas reflexões, já por vezes aqui expandidas.

A Igreja oficial nunca se deu muito bem com o humor e o riso. Por exemplo, ainda vivi tempos nos quais durante o Carnaval, nos seminários, havia a chamada “Exposição do Santíssimo Sacramento” e durante o dia e a noite rezava-se pelos pecadores e fazia-se penitência em reparação pelos pecados daqueles dias. Sou sincero: nunca percebi em que diferiam os pecados do Carnaval dos pecados dos outros dias.

Até se generalizou a ideia de que Jesus nunca se riu. Na verdade, de Jesus diz-nos o Evangelho que chorou: chorou pela morte do seu amigo Lázaro e Jerusalém... Não se diz que riu. Mas já Santo Tomás de Aquino observou que é evidente que Jesus riu. A prova: Jesus é homem e rir é característica essencial, distintiva, do ser humano. Jesus participou em festas de casamento e alguém imagina uma festa de casamento sem risos? Uma boa piada pode estabelecer pontes, o riso é cura. Lá está Kant: para aliviar as agruras da vida, o Céu deu-nos três coisas: “a esperança, o sono e o riso”.

 Digo: ai da Igreja e dos crentes, ai das instituições, sem a crítica por vezes mordaz, que pode ajudar a curar. Só nas ditaduras é que não se pode fazer humor nem rir dos poderes instituídos. Ai de cada uma e cada um de nós, se não souber rir-se de si mesmo, de si mesma, das suas manias e disparates… O que não se pode – não se deveria – é cair no riso alarve, na piada boçal e ofensiva, que apenas significam falta de inteligência. Ah! o riso também ajuda a curar a vaidade oca, e ele há tanta, tanta vaidade oca: “Mesmo no mais alto trono do mundo, está-se sentado sobre o cu”, escreveu Montaigne.

Na Idade Média, realizava-se a chamada Festa dos Loucos, uma crítica brutal ao poder eclesiástico. Elegia-se, entre os subdiáconos, um senhor da festa, designado “Bispo”. Esse subdiácono, o grau mais baixo da hierarquia, era vestido de Bispo, colocado em cima de um burro, e entrava na igreja com a face voltada para a cauda, de costas para o altar. Em certos momentos, o celebrante e o povo zurravam. Na entrega simbólica do “báculo” episcopal entoava-se o Magnificat – o hino de louvor que o Evangelho coloca na boca de Maria – naquele passo: “Deus derrubou os poderosos e exaltou os humildes.” Sobre a Festa dos Loucos pronunciou-se a Faculdade de Teologia de Paris em 1444, justificando-a: “Os nossos eminentes antepassados permitiram esta festa. Porque haveria ela de ser-nos interdita?” Neste descalabro burlesco, dever-se-ia ver, no limite, a urgência de não confundir o Sagrado em si mesmo com as mais variadas formas idolátricas com que tantas vezes os crentes se lhe dirigem.

A propósito da força crítica da piada e da caricatura, fica aí esta sobre o Vaticano e todo aquele luxo, que blasfema do Evangelho de Jesus, no fausto de uma procissão com cardeais, arcebispos, bispos, monsenhores, com mitras, tricórnios, alguns vestidos de púrpura… Aconteceu que São Pedro veio à janela do Céu e viu aquilo. Estarrecido, chamou Jesus, que olhou e apenas disse: “E pensarmos nós, Pedro, que começámos aquilo, entrando de burro em Jerusalém onde fui crucificado pelos poderes do Templo e do Império... Lembras-te?

Sim, Francisco socorre-se também do bom humor, e todos os dias reza a “Oração do bom humor”, oração atribuída a São Tomás Moro, o autor de A Utopia, o ex-chanceler que não se esqueceu de levar a gorjeta para o carrasco que ia decapitá-lo. Francisco recomendou-a também aos membros da Cúria Romana, onde tem tantos adversários e até inimigos, a quem falta o bom humor divino: “Dá-me, Senhor, uma boa digestão e também algo para digerir./ Dá-me um corpo saudável e o bom humor necessário para mantê-lo./ Dá-me uma alma simples que sabe valorizar tudo o que é bom/ e que não se amedronta facilmente diante do mal, /mas, pelo contrário, encontra os meios para voltar a colocar as coisas no seu lugar./ Concede-me, Senhor, uma alma/ que não conhece o tédio,/ os resmungos,/ os suspiros/ e as lamentações,/ nem os excessos de stress por causa desse estorvo chamado ‘Eu’./ Dá - me, Senhor, o sentido do bom humor./ Concede-me a graça de ser capaz de uma boa piada, uma boa piada para descobrir na vida um pouco de alegria/ e poder partilhá-la com os outros./ Ámen.”

 

 15 junho 2024

Padre e professor de Filosofia. Escreve de acordo com a antiga ortografia

https://www.dn.pt/6835316300/o-comico-e-o-riso-no-vaticano/

sexta-feira, 14 de junho de 2024

Catarina Pires - O Álvaro Cunhal que poucos conhecem




HISTÓRIAS

O Álvaro Cunhal que poucos conhecem


por NOTÍCIAS MAGAZINE

12/11/2013


Texto de Catarina Pires

Não queria biografias, abominava endeusamentos, recusava o culto da personalidade. Sempre foi mal interpretada a sua vontade de manter privada a parte da vida que o era. Não o fazia para adensar mistérios, criar auras ou espalhar charme, mas por uma ética que lhe era intrínseca. Via-se como um homem simples, igual a todos os outros, cuja vida pessoal não deveria interessar a ninguém a não ser a si próprio e aos que lhe eram íntimos. Com estes não tinha reservas. Falava sobre tudo. Queria saber tudo.

Deve ser por isso que o meu Álvaro Cunhal é diferente daquele sobre quem por vezes leio em livros, grandes reportagens ou artigos de opinião. Deve ser por isso que a primeira vez que o reencontrei num escrito foi numa entrevista que a filha, Ana Cunhal, deu, em 2010, ao jornalista Nuno Tiago Pinto, na revista Sábado. Estava lá o Álvaro que conheci: afetuoso, atencioso, generoso, paciente, indulgente, com um enorme sentido de humor. O Álvaro que, aos 84 anos, encontrou espaço na sua vida para mais uma pessoa, uma miúda de 24 anos, com quem gostava de conversar, perceber que mundo era o dela, como o via e porque o via assim.

Álvaro Cunhal, que dedicou a vida a dar um novo sentido a esta frase, lutando para que todos tivessem circunstâncias que lhes permitissem ser aquilo que quisessem, contrariou-a. Escolheu o caminho mais difícil. O único possível. Nunca se arrependeu. E foi feliz.

É por esse Álvaro que escrevo este texto. Esse Álvaro que podia ter sido o que quisesse – e foi escritor, artista plástico, ensaísta, teórico, tradutor –, mas que aos 17 anos decidiu que o queria era juntar-se ao Partido Comunista Português e lutar por um projeto de sociedade que considerava ser o mais justo para o seu país. Por causa dessa luta sofreu prisões, torturas, a vida clandestina, longe daqueles a quem amava, a mãe, o pai, a irmã, a avó e mais tarde a filha. «O homem é ele próprio e as suas circunstâncias» dizia Ortega y Gasset. Álvaro Cunhal, que dedicou a vida a dar um novo sentido a esta frase, lutando para que todos tivessem circunstâncias que lhes permitissem ser aquilo que quisessem, contrariou-a. Escolheu o caminho mais difícil. O único possível. Nunca se arrependeu. E foi feliz.

Ainda consigo ouvir a voz incrédula da minha mãe, há 16 anos, com o auscultador do telefone a tremer-lhe na mão: «Catarina, é o Dr. Álvaro Cunhal. Quer falar contigo.» E depois a voz dele, bem humorada: «Sabes quem fala?». Era junho de 1997, creio, e a razão do telefonema era saber como estava e que nota tinha tido no trabalho que fiz sobre ele para a faculdade. Que o 17 podia ter sido melhor. Que continuasse a fazer coisas bonitas. «Até um dia destes.»

Na minha cabeça, ensaiava o que ia dizer, ensaiava a naturalidade com que ia fazê-lo. E eis que ele aparece. Não enorme, não sério, não distante. Afável. Estende-me a mão, sorri com aquele sorriso e trata-me por tu. Acho que foi aí que ficámos amigos

Uns meses antes, então estudante de Ciências da Comunicação da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, tinha pedido um encontro com ele. Queria a sua colaboração para o tal trabalho, que era sobre ele e a sua incursão pelas artes plásticas. Não o conhecia, a não ser da televisão e dos jornais e das histórias que o meu pai contava. O meu pai era, e é, militante do PCP. Não sei se isso teve importância na apreciação do meu pedido, mas este foi atendido.

No dia e hora marcados, lá estava eu, na sede do PCP, na Soeiro Pereira Gomes. Encaminhada para uma das salas de reuniões do piso térreo, tremia. Também não sou de endeusamentos, mas estava prestes a conhecer um herói, um homem cuja luta e ação moldaram a história do século XX português. E uma miúda de 22 anos, por mais lata que tenha, não é de ferro. Imaginava-o enorme, sério, distante. Na minha cabeça, ensaiava o que ia dizer, ensaiava a naturalidade com que ia fazê-lo. E eis que ele aparece. Não enorme, não sério, não distante. Afável. Estende-me a mão, sorri com aquele sorriso e trata-me por tu. Acho que foi aí que ficámos amigos, apesar de só muito tempo depois «oficializarmos» a coisa, no último diálogo do livro de conversas que «escrevemos» juntos: «Não sou apenas amigo de camaradas do meu partido. Sou-o e sou capaz de sê-lo de pessoas que têm opiniões muito críticas em relação a conceções e posições do PCP e naturalmente às minhas. Tive ao longo da vida, como uma das maiores riquezas, muitos e muitos amigos, a acompanhar-me, a estimularem-me na luta e na vida. Continuo a tê-los. E também, na medida em que vou conhecendo e conhecendo melhor pessoas que não havia conhecido passo a estimá-las e vejo que posso ganhá-las como amigos e de vir a ser amigo delas. De ti, por exemplo.» «Obrigada, igualmente».

Da segunda vez que o Álvaro Cunhal telefonou para casa dos meus pais, fui eu que atendi. Tinha-lhe pedido uma entrevista para a Notícias Magazine, onde entretanto estava a estagiar, e que ele tinha recusado. Não queria dar entrevistas. Mas, «Catarina, estive a pensar na tua proposta e se em vez de uma entrevista, fizéssemos uma série de conversas? Se saírem bem, publicamos um livro.» Silêncio. Como aceitar? Como recusar? Meses de preparação. Dezenas de encontros semanais na sala E da Soeiro Pereira Gomes. Cerca de dezoito horas de conversas. E o livro saiu. Cinco Conversas com Álvaro Cunhal. Era abril de 1999.

Recorrendo ao prefácio que escrevi para a segunda edição, de setembro de 2013, percebo agora que o tempo é a noção mais relativa, sinto que foi há uma eternidade e no entanto ao lê-lo, volto lá e é como se tivesse sido há bocadinho e o Álvaro não tivesse morrido e eu não tivesse crescido e nós estivéssemos no balcão do bar da sede do PCP, ele a explicar-me divertido o que são peixinhos da horta. E esse é o maior privilégio. Poder sempre voltar lá.

Poder sempre ler estas conversas e ouvi-las, adivinhar o que dissemos a seguir, ouvir-nos as vozes, a dele e a minha, ora serenas, ora exaltadas, ora divertidas, mas sempre de boa fé. Reconhecer nestas conversas, agora, 14 anos depois, a imensa generosidade e paciência do Álvaro para as minhas perguntas provocadoras, para as minhas dúvidas cheias de certezas, para as minhas opiniões, tantas vezes pueris. Descobrir-lhes, nele, o gosto de ouvir, de discutir, de partilhar e até de aprender; em mim, a capacidade de pensar, o atrevimento de perguntar, a vontade de descobrir.

Falámos de tudo, de história, de política, de ideias, de pessoas, do mundo, de livros, de pintura, de comida, de amizade, de amor, de sexo, de ódio, de vingança, da vida. E ao longo das conversas, não só pelo que diz, mas também pelo que não diz e sobretudo pela forma como faz uma coisa e outra, Álvaro Cunhal dá-se a conhecer melhor.

Da primeira vez que entrei em sua casa, pespineta, pensei que o tinha apanhado. Os óleos na parede assinados A. Cunhal [o Álvaro não assinou nem deu título a nenhum dos seus desenhos a carvão ou pinturas a óleo]. «Afinal, assinaste alguns!». O riso glorioso dele: «não, são do meu pai, Avelino Cunhal.».

As conversas continuaram. Ainda guardo o desenho que me fez com o mapa para chegar a sua casa, nos Olivais, assim como três dos muitos «desenhos das reuniões» que tinha guardados e que me ofereceu, para responder à minha exuberante curiosidade sobre eles. Durante os cinco anos seguintes visitei-o muitas vezes. Ao contrário da imagem pública que dele se tem, era um homem muito atencioso e carinhoso. Fazia questão de abrir a porta do elevador, à entrada e à saída e, com a convivência, o aperto de mão foi substituído por dois beijinhos. De vez em quando um abraço, quando o intervalo de tempo o pedia.

Da primeira vez que entrei em sua casa, pespineta, pensei que o tinha apanhado. Os óleos na parede assinados A. Cunhal [o Álvaro não assinou nem deu título a nenhum dos seus desenhos a carvão ou pinturas a óleo]. «Afinal, assinaste alguns!». O riso glorioso dele: «não, são do meu pai, Avelino Cunhal.». Já não me lembro do que falávamos. Não costumo tomar notas das conversas que tenho com amigos. Da minha vida, do meu trabalho, ele perguntava-me sempre se andava a fazer coisas bonitas. Do que se passava no país. Dos livros que ele ainda estava a escrever e de que me ia contando partes. De ciência, era um apaixonado por todas as novas descobertas científicas. Mas também de filmes, de programas de televisão. Nunca só de política.

Até porque, como ele revelou, com graça, a certa altura no nosso livro: «O convívio, que eu aprecio, não é só com caras sérias. É uma sensaboria se as pessoas só sabem funcionar no sério. Trabalhei sempre muito, estudei muito, a atividade política teve sempre uma grande intensidade, mas não gostava que fosse só isso a vida. E, por isso, estar por exemplo a comer e a falar de política, levantar e falar de política, ir para casa para junto dos filhos falar de política, para a mulher falar de política, para a avó falar de política, para o tio falar de política – não, isso não gostava nem gosto. A par do trabalho político intenso, gosto de um convívio livre e descontraído sobre as coisas simples da vida, do valor das pequenas coisas.»

Era disso que falávamos, de grandes e pequenas coisas. E muitas vezes era nas pequenas coisa que se revelava. Lembro-me que depois de um presente de aniversário falhado, um livro, que aceitou, mas não tinha condições de ler porque os olhos já não permitiam, ofereci-lhe num Natal um pullover verde, que fez questão de trazer vestido no encontro seguinte.

A última vez que falámos foi uns meses antes da sua morte. Liguei a saber dele e quando podia apresentar-lhe o meu filho João, nascido há pouco tempo. Lamentou não estar em condições de nos receber. Perguntou por ele. Como era. Se se portava bem. Despedimo-nos. Senti que não voltaria a vê-lo. No dia 13 de junho de 2005 soube que não. Que não voltaria.

MEMÓRIA

Se Álvaro Cunhal fosse vivo, hoje almoçaria cozido à portuguesa com o seu amigo e camarada, o médico Ludgero Pinto Basto. Era isso que estava combinado. Quando fizessem cem anos, primeiro o Ludgero, quatro anos mais velho, depois o Álvaro, celebrariam juntos, à volta de um cozido. A morte, em 2005, com um mês de diferença, quebrou-lhes o compromisso.

https://www.noticiasmagazine.pt/2013/o-alvaro-cunhal-que-poucos-conhecem/historias/1635/