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segunda-feira, 16 de dezembro de 2024

Carlos Matos Gomes - A negação da criação



* Carlos Matos Gomes


Considerar inteligência como a capacidade de comparar soluções mais vantajosas é negar a arte. A inteligência é, em minha opinião, um atributo de todas as espécies, é circunstancial e pode ser tratada como tratamos os outros componentes dos nossos corpos, a potência dos nossos músculos, a flexibilidade do nosso esqueleto, a coordenação dos nossos movimentos, o tempo de reação dos nossos reflexos e tem a mesma finalidade: tornar cada espécie e cada ser dentro de cada espécie mais apto para sobreviver e para dominar.

Estamos a descobrir como o modo como a inteligência é manipulada constitui um elemento essencial para o domínio da vida em sociedade amputada do sentido do dever.

Voltemos a Cícero: De facto, parcela alguma da vida, quer nos negócios públicos, quer nos da esfera estritamente pessoal pode prescindir do dever” “Toda investigação a respeito do dever é de dois tipos. Um envolve o limite dos bens, o outro os preceitos pelos quais o seu uso para a vida passa a ser confirmado em todas as partes”.

Tomar a ciência, a tecnologia como o centro do poder político é hoje, ou devia ser, a prioridade da sociedade como um todo, devia constar dos programas dos partidos, da discussão pública, devia ser a preocupação dos democratas, dos políticos, dos intelectuais porque um dia seremos todos ovelhas do rebanho do senhor Elon Musk, como Trump já é.

Os movimentos progressistas deviam concentrar a sua atenção na utilização política da tecnologia e não ficarem encadeados com as luzes e estrelinhas que projetam. A Google, a Microsoft, a Amazom, a X, a Starlink, o GPS, são instrumentos do exercício da política, são o instrumento que, como há 2 mil anos, orientava as naves romanas no Mediterrâneo. São o Cavalo de Troia. São as Parcerias Publico-Privadas, são a emissão de moeda, o dólar, sem base material. A imposição do domínio das capacidades dos computadores, dos seus programas e das bases de dados — conectadas através de cabos submarinos e de redes de satélites — por uma única potência é o centro de todas as disputas a que estamos as assistir. Vivemos uma situação idêntica à do início do século XX (1913) — quando a família Rothschild finalmente conseguiu introduzir nos Estados Unidos o sistema bancário que havia criado na Europa a partir do final do século XVII, assente no que pomposamente se designa por fractional reserve lending, ou “empréstimo baseado numa reserva fracionada” ou “empréstimo sem cobertura ou base real”. Embora de enunciado complexo, a prática é muito simples. Significa emprestar mais dinheiro do que está em caixa e transformou-se na maior fraude de todos os tempos, na principal responsável pela vasta pobreza que assola o mundo e responsável pelas guerras que se travam.

Hoje o domínio da tecnologia é o equivalente ao domínio do dólar e ao sistema de fractional reserve lending. Devíamos pensar em colocar este assunto no centro da discussão política.

O uso da inteligência é o ponto central da organização das sociedades, logo da política.

Em que medida os cidadãos têm o poder de determinar o uso a inteligência, ou do resultado da inteligência?

Falamos de democracia e referimos muitas vezes a frase falaciosa de Churchill de que é o pior sistema excetuando todos os outros — ora nem o regime inglês foi uma democracia — é um sistema de castas — nem os cidadãos ingleses tiveram poder de decidir o uso dos seus meios — a expansão inglesa é uma associação entre piratas em comerciantes — da qual os cidadãos ingleses estiveram arredados. A inteligência dos poderosos consistiu, como consiste hoje, em convencer de que as ações da inteligência de uma minoria contribuem para a felicidade — sempre associada ao poder — da maioria.

A inteligência — de novo natural ou artificial — que permitiu a exploração das minas do norte de Inglaterra teve como primeira resposta a utilização de crianças como mineiros das frentes de exploração, por serem mais pequenas e não terem responsabilidades familiares. Uma solução deste tipo é fruto da inteligência natural ou artificial, ou apenas da ambição de lucro e ausência de valores para além da inteligência? #

Termino com dois títulos, o do romance de Lobo Antunes: O que farei quando tudo arde?, que é o do poema de Sá de Miranda. E o de Por um Mundo Novo, a Sério, de Pedro Ferraz de Abreu e com uma imagem da Inteligência Natural — o grande computador: o Dólar.


2024 12 15

https://cmatosgomes46.medium.com/a-nega%C3%A7%C3%A3o-da-cria%C3%A7%C3%A3o-4479807506cb

domingo, 15 de dezembro de 2024

Carlos Matos Gomes - O Desafio da Tecnologia à Deontologia



* Carlos Matos Gomes


Discutir o papel da inteligência é discutir o tipo de sociedade que queremos viver. É discutir a democracia. É discutir a responsabilidade individual e coletiva, é discutir os limites dos mandatos que delegamos aos nossos representantes.

Sou militar — ou fui no tempo em que os comandantes se encontravam nos campos de batalha e tinham de dirigir os seus comandados. Conheci grandes comandantes. O que você distingue? A arte de representar a coragem, a arte de representar a incerteza da decisão com a maior verdade, como se fosse o resultado da resposta de um computador que resolvesse a angustia do guarda redes antes do pênalti? (Peter Handle) Ou a do marcador do pênalti.

Dir-me-ão que uma das vantagens da decisão baseada em inteligência artificial é a ausência das emoções. Aparentemente assim é: o robô humanóide que pilota um F35 sobre Gaza não sente qualquer emoção ao lançar uma bomba. Mas as centenas ou milhares de seres humanos que sofrem os seus efeitos sentem e, mais, os milhões de outros seres humanos espalhados pelo planeta que veem as imagens também sentem, emocionam-se e formam opinião. A robotização do piloto — a inteligência artificial que o conduz desde a descolagem até ao alvo — provoca consequências políticas e sociais. Robotizar um ser humano para transformar um assassino de assassinosresponsabiliza quem? O autor da desumanização do humano? O humano se torna inimputável a partir do momento em que cumpre seu programa de inteligência artificial? O capacete de um piloto de caça, de um carro de combate, de um drone, contém inteligência artificial? Quem ou o que está dentro de um capacete de um piloto de bombardeiro ou de um Carro de Combate, ou até na cabeça de um general de cinco estrelas?

Os capacetes que vemos na cabeça dos soldados não servem para proteger a cabeça, mas para determinar o que ele deve realizar, servem para retirar a consciência da consequência de seus atos.

O que define a essência da inteligência não é de modo algum o de ela ser natural ou artificial, mas o que Maquiavel designou como a virtú, que era, como se sabia desde Cícero, indissociável da vida pública. Ou seja, o homem que almeja a virtude não pode perder de vista a noção de dever para com os outros. Mas este dever para com os outros é inerente a todos os seres vivos — das abelhas aos lobos, das formigas aos golfinhos. Quando um gnu fica para trás para servir de presa a um predador e aumentar a possibilidade de sobrevivência do seu grupo essa atitude não poderá ser considerada ética? Por isso a inteligência dos humanos deve ser compatível com a dos outros seres e com o respeito pelo meio ambiente. A Inteligência artificial integra estes fatores nas suas computações elaboradas?

A deontologia é definida como um forte sentido de serviço comunitário, realizado com um profissional com profundo sentido de responsabilidade . Como se atribui sentido de responsabilidade a um artefato obra de um ser humano distinto do sentido de responsabilidade dos interesses de seu criador?

O Manual de Deontologia Militar que constava do currículo na Academia Militar — não sei se a disciplina ainda existe nos currículos das Academias Militares portuguesas ou estrangeiras, ou das modernas escolas de negócios ou tecnologia — apresentado-a como o estudo da especificamente das Forças Armadas e dos princípios que devem reger os seus membros tanto em tempo de guerra como em paz, a identificação da moral, ou do comportamento moral, que deve orientar os militares na sua vida, por forma a que, sem faltarem ao cumprimento dos seus deveres para com sistema operacional camaradas, (subordinados e superiores), os cumpram também e igualmente para com o inimigo, para com a sua Nação e, acima de tudo, para com a comunidade nacional e internacional, as suas leis universais, caso da Carta dos Direitos Humanos da ONU ou da defesa dos bens considerados património da Humanidade.

A Inteligência Artificial anula a Deontologia do ser que está no cockpit de uma aeronave, na lagoa de comando de um navio, na torre de um Carro de Combate? Retira-lhe a qualidade de ser cidadão? De ser julgado? De ser politicamente avaliado? Os tribunais internacionais, marciais, de honram quem é predeterminado, programado, ou quem é determinado e programa?

O que distingue os seres humanos não é a capacidade técnica, é a sujeição a leis — a julgamento. O que distingue os seres humanos dos outros seres não é uma inteligência, mas uma capacidade de entender a sociedade, como um todo, a capacidade de escolher e julgar.

Com a admissão de que a inteligência artificial é um crescimento novo na história do mundo — e não da humanidade — Esopo não escreveria as fábulas onde os animais falam e pensam, porque nos programas apenas os humanos são inteligentes. Nem teríamos o Triunfo dos Porcos, de Orwell.

Uma definição de artificial é algo produzido pela humanidade. É uma definição arrogante: um ninho de uma ave é uma obra mais natural que uma cabana de um hominídeo? Um formigueiro é uma obra natural? Uma teia de aranha? A minha questão não é a existência de uma inteligência natural, mas sim a não existência de uma inteligência que não seja artificial. E mais, que a inteligência não é exclusiva dos humanos. E é o facto de existirem inteligências compatíveis entre espécies que permitem o diálogo entre elas, entre humanos e cães, golfinhos, corvos, serpentes, de cavalos com cães e com aves.

Aquilo que damos o nome de Inteligência Artificial é, na realidade, um ensimesmamento. Uma vida de clausura como a da gruta de Platão. Um onanismo. Um ser humano interroga uma máquina e esta responde. Pura mistificação: o homem apenas obtém as respostas que já se encontra dentro do mundo descoberto, e, mais perigoso, descoberto por outro que o quer explorar. Aquilo que Elon Musk, para citar um personagem conhecido, apresenta como inteligência artificial é a velha técnica do alquimista: vender como ouro o pechisbeque, por novo o que é velho.

A utilização de supercomputadores, agora os computadores quânticos, com cada vez maiores capacidades de resolução não altera as duas questões fundamentais: estamos diante de um produto conhecido e temos de nos concentrar na utilização que é dada a essa renovada velharia. E a velharia renovada é descendente dos velhos astrónomos e adivinhos, de curandeiros e feiticeiros, dos ditadores, dos profetas, dos salvadores, dos pregadores de cruzadas. Os campos de concentração, os mais atrozes instrumentos de tortura foram e são obra da inteligência humana. Importante, pois, é que o sistema político que os gerou seja dominado por aqueles a quem repugnam e não por aqueles a quem servem. E os campos de concentração e tortura criados com o apoio da Inteligência Artificial não são diferentes de seus antecessores, apenas com o aumento da perversidade que os faz parecer mais aceitáveis.

Uma experiência pessoal. No início dos anos 90 fui nomeado para uma comissão técnica que aconselharia o Exército a adquirir um simulador de tiro e tática para carros de combate. Entre as companhias concorrentes encontradas-se uma israelo-americana e fui a Israel apreciaram o desempenho dos aparelhos. Conhecia os CC da geração da II GM e da Coreia — M47 e 48 — os novos CC eram um painel de computadores que na torre quer no compartimento de condução. Os CC atuaram coordenadamente com helicópteros e isso planejou um controle que apenas pôde ser executado por computadores. E as imagens eram sempre a verde ou a preto e branco, independentemente de serem de dia ou de noite e os inimigos eram apenas um ponto luminoso onde o apontador colocava uma cruz e fazia desaparecer. Não havia restos de corpos, nem ruídos, apenas a voz dos auscultadores, belo tiro .

Nos anos 90, a voar cerca de 30 km da marginal de Beirute, o ecrã do painel de instrumentos de um helicóptero israelense lia as matrículas das viaturas com um instrumento designado FLIR e uma arma poderia ser apontada através do eixo de visão do apontador.

Os sistemas modernos de há 20 anos já tinham um dispositivo designado IFF — Identificação amigo — inimigo — com um código de reconhecimento e regras estritas de emprego. Vi a filmagem de um incidente causado pela tecnologia, dois helicópteros dos EUA, um do Exército e outro dos Marines voam no mesmo campo de batalha, cumprindo missões diferentes interrogam-se através do IFF, são visíveis as silhuetas dos helicópteros, ainda hoje em utilização dos Black Hawk e dos Sea Hawk, americanos, do mesmo fabricante, a Sikorsky. A resposta do presidente dos fuzileiros navais não foi reconhecida pelo Exército e este disparou sobre ele automaticamente.

São exemplos de há mais de um quarto de século. Hoje interrogo-me a que ponto de desumanização chegámos quando o jovem piloto israelense, aos comandos do mais avançado caça um F35, superprotegido por toda a tecnologia, toca com um dedo num ecrã e sabe que duas toneladas de explosivos vão destruir uma escola, um hospital, um campo de refugiados. E o que pensam os dirigentes políticos que foram eleitos quando investem os recursos da inteligência humana para preparar seres robotizados que executem essas ações?

A associação da guerra à tecnologia, sendo o motor da civilização, é também o detonador da destruição. E todos nós conhecemos, mesmo que seja do cinema, o que é um explosivo – um aparelho (antigo) com um manípulo e que apenas um especialista manejava à ordem de fogo.

Hoje existem nuvens de explosivos comandados por sistemas em que os cidadãos não conhecem a lógica de disparo. Não há democracia, nem cidadania. Os cidadãos regressaram à condição de serviço.

A tecnologia pode e está a destruir os valores que consideramos basilares para a sociedade: a capacidade de alterar comportamentos nos decisores de todos os níveis dos mais altos aos mais baixos. De seleção de decisores e operações de sistemas programados para tomar determinadas decisões possíveis reais. Não há Deontologia que possa ser ensinada porque há meios tecnológicos para cortar o acesso a essas áreas do cérebro, como se cortava e corta com vesicante os tendões dos cavalos para eles não sentirem dor ao galopar e ao saltar.

2024 12 15

https://cmatosgomes46.medium.com/o-desafio-da-tecnologia-%C3%A0-deontologia-9bb2510b84bd

Carlos Matos Gomes - Inteligência Artificial e Perversidade Natural (1)


* Carlos Matos Gomes

Aquilo que para feitos de propaganda passou a ter a designação de Inteligência Artificial nada mais é que a aplicação de uma tecnologia para impor um domínio. Os nossos antepassados também utilizaram as suas capacidades físicas e intelectuais para afiar pedras de sílex porque estas lhes garantiam vantagens na luta contra os inimigos. Não por acaso ao longo da história os departamentos de guerra dedicaram tantos recursos a desenvolver meios tecnológicos que lhes permitissem ganhar vantagem sobre o inimigo. Um mero exemplo: o GPS é gerido pelo Departamento de Defesa dos EUA não é a voz de Inteligência Artificial que nos diz para viráramos à esquerda e direita num cruzamento é um instrumento de domínio político e social. É uma arma real, operada por dirigentes políticos reais, para atingir objetivos políticos reais pela força.

No caso dos seres humanos, que têm a perversidade como o pilar da ação para impor um domínio, o que atualmente se designa por inteligência artificial, é a versão atual da perversidade natural do homem que o leva a cumprir o seu desígnio: dominar, seja os seres da sua espécie, os das outras e o meio onde existem.

A descoberta da pólvora, da roda, do ábaco, da escrita, da bussola, do radar e do computador resultam de expansões das capacidades humanas. A fissão nuclear é uma expansão de capacidades existentes e coloca à humanidade o mesmo tipo de questão que já constava em quase todas as grandes religiões — os sistemas ideológicos: o Dilúvio, o Fogo devorador e destruidor, o Apocalipse, o Julgamento Final colocam desde o início da sua história enquanto espécie distinguível dos outros seres vivos, como os humanos se confrontam com os fenómenos naturais e que respostas lhes dão. Darwin encontrou uma resposta para a questão: os seres humanos resultaram da evolução de outros que procuraram melhores soluções de sobrevivência e domínio. Melhores defesas, melhores locais de ataque. Houve seres que voaram para as alturas, outros que mergulharam nas profundezas das grutas ou dos oceanos. Uns protegeram-se com carapaças, outros com venenos, outros com a agilidade e a velocidade. Em todo o caso, a inteligência enquanto condição de sobrevivência.

Aristóteles defendia que as coisas naturais podiam produzir mudanças dentro de si mesmas, enquanto as coisas artificiais não se podiam autoproduzir, nem existencialmente nem em mudanças, porque apenas o natural possui uma essência; o artificial apenas possui apenas matéria da qual é feito. A propriedade gerativa do artificial está na alma do artesão. Não existe inteligência artificial. Ou então somos criaturas artificiais!

Decisivo, na história do mundo que conhecemos, é saber quem controla o saber que permite impor um poder. As religiões, com os seus Criadores do Universo, foram o mais poderoso e eficaz meio de domínio da humanidade com a crença da existência (artificial) de um ente super inteligente. O computador absoluto e omnipotente. O computador que se criou a si mesmo.

Cabe interrogar se os Dez Mandamentos que segundo a narrativa bíblica foram entregues por Deus a Moisés no Monte Sinai são obra de inteligência dita natural ou artificial? Que razões levaram Deus a criar os Mandamentos, a não ser a ameaça da desobediência, ou do desprezo, ou da troca pelo Bezerro de Oiro? Deus, pela voz dos seus sacerdotes, recorreu à inteligência artificial para vencer uma ameaça e impor o seu domínio? Ou ao medo natural para obter a aceitação do seu domínio? Ou à perversidade para converter os infiéis, isto é, os que não o reconhecem?

O bem de maior valor no interior de um computador é o poder que a informação confere. Trata-se do domínio político do saber. Tão velho como o controlo do Oráculo de Delfos. Quem estava por detrás dele? Ou do espião que descobriu a brecha nas ameias do castelo, ou de Josué que com o seu exército conquistou toda a região do Negueve, da área das planícies costeiras e das montanhas escarpadas. Liquidaram toda a gente da terra, segundo a ordem do Senhor, Deus de Israel; desde Cades-Barneia até Gaza e desde a terra de Gosen até Gibeão. Tudo realizado numa só campanha, porque o Senhor, o Deus de Israel, estava a lutar pelo seu povo. Só depois disso é que as tropas de Israel, sob a chefia de Josué, regressaram ao seu acampamento em Gilgal.

Quando os atuais manipuladores da opinião colocam a metade da humanidade mais informada a discutir se existe uma inteligência natural dentro das caixas cranianas e uma artificial no interior de uma caixa de computador estão a desviar a atenção do essencial e que é o poder político e económico que a informação contida nas bases de dados confere.

O que se encontra por detrás do que o marquetingue designou como IA é o poder, é a essência da política: que grupo domina a sociedade. Todos os artefatos produzidos pela inteligência são artificiais e todos servem a imposição de um poder. Tecnologia ao serviço do poder. Política em estado puro. Nada mais do que a tecnologia resultado da inteligência se encontra embarcada num bombardeiro F35, mas também nada mais que inteligência se encontra na manobra da águia que leva o corvo até uma altitude em que ele não consegue respirar em vez de gastar energia a sacudi-lo.

A IA coloca em causa a nossa civilização. A Inteligência Artificial tem e deve ser tomada pelos cidadãos, pelos políticos e pelos atores sociais como um negócio sujeito às mesmas regras que podemos encontrar em qualquer outro em que um detentor de uma posição dominante corrompe um decisor para manter os seus privilégios. Elon Musk não é um génio da inteligência — seja natural ou artificial — é apenas um pirata que se estabeleceu num ponto dominante e o defende. Tal como George Rooke, um inglês, fez ao ocupar Gibraltar com forças anglo-holandesas em 1704. Ou como fez Afonso de Albuquerque com a estratégia de ocupação de estreitos no Índico.

Os construtores de opinião forçam-nos a acreditar que existe uma inteligência natural e uma outra artificial. A inteligência de Elon Musk ou do falecido Kissinger é natural ou artificial, e a de Trump, ou de Biden, ou de Putin, ou de Netanyahou ou de Xi Ji Ping? E que importância tem essa discussão a não ser a de nos cegar para o essencial que eles pretendem dos cidadãos: obediência e fé. Regressamos ao fundamentalismo da Idade Média. E é obediência e fé que os humanos do século XXI pretendem que os seus sistemas políticos lhes ofereçam enquanto seres dotados de inteligência? É? Fica a interrogação para os eleitores e devoradores de telejornais.

2024 12 15

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sexta-feira, 29 de novembro de 2024

Carlos Matos Gomes - A cultura das tias de Cascais

* Carlos Matos Gomes -


Quem não tem vergonha todo o mundo é seu. Pinto Balsemão não é conhecido por ser uma personalidade coerente, nem ter um pensamento político estruturado, nem sequer por se orientar por princípios. 

A cultura das tias de Cascais e dos meninos da Quinta da Marinha não produz exemplares de caráter. Nem fiáveis. É malta mais de canapés do que de boa fé. Mais de valores da bolsa do que dos de inteligência moral. 

Pinto Balsemão abrilhantou com um toque de modernidade e burguesia pós II Guerra a ditadura do Estado Novo. Foi deputado de uma ditadura. Fundou um jornal importante para lavar a cara da ditadura. Mas quanto a ditaduras e Balsemão, ele deve estar convenientemente esquecido que foi chefe do 8º governo constitucional de 1983 a 1985. Não viu qualquer inconveniente em defender regimes como a ditadura brasileira (1964-1988) e a do Chile (1973-1990) e de defender o regime de ditadura teocrática da Arábia Saudita.

É fruste a justificação que Pinto Balsemão dá para apoiar a aliança do partido que começou por ser Popular e nunca chegou a ser Social Democrata (aonde se acolheram os órfãos da União Nacional, crismada Ação Nacional Popular) com os fascistas do Chega, de o PCP defender o regime da Coreia do Norte (o que é falso tanto quanto li nos escritos do PCP que se limita a defender o direito da Coreia do Norte a existir num contexto muito complexo, entre a China e os EUA - mas o que interessa a verdade?).

É fruste, mas revela as fracas raízes democráticas de Balsemão (como de alguns dos fundadores do PPD/PSD) e essa fraqueza de princípios dos mentores de um dos  partidos mais  importantes do regime após o 25 de Abril de 1974 explica muitas das dificuldades de implantação de Estado de direito e e de justiça. Explica fenómenos desviantes como os de Cavaco Silva ou de Passos Coelho...  

É que se os mais asseadinhos e ilustradinhos dos fundadores do PPD/PSD (expressão de outro produto da mesma frutaria) está disposto a estes convívios com os sucessores dos antigos legionários e graduados da MP, como será o maralhal da geral? 

2024 11 29
https://foicebook.blogspot.com/2024/11/a-cultura-das-tias-de-cascais.html

quinta-feira, 14 de novembro de 2024

Carlos Matos Gomes - Uma eleição livre e justa é possível num regime de mentira e de canalhas, de pós-verdade?

 * Carlos Matos Gomes

Nós, a multidão, passámos estes últimos anos a ser bombardeados com um novo léxico político: “desinformação”, “fakenews”, “nova normalidade”, “intrusão”.

A relação dos seres gregários funda-se na confiança. É assim num formigueiro, numa colmeia, numa alcateia, numa tribo, numa formação militar, num gangue. Na constituição de equipas para operações especiais uma das perguntas aos candidatos era: quem escolhias para te acompanhar na travessia de um rio perigoso? Isto é, em quem confias.

A organização social e a organização política que dela decorre assenta na relação entre autoridade e fiabilidade. As notas de banco são credibilizadas pela assinatura do governador, os decretos reais continham um selo de chumbo e lacre com as armas do soberano. As mobilizações para uma guerra são assinadas pelo comandante-chefe. As grandes campanhas, as fatwa, as cruzadas, as descobertas dos europeus foram decretadas com base numa verdade que as tornava imperiosas. Acreditámos no segredo profissional de médicos e advogados. Na reserva da nossa correspondência. Acreditámos nos editais e nos calendários. Eram a verdade. Hoje a verdade é uma ratoeira. É um som transmitido por um karaoke, é uma mercadoria. As nossas doenças, as nossas confissões, as nossas escolhas são vendidas, na melhor das hipóteses. Na pior, matam, como os pagers que uma empresa de telecomunicações vendeu a Israel para assassinar eventuais inimigos.

Na Bíblia, Cristo, a figura de referência civilizacional do Ocidente, proclamou: Eu sou a verdade! Maquiavel, com os pés na terra e rodeado de semelhantes, adaptou um estado ideal que de facto nunca existiu e preferiu escrever sobre a realidade concreta, estabelecendo o conceito de verdade efetiva das coisas (veritá effetuale), fundamental para compreendermos o interesse pela realidade como ela é e não como uma projeção idealizada. A verdade efetiva serviu de padrão para aferir a correspondência entre o “discurso público” dos políticos e dos dirigentes e a necessidade de obter a adesão a uma realidade. Mas a palavra continha sempre uma intenção de verdade. Os membros da sociedade continuavam a jurar. A honra continuava a ser um valor e a desonra uma nódoa infamante.

A justificação da existência de armas de destruição em massa por parte do governo de Saddam Hussein para George Bush Jr decretar a invasão do Iraque terá sido o exemplo mais próximo e mais marcante da passagem da “verdade efetiva” para a pós-verdade. Pós verdade é um eufemismo para um tipo de mentira, que pode percorrer vários patamares, da pura invenção, por mais inverosímil que seja, à manipulação de factos que podem ser plausíveis e às promessas irrealizáveis de salvação. A pós verdade é o sinónimo do logro declinado nos vários significados, de burla, de engano com dolo, de fraude, de intrujice, ludíbrio, de trampolinice, de trapaça. Vivemos no reino do logro. Do tipo das barras batizadas de “delícias do mar” e que não são nem peixe, nem marisco e que nem passaram pelo mar.

A invasão do Iraque marca uma nova era no Ocidente na relação entre governantes e governados: a vitória dos grandes aparelhos de manipulação sobre a realidade, a transformação dos cidadãos em espetadores de espetáculos de efeitos especiais, a purificação dos canalhas e a sua transmutação em exemplos, como é o caso de Paulo Portas ou Durão Barroso, os videntes que viram as provas da mistificação que justificou a invasão do Iraque e que são hoje criaturas tidas por decentes e respeitáveis. A política passou a replicar os jogos da Marvel e os políticos surgiram como “transformers” e vendedores de delícias do mar como se fossem lagosta.

Do mesmo modo que a metralhadora alterou o modo de fazer a guerra na Grande Guerra, que a arma atómica alterou a a forma de as grandes potencias se relacionarem após a Segunda Guerra, a guerra da comunicação da era da informação proporcionada pelas novas tecnologias alterou de novo as táticas e acentuou a insídia na guerra. A pós-verdade são as imagens mais ou menos manipuladas que surgem nos ecrãs de televisão com paisagens e pontos assinalados por uma cruz-alvo, são atores-comentadores a arengar uma narrativa como antigamente os contadores de histórias faziam nas feiras, são um grande espetáculo de massas. Para os manipuladores da opinião, o genocídio de Gaza é um festival de efeitos especiais. A multidão mundial está tão anestesiada pela mentira que não reage. Estamos impermeabilizados. Os pilotos israelitas que bombardeiam Gaza marcam pontos no seu ecrã de videojogos. A pós verdade é a desumanização. Começa por ser a desumanização dos outros e acabará por ser a desumanização dos detentores das máquinas de jogos, sejam caças F35 ou drones.

Os europeus, com a velha arrogância, têm apresentado a nova arte de manipular as opiniões como uma especificidade americana, de que Trump é o mais exuberante talento. Pura mistificação. A utilização da mentira e do logro sob a designação de pós-verdade está tanto na ordem do dia na Torre Trump em Nova Iorque como no edifício Berlaymont em Bruxelas, sede da Comissão Europeia. Ursula Vaon Der Leyen e os seus comissários mentem, inventam e manipulam tanto quanto a nova administração Trump. E mentem sobre os mesmos grande temas, as guerras na Ucrânia e na Palestina, mentem quanto a promessas de uma nova era de leite e mel se continuarem a drenar fundos para essas guerras, mentem quanto aos objetivos de fazer a América Grande de Novo ou a Europa um continente de prosperidade, desde que derrotem os russos, os chineses, saqueiem África, dominem o Médio Oriente e determinem o preço do petróleo, rasguem os protocolos sobre as alterações climáticas, fechem as fronteiras aos imigrantes provocados pelas suas guerras.

Que diferenças, exceto de forma, existe entre o discurso pistoleiro de Úrsula Von Der Leyen, de Borrell e da sua sucessora Kallas como representante da política externa da U E, da neoliberal Albuquerque dos secretários da nova administração Trump? Que diferença existe entre os e as warmongers americanos e americanas dos e das warmongers da União Europeia? A diferença da relação entre a verdade e a realidade no discurso dos dirigentes americanos e dos dirigentes europeus é a mesma entre um carniceiro e um assassino de arma fina. Os painéis de pastores das TV portuguesas não diferem dos painéis dos pastores nos Estados Unidos. A norma é o televangelismo.

A percepção de que a Europa não é o folclore americano resulta da desinformação a que somos sujeitos através da “armamentização” da comunicação social. O filósofo Marshall McLuhan escreveu há anos que “o meio é a mensagem”. A diferença entre a mentira sob o eufemismo de pós-verdade americana e europeia é que nos Estados Unidos o meio é agora Elon Musk, o homem mais rico do mundo que comprou uma plataforma de comunicação global, o X, e é o chefe de estado sombra do que era a maior superpotência do mundo. Essa é a diferença. Uma diferença de armamento e de dimensão entre uma tromba de água e um regador. Os Estados Unidos com a sua rede de satélites e de empresas de dados e comunicações, da Starlink ao Google, podem fazer descarregar um dilúvio de mentiras, ou de pós-verdades sobre o mundo, uma “dana” como a de Valência à escala planetária e a Europa não consegue provocar mais que chuviscos, mesmo com as tentativas em curso de censura e domínio dos meios de comunicação que ainda restam no domínio público ou fora dos grandes conglomerados.

No essencial, a germinação e cultivo em estufa de dirigentes quer nos Estados Unidos quer na Europa obedece ao mesmo processo: um grande apoderado paga uma generosa bolsa de estudos para um seu pupilo vir a ocupar um lugar na administração do Estado que favoreça os seus negócios. Musk financiou Trump, mas Peter Thiel, o cofundador do PayPal, rastejando nas sombras, garantiu que o seu homem, JD Vance, entrasse no par presidencial como vice-presidente. Jeff Bezos, atrasado para a festa, entrou na onda falhando alguns dias, mas garantindo que o seu Washington Post não endossasse nenhum candidato. Aqui na Europa ninguém que coloque em causa as verdades únicas da guerra na Ucrânia e do aumento das despesas militares chegará a qualquer posto de relevo. Apenas têm lugar à manjedoura os que que puxam a carroça do dono.

Quer nos Estados Unidos quer na Europa existe uma oligarquia no poder que funde os negócios do Estado e os negócios privados e constitui uma elite governante. Os negócios renderão biliões, milhões de pessoas morrerão e incontáveis crimes serão cometidos. Como li em algum lugar: “Estamos além do espelho. Estamos todos a viajar pelos esgotos da informação. Trump é um bacilo, mas o problema são os canos.” E pelos canos escorrem muitos outros dejetos.

O essencial são os valores. O valor da palavra dada. A democracia assenta no caráter dos cidadãos e em particular dos que têm maiores responsabilidades. Quando não há caráter há canalhas. Temos um regime de canalhas. Quando se abicam dos valores criamos um mundo de faquistas e de trafulhas.

202411 14

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CARLOS MATOS GOMES – O QUE EU GOSTARIA DE SABER

* Carlos Matos Gomes

14 de Novembro de 2024 

O que eu gostaria de saber é o que leva um ser humano a praticar o mal. Toda a filosofia ocidental está marcada pelo problema da origem do mal. Mas sob a mesma designação de “mal” cabem muitos tipos de mal, o mal físico, o mal psíquico, o mal moral, mas o que eu gostaria de saber era o que leva um ser humano a destruir o outro, o seu semelhante, homem, mulher ou criança. O que leva um ser humano a destruir o seu habitat. E o que leva um ser a ter prazer ao praticar o mal. Não só do masoquismo, mas do prazer do funcionário público que antes de atender o cidadão lhe atira: A senha! E que depois de o ouvir expor a sua pretensão o informa que não é ali que se trata do assunto e que falta um documento, uma certidão, um carimbo e venha qualquer dia por que estamos a fechar.

Coisas mesquinhas, mas também gostava de saber o que sentiu o presidente americano Harry Truman ao dar ordem, em 1945, para os seus militares lançarem as bombas atómicas sobre Hiroshima e Nagasaki. Gostaria de saber o que pensa um piloto israelita aos comandos de um moderníssimo caça-bombardeiro quando carrega no botão que vai largar uma bomba sobre uma multidão indefesa em Gaza. E o que pensa um palestiniano quando é expulso à coronhada sua casa onde a sua família vive há séculos, ou quando vê os colonos judeus derrubarem uma oliveira milenar porque ela é um símbolo da posse da ligação á terra e quando, espoliado de tudo, ainda é acusado de terrorista!

Gostaria de saber o que pensa o multimilionário Elon Musk quando entrega os dados da vida privada de milhões de clientes das suas redes X (ex-Twitter) aos serviços secretos dos Estados Unidos, o que permite localizá-los e matá-los à distância, segundo as conveniências. E o que pensam os administradores das grandes farmacêuticas sobre o sistema de patentes e de preços de medicamentos que geram fabulosos lucros aos seus acionistas, vendendo-os aos ricos e deixando morrer os pobres.

Gostaria de saber o que pensam os bispos e cardeais inquisidores, os antigos e os atuais, que estabeleceram verdades absolutas e que condenam à fogueira os hereges que duvidam quando a evidência lhes revela que as verdades absolutas são criminosas e as dúvidas são virtuosas.

Gostaria de saber o que pensa do mal a senhora Lagarde, do BCE, do alto da sua pesporrência quando anuncia quanto vale um euro, depois de receber ordem dos cem acionistas privados da Reserva Federal Americana, o FED e desencadeia os despejos de pessoas das suas casas, as falências de pequenas e médias empresas.

Gostaria de saber o que passava pela cabeça do papa João Paulo II da Igreja Católica Romana quando canonizou José Maria Balaguer, o chefe da Opus Dei, autor de tiradas de ofensa aos seres humanos negando a igualdade: “Não achas que a igualdade, tal como a entendem, é sinónimo de injustiça?” ou, “ “Estejas pronto a desistir da tua honra pela tua alma!” A alma de um católico não integra a sua honra?

Gostaria de saber o que levou Napoleão a incendiar a Europa com a justificação de grandeza, “La Grandeur”, se depois de matar mais de um milhão de soldados e de incontáveis destruições por toda a Europa, a França tinha exatamente o mesmo tamanho de antes de ele se arvorar em imperador!

E o que pensam uns seres da espécie humana que por conta das grandes máquinas de alienação se reúnem em aldeias de macacos de zoos para exporem nos ecrãs de televisão as suas taras, naquilo que é habitualmente designado por Big Brother? Que pensam os seres que aceitam fazer parte daquelas pocilgas e aqueles que se aproveitam do que delas sai? 

O que pensa do mal um escravo trazido no século XXI de África ou da Ásia por uma máfia para carregar uma albarda paralelepipédica a dizer Uber, ou Glovo, e a pedalar atrelado a uma bicicleta para distribuir rações fabricadas por uma multinacional a clientes de olhos e polegares fixos nos telemóveis de que não se podem desligar para cozer uma batata ou um ovo?

Gostaria de saber o que pensam do mundo as múmias do Egito, os imperadores romanos, os santos de todas as igrejas eternizados em estátuas e mausoléus, obras imperecíveis espalhadas pelo planeta sobre a obra que ajudaram a construir.

Gostaria de saber o que pensam os seres representados na cidade dos Reis no Egito, na cidade proibida de Pequim, em toda a Roma, incluindo a praça de São Pedro, no Panteão de Paris, no Kremlin de Moscovo, na Casa Branca de Washington. Eu sei o que penso deles.

https://aviagemdosargonautas.net/2024/11/14/carlos-matos-gomes-o-que-eu-gostaria-de-saber/

quinta-feira, 17 de outubro de 2024

Carlos Matos Gomes - O julgamento de Ricardo Salgado — Big Show BES

* Carlos Matos Gomes


O julgamento de Ricardo (Espirito Santo) Salgado é um espetáculo de farsa politica com a cobertura de legalidade proporcionada pelo sistema judicial e encenado pela comunicação social.

A justiça do Estado sacode as pulgas do tapete para assegurar o regime de capitalismo de papel e especulação. Os políticos do regime fazem de macacos cegos surdos e mudos. A indústria do espetáculo aproveita o espetáculo grátis e aumenta as audiências. O povo aplaude e compra os produtos anunciados nos intervalos. No entanto está em causa o julgamento do sistema financeiro que é o fundamento do capitalismo, seja ele gerido por democracias liberais ou ditaduras. Um sistema implantado no final do século XVII pela família Rothschild.

Deixem-me emitir e controlar o dinheiro de uma nação e não me importarei com quem redige as leis.

Mayer Amschel (Bauer) Rothschild, o fundador da família

Todo aquele que controla o volume de dinheiro de qualquer país é o senhor absoluto de toda a indústria e comércio, e quando percebemos que a totalidade do sistema é facilmente controlada, de uma forma ou de outra, por um punhado de gente poderosa no topo, não precisaremos que nos expliquem como se originam os períodos de inflação e depressão.

James Garfield, presidente dos Estados Unidos, 1881(assassinado)

Por detrás deste espetáculo do julgamento de Ricardo Salgado encontra-se a relação de dupla dependência entre a política e a finança anunciada no final do século XVII por Mayer Amschel (Bauer) Rothschild, o fundador da família que criou o sistema bancário que da Europa, através do Banco de Inglaterra, expandiu para os Estados Unidos, onde se associou à família Rockefeller e que está na base do FED, a Reserva Federal Americana. O sistema que os Espirito Santo e os outros banqueiros utilizaram e utilizam para obter lucros assenta no que pomposamente se designa por fractional reserve lending, (FRL) ou “empréstimo baseado numa reserva fracionada”, ou “empréstimo sem cobertura ou base real”. Embora de enunciado complexo, a prática é muito simples;significa emprestar mais dinheiro do que está em caixa e transformou-se na maior fraude legal de todos os tempos.

O sistema bancário de reserva fracionada é o que vigora em todos os países do mundo, no qual os bancos que recebem depósitos do público mantêm apenas parte de seus passivos de depósito em ativos líquidos como reserva, geralmente emprestando o restante aos tomadores. As reservas bancárias são mantidas como dinheiro no banco, ou como saldos na conta do banco no banco central.

A família Espirito Santo foi a que primeiro e mais intensamente interpretou estes princípios em Portugal e os impôs ao poder político, desde o fundador da família ter evoluído de dono de uma casa de câmbios até os seus filhos surgirem como os banqueiros do regime de Salazar e desempenharem um papel político de primeira grandeza no Portugal do Estado Novo durante o período crucial da Segunda Guerra Mundial, colaborando na manutenção do difícil equilíbrio entre os aliados ingleses e a Alemanha nazi.

Os Espirito Santo, a quem a imprensa da época chamava “os Rockefeller de Portugal”, ofereceram refúgio às realezas fugidas da guerra, entre eles os condes de Paris, com os seus dez filhos, os condes de Barcelona, o rei Humberto de Itália, e o mais significativo de todos, o Duque de Windsor que acabara de abdicar do trono em Inglaterra, apesar de essa presença ser delicada para o regime de Salazar por prejudicar a sua pretensa neutralidade e de também não ser do agrado Churchill dadas as simpatias pro germânicas do duque ex.rei.

Ricardo Espirito Santo, o herdeiro do fundador, culto e muito amigo de artistas, tinha as costas quentes, era casado Maria Pinto de Morais Sarmento y Cohen, filha de un banqueiro de Gibraltar, Abraham Cohen, britânico de origem judaica, e sobrinha do barão de Sendal e através deste casamento os Espirito Santo conheceram e fizeram amizade com toda a realeza exiliada em Cascais e com as suas redes de influência.

O Banco Espirito Santo era, de todos os bancos portugueses, o mais internacionalizado e o que tinha mais fortes ligações ao Estado. A sua nacionalização em 1975 não quebrou a influência da família na política portuguesa, nem quebrou a ligação da família ao mundo da grande banca internacional. Pertenci à Assembleia do MFA do dia 11 de março de 1975 que aprovou a nacionalização da banca. Consciente da importância da banca na definição do poder político. Sofri as consequências dessa opção no 25 de Novembro de 25 de 1975, assumindo-as como naturais da parte dos que optaram pelo regime de “mercado” e pelos seus financiadores.

O 25 de Novembro de 1975 e o seu programa de integração de Portugal na ordem política e económica vigente na Europa Ocidental, implicava as privatizações indispensáveis à recuperação do poder das velhas oligarquias e da ascensão das novas, exigia a criação de novos bancos, caso do BCP e do BPI e aconselhava o regresso da marca mais prestigiada internacionalmente, a que garantia a credibilidade do novo regime. Mário Soares percebeu a importância do regresso de um nome tão prestigiado e com tão boas relações no mundo da finança internacional e promoveu o regresso da família Espirito Santo a Portugal, o que foi conseguido através dos bons ofícios de Francois Miterrand com a associação ao Crédit Agricole.

Há razões nunca explicadas por detrás da “resolução do BES” e as principais não são aquelas que se encontram no julgamento espetáculo. Com todo o respeito pelos lesados do BES, que viram sumir as suas economias e exprimem o seu protesto contra a figura de Ricardo Salgado, há que explicar se foi o Estado Português que propôs a resolução do BES à Comissão Europeia, ou se foi dela a imposição dessa medida jamais utilizada. Não havia alternativa? Não havia o exemplo do Lehman Brothers, da seguradora AIG, não foi encontrada recentemente uma outra solução para a União dos Bancos Suíços?

O BES era o único banco privado com “nacionalidade portuguesa”, embora associado ao Crédit Agricole francês. Todos os outros bancos que resultaram da reprivatização tinham passado para o controlo da banca espanhola, de capitais ingleses, americanos, alemães. Todo o sistema bancário português tem a sede em Espanha, em Madrid ou Barcelona. O sistema bancário português está hoje integrado no sistema mundial através de Espanha, o chamado “mercado ibérico”.

O BES tinha, por tradição, o papel de banco do regime, fora o banco que assegurou a transferência do ouro alemão que pagou o tungsténio, o volfrâmio, durante a Segunda Guerra, por exemplo. Nos anos anteriores à resolução era o BES que estava a financiar a implantação de grandes companhias portuguesas no Brasil e em Angola, dois mercados emergentes e muito cobiçados pela finança internacional, em particular a inglesa e a francesa. Era o BES que financiava a implantação da TELECOM no Brasil, uma ação importante de presença num grande mercado em expansão no continente sul-americano, e era o BES que estava a financiar através de uma filial, o BESA, o apoio a empresas portuguesas no mercado de Angola, outro espaço cobiçado pela banca internacional.

O BES intervinha na diversificação dos mercados de grandes empresas portuguesas em mercados importantes em concorrência com os grandes bancos europeus que têm, como é evidente, um peso de lobbying incomparavelmente superior junto de Bruxelas e dos seus financeiros. Era um concorrente a eliminar e assim foi.

Todo o negócio bancário se baseia na usura, toda a utilização do capital para obter lucro é abusiva, isto porque o lucro é obtido com a venda de um produto que não tem base material, que existe apenas porque as autoridades de um dado estado garantem que o banqueiro, o moneychanger, é de confiança e honrará o compromisso de pagar os juros aos depositantes.

O BES sob a administração de Ricardo Salgado vendeu mais dinheiro do que aquele que podia remunerar aos juros acordados. E fê-lo coberto pela reputação de confiança que lhe era e foi publicamente demonstrada pelas mais altas figuras do Estado, o presidente da República, Cavaco Silva, tido por eminente professor de Finanças, pelo primeiro-ministro Passos Coelho, pela ministra das Finanças, Maria Luís Albuquerque, recentemente nomeada pelo atual governo comissária europeia, pelo governador do Banco de Portugal, a entidade reguladora, Carlos Costa, pelos mais conceituados comentadores políticos com acesso aos mais poderosos meios de comunicação, caso de Marcelo Rebelo de Sousa. Todos serviram de fiadores de Ricardo Salgado! Todos e todos os ministros que assinaram a ata do Conselho de Ministros que decretou a “resolução” do BES deviam responder em tribunal e serem corresponsabilizados pelos prejuízos.

O BES foi também a instituição escolhida pelo ministério da Defesa dirigido por Paulo Portas para conduzir as operações financeira de leasing que esteve e está na base do fornecimento dos helicópteros EH 101 e dos submarinos da classe Tridente, que pertencem formalmente a uma empresa e não ao Estado Português. Um banco da maior confiança do Estado e dos seus governos, de que nenhum agente político desconfiou, antes pelo contrário afiançou.

O que aconteceu ao BES, ou no BES, foi, em termos simples um excesso do abuso de confiança dentro de um sistema, o bancário, que assenta num contínuo abuso da confiança instituído pelos Estados que obrigam os cidadãos a confiar nos usurários (os banksters) para terem acesso aos bens essenciais, desde a habitação ao transporte, à alimentação, à educação, ao lazer. Quem estabelece o valor dos bens são, em última instância, os banqueiros que em Washington e na Wall Street de Nova Iorque impõem o valor do dólar como moeda de troca universal. São eles que estabelecem a inflação que gera lucros aos banqueiros e prejuízos aos clientes. São eles que desencadeiam crises e guerras para manipular o valor do dinheiro.

Agora, no Big Show BES, tudo se vai resumir a artigos dos vários códigos diante de um tribunal que interpretará factos contabilísticos, considerando-os crime ou não à luz dos seus preceitos, quando a questão era e é de política e os políticos estão todos eles a fazerem-se de mortos. Ou praticaram o rito judaico do Kaparot, realizado nas vésperas do Yom Kippur, uma expiação simbólica dos pecados, em que milhares de galos e galinhas são degolados em Israel e o sangue derramado pelas cabeças. Um ritual de arrependimento e perdão.

Numa entrevista ao Público, Vitor Bento, o administrador do BES na data da sua resolução e é hoje o presidente da Associação Portuguesa de Bancos, garante que o que aconteceu ao BES não aconteceria hoje e que o sistema bancário português está mais controlado e merece confiança. É uma afirmação paliativa, como garantir que não vai ocorrer um terramoto.

O sistema financeiro mundial baseado no dólar está em equilíbrio periclitante. As guerras na Ucrânia e no Médio Oriente têm como causa a manutenção do dólar enquanto moeda de troca universal, o que implica força para o impor e é essa força que está a ser desafiada nessas guerras e é do resultado delas que depende a solidez do sistema bancário da área do dólar, que está a sofrer a concorrência das moedas dos BRICS.

O julgamento de Ricardo Salgado conduz à triste conclusão de que no capitalismo os cofres dos bancos contêm papel que tem o valor que a Reserva Federal dos Estados Unidos lhe atribuir e que os Estados nacionais atestam com a assinatura do governador do banco nacional. Nenhum cidadão sabe o que significam os algarismos do seu extrato bancário.

Alguém decidiu que as “obrigações” emitidas pelo BES eram papel sem valor e eram, mas resta a pergunta, porque elas, porque aquelas? Porque ninguém do BCE em Franckfurt ao Banco de Portugal em Lisboa viu o que se estava a passar no BES? Essas perguntas jamais serão colocadas em tribunal.

O espetáculo no Campo da Justiça, centrado na figura de um vencido que gera sentimentos de vingança a vários níveis, a do poderoso arrastado para o cadafalso, também esconde a vileza das ratazanas políticas que continuam a representar o seu número de macacos cegos, surdos e mudos. 

Já agora, não há lesados no caso BPN, dos amigos de Cavaco Silva, nem do BANIF da Madeira.

2024 10 17

https://cmatosgomes46.medium.com/o-julgamento-de-ricardo-salgado-big-show-bes-7861cc357d4f

sexta-feira, 9 de agosto de 2024

Carlos Matos Gomes - Os atletas são os soldados de um regimento…

Carlos Matos Gomes

Recolhido em casa das animosidades do clima porque o corpo já tem inimigos com que se entreter, entretenho-me a ver o grande circo de Verão - que este ano calhou ser o das Olimpíadas. Tenho-me  lembrado do meu neto na primeira vez que o levei ao circo, a perguntar.me o que faziam os palhaços quando não estavam na pista a realizar habilidades para ele se rir. Também me pergunto o que fazem estas pessoas, os atletas - do grego athletes, com origem no termo aethos, que significa esforço, sendo o atleta aquele que compete com esforço por um prêmio, quando não estão em atuação. Treinam, claro. E além do treino, porque se esforçam os atletas e porque tem de ser premiado o seu esforço? Eu entendo o negócio que utiliza os atletas e de que os atletas se aproveitam, fazendo-se pagar pelo seu esforço. Mas o que leva centenas de milhares de pessoas, os mais altos dirigentes das nações, os maiores cientistas, as melhores capacidades tecnológicas a dedicarem o melhor das suas capacidades para fazer uma pirueta, um remate com a mão ou o pé numa bola e para a transmitir a todo o mundo em câmara lenta, ou em pormenor e a receberem a bandeira do seu país, ou daquele que lhe paga e os aplausos do hierarca que vem das lonjuras da pátria a Paris para saudar o seu atleta? 

Ontem, ao assistir à prova de mergulho com trampolim, confesso que esperei que um dos ditos atletas se atirasse de chapão para a água. Inimaginável, porque aquilo é um assunto sério! Os jovens estavam seriíssimos como robôs. Todos têm de ser muito bem comportados, domesticados. Apenas um cavalo teve a ousadia de cagar a meio da prova! Vivam os animais. Livres! 

Os atletas são os soldados de um regimento que marcha disciplinadamente para um pódio. No intervalo, treinam ordem unida. Também soube que uma atleta foi expulsa dos jogos porque saiu da aldeia e foi ver a Disneylandia - justo castigo, não se pode sair de um jardim zoológico para ir à concorrência.  

Aguardo com expetativa a cerimónia de encerramento dos Jogos. Imagino que seja com o esvaziamento do Sena a e venda da água em garrafinhas com forma da Torre Eiffel.

2024 08 09 
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sexta-feira, 26 de julho de 2024

Carlos Matos Gomes - OTELO | o fantasma da Revolução




* Carlos Matos Gomes 

25 Abril 2024
 

A ação que celebramos, o 25 de Abril de 1974, foi planeada e comandada por um fantasma. Um fantasma com o nome dissolvido num ácido de conveniências.

Os fantasmas são por definição aparições de inconvenientes. Terei lido num texto de Miguel de Unamuno, o filósofo espanhol, que Dom Quixote, a personagem de Cervantes prenunciou o destino final, solitário e triste, de todos os cavaleiros andantes, fantasmas, digo eu, que citaria também uma declaração de Simón Bolívar, em que o revolucionário das Américas, admitia que Jesus Cristo, Dom Quixote e ele próprio eram (tinham sido) os maiores ingénuos da História.

Otelo pode com propriedade ser incluído nesta lista.

E quanto à forma como tem sido esquecido também pode ser comparado a uma outra figura marginal da historiografia oficial, neste caso do Brasil, porque o fenómeno dos fantasmas da História é universal, o do negro João Cândido, que no início do século XX liderou uma revolta de marinheiros contra a violência na Marinha, a «Revolta da Chibata». A ação foi meticulosamente planeada e executada, mas esquecida, por inconveniente, porque contrariara a doutrina da superioridade racial branca. João Cândido viveu o resto da sua vida esquecido, por inconveniente.

Otelo foi e continua a ser inconveniente a vários títulos. Como militar, era um major recente, regressado de uma comissão na Guiné, professor de artilharia na Academia Militar, sem cursos nem pergaminhos de estado-maior, também não o aureolava o estatuto de herói da guerra colonial, apenas cumprira com competência as suas funções de comandante de companhia, no entanto foi ele quem planeou com o brilhantismo confirmado pelo êxito a operação nacional das forças armadas de Norte a Sul do país e quem comandou a execução das ações a partir da sala de operações montada no quartel da Pontinha, acompanhado por outros oficiais, alguns deles mais antigos e teoricamente mais bem preparados do que ele. Foi ele o comandante! Um facto revelador da sua personalidade, da sua energia e determinação.

Como alguém escreveu, ser herói é ter coragem de fazer o que é certo num determinado momento. Otelo teve essa coragem: É ele que apoia a ação de contenção de Salgueiro Maia, de correr os riscos de não precipitar a ação no Largo do Carmo, com um ataque imediato. De contemporizar. É ele que autoriza que o povo envolva as tropas e os blindados de Salgueiro Maia: o povo pode entrar, porque a ação militar é para o povo. Ele e Maia têm desde o início a consciência do destinatário da ação militar: «O povo, pá!» Ora o povo é sempre inconveniente para os poderes de facto. Otelo e Maia serão fantasmas que têm o povo atrás deles. Mais Otelo do que Maia.

Desde a primeira hora Otelo e Maia estão do lado da (in)conveniência popular. É Otelo que dá ordem a Salgueiro Maia de disparar contra o quartel da GNR, para forçar a definição da situação, e é ele que decide que a rendição de Marcelo Caetano seja feita ao general Spínola, com vantagens e inconvenientes, mas foi ele quem decidiu!

As inconveniências de Otelo que o transformaram no fantasma em que ele hoje é tido atingiram o cume com o que fez no COPCON, ou do COPCON. O poder assenta sempre na força. Na ponta das espingardas, na frase de Mao Tse Tung, ou na que o rei Luís XIV de França mandou inscrever na boca dos canhões ultima ratio regum, “a força é o último argumento dos reis”.

Otelo fez do Comando Operacional do Continente, das forças armadas portuguesas, a força do povo, e aqui é de recordar dois outros fantasmas: Carlos Fabião e Eurico Corvacho que estiveram desse lado, e também Pezarat Correia, que embora subscritor do Documento dos Nove, o manifesto que agregou as “forças da normalidade”, mas que por ter desenvolvido um papel de grande relevo na descolonização de Angola e de, em Portugal, ter comandado a Região Militar de Évora, empregando as forças militares com apurado sentido político durante o dificílimo período da Reforma Agrária, pagou a compreensão pela atitude dos camponeses alentejanos com a não promoção a tenente-general. Não me esqueço do esquecimento de outro fantasma, Ernesto Melo Antunes, com quem nunca privei, de quem discordei, mas de quem conheço e reconheço o papel relevante que desempenhou no 25 de Abril. Recordo a forma como foi tratado até no seu último ato: no seu funeral, no cemitério do Alto de São João, onde estive, não apareceu nem um membro do governo, nem nenhum político de primeira linha. A verdadeira Liberdade paga-se com esquecimento.

Colocar as forças armadas como suporte das forças populares era e foi uma heresia inadmissível pelas classes reinantes. As que a 25 de Novembro de 1975, tendo contratado tropas para o seu serviço, impuseram o regresso aos quartéis dos conscritos, isto é, à função tradicional de defesa dos grupos dominantes, os velhos devoristas que saíram das tocas onde se haviam escondido, das sacristias, os que regressaram de exílios e os novos devoristas que se haviam aproveitado dos vazios abertos pela retirada dos velhos senhores — os novos oportunistas que hoje são os que pretendem sacralizar o 25 de Novembro, como o dia em que lhes saiu a lotaria e se fizeram democratas, como os poltrões sucessores dos que no vintismo do século XIX se fizeram viscondes e barões.

A revolução portuguesa, como todas as revoluções, ou se definiria por uma alteração de campo da força que exercia o poder, ou não seria uma revolução, nada mais seria do que uma atualização de figurino para o exercício do poder. Otelo é a personagem que configura a revolução, porque transfere o poder das armas da defesa de uma minoria, a oligarquia nacional representante dos poderes e dos interesses instalados no espaço civilizacional da Europa e dos Estados Unidos, para defesa das classes sociais historicamente dominadas a todos os títulos, social, económica e politicamente. Otelo, através do COPCON, não só deu voz aos emudecidos, como lhes proporcionou o acesso ao discurso e à decisão.

Foi a existência do COPCON sob o comando de Otelo que possibilitou a suprema heresia da nacionalização da banca, o que corresponde à profanação do sacrário do sistema que desde 1825 a família Rothschild criou em Londres, tecendo através do Banco de Inglaterra o sistema de “dívidas soberanas”, que replicou nos Estados Unidos ao conseguir que, em 1913, o Congresso dos EUA autorizasse a criação do Federal Reserve Bank, o Banco Central dos Estados Unidos popularmente conhecido por “Fed”, de que a família Rothschild também tomou o controlo, garantido o direito de emissão de moeda nos EUA através do Tesouro Americano e sem juros. A nacionalização da banca portuguesa foi uma ofensa ao dólar! Imperdoável! Não seria possível sem o suporte da força armada, do COPCON!

Na história de oito séculos de Portugal apenas no episódio do que ainda hoje o discurso oficial hesita em considerar como crise de 1385 ou revolução de 1385, o povo teve a força armada a seu lado. Mas foi sol de pouca dura. Leiam-se as «Crónicas» de Fernão Lopes. Após a incensada batalha de Aljubarrota toda a narrativa se concentra na normalização do complexo processo de transformações políticas e sociais que recriaram a antiga hierarquia de poder das ordens, clero, nobreza e povo, e que conduziram Portugal à dependência da Inglaterra, na condição de estado vassalo, em que se manteve até ao final da Segunda Guerra, quando passou a depender dos Estados Unidos. No século XIV rapidamente os revolucionários, segundos filhos e bastardos, reunidos à volta das figuras de linhagens secundárias de João de Avis, um bastardo, e Nuno Álvares Pereira, filho natural do prior da Ordem do Hospital, reconstituíram naturalmente a velha ordem dos privilégios e recolocaram o povo no seu lugar, a remar nas naus e a cavar nas terras senhoriais. A experiência de dar armas ao povo apenas ocorrerá numa outra única oportunidade com a tentativa de legitimação como rei de Portugal de António, prior do Crato, derrotado na batalha da ribeira de Alcântara.

Otelo representa ainda hoje o perigo de expor a podridão em que assentam os pilares da ordem que nos rege. Em 1975 esse conhecimento podia gerar (ou degenerar) um movimento de contestação popular que alastrasse pelo continente europeu. Havia que apresentar Otelo como um tresloucado. Para as aves de gaiola, voar é uma doença. Para os predadores, voar é uma fuga dos seres que lhes servem de alimento.

Em 1974 e 1975 já eram visíveis as nuvens negras sobre o sistema político e económico que se impusera (ou fora imposto) na Europa Ocidental após a Segunda Guerra. Os alemães crismaram como “anos de chumbo” esse período que antecipava o mal-estar do modelo civilizacional de compromisso entre capital e trabalho, entre público e privado, entre liberdade e servidão voluntária. Uma decadência que hoje parece evidente num modelo que apresenta claros sintomas de rutura por esgotamento, de que os movimentos populistas são uma face visível, acompanhados pela corrupção dos valores de equidade nas relações entre os povos promovida pelos dirigentes europeus e americanos do “Ocidente alargado” nas suas decisões sobre juros, dívidas, imposição de despesas com material de guerra, redução de serviços públicos, promoção de guerras como as da Sérvia, Iraque, Líbia, Ucrânia, ou o genocídio de Gaza.

O esquecimento de Otelo, o seu aviltamento quer durante o período revolucionário, quer no que se lhe seguiu e chegou até ao presente são fruto da ideologia dominante e dos interesses dos seus beneficiários. Otelo não quis ser o “condestável” do novo regime e a sua condução para fora do sistema, para a marginalidade em todos os sentidos, foi meticulosamente planeada e executada. A sua personalidade, a sua generosidade e ingenuidade foram estudadas para servirem de arma contra as causas que defendia e para defesa de uma dada ordem que não pode ser questionada.

Para os que apagaram Otelo é reconfortante falar da revolução simpática que, podendo ter tido a energia de um mar, desaguou num vulgar lago de jardim europeu. Mas um mar é uma coisa que gera energia e vida e um lago é uma coisa já domesticada, adormecida, em decadência.

Acontece, no entanto, que o deliberado esquecimento de Otelo e a desvalorização do movimento popular que ele apoiou e incentivou enquanto comandante do COPCON não teve a consequência que parecia lógica por parte de quem o derrotou e prendeu, mesmo com a legítima intenção de impedir uma revolução, de reclassificar o resultado da ação militar que ele planeou e comandou como o “golpe da Calçada da Ajuda”, ou da Amadora. É evidente ser muito mais agradável ao ego e ficar melhor na fotografia da História utilizar a fórmula de “Revolução dos Cravos” do 25 de Abril que da restauração de estado de ordem do 25 de Novembro de 1975. É um facto. Não é uma crítica. Otelo prosseguiu o seu voo. Outros poisaram.

Os títulos e os símbolos são importantes para hierarquizarmos e classificarmos os fenómenos, mas resta a realidade e quanto a esta, é significativo que na celebração do meio século do 25 de Abril, Spínola seja mais recordado do que Otelo, que entre tantas obras e trabalhos de investigação o COPCON e o seu papel no movimento popular não tenha merecido o interesse dos académicos, ou que esta singular e fugaz instituição militar tenha despertado tão pouca curiosidade intelectual e política.

É evidente que ainda vivemos num regime em que podemos falar e escrever sobre Otelo, mas como de alguém fora da História, do “sistema democrático” como um excêntrico, quando ele foi o autêntico revolucionário do que não chegou a ser uma Revolução. É certo e sem margem para dúvida que os 3 D do 25 de Abril são matéria de alegria e celebração, mas não são uma revolução. Revelam apenas a tacanhez do salazarismo, a mediocridade do seu padroeiro e dos seus acólitos. A Democracia, a Descolonização e o Desenvolvimento chegaram a Portugal com 30 anos de atraso relativamente aos regimes de democracia representativa e do estado social implantados na Europa após a Segunda Guerra.

Embora com trinta anos de atraso celebremos contudo essa coisa magnífica e essencial que é a Liberdade de expressão, mas fique a lembrança dos que como Otelo a queriam enquanto condição para conquistar a Justiça em todos os seus componentes, desde logo o da Igualdade.

Antes de se acomodar, engravatada, formatada, mais ou menos vociferante no modernizado convento de São Bento, Otelo queria a Liberdade na casa de cada um dos portugueses.

https://dasculturas.com/2024/04/25/otelo-o-fantasma-da-revolucao-por-carlos-matos-gomes-25-abril-2024/? 
 

segunda-feira, 8 de julho de 2024

Carlos Matos Gomes - Em que caixa está a extrema direita?


* Carlos Matos Gomes

Na cozinha da casa dos meus pais existiam umas caixas de lata com rótulos Arroz, Massa, Açúcar, Café… O que se encontrava no interior nunca correspondia ao rótulo. A lata que anunciava café de umas vezes tinha biscoitos, de outras nozes, a do açúcar podia ter massa ou farinha, havia uma que habitualmente servia de mealheiro e guardava moedas. Habituei-me a não confiar nos rótulos. Também passei mais de dois terços da minha vida a comer em refeitórios de instituições. Sou um consumidor de rancho geral, não espero maravilhas gastronómicas, mas procuro saber o que os cozinheiros lá colocam para evitar diarreias.

Com estas habilitações, fruto das circunstâncias, tendo a apreciar a “nobre arte da política” como um cozinhado de rancho geral elaborado com os produtos das latas que se encontram na dispensa. Hoje a política é um rancho geral produzido com uma receita de politicamente correto. As recentes eleições em Inglaterra e em França e as sondagens sobre as intenções de voto na Alemanha fornecem pistas para os clientes-consumidores que nós somos entenderem o que lhes estão a colocar no prato. O que devemos comer e o que devem rejeitar para não ficarmos doentes. Pelo menos isso: haja saúde!

Na Europa estão em hasta pública dois produtos políticos. O dos situacionistas e o dos anti situacionistas. As grandes máquinas promocionais, aquelas que nos convencem que uma bebida xaropada, escura como um esgoto, que desentope canos e desoxida moedas é a melhor bebida do mundo, impuseram o bom e o mau para a nossa saúde. As fontes produtoras de opinião etiquetaram os primeiros de moderados e os segundos de radicais. Mas a caixa com o rótulo moderados contem mesmo moderados? E a do rótulo: radicais, extremistas e outros que tais, conterá de facto ingredientes alternativos? A França é um bom tubo de ensaio para análise, mas os reagentes são os mesmos do Reino Unido e da Alemanha.

Qual é o produto político que os situacionistas propõem em França e cuja vitória saúdam como se os sans culottes tivessem tomado de novo a Bastilha (uma história muito adulterada)?

O situacionismo em França tem como ponto de partida o fim do mandato de Jacques Chirac e com ele o conceito gaulista de uma política autónoma da França e da Europa, de uma Europa com um núcleo formado pelo antigo império de Carlos Magno, a França, a Alemanha e o Norte de Itália (a lotaríngia). Chirac foi substituído por Sarkozy e este por Hollande e este por Macron. Este trio de PP ( petits presidents) corresponde em Portugal a Durão Barroso, Passos Coelho e Paulo Portas, em Espanha a Aznar e a Zapatero, em Inglaterra a Blair, Gordon Brown, Cameron, Theresa May, Boris Johnson.

Em termos de latas de cozinha temos uma prateleira de produtos que metidos em panela e deixando a cozer em lume brando produz uma papa que é o neoliberalismo. Uma ranchada que ilude a fome a curto prazo, mas mata a médio, porque lhe foram retirados, em nome do lucro, os elementos essenciais de vitaminas e proteínas.

Com que produtos se cozinha o “Ensemble” de Macron que ficou em segundo lugar nas eleições francesas e que tem sido celebrado pela caldeirada reunida sob o ressuscitado lema de “Nova Frente Popular”, que nem é nova, nem é uma frente, menos ainda é popular como a salvação da democracia tricolor da Liberdade, Igualdade e Fraternidade? Uff! Titulou o progressista moderado Liberation. Mas uff a propósito de quê? Os franceses vão ressuscitar o sistema europeu Galileo de geolocalização para substituir o GPS americano? Vão impor uma administração europeia para o BCE, que faça do euro uma moeda de troca universal e ao serviço de uma política europeia?

E o que se encontra na caixa da Nova Frente Popular? O sereno desespero dos coletes amarelos que colocaram a França a ferro e fogo para depois permanecer tudo na mesma? Com a atual política da França (e da Europa) de crispação contra meio mundo: Rússia, China, Índia, África e até a América latina a quem vai a França da Nova Frente Popular vender produtos de luxo? Se a NFP mantiver a politica de Macron, dita moderada, de guerra aos BRICS, passará a submissa sem nunca ter sido insubmissa. Mélenchon e os seus aliados ficam com as malas, os perfume, os vinhos à porta dos clientes. Mas se quiser ser a França Insubmissa, os Estados Unidos tiram-lhe o tapete, passam-lhes uma rasteira, como fizeram no negócio dos submarinos para a Austrália (que vai entrar para a NATO, com a Nova Zelândia e com o apoio da França!) A NFP de Jean-Luc Mélenchon tem boas hipóteses de ficar isolada entre Putin, Xi Jiping e Trump. Deve ter sido essa possibilidade de quadratura do circulo, de comer o bolo e ficar com o bolo, que celebraram ontem! Dentro de dias saberemos novas dos extremistas moderados que salvaram a República!

Um dos maiores sucessos da propaganda política é ter conseguido “vender” o neoliberalismo como um produto saudável, moderado, equilibrado depois da sua apresentação pública como religião de salvação no golpe de Pinochet no Chile em 1973. O “Ensemble” de Macron é uma mixórdia neoliberal metida numa embalagem que tem sido impingida como sendo genuinamente democrata e que, como os meios de propaganda nos matraquearam ontem, contribuiu para a derrota do que os taxionomistas políticos classificaram como extrema-direita, que passou de Frente Nacional a União (Rassemblement) Nacional e da direção de Marine Le Pen para um seu meio genro (casado com uma sobrinha), Jordan Bardela.

A lata dos produtos que compõem o “Ensemble” são conhecidos desde que a escola de economistas de Chicago patrocinada por Milton Friedman os utilizou para cozinhar a ditadura de Pinochet, no Chile: um deus — o mercado; um princípio - homem é o lobo do homem — sobrevivem os mais aptos, sucesso é estar acima dos outros. Um programa de vida: que cada ser humano viva e morra segundo as suas possibilidades. Obediência aos Trés Mandamentos de Margareth Tatcher: não há sociedade, há indivíduos; não há cidadãos, há consumidores, não há eleitos, há predadores de votos. Um sacrário: a Reserva Federal dos Estados Unidos.

O situacionismo assenta em duas bases, no neoliberalismo económico e social e no alinhamento estratégico pelos Estados Unidos.

As eleições no Reino Unido e em França revelam o beco sem saída do situacionismo e a alienação que os meios de comunicação conseguiram ao colocar as massas de futuros desempregados, de futuros SDF, os sem abrigo na sigla francesa e em homenagem aos franceses tão aparentemente felizes por manterem Macron no Eliseu, Mélenchon na animação popular e Marine Le Pen a esperar por ele para as próximas eleições presidenciais, onde lhe perguntará o que o distingue de Macron quanto ao euro, quanto à relação com o BCE, quanto à relação com os Estados Unidos, a Rússia, a China e a África, o que o distingue de Macron quanto à caótica política ambiental, quanto às fontes de abastecimento de energia, quanto à política aeroespacial da Europa, quanto às guerras com que os Estados Unidos cercaram a Europa desde os anos 80 do século passado — Irão, Iraque, Afeganistão, Jugoslávia, Síria, Palestina, Líbano, Líbia, produtoras das vagas de migrantes.

As eleições na Alemanha produzirão com elevada probabilidade o mesmo tipo de vitória dos situacionistas com mais ou menos sociais democratas ou conservadores no grande bolo. O situacionismo europeu, o grande grupo dos democratas moderados, que inclui conservadores e sociais democratas, constitui a religião oficial na Europa. O situacionismo teve a arte e os meios financeiros para vender o seu extremismo (são os defensores de que eles representam o Fim da História) como um produto de moderação e que todos os que lhes expõem os punhais que trazem escondido são extremistas. Extremistas são os outros.

O extremismo que se esconde na lata com o rótulo de moderados, juntos, unidos, conservadores, nas também democratas cristãos, trabalhistas e socialistas está no poder. É o poder e há largos anos! Em Inglaterra Boris Johnson não era mais nem menos moderado, ou extremista que Toni Blair! Ursula Von Der Leyen não é mais ou menos extremista ou, à francesa va-t-en guerre contra a Rússia e a China, que Macron desde que Putin o colocou na ponta da quilométrica mesa do Kremlin. A warmonger Kellie Kallas a estoniana que vai entrar de representante da política externa da União Europeia é mais moderada ou extremista que Marine Le Pen? Em quê? E a madame Lagarde do BCE é uma moderada que ajuda pobres e remediados a pagar os juros exorbitantes aos bancos para terem um teto? E o trabalhista Keir Starmer recém eleito primeiro ministro do Reino Unido tem uma politica mais moderada para deportar migrantes para o Uganda ou os deixar afogar no Canal da Mancha dos seus moderados antecessores conservadores? E o que distingue as políticas migratórias do Reino Unido, dos Países Baixos, da Alemanha (que é a maior financiadora dos campos de concentração de migrantes na Turquia) das de Marine Le Pen, ou da primeira ministra italiana?

Falecido em 2019, após uma vida bem gozada, Jacques Chirac foi o último gaulista no poder. Com a sua morte morreu qualquer laivo de desalinhamento da Europa e da França com a política de domínio económico, financeiro e militar por parte dos Estados Unidos. Sendo assim, o que estão a celebrar os situacionistas europeus e os franceses em particular e, mais aberrante ainda, os que se afirmam gaulistas? O que defendem aqueles que o pensamento dominante classifica como extremistas e colocou numa lata com um autocolante: Perigo!

Se o perigo para a Europa é, em primeiro lugar, o do alastramento e subida de patamar das guerras na Ucrânia e no Médio Oriente. Se, em segundo lugar o perigo é a da conjugação de inflação e depressão económica na Europa (a França dos moderados vitoriosos já está na categoria penalizadora de défice excessivo); e se, em terceiro lugar, o perigo para a Europa é o da irrelevância política e económica, transformada como está um mero apêndice dos Estados Unidos foram os extremistas que trouxeram a Europa até aqui. E estão a celebrar a vitória. Celebram o quê?

 2024 07 08

https://cmatosgomes46.medium.com/em-que-caixa-est%C3%A1-a-extrema-direita-0acc164f4c1e

domingo, 9 de junho de 2024

Carlos Matos Gomes - Europa: Reinvenção ou subjugação

*  Carlos Matos Gomes 

«Leituras para compreender a Europa em perigo» é o titulo de um artigo na Babelia, o suplemento cultural do El País (nenhum jornal português tem um suplemento cultural) — e começa com uma declaração do escritor Jean-Baptiste Andre, vencedor do último prémio Goncourt (em Portugal nenhum escritor, premiado ou não, é ouvido sobre o mundo que o cerca e que é matéria de reflexão nos seus romances) — diz o escritor: Estamos à beira de um regresso da extrema direita. Não deveria surpreendermos neste tempo que a História tende a repetir-se . A pergunta é, portanto, a de sabermos se é possível detê-la ou não.

A cerimónia dos 80 anos do desembarque na Normandia diz-nos que já estamos no reino da extrema-direita. Quer o nazismo quer o fascismo são interpretações do mundo que justificam o poder de um dado grupo. Assentam sempre numa interpretação da História, isto é, na reescrita da História de um povo ou de um grupo para o tornar virtuoso e com direito a impor a sua virtude a todos os outros. A extrema-direita assume-se senhora dos Valores, do Bem, da Verdade, da Superioridade. As Cruzadas, a Colonização, o Colonialismo são a materialização dessa mistificação que tem origem no conceito de Povo Eleito. O discurso do presidente americano Joe Biden, em 2024, em França, repete o discurso de Ronald Reagen há quarenta anos a 6 de Julho de 1984: A América a terra da Liberdade, da defesa da Liberdade contra a tirania. O direito da América intervir em qualquer parte e contra quem quer que seja para impor a Liberdade. A afirmação de que a América é a herdeira da Terra Prometida, que o modo de vida americano é a suprema aspiração dos povos. O Fim da História. Os Superiores têm o direito de impor os seus valores!

O novo machartismo

A “mensagem” da América como paraíso final justifica todas as intervenções. Mesmo que os “pastores” da religião americana levantem muralhas contra os que ali querem entrar. Quem não acreditar na “mensagem” é herege e está fora da ordem, da Igreja, do Povo Eleito. O sociedade da exclusão e do totalitarismo, que é a dos Estados Unidos, teve o seu ponto alto com a doutrina do Macarthismo — a prática de acusar alguém de subversão ou de traição. Um termo originalmente cunhado para descrever a campanha anticomunista promovida pelo senador republicano Joseph McCarthy, nos anos 50. O macarthismo serviu para acusar milhares de americanos de serem comunistas ou simpatizantes, que foram objetos de agressivas investigações e de inquéritos abertos pelo governo ou por indústrias privadas baseados em evidências inconclusivas e questionáveis. Muitos perderam os empregos e/ou tiveram as carreiras destruídas; alguns foram presos.

O machartismo teve a cumplicidade ativa de muitos fazedores de opinião, artistas e jornalistas — incluindo Reagan, um denunciante que chegou a Presidente! — que promoveram a histeria da verdade única e denunciaram aqueles que não seguiam os mandamentos, que não se incorporavam no rebanho. (Hoje basta abrir as Tvs e ver os macthartistas militantes).

Quarenta anos passados estamos de regresso ao machartismo. A Normandia foi um festival de radicalismo: nós e eles. O perigo está do lado de lá. Denunciemos e ataquemos. Não pensemos. Principalmente: não pensem, Não pensem que a Liberdade que o Ocidente — a Terra do Bem — defende é a Liberdade que só no século passado, em nome da Liberdade, manteve a segregação racial mesmo nos exércitos: nos Estados Unidos havia unidades brancas e negras e se as negras sofreram muito mais baixas, ainda assim foram impedidas de desfilar no dia da vitória em Paris, assim como as tropas africanas ao serviço da França, que ocuparam o sul, e que também não desfilaram. O racismo em nome da Liberdade. Os negros eram inferiores. Nos Estados Unidos as leis de segregação racial mantiveram-se até aos anos 60. Também em nome da Liberdade. E, em nome da Liberdade, os Estados Unidos apoiaram as ditaduras sulamericanas, no Brasil, na Argentina, na Bolívia, na Republica Dominicana, na Nicarágua, no Uruguai, no Chile, isto até aos anos 80. E também em nome da Liberdade dos povos e da democracia, os Estados Unidos e a Inglaterra derrubaram um presidente eleito na Pérsia e substituíram-no por um títere seu vassalo, o Xá Rheza Phalevi, e invadiram o Iraque e o Afeganistão e destruíram a Sérvia.

São estes conceitos de Liberdade e Democracia que fizeram de Zelenski a figura principal das celebrações do Dia D de 2024! O exemplo a seguir de marioneta que tem conseguido encobrir os neonazis verdadeiros executores da política da Ucrânia e da guerra em nome da Liberdade americana.

A Democracia e a Liberdade de Salazar para os americanos

A opção dos Estados Unidos por “democratas convenientes e talhados à medida”, de que Pinochet será o exemplo mais evidente, é antiga e tem sido continuada. Nós, os portugueses, quando ouvimos falar na defesa da Liberdade e Democracia devíamos ter alguém que nos recordasse a História. Após o final da Segunda Guerra, em 1947 ocorreu em Portugal a mais séria tentativa de implantação de uma democracia europeia com o golpe que ficou conhecido pela «Abrilada de 47», conduzida pelo general Marques Godinho e pelo doutor João Soares. O golpe abortou, o general acabou por morrer na prisão, porque os ingleses preferiram manter Salazar no poder do que correr o risco de, num futuro governo democrático puderem fazer parte comunistas, ou aparentados, mesmo que eleitos. E a defesa da liberdade e da democracia em Portugal, por parte dos ingleses e dos americanos também foi uma bela falácia com a entrada de Portugal como membro fundador da NATO ( a Aliança do Mundo Livre), apenas porque os Açores eram bases importantes para os democratas.

Os 80 anos do desembarque da Normandia mostraram a face mais hipócrita e radical dos que se assumem pastores universais e aspergem os povos com juras de Liberdade, como qualquer demagogo atiram confétis e rebuçados às crianças miseráveis. Sobre a Liberdade da Palestina é que nem uma palavra. Israel é um campeão desta Liberdade que foi aviltada na Normandia. A extrema direita estava lá. A questão não é detê-la, mas extirpá-la.

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