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sábado, 25 de novembro de 2017

carta de um judeu grego que sobreviveu a Auschwitz

SEGUNDA GUERRA MUNDIAL
Esta carta de um judeu grego que sobreviveu a Auschwitz esteve 70 anos à espera de ser lida

Foi escrita em 1944 e enterrada perto de um dos fornos crematórios deste complexo de extermínio na Polónia. Descoberta em 1980, só agora viu o seu conteúdo decifrado. “Não tenho medo de morrer”, escreve o soldado. “Afinal, como posso eu ter medo depois de tudo o que os meus olhos viram?”

LUCINDA CANELAS 25 de Novembro de 2017, 8:20


Prisioneiros do complexo de concentração e extermínio de Auschwitz RUI GAUDÊNCIO


Marcel Nadjari, um judeu grego que servia no Exército, chegou ao complexo de campos de concentração e extermínio de Auschwitz-Birkenau em Abril de 1944, depois de uma viagem de dez dias. Tinha 27 anos e fora capturado pela SS em Atenas. Dois anos antes, também os seus pais e a sua irmã tinham para ali sido deportados. Nadjari não chegaria a vê-los.


Chegado ao Sul da Polónia tornou-se um Sonderkommando, nome dado aos prisioneiros que eram forçados pelos nazis a executar uma série de tarefas terríveis dentro dos campos, como limpar as câmaras de gás, retirar os cabelos e os dentes de ouro aos mortos e transportar os corpos para os fornos crematórios.

Marcel Nadjari seria mais um dos prisioneiros judeus obrigados a participar da Solução Final, perdido no meio de milhões de pessoas sujeitas aos crimes de guerra nazis, se não tivesse sido o autor de um impressionante testemunho, escrito sob a forma de uma longa carta dirigida a familiares e amigos, que enterrou em Auschwitz.

Essa carta escrita em grego foi descoberta por um estudante nos anos 1980, mas o seu conteúdo estava inacessível. Começou a ser divulgado em Outubro e só nos últimos dias ficou integralmente disponível em inglês, levando a imprensa alemã e belga a regressar, em detalhe, à história deste inestimável documento.

O facto de ter estado debaixo de terra durante quase 40 anos, sujeita à acção da humidade embora fechada numa espécie de termo guardado dentro de uma bolsa de couro, precisa o jornal belga francófono Le Vif, tornou a carta ilegível (só algumas palavras eram perceptíveis). Agora, e graças à colaboração entre um especialista informático, Aleksandr Nikitiaev, e um historiador, Pavel Polian, foi possível aceder a cerca de 90% do testemunho do homem que tantos cadáveres transportou para os crematórios.

Recorrendo a uma técnica que lhe permitiu, a partir de imagens digitais da carta, salientar os trechos que eram invisíveis a olho nu, Nikitiaev ajudou a “redescobrir” o documento que Polian decifrou.

“Não tenho medo de morrer”, escreve o soldado grego, “afinal, como posso eu ter medo depois de tudo o que os meus olhos viram?”.

A carta, com 13 páginas manuscritas é dirigida a três pessoas, entre elas ao amigo Dimitris, a quem chama Misko, e foi escrita entre meados de Outubro e finais de Novembro de 1944, aparentemente na esperança de que viesse a ser encontrada e pudesse servir de testemunho. Nadjari acreditava que os nazis chegariam a exterminar todos os judeus e receava que os crimes do III Reich ficassem por denunciar.

Com uma certa ironia
No documento que enterrou numa floresta perto do crematório n.º 3 de Auschwitz, Marcel Nadjari faz uma descrição pormenorizada de todos os horrores a que assistiu diariamente e diz que quer ver os crimes nazis expostos: “Este é o meu último desejo. Condenado à morte pelos alemães porque sou judeu.”

A sua carta, que é também um testamento, faz parte de uma série de nove documentos conhecida como os Pergaminhos de Auschwitz, todos escritos – e escondidos - por homens do Sonderkommando. Pavel Polian está a estudá-los há dez anos, segundo o site da Smithsonian, instituição norte-americana dedicada à cultura e ao conhecimento.

Estes nove relatos têm cinco autores e estão na sua maioria redigidos em iídiche (o de Nadjari é o único em grego). “São os documentos mais centrais do Holocausto”, disse o historiador russo à empresa de radiodifusão alemã Deutsche Welle, defendendo, tal como outros colegas, que haverá ainda outros relatos semelhantes à espera de serem descobertos.

Na carta de 13 páginas, e apesar do contexto terrível em que vive, Nadjari não abdica, nalguns trechos, de um certo tom irónico, sarcástico até: “[…] Ficámos aproximadamente um mês em quarentena e depois deslocaram-nos, tanto os saudáveis como os doentes. Para onde? Para onde, querido Misko? Para um crematório. Vou explicar-te em baixo o trabalho adorável que o Todo-poderoso quis que fizéssemos.”

Em seguida, o soldado transformado em Sonderkommando  fala de um grande edifício com uma chaminé larga e 15 fornos. Por baixo do jardim, diz, há duas grandes caves – uma serve para os prisioneiros se despirem, a outra é uma câmara de execução. Nesta última as pessoas entram nuas e, quando já lá estão “aproximadamente três mil”, a porta é selada e todas são gaseadas. “Respiram pela última vez depois de seis ou sete minutos de martírio”, escreve, a maioria sem sequer ter chegado a suspeitar do que estava prestes a acontecer-lhe, acreditando apenas que ia tomar um duche.

“Passada meia hora abrimos as portas e o nosso trabalho começa”, continua Nadjari, presumindo que a sua própria morte não tardará. “Carregamos os corpos destas mulheres e crianças inocentes para o elevador que as transporta para a sala com os fornos, e é aí que as põem nos fornos, onde ardem sem qualquer combustível por causa de toda a gordura que tinham.”

Garante o soldado que um corpo produz cerca de 640 gramas de cinzas e de pequenos ossos, fragmentos que os militares alemães presentes obrigam os Sonderkommando a esmagar para que todos os vestígios dos prisioneiros gaseados e queimados possam depois ser lançados ao Rio Vístula, nas imediações, procurando dissimular o rasto de tais atrocidades. “Os dramas que os meus olhos viram são indescritíveis.”

Viver para vingar os pais e a irmã
Marcel Nadjari conta ainda aos três destinatários da carta - o amigo Dimitris (Misko) Stefanidis; Ilias Koen, seu primo e membro da resistência executado em 1944; e Georgios Gounaris, uma mulher grega cuja fotografia levou para Auschwitz – que fazia parte de um grupo de cerca de 1000 prisioneiros a que os nazis chamavam “unidades especiais” (os Sonderkommando) e que esperava ser eliminado como os milhares de pessoas – judeus húngaros, polacos, gregos, franceses - que tinha já transportado para os fornos.

Consciente de que, caso chegasse às mãos dos destinatários, o seu testemunho levaria a muitas perguntas sobre a sua própria conduta, Nadjari antecipa-se: “Meus queridos, quando estiverem a ler sobre o trabalho que fiz dirão - Como fui capaz, eu Manolis [nome que chama a si mesmo], ou qualquer outra pessoa, de fazer este trabalho e de queimar [outros] companheiros crentes. No começo disse a mim mesmo a mesma coisa, [e] muitas vezes, pensei juntar-me a eles para acabar com tudo. O que me impediu de fazer isso foi a vingança. Eu queria e quero viver para vingar as mortes do [meu] Pai e da [minha] Mãe, e a da minha adorada irmãzinha Nelli.”

Ao contrário do que previra, o grego Marcel Nadjari sobreviveu a Auschwitz, acabando por morrer em 1971, aos 54 anos, nos Estados Unidos, para onde emigrara com a mulher, trabalhando como alfaiate. Chegou mesmo a escrever as suas memórias de guerra, em 1947, quando estava ainda em Tessalónica, a cidade em que nasceu, mas aparentemente nunca falou da longa carta que tinha enterrado na Polónia.

“Lembra-te de mim de vez em quando, assim como eu me lembro de ti”, diz a Misko, o amigo a quem deixa as propriedades da família, contando que ele acolha o seu primo, Ilias. “Sempre que alguém perguntar por mim, diz simplesmente que eu já não existo e que parti como um verdadeiro grego.”

Já quando a carta está perto do fim, é na irmã que o soldado volta a pensar: “Por favor, Misko, vai buscar o piano da minha Nelli à família Sionidou e dá-o a Ilias para que o tenha sempre consigo […], ele amava-a tanto e ela amava-o também.”

Segundo o diário irlandês Irish Times ou o semanário belga Le Vif, Pavel Polian, o historiador russo encarregue de decifrar o texto que as modernas técnicas informáticas recuperaram, conseguiu encontrar a filha de Marcel Nadjari para lhe entregar a carta do pai, que, 70 anos depois de ter sido escrita, foi lida em voz alta numa sinagoga de Tessalónica. Ela chama-se Nelli.

O texto a que o PÚBLICO acedeu, e que neste artigo se traduz livremente, é a versão inglesa feita pelo German-Canadian Centre for Innovation and Research a partir da alemã, por sua vez transcrita do original grego.

https://www.publico.pt/2017/11/25/mundo/noticia/esta-carta-de-um-judeu-grego-que-sobreviveu-a-auschwitz-esteve-70-anos-a-espera-de-ser-lida-1793729?page=/&pos=6&b=feature_b

sexta-feira, 7 de outubro de 2016

Mitterrand em mais de mil cartas de amor




No dia 13 chega às livrarias francesas um volume com 1218 cartas que o antigo Presidente francês escreveu a Anne Pingeot, a mulher com quem viveu um amor clandestino durante mais de 30 anos.
Mazarine Pingeot-Mitterrand e a mãe, Anne Pingeot, no funeral de François Mitterrand, em 1996 PHILIPPE WOJAZER/REUTERS
Um dos grandes estadistas do século XX na intimidade, escrevendo, apaixonado, à mulher da sua vida: “Quando te encontrei percebi logo que ia partir numa longa viagem”, diz-lhe em Novembro de 1964. “Lá, para onde vou, sei ao menos que tu estarás sempre. Abençoo o teu rosto, minha luz. Jamais haverá uma noite absoluta para mim. A solidão da morte será menos solidão. Anne, meu amor.”
Durante mais de 30 anos, François Mitterrand (1916-1996), antigo Presidente francês (1981-1995), teve uma relação extra-conjugal com a historiadora de arte Anne Pingeot, com quem viria a ter uma filha, Mazarine. Uma relação que permaneceu secreta. Agora, Pingeot, 73 anos, conservadora honorária do Museu D’Orsay, resolveu que era tempo de publicar as mais de mil cartas que Mitterrand lhe escreveu.Lettres à Anne (1962-1995), o volume de 1280 páginas que a editora Gallimard faz chegar às livrarias a 13 de Outubro, está já a agitar os franceses. Excertos das cartas publicados na quarta-feira na revistaL’Obs, que inclui ainda fotografias inéditas, e no jornal Le Figaro (esta quinta-feira) tiveram eco em vários meios de comunicação e já lançaram o debate sobre o direito à privacidade dos políticos. Um debate em que a antiga amante do Presidente certamente não participará, pelo menos publicamente.
Anne Pingeot, que passou um ano a transcrever e a anotar as centenas de cartas e poemas agora editados, já anunciou que não participará em qualquer iniciativa de promoção do livro que já se antecipa um best-seller. Fiel à sua habitual discrição, a mesma que lhe permitiu viver um amor proibido longe dos holofotes durante mais de três décadas, a historiadora de arte justificou a amigos próximos o timing desta publicação dizendo, segundo a agência AFP e a edição francesa do jornal online Huffington Post, que ela já não pode magoar ninguém - François Mitterrand morreu há 20 anos e Danielle, a mulher com quem ele casou em 1944, há cinco.
“Era este o momento”, disse o jornalista Philip Short, autor de um livro sobre Mitterrand que saiu em 2015 (Portrait d’un Ambigu), citado pela AFP. “Durante anos, Anne tolerou mal as versões não autorizadas da sua vida que circulavam. Quis, sem dúvida, dar a sua versão da verdade.”
Diz quem as leu, como o escritor e jornalista Jérôme Garcin, da L’Obs, que as cartas revelam um homem apaixonado, um companheiro atento e um leitor voraz, que não deixa de lado as suas obrigações políticas nem as preocupações de Estado. A Pingeot, Mitterrand conta como lhe correm os dias longe dela, o que pode incluir reuniões com líderes mundiais e episódios dos bastidores do Eliseu, a Pingeot admite fraquezas e inseguranças. “Pus uma fotografia tua à minha frente no escritório”, escreve-lhe em Maio de 1964. “Acabo de te deixar. Acabo de acender o candeeiro da minha vigília (um cavalo veneziano em cobre  serve de suporte e o abat-jour, cor de mel, é de um tecido forte). Penso em ti com tal ternura que é impossível que, neste momento, o teu coração não o saiba. Tenho o coração e a consciência mais livres, mais tranquilos desde que te falei. De mim para ti tudo é dito. E não me arrependo, mesmo que isso te assuste. […] Se optares pelo caminho que te conduz a mim, só a morte me afastará. Se tomares outro caminho, o meu orgulho e a minha alegria, com a minha dor pelo meio, estarão no facto de ter preservado a integridade daquela que amo. Terei ganho ao menos o afecto da tua alma, Anne querida, que vale bem todas as renúncias.”
Anne Pingeot e François Mitterrand apaixonaram-se no começo dos anos 1960, quando o político francês tinha 46 anos e ela 19. Diz quem o conheceu, entre eles biógrafos e amigos próximos, que Pingeot não era apenas a sua amante, era a mulher da sua vida. Esta relação intensa, de grande cumplicidade, só se tornou pública em 1994, quando a revistaParis Match publicou fotografias do então Presidente da República a sair de um restaurante parisiense com a filha de ambos, Mazarine, nascida 20 anos antes. Um escândalo mediático.













É precisamente a Mazarine, hoje uma escritora de 41 anos, que se dirige uma das cartas que Anne quis ver publicadas: “Mazarine, querida, escrevo pela primeira vez este nome. Sinto-me intimidado perante esta nova personagem sobre a Terra que és tu. Tu dormes. Tu sonhas. […] Mais tarde vais conhecer-me. Cresce, mas não demasiado depressa. […] Anne é a mamã. Verás que não podíamos ter escolhido melhor, tu e eu.”

“Sou feliz por tua causa”

O volume da Gallimard reúne aquilo que o Figaro define como uma “correspondência prodigiosa” – na quantidade, na qualidade, na diversidade - em que o antigo Presidente revela o seu talento para a escrita em arroubos líricos de um entusiasmo que por vezes parece juvenil e considerações políticas. É Mitterrand quem diz que Pingeot despertou nele sentimentos que desconhecia, é Mitterrand quem admite sentir necessidade de lhe contar tudo, é Mitterrand quem confessa que, até a encontrar, construíra um muro à sua volta para se proteger, criando um espaço onde a alegria e a paz nunca o visitaram: “Sim, preciso muito de ti, minha Anne. Sim, sou feliz por tua causa. E não tenho se não um desejo: dar-te o equivalente ao que recebo. Estar ao serviço da tua vida.”
Uma das cartas, em Setembro de 1965, é escrita quando Mitterrand acaba de fazer saber que é candidato à presidência da república. Nela fala-lhe dos momentos “intensos”, por vezes “dramáticos”, das últimas horas. Para depois voltar a um registo que só a eles diz respeito: “Sabes que penso em ti e que é maravilhosamente útil que exista este amor Anne-François? Adoro-te Anne e anseio pelos teus braços, pelos teus lábios, pela tua ternura, pela tua paz. Anne, meu amor, até amanhã. Amo-te.”
Em 1995, três meses antes de morrer, diz na última carta que a sua felicidade continua a estar em poder pensar nela, em poder amá-la: “E eis que não sei mais o que fazer de mim, o meu tempo está a acabar. Uma verdadeira conspiração! Mas eu sairei deste estado bizarro, ridículo e pitoresco. É muito difícil saber que uso devemos dar à vida. O resto é mais fácil porque basta tomar decisões. […] Tu sempre me deste mais. Tu foste a minha possibilidade de vida. Como não te amar?”
No volume não há qualquer missiva de Anne Pingeot para Mitterrand. Esse arquivo não é seu. O que há são cartas e cartas em que se vê um homem entre a sua vida política e a intimidade, entre os seus deveres públicos e os seus desejos privados, procurando equilibrar uns e outros, mesmo quando isso parece impossível:  “É uma vaga de fundo, meu amor, ela arrasta-nos, separa-nos, e eu grito, grito, tu ouves-me  no meio do tumulto, tu amas-me, eu sou desesperadamente teu […]. Amar-te-ei até ao meu fim, e se tens razão ao acreditar em Deus, amar-te-ei até ao fim dos tempos.”
Para quem quiser uma leitura mais contextualizada de Lettres à Annetalvez não faça mal “ouvir” Anne Pingeot nas páginas da biografia de Mitterrand que o jornalista Philip Short, correspondente da BBC em Paris, lançou em 2015. Nela fala muitas vezes em como foram anos “duros”, com muitas promessas de vida em comum sempre por cumprir. Mitterrand, a quem atribuíram várias relações fora do casamento, nunca deixou Danielle. Pingeot acreditou muitas vezes que o faria.

    https://www.publico.pt/mundo/noticia/mitterrand-em-mais-de-mil-cartas-de-amor-1746418


domingo, 13 de março de 2016

"Livrarte/Ulmeiro"... 40 anos a resistir

17/01/09



Em Benfica, existe ainda um Alfarrabista - repleto de História e de memórias de lutas por uma Causa - que teima em Resistir, depois de 40 anos... 


Situada na Avenida do Uruguai, no Nº 13A A, a “Livrarte” iniciou, formalmente, o seu negócio na venda de livros, há cerca de 29 anos (por volta de 1969): “(...) iniciado pela “Ulmeiro”, que tinha Editora e a Livraria (...)”, como nos contou a D. Lúcia Ribeiro, proprietária desta casa.

“Editora Ulmeiro” (como se chamava, então, à loja que alguns anos mais tarde viria a dar origem à“Livrarte”) poderia ser considerada, em finais dos anos 60, como uma Editora de vanguarda, na medida em que as suas publicações eram, essencialmente, livros de carácter político e interventivo, de ideais opostos aos do regime então vigente.

Nessa época conturbada do Salazarismo, e antes do 25 de Abril de 1974, esta era uma livraria “(...) marcadamente de contestação (...)”, segundo palavras da D. Lúcia.

Enquanto que a “Editora Ulmeiro” publicava livros de carácter considerado revolucionário para o Regime, a sua Livraria assumia um papel de núcleo de concentração dos intelectuais que queriam fazer ouvir as suas vozes contra o governo.
 


“Há ali um período em que era só política, pronto. Aí foi o auge da política. A gente queria era saber alguma coisa de política (...)”, e na “Ulmeiro” começaram a realizar-se sessões culturais de cariz político-informativo.

Nesta fase em que todos estavam de algum modo ligados à política (quer quisessem ou não, pois as suas vidas eram sempre regidas pela mesma), as sessões culturais de música e teatro, em que nomes sonantes como o de Carlos Paredes, Zeca Afonso e Mário Viegas participaram, sucediam-se umas atrás das outras: “Olhe, não tem conta as sessões que nós fizemos aqui culturais!”, diz-nos a D. Lúcia Ribeiro com uma certa réstia de saudade na voz.

Apesar desta sua acção, nunca foi partidária, nem esteve ligada a nenhum movimento político ou de contestação, mas as pessoas sempre associaram a Livraria aos movimentos contra o Regime que antecederam o 25 de Abril; como nos refere a D. Lúcia, “(...) não esteve ligada a nada, embora as pessoas nos conotassem, mas isso era inevitável!”, porque “Numa fase em que (...) toda a gente estava ligada à política (...) os que eram de direita diziam que éramos de esquerda, os que eram de esquerda como não éramos do PC ou não sei quê, diziam que éramos de direita.” 

O próprio Zeca Afonso era amigo pessoal da D. Lúcia e do Sr. José Ribeiro (marido da D. Lúcia), facto que devido à importância que o seu nome teve na história do 25 de Abril fez com que a memória colectiva existente na zona de Benfica assimilasse, até aos nossos dias, a “Livrarte” como pertença de familiares do cantor. No entanto, o parentesco existente entre Zeca Afonso e o Sr. José Ribeiro era, como nos explicou a D. Lúcia e tivemos ocasião de constatar quando o seu marido entrou na loja (aquando de uma das nossas Entrevistas), “(...) só a semelhança física (...)” “(...) uma grande relação de amizade e de parecença intelectual, a postura na vida (...)” entre ambos “(...) era muito parecida”.

Depois do 25 de Abril de 1974, quando os ânimos políticos e contestatários acalmaram, estas sessões culturais deixaram de ter razão de existir e “(...) aboliu-se isso completamente”. Mas a principal questão continuava a ser “(...) intervir culturalmente (...)” na sociedade, o que só foi possível com muitas outras sessões ao nível de autógrafos de autores e de leituras de poesia. Retomando-se, assim, o prosseguimento normal de uma Editora/Livraria.

Quatro anos após o 25 de Abril, em 1978, “(...) fizeram-se duas firmas diferentes... a “Ulmeiro” remeteu-se para o seu campo de Editora, que é aqui (...) no prédio ao lado; e a Livraria constituiu-se portanto, com o nome de “Livrarte” (...) Embora ficando ligados do ponto de vista de auxílio, digamos”. A D. Lúcia Ribeiro ficou à frente da “Livrarte”, enquanto o seu marido, o Sr. José Ribeiro permaneceu mais ligado à “Ulmeiro”e ao ramo editorial.

Inicialmente, a “Livrarte” só vendia livro novo (de literatura e escolar), tendo também uma secção de artigos de papelaria; mas há cerca de 11 anos, em 1987, empreendeu na transformação do seu negócio original, começando a “construir” uma secção destinada a objectos e livros antigos.

A D. Lúcia Ribeiro lembra-se bem dessa altura da sua vida, pois a mesma foi pautada por um outro marco histórico, este um acontecimento de carácter muito mais pessoal e que a emocionou bastante: “(...) Até que, exactamente, há 11 anos...e aí eu sei!... Foi quando nasceu a minha neta!!”.

1987 foi, também, o ano em que abriu as suas portas ao público, na zona de Benfica, o “Centro Comercial Fonte Nova”. Para a época que então se vivia, este local apresentava-se como um dos mais audazes na competição comercial, quer em termos da variedade de produtos apresentados nas suas diversas lojas, todas concentradas num único espaço, quer nos preços apresentados. Facto esse que terá contribuído em muito para a desvalorização, por parte do público, do tipo de comércio mais tradicional em que a “Livrarte”também estava incluída.

Esta “crise” terá sido, também, um impulsionador para a mudança que a “Livrarte” veio a incutir ao seu ramo de acção. “Numa crise qualquer... foi quando abriu o “Fonte Nova” ... (...) a necessidade aguça o engenho; e vai daí e toca de fugir do foco que estava a ir mais para baixo (...) e que tínhamos, pronto, o “Fonte Nova” com uma grande qualidade na altura... Era competitivo, por isso nós tivemos que nos virar para outros lados (...)”, diz-nos a D. Lúcia.

E a “Livrarte” largou o negócio de papelaria, e enfrentando os novos tempos que se avizinhavam, passou a dar apenas destaque ao livro novo, ao livro antigo e às “velharias” (ou antiguidades).

 


O negócio parecia ser bom e rentável, tanto do ponto de vista económico (pois nunca existiu nenhuma outra loja com aquelas características particulares na zona) quanto pessoal, pois como nos relata a D. Lúcia “(...) com muito gosto pessoal nesse tipo de coisas, porque já comprava para mim”.

Há cerca de um ano atrás, abriu, também, em Benfica, mais um Centro Comercial, o “Colombo”, o que terá criado “(...) um certo impacto aqui na zona (...)”.

Este foi mais um factor específico que veio incutir a mudança social na zona de Benfica. Um factor que teve tanta importância e repercussão que, a própria Junta de Freguesia teve de instalar alguns cartazes publicitários no intuito de fortalecer o “comércio tradicional”, que via assim perigar os seus negócios em detrimento do novo Centro Comercial.

De características arrojadas e uma política de marketing cada vez mais audaz (devido aos tempos que correm), uma das principais lojas deste Centro Comercial é a FNAC, uma empresa francesa de venda de livros, CD’s e material audio e video, com preços muito mais reduzidos do que as suas congéneres.

Na altura em que esta loja abriu, a D. Lúcia ficou, desde logo, ciente do facto de que isso iria ter repercussões drásticas na “Livrarte”. De facto, “(...) escusamos de mentir!... Há muito cliente que mudou em nome dos 10% e de haver lá tudo (...)”.

Contudo, o que nem a D. Lúcia nem ninguém esperava, é que muitos dos seus clientes “desertores” começassem a regressar novamente. Tal facto só encontra justificação numa frase que muitos deles declaram à D. Lúcia e aos seus “Colaboradores” (pessoas que a ajudam na Loja): “Nunca mais!! (...) Então eu quero dar uma prenda, eu explico para quem é e ninguém me aconselha nada!”.

Porque, contrariamente ao que parece suceder no caso do atendimento na FNAC, na “Livrarte” a relação que se estabelece com o cliente é algo de muito mais “(...) personalizado (...)”: - o cliente é aconselhado sobre aquilo que poderá ou não comprar (se quiser), consoante os seus próprios gostos pessoais. Todo este processo ou relação que se vai estabelecendo com os clientes parece ser muito gratificante a nível pessoal para quem está à frente de um negócio deste género: “E isso é muito gratificante. Isso vale tudo! (...) A gente não saberia que isto era verdade se as pessoas depois não viessem cá agradecer (...) E também lemos muito! Porque senão não saberíamos recomendar!”, diz-nos uma das Colaboradoras da loja, com quem conversámos.

Esta relação que se estabelece só se torna, de algum modo, possível neste tipo de comércio mais personalizado, em que, como nos disse uma das tais Colaboradoras da “Livrarte”“(...) porque a leitura tem muito a ver com os primeiros livros que se lêem. E o que acontece muitas vezes é que há uma opinião a dar; há, no fundo, um estímulo à leitura e também ao crescimento pessoal. E uma conversa pode mudar uma vida! (...) Mudar um pouco o rumo de uma existência através do livro que se aconselha (...)”.

 


“Livrarte” é constituída por dois andares: a loja e um rés-do-chão. No piso superior apresenta-se a secção de livros novos (onde os livros de ficção e de “(...) filosofias alternativas (...)” são os mais vendidos) e de livros antigos (podendo encontrar-se nesta parte livros de História; de autores portugueses pouco conhecidos dos anos 50 e 60, de que nem a Biblioteca Nacional dispõe; livros de Teatro e de Arte, monografias de Portugal; uma colecção de livros sobre África e uma de escritores brasileiros antigos) ; no piso inferior da loja está patente a secção de “velharias” e antiguidades, das quais também podemos ver alguns exemplares logo à entrada, no piso superior, na montra.

No que concerne ao público desta Livraria-Alfarrabista tão especial, há que fazer uma distinção entre os três sectores da mesma.

Em relação ao livro novo e antigo, o seu público é constituído, essencialmente, por “(...) gente muito jovem (...) que cada vez lê mais (...)”, estudiosos e universitários que estão a fazer teses ou outros trabalhos sobre um tema específico e os outros clientes que fazem parte de “(...) um dia-a-dia vulgarzinho de bairro (...)".

No que diz respeito às “velharias”, são compradas, basicamente, nas casas de particulares que por algum motivo se pretendem ver livres de objectos tão díspares como mobiliário, peças de ourivesaria, etc. Quem está à frente desta parte do “negócio” é, especialmente, a D. Lúcia que nos exprime o que sente em relação ao mesmo desta forma: “Isso é outro mundo, isso é outro planeta! (...) E depois é a vivência a que isto nos leva, as viagens a que isto nos leva a casa das pessoas... (...) As histórias são impressionantes, são mundos que nos atravessam! (...) muitas vezes ou é a velhice, já, em que as pessoas querem vender...e depois são os seus mundos, as suas histórias que nos transportam, não é?! Atiram para cima de nós! (...) e em cada casa é um mundo e uma história! E viver esse outro lado também é um fascínio terrível!!”.

Quanto aos compradores de “velharias” podem ser clientes muito diferentes, mas gostaríamos aqui de destacar um desses casos: - muitas vezes, é usual serem procuradas peças específicas (de mobiliário ou outras) por Companhias de Teatro ou artistas que pretendem realizar espectáculos; essas “velharias” são vendidas ou alugadas aos mesmos (que, quando concluído o espectáculo as devolvem, como tivemos oportunidade de observar aquando da realização de uma das entrevistas).

Quanto a este seu tipo de negócio tão sui generis, dentro do panorama alfarrabístico de Lisboa, a D. Lúcia diz-nos: “Não somos especializados, não é?! Não temos pretensões a especialização. (...) somos diferentes, temos aquilo que mais ninguém tem! Só não temos o supra-sumo daquilo que se considera o Alfarrabista, que são aqueles livros...(...)”. Estas suas características tão particulares associadas ainda à venda de livro novo (se bem que em pequena escala) terão, de certo modo, criado uma visão pouco lisonjeira do seu negócio, dentro do próprio meio alfarrabista, ou seja, entre os seus congéneres, como nos relata: “(...) mesmo trabalhando com coisas que eles consideram vulgares, a maior parte dos alfarrabistas só alfarrabistas (...)”.

De qualquer modo, o aspecto que considera mais importante, acima de tudo, nesta profissão, é o gosto pessoal, como exprimem bem estas suas afirmações: “(...) De qualquer modo somos diferentes e ainda vivemos no meio desta bagunçada toda e disto tudo... e é muito giro! Estar aqui é muito giro, para nós e para uma grande parte dos nossos clientes. É muito gratificante!! (...) pelo menos ter gosto naquilo que se faz (...)”. 

Em relação ao futuro do seu negócio, afirma mesmo: “Projectos nunca nos faltam. Por isso é que não acabamos, se não, já tínhamos fechado esta “porcaria” toda e mudado de ramo...e passado para um Banco!”. Uma última alusão implícita ao facto de, actualmente, na zona de Benfica, quase todas as casas comerciais, que não dão lucro e fecham o seu negócio, estarem a ser compradas por Bancos, para aí se instalarem.

Actualmente, e como nos disse, a D. Lúcia só mudaria este seu negócio para mais uma coisa que muito a cativa: a criação de uma Galeria de Arte, para vender obras de Pintura Moderna de alguns jovens artistas ainda em início de carreira e pouco conhecidos.

Relembrando a acção interventiva que desenvolveram no passado, e como nos disse a D. Lúcia: “(...) aí é um gosto pessoal, também! Porque esta casa, há muitos anos, teve uma galeria de arte lá em baixo. E esse bichinho ficou”.

Publicada por Alexa à(s) 20:06 

http://mercadodebemfica.blogspot.pt/2009/01/livrarte-40-anos-resistir.

Lucinda Canelas - Os livros não têm prazo de validade

A vida da Livrarte e da Ulmeiro confunde-se com a de José Antunes Ribeiro há quase 50 anos. Entramos nesta livraria/editora de Lisboa que corre o risco de fechar à procura dos seus autores e encontramos um bocadinho da história do país. Os livros ainda podem ser uma forma de resistir.

 Há milhares de livros por toda a parte, em estantes, amontoados em balcões estreitos e cadeiras ou empilhados no chão. Pelo meio há vinis, pinturas, desenhos emoldurados, vidros decorativos e outros objectosvintage, a lembrar que a Livrarte não é só uma livraria e não é, sobretudo, uma livraria qualquer. Quem quer chegar às prateleiras da “Arte”, onde é possível encontrar grande álbuns de pintura francesa, roteiros muito antigos do Louvre e de Arte Antiga e biografias de El Greco, Fragonard ou Delacroix, precisa de contornar uma mesa com ficção portuguesa e estrangeira, uma mala de viagem em cartão, e caixotes e caixotes de livros de bolso e revistas dos anos 1960 e 70. Um pequeno labirinto que deixará a muitos saudades se as portas deste espaço no bairro de Benfica, em Lisboa, abertas há quase 50 anos, vierem a fechar. 
José Antunes Ribeiro, o proprietário e editor da Ulmeiro (as duas casas confundem-se, sempre se confundiram), tudo fará para que esta livraria, misto de loja de “coisas antigas” e alfarrabista, se mantenha em actividade. E isso passa por dar entrevistas a jornais e revistas, por receber “clientes ilustres” como o Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, o poeta e crítico Pedro Mexia ou o humorista Ricardo Araújo Pereira, e por atender os “amigos de sempre”, que nunca deixam de aparecer para comprar livros. Isso passa, inclusive, por reuniões com o ministro da Cultura, João Soares, com quem ficou de voltar a conversar sobre eventuais apoios aos livreiros independentes.
“O negócio mudou muito nos últimos tempos e os portugueses perderam poder de compra, o que não é novidade para ninguém. Aquilo que já era difícil de segurar tornou-se nos últimos três, quatro anos, impossível de manter”, diz ao PÚBLICO, numa tarde de semana em que são muitos os que entram na loja, de estudantes africanos de Economia a professores de Direito que procuram poesia, passando pela Carminho e a avó, que vêm à procura de Salvador, o grande gato ruivo que costuma dormir na montra. “Esta é uma livraria de bairro que se orgulha muito de ser uma livraria de bairro. Muitos dos que entram na porta são nossos vizinhos, nossos amigos”, assume José Antunes Ribeiro, garantindo que naquele espaço “os livros não são coisa sagrada” que só se visita às vezes.
“Para muitas pessoas parece que o livro está numa espécie de capela onde só entram os fiéis, os eleitos. E a pensar assim não vamos lá. O livro tem de ser uma coisa que nos faz falta no dia-a-dia, é preciso dessacralizá-lo, dinamizar o acesso, baixar os preços. É preciso mostrar que os livros não mordem e não têm prazo de validade. Temos a vida toda para ler um grande romance ou um grande poeta.”
Foi no início de Fevereiro que se tornou pública a difícil situação da Livrarte, indissociável da Ulmeiro, e desde aí as manifestações de apoio têm-se sucedido, na Internet e fora dela. Pessoas do Algarve e do Alentejo que nunca tinham estado na livraria deslocaram-se de propósito a Lisboa para as feiras que o editor tem organizado – não foi só Marcelo Rebelo de Sousa que comprou dezenas de livros, embora seja bem provável que só o chefe de Estado tenha juntado num mesmo lote antigos volumes de Direito Constitucional, folhetos políticos dos anos 1960 e 70 e clássicos juvenis intemporais de Enid Blyton – e até a Câmara de Lisboa já enviou um técnico para tentar perceber como se pode associar aos esforços para salvar aquele espaço ou, pelo menos, o que ele representa, diz José Antunes Ribeiro.
Na análise da situação a que a Livrarte chegou, o editor não poupa críticas à sua própria gestão nem à forma como os pequenos livreiros, “os poucos independentes que ainda restam”, trabalham: “Eu não sou o último dos livreiros, sou apenas um dos últimos. E o que vejo é que, mesmo sendo uma comunidade pequenina, cada um cultiva o seu quintal, sem olhar para os outros, o que não ajuda. Numa altura em que os livros praticamente desapareceram das televisões, em que já não há suplementos especializados nos jornais, e em que nós não temos dinheiro para anunciar como fazem os grandes conglomerados de editoras, temos de nos juntar para criar um circuito alternativo.”
Desse circuito alternativo fariam parte, por exemplo, feiras espalhadas pelo país – “há tanta pequena cidade que não tem uma livraria…” –, com livros “a bons preços”, que poderiam incluir leituras com os autores e concertos. “Tenho a certeza de que cada um dos milhares de livros que aqui estão têm no mundo um interessado. Tenho a certeza de que com livrarias e editores independentes teremos um mercado do livro que arrisca mais.”
Uma casa sem livros
José Antunes Ribeiro tem 73 anos e uma vida dedicada aos livros, com uma passagem breve pela propaganda médica, “um engano” que só teve a vantagem de lhe trazer um amigo, o compositor e guitarrista Carlos Paredes. A escolha de carreira, reconhece, não foi a mais óbvia para quem nasceu numa aldeia entre Tomar e Ourém, numa casa muito humilde, educado por uma mãe austera de fortes convicções religiosas, que o obrigava a rezar o terço todos os dias e que não sabia ler. “O meu pai, que trabalhava para a CP, lia alguma coisa, mas nós só tínhamos três livros lá em casa: um com uma ida à lua, que naquela altura só podia ser ficção, outro do Júlio Verne, Viagem ao Centro da Terra, e um outro, que nunca compreenderei como lá foi parar de tão erudito, Décadas da Ásia, de João de Barros [considerado um dos primeiros historiadores portugueses, nascido ainda no século XV]. O do Júlio Verne, claro, era o meu favorito.”

Foi graças à professora Maria dos Anjos e às bibliotecas itinerantes da Gulbenkian, que apareciam na aldeia de Alburitel de 15 em 15 dias, que se apaixonou pela leitura. “Ficava à espera que a carrinha da Gulbenkian chegasse a saltava logo lá para dentro. Eles traziam livros de propósito para mim e tudo.”
O percurso nos livros começou na livraria Obelisco, na Amadora, e passou também pela fundação da Assírio & Alvim, no início da década de 1970, embora hoje o seu nome nem sempre apareça associado à história desta editora que tanto tem feito pela divulgação dos grandes nomes da poesia portuguesa e que desde 2012 integra o Grupo Porto Editora.
“No começo, a Assírio era uma editora muito contestatária”, diz, recordando que os primeiros comunicados que saíram da intersindical foram lá impressos. A contestação era, aliás, algo que partilhava com a Ulmeiro, que José Antunes Ribeiro cria em 1970. A edição, diz, via-a – parece vê-la ainda – como uma forma de militância.
Assumindo-se como um homem claramente de esquerda, nunca foi filiado em partido algum, mas sempre deixou claras as suas convicções, assinando em 1965, por exemplo, o manifesto contra a guerra colonial, em que o grupo dos chamados católicos progressistas, de que também faziam parte Nuno Teotónio Pereira, João Bénard da Costa ou Luís Salgado de Matos, denunciavam a cumplicidade entre a Igreja e o regime no que dizia respeito à guerra em África.
Por isso a Livrarte, que começou por ser o Espaço Ulmeiro, foi, desde que abriu, em 1969, um território de debate e de encontro entre escritores, artistas, poetas, críticos e outros intelectuais que se opunham ao Estado Novo. Nas suas tertúlias, onde se podiam encontrar músicos como Carlos Paredes, José Afonso e Vitorino, autores como Luiz Pacheco e Agostinho da Silva, discutia-se política “sem limitações”, conta.
A sua aposta na edição – “a militância contra a guerra colonial orientou muitas das escolhas”, diz – passava por autores africanos que considerava fundamentais para pensar a relação Europa-África, numa altura em que o governo português insistia “na ideia de um império ultramarino, contra tudo e contra todos”.
Esta atitude de resistência fazia com que, no final dos anos 1960, início dos 70, a PIDE, a polícia política do Estado Novo, entrasse com frequência na Ulmeiro e levasse edições inteiras, muitas vezes sem sequer um auto de apreensão. “Era uma coisa completamente abusiva e sem critérios minimamente lógicos. Eu costumava dizer que a trindade era sempre a mesma – Lenine, Estaline e Racine”, brinca José Antunes Ribeiro, garantindo que a terminação dos nomes dos autores e os títulos das obras, por mais inócuo que fosse o seu conteúdo, contava muito. A prová-lo, exemplifica, estão dois dos livros que a polícia do regime apreendeu: A Vida de Nijinsky e O Betão Armado. “Podia ser um livro técnico, de Engenharia, mas tinha 'armado' no título. E, para eles, o Nijinsky [bailarino e coreógrafo russo de origem polaca que foi um dos maiores e mais trágicos nomes da dança do século XX] só poderia ser um perigoso comunista, assim como o Racine [poeta e dramaturgo francês do século XVII]. A censura não olhava para o que lá estava escrito.”
Nesses anos, explica, a Ulmeiro era relevante em termos de “resistência e contestação” pelo que editava, mas também pelo que distribuía na língua original, sobretudo no que toca à literatura em castelhano, de autores como Gabriel García Márquez, Mario Vargas Llosa e Julio Cortázar.
Em tribunal por um livro
José Antunes Ribeiro, que colaborara com jornais e revistas como oComércio do FunchalO Tempo e o Modo O Diário de Lisboa,publica o primeiro livro na Ulmeiro em Janeiro de 1970Isto Anda Tudo Ligado, do jornalista e poeta Eduardo Guerra Carneiro, foi o título inicial da colecção Cadernos Peninsulares, que haveria de continuar com A Poesia Deve Ser Feita por Todos, obra de Carlos Loures que viria a figurar na extensa lista de obras da editora que foram apreendidas.

Entre os livros que editava e os que vendia na livraria, títulos houve, no entanto, que a PIDE terá considerado como ainda mais desafiadores do regime e dos seus valores, como Portugal Sem Salazar, de Mário Mesquita, O Casamento dos Padres, do padre Felicidade Alves, eAntologia das Mulheres-Poetas Portuguesas, organizada pelo também poeta António Salvado, que neste volume tinha a “veleidade” de mostrar, diz José Antunes Ribeiro, “que o lugar da mulher portuguesa não era a cozinha, ao contrário do que defendia o Estado Novo”.
A polícia chegava a levar 2500 livros, o que acaba por afectar economicamente a editora, recorda. “Queriam acabar com a editora e a livraria. E depois levavam-me também. A minha mulher ficava em pânico, mas a conversa era sempre a mesma: ‘Você é um comunista disfarçado de comerciante’, diziam-me eles.” Numa das vezes, “só para desafiar”, recusou-se a assinar o relatório da sua detenção, justificando-se com o facto de o português em que estava escrito ser mau de mais.
As apreensões foram muitas, mas nenhum dos livros da Ulmeiro, ou por ela distribuídos, teve tanta exposição mediática como o que levou o editor a tribunal militar. E já no pós-25 de Abril. Massacres na Guerra Colonial: Tete, um exemplo, volume com organização, introdução e notas de José Amaro, poeta e jornalista, foi publicado em 1976 e reúne um conjunto de documentos marcados como “secretos” e que dizem respeito a operações das tropas portuguesas na província de Tete, na região central de Moçambique, em Dezembro de 1972. Massacres “desde sempre negados e dissimulados pelo Governo português”, lê-se nas primeiras páginas, e que deixaram para trás centenas de mortos, muitos deles mulheres e crianças.
“Ainda hoje me orgulho de ter editado esse livro. Ainda hoje me lembro bem de algumas passagens dos relatórios dos padres que deram conta dos massacres, da crueldade dos militares… É muito difícil esquecer as imagens que esses relatórios nos obrigam a criar na nossa cabeça”, acrescenta José Antunes Ribeiro, lembrando que o processo em tribunal acabou com ele amnistiado porque o que era preciso, diz, era tirar o livro e o que nele se mostrava das páginas dos jornais. “A imprensa pegava muito naquilo para responsabilizar os militares que tinham sido coniventes com o regime e o que interessava era calar-nos. Irritado, na altura, eu cheguei a dizer que queria ser absolvido ou condenado – que uma amnistia não era nada.”
Teotónio Pereira e frei Bento Domingues estavam entre as suas testemunhas de defesa, num julgamento que foi militar porque os documentos que a edição reproduzia deviam ter permanecido secretos. “Ainda hoje há muita coisa por discutir dessa guerra”, defende, com o espírito inquieto e insatisfeito que diz ser uma das marcas da sua personalidade. “Mas se calhar há quem ainda não esteja pronto para essa discussão.”
A Ulmeiro continua
Só “dentro de uma ou duas semanas” é que José Antunes Ribeiro saberá se tem condições para manter a livraria aberta em Benfica. Tem propostas para a levar para outras paragens, mas preferia ficar no bairro. Para já, a única certeza é a de que a editora, que publicou o seu título mais recente há já cerca de seis anos, vai continuar. Com ela gostaria de publicar ainda alguns dos seus autores de sempre, como Antero de Quental, Hélia Correia, Marguerite Duras e Ruy Belo.

Para fazer um bom livro, diz, o escritor não precisa de ter apenas uma boa história – “os melhores livros não têm só uma história, têm muitas, mesmo quando não parece” , precisa de dominar a sua gramática, que não é só a da língua. O que é a gramática do livro? “Uma série de recursos, de conhecimentos, que o autor vai sedimentando depois de ter lido muitos outros. Não conheço nenhum grande escritor que não seja um grande leitor.”
Para já, José Antunes Ribeiro tem praticamente pronta uma nova revista, dirigida pelo poeta e pintor Hugo Beja, “homem de ciência que Portugal infelizmente não conhece como devia”, e que reúne poesia, conto, ensaio e desenho, tendo neste primeiro número colaboradores como Lídia Martinez, Juan Carlos Mestre, António Serra e Mário Rui Cordeiro.
Esta publicação, cujo lançamento não está ainda marcado, vai chamar-se O Voo da Coruja, a lembrar uma casa no meio da floresta, onde durante mais de 20 anos José Antunes Ribeiro criou estas rapinas que, diz ele, não se podem domesticar. “São como eu, sempre inquietas.” 
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