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quinta-feira, 19 de janeiro de 2023

 

Trazer nos versos a «consciência do mundo» - Evocação de Eugénio de Andrade (1923/2005) no centenário do seu nascimento

ª Domingos Lobo


Jorge Pi­nheiro

Eu­génio de An­drade, pseu­dó­nimo li­te­rário de José Fon­ti­nhas Neto, nasceu em Póvoa de Ata­laia, con­celho do Fundão, a 19 de Ja­neiro de 1923. Filho de cam­po­neses, o pai aban­donou a fa­mília era Eu­génio ainda cri­ança. Aos oito anos, mudou-se com a mãe para Cas­telo Branco, numa pas­sagem breve, fi­xando-se em Lisboa a partir de 1932. Na ca­pital fre­quen­tará o liceu Passos Ma­nuel e a Es­cola Téc­nica Ma­chado de Castro.

A vo­cação li­te­rária de Eu­génio de An­drade foi pre­coce, co­meça a ma­ni­festar-se por volta dos seus doze, treze anos. O gosto pela lei­tura leva-o a fre­quentar as bi­bli­o­tecas pú­blicas de Lisboa, a des­co­brir o mundo vasto e fan­tás­tico da lei­tura dado que, diz-nos ele em Rosto Pre­cário, «em casa havia apenas um só livro, uma Vida de Santos que nin­guém lia». Jack London, Júlio Verde, todo o Eça, Ale­xandre Dumas, Tolstoi, Gorki, Jun­queiro e Aqui­lino, fazem parte do ro­teiro das suas lei­turas de ado­les­cente.

Inicia a es­crita dos seus pri­meiros po­emas por volta dos treze anos, ar­ris­cando en­viar al­guns deles a An­tónio Botto, ao tempo um poeta fa­moso quer pelo es­tilo quer pelo modo trans­gressor dos con­teúdos, so­bre­tudo a partir da pu­bli­cação do seu livro Can­ções. Botto gosta dos po­emas do jovem José Fon­ti­nhas e in­cen­tiva-o a es­crever mais e a pu­blicar. É a partir deste in­cen­tivo que pu­bli­cará, em 1939, aos de­zas­seis anos, o seu pri­meiro poema, quase pu­eril, in­ti­tu­lado Nar­ciso, poema «sobre a be­leza que se con­templa e se com­praz em si mesma», con­fes­sará em Rosto Pre­cário, poema em que a in­fluência de Botto, as suas co­or­de­nadas es­té­ticas, está muito pre­sente.

Pas­sará, a partir da pu­bli­cação desse poema, a as­sinar os seus textos com o pseu­dó­nimo Eu­génio de An­drade, com o qual pas­sará a cu­nhar todos os tí­tulos da sua vasta e po­lié­drica obra. Em 1942 pu­bli­cará Ado­les­cente, o seu livro de es­treia. Mais tarde re­ti­rará este livro da sua bi­bli­o­grafia, con­si­de­rando que a sua ver­da­deira voz poé­tica ainda não es­tava nele pre­sente. A ver­dade é que a in­fluência de Botto, e de Pessoa, cuja po­esia co­nheceu através do poeta de Bai­o­netas da Morte, está, nesse livro ini­cial, muito vin­cada.

Uma voz pró­pria e in­con­fun­dível

Eu­génio pro­cu­rava a sua iden­ti­dade, uma voz que fosse sua e in­con­fun­dível, e essa voz co­meça a de­finir-se nos seus Pri­meiros Po­emas (1940), que ele, sim­bo­li­ca­mente, de­dica a Fer­nando Pessoa. Esses mag­ní­ficos versos trans­portam já os si­nais da sua voz plena e fu­tura, como em Canção, que se trans­for­mará num dos seus mais fa­mosos e an­to­lo­gi­ados po­emas: Tinha um cravo no meu balcão;/​veio um rapaz e pediu-mo/- ​mãe, dou-lho ou não?//​Sen­tada, bor­dava um lenço de mão;/​veio um rapaz e pediu-mo/- ​mãe, dou-lho ou não?//​Dei um cravo e dei um lenço,/​só não dei o co­ração;/​mas se o rapaz mo pedir/-​mãe, dou-lho ou não?

Essa voz ma­dura e res­so­nante, surge, já de­fi­nida e vi­go­rosa, no livro As Mãos e os Frutos, de 1948, livro que o tor­nará um poeta re­co­nhe­cido e sin­gular, aplau­dido pela crí­tica e pelos lei­tores que, a partir deste, o des­co­brem. As Mãos e os Frutos é ainda hoje um dos seus tí­tulos mais em­ble­má­ticos, ao qual se jun­tará, já nos anos 1960, essa obra-prima da nossa po­esia con­tem­po­rânea que é Os­ti­nato Ri­gore.

Os temas e o lé­xico que farão parte cons­tante do seu modo poé­tico, estão já ple­na­mente de­fi­nidos e pre­sentes em As Mãos e os Frutos, como o amor sem sombra de amar­gura, os ma­dri­gais, que ele vai buscar a Pêro Meogo, a na­tu­reza, as ár­vores, os pás­saros, a água, os barcos, a noite, o fas­cínio pelo corpo, pelos corpos, a que José Sa­ra­mago cha­mará «po­esia do corpo, a que chega me­di­ante uma de­pu­ração con­tínua», o amor pela mãe, o li­rismo pró­ximo da ma­téria dos so­nhos, como neste be­lís­simo poema de amor ao qual Luís Cília daria mú­sica e voz, trans­for­mando-o numa das nossas can­ções dos anos som­brios, onde a vida e a es­pe­rança se mis­turam e vi­bram: Fe­cundou-te a vida nos pi­nhais./​Fe­cundou-te de seiva e de calos. /alargou-te o corpo pelos areais/​onde o mar se es­praia sem con­torno e cor.//​Pôs-te sonho onde havia apenas/​si­lêncio de rosas por abrir,/​e um jeito nas mãos mo­renas/​de que sabe que o fruto há-de surgir.//​Brotou água onde tudo era se­cura./​Paz onde mo­rava a so­lidão/​E a cer­teza de que a se­pul­tura/​é uma cova onde não cabe o co­ração.

No seu livro se­guinte, Os Amantes Sem Di­nheiro (1949), Eu­génio es­creve num texto in­tro­du­tório, re­fe­rindo-se à sua terra de nas­ci­mento e aos anos que aí viveu, re­ve­lador de al­guns dos as­pectos, das me­mó­rias afec­tivas e das re­la­ções mais fe­cundas e pe­renes, a re­lação de amor/​li­ber­tação com a pro­ge­ni­tora é pa­ra­dig­má­tica, pre­sentes na sua obra poé­tica: Da casa da Eira só me lembro do quar­tito que se se­guia à co­zinha. Um ta­bique se­pa­rava-nos da casa da Ti Ana, uma ve­lhota a quem minha mãe às vezes me dei­xava a guardar. […] Uma manhã acordei so­zinho em casa. Acordei a chorar. – Ó mãe, mãe… - Mas a mãe não vinha. Não havia mãe. Havia só a porta fe­chada. […] E nin­guém me abriu a porta para apa­nhar as es­trelas. Nem mesmo tu, mãe, que a essas horas an­davas a ga­nhar o pão para a boca da­quele que hoje te ofe­rece estes versos.

Em Os Amantes Sem Di­nheiro, Eu­génio ins­creve uma série de po­emas in­tem­po­rais, que são ainda hoje re­fe­ren­ciais do seu uni­verso poé­tico. Po­emas como Os Amantes Sem Di­nheiro, que dá tí­tulo ao livro, Poema à Mãe Adeus, cons­ti­tuem-se na sua vasta obra poé­tica mo­mentos raros e su­blimes, que le­varam Óscar Lopes a con­si­derá-lo o mais per­feito dos po­etas por­tu­gueses, sendo também o de maior pú­blico, e Edu­ardo Lou­renço a re­ferir a sua obra como A pri­meira e a mais pura ex­pressão da po­esia como ar­qui­tec­tura do real, a mais lím­pida ma­ni­fes­tação da en­trega sem re­servas aos sor­ti­lé­gios do “puro poé­tico”.

Co­or­de­nadas poé­ticas

A ne­gação do luxo, da su­per­fi­ci­a­li­dade, do egoísmo da vida con­tem­po­rânea, a de­núncia do aces­sório, da fu­ti­li­dade e dos hor­rores da guerra, são ou­tras das co­or­de­nadas que a sua po­esia também ma­ni­festa. No livro de 1951, As Pa­la­vras In­ter­ditas, es­creve no poema Não é Ver­dade, a sua in­dig­nação: Não é ver­dade tanta loja de per­fumes, não é ver­dade tanta rosa de­ce­pada,/​tanta ponte de fumo, tanta roupa es­cura,/​tanto re­lógio, tanta pomba as­sas­si­nada//​Não quero para mim tanto ve­neno,/​tanta ma­dru­gada var­rida pelo gelo,/​nem olhos pin­tados onde morre o dia,/​nem beijos de lá­grimas no meu ca­belo. No poema que dá tí­tulo ao livro, gri­tará a re­volta e a so­lidão do nosso flu­tu­ante e amargo modo de estar vivo, numa lin­guagem que vei­cula o que é hu­mano, como bem o en­tendeu Óscar Lopes: Dói-me esta água, este ar que se res­pira,/ dói-me esta so­lidão de pedra es­cura,/​estas mãos noc­turnas onde aperto/​os meus dias que­brados na cin­tura.//​E a noite cresce apai­xo­na­da­mente./​Nas suas mar­gens nuas, de­so­ladas,/​cada homem tem apenas para dar/​um ho­ri­zonte de ci­dades bom­bar­de­adas.

Já pro­fis­si­onal do Mi­nis­tério da Saúde, teve uma breve pas­sagem por Coimbra (1943/​1946), onde es­ta­be­lece ami­zade com Mi­guel Torga e con­vive com ou­tros po­etas e crí­ticos de ge­ra­ções e op­ções es­té­ticas di­versas, como Carlos de Oli­veira, Paulo Quin­tela, Afonso Du­arte e Edu­ardo Lou­renço. No en­tanto, a sua fi­li­ação li­te­rária, de­pois das in­fluên­cias ini­ciais de Botto, Pessoa e Ca­sais Mon­teiro, mais Rim­baud, Lorca, Walt Whitman, es­ta­be­lece-se com os po­etas do de­no­mi­nado grupo dos in­de­pen­dentes, ou seja, dos po­etas que não per­ten­ciam às duas cor­rentes li­te­rá­rias então do­mi­nantes: o ne­or­re­a­lismo e o pre­sen­cismo. Po­etas como Sophia de Mello Breyner An­dresen, Jorge de Sena, Na­tália Cor­reia e An­tónio Ramos Rosa, nas­cidos entre 1919 (Sena e Sophia), 1923 (Na­tália) e 1924 (Ramos Rosa), terão per­ten­cido a esse inor­gâ­nico grupo, tendo apenas em comum, com maior ou menor ex­pressão, a sua pre­clara opo­sição ao re­gime fas­cista. As pro­du­ções poé­ticas destes au­tores não dei­xaram, a es­paços, de re­flectir esse po­si­ci­o­na­mento cí­vico de um modo ge­né­rico, em­bora, e por vezes, ide­o­lo­gi­ca­mente con­fuso.

Co­lo­cado pro­fis­si­o­nal­mente no Porto, como ins­pector ad­mi­nis­tra­tivo do Mi­nis­tério da Saúde, será nessa ci­dade que pa­recia um sin­di­cato de viúvas, na ex­pressão de João Vil­laret, que irá es­ta­be­lecer-se a partir de 1950, aí vi­vendo até ao final dos seus dias, sendo con­si­de­rado um dos seus mais ilus­tres ha­bi­tantes. Aí co­nhe­cerá José da Cruz Santos, esse mestre das edi­ções exem­plares, seu editor e cúm­plice, tendo grande parte da sua obra sido pu­bli­cada pela mí­tica edi­tora Inova.

Poeta como pe­dreiro

Em vá­rias en­tre­vistas, Eu­génio fala-nos da re­vo­lução dos cravos e do País em que muita coisa mudou e as­sume no livro Epi­tá­fios, o seu po­si­ci­o­na­mento po­lí­tico, em belos e sim­bó­licos po­emas, como este O Comum da Terra, to­cante tri­buto a Vasco Gon­çalves, re­cor­dando também os dias altos e ful­gu­rantes de Abril, mas já a de­nun­ciar as mar­gens que o in­cen­di­avam: Nesses dias era sí­laba a sí­laba que che­gavas/​Quem co­nheça o sul e a sua trans­pa­rência/​também sabe que no verão pelas ve­redas/​da cal a cris­pação da sombra ca­minha de­vagar./​De tanta pa­lavra que dis­seste al­gumas/​se per­diam, ou­tras duram ainda, são lume/​breve arado ceia de pobre roupa re­men­dada./​Ha­bi­tavas a terra, o comum da terra, e a paixão/​era mo­rada e ins­tru­mento de ale­gria.//​Esse eras tu: in­cli­nação da água. Na margem/​vento areias mas­tros lá­bios, tudo ardia.

Neste mesmo livro, mais um dos seus po­emas an­to­ló­gicos, es­crito ainda nos dias som­brios do ca­e­ta­nismo, mas já inun­dado pelas águas in­qui­etas do porvir, anun­ci­ador das pa­la­vras que é ur­gente se­mear, pa­la­vras que aguardam na noite o sol e o vinho que ha­ve­ríamos de beber em redor do fogo: Elegia das Águas Ne­gras Para Che Gue­vara – Olhos aper­tados pelo medo/​aguardam na noite o sol onde cresces,/​onde te con­fundes com os ramos/​de sangue do verão ou o rumor/​dos pés brancos da chuva nas areias.//​A pa­lavra, como tu di­zias, chega/​hú­mida dos bos­ques: temos que semeá-la;/​chega hú­mida da terra: temos que de­fendê-la;/​chega com as an­do­ri­nhas/​que a be­beram sí­laba a sí­laba na tua boca.//​Cada pa­lavra tua é um homem de pé,/​cada pa­lavra tua faz do or­valho uma faca,/​faz do ódio um vinho ino­cente/​para be­bermos con­tigo/​no co­ração em redor do fogo.

Um outro poema ainda, in­tenso e ma­goado, que nos fala de José Dias Co­elho e de Ca­ta­rina, da morte de ambos às mãos do puro ódio fas­cista: […] di­zias: es­paço diurno onde o rumor/​do sangue é um rumor de ave -/​re­para como voa, e poisa nos om­bros/​da Ca­ta­rina que não cessam de matar.//​Sem vo­cação para a morte, di­zíamos. Também/​ela, também ela a não tinha. Na pla­nície/ branca era uma fonte: em si trazia/​um co­ração in­cli­nado para a se­mente do fogo.//​Ca­ta­rina ou José – o que é um nome?/​Que nome nos im­pede de morrer,/​quando se beija a terra de­vagar/​ou uma cri­ança tra­zida pela brisa?

Ao lermos estes po­emas de Eu­génio, e os sig­ni­fi­cantes que os es­tru­turam, ape­tece-nos dizer como Ramos Rosa: Rei Midas do verbo: pa­lavra que to­casse vi­rava ouro de lei.

Tra­dutor de Lorca, das Cartas Por­tu­guesa, atri­buídas a Ma­riana Al­co­fo­rado, dos po­emas de Safo; or­ga­ni­zador de di­versas an­to­lo­gias; Prémio Ca­mões, em 2001, Grande Ofi­cial da Ordem Mi­litar de San­tiago da Es­pada, pré­mios da Crí­tica e da APE; poeta da ple­ni­tude e da es­pe­rança, poeta maior de um fir­ma­mento de no­tá­veis, Eu­génio de An­drade con­si­de­rava que o seu tra­balho de poeta seria um ofício equi­pa­rado ao de um pe­dreiro, pro­fissão que fora a do seu avô: Ele usava o gra­nito como ma­te­rial, as suas casas estão ainda de pé; o neto tra­balha com po­eira, sem ne­nhuma pre­tensão de de­sa­fiar o tempo.

Quando as pa­la­vras de um poeta nos tocam, esse acto em cons­trução, pri­mor­dial do ser, o poema é subs­tância e ar­gila. Pode moldar a nossa forma de en­tender e de ha­bitar o mundo e dar-nos cons­ci­ência do modo como o po­demos trans­formar. Eu­génio de An­drade é um desses raros po­etas. Por isso, con­nosco ca­minha. Para sempre.

Bi­bli­o­grafiaObras de Eu­génio de An­drade; Pre­fácio de Óscar Lopes para An­to­logia Breve – Inova, 1972; A Po­esia Por­tu­guesa nos Me­ados do Sé­culo XX, de Maria de Fá­tima Ma­rinho, Ca­minho, 1987; In­ci­sões Oblí­quas, de An­tónio Ramos Rosa, Ca­minho, 1987; Ci­fras do Tempo, de Óscar Lopes, Ca­minho, 1990.


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sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

Eugénio de Andrade ~ Poema à Mãe



* Eugénio de Andrade 


No mais fundo de ti, 
eu sei que traí, mãe 

Tudo porque já não sou
o retrato adormecido
no fundo dos teus olhos.

Tudo porque tu ignoras
que há leitos onde o frio não se demora
e noites rumorosas de águas matinais.

Por isso, às vezes, as palavras que te digo
são duras, mãe,
e o nosso amor é infeliz.

Tudo porque perdi as rosas brancas
que apertava junto ao coração
no retrato da moldura.

Se soubesses como ainda amo as rosas,
talvez não enchesses as horas de pesadelos.

Mas tu esqueceste muita coisa;
esqueceste que as minhas pernas cresceram,
que todo o meu corpo cresceu,
e até o meu coração
ficou enorme, mãe!

Olha — queres ouvir-me? —
às vezes ainda sou o menino
que adormeceu nos teus olhos;

ainda aperto contra o coração
rosas tão brancas
como as que tens na moldura;

ainda oiço a tua voz:
Era uma vez uma princesa
no meio de um laranjal...

Mas — tu sabes — a noite é enorme,
e todo o meu corpo cresceu.
Eu saí da moldura,
dei às aves os meus olhos a beber,

Não me esqueci de nada, mãe.
Guardo a tua voz dentro de mim.
E deixo-te as rosas.

Boa noite. Eu vou com as aves.

Eugénio de Andrade, in "Os Amantes Sem Dinheiro"

quarta-feira, 25 de abril de 2012

Eugénio d Andrade - O comum da terra (Vasco Gonçalves)



Victor Nogueira partilhou a foto de Os Resistentes.
Domingo
VASCO GONÇALVES

O COMUM DA TERRA


Nesses dias era sílaba a sílaba que chegavas.

Quem conheça o sul e a sua transparência

também sabe que no verão pelas veredas da cal

a crispação da sombra caminha devagar.


De tantas palavras que disseste algumas se perdiam

outras duram ainda, são lume, breve arado,

ceia de pobre, roupa remendada.


Habitavas a terra, o comum da terra, e a paixão

era morada e instrumento de alegria.


Esse eras tu: inclinação da água. Na margem

vento areias mastros lábios, tudo ardia.



Eugénio de Andrade

domingo, 22 de abril de 2012

Eugénio de Andrade - Urgentemente


Victor Nogueira partilhou a foto de Luísa Noronha.
Domingo
Urgentemente - EUGÉNIO DE ANDRADE

É urgente o amor.
É urgente um barco no mar.

É urgente destruir certas palavras,
ódio, solidão e crueldade,
alguns lamentos, muitas espadas.

É urgente inventar alegria,
multiplicar os beijos, as searas,
é urgente descobrir rosas e rios
e manhãs claras.

Cai o silêncio nos ombros e a luz
impura, até doer.
É urgente o amor, é urgente
permanecer.

sábado, 3 de dezembro de 2011

Pequeno sarau no inFaceLock




    • não seremos mais do que crianças tristes à beira do rio,

  • há 2 horas
    Victor Nogueira
    • espera­ ­

    • à moda do R R

  • há 2 horas
    Victor Nogueira
    • R.R.? descodifica­ ­

    • Ricardo Reis, anda sentar-te comigo, Lídia , à beira do rio


  • há 2 horas
    Victor Nogueira
    • Estava a procurar por ele­ ­

  • há 2 horas
    Victor Nogueira
    • Fernando Pessoa

      Vem sentar-te comigo, Lídia, à beira do rio.
      Sossegadamente fitemos o seu curso e aprendamos
      Que a vida passa, e não estamos de mãos enlaçadas.
      (Enlaçemos as mãos).

      Depois pensemos, crianças adultas, que a vida
      Passa e não fica, nada deixa e nunca regressa,
      Vai para um mar muito longe, para o pé do Fado,
      Mais longe que os deuses.

      Desenlacemos as mãos, porque não vale a pena cansarmo-nos.
      Quer gozemos, quer não gozemos, passamos como o rio.
      Mais vale saber passar silenciosamente.
      E sem desassossegos grandes.
      ­

    • esse mesmo!

  • há 2 horas
    Victor Nogueira

    • "Simplesmente nos vamos,
      sem mágoas nem sobressaltos,
      Numa tarde doce e triste
      sem que o coração estremeça
      e o gume da saudade nos fira
      Porque nunca dissemos palavras de amor. "
      .

      [Fernando Pessoa/Bernardo Soares - O Livro do Desassossego]

  • há 2 horas
    Victor Nogueira
    • As palavras que te envio são interditas

      As palavras que te envio são interditas
      até, meu amor, pelo halo das searas;
      se alguma regressasse, nem já reconhecia
      o teu nome nas suas curvas claras.

      Dói-me esta água, este ar que se respira,
      dói-me esta solidão de pedra escura,
      estas mãos nocturnas onde aperto
      os meus dias quebrados na cintura.

      E a noite cresce apaixonadamente.
      Nas suas margens nuas, desoladas,
      cada homem tem apenas para dar
      um horizonte de cidades bombardeadas.

      Eugénio de Andrade

  • há 2 horas
    Victor Nogueira
    • Os amantes sem dinheiro

      Tinham o rosto aberto a quem passava.
      Tinham lendas e mitos
      e frio no coração.
      Tinham jardins onde a lua passeava
      de mãos dadas com a água
      e um anjo de pedra por irmão.

      Tinham como toda a gente
      o milagre de cada dia
      escorrendo pelos telhados;
      e olhos de oiro
      onde ardiam
      os sonhos mais tresmalhados.

      Tinham fome e sede como os bichos,
      e silêncio
      à roda dos seus passos.
      Mas a cada gesto que faziam
      um pássaro nascia dos seus dedos
      e deslumbrado penetrava nos espaços.

      Eugénio de Andrade­ ­

    • Lindo

  • há 2 horas
    Victor Nogueira
    • Foi com o Eugénio de Andrade que a Noémia me iniciou e despertou para a poesia­ ­

    • Gosto muito dele, as palavras têm doçura, são leves ...sentidas

    • As palavras...


      São como cristal, as palavras.
      Algumas, um punhal,
      um incêndio.
      Outras, orvalho apenas.


      Secretas vêm, cheias de memória.
      Inseguras navegam:
      barcos ou beijos,
      as águas estremecem.


      Desamparadas, inocentes, leves.
      Tecidas são de luz e são a noite.
      E mesmo pálidas
      verdes paraísos lembram ainda.


      Quem as escuta?

      Quem as recolhe, assim,
      cruéis, desfeitas,
      nas suas conchas puras?

    • Foste?

  • há 2 horas
    Victor Nogueira
    • Não­ ­
    • estou aqui­ ­

    • ah, também já é hora de desligar...

  • há 2 horas
    Victor Nogueira
    • Eu vou com as aves ao teu encontro nos meus sonhos desassossegados [em ti procurando o sossego]





    • Doce Mistério da Vida - Fernando Pessoa
      .

      Minha vida que parece muito calma
      Tem segredos que eu não posso revelar
      Escondidos bem no fundo de minh'alma
      Não transparecem nem sequer em um olhar
      Vive sempre conversando à sós comigo
      Uma voz que eu escuto com fervor
      Escolheu meu coração pra seu abrigo
      E dele fez um roseiral em flor
      A ninguém revelarei o meu segredo
      Nem direi quem é o meu amor
  • **********

    Victor Nogueira
    .
     É preciso saber ler para além das palavras ou não recusar essa leitura. Lembro me dum poema do Alberto Caeiro, cuja humildade e simplicidade me atraem, humildade e simplicidade perante as pessoas e as coisas que talvez nunca sejam minhas. Levanto me e vou ali á estante buscá lo. Escolho o poema que trancreverei. Hesito na escolha. Será este!
     . 
     XLV - Um renque de árvores lá longe, lá para a encosta.  (MCG - 1972.07.14)
    .
    O "teu" Eugénio de Andrade tem poemas belos mas o António Reis, para mim, não lhe deve nada, embora seja um poeta algo desenganado: a vida que ele reflecte é um rosto sereno com rugas ao canto dos olhos sorridentes; às vezes duma bondade repousante, outras reflectindo um certo cansaço, um certo desengano. Existe amor - em certa medida tal como o entendes - na simplicidade dos seus "Poemas Quotidianos". Por isso gosto deles. (NSM - 1971.04.11)
     .
    Que dizes a esta poesia ("Impossível") cheirando a fins do séc.XIX [1] ? Parece me que o Cesário Verdepelos outros poemas, consegue retratar fielmente o ambiente da burguesia do seu tempo - que Eça de Queiroz retratou também, admiravelmente, nos seus romances. Mas Eça era satírico, mantinha se alheado daquilo que escrevia. Enquanto que o Cesário parece viver aquilo, não só o ridículo, o mau gosto (a meus olhos) duma certa maneira de sentir e de agir. Para além disto, as pessoas miseráveis, a cidade, o povo, aparecem e perpassam pelos seus versos, muitas vezes contrapostos aos delíquios e aos sentimentos da pequena (e abominável, ridícula) pequena burguesia - que aspira a ser aquilo que não é, a uma grandeza que não tem e para que não foi talhada, porque apenas vivendo de exterioridades e aparências, sem uma vivência autêntica. (MCG - 1973.06.28 B)
    .
    Disse-te um dia destes que relera com emoção um poeta que é o Eugénio de Andrade , de quem talvez tenha noutro tempo transcrito para ti alguns poemas. Dou comigo a relê-lo com uma certa tristeza. Porque afinal muitos dos poemas do Eugénio de Andrade expressam não a plenitude da alegria do amor alcançado mas a nostalgia do que se perdeu ou não alcançou. (MMA - 1993.09.25)
    .
    Também eu percorri muitas desses caminhos das palavras, porque sou do tempo em que o mundo virtual não fazia parte da nossa vida, utilizavamos sim a imaginação e projetavamo-nos nas histórias que liamos mais ou menos consoante o nosso estado de alma e as nossas experiências de vida. A prosa não é mais fácil nem mais difícil do que a poesia, apenas são registos diferentes, diferentes formas de utilizar os signos linguísticos. Aliás, hoje em dia escreve-se poesia em prosa e já Camões em "Os Lusíadas"- e outros antes dele, utilizava a poesia na narrativa dos feitos heróicos. A partir de certa altura a poesia aproxima-se do quotidiano e o poeta que faz essa viragem é precisamente o Cesário Verde, aquele que é tido pelo próprio Fernando Pessoa como percursor do modernismo.


    .
    Gosto muito dele, o poeta da cidade de Lisboa, "o camponês que andava na cidade como quem andava no campo"" e que morreu tísico aos 36 anos, salvo erro!

    há 9 horas ·  ·  2 
      • Carlos Rodrigues 
        Grandes leituras, li muitos desses. Estranho ai a falta, por exemplo, das Palavras do Sartre, dos Possessos e do Homem Revoltado de Camus e até do Castelo ou do Processo de Kafka, eram de leitura complementar quase " obrigatória" para um Sociólogo, mais ainda para um Político.E dos nossos acho que falta aí o Alves Redol. Mas gostei dos teus apontamentos Culturais. 

        .

        Não digas que não gostas de Poesia, nem da rima. Desta última há muitos que dizem que não gostam porque não a sabem fazer, dá muito mais trabalho. Eu gosto da Poesia livre, mas dependendo do momento, há alturas em que a Música é mais forte, cá dentro e, então me impõe ritmos e rimas e eu sou muito obediente a estas instruções da Anima. Outras vezes apetece-me desorganizar tudo, gerar o caos e vou por aí até que salte a tampa e um sentido qualquer não procurado. Depois fico danado comigo mesmo, porque poucos vão conseguir entender a criptologia e Poesia não entendida pelos outros ( raramente o é na sua totalidade ) acho que faz pouco sentido.

        .

        Dos não sei quantos heterónimos de Pessoa, escolheste, o Naturalista, Alberto Caeiro, também gosto, é tão simples que até chateia. Gostei. Obrigado e um Abraço.

        há 9 horas ·  ·  1


        • Carmen Montesino Grata pelos poemas! Bom fim de semana, Victor :)
          há 6 horas · 

        • Victor Nogueira Olá, Carmen Montesino ! Quais dos poemas ? 
          :-)*
          há 6 horas · 







    • [1] Impossível ( O  Livro de Cesário Verde)

Nós podemos viver alegremente,
Sem que venham com fórmulas legais,
Unir as nossas mãos, eternamente,
As mãos sacerdotais.


Eu posso ver os ombros teus desnudos,
Palpá-los, contemplar-lhes a brancura,
E até beijar teus olhos tão ramudos,
Cor de azeitona escura.


Eu posso, se quiser, cheio de manha,
Sondar, quando vestida, pra dar fé,
A tua camisinha de bretanha,
Ornada de crochet.


Posso sentir-te em fogo, escandescida,
De faces cor-de-rosa e vermelhão,
Junto a mim, com langor, entredormida,
Nas noites de verão.


Eu posso, com valor que nada teme,
Contigo preparar lautos festins,
E ajudar-te a fazer o leite-creme,
E os mélicos pudins.


Eu tudo posso dar-te, tudo, tudo,
Dar-te a vida, o calor, dar-te cognac,
Hinos de amor, vestidos de veludo,
E botas de duraque


E até posso com ar de rei, que o sou!
Dar-te cautelas brancas, minha rola,
Da grande loteria que passou,
Da boa, da espanhola,


Já vês, pois, que podemos viver juntos,
Nos mesmos aposentos confortáveis,
Comer dos mesmos bolos e presuntos,
E rir dos miseráveis.


Nós podemos, nós dois, por nossa sina,
Quando o Sol é mais rúbido e escarlate,
Beber na mesma chávena da China,
O nosso chocolate.


E podemos até, noites amadas!
Dormir juntos dum modo galhofeiro,
Com as nossas cabeças repousadas,
No mesmo travesseiro.


Posso ser teu amigo até à morte,
Sumamente amigo! Mas por lei,
Ligar a minha sorte à tua sorte,
Eu nunca poderei!


Eu posso amar-te como o Dante amou,
Seguir-te sempre como a luz ao raio,
Mas ir, contigo, à igreja, isso não vou,
Lá essa é que eu não caio!



Lisboa, 1874 



As palavras na poesia de Eugénio de Andrade

por Victor Nogueira a Quinta-feira, 17 de Março de 2011 às 23:16






  • Maria Jorgete Teixeira Adoro, Eugénio de Andrade e sei muito bem onde ele morava, ou o José fontinhas, passava por lá às vezes quando ia ao Porto. Costumava sentar-se em frente ao rio Douro, por detrás da janela, em tempo frio, com uma manta nos joelhos.
    17/3 às 23:36 · 



  • Todos os poemas de Eugénio de Andrade me comovem....me tovam profundamente.Obg. meu amigo do♥

    17/3 às 23:39 · 

  • Victor Nogueira O meu 1ª encontro com a poesia foi em Évora, em 1969, com uma amiga minha, a Noémia, através de Eugénio de Andrade. Até aí era um homem de alíneas e parágrafos e a partir daí comecei a escrever poesia, até 1990, quando voltei a ser o homem, desencantado e realista, das alíneas e parágrafos, sem metáforas !
    17/3 às 23:41 ·  ·  1


  • Maria Jorgete Teixeira É sempre altura de voltar às metáforas, porque a vida sem elas não faz sentido!
    17/3 às 23:43 ·  ·  1


  • Yolanda Botelho Agora emocionei-me.....adoro Eugénio de Andrade,sobretudo este último poema,obrigada meu esquerdista preferido.Bj
    17/3 às 23:46 · 

  • Victor Nogueira 
    ‎"Tinha uma carta já escrita, fluente na minha mente. Chegou a hora de escrevê‑la e ela ruiu, as palavras escorregaram por entre os dedos, em todas as direcções, e no papel nada fica senão uma pasta informe (...) Nunca liguei á poesia. Acha...Ver mais
    17/3 às 23:59 ·  ·  1

  • Victor Nogueira 
    ‎"O "teu" Eugénio de Andrade tem poemas belos mas o António Reis, para mim, não lhe deve nada, embora seja um poeta algo desenganado: a vida que ele reflecte é um rosto sereno com rugas ao canto dos olhos sorridentes; às vezes duma bondade...Ver mais
    18/3 às 0:01 · 

  • Victor Nogueira ‎"Disse-te um dia destes que relera com emoção um poeta que é o Eugénio de Andrade , de quem talvez tenha noutro tempo transcrito para ti alguns poemas. Dou comigo a relê-lo com uma certa tristeza. Porque afinal muitos dos poemas do Eugénio de Andrade expressam não a plenitude da alegria do amor alcançado mas a nostalgia do que se perdeu ou não alcançou." (MMA - 1993.09.25)
    18/3 às 0:03 ·  ·  2


  • 18/3 às 0:05 · 



  • Antonio Garrochinho está nos meus poetas prefereidos ! gosto imenso !
    18/3 às 0:16 · 



  • Orlanda De Castro Barros merci Paulo,esta lindo!
    18/3 às 7:42 · 


  • Orlanda De Castro Barros merci Vitor dai vem sempre do melhor,bom dia,bisu.
    18/3 às 7:43 · 


  • Cecilia Barata Obrigada Victor. E sempre bom reler Eugénio de Andrade, um dos poetas maiores da nossa literatura.Adoro nele a simplicidade, a transparência, a beleza das suas imagens, a escolha certeira das palavras...Um beijinho e um bom dia.
    18/3 às 10:51 · 


  • Francelina Oliveira Obrigado Victor, gosto muito.
    18/3 às 11:40 · 


http://www.facebook.com/note.php?note_id=10150112665429436
.


 (...)



Sesimbra - Foto VN

Pôr do Sol no Estuário do Sado - Foto VN
 ·  · 


    • Carmen Montesino Fico-te grata, Victor, por esta partilha!
      18/3 às 0:34 · 


    • Carmen Montesino Deste-me uma ideia com estas fotos, beijinho, querido amigo!
      18/3 às 0:35 · 

    • Victor Nogueira ‎:-)*
      18/3 às 0:35 · 


    • Antonio Garrochinho MARAVILHOSO ! EXCELENTE PUBLICAÇÃO !
      18/3 às 0:36 · 


    • Maria Jorgete Teixeira Obrigada, Victor, pelas fotos e pelos textos, que são eles mesmos uma prosa poética!
      18/3 às 0:39 · 



    • Obg. Victor...lindas fotos e o texto é belissimo.
      Beijinhos.Boa noite!!!

      18/3 às 1:02 · 


    • Lurdes Martins Já conhecia:-))))) 
      E gosto também muito dessa árvore só e inclinada...resistindo... vá-se lá saber porquê... E já sabes, gosto muito, mas mesmo muito de ti... e estou quase a chegar! 
      Abreijo!
      18/3 às 1:33 · 


    • Alice Coelho Eugenio de Andrade...é um poeta por excelencia...gosto muito!!! obrigado por me incluires nesta partilha bem compilada com fotos fantasticas... 
      bjs
      18/3 às 5:02 · 


    • Cecilia Barata Gostei imenso, Victor. Bem hajas por partilhares, meu amigo.
      Bom dia e um grande beijinho.
      18/3 às 11:04 · 


    • Ausenda Hilario Dir-te-ia que tudo isto é um poema! 
      abraço amigo
      21/3 às 22:19 ·