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quinta-feira, 21 de maio de 2026

Manuel Augusto Araújo - João Abel Manta, cronista de Abril


* Manuel Augusto Araújo

32 anos depois da Revolução de Abril, rever os «cartoons» de João Abel Manta, é reviver alguns dos momentos fortes que balizaram a história daquele tempo que se viveu em aceleração apaixonada, entre o 25 de Abril e o 25 de Novembro.

Se naquela altura radiografavam à velocidade do pensamento o que estava a acontecer, hoje são parte imprescindível da história da Revolução. Não perderem a ironia, feroz e subtil, com que João Abel Manta dissecava os sucessos desses dias traçando um mapa que nos continua a orientar pelas estradas vertiginosas do que ficou conhecido por PREC.

Eram comentários urgentes e acutilantes, feitos em cima do acontecimento e o que era e continua a ser espantoso, é nunca perderem o norte e acertarem sempre no alvo com uma precisão tão rigorosa que só é comparável à certeza cinematográfica dos golpes de kung-fu.

Em João Abel Manta a inteligência cortante, ancorada numa vasta e sempre actualizada cultura, distingue os seus «cartoons» desde os primeiros publicados na revista de Arquitectura aos que se seguiram no Al­ma­naque ou no suplemento literário do Diário de Lisboa ou nas ilustrações do «Di­nos­sauro Ex­ce­len­tís­simo», personagem que criou em parceria com José Cardoso Pires em que se retratava Salazar-o-Botas, parceria que continuou no «Burro em pé», uma peregrinação pelas comarcas de Portugal em demanda dessa personagem difusa mas muito popular por essas paragens.

Arquitecto de profissão (um dos melhores conjuntos arquitectónicos de Lisboa, os blocos na avenida Infante Santo, são projecto que realizou com Alberto Pessoa e Hernani Gandra), pintor e desenhador por vocação, cartonista por gozo pessoal e para nosso gozo, o traço mesmo quando é grosso é de um rigor deslumbrante e filia João Abel Manta entre os Bordalos, os Steinbergs, os Daumier ou os François, colocando-o como um dos melhores cartonistas de todos os tempos

É evidente que não é indiferente ao risco dos «cartoons» o saber adquirido enquanto desenhador e pintor onde evidencia um saber, um talento e uma originalidade que o destacam mesmo quando deliberadamente procura um academismo palpável, para se demarcar de uma pintura que só existe como arte pelo que se diz sobre ela.

A história contemporânea de arte portuguesa, ensarilhada nas contradanças dos mar­ke­tings mais diversos, não tem dado a devida atenção a este artista que ocupa um lugar destacado na pintura, no desenho, na ilustração, no cartoon, nas maquetas de cenários, na tapeçaria e na arquitectura. Raramente alguém verteu o seu talento invulgar por tão diversas áreas, realizando obras como, por exemplo, os cenários para Shakespeare, a tapeçaria que foi premiada e figura no salão nobre da Gulbenkian, as ilustrações da «Arte de Furtar», o desenho distinguido na II Exposição Gulbenkian ou o já referido bloco de habitações na avenida Infante Santo.

Já é tempo de se realizar uma retrospectiva de toda a sua obra.

Em Abril há que lembrar que a história de Portugal entre Junho de 1969 e Novembro de 1975 pode sofrer um terramoto, pode ser objecto das melhores ou das piores rescritas, mas existindo os «cartoons» de João Abel Manta, a nossa memória e a memória do país está garantida pelo registo e o selo branco de um dos nossos maiores artistas.

Olhar hoje para os «cartoons» de João Abel é reviver um tempo que alguns de nós vivemos exaltantemente, mas é igualmente descobrir como o seu fazedor coloca o cartonismo entre as artes maiores.

Avante nº 1602 - 2006 94 27

200https://www.avante.pt/pt/1691//13990

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O regresso dos cartoons de João Abel Manta

A Tinta da China re­e­dita, hoje, o livro com os «icó­nicos car­toons» (1969-1975) de João Abel Manta, um dos «me­lhores de­se­nha­dores e ilus­tra­dores por­tu­gueses» das úl­timas dé­cadas do sé­culo XX, que, desde cedo, re­velou a sua opo­sição à di­ta­dura fas­cista.

«Ao fim de 48 anos, esta é a pri­meira re­e­dição deste tí­tulo: levou, pois, quase tanto tempo a que estes de­se­nhos re­gres­sassem ao con­vívio dos lei­tores por­tu­gueses como o que durou o re­gime der­ru­bado pela Re­vo­lução de Abril de 1974. Fe­chados já os jor­nais para onde eles foram en­vi­ados, ama­re­le­cidos ou apo­dre­cidas as edi­ções onde foram im­pressos, es­que­cidos até al­guns dos mo­mentos ou per­so­na­gens neles re­pre­sen­tados, aqui os temos de novo, tão bri­lhantes e per­ti­nentes como quando saíram do es­ti­rador de João Abel Manta», des­creve a edi­tora, no texto de apre­sen­tação da obra.

Neste livro in­cluem-se car­toons an­te­ri­ores a 1975 que não cons­tavam da pri­meira edição e todos os pos­te­ri­ores a esse ano, com notas, da­tação ri­go­rosa, or­ga­ni­zação cro­no­ló­gica e uma in­tro­dução con­tex­tu­a­li­zada deste tra­balho.

Avante nº 2577 - 2023 04 20 

https://www.avante.pt/pt/2577//171296

terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

Manuel Augusto Araújo - BOA EDUCAÇÃO, MÁ EDUCAÇÃO

 

▪️Manuel Augusto Araújo

O alvoroço, o que os transtorna, é a eventualidade de verem sentado no Palácio de Belém um demagogo manipulador sem escrúpulos e sem os tiques de falsa erudição de Cotrim para mascarar as suas demagogias.

As eleições presidenciais, ultrapassada a primeira volta, com algumas notas que merecem referência, entre os candidatos do consenso neoliberal – como o classificou certeiramente António Filipe, ainda que esse consenso seja variável e tenha vários matizes –, a segunda volta entre um candidato pouco entusiasmante, coleccionador de banalidades atérmicas ditas consensuais e um outro que é um demagogo manipulador sem escrúpulos, provocou um sobressalto entre barões assinalados de vários quadrantes políticos, que porém não demoveu partidos políticos como o PSD, CDS, IL de se entricheirarem numa neutralidade entre os dois candidatos, apesar de um ser manifestamente contra a democracia como está inscrita na Constituição, no que é acolitado pela IL, com o objectivo indisfarçado de a rever para recuperar os três salazares, o estado de sítio do salazarismo-fascista actualizado aos ventos da história. 

Como vivemos um tempo dominado pelas máquinas mediáticas difundidas e controladas pelas oligarquias que favorecem as direitas, o seu avanço transnacional conquista cada vez mais espaço e relevância, por todo o mundo e por esta nossa periferia. Nesse ambiente, em linguagem modernaça nesse ecossistema, multiplicam-se os debates entre os candidatos mas o que mais se sobreleva são os comentadores que nas suas inúmeras chalras procuram um vencedor e um perdedor, em que a argumentação política de cada um dos intervenientes, muitas vezes intencionalmente condicionada a favor de um dos contendores pelos moderadores, é atirada para segundo plano, numa simulação de que se está a discutir política quando de facto o que se promove é a despolitização afundada no destaque concedido à capacidade argumentativa mesmo que utilize as mais evidentes mentiras, meias verdades, manipulações factuais, todo o arsenal sobretudo de políticos dispostos a os usarem sem pejo. A generalidade dos comentadores classifica as performances, não a validade dos argumentários, pelo que não espanta que em relação a André Ventura até se tenha ouvido elogiar a sua eficácia em fixar o seu eleitorado, mesmo angariar alguns nos terrenos da direita, ainda que tenha repetido sem um segundo de intervalo a mesma cassete bem ornada de falsificações, como é seu timbre.

A persistência desta situação amplifica-se com uma inusitada surgência de politólogos, cientistas (?) políticos, investigadores (?) de comunicação política e afins que florescem entre as hordas dos encartados, há sempre um a cada esquina. Uma dessas personagens consegue entrever, no último debate entre os dois candidatos frente a frente na segunda volta «que não houve neste debate nenhuma posição que seja insanável em termos de convívio futuro (…) provavelmente, estas duas figuras vão encontrar-se no futuro e trabalhar juntas mas em circunstâncias diferentes – e, muito provavelmente, com Seguro como Presidente da República e talvez ainda com Ventura como primeiro-ministro. De facto, vemos que há essa noção ali implícita». De facto o confronto foi temperado, até por via dos hibernados moderadores, mas apesar da baixa temperatura e do mal-estar da democracia que está a degenerar, que se está a auto-corroer pelos vírus fascistas, pelos autoritarismos que saem debaixo dos tapetes, que entram pelas suas frinchas, o que para esta não sei quê politóloga configura uma normalidade futura, ainda que não seja expectável no imediato que o Chega alcance uma maioria, ou uma maioria numa qualquer espúria coligação, que coloque André Ventura em primeiro-ministro.

A banalização dos tiques fascizantes do Chega, também até mais da IL, essa pela via das etiquetas de boas maneiras e tiques corporativos, transparece como uma evidência nos copiosos grupos de falantes com acento fixo ou variável nos meios de comunicação social, em que uma boa parte são professores(as) universitários(as) com vários doutoramentos e pós-graduações, como actualmente é costumeiro e vezeiro nas misérias académicas, sobretudo nas áreas das ciências humanas, que proliferam nas universidades por todo o mundo e arredores onde nos situamos, em que é dominante a esterilidade do pensamento político reduzido a uma quase paródia, como tem sido exposto pelo que subsiste de pensadores sólidos da elite democrática e progressista como Georges Steiner, Noam Chomsky, Russell Jacoby, Edward Bernays, Domenico Losurdo, Edward W. Said, Sheldon S. Wolin, Zachary Karabell, Chris Hedge, Julien Benda ou István Mészaros.1

«A generalidade dos comentadores classifica as performances, não a validade dos argumentários, pelo que não espanta que em relação a André Ventura até se tenha ouvido elogiar a sua eficácia em fixar o seu eleitorado, mesmo angariar alguns nos terrenos da direita, ainda que tenha repetido sem um segundo de intervalo a mesma cassete bem ornada de falsificações, como é seu timbre.»

Outra das reacções a uma segunda volta das presidenciais entre António José Seguro e André Ventura, foi a da rejeição do segundo, com até declarado apoio ao primeiro, por muitos independentes mas também, como já se referiu, por muitos dos barões assinalados dos partidos que declararam neutralidade. Houve quem embandeirasse em arco e muito fogo de artifício, afirmando mesmo um habitual escriba de um jornal dito de referência, queira o que queira isso dizer ou não, que também é presença assídua nos ecrãs televisivos onde tartamudeia lugares comuns como se fossem detalhadas cerebralizações, proclamando que chegamos ao tempo em que a direita deixou de ser «fascista», acrescentando quase orgasticamente que «a direita democrática, ou a área "não-socialista", dá uma bofetada com luva branca à esquerda panfletária que a continua a olhar como "fascista". Quando, e se, a qualidade da democracia voltar a estar em causa, sabemos que há portugueses de bem a dar a cara para os defender». É a leitura mais mediocremente simplista em que subjaz uma básica conjectura direitolas.

O que será a «esquerda panfletária»? Não devemos errar muito, pelo andar da carruagem da figura, que, sem muita coragem para o nomear, se esteja a referir ao PCP, o qual chama fascista ao que é fascista, reaccionário ao que é reaccionário, direita ao que é direita, extrema-direita ao que é extrema-direita, não se deixa enrodilhar no linguajar pós-moderno dos populismos, das democracias iliberais, mas sempre soube e assim o demonstrou ao longo da sua longa história de luta pela democracia e pelas amplas liberdades, distinguir mesmo entre os reaccionários e os de direita não os metendo indistintamente no mesmo saco. O que ele não entende – é o problema da escassez das tão celebradas por Poirot celulazinhas cinzentas –, porque atesta de forma parvóide a morte do fascismo. Escasseia-lhe entendimento para perceber os avisos de Umberto Eco que explicava que o fascismo não é um sistema fechado, é um fenómeno psicológico e cultural — o «Ur-Fascismo» – que pode ressurgir sob novas roupagens, mesmo em tempos de democracia, e que quando voltar  fascismo não dirá «eu sou o fascismo», dirá «eu sou a liberdade». Tal como não ouviu um personagem do filme de João César Monteiro, Le Bassin de John Wayne, 1997, com uma frase premonitória, de uma implacável lucidez: «hoje, os novos fascistas apresentam-se como democratas».

Os neo-fascistas dispensam os desfiles militarizados dos camisas negras, castanhas, azuis, verdes, mesmo quando exibem motoserras não tiram as gravatas, dispensam o arregaçar as mangas, mantêm intactos os seus sinistros objectivos, a tipologia dos seus financiadores destacados capitalistas, muitos deles com negócios obscuros, alguns sob a alçada da justiça, apesar de bem se saber que o direito é sempre o direito dos mais fortes à liberdade. Na praça pública, em que a comunicação social cada vez mais nas mãos das oligarquias lhes concede excessivo tempo de antena, continuam seguidores das principais palavras de ordem dos fascismos históricos, reactivadas, assimiladas e actualizadas pelas exigências e modas contemporâneas, com variantes em conformidade com a sua inserção territorial, de que é exemplo a generalizada islamofobia ser ou não associada ao ódio aos ciganos.

A difusão do neofascismo, mais puro e duro ou mais difuso, está a marcar o nosso tempo e com ele a alargar a imparável mancha de óleo do filisteísmo, do farisaísmo, das banalidades estereotipadas e quotidianas, das falsas notícias instituídas como norma, a mais completa submissão aos poderes que se dizem querer subverter, com o truque de se apresentarem como anti-sistema, quando são os mais radicais defensores do sistema para que este se torne ainda mais presente e activo em atendimento das especulações do grande capital. Sistema mais ou menos brutal conforme as circunstâncias. Decretar a morte do fascismo é cegar-se voluntariamente, na realidade é pago para isso, perante a desmesurada presença do gauleiter do Chega na comunicação social escrita, televisiva, radiofónica, para sustentar a sua tese de que «o que está em jogo, nisso têm razão os apologistas de Ventura, não é uma ameaça do fascismo (...) Nada em André Ventura ou no Chega se conjuga para impor um programa totalitário com milícias de camisa negra ou castanha a marchar no compasso das coreografia marciais. No que não têm razão é negarem que André Ventura e o seu programa são apenas uma manifestação normal da democracia». Aqui entronca uma questão de fundo que é perante o risco de Ventura se eleger Presidente da República concluir que «a direita democrática esteve à altura das suas responsabilidades num momento crítico da democracia.» Mais uma simplificação, em boa verdade não se lhe pode exigir mais. O momento é crítico para a democracia tal como António Guerreiro, numa das suas crónicas no Ypsilon, sublinhou: « o que já está a acontecer com a democracia: a pós-democracia já começa a ser um conceito pouco útil e já há quem coloque a hipótese da “des-democracia” (devemo-la às análises da autoria da norte-americana Wendy Brown, professora de Ciência Política na Universidade da Califórnia).

A desdemocracia já se manifesta de outra maneira que não é a de um mal-estar da democracia: não é um mal infligido por causas exteriores, mas uma doença interna que decorre do seu desenvolvimento interior. A ascensão de sentimentos fascistas e o desejo autoritário, isto é, de uma ordem governada por uma personalidade autoritária (fazendo coincidir a política com uma psicologia), configuram uma desdemocracia em curso, uma democracia que se está a desfazer a partir do seu interior, num processo de degenerescência que faz nascer o desejo autoritário». Quando por cá se permite a construção de um partido que é declaradamente contra a Constituição, que reiteradamente não cumpre decisões do Tribunal Constitucional, há que questionar este súbito despertar democrático.

«Na praça pública, em que a comunicação social cada vez mais nas mãos das oligarquias lhes concede excessivo tempo de antena, continuam seguidores das principais palavras de ordem dos fascismos históricos, reactivadas, assimiladas e actualizadas pelas exigências e modas contemporâneas, com variantes em conformidade com a sua inserção territorial, de que é exemplo a generalizada islamofobia ser ou não associada ao ódio aos ciganos.»

Coloque-se uma hipótese: se em vez de André Ventura o adversário de António José Seguro fosse Cotrim Figueiredo, o repúdio desses barões assinalados seria o mesmo? No entanto tanto Ventura como Cotrim pugnam por uma profunda revisão constitucional, chegaram mesmo a propor um pacto com esse objectivo, que aplainasse a democracia tal como está instituída, preconizando formas mais autoritárias. Ambos são favoráveis à privatização do que ainda resta por privatizar e nisso Cotrim até é mais vocal. Os direitos sociais, económicos e políticos são para Ventura esmurrar e Cotrim motoserrar. Cotrim poderia eventualmente ter contra ele um alegado e não provado caso de assédio sexual, que no Portugal coutada do macho ibérico, como um ilustre juiz despachou num julgamento de violação de duas jovens estrangeiras que estavam a pedi-las, qualquer mulher só por ser mulher está sempre a pedi-las, não lhe deveria desgastar substancialmente os apoios. Se fosse Cotrim em vez de Ventura haveria algum similar sobressalto democrático? Cotrim que, não passando à segunda volta, também não se demarcou de extrema-direita, preferindo avisar sobre os riscos de se ter um presumível perigoso socialista em Belém. 

O alvoroço, o que os transtorna, é a eventualidade de verem sentado no Palácio de Belém um demagogo manipulador sem escrúpulos e sem os tiques de falsa erudição de Cotrim para mascarar as suas demagogias. O que os perturba e assusta é a eventualidade de, num jantar num qualquer Palácio da Ajuda, abancar um Presidente da República que se desbrague em discursos carregados de impropérios, que confunda os talheres de carne com os de peixe, não distinga copos de vinho tinto dos de vinho branco, que no limite até limpe os beiços com a gravata. Por detrás do pano de fundo deste vasto bater de tambores, da direita à esquerda, com declarados apoios a Seguro, os partidos políticos em que se inscrevem o façam entricheirando-se numa neutralidade oportunista, não vá o diabo tecê-las e muitas dessas tessituras até se encontram.

Uma última e muito reveladora observação é o silêncio desses partidos e personalidades sobre a Operação Irmandade da PJ que investigou o grupo neo-nazi 1143, a qual não lhes provocou grande indignação pública, tal como nem timidamente invectivaram o candidato presidencial Ventura que acaba por considerar essa bandidagem seus eleitores, apoiantes, mesmo companheiros de estrada, como foi evidente na sua última entrevista na RTP. O que se poderá concluir? É que o muito festejado e celebrado consenso entre direitas e esquerdas em torno da escolha que está em causa está muito mais ancorado entre a má educação de um candidato e a boa educação do outro do que na defesa da democracia tal como a vivemos, com todos os défices acumulados em anos de governos PS, PSD, CDS. Um candidato à direita, com os mesmos princípios e objectivos, mas mais palatável que Ventura, não produziria esta sucessão de declarações, o que de algum modo implode a pulsão democrática que tanto excita essa turbamulta de comentadores e jornalistas. Há que enfatizar que, depois de anos e anos a perorar sobre o desaparecimento de direitas e esquerdas, agora lembram-se que essa diferenciação sempre existe e está para durar, a que se adicionam todos os outros que, quando declaram não ser de direita nem esquerda, são obviamente de direita.

Merece ainda destaque as intranquilidades dos intelectuais orgânicos na hipótese de André Ventura ter o apoio de um em cada quatro portugueses depois de se ter comemorado os 50 anos do 25 de Abril, interrogando-se mesmo onde é que se terá falhado! Não sabem? Há muito para lembrar-lhes, sem colocar qualquer dúvida sobre o seu empenho democrático, principalmente porque nestes 50 anos ocuparam lugares importantes nas instituições democráticas e foram dos que mais presença assídua tiveram nos meios de comunicação social. É bom auxiliarmos a sua memória. 

▪️1.Refiram-se, entre outros, Russell Jacoby, The Last Intellectuals: American Culture in the Age of Academe, Basic Books, 1987; Edward Bernays, Propaganda, Comment Manipuler l'Opinion en Democratie, La Découverte, 2007; Zachary Karabell, What's College For? The Strugle to Define the American Higher Education, Basic Books, 1998; Edward W. Said, Des Intellectuels et du Pouvoir, Seuil, 1996; Noam Chomsky, Mudar o Mundo, Bertrand, 2014; Domenico Losurdo, Critique de l’apolitisme. La leçon de Hegel d’hier à nos jours, Delga 2014; Frank Furedi, Where are the Intellectuals Gone? Cofronting 21th century Philistinism, Continuum, 2004; Sheldon S. Wolin, Democracy Incorporated: Managed Democracy and the Specter of Inverted Totalitarianism, Princeton University Press, 2008; István Mészáros, A teoria da alienação em Marx, Boitempo, 2016, Chis Hedges, La Mort de l'Élite Progressiste, Lux Futur Proche, 2012.

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«Golconda», de Rene Magritte, 1953Créditos/ The Menil Collection, Houston

03 de Fevereiro de 2026

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quarta-feira, 9 de novembro de 2022

Manuel Augusto Araújo - A miséria da informação

 * Manuel Augusto Araújo
9 DE NOVEMBRO DE 2022

Um dos temas ultimamente em destaque são as eleições intercalares nos EUA, como se todo o mundo e ninguém estivesse dependente do seu resultado e como se fosse substancialmente decisivo os democratas suplantarem os republicanos ou vice-versa.

A comunicação social, a tradicional e a veiculada pelas redes sociais, é uma cloaca a céu aberto onde os poderes dominantes escoam a propaganda para condicionar a opinião pública. Quotidianamente alinham-se exemplos, tanto dos sucessos nacionais como internacionais, para não haver fissuras nem incertezas. Um dos temas ultimamente em destaque são as eleições intercalares nos EUA, como se todo o mundo e ninguém estivesse dependente do seu resultado e como se fosse substancialmente decisivo os democratas suplantarem os republicanos ou vice-versa, nunca se referindo que tanto uns como outros obedecem aos interesses conjunturais dos poderosos poderes económicos do complexo militar, financeiro e tecnológico que são quem de facto determina os vencedores.

Teresa de Sousa, uma das mais assanhadas jornalistas porta-voz em Portugal da «democracia» coca-cola do «mercado livre», anda a escrevinhar uns Diários de Houston no Público em que relata alguns episódios das lutas eleitorais em curso nos EUA, como se fossem cruciais para alterar o que é essencial e imutável nas políticas económicas neoliberais do «mercado livre», o tal em que as empresas podem cobrar o quiserem porque o governo se exonera de regular o que quer que seja.

«Qual a “magia” de Obama? A mesma com que obteve um prémio Nobel da Paz, para depois bombardear quatro vezes mais países que Bush Filho, o que invadiu o Iraque, e lançar seis vezes mais bombas.»

Claro que não tem uma palavra sobre o «mercado livre» daquela «democracia» que põe em prática uma política económica de que os trabalhadores são excluídos, em que os seus direitos conquistados em anos de duras lutas se degradam cada vez mais. «Mercado livre» em que o governo se demite de intervir na economia, que desmantelou a regulamentação anti-monopólios e em que quem domina e traça os planos económicos é Wall Street, favorecendo os financeirizados grandes monopólios. Utilize-se como exemplo um desses textos em que escreve uma diatribe em louvor de Obama, que, segundo ela, entrou na campanha eleitoral em curso nos EUA para «exercer a sua magia» usando «as suas qualidades de oratória intactas». Qual a «magia» de Obama? A mesma com que obteve um prémio Nobel da Paz, para depois bombardear quatro vezes mais países que Bush Filho, o que invadiu o Iraque, e lançar seis vezes mais bombas.

A «magia» de Obama, que, com as suas «qualidades de retórica intactas», prometeu antes de ser eleito aumentar o salário mínimo e apoiar a sindicalização. Assim que se sentou na cadeira do poder, rapidamente anunciou que a única coisa que não podia fazer era aumentar o salário mínimo e que estimular a sindicalização era um mal para o «mercado livre» porque sindicalizar o trabalho iria incentivar os trabalhadores a reivindicarem melhores condições de trabalho e melhores salários. A «magia» da retórica de Obama focou-se em agradecer e apoiar os seus doadores, amplamente maioritários em Wall Street, quando a economia dos EUA já era sobretudo de capital fictício. Não perdeu tempo a reunir-se com os banqueiros de Wall Street para lhes garantir que não se deviam preocupar com os eleitores das classes desfavorecidas que nele tinham votado. Ele, Obama, estava ali para os meter na ordem. Ele, Obama, estava de caneta em punho na Sala Oval da Casa Branca para que a Reserva Federal germinasse a maior quantidade de crédito da história da humanidade, tudo a correr para os bolsos de uma minoria muito minoritária da população. Nada para a economia, nada para os salários, tudo para manter bem altos os valores dos títulos-lixo, tão altos que não pudessem cair e para que se gerasse o maior boom obrigacionista da história. Ele, o democrata Obama igual aos republicanos Bush, pai e filho, continuava a obra do democrata Clinton, que desarmou a lei anti-trusts de Sherman, 1890, e Clayton, 1914, que foram assertivamente postas em prática por Roosevelt para combater a Grande Depressão.

«Não espanta, nem causa alguma admiração que nesta «democracia» de combates wrestling entre dois partidos, nos tempos actuais o Partido Democrata esteja, em políticas económicas e financeiras, à direita do Partido Republicano. Lá chegará o dia em que o Partido Republicano volte a estar à direita do Partido Democrata, tudo depende dos interesses económicos que lhes dão apoio variável.»

São esses dignos representantes da política sempre a favorecer o grande capital que esta escrevente aplaude a quatro mãos. É uma recruta da tropa peralvilha que subverteu o jornalismo da chamada comunidade internacional, onde se acoitam os antigos impérios coloniais, o actual império dos EUA e mais uns quantos colonizados que ainda não se libertaram dessas tutelas, para o transformarem numa farsa de propaganda ao serviço do imperialismo neoliberal.

Agora estão do lado dos democratas, de Biden e restante trupe onde também têm lugar destacados neocons republicanos, que continuam essas políticas económicas e financeiras que, até mais que as políticas pró-empresariais e pró-financeiras dos republicanos – ainda que polvilhadas com os perigosos arroubos proto-fascistas de Trump e seguidores –, estão a desmantelar todo um legado de protecção da economia, legado anti-monopolista e de contenção dos impactos da financeirização, posto em prática nos anos de New Deal. Não espanta, nem causa alguma admiração que nesta «democracia» de combates wrestling entre dois partidos, nos tempos actuais o Partido Democrata esteja, em políticas económicas e financeiras, à direita do Partido Republicano. Lá chegará o dia em que o Partido Republicano volte a estar à direita do Partido Democrata, tudo depende dos interesses económicos que lhes dão apoio variável. A cartilha das guerras, golpes de Estado, revoltas coloridas e outras técnicas de destabilizar é igualmente lida pelos dois partidos, são parte integrante de um arsenal explanado em 1992 no Defense Planning Guidance do neocon Paul Wolfowitz, documento em que se estabelece uma nova estratégia dos EUA após a desagregação da União Soviética, que tem sido aplicado, retocado e melhorado pelos seus seguidores republicanos e democratas, durante todos estes anos, e que é a raiz da doutrina de uma «nova ordem mundial sustentada e comandada pelos EUA» enquanto única superpotência que se predispõe a fazer alianças conjunturais conforme os conflitos, para que a sua hegemonia não seja posta em causa, pelo que deve contrariar e bloquear qualquer eventual competidor, nomeadamente «as nações industriais desenvolvidas». A União Europeia, particularmente a Alemanha, o seu motor, e o Japão que se cuidem! Aliás, a UE é singularmente referida: «ainda que os Estados Unidos apoiem o projecto de integração europeia, devemos estar atentos e prevenir a emergência de um sistema de segurança puramente europeu que mine a NATO e a sua estrutura de comando militar».

«É notável o autismo que conduz a UE, por arrasto toda a Europa, para a irrelevância económica, já que a política balança entre a subserviência indisfarçável e fracos arremedos logo metidos na ordem, para tudo desaguar na obediência servil aos ditames dos que estão dispostos a tudo para impedir qualquer alteração ao ordenamento neoliberal»

Para lá dos sucessos de muitas batalhas, a guerra em curso em que a Ucrânia é palco é bem ilustrativa desse desígnio. É o palco de uma guerra entre os EUA/NATO e a Rússia, em que os EUA defendem a ordem unipolar que impuseram depois da queda do Muro de Berlim e que aproveitam para enfraquecer mais rapidamente a Europa e a sua «nação industrial mais desenvolvida», pondo-a bem atrelada a reboque dos seus interesses. Os autocratas da EU, destaque para Ursula von der Leyen, Josep Borrell e Charles Michel, governantes de muitos países, realce para a fiel aliada Grã-Bretanha, Polónia e estados bálticos, são as suas destacadas marionetas. É  notável o autismo que conduz a UE, por arrasto toda a Europa, para a irrelevância económica, já que a política balança entre a subserviência indisfarçável e fracos arremedos logo metidos na ordem, para tudo desaguar na obediência servil aos ditames dos que estão dispostos a tudo para impedir qualquer alteração ao ordenamento neoliberal, sempre defendido com a faca nos dentes de uma política de guerra, como se tem estado a assistir desde há dezenas de anos e que agora subiu um patamar na guerra dos EUA/NATO por procuração na Ucrânia.

Um dos pilares deste estado de sítio é uma poderosa máquina de desinformação e propaganda que se apoderou praticamente da totalidade dos meios de informação na chamada comunidade internacional, rebuçada de independente, que, tal como as redes sociais, é propriedade de plutocratas internacionais e nacionais onde ecoam, com maior ou menor relevância, as notícias que, directa ou indirectamente, antecipam, justificam e sustentam as manobras do império, das mais brutais às mais brandas, das mais agressivas às mais diplomáticas. Esses exércitos de mercenários mascarados de jornalistas são os alcoviteiros de um universo dominado e controlado pelo 1% da humanidade que detém poder económico e financeiro igual aos outros 75%. Com esta desigualdade, a democracia é uma impossibilidade, por maiores que sejam os contorcionismos com que lantejoulam a liberdade, as liberdades. Nada é mais desigual que a igualdade entre desiguais e essa dura realidade é escamoteada pelo terrorismo informativo de que somos alvo. É uma campanha tóxica sistemática e diária promovida pelas oligarquias que controlam o universo através dos seus serventuários.

«Com esta desigualdade, a democracia é uma impossibilidade, por maiores que sejam os contorcionismos com que lantejoulam a liberdade, as liberdades. Nada é mais desigual que a igualdade entre desiguais e essa dura realidade é escamoteada pelo terrorismo informativo de que somos alvo.»

O desnudar desse estado de sítio tem sido feito por vários intelectuais e académicos, sendo justo destacar Noam Chomsky1, que colocam em causa as razões políticas e culturais dessa espiral crescente de desinformação e manipulação que corrói mesmo a esquerda, como ele denuncia: «Não me interessa escrever sobre a Fox News. É muito fácil. Prefiro falar dos intelectuais progressistas que se autodenominam corajosos que pretendem (ou acreditam) criticar o poder, defender a verdade e a justiça. São os guardiões da fé. Fixam os seus limites. Determinam até onde podem ir. Repetem “vejam como sou corajoso!” mas ninguém pode ultrapassar por um milímetro que seja o que dizem. Os mais instruídos entre eles são os mais implacáveis defensores do sistema.»

Um dos grandes trunfos dos oligarcas e dos plutocratas ao seu serviço é terem conseguido que mesmo as elites progressistas tenham entrado para os círculos do poder, deixando à porta quaisquer imperativos morais, como Edward Said denunciou2: «A meus olhos nada é mais repreensível que esta disposição de fugir, esta deserção tão característica de uma posição de difícil princípio que se pensa pertinentemente justa. Este medo de parecer muito político e reivindicativo, esta necessidade de se ser aprovado por quem detém o poder; este desejo de manter uma reputação de objectividade e de moderação com a esperança de ser solicitado, consultado e de se sentar num qualquer prestigioso comité, com o objectivo de se manter no meio das correntes dominantes e de receber em troca uns favores, um diploma, uma espórtula, uma embaixada.» Este é por excelência o modo corruptor dominante que neutraliza, desarma, mata qualquer vida intelectual, torna-se uma prática normalizada que é veiculada diariamente pela comunicação social estipendiada, seus funcionários e comentadores contratados. As excepções, sempre à beira do abismo, são cada vez mais raras.


Para as classes dominantes, para a economia neoliberal, para as multinacionais e fundos abutres a democracia é um eufemismo e a difusão intensiva das suas regras uma urgência que têm com bastante sucesso posto em prática.

1.Leia-se Noam Chomsky, Propaganda e Opinião Pública, Campo da Comunicação, 2002; A Manipulação dos Media, Inquérito, 2003; Mídia, Propaganda Política e Manipulação, Martins Fontes, 2021.

2.Edward Said, Des Intellectuels et du Pouvoir, Seuil, 1996, p. 116-117.
(publicado em AbrilAbril AbrilAbril | O outro lado das notícias em 9/11)

https://pracadobocage.wordpress.com/2022/11/09/a-miseria-da-informacao/

quarta-feira, 25 de novembro de 2020

Manuel Augusto Araújo - Pode a Esquerda renunciar à Cultura?

* Manuel Augusto Araujo
2020.11.25

Quando já nada me indignar (e só então) terei começado a envelhecer – André Gide

O meu amigo António Cabrita, a quem enviei a carta de despedida aos meus colegas da Câmara Municipal de Setúbal, fez o favor de a publicar na Revista Caliban antecedendo-a de um texto muito incisivo, como é seu timbre.

Ilustrou-a com a imagem dos Paços do Concelho de Setúbal em que está impressa mais uma brutalidade de iniciativa da Dores Meira. Além da tinta utilizada ser completamente inadequada a um edifício de qualquer centro histórico, a cor deve fazer o Raul Lino, autor do projecto, dar voltas no túmulo. Um dia alguém com um mínimo de cultura e bom senso terá que as corrigir. Agora mais uma selvajaria feita na Casa da Cultura e a proclamação de Setúbal Cidade Taurina, que remendos mal colados apressadamente não disfarçam

. São mais algumas das muitas iniquidades a acrescentar ao catálogo do Bestiário dessa prepotente e ignorante personagem.

Dores Meira é uma populista suburbana, uma pequeno-burguesa alumiada por deslumbramentos com rascas tiques dondocas. Os seus grandes desvios de direita são contumazes. Vão da concordância com algumas medidas dos governos do PS e até do PSD-CDS, em dissidência com as posições do PCP, cedências a grandes empresas sediadas em Setúbal travadas à beira do precipício, conflitos constantes com as estruturas sindicais alinhando com políticas reaccionárias, um comportamento na autarquia reiteradamente pidesco de que até faz gala, o público e repetido apoio a personagens como Tomás Correia nas eleições e assembleias do Montepio, são algumas dessas evidências. Na Câmara de Setúbal o que de bom foi e é feito deve-se sobretudo ao trabalho de outros de que ela arrecada os louros. O que de bom há de arte pública em Setúbal nenhuma é de iniciativa dela e do seu adorado decorador.

A Dores Meira é uma fraude, um embuste bem emplumado. Reconheça-se que o que lhe falta em inteligência, cultura e saberes sobra-lhe em esperteza e neste mundo sem dignidade os chicos-espertos são os que melhor caminho fazem. O seu fundo ideológico é o que colhe nas peregrinações a Fátima alumbrada com os pastorinhos, as aparições, os milagres, as revelações. Sobre esta personagem, o seu perfil, atitudes e decisões é muito o que se atira para debaixo do tapete por oportunismo político em concessão aos resultados que obtém por um desbragado populismo sempre num dá cá o pé toma lá o pé vicioso. Isto acaba sempre por ter um custo, já conhecido com outros personagens e em diversas circunstâncias que, mais tarde ou mais cedo de um ou de outro modo, se irá pagar

 

Quem ignora efectivamente que os lobos andam em alcateia, perguntava Deleuze, e a inquietação não nos deve largar o pé, porque não é incomum que os lobos se queiram dissimular de cães nossos amigos.

Infelizmente, no reino da Esquerda aflora como noutros quadrantes o pior dos cinismos. Tempos houve em que ser de Esquerda implicava uma moral e uma cultura, mas os piores vícios institucionais infiltraram os partidos e vemos como o mau exemplo de uma “política da indiferença” contagiou a acção política. Aí avançam os medíocres, e com eles apodrecem os ideais.

Quando abandonamos qualquer pauta para os valores na cultura e a exigência da dignidade no alvor das novas sensibilidades e seguimos a estratégia de esvaziamento do mercado, é de admirar que gradualmente a Esquerda perca votos?

Como achar que é aceitável, por exemplo, que em Setúbal, na Praça José Afonso, um partido de Esquerda acolha em época eleitoral o espectáculo de um cantor kitsch como o Toy? Não faz doer a alma, uma tão grande rendição à venalidade mais inconsciente? É um exemplo do desnorte que chegou às Câmaras e das más escolhas dos Partidos nos seus cabeças-de-listas, esses novos cínicos que “sabem sempre do que povo gosta”.

É de Calvino, um líder religioso muito antigo, a seguinte observação: «os governantes de um povo devem envidar todo o esforço a fim de que a liberdade do povo pelo qual são responsáveis não desvaneça de modo algum em suas mãos. Mais do que isso: quando dela descuidarem, ou a enfraquecerem, devem ser considerados traidores da pátria.» A bondade deste postulado não deve ser encarado como ingénuo e é exigível que seja reivindicado como fundamento. Se associarmos este pronunciamento às políticas culturais de tantas câmaras ligadas a partidos de Esquerda ficamos deprimidos com a facilidade com que afinal também se acostam a derivas populistas e como isso encurta a dignidade, o primeiro plinto para a consciência livre.

Não há ressalvas para aqueles que se abandonam à oportunidade e fazem do populismo o cerne do seu poder — sejam de Direita ou de Esquerda. Quem nadifica nadificado fica.

Há coisas irrenunciáveis no projecto de Esquerda e uma das mais perenes é a reconstrução da justiça por meio da qualidade da cultura que se promove e cultiva — são cegos aqueles líderes camarários que se entregam cegamente à facilidade e aos baixos ditames do mercado, em nome de uma ignorância que o actual momento político já não consente.

É preciso fazer a crítica e a rectificação dos modelos.

O que aconteceu na Câmara de Setúbal nos últimos anos, como nos mostra o retrato pungente e pouco menos que indignado que dela faz Manuel Augusto Araújo é um bom exemplo dos maus exemplos em que a Esquerda se deixa encurralar.

Mas deixemos que esta Carta de Despedida com que Manuel Augusto Araújo reagiu à sua dispensa da vereação cultural da Câmara fale por si. Leiam-na.

António Cabrita



e o exigente espírito de Bocage continua a ser traído

UMA BREVE CARTA PARA UM LONGO ADEUS

Caros colegas, amigos e camaradas

A presidente da Câmara de Setúbal , Dores Meira, e o vereador da Cultura, Pedro Pina, decidiram que sou um excedentário e que a autarquia dispensa a existência de um assessor cultural por, segundo eles, ser desnecessário. Julgo que com todos trabalhei bem e de muitos com quem trabalhei fiquei amigo. Obrigado a todos. O mesmo não poderei dizer de quem ocupa os mais altos cargos executivos relacionados com a cultura.

Durante estes anos tenho a consciência de ter cumprido com o que me foi possível, dado o contexto existente. A maioria dos projectos que delineei não conseguiram ultrapassar a espessura óssea que protege a noz de massa cinzenta encerrada naquelas cabeças dos mandantes em Setúbal. Alguns realizaram-se com êxito. Outros ainda, como no ano passado o Festival de Poesia “O Som Da Tinta”, de que com a Maria João Cantinho elaborei o programa a quem muito agradeço a colaboração, e o assinalar dos 150 anos da Abolição da Escravatura no território sob administração portuguesa, foram roídos até não ficar quase nada, mau grado o empenhamento da Mónica Duarte e da Teresa Neto, que salvaram o que era possível salvar, que foi muito pouco, enquanto outros, como um Encontro Nacional sobre Cultura, nem sequer foram considerados. Os propostos para 2020, recuperando alguns adiados, outros erodidos e um de grande exigência e que tinha a ambição de ter impacto nacional, foram detalhados e enviados para avaliação. Devem ter caído da corda bamba do funambulismo cultural.

Do que consegui fazer — o rol apesar de tudo não é curto — refiro, em particular, O Museu está na Rua, no Bairro da Bela Vista, o ter conseguido que o escultor Virgílio Domingues fizesse uma importante doação das suas obras à cidade de Setúbal, o ter proposto que os escultores Sérgio Vicente e João Duarte fizessem obra pública — fiz mesmo uma montagem de esculturas de João Duarte a situar em Setúbal que apresentei à Dores Meira, numa reunião em que participou a Ana José Carvalho, na altura chefe de Divisão da Cultura, a presidente Meira nem sequer sabia que existia um escultor João Duarte — que se distinguem da banalidade que por aí abunda, quando não são mesmo coisas obscenas e culturalmente abjectas, como os chocos ou aquela decoração da entrada dos Paços do Concelho que devem deixar roxas de inveja as mais bem sucedidas madames blanches. Dirão que é o que muita malta gosta. Haverá quem goste, também gosta das rosinhas, dos barreiros, dos gouchas, dos famosos, dos mais reles aos mais polidos. É a degradação generalizada do gosto que abre caminho aos conservadores e ao pior reaccionarismo, mas uma câmara, sobretudo uma câmara comunista, não pode nem deve alimentar e incentivar populismos rasteiros, as predilecções dos beócios. Contribuir para a corrupção do gosto e do espírito crítico acaba sempre por ter custos elevados. Como escreveu Albert Camus, “tudo o que degrada a cultura encurta o caminho para a servidão”. O aviltamento que se promove a médio, mesmo a curto prazo, contribui para o crescimento da direita. Só por oportunismo e estupidez é que os filisteus não o percebem, já que confundem que contrariar a escória é elitismo .

Dos muitos projectos que foram parar ao caixote do lixo há dois que me ferem particularmente. O primeiro, praticamente no princípio de vir para cá, quando Setúbal integrou o Clube das mais Belas Baías do Mundo. Propus e elaborei o projecto de se realizar um Festival de Literatura de Viagens em que as viagens muitas vezes são pretexto de grandes dramas humanos. Quando falei no projecto à Dores Meira, então vereadora da Cultura, apercebi-me da sua perplexidade. Apesar disso, pus mão à obra, falei com alguns escritores e editores meus conhecidos, que se entusiasmaram com o projecto. Detalhei-o entregando para avaliação da vereadora. Embati num tremendo silêncio. Quando voltei à carga disse que aquilo não interessava. Devia ter imediatamente percebido que para ela, Lord Jim, A Ilha do Tesouro, Ultramarina, Peregrinação, Pela Estrada Fora, O Coração nas Trevas, Viagens na Minha Terra, As Cinco Semanas em Balão, Moby Dick, na sua imensa diversidade, lhe eram completamente desconhecidos, um desconhecimento que se estende mesmo aos Guide Bleu da Hachette ou os de Portugal do Raul Proença. Para aquela ignorante, com tiques de snobeira suburbana, literatura de viagens são os guias que se vendem nos quiosques da esquina.

O outro foi quando a autarquia adquiriu o Quartel do 11 e se chegou a pensar aí instalar a Divisão de Cultura. Obtive uma planta, fiz uma distribuição pelos espaços sem grandes alterações à estrutura, para minimizar custos. Nessa planta — deve estacionar numa gaveta qualquer se é que não foi já destruída — figuravam uma galeria de arte e um auditório onde até seriam possíveis realizar espectáculos de pequeno formato. Mais tarde a Câmara chega a acordo com o Turismo de Portugal para aí se instalar uma escola de hotelaria. A arquitecta encarregada do projecto foi Teresa Pontes que, enquanto fazia levantamento do existente, estabeleceu vários contactos para apresentar um programa de ocupação de espaços. Uma dessas reuniões foi com a Ana José Carvalho e comigo. Expus-lhe a ideia da galeria e do auditório. A galeria a ser gerida autonomamente pela Câmara, o auditório partilhado entre a Câmara e a escola de hotelaria. Aceitou-as imediatamente, passou à prática. Deve ter ficado algo surpreendida quando a autarquia nomeia o Luís Liberato e o José Luís Catalão para acompanharem a obra da galeria. Talvez por isso teve a delicadeza de, nalgumas das vezes em que visitou a obra, dirigida no terreno pelas arquitectas Karoline e Lígia, me convidar para a acompanhar. Nesses encontros surgiu-nos a ideia de a primeira exposição a realizar na galeria ser sobre o projecto de reabilitação do Quartel do 11, a sua relação com o Centro Histórico de Setúbal, contextualizar esses conteúdos com as questões mais gerais da reabilitação dos edifícios históricos, organizando-se um amplo debate sobre essa problemática com a participação da Ordem dos Arquitectos. Iniciaram-se trabalhos nesse sentido. Na câmara, as dras. Maria Francisca Ribeiro e Ana Catarina Stoyann começaram a recolher elementos sobre o centro histórico de Setúbal. A Teresa Pontes e eu, no atelier dela, a tratar do guião da exposição e das questões a propor e discutir com a Ordem dos Arquitectos. Subitamente, tudo foi suspenso e descartado. A presidente, com a prepotência e a incultura que a caracterizam, tinha decidido organizar uma exposição muitíssimo mais relevante: a Vida e a Obra de José Mourinho!!! exposição que inaugurou aquela galeria de arte. A cabal demonstração do gabarito intelectual e cultural dessa gente e do populismo mais rasca.

Pouco depois Pedro Pina chega à câmara, é-lhe atribuído o pelouro da cultura e tive a esperança, ainda que bruxeleante, de alguma coisa mudar. Enviei-lhe mail com alguns projectos e algumas mudanças estruturais no pelouro da cultura, que considerava e continuo a considerar nucleares. As mais relevantes eram integrar as bibliotecas no pelouro da cultura; assumir a direcção das galerias municipais no referente às exposições, aliás projecto e plano amplamente discutido e aprovado no Departamento antes da inauguração da Galeria do 11, discussão inútil como o tempo transcorrido comprovou. Isso vinha na sequência das exposições nos Claustros do Palácio Frixel do IPS, colaboração entre a CMS/IPS que coordenei e teve impacto. Destaquem-se, entre as realizadas, as de Paula Rego, Bartolomeu Cid dos Santos, José Santa Bárbara, Teresa Dias Coelho, Isabel Sabino. Libertar a Divisão da Cultura de acções que são sobretudo entretenimento, em que a cultura é mais que residual, de que o exemplo mais flagrante são as marchas populares que deveriam ser produzidas pelo turismo e afins e não pela Cultura. Encontrei o Pina, já impante como vereador da Cultura, que afirmou nada ter recebido. Reenviei o mail, a mesma resposta. Esquece o Pina que o gmail tem uma coisa chamada mailtrack que comprova a recepção dos mails, embora lhe dê o benefício da dúvida de não ter lido o mail por ter ficado encalhado nos fradelins da sua adjunta.

Pouco tempo decorrido, quando da finalização de O Museu está na Rua, projecto em que só os pormenores finais, insignificantes para o projecto, aconteceram no princípio do mandato Pina, houve uma sessão que assinalou o seu término e que precedeu a visita à obra acabada. Foi exibido um pequeno vídeo onde eu, que tinha desenhado a ideia e acompanhado o projecto criativa e brilhantemente realizado por João Limpinho, tinha sido rasurado. Mais, o vereador Pina tinha nomeado para coordenadora do projecto a sua adjunta Ana Luísa Domingues, uma presunçosa e pretensiosa personagem de saberes colhidos no google e na wikipédia, que não tinha percebido nada de nada de O Museu está na Rua, a obra e os objectivos, como demonstrou na exibição de um parvóide power-point na Casa da Baía. Quando se pensou instalar um Centro de Interpretação de O Museu está na Rua, fiz um texto justificativo teorizando sociológica e esteticamente as suas bases, tem cerca de cem páginas, texto que até chegou a ser enviado ao editor da Abysmo, João Paulo Cotrim, para ser publicado e integrado nesse Centro. Deve andar por aí a caminho de algum contentor.

Confrontado com esse espectáculo, ausentei-me sem aviso o que, por um azar dos távoras, pelo meu telemóvel ter ficado sem bateria do que só dei conta já em casa em Lisboa, provocou algum alarido. A conclusão do Pina é que tenho mau feitio. É um facto. Tenho mau feitio perante a prepotência, a videirice, a ignorância, o oportunismo, a rasquice, o populismo, as mentirolas grandes ou pequenas.

O segundo sinal foi quando, pouco tempo antes de ser inaugurada a exposição das obras de Virgílio Domingues, no primeiro andar da Galeria Municipal, ter detectado que três esculturas tinham desaparecido. Rebobinando. As esculturas do Virgílio Domingues estavam já há muito tempo estacionadas num armazém em Azeitão. Enquanto não se encontrava um espaço para as colocar definitivamente, fiz mesmo

algumas propostas para exposições parciais em locais possíveis para dar a conhecer parte do espólio cedido à CMS. Nos impasses fizeram-se algumas exposições, uma primeira na Casa da Baía, outras duas por cedência temporária à Câmara da Amadora e à galeria do SPGL. Estas duas a pedido expresso do Virgílio Domingues, exasperado por as esculturas não serem exibidas — entre a entrega das obras à autarquia e a sua instalação na Galeria Municipal decorreram cinco anos! — mas sempre e só com as esculturas sujeitas a rigoroso inventário e comprovativos de seguro à saída e à reentrada. Aconteceu mesmo que, no caso da cedência à C.M. Amadora, o primeiro transporte retornou sem nenhuma escultura porque traziam a listagem das esculturas mas tinham-se esquecido do comprovativo do seguro, não se aceitaram as reiteradas garantias telefónicas. O Liberato, director do Departamento, decidiu e bem transferi-las para outro armazém na Bela-Vista, onde existiam melhores condições de segurança. Quando soube, fui verificar como estavam depositadas. Estavam lá todas, bem distribuídas num espaço autónomo em relação ao restante armazém. A segurança era garantida por um fiel de armazém. Sucede, quando aconteceu o seu desaparecimento, que o fiel de armazém tinha sido removido por ordem do Liberato que, com essa decisão, assumiu a responsabilidade do que pudesse suceder. É o mínimo que a melhor boa vontade lhe pode conceder sem, no entanto, deixar de registar a ligeireza, a leviandade de tal, decisão dado o que ali estava estacionado, mas para ele esculturas, candeeiros, latas de tinta, etc., devem ter equivalente valor. O armazém estava sem qualquer controlo. Pós-inauguração, passados quase seis meses sem novas nem mandados, o Virgílio, que delicadamente se absteve de referir o facto na inauguração, escreve à presidente para saber que medidas tinham sido tomadas para se conhecer o paradeiro das esculturas. Aqui del-rei, o Pina e o Liberato foram tirar o sucedido debaixo do tapete. O caso foi parar à Judiciária, um pró-forma para se procurarem ilibar dado o tempo decorrido. Face a negligência tão grave da autarquia o Virgílio poderia se quisesse, disso foi alertado por várias vias, colocar um processo à Câmara para ser indemnizado, o que nunca iria fazer. Nada paga o desaparecimento de uma obra de arte. Se a Mona Lisa do da Vinci, é subtraída ao Louvre, o Nascimento de Vénus do Boticelli aos Uffizi, As Les Demoiselles de Avignon de Picasso ao Moma, que interessam as indemnizações? Nada. Nada paga o desaparecimento de uma obra de arte. O caso aqui era o da responsabilidade directa e indirecta do Liberato por ter retirado segurança, qualquer que fosse, ao armazém o que facilitou aquela ocorrência. Abriram um inquérito interno para se irresponsabilizarem, se possível tentar entalar alguém. Até hoje nada de relevante sucedeu. Há responsáveis, pelo menos morais, pelo sucedido. Fora um outro funcionário da autarquia e seria objecto de rigoroso processo disciplinar.

Para terminar e não me alongar numa lista que poderia ser bem longa, a Dores deve-me um favor, não é pequeno. No centenário do Lopes-Graça houve uma reunião para definir um programa comemorativo. Seis elementos da Associação Lopes-Graça, a Dores e eu. A Dores entrou em grande estilo afirmando a sua admiração pelas CANÇÕES ERÓTICAS DO LOPES-GRAÇA!!! Silêncio, olhares constrangidos nos outros sete participantes em que se discutia uma proposta elaborada pelo Alexandre Branco Weffort, a que dei algumas contribuições, de gravação da obra coral do Lopes-Graça, projecto a ser liderado pela Câmara de Setúbal, que a Dores anulou porque não admitia que os coros de Setúbal fossem seleccionados em função do reportório e da tipologia dos coros pelos maestros José Robert, José Luís Borges Coelho e Alexandre Branco. Seria ela, com toda a sua ciência musical, quem decidiria a apuração dos coros, obviamente para distribuir benesses, o que é mais que risível sobretudo se se soubesse de outro sucesso de que tive, por acaso, conhecimento. Fiz parte, durante uma dezena de anos, de um júri de atribuição de bolsas de artes visuais da Fundação Gulbenkian, conhecia muita gente de outros departamentos da FCG. No intervalo de uma dessas reuniões fui abordado por um dos directores do sector da música que, entre o assombrado e o sarcástico, me inquiriu do que se passava em Setúbal. O caso era que a Dores tinha ido à FG angariar apoios para o Concurso de Canto Lírico Luísa Todi. No decorrer da conversa esse director perguntou-lhe porque é que a Câmara de Setúbal/Cultura não tinha dado resposta a uma oferta, já com um ano, de dois concertos da Orquestra da Gulbenkian em Setúbal. A resposta da Dores deixou-o siderado: em Setúbal não havia público para esse género de música (sic)!!! Caramba, era aquilo uma vereadora da Cultura!!! Mais tarde teve um raro acesso de bom senso convidando o João Pereira Bastos para dirigir o FLT embora com o propósito de “Setúbal ser Capital do Peixe e da Música ” (sic).

Retornando às Canções Eróticas do Lopes-Graça. Com tanta gente naquela reunião, naturalmente afirmação tão altissonante ultrapassou as paredes da sala. Umas semanas depois fui assediado por dois jornalistas, um de um diário outro de um semanário, que me pediam que a confirmasse. Fiz tudo para tirar a espoleta da bomba, sem nunca ter a certeza de o ter conseguido. Obviamente avisei quem devia avisar caso se desse a explosão. Tive sucesso sem saber bem como. A Dores deveria ter ficado devedora de agradecimento por a ter libertado desse ónus. Deve ter ficado desagradada, mesmo furiosa, por a ter impedido de ser, com as Canções Eróticas do Lopes-Graça, quiçá mais célebre que Santana Lopes e os Concertos de Violino de Chopin.

Em conclusão, para não me alongar nesta listagem, dado o perfil intelectual, cultural e político destes dois edis, que é nulo ou muito próximo do zero, passarem-me a ferro é natural. Podem alegar que pouco contribuí para as políticas culturais, uma inexistência em Setúbal tal como no país. As Divisões de Cultura praticamente são variantes das agências de promoção de espectáculos afirmando estar a valorizar a formação e a captação de novos públicos, consigna que atravessa o país de lés a lés e que de tanto ser repetida perdeu qualquer significado. As excepções, as raras excepções de algumas iniciativas, só confirmam a regra. As outras são biombo para uma sucessão de entretenimentos ditos culturais, uns melhores outros piores, uns com mais substância cultural outros nem por isso, outros em que a alienação subjacente, na melhor das hipóteses, é disfarçada com tiques modernaços, segue a lógica perversa das modas das indústrias culturais e criativas da gestão das artes, em que não se promove ou só se promove muito residualmente a humanização e a socialização dos sentidos, são de pouca memória cultural e política. Globalmente alienam as artes e a cultura, numa sucessão de espectáculos e eventos que tanto podem ser aqui como numa câmara PS, PSD ou CDS, anulando qualquer perspectiva de democratização da cultura, o que deve, deveria, ser o objectivo de uma Câmara liderada pela CDU.

Fiz o que consegui fazer entre boicotes, incompreensões, rasteiras. O que consegui fazer, pouco mas relevante, foi feito com seriedade intelectual, cultural e política. O que não consegui fazer a eles pode ser assacado. Nunca poderiam esperar que alinhasse no popularucho, nos populismos miseráveis objectivamente retrógados que invadem a cultura já de si frágil, por se submeterem sobretudo à lógica do entretenimento, em que a cultura disfarça o vazio desta sociedade, dissimulando-o.

Como escreveu Musil no Homem sem Qualidades”se de dentro a estupidez não se assemelhasse tanto à inteligência, se de fora não pudesse passar por progresso, génio, esperança, aperfeiçoamento ninguém quereria ser estúpido e a estupidez não existiria. Ou pelo menos seria mais fácil, combate-la”. Tudo se agrava quando a estupidez tem êxitos, alguns pontuais outros factícios. Torna-se mais convencida e arrogante, até se ufana de ser aplaudida pelos reaccionários que deles tirarão dividendos. Nunca contribuirei para esse triunfo, que será mais que previsível com a continuidade desses comportamentos.

Aparentemente somos do mesmo Partido. Não somos nem nunca seremos. Eu sou militante, eles inscritos tal como poderiam ser de uma qualquer associação ou de um clube de futebol.

Até sempre, com um obrigado a todos com quem trabalhei a navegar nesse mar de escolhos.

Manuel Augusto Araújo

https://revistacaliban.net/pode-a-esquerda-renunciar-%C3%A0-cultura-30a4b08aed67

quinta-feira, 22 de outubro de 2020

Manuel Augusto Araújo - Um caminho de trevas


Gravura «Um amante zeloso», de Bartolomeu Cid dos Santos, ponta seca/água tinta, 1975. Créditos/ Bartolomeu Cid dos Santos

OPINIÃO|DIREITOS E LIBERDADES -  Um caminho de trevas
 - POR MANUEL AUGUSTO ARAÚJO - QUINTA, 22 DE OUTUBRO DE 2020

O bastonário da Ordem dos Médicos aproveita os graves problemas que o SNS enfrenta com a epidemia não para defender o seu robustecimento, mas o negócio dos privados na saúde.

Gravura «Um amante zeloso», de Bartolomeu Cid dos Santos, ponta seca/água tinta, 1975. Créditos/ Bartolomeu Cid dos Santos
Ocoronavírus é uma espécie invasora da vida. Uma ameaça que, pela densidade e velocidade da sua propagação, introduziu uma perturbação universal que promoveu alterações substanciais nas movimentações na superfície da terra, com uma travagem desmedida na actividade económica e brutais restrições nos direitos e liberdades, que exploram o natural instinto de sobrevivência de todos para que as aceitem sem resistências significativas.

A actividade económica, com desiguais solavancos, vai sendo retomada. Uma retoma que tem tornado evidente a falência do receituário neoliberal e a importância do Estado definir políticas públicas de investimento e de defesa dos trabalhadores, se realmente quer menorizar os inevitáveis impactos que uma crise com esta extensão provoca no tecido económico de qualquer país, maior ainda quando esse tecido tem sido puído por dezenas de anos de governos de centro-direita e de direita, como é o caso de Portugal. Uma evidência que alarma os neoliberais de vários matizes que, controlando os meios de comunicação social e estando bem ancorados no chamado serviço público dos media, tentam por todos os meios desvalorizar as evidências quando as não podem negar.

O real perigo é que algumas das medidas de emergência para conter a propagação do contágio, que têm sido adoptadas e aceites, passem a fazer parte do quotidiano. Instalou-se um clima de medo potenciado pela comunicação social corporativa com os relatórios diários e atemorizantes sobre as vagas de Covid-19, em que as estatísticas das vítimas são apresentadas de forma abstracta, em que as taxas e os picos de mortalidade não são sujeitas a nenhum crivo elucidativo das razões dos óbitos atribuindo-os por atacado ao vírus, mesmo quando os óbitos dos grupos etários mais elevados, ainda que influenciados pela presença do vírus, não podem ser exclusivamente explicados pela sua presença. O que está em curso é um processo de instauração de medo generalizado, em que mesmo o negacionismo científico imbecil dos bolsonaros ou os ziguezagues trumpistas, que se atropelam na sua irracionalidade, contribui para a sua persistência.

O mundo é varrido pelos turbilhões do medo. Medo de se ser contagiado, medo de morrer, medo de perder o emprego, medo de não se sobreviver por perca de capacidade económica e social que impossibilite o dia seguinte que não se sabe como e quando acontecerá.

«A actividade económica, com desiguais solavancos, vai sendo retomada. Uma retoma que tem tornado evidente a falência do receituário neoliberal e a importância do Estado definir políticas públicas de investimento e de defesa dos trabalhadores, se realmente quer menorizar os inevitáveis impactos que uma crise com esta extensão provoca no tecido económico de qualquer país, maior ainda quando esse tecido tem sido puído por dezenas de anos de governos de centro-direita e de direita, como é o caso de Portugal»

Não é um acaso a tipologia das notícias dos media, em que a liberdade, as liberdades no seu relativismo e desde sempre ameaçadas, são colocadas em causa, com a exploração de toda a panóplia conducente ao isolamento social, ao confinamento, ao teletrabalho, aos espectáculos on-line, à educação digital, às vendas on-line, à quebra do isolamento pelo recurso às redes sociais, que são apresentados como instrumentos de combate à pandemia sem uma réstia de preocupação com o aprofundamento das desigualdades existentes e com o impacto da crise sobre os que já tinham os seus direitos fragilizados, muitos deles sem direito ao isolamento social, e que são a parte dos grupos sociais mais afectados pela crise.

O medo sempre foi um poderoso instrumento de governação e a comunicação social estipendiada tem, ao longo dos anos, construído uma insidiosa narrativa instalando o pavor com relatos da violência, nos mais diversos formatos e com periodicidades variáveis. Delinquência, assassinatos, violações, acidentes, incêndios de vários calibres fazem parte dessa paisagem a que se agregam ameaças mais persistentes como o aquecimento global, o buraco de ozono, a contaminação ambiental, os desastres naturais e os que podem advir da queda de detritos cósmicos ou da aproximação de um meteorito, atraídos pela força da gravidade, mais os relatos direccionados dos terrorismos e das guerras que justificam outras guerras, etc. Notícias intercaladas com frivolidades mas sempre sem perder o norte de discriminar as forças políticas e sociais que se opõem frontalmente ao estado de sítio imposto pelo neoliberalismo, sempre dando destaque aos seus porta-vozes, que o maior interesse que têm pela pandemia, por cá e nos quatro cantos do mundo, é explorá-la enquanto negócio. Bill Gates e a sua máfia estão na linha da frente desse paradigma, criando alianças globais que impõem prescrições para os problemas da saúde que procuram impor a todo o mundo. É o filantrocapitalismo, em que se injecta dinheiro num sistema em que a democracia, a biodiversidade e a cultura são erodidas num processo em que ele e os seus pares ficam mais ricos.

Por cá, à nossa escala, o caso mais exemplar é o do bastonário da Ordem dos Médicos, que aproveita a situação dos graves problemas que o Serviço Nacional de Saúde (SNS) terá para enfrentar uma previsível expansão da epidemia – «que não está a disparar, mas a crescer», como afirma a ministra da Saúde – não para defender o seu robustecimento, depois de anos de desinvestimento feitos pelos governos de centro-direita e direita, mas o negócio dos privados na saúde – um dos negócios mais lucrativos, depois das armas e da droga (Isabel Vaz, administradora da Luz Saúde, SA dixit) – opinando que o Estado deve contratar os privados, isto depois de os privados, no início da crise, se terem demitido de acorrer ao pico da pandemia por não dar dinheiro. Diz isto com a inefável, insuportável e hipócrita máscara de cruzado recacho pelo bem da saúde pública com que aparece nos inúmeros tempos de antena que lhe são concedidos para inocular o medo. É bem acolitado pela comunicação social mercenária, que nunca refere que os privados muito têm lucrado através do Estado e dos impostos cobrados aos cidadãos: 41% da sua facturação é assegurada pela captura de 47% do que o Estado gasta na saúde, à pala das ineficiências artificialmente criadas em décadas ao SNS. Esse alcoviteiro da saúde faz parte da camarilha dos abutres que assaltam a saúde pública para com ela fartamente lucrarem. Estão sempre muito atentos a estas janelas de oportunidade de negócio.


Gravura «Este nunca está satisfeito», de Bartolomeu Cid dos Santos, ponta seca/água tinta, 1975 Créditos Bartolomeu Cid dos Santos /

Os nossos dias, desde que foi declarada a pandemia, são bombardeados com notícias e propaganda em formato noticioso que engrossam as pesadas nuvens que chovem pavores sem detença. O planeta está envolvido por uma espessa camada atmosférica carregada de medos sem que se entreveja um anticiclone que a limpe. O medo empurra para o silêncio da aceitação de medidas restritivas à normalidade, por mais anormal que seja, da circulação da vida. Medidas que são aceites praticamente sem oposição e que as forças reaccionárias pretendem, em primeiro lugar, impor às liberdades constitucionais, às lutas dos trabalhadores, às lutas sociais e políticas, o que explica a sua fúria contra o 1.º de Maio, a Festa do Avante!, os lances que foram usados, os meios que foram mobilizados. O medo, como Maquiavel teorizou, foi desde sempre uma das mais poderosas armas das forças dominantes. É uma ferramenta multiusos que percorre todo o arco, da mais feroz repressão à mais ligeira persuasão.

Adquire novas valências quando aos medos que se têm instalado enquanto conta-corrente dos poderes dominantes se associa o medo universal catapultado pela pandemia. O seu combate é uma necessidade e urgência real que não pode ser adiada, o que facilita a aceitação de medidas restritivas na luta contra as tipologias de contágio que facilitam a sua propagação, paralisando e silenciando vozes críticas mesmo as mais sensatas, serenas e competentes.

O grande alerta que tem que ser feito neste estado de emergência é para o perigo que muitas das medidas hoje adoptadas se perpetuem depois de o termos ultrapassado. Há que no imediato pensar nesse perigo. Nos usos e abusos das tecnologias de controlo, para que o que hoje é urgente e necessário não ultrapasse essas fronteiras e configure políticas futuras, para que a legalidade agora justificada não se torne numa ilegalidade instituída, sabendo-se que o desarmamento político foi desde sempre um dos grandes objectivos da burguesia dominante que, ao longo dos tempos, foi apurando as suas formas de actuação, enriquecendo o seu arsenal com ferramentas que visam atingir sempre o mesmo alvo: reduzir a influência ou mesmo anular os instrumentos organizados de luta das massas populares, partidos e sindicatos. Um alerta plenamente justificado, se se atentar no que tem sido preparado nos últimos decénios pela comunicação corporativa que, como tem alertado Noam Chomsky, tem funcionado num sistema em que «os media de referência estabeleceram um padrão dentro do qual opera o resto», em que os media dos países periféricos, desenvolvidos, em vias de desenvolvimento ou do terceiro mundo replicam o que é emitido por esses media ditos de referência e pelas grandes agências informativas dominadas e controladas pela plutocracia altamente beneficiária com as políticas neoliberais.

«O que está em curso é um processo de instauração de medo generalizado, em que mesmo o negacionismo científico imbecil dos bolsonaros ou os ziguezagues trumpistas, que se atropelam na sua irracionalidade, contribui para a sua persistência.

O mundo é varrido pelos turbilhões do medo. Medo de se ser contagiado, medo de morrer, medo de perder o emprego, medo de não se sobreviver por perca de capacidade económica e social que impossibilite o dia seguinte que não se sabe como e quando acontecerá»

A essa forma, que agora se pode classificar como mais tradicional, surgiram outras mais sofisticadas através das redes sociais que promovem a fusão da vida profissional com a pessoal num gigantesco e global reality show em que cada um tem a ilusão de liberdade total que na realidade está apertadamente controlada pelos algoritmos alinhados com o totalitarismo democrático, com o pensamento único dominante orientado pelo lucro. Os milhões de pessoas que por todo o mundo viajam pelas redes sociais deixam voluntariamente o seu rasto, que está a ser vigiado pelo olhar panóptico dos guardiões do neoliberalismo. Rasto que já existia com o uso dos cartões multibanco, das localizações nos smartphones, com as pesquisas nos motores de busca, em que as grandes agências secretas em paralelo com as de marketing lêem e traçam os perfis do nosso estado de espírito a partir do que se partilha online. Tornamo-nos em utilizadores e consumidores sem escolhas nem diferenciações no universo digital. Somos voluntariamente colonizados por esses novos colonizadores, amantes zelosos do império digital.

Hoje vive-se num gigantesco campo de concentração virtual em que o neoliberalismo comanda a história reaccionária em curso, conseguindo mesmo o grande feito de provocar a desorientação ideológica de muitas esquerdas, promovendo movimentos activistas que acabam por fazer parte da sua narrativa.

O totalitarismo democrático, que tem a sua expressão mais acabada na democracia espectacular dos Estados Unidos da América, em que dois partidos se alternam para prosseguir políticas similares, persegue sem pausas a implantação de uma sociedade uniforme, inerte, portadora de um mesmo conjunto de opiniões, comandada pelo domínio integral das formas de comunicação tradicionais e das novas formas proporcionadas pela comunicação e interacção digital. O estado de excepção que agora se vive dá-lhe um novo impulso. Muitas das restrições têm um efeito negativo na vida dos cidadãos, com a consequência, que nunca pode ser subestimada, de tornar os pobres mais pobres e os ricos mais ricos, uma realidade que as crises tem vindo a acentuar como se pode ler aqui e aqui.

Para a esquerda consequente os desafios são ainda maiores porque, participando natural e conscientemente nos combates contra a crise instalada pela pandemia, tem que continuar a batalhar seriamente contra as opressões daí derivadas sem nunca perder a mão das lutas por uma possível transformação social.