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domingo, 23 de agosto de 2026

(85) Textos para um mural


Mural em Setúbal na Rua Edmond Bartissol, reconstituído pelo  Gemini a partir de 4 fotos de Victor Nogueira


* Victor Nogueira / Gemini

As fotos são de 2019, na Rua Edmond Bartissol, onde se localiza a casa onde presumivelmente nasceu o poeta setubalense Manuel Maria Barbosa du Bocage e o mural, estilo naïf, foi pintado no murete que a separa do Largo de S. Domingos. Nele se inscrevem várias frases: Todos nós fazemos a diferença /  Aqui somos felizes - Casa Bocage /  Mude e o Mundo muda. Inserido no projecto Setúbal Mais Bonita,  este mural foi pintado em 2019  por iniciativa do Centro Comunitário de S. Sebastião

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O MUNDO É COMPOSTO DE FAZENDA E MUDANÇA (Victor Nogueira)


 Cada um de nós é só ele próprio

E a sua boa ou má circunstância,

Procurando em tudo uma substância,

Com arte ou não, o alfa milenário.

 

Há na terra quem faça santuário

Do sentir ou razão, em abundãncia;

Mas é do cacau terna a fragância

Do fado ter um bom ou mau solário.

 

O tempo bem diz que é tudo ilusão;

O amor, doçura, felicidade,

Em lixo ou pó substanciando.

 

Honra, beleza, sentir, no caixão;

Erramos, pelo campo ou na cidade,

No mundo, bem ou mal, vagueando.

  Pinhal Novo 1989.09.10


terça-feira, 7 de abril de 2026

Raquel Varela - {Entre Saramago e Mário de Carvalho}

 * Raquel Varela
 ·
Esqueci-me de dizer algo muito importante. O "Ministro da Educação" do Estado português (certamente não de quem trabalha em Portugal e tem os seus filhos na escola) disse esta coisa insólita, que junta na mesma receita Trump e Estaline, cito de cor, a alternativa a Saramago "também do Partido Comunista" Mário de Carvalho". Talvez tenha sido a IA, de que o Ministro é fervoroso adepto,  a formular tamanha barbaridade. Primeiro, comparar Saramago com Mário de Carvalho é um absurdo, não vou explicar, não é preciso, Mário de Carvalho é um grande escritor, Saramago reinventou a língua e com isso o mundo. Mas há mais, e muito pior. Essa comparação surge porque são apoiantes do PCP. Nem Saramago foi propriamente um escritor do PC, nem Mário de Carvalho pode-se reduzir a tal (embora em ambos haja algo como um sistema cultural de resistência à ditadura que criou um intelectual colectivo em que o PC teve um papel essencial). O incrível é isto - que o Ministro da "educação", sim, da educação, diz que um escritor pode ser substituído por outro...do PC. 

Como não recordar a proibição de livros ordenada por Estaline ou o movimento MAGA de Trump que já cancelou dezenas de clássicos nas escolas norte-americanas? Enfim, como dizer isto a um Ministro, vou soletrar: a arte é o campo da liberdade, li-ber-da-de. Não tem partido, embora possa ser política. O que fazer com Céline, Borges ou Vargas Llosa?, grandes escritores de direita que nos ofertaram a arte em vida? Como ouvir este ruído, este zinco a bater em ferro, que é um Ministro afirmar que há escolhas em literatura no programa...que são também partidárias?

2026 04 07

segunda-feira, 16 de dezembro de 2024

Oliver Harden - O Deserto e a Ausência de Humanidade: Uma Reflexão Saramaguiana

* Oliver Harden
 
Em O Evangelho Segundo Jesus Cristo, José Saramago propõe uma visão do deserto que transcende sua dimensão geográfica, conferindo-lhe um significado existencial e simbólico. Para o escritor português, o deserto não é apenas a vastidão árida e desolada que habita a imaginação coletiva, mas um estado de espírito que se manifesta na ausência daquilo que verdadeiramente nos define enquanto humanos. Neste sentido, o deserto torna-se a metáfora por excelência para a falta de encontro, de diálogo e de solidariedade entre os homens.

Saramago inicia sua reflexão desconstruindo o entendimento usual do termo: o deserto não é meramente um espaço físico marcado pela inospitalidade, mas um território existencial onde a humanidade se ausenta. Ele emerge, portanto, sempre que os vínculos que nos conectam aos outros são rompidos ou negligenciados. Trata-se de um lugar, ou antes de um estado, onde não há trocas de afeto, onde predomina o egoísmo, e onde a compaixão cede espaço à indiferença.

No entanto, Saramago nos adverte que o deserto não está confinado às paisagens desabitadas ou às regiões remotas da geografia física. Pelo contrário, ele frequentemente se insinua nas multidões, nas cidades vibrantes, nos lares aparentemente preenchidos de vida. A secura do deserto manifesta-se na solidão experimentada em meio à companhia, na ausência de empatia que permeia relações superficiais e no isolamento que ressoa, paradoxalmente, nas redes de interconexão tecnológica do mundo contemporâneo.

Este deserto espiritual, segundo Saramago, é a antítese daquilo que nos define enquanto seres humanos. Ele é a negação da nossa capacidade de amar, de nos abrir ao outro, de sermos solidários. É a recusa do diálogo e da comunhão, o exílio voluntário daquilo que dá sentido à nossa existência. Assim, a metáfora do deserto revela a aridez existencial que nos consome quando nos apartamos daquilo que é essencialmente humano.

A reflexão de Saramago ganha especial relevância no contexto da modernidade, marcada por uma fragmentação crescente das relações humanas. Em um mundo saturado de conexões virtuais e, simultaneamente, esvaziado de proximidade emocional, o deserto surge como a condição latente de nossa época. Paradoxalmente, quanto mais nos interligamos por meio das tecnologias, mais distantes nos tornamos no plano afetivo, alimentando a aridez espiritual que Saramago denuncia.

Diante desse cenário, a reflexão saramaguiana nos desafia a resgatar aquilo que pode extinguir o deserto interior: o reencontro com nossa própria humanidade. Este resgate exige a reconstrução de laços autênticos, pautados pelo diálogo, pela escuta genuína e pela solidariedade. Impõe-nos a tarefa de transformar o deserto, de romper sua esterilidade, devolvendo-lhe a fertilidade das relações humanas e a vitalidade dos afetos.

Portanto, ao reinterpretar o conceito de deserto, Saramago nos impele a pensar em alternativas para superar o vazio de um mundo individualista. Ele nos convida a imaginar e a construir uma realidade onde o deserto seja apenas uma paisagem geográfica – nunca um estado de espírito. Somente assim podemos aspirar a uma existência plena de significado, onde a humanidade, na sua essência mais nobre, prevaleça sobre a aridez do deserto existencial.

2024 12 16 
https://www.facebook.com/custodio.org/posts 

terça-feira, 23 de abril de 2024

Edgar Silva - A religião e os valores humanistas na obra de José Saramago



Nota introdutória

É de grande atualidade o “Evangelho Segundo Jesus Cristo” quando, mais uma vez, tantos cristãos estão a trucidar-se uns aos outros em nome do mesmo Deus, nestes dias em que o absurdo da guerra, entre outros profundos nexos causais, na Europa, também é justificada por alguns hierarcas por motivos da religião.

O “Evangelho Segundo Jesus Cristo”, publicado em 1991, tem 24 capítulos, não numerados que totalizam 445 páginas. É o romance mais longo de José Saramago. Naquele texto, mais do que versar sobre a história de Jesus desde a sua conceção até à sua crucificação, na companhia de Jesus, Maria, José, Maria Madalena, dos discípulos de Cristo e do diabo, Saramago é o “evangelista” que faz uma releitura de tragédias da humanidade, da tragédia de todo o humano, designadamente, da vida dos «crucificados menores». O autor português constrói a história dos «crucificados menores» em confronto com o divino e o demoníaco, no fundo, a história da humanidade em prolongada busca de si mesma.

Uma arquitetura do sagrado

Ao longo da sua obra, José Saramago constrói cenários socias, políticos e religiosos imersos numa iconografia judaico cristã, projetados segundo um profundo imaginário religioso.

Revelando exaustivo estudo de textos bíblicos, como é raro na história da literatura portuguesa, na liberdade da palavra, explorando um discurso conotativo, com um fluxo semântico torrencial, por vezes vertiginoso, Saramago desenha uma arquitetura do sagrado. Materializa a crítica do sagrado enquanto religião institucionalizada, como parte da ideologia de domínio social, enquanto componente dos mecanismos repressivos das sociedades. Na sua conceção do sagrado a religião institucionalizada mantém tanta gente num estado de adormecimento, de aceitação de sacrifícios, em resignação, impedindo que os humanos vivam plenamente a sua humanidade. Essa religião como que suga a vontade humana.

Quer seja através de monólogos intimistas ou reflexões sentenciais, quer seja por ditos proféticos, apartes e antevisões ou personagens e histórias trágico-maravilhosas, o autor do “Evangelho Segundo Jesus Cristo” constrói narrativas de rituais religiosos, de quadros bíblicos, de tradições e relatos do judaísmo e do cristianismo. E naquela arquitetura do sagrado, Saramago inaugura uma nova linguagem sobre o fator religioso, relê a linguagem antiga, desnudando a ideologia ou desvelando as camadas de ideologia transportadas por determinadas interpretações dadas aos textos bíblicos, às instrumentalizações retóricas, políticas, sociais das figurações de Deus.

Na sua arquitetura do sagrado, no “Evangelho”, Saramago dessacraliza a palavra tida por sagrada pelos crentes. O narrador é o agente dessa dessacralização. Reproduz histórias da Bíblia para apresentar Deus tal como é mencionado em diferentes contextos no Antigo Testamento. Saramago utiliza as citações bíblicas, reapresenta-as, multiplica as citações ipsis verbis do Antigo e do Novo Testamento, para expor o que considera iniquidades de Deus.

Da história de Deus, conclui Saramago no seu “Evangelho”: é «uma história interminável de ferro e de sangue, de fogo e de cinzas, um mar infinito de sofrimento e de lágrimas».1 Do relato acerca de Deus sentencia Saramago: «É preciso ser-se Deus para gostar tanto de sangue».2

O que há entre Saramago e Deus?

Sendo ateu, Saramago revela-se apegado à ideia de Deus. A sua literatura manifesta uma vasta incidência de temas bíblicos. Não é só no “Evangelho Segundo Jesus Cristo” que Deus, enquanto tema, está presente na obra de Saramago: Deus lá está na “Terra do Pecado”, na “História do Cerco de Lisboa”; em “Levantados do Chão”; no “Memorial do Convento”; em “Todos os Nomes”; nas peças de teatro “In Nomine Dei” e na “Vida de São Francisco de Assis”; nos romances “Ensaio Sobre a Cegueira” e em “Caim”.

Selam Ferraz, no seu estudo sobre «um certo perfil de Deus» em Saramago, refere que «ao longo de sua obra, ele vai apontando perfis de Deus que o incomodam. Em Terra do Pecado, seu primeiro romance, critica um Deus que não gosta de prazer e de sexo; em Memorial do convento, critica aqueles que edificam grandes catedrais para Deus; na peça de teatro In Nomine Dei, critica as guerras que se fazem em nome de Deus. Finalmente em o Evangelho segundo Jesus Cristo, Saramago questiona o Deus de Amor que deixa que seu único filho seja crucificado e que não concede o perdão a Lúcifer».3

Mais do que questionar Deus, Saramago rejeita-o, rejeita o Deus cruel, sanguinário, vingativo. Saramago recusa Deus em defesa da humanidade e, por isso, coloca-se do lado de Jesus. A recusa de Deus é, ao mesmo tempo, acompanhada da valorização da figura de Jesus.

Em contraposição à crueldade de Deus e à arrogância de Deus, Saramago identifica-se com o personagem Jesus. Tanto assim que o narrador do romance nem precisaria declarar - mas declara – que, enquanto no “Evangelho” Deus é o anti-herói, Jesus é o evidente herói daquele evangelho.4 Deus é o grande antagonista no “Evangelho de Saramago”, porque, enquanto Jesus e, diga-se, o Demónio procuram compreender os humanos, Deus procura submete-lo à sua vontade, alargar o número de fiéis e o poder que tem sobre eles.

Saramago destaca a figura humana, demasiado humana de Jesus. Se Saramago rejeita Deus é para exaltar, na figura de Jesus, a figura humana, o homem e a sua dor, o homem e a sua revolta.

Em Saramago há a identificação de Jesus com a humanidade, num processo narrativo que vai ficando mais claro nos diversos episódios que o romance recolhe da sua vida, havendo mesmo uma passagem do “Evangelho” de Saramago na qual Jesus, de certo modo, recusa Deus em favor dos homens: «Não podes ir contra a vontade de Deus - diz-lhe Pedro. Não - responde Jesus - mas o meu dever é tentar».5 Ou seja, em Saramago o Filho de Deus, em vez de se entregar aos desígnios do Pai celestial, ousa questioná-lo em nome da própria humanidade e em favor da humanidade.

Em contraposição aos homens sem vontade ou de vontade adormecida, que deixam de ser verdadeiramente humanos, contrários ao próprio movimento da História, existe um novo mundo por erguer, uma outra força que radica na vontade humana, que liberta os povos da religião institucionalizada, que comporta uma imensa capacidade criadora e transformadora, que possui potencialidades para superar todas as marcas da nossa humana fragilidade. No “Evangelho de Saramago”, o Cristo Homem traz consigo todas as marcas da nossa humana fragilidade e, correlativamente, da nossa força divina. E é neste sentido que na humanidade há uma infinita vontade de transformação do mundo.

Nesta leitura do Nobel português da literatura poderá dizer-se que no “Evangelho de Saramago” o Cristo Homem revela à humanidade a grandeza do humano, o personagem Jesus manifesta o quanto nos falta para chegarmos a ser verdadeiramente humanos.

Teologia de Saramago

Tal como os demais romances de Saramago e, antes de mais, no seu “Evangelho” sobressai aquele que é um dos maiores legados do nosso Nobel da Literatura: o alçar a humanidade ao papel de principal ator da existência.

No contador da História e de histórias que nos fascinam e apaixonam é o humano que interessa. Em José Saramago importa a humanidade detentora do seu próprio destino e única responsável pelos seus próprios atos.

No texto de Saramago “ao homem nada é impossível”. Ele é capaz de cuidar do seu próximo, é capaz de inventar, de criar, de fazer a história prosseguir. Tal como a vontade humana é capaz de amar de forma incondicional, o génio humano (tal como Blimunda, Baltasar e Bartolomeu Lourenço) é capaz de erguer a passarola; é capaz de superar obstáculos (como na saga dos Mau-Tempo) e é capaz, até mesmo, de mudar o rumo da história. Precisa, no seu Evangelho, de matar a inflexível imagem do Deus todo poderoso, como condição para que se liberte a humanidade.

Quando é exposta a humana fragilidade, a nossa cegueira, o medo da morte, as capacidades de destruição, logo Saramago exibe o homem ao próprio homem, a capacidade de sublimar, de compaixão, do altruísmo, da liberdade, da justiça, do amor. Demasiado humano, o humano é mortal, no entanto, aspira à imortalidade; está sujeito ao tempo, porém, aspira à divindade; é criatura, mas deseja ser criador.

Tal como todos nós, no “Evangelho de Saramago”, o Cristo Homem traz consigo todas as marcas de nossa humana fragilidade e de nossa força divina. E é em nome da humanidade que Saramago, através dos tensos diálogos, das suas alegorias, da elaboração de grandes metáforas e parábolas, nas diversas formas de confronto do humano com o absurdo, com o desconhecido, através da ficção narrativa, nos seus retratos literários, em tudo persegue um objetivo: a tentativa de entender o que significa o ser humano.

No Centenário do nascimento de Saramago será destacada a atualidade da sua obra, relida aquela literatura que continua a habitar e a inquirir os nossos dias. Para além de tudo isso, entre muitos outros aspetos, importará valorizar, de sobremaneira, a acutilância da sua palavra sobre o muito que nos falta para chegarmos a ser verdadeiramente humanos, com a insistência de uma indomável confiança na luta dos Povos, uma esperança que não aceita qualquer forma de resignação, nem a exploração, nem a desigualdade que desfigura a comum humanidade dos humanos.

Muito devemos a Saramago, mas, em particular, “como evangelista”, com ele aprendemos a dizer como ainda nos falta tanto caminho para chegarmos a ser autenticamente humanos. E é, por isso, que podemos dizer quanto o “Evangelho de Saramago” nos remete para uma profunda reflexão teológica, reporta-nos para universos da teologia antropológica dos grandes mestres, como o foi Karl Ranher, ou como nos sugere a mais pura teologia da esperança.

Tal como afirmou Max Horkheimer. «a teologia, para mim, é a esperança de que a injustiça que caracteriza o mundo não seja a última palavra».6

1 SARAMAGO, José – Evangelho…, 1998, 381.

2 SARAMAGO, José – Evangelho …, 1998, 391.

3 FERRAZ, Selma – Quais são as faces de Deus? IHU 299 (6 de julho 2009) s.p.

4 Cf. SARAMAGO, José – Evangelho…, 1998, 239.

5 SARAMAGO, José – Evangelho…, 1998, 436.

6 HORKHEIMER, Max – Elipse da Razão. Zahar: Rio de Janeiro, 1976, 18.

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CONFERÊNCIA
Uma visão universal e progressista da História - A actualidade da Obra de José Saramago
22 Outubro 2022

https://www.pcp.pt/religiao-valores-humanistas-na-obra-de-jose-saramago


Edgar Silva foi padre e é investigador no Centro de Estudos de História Religiosa da Universidade Católica Portuguesa e dirigente do PCP.

sexta-feira, 8 de março de 2024

Gustavo Carneiro - LEVANTADOS DO CHÃO

* Gustavo Carneiro

Azi­nhaga, con­celho da Go­legã. Ali nasceu José Sa­ra­mago, o único es­critor de língua por­tu­guesa ga­lar­doado com o Prémio Nobel da Li­te­ra­tura. Oriundo de fa­mí­lias tra­ba­lha­doras, também ele o foi: ser­ra­lheiro me­câ­nico, pri­meiro; fun­ci­o­nário pú­blico, de­pois. Nos seus li­vros tomou par­tido pelos que nada são neste mundo, como diz A In­ter­na­ci­onal. Exemplo maior dessa opção, que foi a sua (José Sa­ra­mago foi mi­li­tante do PCP du­rante dé­cadas e até ao fim da vida), será por­ven­tura Le­van­tado do Chão, essa mag­ní­fica obra onde de­finiu um es­tilo li­te­rário in­con­fun­dível.

Nela acom­panha-se três ge­ra­ções da fa­mília Mau Tempo no la­ti­fúndio alen­te­jano e, através delas, a fome, o obs­cu­ran­tismo e a ex­plo­ração a que os ope­rá­rios agrí­colas eram su­jeitos às mãos dos agrá­rios, e a brutal vi­o­lência da po­lícia ao seu ser­viço, num lugar e num tempo pro­fun­da­mente de­si­guais e in­justos. Mas ali estão também ins­critos, e ma­gis­tral­mente des­critos, o des­pertar das cons­ci­ên­cias, a co­ra­josa e pa­ci­ente re­sis­tência, a luta por uma vida me­lhor – que de­sem­bo­caram na Re­vo­lução de Abril e na sua mais bela con­quista, a Re­forma Agrária.

Há dias, na terra que viu nascer o es­critor, a can­di­da­tura da CDU es­teve reu­nida com de­zenas de imi­grantes, mai­o­ri­ta­ri­a­mente oriundos da Índia e do Pa­quistão. Tra­ba­lham em ex­plo­ra­ções agrí­colas, so­bre­tudo, mas oca­si­o­nal­mente também na cons­trução civil, num como noutro caso a troco de muito pouco, por vezes até de quase nada. Nesta busca diária do ganha-pão, nas con­di­ções di­tadas pelo pa­trão (tantas vezes abaixo da lei e da ele­mentar hu­ma­ni­dade), é di­fícil não ver se­me­lhanças com as praças de jorna de má me­mória.

Nessa reu­nião, se­me­lhante a tantas ou­tras re­a­li­zadas em tantos ou­tros lu­gares, afirmou-se que o PCP e a CDU não fazem dis­tinção entre tra­ba­lha­dores, in­de­pen­den­te­mente da sua origem: «nós de­fen­demos a classe tra­ba­lha­dora» e todos – sem ex­cepção – devem ter sa­lá­rios dignos, con­tratos, pro­tecção so­cial, ha­bi­tação, saúde. Tudo aquilo, por­tanto, «a que um ser hu­mano deve ter di­reito».

Ali re­a­firmou-se também a de­ter­mi­nação em dar com­bate firme aos que pre­tendem res­pon­sa­bi­lizar os imi­grantes pelos pro­blemas do País, pro­cu­rando que se es­queça que também os por­tu­gueses emi­gram em busca de uma vida me­lhor e ili­bando os ver­da­deiros res­pon­sá­veis: os par­tidos que servem aqueles que en­ri­quecem com a ex­plo­ração dos tra­ba­lha­dores, sejam eles imi­grantes ou por­tu­gueses.

Pese em­bora as di­fe­renças cul­tu­rais e lin­guís­ticas, saiu re­for­çada a so­li­da­ri­e­dade que une sob uma mesma ban­deira – e uma mesma luta – os ex­plo­rados de todo o mundo e foram en­ce­tados ca­mi­nhos de or­ga­ni­zação, esse chão fértil de onde brotam todas as vi­tó­rias. Como dizia Sa­ra­mago, é pre­ci­sa­mente do chão que se le­vantam as se­aras e as ár­vores, mas também os ho­mens e as suas es­pe­ranças.

 https://www.avante.pt/pt/2623/opiniao/174875/Levantados-do-ch%C3%A3o.htm

sexta-feira, 18 de novembro de 2022

Um trecho de "Memorial do Convento", de José Saramago

* José Saramago

"D. João, quinto do nome na tabela real, irá esta noite ao quarto de sua mulher, D. Maria Ana Josefa, que chegou há mais de dois anos da Áustria para dar  infantes à coroa portuguesa e até hoje ainda não emprenhou. 

Já se murmura na corte, dentro e fora do palácio, que a rainha, provavelmente, tem a madre seca, insinuação muito resguardada de orelhas e bocas delatoras e que só entre íntimos se confia. que caiba a culpa ao rei, nem pensar, primeiro porque a esterilidade  não é mal dos homens, das mulheres sim, por isso são repudiadas tantas vezes, e segundo, material prova, se necessária ela fosse, porque abundam no reino bastardos da real semente e ainda agora a procissão  vai na praça.

Além disso, quem se extenua a implorar ao céu um filho não é o rei, mas a rainha, e também por duas razões. A primeira razão é que um rei, e ainda mais se de Portugal for, não pede o que unicamente está em seu poder dar, a segunda azão porque sendo a mulher, naturalmente, vaso de receber, há-de ser naturalmente suplicante, tanto em novenas organizadas como em orações ocasionais. Mas nem a persistência do rei, que, salvo dificultação canónica ou impedimento fisiológico, duas vezes por emana cumpre vigorosamente o seu dever real e conjugal, nem  a paciência e humildade da rainha que, a mais das preces, se sacrifica a uma imobilidade total, depois de retirar-se de si e da cama o esposo, para que se não perturbem em seu gerativo acomodamento os líquidos comuns, escassos os seus por falta de estímulo e tempo, e cristianíssima retenção moral, pródigos os do soberano, como se espera de um homemque ainda não fez vinte e dois anos, nem isto nem aquilo fizeram inchar até hoje a barriga de D. Maria

Ana. Mas Deus é grande."

quarta-feira, 16 de novembro de 2022

Rota Memorial do Convento: de Lisboa a Mafra, seguimos Sete-Sóis


Passeios

Rota Memorial do Convento: de Lisboa a Mafra, seguimos Sete-Sóis

A Rota Memorial do Convento leva-nos por lugares da obra de Saramago e monumentos do século XVIII, numa viagem que tem tanto de literatura quanto de património histórico-cultural.

Mara Gonçalves e

Daniel Rocha

12 de Junho de 2021, 8:01

 

Numa taberna ao lado da Casa dos Diamantes, nome pelo qual também é conhecida a Casa dos Bicos, hoje sede da Fundação José Saramago, Baltasar Sete-Sóis “comprou três sardinhas assadas, que sobre a indispensável fatia do pão, soprando e mordiscando, comeu enquanto caminhava em direcção ao Terreiro do Paço”.

É ali, no Campo das Cebolas e da oliveira onde pousam as cinzas do escritor, então mercado da Ribeira Velha, em frente à Casa dos Bicos, onde “as vendedeiras gritavam desbocadamente aos compradores”, sacudindo braceletes, fios, cruzes, berloques e cordões, “tudo de bom ouro brasileiro”, que desembarca em Lisboa o protagonista do Memorial do Convento e arranca a nova rota dedicada à obra de José Saramago.

Não fosse a pandemia, estariam agora os aromas na grelha a invadir o bairro-alma dos arraiais dos Santos Populares. Mantêm-se as sardinhas na oferta de algum restaurante, que começa a ser tempo delas, e sendo assim é possível seguir Sete-Sóis nos passos e no petisco até ao Terreiro do Paço, segunda paragem no roteiro, onde arranca a obra do escritor português, narrando a união entre o rei D. João V e a rainha D. Maria Ana Josefa, e palco de uma das histórias mais emblemáticas do livro, a do padre Bartolomeu e da sua passarola.

De seguida, suba-se ao Rossio para recordar o primeiro encontro de Baltasar e Blimunda, lado a lado no auto-de-fé onde a mãe da protagonista é condenada por feitiçaria pela Inquisição. “E Blimunda disse ao padre, Ali vai minha mãe, e depois, voltando-se para o homem alto que lhe estava perto, perguntou, Que nome é o seu, e o homem disse, naturalmente, assim reconhecendo o direito de esta mulher lhe fazer perguntas, Baltasar Mateus, também me chamam Sete-Sóis.”

De Lisboa a Mafra

A nova rota, projecto iniciado em 2017 e agora lançado oficialmente, parte do romance publicado em 1982 pelo prémio Nobel da Literatura para criar um roteiro turístico que nos leva da Casa dos Bicos até ao Largo da Igreja de Cheleiros, num percurso com cerca de 58 quilómetros, atravessando os concelhos de Lisboa, Loures e Mafra. Iniciativa conjunta das três autarquias, nasce em parceria com a Fundação José Saramago.

“Trata-se de uma rota eminentemente literária, no sentido em que nasce de um livro, mas é uma rota que tenta abranger também outras componentes da cultura num sentido mais lato, sejam o património arquitectónico, religioso, a gastronomia...”, aponta Sérgio Letria, director da fundação, entidade que, desde a assinatura de um protocolo com as autarquias em Novembro do ano passado, assume a comunicação e a organização das actividades de divulgação da rota.

Para 2021, em datas ainda a anunciar, estão agendadas três visitas guiadas temáticas e três visitas mais gerais, uma por concelho. No entanto, através do site do projecto, do folheto informativo e dos painéis colocados em cada um dos pontos assinalados no mapa, é possível (re)descobrir obra literária, monumentos e paisagem de forma autónoma. Basta desempoeirar o livro e pôr pés ao caminho.

Por aqui navegaram reis, tijolos e estátuas

Chegados ao concelho de Loures, afastamo-nos do livro para nos concentrarmos na História. Não existe qualquer menção ao rio Trancão na obra de Saramago, mas sabe-se ter sido por aqui que foram transportados muitos dos materiais, estátuas e sinos que constituem hoje o Palácio-Convento de Mafra, monumento cuja construção dá corpo à narrativa do romance.

No século XVIII, a foz plácida que agora vemos desaguar no Tejo era “muito profunda e, por vezes, agitada”, ao ponto de impedir a travessia das barcas de uma margem para outra. “Era conhecido como o mar de Sacavém”, contam Florbela Estêvão e Paula Pitacas, da autarquia de Loures. Numa época em que o transporte fluvial era ainda o mais utilizado, havia até “uma carreira de barcos” que, duas vezes por dia, ligava Lisboa e Santo Antão do Tojal, do Trancão ao Tejo, e vice-versa.

É difícil acreditar, olhando o fio de água que corre entre as areias lamacentas, que aqui existiriam vários cais e toda a espécie de embarcações, das barcas de passagem às da pesca, passando pelo transporte fluvial de mercadorias, incluindo sal, as hortaliças das explorações agrícolas que ficam logo ali e, grão a grão, boa parte do colosso de Mafra, mais os homens que o ergueram e o rei que o mandou construir.

“O que pretendemos aqui foi valorizar a importância do Trancão no contexto da obra literária e de todo o território que envolvia a cidade de Lisboa no século XVIII”, aponta Florbela Estêvão. Daqui, e de cada um dos pontos assinalados na rota, nasce também “uma proposta de lugares a visitar” na área circundante, desmultiplicando o itinerário por tantos outros, consoante o interesse de cada um.

Em Loures sugerem-se, por exemplo, os dois centros interpretativos mais intimamente ligados ao tema: um dedicado ao contexto histórico-cultural da região no século XVIII, no museu municipal, e outro sobre alguns dos lugares relacionados com a obra de Saramago e a edificação do palácio-convento, na biblioteca municipal. Mas também igrejas, o museu de cerâmica ou o forte de Sacavém, entre outros.

A bênção dos sinos

Uma vez no Trancão, as embarcações subiam o rio até Santo Antão do Tojal, onde materiais e homens eram desembarcados para seguir caminho por estradas reais até Mafra. Na verdade, o leito do rio passa ao largo da povoação vizinha, mas el-rei mandou criar “um canal aberto a braço”, escreve Saramago, para desaguar mais próximo do Palácio dos Arcebispos a comitiva real, as estátuas italianas que veremos à entrada da basílica (e que, no livro, o escritor põe a conversar umas com as outras), ou os 119 sinos, há-de contá-los Filomena Santos já nos telhados do palácio-convento, que aqui foram abençoados, montada uma barraca real para o efeito e ao longo de várias cerimónias solenes, com presença de D. João V e sua corte.

Isto porque, elevada a diocese de Lisboa a patriarcado, Tomás de Almeida, primeiro patriarca de Lisboa, segunda figura do reino, “vai promover um conjunto de obras” para tornar a residência de Verão do arcebispado, em Santo Antão do Tojal, num “espaço nobre e de acordo com o seu estatuto social, económico e político”, conta Florbela Estêvão, em plena praça.

Desenhada pelo arquitecto italiano António Cannaveri, destaca-se a carga cenográfica da monumentalidade do largo e dos edifícios de pompa barroca, cercados de casario rasteiro e terrenos agrícolas. No meio rural, “recria-se o meio urbano”, uma “Praça do Comércio em escala contida e reduzida ao local”. Lá ao fundo, a fonte-palácio e, atrás, o aqueduto. Ao nosso lado, a igreja, ampliada por Tomás de Almeida, e o Palácio dos Arcebispos, requalificado com painéis de azulejos notáveis em todas as salas, uma escadaria de aparato onde reluzem de amarelo-dourado as vestes das três figuras de convite, e outros pormenores característicos do período barroco.

A propriedade continua a pertencer ao Patriarcado de Lisboa, mas é gerida pela Casa do Gaiato. “Em tempos, os miúdos ficavam dentro do palácio. Há fotografias das salas com camas, eram as camaratas.” Actualmente, a instituição aluga a utilização dos espaços para eventos privados (casamentos, por exemplo), como fonte de rendimento. No entanto, é possível visitar os jardins de alamedas simétricas, tanques e pombais adornados a azulejos, assim como as salas do palácio através de marcação prévia com a autarquia de Loures.

É aqui que nos reencontramos com o Memorial do Convento e Baltasar Sete-Sóis, “boieiro de uma das juntas que vão puxando S. João de Deus, único santo português da confraria desembarcada da Itália em Santo António do Tojal e que vai, como quase tudo de que se fala nesta história, a caminho de Mafra”.

Mafra, a obra

Por outras estradas, mais suaves e quase sempre cortadas a direito, no conforto do autocarro e de estômago refastelado no Solar dos Pintor, na Manjoeira, também nós seguimos para Mafra, tentando imaginar aquelas “dezoito estátuas em dezoito carros, juntas de bois à proporção, homens às cordas na conta do já sabido” e Sete-Sóis a braços lá metido, numa caravana de trabalhos que só não se compara à da “pedra de Benedictione”, quem estudou a obra de Saramago dificilmente esquece aquele que é um dos momentos-chave de Memorial do Convento.

Já a temos sobre as cabeças – para trás ficaram as tormentas descritas pelo escritor, oito dias completos para trazê-la de Pêro Pinheiro, com duzentas juntas de bois e 600 homens –, parece pequena a alva laje de mármore vista cá de baixo, cinco metros por três, com uma racha que vai até ao capitel. É a base da varanda da janela central da Sala da Bênção virada ao terreiro, onde o rei podia aparecer “a saudar o povo, com um cenário de igreja por trás, como se ele próprio fosse o Papa em São Pedro do Vaticano”, aponta Filomena Santos, do serviço educativo do Palácio-Convento de Mafra. “O convento fica do lado de trás, mas como o palácio também ocupa todo o último piso, ficando sobre o convento, simbolicamente temos o poder do rei sobre o poder da igreja.”

Desde o torreão norte, apartamento do rei, ao torreão sul, apartamento da rainha, vão 232 metros – medida da “distância da intimidade no século XVIII quando falamos da família real”, atira Filomena. “Saramago dá ênfase a isso, fazendo o paralelo entre a família real e a família do povo, colocando-se, obviamente, sempre do lado do povo, porque a grande opção dele é elogiar quem faz, quem constrói”.

Para se erguer o monumento, classificado como Património Mundial pela UNESCO em 2019, chegaram “a trabalhar em Mafra e para Mafra” cerca de 45 mil operários e sete mil soldados, desde a colocação da primeira pedra, em 1717. De convento para 13 frades, D. João V decidiu subir para 40, depois 80 e, por fim, 300 e, dois anos antes da bênção da Basílica de Mafra, avança ainda que também quer um palácio. “É o que faz o dinheiro do ouro do Brasil.” Os trabalhos na basílica já estavam tão avançados que fica-se em tamanho para 80 frades e é inaugurada em 1730, ainda sem cúpula nem as estátuas que agora admiramos à entrada, trazidas em caixas e cobertas de lã, “porque a palha mói e havia risco de se partirem”.

Quando o Memorial do Convento se tornou leitura obrigatória na disciplina de Português, o Palácio de Mafra “começou a trabalhar com as escolas” e a fazer visitas guiadas sobre a obra. “Antes de ter sido retirado e substituído pelo Ano da Morte de Ricardo Reis, acompanhámos à volta de 32 mil alunos e tivemos à volta de 30 mil a assistir ao espectáculo de teatro”, contabiliza Filomena.

Haveremos de entrar para espreitar a basílica, subir à enfermaria e cruzar as celas, somar salas e salas, subir junto da “caixa de música gigantesca” de um dos carrilhões até aos telhados, descer à biblioteca e à antiga zona conventual, hoje sede da Escola de Armas. E, com tudo somado, já não haverá tempo para mais paragens no roteiro. Para fazer tudo, seriam precisos dois dias, garantem-nos. Ficam fixadas as moradas das três igrejas por onde falta passar no concelho de Mafra, para um regresso: São Miguel de Alcainça, localidade onde, na obra, se encontram as estátuas com os noviços; Santo André de Mafra, muito perto de onde ficaria “a casa dos Sete-Sóis”; e a Igreja de Cheleiros, localidade onde, durante a travessia da pedra, “ficou um homem para enterrar” e “a carne de dois bois para comer”. Porque “o rei faz a promessa, mas quem a cumpre é o povo”, dizia Filomena há pouco. E o Memorial do Convento não os deixa esquecer.

Montemor-o-Novo, concelho onde se desenrola a maior parte da acção do livro de José Saramago "Levantado do Chão" DANIEL ROCHA

A obra de Saramago em rotas pelo país

Há “outras rotas literárias também a nascerem” da obra deixada pelo escritor português, aponta Sérgio Letria, presidente da Fundação José Saramago, junto à Casa dos Bicos, de onde parte este roteiro inspirado pelo romance Memorial do Convento.

Em Fevereiro do ano passado, foi inaugurado o roteiro literário Levantado do Chão, dedicado à obra homónima, desenhado pela autarquia de Montemor-o-Novo, onde se desenrola grande parte do livro, em colaboração com o município de Évora, o Museu do Aljube e a Fundação José Saramago. No final de Maio deste ano, nasceram o site e a aplicação móvel do projecto.

E se, “há três ou quatro anos”, a fundação guia passeios literários em Lisboa pelo Ano da Morte de Ricardo Reis, no início de Junho deverá ser apresentado novo roteiro, desta vez inspirado na obra Viagem do Elefante, organizado pela associação Territórios do Côa. “Em 2009, fizemos um percurso ainda com José Saramago, de Lisboa até Figueira de Castelo Rodrigo, seguindo os passos do elefante de Salomão. E já nessa altura queríamos que essa fosse a génese, a semente que desse origem a uma rota literária”, recorda Sérgio Letria.

tp.ocilbup@sevlacnog.aram

tp.ocilbup@ahcord

https://www.publico.pt/2021/06/12/fugas/noticia/rota-memorial-convento-lisboa-mafra-seguimos-setesois-1964716


sexta-feira, 20 de agosto de 2021

José Saramago - Há-de haver

* José Saramago

Há de haver uma cor por descobrir,
Um juntar de palavras escondido,
Há-de haver uma chave para abrir
A porta deste muro desmedido.

Há-de haver uma ilha mais ao sul,
Uma corda mais tensa e ressoante,
Outro mar que nade noutro azul,
Outra altura de voz que melhor cante.

Poesia tardia que não chegas
A dizer nem metade do que sabes:
Não calas, quanto podes, nem renegas
Este corpo de acaso em que não cabes.

sábado, 2 de janeiro de 2021

José Saramago -Aguentemos o Rito



Carlos do Carmo, interpreta "Aprendamos o Rito", um poema de poema de José Saramago
musicado por Miguel Ramos


* José Saramago

Põe na mesa a toalha adamascada
Traz as rosas mais frescas do jardim
Deita o vinho no copo, corta o pão
Com a faca de prata e de marfim

Alguém veio juntar-se à tua mesa
Alguém a quem não vês mas que pressentes
Cruza as mãos no regaço, não perguntes
Nas perguntas que fazes é que mentes

Prova depois o vinho, come o pão
Rasga a palma da mão no caule agudo
Leva as rosas à fonte, cobre os olhos
Cumpriste o ritual e sabes tudo.

in "Os Poemas Possíveis", 


quarta-feira, 7 de agosto de 2019

FRANCISCO LOUÇÃ - Autobiografia, de José por José


* FRANCISCO LOUÇà 

José Luís Peixoto publicou a sua “Autobiografia”, um romance sobre a relação verdadeira e a ficcionada entre o autor e outro José, Saramago. É uma narrativa da admiração, do afeto e até da descoberta, em que não sabemos, nem na verdade interessa saber o que é factual, ou inspirado em factos reais, ou a imaginação do autor sobre a sua admiração por um escritor consagrado e já no auge da sua carreira. Saramago poderia ser o que Peixoto quereria da vida. Mas essa não é a história desta autobiografia. O que ali se lê é outra coisa: é o esforço e o ofício do escritor, no seu quotidiano pesado, algumas vezes exasperado, outras desesperado, raramente tranquilo.

É ao voltar a uma escrita mais próxima da sua realidade vivida e mais longe de alguma imaginação ficcional que o escritor se torna mais ousado na exploração da linguagem e dos seus personagens. Gosto mais deste Peixoto. Contando de si próprio, é mais livre

Tanta curiosidade, José olha intensamente para o outro José, consegue um pretexto para falar com ele pela primeira vez, ainda não é íntimo, nem próximo, nem sequer é lido, também ainda publicou tão pouco, mas em todo o caso escreveu um dos seus melhores livros, “Morreste-me”, e porque é que o escritor famoso havia de ter lido uma pequena edição de autor, chega a tempo ao encontro, quer uma entrevista, não sabe se deve gravar ou tomar notas, entorna a bebida na mesa, está nervoso, quer saber mas não lhe saem as perguntas. E depois lê. Talvez o escritor pudesse conhecer o outro escritor só pela escrita, isso podia bastar, afinal é assim para todos nós. Mas José quer conhecer José, quer ver como se move, ouve a voz de Pilar, entrevê os seus amigos, as suas coisas, os seus lugares. Há mais mundo para além da mão que escreve. O roteiro dessa ronda chama-se “autobiografia”, como se o eu fosse aqui uma entidade difusa, quem é quem? E há um amor cabo-verdiano, e há uma criança, e um bairro de imigrantes, e a encomenda de uma biografia.

Em tudo isso há muito do que quem lê José Luis Peixoto já conhece, mas há também uma chispa diferente. É interessante, é ao voltar a uma escrita mais próxima da sua realidade vivida e mais longe de alguma imaginação ficcional que o escritor se torna mais ousado na exploração da linguagem e dos seus personagens. Gosto mais deste Peixoto. Contando de si próprio, é mais livre. Talvez a literatura seja mesmo isto.


quarta-feira, 14 de março de 2018

José Saramago - Três paixões e as outras mulheres de um escritor

Memorial Do Convento
21 DE JUNHO DE 2010
01:00

MARIA JOÃO CAETANO
Memória. As três influenciaram, cada uma à sua maneira, a obra literária de Saramago: Ilda Reis, Isabel da Nóbrega e Pilar del Río

Do amor de José Saramago e Pilar del Río já tudo foi contado. De como em 1986 ela, jornalista, 36 anos, ficou maravilhada ao ler O Ano da Morte de Ricardo Reis quis vir a Lisboa fazer o percurso aí descrito entre o Hotel Bragança e o Cemitério dos Prazeres. De como telefonou ao autor para o felicitar e se encontraram e continuaram a trocar correspondência. E de como assim se foram apaixonando até se casarem em 1988. Ela, que já era fã de Saramago, tornou-se também a primeira leitora dos seus livros, corrigindo-os e traduzindo-os para castelhano. 'Comecei pelos livros', contou numa entrevista em 2001. 'Coleccionei-os antes de conhecer José. Posso dizer que gosto de falar dos livros de José Saramago porque já o fazia antes de o conhecer. Recomendei--os antes. Agora só tenho mais motivos para o dizer porque são os livros da minha vida.' Saramago transformou a vida de Pilar, primeiro com os seus livros e depois com o seu amor, explicava.

A cumplicidade do casal, que aparecia constantemente de mão dada, era visível. Com Pilar, José Saramago encontrou a paz e pôde, também, reconciliar-se com o passado. Embora se recusasse sempre, nas entrevistas que dava, a falar das suas anteriores paixões. Duas grandes paixões.

Com Ilda Reis esteve casado durante 26 anos. Conheceram-se quando ambos tinham 20 anos e nem ele era escritor nem ela era artista plástica. Saramago edita o primeiro livro em 1947, o mesmo ano do nascimento da sua única filha, Violante. Após o divórcio, pai e filha separam-se. Ela fica magoada pelo facto de o pai sair de casa para ir viver com Isabel da Nóbrega: 'Foi uma situação muito complicada para mim, de tal forma que há momentos que pura e simplesmente não guardei e não me lembro', contaria mais tarde a filha. E também existem divergências políticas: Violante militava no MRPP enquanto José Saramago era do PCP, conta João Céu e Silva no livro Uma Longa Viagem com José Saramago. Entretanto, Violante foi para a Madeira, Saramago encontrou Pilar. O tempo curou as feridas. Lentamente. Em 1998, depois do Nobel e da morte de Ilda Reis, a relação entre pai e filha já estava normalizada.

Antes disso, já tinha nascido Ana, filha de Violante, que aos 18 anos veio estudar para Lisboa, instalando-se na casa do avô na Estrela. Apesar de Saramago e Pilar viverem já em Lanzarote, Ana pôde finalmente conhecer o avô. 'Quando nos aproximámos eu já era madura (...), o que acabou por tornar a nossa relação muito sólida, muito próxima e muito de igual para igual', contou a Céu e Silva. Podiam 'ter conversas, discutir, argumentar, concordar e discordar'. 'Para além de escrever como escreve, é um prazer ouvi-lo falar', dizia a neta. O irmão, 12 anos mais novo do que ela, já não teve oportunidade de o conhecer assim, antes do boom do Nobel.

Depois de Ilda, antes de Pilar, houve ainda outra mulher: a escritora Isabel da Nóbrega. Conheceram-se no jornal A Capital, em 1968, e ela ficou logo caída por aquele olhar 'de quem estava a sofrer'. 'Aos poucos começou a haver um certo encantamento entre nós', contou ela, mais tarde. 'Um dia disse-lhe: agora você vai escrever crónicas' - e terá sido assim que nasceu um escritor e uma paixão. Viveram juntos durante 16 anos, período durante o qual Saramago escreveu, entre outros, Deste Mundo e do Outro (1971); Levantado do Chão (1980) e Memorial do Convento (1982) e O Ano da Morte de Ricardo Reis (1984) - todos eles nas suas primeiras edições tinham uma dedicatória a Isabel, a quem chamava de 'bruxinha'. Que o influenciou, ajudou e incentivou: 'Fui eu que o levei a Mafra. Ele não queria ir e eu disse--lhe que ele ia ficar esmagado, espantado, porque era uma coisa para ele. E lá, disse-me que até gostava de pôr aquilo num livro. E foi o Memorial do Convento.'


https://www.dn.pt/dossiers/gente/jose-saramago/perfil/interior/tres-paixoes-e-as-outras-mulheres-de-um-escritor-1598897.html

terça-feira, 30 de janeiro de 2018

Gabriel Mithá Ribeiro - Como Saramago forçou Pessoa a converter-se ao comunismo 49 anos depois de morto

Especiais
LITERATURA

Gabriel Mithá Ribeiro
25/1/2018, 10:32296

O efeito literário tentado por José Saramago resulta num jogo de espelhos em que a ficção serve de escudo a ambições ideológicas panfletárias cujo valor intelectual e cultural é quase nulo.

Talvez por não ter resistido à beleza da capa amarela com o título manuscrito da nova edição da Porto Editora ou por outro qualquer desígnio decidi ler «O Ano da Morte de Ricardo Reis». A escrita de José Saramago embala desde a primeira página pela criatividade e qualidade da forma. Porém, quanto mais se avança na leitura mais se esboroa o valor intelectual do conteúdo. Isso pela impossibilidade de desfiliar a narrativa de certos traços políticos demasiado óbvios do contexto em que foi originalmente publicada: 1984. Tal facto cruza o livro de José Saramago com a premonição de George Orwell revertida no título do seu livro. «Mil Novecentos e Oitenta e Quatro» tipifica a manipulação da linguagem no duplo sentido em que o manifesto verbal tem uma relação inversa com o resultado prático da ação.

«O Ano da Morte de Ricardo Reis» joga numa variante dessa duplicidade: anuncia-se como ficção com contextualização histórica, porém faz um inverso. Retrata a Península Ibérica nos anos de 1935-1936. Entre inúmeras possibilidades de escolha, a máquina cultural ultra seletiva do estado difunde ativamente «O Ano da Morte de Ricardo Reis» pelo suposto valor intelectual e cultural, isto é, não estamos perante um objeto menor na construção da memória coletiva dos portugueses.

Ressalvo, todavia, não estar em causa a falsificação de factos históricos. Mas é justamente porque José Saramago os trata com rigor que não é tolerável que sejam conjugados com propósitos de adulterar o sentido do tempo histórico. Para isso, importa insistir na data da publicação original d’«O Ano da Morte de Ricardo Reis»: 1984.

Vivia-se no contexto da guerra fria (1945-1991) e, à época, era impensável a implosão da URSS, ainda que a pátria-mãe do comunismo se afundasse numa crise, mas que se assemelhava a uma pausa para regeneração após o auge da superpotência soviética na década de setenta. O paralelo com a superpotência rival justificava-se. Os EUA tinham atravessado uma crise profunda na década anterior condicionada pelo primeiro choque petrolífero (1973), pela derrota na guerra do Vietname (1973) e pelo escândalo do Watergate (1972-1974). Todavia, na década de oitenta, os EUA estavam de regresso ao papel de liderança no sistema internacional profundamente regenerados.

Portanto, o livro é produto de um contexto em que permanecia intacta a crença numa URSS que poderia reinventar-se, apesar de atolada na guerra do Afeganistão (o Vietname soviético) e da enorme discrepância entre o seu poderio militar e político e as profundas debilidades de uma economia estagnada pelo comunismo. A crença no ideal é transportada com tal intensidade para o livro a ponto da construção ‘ficcional’ ficar dominada por propósitos idênticos aos do filme «A Revolução de Maio» (1937), obra propagandista do regime de Salazar, realizada por António Lopes Ribeiro, ridicularizada n’«O Ano da Morte de Ricardo Reis» (1984). Contudo, o efeito literário tentado por José Saramago resulta num jogo de espelhos. Num e noutro caso, a ficção serve de escudo a ambições ideológicas panfletárias cujo valor intelectual e cultural é quase nulo, por muito que os formatos se escondam em muitas imagens, palavras ou enredos.

O que move uma e outra ficção é a conversão dos descrentes, por via de uma relação amorosa improvável entre os protagonistas, a um amor profundo a uma causa maior inicialmente rejeitada pelo lado masculino. Este enredo simplório tanto visa a conversão dos descrentes às virtudes da governação de Salazar (‘fascismo’), como às escolhas políticas não menos virtuosas de Saramago (comunismo). O que distingue o último é ter necessitado de mais de quatro décadas, de muita investigação de arquivo (sobretudo da imprensa), de um interminável arrazoado de 494 páginas e de uma grande ausência de pudor na artimanha da evangelização póstuma de uma das maiores (senão mesmo a maior) figura intelectual portuguesa do século XX, Fernando Pessoa, para pagar na mesma moeda à «A Revolução de Maio».

Para os que continuam e continuarem vivos, substantiva é a diferença entre a saúde mental de não ambicionarem salvar do ridículo a propaganda política de um filme de 1937 comparativamente à indigência mental de fazer ascender a propaganda política em livro de 1984 à categoria de obra-prima, peça essencial que justificou a atribuição do Prémio Nobel da Literatura em 1998, portanto, após o colapso da URSS em 1991. A decisão da academia sueca conferiu a um extenso panfleto político rudimentar a dignidade de ser ensinado em universidades e escolas, por várias gerações, como suprassumo da lucidez intelectual. «Mas julgaes que n’isto se resume a litteratura portugueza? Não! Mil vezes não!» – escreveu José de Almada Negreiros em 1916-1917.

Em 1984, com a pátria-mãe do comunismo intacta, tal como as certezas num rumo da história que faria eclipsar o ideário ocidental capitalista decadente, José Saramago permite-se ironizar, recorrendo a estereótipos, sobre os comunistas com intuito de tornar óbvio o injustificado ridículo das críticas ao comunismo na época de Salazar. A questão é que o tempo está a transformar as ironias de 1984 num tiro que sai pela culatra. Entre os anos da escrita e a atualidade, por um lado, o comunismo sofreu um cataclismo e, para desgraça do autor, quem ler o livro no contexto do século XXI terá razões de sobra para fazer interpretações literais sobre o ridículo do comunismo que José Saramago esconde a coberto dos ridículos dos regimes conservadores da época. Por outro lado, hoje a relação dos europeus ocidentais consigo mesmos não é a mesma dos anos oitenta. Daí resulta uma erosão significativa da construção intelectual de José Saramago, sintoma infalível de má literatura.

«O Ano da Morte de Ricardo Reis» confere sentido irónico, com sabor a ridículo, ao facto de ter existido, na Europa dos anos trinta do século XX, um punhado de movimentos políticos preocupados em defender uma (subentende-se) indefensável civilização ocidental. Como a atualidade pós-guerra fria foi recolocando o assunto na ordem do dia, a suposta obra-prima de José Saramago fica sem pé. Pelo menos para uma parte dos portugueses e europeus é hoje mais do que legítimo rejeitar que o estado, por via do sistema de ensino, lhes impinja, e à respetiva descendência, uma obra que destrata a sua inteligência e convicções. Só um estado autoritário ou totalitário insiste em impor-se com obras como a de José Saramago à pluralidade da vida social, algo com que não se incomodam as atuais elites intelectuais e culturais.

Não sendo viável apontar outros aspetos de um livro extenso, sublinho que a aproximação ao epílogo (entre as páginas 449 e 494) desfaz as dúvidas. O ponto de referência da entrada no epílogo são as referências a Miguel Unamuno, intelectual nacionalista que teve papel ativo no início da guerra civil da sua Espanha (1936-1939). O português José Saramago esgrime argumentos pró-esquerda fortíssimos contra uma figura histórica de direita, mas de um tempo histórico que não é o seu. Na prática, José Saramago faz-se autor de uma vitória apoteótica de um intelectual vivo sobre um intelectual morto. Nem sei se é possível encontrar uma designação que disfarce a indignidade da ‘técnica’ literária.

Miguel de Unamuno é, na leitura de José Saramago, a personificação do mal, entre os que melhor representa o óbvio lado mau que atenta contra a vida do povo sofredor, fazendo parelha com a igreja, as chefias militares e a demais elite rica nacionalista espanhola, conjunto que começa a ser retratado através dos que se exilaram em Lisboa no Hotel Bragança ou que se exibiam nos «Estoris» durante a guerra civil, nos bairros da gente rica da linha de Cascais. Depois, com a força da sua pena literária, José Saramago invade mesmo a Espanha durante a guerra civil – mas em 1984… – em defesa dos que congregam todas as virtudes: a Frente de Esquerda que estava a ser derrotada. A esta, José Saramago abençoa as atrocidades praticadas pelos seus, atrocidades tidas como selváticas se perpetradas pelos conservadores, com uma descrição pungente do que se passou na praça de touros de Badajoz (p.466, mas que deve começar a ser lida pelo menos a partir da p.462).

Nesse olhar seletivo sobre a violência que nada deve a um sofisticado panfleto soviético, é claro que n’«O Ano da Morte de Ricardo Reis» o repugnante Victor, intelectualmente limitado e com intenso cheiro a cebola, só poderia ser quem é: agente da PVDE [antecessora da PIDE]. Com uma imaginação literária que não dá para mais, José Saramago quis fazer história e, parece que a contragosto, teve de compor um ramalhete de personagens ajustado à utopia em que se destaca Lídia, mulher do ‘povo’ com hábitos de vida desempoeirados e sem estudos, o reverso das elites. É uma empregada de hotel carregada de dignidade e de bons sentimentos, em especial em relação ao seu irmão resistente comunista, Daniel Martins, no epílogo morto na rebelião da marinha no Tejo [8 de setembro de 1936].

Lídia, incansável trabalhadora cuja simplicidade, lucidez e amor desinteressado, que se se submete ao prazer carnal do parceiro, acabam por converter à causa comunista o médico Ricardo Reis, homem rico, conservador e poeta recém-chegado do Brasil nas últimas semanas de 1935 por causa da morte do seu criador, Fernando Pessoa. O último tem direito a circular entre os vivos mais nove meses após o funeral por existir um tempo equivalente para o abandono definitivo da vida ao que existe na sua entrada, os nove meses de gestação. O morto, Fernando Pessoa, vai acompanhando a conversão de Ricardo Reis às virtudes do comunismo que o último, ou ambos, carregam para a eternidade quando finalmente se fecham no túmulo em 1936.

A obsessão de José Saramago com uma certa ideia de ‘povo’ em 1935-1936, tipificando-o em Lídia, tem o senão de ignorar que a I República (1910-1926) tinha caído dez anos antes precisamente por desprezar um povo conservador, rural e católico. Esse mesmo povo que, em 1917, tinha gerado o fenómeno popular das aparições de Fátima, marco na reconstrução identitária dos humildes por si mesmos contra humilhações impostas pelo radical anticlericalismo republicano. A peregrinação a Fátima de 1936 não escapa à sátira de José Saramago. Como bom comunista, é tão incapaz de retratar o que funda a dignidade do povo (com tudo o que de ambíguo isso comporta), quanto extraordinariamente hábil em fabricar um tipo de ‘povo’ que quase só existe na cabeça do escritor.

Considerando que o clímax d’«O Ano da Morte de Ricardo Reis» é a conversão de Fernando Pessoa, por via do heterónimo Ricardo Reis, quarenta e nove anos depois de morto aos encantos do comunismo, estamos perante uma grosseria intelectual bem mais corrosiva para a cultura e identidade portuguesas do que a propaganda do Estado Novo com o filme «A Revolução de Maio». No mínimo, o filme de 1937 e o alter-ego em livro de 1984 deveriam ter o tratamento que merecem em universidades e escolas: exemplos de ridículo intelectual.

http://observador.pt/opiniao/como-saramago-forcou-pessoa-a-converter-se-ao-comunismo-49-anos-depois-de-morto/

quinta-feira, 23 de novembro de 2017

Pilar del Rio: “José foi uma maldição”


JOÃO LIMA
Diz que chegou a Portugal como o “apêndice” de um homem e que, por cá, não faz parte da memória de ninguém. Mas carrega o peso de um legado imensamente português, que ajudou a construir. O trabalho na Fundação Saramago valeu-lhe o Prémio Luso-Espanhol de Cultura, que receberá em maio


ALEXANDRA CARITA

LUCIANA LEIDERFARB
texto

JOÃO LIMA
fotos

Recebe-nos no gabinete que ocupa na Fundação Saramago. E, mal abre a porta, a luz: Pilar é alta, bonita, exuberante, jovem. Uma jovem de 67 anos — idade que, dirá, não encontra em nenhuma parte do seu corpo. Rapidamente somos puxados para dentro do seu turbilhão, esse que a levou a criar esta casa há uma década, a casar com “um dos cidadãos mais completos do século XX”, 30 anos mais velho do que ela, a abdicar de uma carreira de jornalista, a mudar de pele, de país, a não parar de trabalhar, mesmo que o cansaço por vezes se imponha. E quem é esta mulher? Alguém que não quer morrer numa “decadência ostensiva”. Que não corresponde, nunca correspondeu, a estereótipos ou normas sociais. Que acorda todos os dias para viver “da e com a memória”, consciente de ter sido protagonista de uma experiência que muitas mulheres gostariam de ter tido. Uma “maldição” que ainda hoje, sete anos passados sobre a morte de José Saramago, a afasta de refazer a vida, porque, simplesmente, não lhe apareceu à frente outro igual a ele.

Sabendo que não gosta que lhe 
chamem a viúva de Saramago, quem é Pilar del Río hoje, aos 67 anos?
Não gosto que me chamem ‘viúva de’ porque ninguém me chamou ‘mulher de’ enquanto Saramago foi vivo. Isto por duas razões: porque tinham de enfrentar Saramago e tinham de me enfrentar a mim. Cada um de nós é o produto de si próprio. Não somos nem do pai nem do filho. Somos o que queremos ser. Nunca fui a mulher de Saramago nem serei a viúva dele, por respeito a Saramago e a mim própria.

E então quem é essa Pilar?
Uma mulher que não corresponde a estereótipos como o bom comportamento ou às normas sociais que se esperam de alguém que já tem uma idade. Talvez porque essa mulher ainda não consiga encontrar os 67 anos em nenhuma parte do seu corpo. Claro que me olho ao espelho, mas acho que o que está mal é um problema do espelho. Sou uma pessoa que todos os dias, ao acordar, pensa no que quer fazer da sua vida. Não tenho ainda um caminho definido. Ou seja, não estou reformada de nada. Faço a minha vida como quando tinha 20 ou 30 anos. Vou trabalhar. Não quer dizer que não tenha problemas. Tenho-os, de saúde...

Não sente que abdicou de uma carreira?
Sinto que tive um impasse. Isso também me dizia o meu marido, que eu tinha abdicado de uma carreira para estar com ele, para participar e estar no seu projeto, e, de facto, fui parte ativa nesse projeto. Mas ele também dizia, nos últimos anos da sua vida e pensando nestas coisas da internet (fiz-lhe um site), que eu tinha voltado à minha antiga profissão, a de jornalista. A contar, a dizer, a compor... Se calhar, estou de volta ao projeto inicial da minha vida.

Essa mulher que está no seu projeto original persegue um caminho, quer alguma coisa. O que é?
Tendo conseguido que esta fundação funcione e que tenha gente entre os 30 e os 40 anos, essa mulher não quer morrer numa decadência ostensiva.

Porque é que se tornou jornalista?
Porque gostava de contar coisas que antes gostava de ouvir. Acima de tudo, sou uma ‘ouvidora’, oiço, oiço todo o tipo de gente em todo o tipo de circunstâncias. Tudo me maravilha. Nasci para me maravilhar com uma bola que rebola, com uma estrada que está a ser arranjada... Gosto de contar essas coisas. Tive um programa de rádio há muito tempo, já depois de ter conhecido o José, chamado “Blimunda Não Se Rende”. Nele contava as maravilhas que Blimunda, que era pobre e sozinha, ia encontrando no mundo.

É mais fácil viver quando se acredita no mundo e se está maravilhado 
com ele?
Eu não acredito absolutamente nada num mundo que está a ser governado por gente em que não acredito nem quero acreditar. O que não me maravilha são todas as insolências e as perversões que os poderes económicos praticam no mundo e as guerras que criam. Maravilha-me que haja refúgios e momentos de harmonia e de poesia. Fomos feitos para sermos seres passivos e sofredores, estamos preparados para ser a massa no que respeita aos conceitos de política e ao domínio do social e fiéis no que concerne à religião. Maravilha-me que de repente haja gente que é ela própria e que é feliz.

A religião fez parte da sua vida...
Nunca vi Deus. O que me atraía na religião era uma forma bonita de relação com os seres humanos, que acontecia através da caridade cristã, entendendo a caridade como amor. Mas isso foi antes de descobrir que acima da caridade estava a solidariedade. Esse momento teve a ver com a minha chegada à faculdade, com a possibilidade de partilhar, com as melhores pessoas, as ideias de liberdade, contra a tirania e a ditadura, ideias que vieram também com a leitura. Hoje descubro que a caridade, no seu sentido etimológico de amor e de partilha, também me interessa muito.

Quando é que percebeu que Espanha vivia numa ditadura?
Desde sempre. Em criança sabia que vivíamos num país criado por obra e graça de Deus. Sabia que Deus tinha criado Franco para fazer o país preferido dele.

Aprendeu-o na escola?
Não foi preciso, já o tinha aprendido em casa: Deus criou Franco e Espanha! Claro que, ao crescermos, nos apercebemos de que o mundo é maior do que Espanha. Damo-nos conta disso por uma notícia num jornal, um livro que lemos... Com 14 ou 15 anos descobres que há países onde se vota e aos 18 já sabes que em Paris está a acontecer muita coisa. Tudo começa a encaixar-se, a fazer sentido. E, com a mesma naturalidade que se aceitou fazer a primeira comunhão, aceita-se deixar de ir à missa. Lembro-me perfeitamente da última vez que me fui confessar: o padre perguntou-me se já tinha acabado, e eu respondi-lhe que sim, mas que havia coisas que não lhe ia dizer. Não ia confessar o amor nem que estava com o homem que escolhi, o meu primeiro marido.

No entanto, casou com ele pela Igreja e batizou o seu filho...
Fi-lo para não dar um desgosto à minha mãe, que vivia uma guerra civil e não tinha de suportar as iras do meu pai. Porém, a palavra ‘família’ provoca-me fastio, repugna-me. Faz parte do ADN que te dão a conhecer: Estado, Família e Religião; Deus, Pátria e Família, se quiserem. Vi tudo isso em casa. Fi-lo para não aumentar o conflito entre a minha mãe e o meu pai. Para mim, era igual, queria lá saber da religião. Casei-me pela Igreja porque a religião não me dizia nada. Era como pôr um vestido comprido para ir a uma festa social ou usar uma joia, tanto me fazia. Deus não significa nada para mim. Se há um Deus, ele vai perceber que tudo o que inventaram à sua volta é uma merda. Quero que haja um Deus para lhe pedir contas sobre o que fez aos seres humanos, às mulheres.

De onde vêm as suas convicções?
De um mundo cheio de pobres diabos. Vivo com seres humanos que tentam levantar a cabeça e não conseguem, porque lha cortam.

Disse que em sua casa havia 
um conflito e que rejeita a ideia 
de família. Porquê?
Rejeito-a porque tenho os olhos abertos para o que acontece no mundo, as hipocrisias e mentiras que se fazem e dizem por aí. Descobri isso ao ver “O Último Tango em Paris”, de Bernardo Bertolucci, em especial o momento em que ele se vira para ela e lhe diz: “Mete o dedo no cu. A que cheira?” Era uma boa família! Quer isto dizer que as primeiras mentiras que o ser humano diz — porque se chegou tarde a casa, porque se precisa de qualquer coisa, porque se tem medo — são à família, em família. Na minha casa, o conflito traduzia uma sociedade patriarcal a viver numa ditadura política e religiosa. Havia o nacional-catolicismo. Eu não sabia quem era mais importante, se Deus, se Franco. Tinha dias. Qualquer coisa que saísse do âmbito do nacional-catolicismo era um problema, e se fosses respondona como eu eram problemas acrescidos. A última vez que o meu pai me deu uma bofetada já eu tinha 23 anos.

O que fez?
Fui-me embora, estava de férias e fui ter com o meu namorado. Até a minha mãe me apoiou. Bateu-me porque eu estava a defender uma irmã adolescente que tinha chegado a casa 10 minutos atrasada.

Percebe-se que a relação com o seu pai era complicada...
Não era complicada, porque nem sequer tive uma relação com o meu pai. Não se têm relações com os pais. Os pais existem para mandar em nós.


Trabalhar. É o que Pilar faz todos os dias, desde que assumiu a presidência da Fundação Saramago, a completar uma década. Na foto lê a passagem de “Jangada de Pedra” em que Saramago descreve o primeiro encontro entre os dois
JOÃO LIMA

O que faziam os seus pais?
O meu pai era um tipo singular. Foi frade dominicano e depois aviador e agente de seguros. A minha mãe, submissa, tinha de ‘se defender’ de 15 filhos e do marido. Era uma mulher extraordinária.

E como é ser a mais velha 
de 15 irmãos?
Não sei, acho que gostava de ter sido a mais nova de todos. A verdade é que partilhei a responsabilidade com a minha mãe na hora de tomar decisões, assim como as tarefas diárias, que iam de pôr toda a gente na escola a dar de comer e vestir... Foi um excesso de responsabilidade, do qual beneficio hoje em dia.

Tentou ser diferente como mãe?
Fui uma má mãe, porque sempre pensei que seria a vida a educar o meu filho e não eu. Nunca pensei no que queria ser como mãe, tinha outras coisas que fazer.

Que relação mantém com o seu filho, hoje já com 40 anos?
Trato-o como uma pessoa que é independente e que está a trabalhar. E está a trabalhar sobre Saramago.

O que é que faz?
É uma história linda. O meu filho estava a viver na Argentina, pois detestava a ideia de estar num país onde tivesse de se relacionar com o José ou comigo. Mas quando o José adoeceu a sério, perguntou-me se eu queria que me viesse ajudar. E veio da Argentina para Lanzarote com um amigo e fez com que a minha casa nunca fosse uma enfermaria. Ficaram até ao dia em que o José morreu. Neste momento está em Lanzarote a fazer visitas guiadas à casa todos os dias.

Houve um antes e um depois 
de Saramago?
Claro. Eu trabalhava como jornalista, tinha um programa e vivia num país. O facto de estar com José Saramago fez-me deixar um posto de trabalho estupendo e vir para um país onde não faço parte da memória de ninguém, nem então nem agora. Antes estava com o José, agora estou com a memória do José.

E quem é a Pilar depois do José?
Uma mulher muito mais velha, com uma experiência maravilhosa que muitas das mulheres que conheço, e mesmo algumas que não conheço, gostariam de ter tido. Sou uma privilegiada, vivi uma história absolutamente singular que partilho de manhã à noite todos os dias na fundação, na casa de Lanzarote, na Azinhaga. Vá para onde for, partilho essa história, porque é demasiado grande para a guardar só para mim: é a história de um dos cidadãos mais completos do século XX, uma pessoa que nasceu para ser massacrada e não o foi, que se levantou do chão, que se fez a si próprio, que não precisou de ser ‘filho de’, que nem sequer tinha o apelido do pai. Uma figura que os burgueses de mente curta ainda não conseguem compreender. Aqueles que não entendem a literatura de Saramago ou o próprio Saramago têm de ir a um especialista, pois são egoístas ou doentios ou têm uma conceção da vida demasiado elitista. Mesmo os que não concordam com Saramago não podem negar que ele os arrasa. Saramago é a-rra-sa-dor, um tipo que em menos de 30 anos construiu uma obra como esta. Alguém que escreveu “O Evangelho segundo Jesus Cristo”.

Fala de uma elite que ainda não compreendeu Saramago. Alguma vez se zangou com Portugal?
Não. Para mim, não existem países. Tenho semelhantes. O que é que herdei do franquismo? A repulsão pela bandeira.

Então reformulemos: alguma vez se zangou com os semelhantes 
de Saramago?
Zanguei-me com os espíritos pequenos, ou melhor, com o comportamento de alguns indivíduos, sobre os quais só me ocorre dizer “coitados”. Esses que escrevem uma coluna em Portugal e teorizam e dogmatizam, mas não chegam nem à raia de Badajoz. Passando Badajoz, não são ninguém. Não suporto quando começam com a conversa de que Saramago saneou não sei quantas pessoas. Não, desculpem, o diretor literário não faz saneamentos, foi a administração, há provas. E escrevem isso em jornais que mal pagam aos seus colaboradores, que mal pagam aos seus redatores e que põem na rua jornalistas. Mas esses não são saneados. Têm ódio à revolução, no fundo querem ser aristocratas. Mas não são!

Como é que um encontro pode 
mudar uma vida?
Não tive consciência de que a terra tremeu. José Saramago sim, e descreve-o na “Jangada de Pedra”. Eu não. Senti tudo isso com uma enorme naturalidade. Saí do encontro com ele e disse: “Vai acontecer qualquer coisa!” Cheguei a Espanha, e a primeira coisa que fiz foi telefonar à pessoa com quem namorava na altura para lhe dizer que não íamos continuar. Passou junho, julho, agosto. Em setembro recebi uma carta: “Se as circunstâncias da vida mo permitirem, gostaria de te ir ver.” Já me tinha dado recomendações de leitura, a nossa correspondência nesse sentido era quase ditatorial. Eu tinha de ler “Uma Família Inglesa”, de Júlio Dinis, o “Amor de Perdição”, de Camilo Castelo Branco, a Agustina Bessa-Luís, a Lídia Jorge...

Soube logo que ia dedicar-se a este homem?
Dedico-me à vida, aos meus irmãos, e se na vida está o meu marido dedico-me a ele; se está a fundação, dedico-me a ela. Ou seja, sou uma mulher dedicada. Mas, sim, dediquei-me a ele de corpo e alma, sabendo que era uma pessoa inesgotável. Começava uma conversa que nunca dava por terminada, porque tinha sempre pontos de vista diferentes, tal como a sua literatura. Era uma pessoa com uma formação infinitamente superior à minha. Foi uma maldição.

Maldição?
Sim, depois de o ter conhecido já não consegui gostar de mais ninguém.

Nunca pensou em refazer a sua vida?
Com quem? Deem-me outro. Só teria reconstruído a minha vida se tivesse aparecido alguém assim por quem me apaixonasse. Acho que os homens se impressionam com isso, que não querem ser comparados.

Como era ser 28 anos mais nova e 
saber que sobreviveria a esse amor?
Tínhamos isso muito claro e preparámos tudo. Uma vez, Madalena Perdigão disse-me, pouco tempo depois de a conhecer, que tinha uma relação com um homem mais velho e que isso a fazia sofrer muito, pois a sociedade não a entendia. A sociedade só percebe o lugar-comum. Acontece que ela morreu dois anos depois e o marido viveu quase até aos 100. O José e eu sabíamos que era uma lei da vida. E numa conversa ao almoço em Lanzarote, com dois amigos espanhóis, surgiu a ideia de fazer uma fundação para tomar conta do seu legado humanista — não de uma herança ou de uma biblioteca. Saramago primeiro não achou grande ideia, mas a conversa continuou e, no final, disse-me que, se eu lhe sobrevivesse, queria que me ocupasse da fundação.


Legado. Foi num almoço em Lanzarote que surgiu a ideia de criar uma fundação. Saramago acabou por anuir e disse a Pilar que, se ela lhe sobrevivesse, queria que avançasse com o projeto
JOÃO LIMA

Uma vez disse que ele queria que 
“o continuasse”. Como se continua José Saramago?
É terrível. Pelo menos, Saramago tinha uma companhia, eu não.

Sente-se sozinha?
Não. O problema é quando viajo. Nos últimos dois anos tem sido mais difícil viajar sozinha, com uma mala, de aeroporto em aeroporto, para compromissos relacionados com Saramago. No penúltimo país que visitei tive uma quebra, pensei que ia morrer, tive de tomar um tranquilizante. Sou a escrava, a protagonista e a que apanha os copos. Ou seja, há de chegar o dia em que não conseguirei fazer mais. O José não tinha de fazer a mala, não ia sozinho. Falava e era Deus. Eu não sou Deus e tenho de falar como Deus. Sou recebida por chefes de Estado, estou presente em conferências, em todo o tipo de situações. A vida é complicada.

O que significa para si a Fundação Saramago?
É a residência do pensamento do José. As editoras só publicam livros para ganhar dinheiro. É um negócio. Mas quem trabalha o pensamento de José Saramago? Já não há editoras que publiquem ensaios. Então somos nós que o fazemos. Exemplo disto é a “Proposta de Declaração Universal dos Deveres Humanos” — que tem a ver com a nossa obrigação de retribuir à sociedade e vai ser apresentada à ONU — ou a difusão do teatro. Houve teatro de Saramago em Portugal, em Espanha, em Itália, óperas... Alguém se deu conta? E quem leva isto para a frente? Os herdeiros? Eles têm a sua própria vida e não lhes pode cair o legado em cima. É a fundação que se ocupa de tudo.

Com uma vida como essa, porque aceitou ser administradora da TVI?
Uns amigos ligaram-me e pediram-me para aceitar o cargo. Eu estava numa apresentação de Vargas Llosa e não podia atender o telefone e acabei por responder por mensagem. A proposta em si era tão surpreendente que não sabia o que dizer ou fazer. No entanto, pensei: se não for eu, vai ser outro. E porque não estar lá uma pessoa tão vincadamente de esquerda? Eu sou uma pessoa de esquerda e muito antissistema.

E o que faz como administradora não executiva?
Só participei em reuniões, espero agora poder participar em algo mais. Mas o que faço é basicamente aprovar as contas e um pouco da linha editorial. Não posso chegar ao Conselho de Administração de uma empresa a opinar, cheguei a ouvir. Agora espero mais.

Sentia saudades de estar num meio de comunicação social?
Há 20 anos teria respondido que sim. Queria ser diretora do “El País”. Estava muito irritada, e ainda estou, pelo facto de quase não haver mulheres nesses cargos. O meu jornal ideal seria aquele que me deixasse ser mulher e dar a minha opinião, sem prestar tanta atenção à lógica do mercado, mas sim à dos leitores.

Não é ingénuo pensar que isso 
é possível?
O que nos ensinaram já não faz parte daquilo a que se chama ‘fazer jornais’. Já não contamos o lado obscuro das coisas. Pelo contrário, somos os que beneficiamos os interesses do poder. Estamos ali para esconder as falhas do sistema capitalista e não para trabalhar para uma sociedade que se quer socialista na sua essência.

Acredita no jornalismo independente?
Acredito muito nas pessoas, mas cada vez que um jornal tratou de levantar a cabeça e fazer frente ao poder económico foi abafado. Um jornal progressista, independente, tem de fazer imediatamente concessões. E tudo acaba por não passar de um jogo de concessões.

Voltando atrás, quem é hoje a sua família?
Em Portugal não faço parte da memória de ninguém. Estou muito só, mesmo que esteja rodeada de gente fantástica aqui na fundação. A minha família é a memória. Irrita-me dizê-lo, mas vivo da e com a memória — embora seja uma memória que projeta, uma memória para o futuro. Tenho amigos adoráveis, um grupo de amigas em Sevilha... E tenho a tribo — é assim que chamamos a nós mesmos em família. Eu saberia dizer o que estão agora a comer os 15 membros da tribo, ou seja, os meus irmãos. Sei que nunca mais me vou encontrar com o José, que ele nunca me vai poder dizer se estou a fazer bem ou mal.

Porque é que insiste em dizer 
que não faz parte da memória 
de ninguém?
Porque não faço. Cheguei com 40 anos e não tenho a chave, o código, para as pessoas daqui.

Não se está a subestimar?
Não, sou realista. E a realidade é a minha idade. As pessoas andam para trás, recuperam momentos do passado, e eu não estou lá. Cheguei tarde, já bem crescida, como o apêndice de um homem. E durante os 25 anos que vivi com ele não tinha existência real, era uma sombra. E agora tenho uma existência real relativa.

Relativa como?
Não sei se as pessoas se dirigem a mim como a um ser humano que querem agarrar ou beijar ou como a uma mulher que tomou decisões que Saramago nunca tomaria. Em Granada e em Sevilha existo como pessoa e companheira de trabalho. Em Portugal não existo sem Saramago.

Gostava de mudar isso?
Teria de ter vontade de o fazer, e se calhar já não tenho. Mas é curiosa a quantidade de viúvos que Saramago tem. Um dia, aqui no meu gabinete, contaram-me como foi o casamento de Saramago. Foi comigo que ele se casou! Não se lembram? Não me veem?

Mas há muita gente que a conhece...
Não sei se me estão a ver a mim ou à sombra de Saramago, mas houve um tempo em que tive a ilusão que me estavam a ver a mim. Agora desconfio sempre. Já não sei quem me olha, porque me olha, que olhar é esse.

No fundo, fala da sua individualidade. Como a manteve sendo tradutora de Saramago e o seu braço-direito?
Mantive-a sempre, mas ninguém o sabia. Isso fazia parte da nossa intimidade, onde cada um era livre. Não estávamos comprometidos nem com partidos políticos, nem com Estados, nem com nacionalizações, nem com o casal que formávamos... Éramos um projeto, trabalhávamos juntos. Quando decidíamos o que íamos fazer, não o fazíamos em função de Saramago, mas do projeto e da agenda, do livro que se estava a escrever ou a traduzir. Trabalhávamos para um projeto no qual participavam outras pessoas, a que chamávamos ‘saramaguitos’.

Como foi traduzir Saramago?
Foi uma ousadia própria da juventude. Eu lia os originais das traduções que mandavam a Saramago e muitas vezes não estava de acordo. Mas ele tinha um tradutor muito bom, que era professor catedrático da Universidade de Barcelona, e quem era eu para opinar... O tradutor veio à apresentação espanhola de “Ensaio sobre a Cegueira”, de óculos escuros e de bengala: “Venho à apresentação deste livro consciente de que será o último que traduzirei, porque estou a ficar cego.” Não ficou cego, exagerou um pouco. Mas eu já lhe tinha dito que a partir dali traduziria eu! Fi-lo porque era ousada, senão nunca teria traduzido Saramago.

Que relação tem com a família do seu marido?
A neta trabalha aqui na fundação e a filha, que vive no Funchal, também faz parte da organização. Mas como está longe relacionamo-nos menos. É uma relação sem problemas, cordial.

Já disse que não gosta de bandeiras. Porque é que escolheu ter a nacionalidade portuguesa?
Para pagar impostos em Portugal. Não vou pagar por José Saramago fora de Portugal. E a verdade é que o Governo se portou muito bem, pois fiz um pedido normal e responderam-me logo. Ao cabo de dois meses já tinha a nacionalidade e já podia apresentar a declaração de impostos aqui. Pago muito mais aqui do que pagaria em Lanzarote, mas agora tenho legitimidade para criticar o Governo e o Estado ao qual pago os meus impostos. Fico colérica de cada vez que gastam mal o dinheiro.

Como é que essa formalização da relação com Portugal se conjuga com o ideal de uma Ibéria sem fronteiras?
Sabe, no outro dia deram-me o Prémio Luso-Espanhol de Cultura, por eu servir de ponte de comunicação entre Espanha, Portugal e América Latina, segundo o júri. Fiquei muito feliz. Como na “Jangada de Pedra”, creio que é para lá que caminhamos, para a América Latina. E servir de agente de comunicação entre culturas parece-me muito importante. Sugeri que mo entregassem em finais de maio, na Feira do Livro de Madrid, cujo país-tema será Portugal. Não sou mulher de salões nobres.

http://expresso.sapo.pt/cultura/2017-04-30-Pilar-del-Rio-Jose-foi-uma-maldicao