Mostrar mensagens com a etiqueta António Nobre. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta António Nobre. Mostrar todas as mensagens

domingo, 12 de janeiro de 2020

António Nobre - Virgens que passais

* António Nobre

Virgens
que passais, ao Sol-poente,
Pelas estradas ermas, a cantar!
Eu quero ouvir uma canção ardente,
Que me transporte ao meu perdido lar.

Cantai-me, nessa voz omnipotente,
O sol que tomba, aureolando o Mar
A fartura da seara reluzente,
O vinho, a graça, a formosura, o luar!

Cantai! Cantai as límpidas cantigas!
Das ruínas do meu lar desaterrai
Todas aquelas ilusões antigas

Que eu vi morrer num sonho, como um ai....
Ó suaves e frescas raparigas,
adormecei-me nessa voz...cantai !

terça-feira, 16 de fevereiro de 2016

António Nobre - Ballada do Caixão

* António Nobre

O meu vizinho é carpinteiro, 
Algibebe de Dona Morte: 
Ponteia e coze, o dia inteiro, 
Fatos de pau de toda a sorte: 
Mogno, debruados de velludo 
Flandres gentil, pinho do Norte... 
Ora eu que trago um sobretudo 
Que já me vae a aborrecer, 
Fui-me lá, hontem: (era Entrudo, 
Havia immenso que fazer!...) 
- Olá, bom homem! quero um fato, 
Tem que me sirva? - Vamos ver... 
Olhou, mexeu na caza toda... 
- Eis aqui um e bem barato. 

- Está na moda? - Está na moda. 
(Gostei e nem quiz apreçal-o: 
Muito justinho, pouca roda...) 
- Quando posso mandar buscal-o? 
- Ao por-do-sol. Vou dal-o a ferro: 
(Poz-se o bom homem a aplainal-o...) 

Ó meus amigos! salvo-erro, 
Juro-o pela alma, pelo céu! 
Nenhum de vós, ao meu enterro, 
Irá mais dandy, olhae! do que eu! 

António Nobre, in 'Só' 

http://www.citador.pt/poemas/ballada-do-caixao-antonio-nobre

António Nobre - Viagens na Minha Terra

* António Nobre


As vezes, passo horas inteiras
Olhos fitos nestas braseiras,
Sonhando o tempo que lá vai;
E jornadeio em fantasia
Essas jornadas que eu fazia
Ao velho Douro, mais meu Pai.
Que pitoresca era a jornada!
Logo, ao subir da madrugada,
Prontos os dois para partir:
- Adeus! Adeus! É curta a ausência,
Com campainhas a tinir!
E, dia e noite, aurora a aurora,
Por essa doida terra fora,
Cheia de Cor, de Luz, de Som,
Habituado à minha alcova
Em tudo eu via coisa nova,
Que bom era, meu Deus! Que bom!
Moinhos ao vento! Eiras! Solares!
Antepassados! Rios! Luares!
Tudo isso eu guardo, aqui ficou:
A paisagem etérea e doce,
Depois do Ventre que me trouxe,
A ti devo eu tudo que sou!
No arame oscilante do Fio,
Amavam (era o mês do cio)
Lavandiscas e tentilhões…
Águas do rio vão passando
Muito mansinhas, mas, chegando
Ao Mar, transformam-se em leões!
Ao Sol, fulgura o Oiro dos milhos!
Os lavradores mailos filhos
A terra estrumam, e depois
Os bois atrelam ao arado
E ouve-se além no descampado
Num ímpeto, aos berros: - Eh! Bois!
E, enquanto a velha mala-posta,
A custo vai subindo a encosta
Em mira ao lar dos meus Avós,
Os aldeões, de longe, alerta,
Olham pasmados, boca aberta…
A gente segue e deixa-os sós.
Que pena faz ver os que ficam!
Pobres, humildes, não implicam,
Tiram com respeito o chapéu:
Outros, passando a nosso lado,
Diziam: «Deus seja louvado!»
«Louvado seja!» dizia eu.
E, meiga, tombava a tardinha…
No chão, jogando a vermelhinha,
Outros vejo a discutir.
Carpiam, místicas, as fontes…
Água fria de Trás-os-Montes
Que faz sede só de se ouvir!
E, na subida de Novelas,
O rubro e gordo Cabanelas
Dava-me as guias para a mão:
Isso… queriam os cavalos!
Que eu não podia chicoteá-los…
Era uma dor de coração.
Depois, cansados da viagem,
Repoisávamos na estalagem
(Que era em Casais, mesmo ao dobrar…)
Vinha Sra. Ana das Dores
«Que hão-de querer os meus Senhores?
Há pão e carne para assar…»
Oh! Ingénuas mesas, honradas!
Toalhas brancas, marmeladas,
Vinho virgem no copo a rir…
O cuco da sala, cantando…
(Mas o Cabanelas, entrando,
Vendo a hora: «É preciso partir.»)
Caía a noite. Eu ia fora,
Vendo uma estrela que lá mora,
No Firmamento português:
E ela traça-me o meu fado
«Serás Poeta e desgraçado!»
Assim se disse, assim se fez.
Meu pobre Infante, em que cismavas,
Porque é que os olhos profundavas
No Céu sem par do teu País?
Ias, talvez, moço troveiro,
A cismar num amor primeiro:
Por primeiro, logo infeliz…
E o carro ia aos solavancos.
Os passageiros, todos brancos,
Ressonavam nos seus gabões:
E eu ia alerta, olhando a estrada,
Que em certo sítio, na Trovoada,
Costumavam sair ladrões.
Ladrões! Ó sonho! Ó maravilha!
Fazer parte duma quadrilha,
Rondar, à Lua, entre pinhais!
Ser Capitão! Trazer pistolas,
Mas não roubando – dando esmolas
Dependuradas dos punhais…
E a mala-posta ia indo, ia indo.
O luar, cada vez mais lindo,
Caía em lágrimas – e, enfim,
Tão pontual, às onze e meia
Entrava, soberba, na aldeia
Cheia de guizos, tlim, tlim, tlim!
Lá vejo ainda a nossa Casa
Toda de lume, cor de brasa,
Altiva, entre árvores, tão só!
Lá se abrem os portões gradeados,
Lá vêm com velas os criados,
Lá vem, sorrindo, a minha Avó.
E então, Jesus! Quantos abraços!
- Qu’é dos teus olhos, dos teus braços,
Valha-me Deus! Como ele vem!
E admirada, com as mãos juntas,
Toda me enchia de perguntas,
Como se eu viesse de Belém!
- E os teus estudos, tens-me andado?
Tomara eu ver-te formado!
Livre de Coimbra, minha flor!
Mas vens tão magro, tão sumido…
Trazes tu no peito escondido,
E que eu não saiba, algum amor?
No entanto entrava no meu quarto:
Tudo tão bom, tudo tão farto!
Que leito aquele! E a água, Jesus!
E os lençóis! Rico cheiro a linho!
- Vá, dorme, que vens cansadinho.
Não adormeças com a luz!
E eu deitava-me, mudo e triste.
(- Reza também o Terço, ouviste?)
Versos, bailando dentro em mim…
Não tinha tempo de ir na sala,
De novo: - Apaga a luz! – Que rala!
Descansa, minha avó, que sim!
Ora, às ocultas, eu trazia
No seio um livro e lia, lia,
Garrett da minha paixão…
Daí a pouco a mesma reza:
- Não vás dormir de luz acesa,
Apaga a luz… (E eu ainda… não!)
E continuava, lendo, lendo…
O dia vinha já rompendo,
De novo: - Já dormes, diz?
- Bff! … e dormia com a ideia
Naquela Tia Doroteia,
De que fala Júlio Dinis.
Ó Portugal da minha infância,
Não sei que é, amo-te a distância,
Amo-te mais, quando estou só…
Qual de vós teve na Vida
Uma jornada parecida,
Ou assim, como eu, uma Avó? 


Paris, 1892

http://repositorio.uma.pt/bitstream/10400.13/610/1/MestradoLilianaMartins.pdf

António Nobre - Memória

* António Nobre

À minha mãe
Ao meu pai

Aquele que partiu no brigue Boa Nova
E na barca Oliveira, anos depois voltou;
Aquele santo (que é velhinho e já corcova)
Uma vez, uma vez, linda menina amou:
Tempos depois, por uma certa lua nova,
Nasci eu… O velhinho ainda cá ficou,
Mas ela disse: _«Vou, ali adiante, à Cova,
António, e volto já…» _ e ainda não voltou!
António é vosso. Tomai lá a vossa obra!
«Só» é o poeta-nato, o lua, o santo, o cobra!
Trouxe-o dum ventre: não fiz mais do que o escrever…
Lede-o e vereis surgir do poente havidas mágoas,
Como quem vê o Sol sumir-se, pelas águas,
E sobe aos alcantis para o tornar a ver!
Ora isto, Senhores, deu-se em Trás-os-Montes,
Em terras de Borba, com torres e pontes.
Português antigo, do tempo da guerra,
Levou-o o destino pra longe da terra.
Passaram os anos, a Borba voltou,
Que linda menina que, um dia, encontrou!
Que linhas fidalgas e que olhos castanhos,
E, um dia, na Igreja correram os banhos,
Mais tarde, debaixo de um signo mofino,
Pela lua-nova, nasceu um menino.
Ó mães dos Poetas! Sorrindo em seu quarto,
Que são virgens antes e depois do parto!
Num berço de prata, dormia deitado,
Três moiras vieram dizer-lhe o seu fado
(E abria o menino seus olhos tão doces):
«Serás um Príncipe! Mas antes… não fosses!»
Sucede, no entanto, que o Outono veio
E, um dia, ela resolve ir dar um passeio.
Calçou as sandálias, tocou-se de flores,
Vestiu-se de Nossa Senhora das Dores:
«Vou ali adiante, à Cova, em berlinda,
António, e já volto…» e não voltou ainda!
Vai o Esposo, vendo que ela não voltava,
Vai lá ter com ela, por lá se quedava.
Ó homem egrégio! De estirpe divina,
De alma de bronze e coração de menina!
Em vão corri mundos, não vos encontrei
Por vales que fora, por eles voltei.
E assim se criou um anjo, o Diabo, o lua:
Ai corre o seu fado! A culpa não é sua!
Sempre é agradável ter um filho Virgílio,
Ouvi estes carmes que eu compus no exílio,
Ouvi-os vós todos, meus bons Portugueses!
Pelo cair das folhas, o melhor dos meses,
Mas, tende cautela, não vos faça mal…
Que é o livro mais triste que há em Portugal!

NOBRE, António; Só; Alfragide; Leya; 1.ª edição BIS; 2009; p. 9


http://repositorio.uma.pt/bitstream/10400.13/610/1/MestradoLilianaMartins.pdf

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

António Nobre ~ Georges! anda ver o meu país de Marinheiros


Nesta praça apregoa-se a Poesia. Sobretudo a dos outros. Possivelmente alguma da que escrevo. Autores da minha terra, da minha pátria-língua-portuguesa, mas também da nossa Terra-mãe-comum. Nesta praça vendo o sonho de ser poeta, mas não passo talvez de um mero divulgador de Poesia.


Domingo, 21 de Junho de 2009

Georges! anda ver o meu país de Marinheiros










Foto in
www.povoadevarzim.com.pt






Georges! anda ver o meu país de Marinheiros
O meu país das Naus, de esquadras e de frotas!

Oh as lanchas dos poveiros
A saírem a barra, entre ondas e gaivotas!
Que estranho é!
Fincam o remo na água, até que o remo torça,
À espera de maré,
Que não tarda aí, avista-se lá fora!
E quando a onda vem, fincando-o com toda a força,
Clamam todas à uma: «Agôra! agôra! agôra!»
E, a pouco e pouco, as lanchas vão saindo
(Às vezes, sabe Deus, para não mais entrar...)
Que vista admirável! Que lindo! que lindo!
Içam a vela, quando já têm mar:
Dá-lhes o Vento e todas, à porfia,
Lá vão soberbas, sob um céu sem manchas,
Rosário de velas, que o vento desfia,
A rezar, a rezar a Ladainha das Lanchas:

Senhora Nagonia!

Olha acolá!
Que linda vai com seu erro de ortografia...
Quem me dera ir lá!

Senhora Daguarda!

(Ao leme vai o Mestre Zé da Leonor)
Parece uma gaivota: aponta-lhe a espingarda
O caçador!

Senhora d'ajuda! 
Ora pro nobis! 
Caluda! 
Sêmos probes!

Senhor dos ramos 
Istrela do mar! 
Cá bamos!

Parecem Nossa Senhora, a andar.

Senhora da Luz!

Parece o Farol...

Maim de Jesus!

É tal e qual ela, se lhe dá o Sol!

Senhor dos Passos! 
Sinhora da Ora!

Águias a voar, pelo mar dentro dos espaços
Parecem ermidas caiadas por fora...

Senhor dos Navegantes! 
Senhor de Matuzinhos!

Os mestres ainda são os mesmos dantes:
Lá vai o Bernardo da Silva do Mar,
A mailos quatro filhinhos,
Vascos da Gama, que andam a ensaiar...

Senhora dos aflitos! 
Martir São Sebastião! 
Ouvi os nossos gritos! 
Deus nos leve pela mão! 
Bamos em paz!

Ó lanchas, Deus vos leve pela mão!
Ide em paz!

Ainda lá vejo o Zé da Clara, os Remelgados,
O Jeques, o Pardal, na Nam te perdes,
E das vagas, aos ritmos cadenciados,
As lanchas vão traçando, à flor das águas verdes,
«As armas e os varões assinalados...»

Lá sai a derradeira!
Ainda agarra as que vão na dianteira,..
Como ela corre! com que força o Vento a impele:

Bamos com Deus!

Lanchas, ide com Deus! ide e voltai com Ele
Por esse mar de Cristo...

Adeus! adeus! adeus!

António Nobre,
Porto, Livraria Tavares Martins, 1971