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quarta-feira, 22 de julho de 2026

Em defesa da língua sarda


Victor Nogueira / ChatGPT

Pesquisei especificamente por transcrições do Prologu assu devotu Letore e do Legendariu de 1627.

O resultado é o seguinte:

  1. Não encontrei uma transcrição integral em acesso livre do prólogo. O que existe é sobretudo o fac-símile da edição original.
  2. Encontrei, porém, vários estudos académicos que citam e transcrevem passagens importantes do prólogo, sobretudo por causa da defesa da língua sarda feita por Garipa.

Entre as passagens mais citadas estão:

(34) - Giovan Matteo Garipa; língua e cultura sardas

 

Este mural em Orgosolo é uma exaltação da língua, cultura e história literária sarda, prestando homenagem a uma das figuras intelectuais mais importantes da história da vila: o padre e escritor Giovan Matteo Garipa (século XVII).

O texto nas paredes é uma citação direta retirada do prólogo da obra Su Legendariu de Santas Virgines et Martires de Jesu Cristu (1627), escrita por Giovan Matteo Garipa e considerada um marco da literatura em prosa sarda:

domingo, 21 de setembro de 2025

"Estamos a chegar a um ponto em que a escrita parece toda igual. Antes da IA os estudantes podiam dar erros, mas escreviam com mais alma"

 

Joana Pereira Bastos (Jornalista) e Nuno Botelho (Fotojornalista)

18 setembro 2025 

Qual é a origem de alguns dos nomes e apelidos mais comuns em Portugal? De onde vem a palavra ‘azul’? Por que razão usamos o ‘h’ no início de algumas palavras se não o lemos? Estas são apenas algumas das muitas curiosidades exploradas nos vídeos partilhados por Marco Neves que têm feito sucesso nas redes sociais. Só em agosto tiveram 10 milhões de visualizações Qual é a origem de alguns dos nomes e apelidos mais comuns em Portugal? De onde vem a palavra ‘azul’? Por que razão usamos o ‘h’ no início de algumas palavras se não o lemos? Estas são apenas algumas das muitas curiosidades exploradas nos vídeos partilhados por Marco Neves que têm feito sucesso nas redes sociais. Só em agosto tiveram 10 milhões de visualizações

Marco Neves é linguista e professor na Universidade Nova de Lisboa. Mas são os vídeos que partilha nas redes sociais sobre a origem das palavras e outras curiosidades que fazem dele, atualmente, o maior divulgador de conhecimentos sobre a língua portuguesa em Portugal

Há dois anos, Marco Neves começou a partilhar nas redes sociais vídeos sobre a origem das palavras e outras curiosidades da língua. O sucesso não se fez esperar. Tem quase 380 mil seguidores e 72 milhões de visua­lizações só este ano

O que o levou a fazer estes vídeos?

 Comecei por brincadeira, mas não estava à espera de receber tantos comentários e perguntas. Percebi que, enquanto os livros que escrevo sobre a língua chegam sobretudo às pessoas que já têm interesse pelo tema, os vídeos chegam a outras que nem sequer sabiam que tinham esse interesse, e isso é fascinante.

O que explica o seu sucesso?

O discurso sobre a língua sempre esteve muito tomado por uma perspetiva de dizer o que está certo ou errado do ponto de vista da ortografia e da gramática, o que é muito limitado. Eu tentei mostrar que há outras coisas que interessam às pessoas, como a origem das palavras e dos nomes, as diferenças entre regiões ou entre os vários países que falam português. A língua também é uma maneira de nos identificarmos com os grupos a que pertencemos — a cidade, a re­gião, o conjunto de amigos ou a classe social. Pode parecer um pouco feio falar disto, mas a verdade é que as pessoas identificam-se socialmente pela forma como falam. 

Qual é a dúvida ou pergunta que lhe colocam mais vezes?

 Para surpresa minha, a que recebo mais tem a ver com a pronúncia da palavra “muito”. Porque é que a pronunciamos como se tivesse um ‘n’ ou um til? Na verdade, é a única palavra em que aquele ditongo (‘ui’) é nasal, ainda que não haja nenhuma marca gráfica que o indique. Quem sistematizou a nossa ortografia, em 1911, pôs mesmo uma nota de rodapé a dizer que a palavra ‘muito’, exce­cionalmente, lê-se de uma maneira e escreve-se de outra.

 A forma descontraída como fala destes temas ajuda a combater a ideia de que o português é difícil?

 Desafiar as pessoas para se interessarem pela língua implica mostrar que também se podem divertir com o tema.

 A seu ver, a maneira de ensinar o português nas escolas é apelativa?

Penso que há uma série de conhecimentos técnicos que talvez sejam introduzidos demasiado cedo. Se começarmos pelo telhado, não corre bem. Antes de mais, é preciso criar o gosto por ler e escrever.

Os clássicos dados na escola são bons para fomentar o gosto pela leitura?

Os clássicos fazem parte do nosso património cultural, e a escola tem de continuar a transmiti-los, ainda que possa descobrir formas novas de os abordar. Por exemplo, há muitos tiktoks sobre os clássicos da Jane Austen que fizeram sucesso nas redes, e a escola pode aprender com estas novas abordagens. Por outro lado, pode acrescentar à lista de leituras livros sugeridos pelos próprios alunos.

Muitos livros transformaram-se em fenómenos de vendas graças ao TikTok. Têm qualidade para serem dados nas escolas?

 Dizer que uns livros são bons e outros não são é discutível. Há muitos caminhos para chegar à literatura, e penso que não devemos, à partida, recusar nenhum. O importante é que as pessoas ganhem hábitos de leitura. Sem isso, por mais que saibam gramática, não conseguirão escrever bem. E, na sociedade em que vivemos, saber fazê-lo é essencial.

As pessoas recorrem cada vez mais à inteligência artificial quando têm de fazer um texto. Isso vai diminuir a capacidade de escrita?

 Há esse risco no que toca à criatividade. Estamos a chegar a um ponto em que a escrita parece toda igual. Até já digo, na brincadeira, que tenho saudades de [os meus alunos] me entregarem textos com erros ortográficos. Antes destas ferramentas, os estudantes podiam dar erros, mas escreviam com mais alma. Agora, o registo é muito uniformizado. 

A linguagem usada nos telemóveis e nas redes sociais acabará por provocar alterações no português?

Há uma parte central da língua que não muda muito. Por isso é que conseguimos ler poesia medieval e perceber grande parte dela. Mas, à superfície, está sempre a mudar, e não sabemos o que vai ficar disso. Por exemplo, nos anos 1980 ninguém sabia se o ‘bué’ ia perdurar, mas perdurou, enquanto outras palavras que dizíamos na altura não ficaram. As transformações da língua à superfície são normais e sempre aconteceram. A questão é que hoje, com a internet, são mais rápidas e mais globais. Nos anos 1970/80, se fosse preciso, cada escola tinha o seu calão. Mas agora o movimento é internacional e muitas vezes baseado em palavras inglesas. No entanto, a maior transformação provocada pela internet não é essa.

Qual é?

A internet provocou um uso muito mais intenso da escrita. Quando eu tinha 15 anos, nos anos 1990, nunca comunicava com os meus amigos pela escrita, mas apenas oralmente. Falava ao vivo ou telefonava. A escrita quase só era usada em contextos formais, de escola ou de trabalho. O único uso informal eram as cartas, mas ninguém as escrevia todos os dias. Isso mudou de forma radical. Hoje, as pessoas namoram, conversam ou insultam-se pela escrita. Nunca escreveram tanto como agora, sobretudo do ponto de vista informal. O que ajuda a explicar algumas dificuldades que sentimos ao usar a escrita de forma informal — por isso é que usamos os emojis, para compensar a falta do olhar, da expressão, dos gestos... Esta transformação levará a uma aproximação dos vários registos na escrita, e o formal terá tendência de já não o ser tanto.

“Em poucas décadas, Angola e Moçambique, juntos, terão mais população do que o Brasil, o que significa que o continente onde o português vai ser mais falado será África e não América do Sul”

O que mais o fascina nas línguas?

Perceber que cada palavra tem uma história. Por exemplo, o ‘azul’, que é a minha palavra preferida, vem do persa, por causa das rotas da seda, depois passou pelo árabe, chegou ao latim e finalmente ao português. Outra palavra interessante é ‘jaguar’, que vem de uma língua sul-americana, o tupi, e que usamos em Portugal, enquanto os brasileiros, curiosamente, usam uma palavra latina (‘onça’) para se referirem ao mesmo animal. As palavras revelam muito da história dos povos e dos seus intercâmbios, e isso é fascinante, em todas as línguas. No português, em particular, fascina-me o facto de ser um arquipélago, já que nenhum dos países que fala português faz fronteira com o outro. Isso não acontece noutras línguas e cria uma dinâmica muito própria.

Em que sentido?

O Brasil tem uma dimensão esmagadora, e isso alimenta algum receio e narrativas de superioridade no que diz respeito à língua. “Nós é que sabemos, porque somos 200 milhões”, pensam os brasileiros. “Nós é que sabemos, porque nós é que a inventámos”, dizem os portugueses. Mas, em poucas décadas, Angola e Moçambique, juntos, terão mais população do que o Brasil, o que significa que o continente onde o português vai ser mais falado será África e não América do Sul. O centro de gravidade do português vai mudar.

É verdade que a palavra ‘saudade’ só existe em português?

 Não. O romeno ou o galês, por exemplo, também têm uma palavra para ‘saudade’ e curiosamente, nesses países, também há a ideia de que a palavra só existe nessa língua. Dito isto, é verdade que ‘saudade’ tem uma presença e uma força muito grande na cultura portuguesa que não existe em mais lado nenhum.

https://expresso.pt/semanario/ideias/2025-09-18-estamos-a-chegar-a-um-ponto-em-que-a-escrita-parece-toda-igual.-antes-da-ia-os-estudantes-podiam-dar-erros-mas-escreviam-com-mais-alma-dbfc96e7

sexta-feira, 7 de março de 2025

Carlos Ferro - A LÍNGUA PORTUGUESA DE RASTOS - Preguiça linguística ou um “elefante na sala”?



Carlos Ferro* | Diário de Notícias, opinião

Há em Portugal uma nova moda entre as crianças: não usam o verbo principal quando falam. Os exemplo são vários e há diversas opiniões e alertas sobre a situação que pode vir a ter consequências mais tarde.

“Professora, posso água? Posso bolachas?”. Estes são dois exemplos que a jornalista Cynthia Valente apresentou no Diário de Notícias no trabalho onde ouviu pais, professores e um psicólogo sobre este fenómeno que se está a tornar num “elefante na sala”, não só nas casas das famílias como nas escolas.

Chegados aqui, qual a explicação para tal e quais as consequências futuras para estes alunos do 1.º ciclo - o fenómeno está a ser mais detetado neste período escolar?

Parece que há várias justificações. Uma são os vídeos curtos a que as crianças e adolescentes assistem diariamente e que acabam por transmitir a ideia que qualquer conversa pode ser tida com pequenas frases, mais ou menos completas. Talvez seja a versão 2.0 do ditado “para bom entendedor meia palavra basta”.

Outra explicação passará pelo facto de as famílias falarem pouco entre si, ou seja, os pais devem ter uma maior interação com os filhos - e voltamos ao muito falado uso excessivo do telemóvel - e corrigi-los sempre que não completem as frases.

Uma terceira razão para esta “evolução” é o “mundo acelerado” em que vivemos como frisou ao DN, no trabalho já referido, Alberto Veronesi, professor do 1.º ciclo e diretor do Agrupamento de Escolas de Santa Maria dos Olivais. Disse este responsável que “a comunicação é geralmente rápida e eficiente e, assim sendo, as crianças sentem que as frases completas são desnecessárias para se fazerem entender”.

No entanto, agora que já se detetou esta “preguiça linguística” talvez seja o momento de os estudiosos da Educação e os responsáveis do setor verem como se pode/deve lidar com esta supressão verbal para que mais tarde os jovens adultos e adultos não sintam dificuldades numa sociedade cada vez mais comunicacional. E, já agora, para tentarmos, como País, melhorar nos rankings que vão sendo conhecidos e nos quais Portugal não está a ter boa figura.

* Editor executivo do Diário de Notícias

Nota PG: Em nossa observação e opinião não é só nas escolas do ensino básico que se fala e escreve mal a língua portuguesa em Portugal. Um grande mau exemplo temo-lo em vários canais de televisão e de rádios. Eles 'comem' palavras e dizem profusamente TÁ em vez de está, TAMOS em vez de estamos BORA em vez de embora, etc., etc,. e assim consecutivamente. Além disso usam e abusam da língua anglófona misturada com frases em português. A comunicação social - principalmente - nos comentários e em notícias - é completamente assucatada via  'angloportufonês'. Uma vergonha, principalmente naquelas profissões rádio-televisivas faladas. Não são crianças do ensino básico mas sim jornalista 'dótores' que mais parecem estar a falar mau português em conversas de café ou numa chungaria muito rasca. Esses maus exemplos são imensos. E o assunto devia de ser aprofundado e dar-lhe combate. A língua portuguesa é linda e muito completa mas não, comprovadamente, para as atuais gerações 'modernas e estrangeiradas' que não se exprimem em língua de 'peixe nem de carne' mas sim em expressões bárbaras todas misturadas e chafurdadas. São esses o setor principal de aplicação do mau português que se fala em Portugal. Está por saber qual será a Pátria desses 'maduros e maduras' tão 'calinosos' a falar em português.

at março 07, 2025 
https://paginaglobal.blogspot.com/2025/03/a-lingua-portuguesa-de-rastos-preguica.html

domingo, 23 de junho de 2024

Carlos Coutinho - Cartas de alforria (الحرية, al-ḥurrííâ)



  Carlos Coutinho

AGORA que já temos o Ventura no Conselho de Estado e garantidos o holandês Mark Rutte e a alemã Ursula von der l´Leyen ao leme, respetivamente, da NATO e da Comissão Europeia, só posso dormir completamente atordoado e acordar, como esta manhã, comprometido com a missão de dobrar mais uma vez o Cabo das Tormentas neste mar de dias infaustos que é o mundo percetível no primeiro quarto do século XXI.

De facto, acordei hoje encostado a duas palavras antigas – alfobre e alforria –, sem qualquer motivação destrinçável e, obviamente, sem a mínima culpa dos calendários em uso ou dos vários gramáticos da nossa praça, ainda aflitos neste pós-Acordo Ortográfico 98.

Encostei-me, logo que pude, aos dicionários e às enciclopédias disponíveis, incluindo as digitais, porque se trata de substantivos herdados de idiomas ancestrais que petrificaram no árabe e se mantêm firmes, sólidos e inter-relacionados, como as ombreiras de uma porta para a alfurja dos armários mentais.

Desprezei a alfurja, porque é demasiado misteriosa neste momento, tal como fiz com o verbo encostar agora usado, porque sei – e sei-o bem – que as costas tanto podem ser as pendências das omoplatas de um simples cristão como as bordaduras de uma ilha ou até de um continente.

Mas não recuso, entretanto, que é quase impossível distinguir acostar de encostar, sendo que, neste último caso, o que está na mesa é arrimar, ou pôr de lado algo ou alguém contra um objeto que não cai nem deixa cair, ou pedir dinheiro a outrem, ou procurar a proteção de algum poderoso, ou tentar escapar a um trabalho ou tarefa, ou marcar um golo facilmente, empurrando a bola para dentro da baliza com o adversário sem condições para tal impedir, enfim, são muitas as questões contidas nestes conceitos, mas o que agora me move é o amplo leque de significados com que podemos abanar-nos nestas e noutras situações.

Começando pelo alfobre, apetece-me registar que, para uns, tanto pode ser o nome que se dá a um viveiro de plantas hortenses destinadas a transplantação, como a um simples canteiro por entre regos onde corre um rego de água, ou um lugar onde se cria, produz ou desenvolve grande quantidade de coisas ou seres de certo tipo.

Para outros, é sinónimo de respeito variável para pepineira, sementeira, seminário que até pode ser eclesiástico, viveiro, criadouro, tabuleiro de horta e, se formos à etimologia, ainda podemos ficar mais desarmados, porque estaremos perante o termo árabe al-hufar que significa buraco, fossa, e que, no plural, é hufra.

Já com alforria, a coisa fia mais fino. Trata-se de uma palavra que recebemos do árabe (الحرية, al-ḥurrííâ), ou manumissão, e que é o ato pelo qual um proprietário de escravos dá liberdade a algum, ação que assume diferentes formas consoante o tempo e o local da sociedade escravagista. Significando liberdade, veio do sumério Ama-gi, que corresponde, no Brasil e noutros locais americanos, à alforria da escravidão por dívida.

A carta de alforria era um documento pelo qual se atestava que o proprietário de um escravo rescindia dos seus direitos de propriedade sobre a vítima, sendo que no Brasil, escravo liberto por esse dispositivo era habitualmente chamado negro forro.

Exemplo:

"Digo eu Manoel de Souza Magalhães que entre os bens livres e desembargados de que sou legítimo senhor e possuidor, é uma escrava mestiça de nome Joanna filha de minha escrava Helena criola, que agoconta alias tem de idade treze annos, a qual escrava Joanna, deve acompanhar-me atte o dia em que eu a cazar ou fallecer, e sendo que a mesma descre [?] e tenha filhos, tanto ella como seus filhos gozarão da mesma liberdade, cuja liberdade é do dia de minha morte por diante como si de ventre livre nascesse; e não não poderão meus herdeiros prezentes e esta liberda de que a faço de minha livre vontade sem constrangimento algum, e sim pelo muito amor que lhe tenho pela ter creado como filha, e alem disso me ter servido completamente; e havendo duvida sobre o ponderado recebo a dita escra va em minha terça pela quantia de cento e vinte mil reis, e declaro que presentemente o posso fazer por possuir bens aundantes que bem chegão para esta liberdade: e para título mandei passar a presente que pedi ao Senhor Jose Thomaz de Aquino "[...]

O direito de propriedade do senhor em relação ao seu escravo passava para este - processo que culmina numa maior autonomia do cativo. Todavia, devido ao estatuto jurídico de reescravização, que perduraria até 1871, o escravo poderia ter sua liberdade revogada. O domínio do senhor, antes real, tornava-se virtual.

Essa cultura da manumissão demarca a inferioridade intrínseca do negro, até quando liberto. A liberdade concedida pela manumissão, devido seu caráter movediço - mesmo que raríssimas fossem as revogações das promessas de alforria -, estabelece novos mecanismos de produção de patronagem, reiterando, assim, o status quo esclavagista.

Vejamos o depoimento de Mahommah Gardo Baquaqua:

"Depois de algumas semanas, ele me despachou de navio para o Rio de Janeiro onde permaneci duas semanas até ser vendido novamente. Havia lá um homem de cor que queria me comprar mas, por uma ou outra razão, não fechou o negócio. Menciono esse fato apenas para ilustrar que a posse de escravos se origina no poder, e qualquer um que dispõe dos meios para comprar seu semelhante com o vil metal pode se tornar um senhor de escravos, não importa qual seja sua cor, seu credo, ou sua nacionalidade; e que o homem negro escravizaria seu semelhante tão prontamente quanto o homem branco, tivesse ele o poder."

Por estas e por outras, é que eu nunca levei muito a sério o nome de Almoçageme. Descarado nome de uma localidade no concelho de Sintra, onde nunca houve mesquita alguma e que nem por isso deixaram de a batizar com o topónimo resultante de al-masjid ou al-mesijide, que em árabe significa precisamente “a mesquita”.

 2024 06  22

Gravura - Book cover of Baquaqua's memoirs, published in 1854

segunda-feira, 25 de dezembro de 2023

António Rodrigues ENTREVISTA SALIKOKO MUFWENE

 


A língua de Darwin ou a linguagem em estado de permanente evolução

Por entre palavras mortas, germinam viçosas novas espécies. O linguista Salikoko Mufwene diz que “falar da evolução da linguagem não é metáfora”. Uma teoria geral das espécies aplicada à comunicação.

António Rodrigues (texto) e

Matilde Fieschi (fotografia)

24 de Dezembro de 2023, 8:02

  

Todos os dias morrem palavras, todos os dias nascem palavras. A forma como falávamos ontem não é a forma como falamos hoje e não será igual à maneira de falar de amanhã. “Há palavras comuns hoje que vão estar extintas no futuro.” Nesta constante evolução das espécies aplicada à linguagem, uma pessoa de 60 anos já não fala como uma de 40 e muito menos como uma de 20. “Somos parte de gerações diferentes, as nossas experiências não são idênticas e a perda de identidade vem com a perda de algumas palavras.”

Salikoko Mufwene, professor de Linguística da Universidade de Chicago, uma das grandes referências mundiais na área, escreveu em 2001 um livro fundamental para compreender a evolução natural da língua, The Ecology of Language Evolution – uma teoria geral da evolução das espécies aplicada à linguagem.


Ecology Of Language Evolution

Autoria: Salikoko S. Mufwene

Editora: Cambridge University Press

274 págs., 46,34€

Já nas livrarias


“A linguagem que usamos evolui porque nos adaptamos uns aos outros, ao mesmo tempo que nós próprios evoluímos”, explica Mufwene, que em 1979 se doutorou na Universidade de Chicago, onde ensina desde 1991. “As linguagens reflectem as formas como evoluímos socialmente. Não é evidente que as pessoas se apercebam da nossa evolução biológica, mas, de uma forma geral, com as práticas sociais, estão sempre a evoluir.”

É como se em todos os momentos tivéssemos a teoria de Darwin na ponta da língua, salvo seja.

“Falar da evolução da linguagem não é uma metáfora, porque a evolução tem lugar em qualquer espécie, em qualquer comunidade”, sublinha o professor, nascido na República Democrática do Congo há 76 anos, mas a viver nos Estados Unidos desde os anos 1970 e com nacionalidade norte-americana desde 1996.

“A linguagem que usamos evolui porque nos adaptamos uns aos outros, ao mesmo tempo que nós próprios evoluímos”, explica Mufwene

“As linguagens evoluem de uma forma muito similar aos vírus, sabe? Por exemplo, o vírus da constipação. Eu tenho-o. Alguém pode ter sido contaminado por mim e apanhá-lo. Mas esse vírus adapta-se ao novo hospedeiro e pode ser transmitido a outra pessoa e volta a adaptar-se. Esse é um dos problemas para curar uma população de uma dita epidemia, porque o vírus passa por mutações e cada mutação é uma espécie de evolução.”

Com as palavras acontece o mesmo. Por mais que as academias queiram fixar a língua, esta passa o tempo a fintar pontos finais parágrafos de dicionários.

De uma forma muito simples, a linguagem serve para comunicar, logo, ela está sempre a adaptar-se para melhor transmitir aquilo que quer comunicar e para estabelecer uma “espécie de relação especial com o outro”. Cada vez que usamos uma linguagem em particular estamos “indirectamente a estabelecer um vínculo”, a nossa forma de falar também se pode adaptar, pois, a quem nos escuta.

“Vivemos em sociedades e é aqui que entra a dimensão social, porque as pessoas com quem interagimos, mais ou menos determinam a forma como iremos comunicar com elas e como moldamos as peculiaridades das nossas línguas”, explica. É assim ao longo do tempo, porque “somos uma população migrante”. Como estamos sempre a mudar, de um lugar para outro, de um bairro para outro, “continuamos a fazer ajustamentos às nossas línguas, particularmente cruciais a outro nível” – em vez da palavra que habitualmente usamos, vemo-nos obrigados a usar outra: “O ónus de aprendermos a palavra que eles usam recai sobre nós [, mas,] se são eles a migrar para a nossa comunidade, acontece o contrário.”

“As nossas línguas entram em contacto com as outras indirectamente, através das nossas interacções e vão sendo remodeladas e é isso que vemos na história da humanidade. Tomemos o português, por exemplo – foi levado para o Brasil, mas o português falado no Brasil já não é como o português falado em Portugal.”

Evolução não é uniforme

Fazemos a linguagem que falamos e “modificamo-la de acordo com as nossas necessidades e de acordo com as pressões dos diferentes lugares onde evoluímos”. Porque a evolução não pára na interacção, porque nós próprios evoluímos e a linguagem connosco.

E a evolução da linguagem é tudo menos um processo uniforme, muito menos quando se lida com uma população, afirma Salikoko Mufwene, numa conversa na Faculdade de Letras de Lisboa. Veja-se o que aconteceu com o português em Angola.

“Os portugueses colonizaram Angola, mas não falavam português com todas as pessoas. E como o número de administradores era bastante limitado por razões financeiras, era mais prático ter funcionários coloniais indígenas que ajudavam na administração da colónia e essas pessoas aprendiam português e tornavam-se o intermediário entre a população colonizadora e a população colonizada.”

A seguir, aos poucos, as pessoas começaram a ir à escola e, se passavam um certo nível, esperava-se que falassem português. “Mas nem todos temos a mesma atitude de aprendizagem, alguns têm mais aptidão para aprender outras línguas do que outros.” E, mesmo para quem tinha as mesmas aptidões, nem sempre tinham “as mesmas oportunidades para interagir com pessoas fluentes em português”.

“Falar da evolução da linguagem não é uma metáfora, porque a evolução tem lugar em qualquer espécie, em qualquer comunidade”

O que acontece, então, é um “fenómeno a que se chama ‘interferência’”, quando elementos da linguagem que a pessoa vinha usando se intrometem na nova linguagem. A forma como um angolano fala “é influenciada pelas práticas de comunicação, o que explica porque o português de Angola não é falado da mesma maneira que o português em Portugal, nem da mesma maneira que o português do Brasil”.

É uma questão de ecologias, explica Mufwene, mas também uma questão prática. “Quem são as pessoas que precisam do português para conseguir emprego? Qual a extensão da família que ainda vive no campo e não encontra qualquer uso para o português?” As elites podem decidir cortar com a família mais extensa por razões de estatuto e “educar os filhos em português para lhes dar uma vantagem competitiva”.

“Há outras partes em África onde não se falam línguas indígenas, sim”, como acontece em Luanda. “Há uma minoria que, no entanto, pode não saber falar a sua língua ancestral, mas compreende-a. E essa é a diferença entre competência activa e competência passiva.”

Todavia, como explica, podem ser fluentes em “outra linguagem indígena, como a linguagem da cultura popular, e podem ser fluentes nessa linguagem específica”. “Não sei muito sobre Angola nesse aspecto, mas no Congo, por exemplo, se vives em Kinshasa, não podes sentir-te realmente integrado, se não falares lingala.”

Em Luanda, usam uma linguagem urbana que assume o quimbundo, que o mistura com o português urbano, eivado de corruptelas e neologismos, como uma forma de identidade, uma identidade luandense, uma linguagem que não podia ser de outro lugar.

“Exactamente, é simbólico. Têm de mostrar que ainda há valor na cultura indígena.”

O que importa saber é que “a evolução de uma linguagem ou de uma cultura em particular não é uniforme, que uma linguagem varia de acordo com a geração, de acordo com o género, de acordo com a subcultura e de acordo com o tempo”.

O importante é que as línguas estão sempre a evoluir – por exemplo, as palavras que entram na forma de falar dos portugueses vindas directamente de Angola ou do Brasil, ou passadas de Angola para o Brasil e depois arribadas a Portugal pela aculturação das telenovelas. Haverá, no entanto, algum momento em que essa contínua introdução de termos de outras línguas deixa de ser bom. Pode uma língua morrer por invasão de estrangeirismos?

Invasão do inglês

“Não vejo que seja mau para uma linguagem, porque há termos que são mais bem expressados com palavras estrangeiras do que com as nossas próprias palavras. Os europeus colonizaram, mas também aprenderam uma série de coisas novas que não conheciam, familiarizaram-se com novos alimentos e a melhor forma de os nomear foi usar as palavras indígenas. Veja-se, por exemplo, a palavra ‘piripiri’.”

Mas hoje a forma como o inglês se tornou omnipresente na linguagem urbana de muitas cidades do mundo não é por si ameaça?

Mufwene escreveu um artigo sobre o assunto, intitulado English as a lingua franca: Myths and Facts (O inglês como língua franca: mitos e factos, em tradução livre) em que refere que “o inglês se espalhou pelo mundo à custa da sua indigenização nos novos contextos de actualização, à medida que se adapta às necessidades comunicativas e aos hábitos comunicativos anteriores dos seus novos falantes”.

“Há palavras inglesas noutras línguas, porque, provavelmente, é mais fácil transmitir o significado com as palavras inglesas do que com as palavras indígenas. Mas é também uma forma de mostrar que alguém está actualizado no conhecimento do mundo. No entanto, se olharmos para o inglês em si, muito do seu vocabulário vem de outras línguas. Tem, por exemplo, palavras do francês, sobretudo, mas também de línguas africanas: a palavra ‘banana’ de onde vem?”to com as outras indirectamente, através das nossas interacções e vão sendo remodeladas e é isso que vemos na história da humanidade

Aos que temem ver o mundo todo a falar inglês, Salikoko Mufwene responde: não vai ser assim. “Não penso que o inglês vá substituir outras línguas.” E lembra como no Brasil lutou para se fazer entender; como em Belo Horizonte comeu por acaso uma refeição que não sabia nomear, porque ninguém falava inglês e ele não falava português.

“Quando fui à China, reparei numa coisa muito interessante. Fui a um mercado de artesanato e, para minha surpresa, os vendedores eram bastante fluentes no inglês, ao contrário de alguns professores universitários que o não eram. “Quando precisamos da língua, fazemos um esforço para a aprender. No mercado, precisavam do inglês para vender as suas peças, enquanto para um professor que aprendeu em chinês e dá aulas em chinês, o inglês é secundário.”

Silogismo: se o inglês é útil para comunicar e as línguas são feitas para comunicar, logo o inglês será usado para comunicar. Mas um português não vai falar inglês com um português, nem um espanhol inglês com outro espanhol.

“É certo que se pode esperar encontrar alguém que fale um pouco de inglês, mesmo em alguns dos lugares mais remotos do mundo actual, em grande parte graças ao empenho dos sistemas educativos nacionais no mundo não anglófono em ensinar inglês como língua estrangeira.” Porém, “mesmo que o inglês se tenha tornado uma língua franca útil em todo o mundo, não podemos deixar-nos enganar e contar muito com isso”, porque o seu “valor de mercado varia consoante os indivíduos, nomeadamente do local onde se vive e do que se pretende ganhar com isso”.

É comércio e não invasão, soft power e não conquista. O inglês faz-se útil, quer-se útil.

O inglês não é um império, mesmo que a superpotência que mais contribui para o exportar tenha tiques imperialistas. Aliás, para o professor americano-congolês isso de a língua ser uma pátria, como Fernando Pessoa alegava em relação ao português, só serve para países onde a hegemonia interna deixou língua e território com a mesma fronteira, como Portugal.

Para Mufwene, nascido num país como a República Democrática do Congo, que tem uma língua oficial (francês), quatro línguas nacionais (kituba, lingala, suaíli e tshiluba) e 250 línguas étnicas, a afirmação pessoana não faz qualquer sentido.

“Para quem é de um país tão diverso linguisticamente como Angola ou o Congo, não podemos realmente pôr as coisas nesses termos ou acabaríamos com pequenas nações monolingues, como existiam antes da colonização”, explica. Os Estados que saíram das lutas de autodeterminação assumiram outros critérios para se definir. Em vez de tentarem reverter o colonialismo, assumiram as fronteiras fictícias da herança, com base nas quais construíram os seus Estados plurilinguísticos.

Mesmo os Estados Unidos não têm o inglês como língua oficial a nível federal (é-o em 32 estados), apesar de volta e meia a ala mais à direita levantar essa bandeira. O ex-Presidente Donald Trump falou muito disso durante a campanha eleitoral de 2016, mas acabou por não concretizar nada em relação ao assunto durante o seu tempo na Casa Branca.

A ideia de uma língua/uma nação, diz o linguista, é uma política introduzida no século XIX na Europa que “não funciona muito bem noutras partes do mundo”. Aliás, “mesmo aqui na Europa, estamos sempre a ser lembrados de que há pessoas que não se sentem confortáveis com isso”.

tp.ocilbup@seugirdor.oinotna

tp.ocilbup@oleber.edlitam

 https://www.publico.pt/2023/12/24/mundo/entrevista/lingua-darwin-linguagem-estado-permanente-evolucao-2073527


segunda-feira, 4 de setembro de 2023

Margarita Correia - Marcelo e o discurso em ucraniano

 * Margarita Correia   

04 Setembro 2023 

Muito se escreveu sobre o discurso que Marcelo terá proferido durante as comemorações no Dia da Independência da Ucrânia, a 24 de agosto. Percorrendo as notícias sobre o assunto, podemos ler que Marcelo "discursa / faz discurso em ucraniano", "lê em ucraniano", "fala em ucraniano". Será que o fez? De facto, quando chegou a sua vez de discursar, o Presidente optou por reproduzir oralmente, supostamente em ucraniano, um texto.

O que estava no documento? É pouco provável que fosse um texto escrito em ucraniano: esta língua escreve-se com alfabeto ucraniano, variação do alfabeto cirílico, que inclui 34 letras representando 40 fonemas (representações mentais, abstratas, dos sons); dessas 34 letras: 20 representam consoantes (algumas não existentes em português); 10, vogais (idem); duas, semivogais; um "sinal suave", que modera a entoação da consoante que o antecede; um apóstrofo, que suaviza algumas consoantes em contextos não esperados. Também é improvável que estivesse escrito em Alfabeto Fonético Internacional (AFI), um sistema Internacional de notação fonética composto por 157 carateres, que visa obter uma representação padronizada dos sons (concretos) das línguas do mundo, que permite a um connaisseur reproduzir oralmente uma transcrição fonética de qualquer língua, mas que é amplamente desconhecido do cidadão comum. O mais provável é que fosse um documento escrito em ucraniano romanizado, i.e., usando um sistema de transcrição/transliteração de ucraniano em carateres latinos. O problema é que o alfabeto cirílico foi criado precisamente por se assumir que o latino não representava eficazmente os sons das línguas eslavas.

O que fez Marcelo foi tão-só reproduzir através da voz uma transcrição em alfabeto latino de um texto talvez escrito originalmente em ucraniano, ou traduzido de português para ucraniano.

Marcelo "leu em ucraniano"? José Morais, no seu livro de 1992 sobre leitura, conta que John Milton, que ficara cego, ensinou as filhas a reproduzir oralmente textos clássicos, para, ouvindo a voz delas, poder usufruir do conteúdo deles, e chega à conclusão de que nem Milton lia, nem as filhas liam, em sentido estrito: elas reproduziam sinais gráficos através da voz, ele ouvia a voz delas e (re)construía a representação mental do conteúdo dos textos. Leitura implica compreensão e, mesmo ao ler em voz alta, compreendemos o que dizemos, o que torna possível usar a prosódia certa, i.e., ler com entoação. Marcelo não leu com entoação, não compreendeu o que disse e, portanto, não leu, nem discursou naquela língua.

Marcelo "falou em ucraniano"? Para falar uma língua é preciso sabê-la (dominar a sua gramática e vocabulário, construir enunciados, articular os sons dessa língua e atribuir significado ao contínuo sonoro de quem fala a língua). E Marcelo não sabe ucraniano, como ele próprio admitiu ao comentar o seu ato. Não falou, nem poderia falar.

Em suma, o que fez Marcelo foi tão-só reproduzir através da voz uma transcrição em alfabeto latino de um texto talvez escrito originalmente em ucraniano, ou traduzido de português para ucraniano. É legítimo questionar se, após passar por tantas traduções e transliterações, o texto faria ainda sentido, mas isso eu não sei. Quando Cândida Pinto, na Grande Entrevista, perguntou a Zelensky se ele tinha percebido o discurso, ele parece ter respondido que não...

O que está em causa não é o comportamento do Presidente, que terá certamente atingido algum(uns) dos propósitos que tinha em mente ao fazê-lo. Pergunto-me, sim, o que levará os media a, da perspetiva do discurso, serem tão pouco precisos no uso da linguagem ou, talvez, a pretenderem exacerbar as qualidades de Marcelo. A cada um, a sua resposta.

Professora e investigadora, coordenadora do Portal da Língua Portuguesa

https://www.dn.pt/opiniao/marcelo-e-o-discurso-em-ucraniano-16963607.html?  


quarta-feira, 5 de maio de 2021

Mariana Durães - Os brasileiros “têm meia língua portuguesa”?

LÍNGUA PORTUGUESA

Os brasileiros “têm meia língua portuguesa”? Quando as palavras são motivo de discriminação

O que o Atlântico separa a língua portuguesa une. Ou não? Matias foi alvo de chacota por causa do sotaque; Jullyana foi avisada para fazer um exame em português europeu e a Thalita disseram que os brasileiros só têm “meia língua portuguesa”. A todos pedem (ou exigem?) que falem “português correcto”. Mas, no Dia Mundial da Língua Portuguesa, perguntamos: o que é o português correcto?

Mariana Durães

5 de Maio de 2021, 8:08

“Por favor, façam o exame em português de Portugal, porque eu não entendo nada do que vocês escrevem”: a ordem foi dada antes de um exame do curso de História da Arte, mas não havia sido a primeira vez que Jullyana Rocha se tinha sentido confrangida por não falar português europeu.

Antes, quando foi mudar a morada a uma repartição de Finanças, teve o mesmo problema. “Fui com todos os documentos e expliquei à senhora que precisava de mudar a morada fiscal. Tentei-me explicar umas quatro vezes e ela simplesmente dizia que não entendia o que eu estava a falar. Ainda nem usávamos máscara, por isso não havia nenhum impedimento”, recorda a brasileira de 25 anos, a viver em Portugal desde 2017.

Não é caso único: os relatos de brasileiros a viver em Portugal que dizem ser discriminados por “não falarem português correcto” multiplicam-se nas redes sociais. Na página de Instagram Brasileiras não Se Calam, por exemplo, em que são partilhados relatos de xenofobia, é recorrente encontrar denúncias de discriminação por causa da língua: em situações do quotidiano, nos locais de trabalho, e, diversas vezes, nas faculdades.

Foi lá que Jullyana e os colegas brasileiros foram avisados para realizar o exame em português europeu, e foi esse momento, aliado a muitos outros de discriminação, que a fizeram sair do curso e optar por estudar Marketing remotamente, numa universidade brasileira: “Não quis voltar para o sistema de ensino de aqui.”

Também Matias Guimarães foi alvo de chacota quando chegou atrasado a uma aula. “Quando entrei na sala, o professor começou a fazer uma série de críticas e piadas sobre o meu sotaque, sobre eu ser burro pelo meu sotaque, por não falar direito”, relata. Pelo que tem ouvido, refere, “há pelo menos um professor em todas as faculdades que reclama que os brasileiros não falam da maneira mais correcta”. Mas o que é, afinal, o português correcto?

“A língua pode ter diversas cores”

“Desde que somos crianças, a escola diz-nos que certas formas são correctas e outras são incorrectas”, começa por enquadrar Ronan Pereira, doutorando em Linguística pela Universidade Nova de Lisboa. Há, no entanto, uma premissa que é importante não esquecer: “As línguas não são elementos estáticos. Elas variam territorialmente, ao longo do tempo, de acordo com as classes sociais, etárias... Mas, por algum motivo, temos na nossa cabeça que a língua é uma coisa só.”

Ora, quando uma criança vai para a escola, não é possível abordar todas as formas que uma língua pode ter. O ensino foca-se, então, no ensino da gramática normativa, aquela que nos diz as regras a seguir para escrever e falar correctamente. É essa gramática que estabelece o padrão, e é importante que seja ensinada, “porque, se todos começássemos a escrever como nos apetece, a coisa ficava confusa”, refere o linguista.

Quando falamos de português europeu e português brasileiro, estamos a falar de “duas variedades linguísticas” — o que mostra que “a língua é uma definição algo abstracta e, neste caso, vemos como a língua portuguesa pode ter diversas cores”. E nem é preciso atravessar um oceano para encontrar estas variedades: dentro do território continental encontramos muitas formas de falar português. A diferença é que “uma pessoa de Évora vai ter muito mais em comum na sua gramática mental com alguém de Coimbra do que com alguém de São Paulo”.

Os “entraves” linguísticos começaram a sentir-se no dia-a-dia de Mônica Santos logo desde que veio para Portugal, há três anos. “Uma atitude quotidiana como ir a uma padaria era muito difícil, porque o meu simples pedido de um pão era pouco percebido pelas pessoas, porque não queriam”, conta. “Existia uma certa necessidade de demonstrar que não estava a falar da melhor forma, era satirizada”, continua.

Foi também na faculdade que experienciou situações “mais fortes”. Ainda que seja necessário apresentar uma declaração de proficiência em língua portuguesa ao ingressar na faculdade, esta não especifica a necessidade de ser em português europeu. E, quando as aulas começam, “os professores são bastante críticos na forma como escrevemos relatórios, trabalhos, etc.”, lamenta. Chegam até a descontar pontos pela escrita, refere.

“Ouvir dizer todos os dias que falamos brasileiro em vez de português é o mesmo que dizer que nos Estados Unidos se fala ‘americano’ e que na Austrália se fala ‘australiano’, quando na verdade todos falam a língua inglesa.”

Alguns portugueses “olham com estranheza” quando Thalita Meros diz que dá aulas de Português. A viver em Portugal desde 2019, veio fazer mestrado na Faculdade de Letras da Universidade do Porto e, como já tinha experiência em dar aulas no Brasil, começou a dar aulas voluntariamente a estrangeiros em Portugal. Quando alguns alunos lhe dizem que “não querem aprender português brasileiro”, a professora de 38 anos explica que “não funciona assim”, que há materiais didácticos e que “a regra é comum para todos”.

“O português é uma língua multicultural. As pessoas que vão para a minha aula vão ouvir o sotaque do português de Portugal todos os dias na rua, vão acabar por pegar um pouco”, afiança. Mas pergunta: “Que estrangeiro fala realmente com o sotaque português de Portugal? Se ensinar português a um espanhol, ele vai falar com o sotaque espanhol.”

Também ela já viveu situações de preconceito por causa da língua. Numa ida ao Serviço de Estrangeiros e Fronteiras, quando teve de indicar o número de telemóvel, disse “meia”, em vez de “seis”, como é comum no Brasil. Do outro lado ouviu: “Os brasileiros têm meia língua portuguesa.”

A globalização da língua portuguesa “traz muitos desafios”, começa por dizer Patrícia Ferraz de Matos, antropóloga e investigadora auxiliar no Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa. “Em primeiro lugar, porque o português que se fala em vários continentes não é exactamente o mesmo e tem muitas variantes — nacionais, regionais e locais. Em segundo lugar, porque este movimento para criar um Dia da Língua Portuguesa não se centra apenas nesta e parece querer estender-se a outros fenómenos culturais, ou seja, parece ser mais ambicioso.”

E porque não olhar para essas variantes como um factor de enriquecimento? Afinal, como relembra a investigadora, “é devido ao Brasil e ao seu tamanho que o português é hoje uma das cinco línguas mais presentes no espaço digital”.

Também inserida no espaço académico, a antropóloga refere que, “embora o português do Brasil seja admirado na literatura” (veja-se “a riqueza do vocábulo dos livros de Jorge Amado, por exemplo”), o mesmo não acontece nas aulas ou avaliações. No doutoramento em Antropologia, onde é docente, aceita teses escritas em português do Brasil ou português africano, por exemplo. Mas nem sempre é assim, como a experiência de Jullyana mostra.

A variedade mantém a língua viva

Mas de onde vem, afinal, a ideia de que o português do Brasil não é correcto? “Durante o processo evolutivo do português brasileiro, surgiram formas coloquiais que são violações à gramática mental dos falantes de português europeu”, explica Ronan Pereira. Um exemplo: “Eu vi-o”, como diz um português, versus “eu vi ele”, dito por um brasileiro. “Para a gramática mental de um português, [a segunda formulação] soa mal, mas isso não quer dizer que o falante de português brasileiro fale mal. Ele fala a sua variedade, que tem essa estrutura.”

Na verdade, quanto mais portugueses e brasileiros se aproximarem da norma gramatical — ou, por outras palavras, quanto mais correctamente falarem —, mais próximos ficam. Se assim fosse, “teríamos sotaques diferentes, o que é completamente natural e acontece em todas as línguas, mas a questão estrutural seria basicamente a mesma”, explica o linguista. “A regra é comum para todos”, acrescenta Thalita.

“Alguns dos preconceitos actuais podem ainda ser resquícios do passado”, refere Patrícia Ferraz de Matos. Podem estar relacionados “com as várias influências que o português do Brasil recebeu”. “É como se o português do Brasil fosse menos puro do que o português europeu, ao qual se associa por vezes uma identidade própria, associada à antiguidade do país na Europa, à sua permanência como país independente ao longo de vários séculos, sem nunca se ter subjugado ao poder (e língua) espanhol”, contextualiza.

A herança cultural, marcada por séculos de colonialismo, é, para Matias Guimarães, a principal justificação para esta discriminação. “Sinto que existe uma parcela da população portuguesa que vê as ex-colónias como inferiores de diversas formas”, atira. E essa percepção é generalizada. “Os mais velhos têm um sentimento de nacionalismo muito forte, acham que estamos para reconquistar o que nos foi tirado na época dos descobrimentos, como já ouvi muitas vezes”, refere Jullyana.

Thalita chama-lhe “saudosismo da língua”. Acredita que o pensamento comum é, muitas vezes, este: “Eu levei a língua para esse país e eles estragaram-na, deviam mantê-la como é aqui.” Ou, em forma de pergunta, como já fizeram a Mônica: “Quem é que inventou a língua?”

Esse saudosismo, acredita Thalita, poderá estar prestes a acabar, com ajuda das gerações futuras. “Os alunos de hoje já têm questões sobre a variação linguística nos seus manuais”, afirma. “A variação agrega muito. Tem algumas palavras que são diferentes? Tem. E isso só vai acrescentar”, atira. Patrícia Ferraz de Matos vai mais longe: “É talvez essa riqueza que mantém a língua viva — a de um conjunto diversificado de pessoas que a utiliza há vários séculos, mas que a vai adaptando e fazendo evoluir.”

tp.ocilbup@searud.anairam

https://www.publico.pt/2021/05/05/p3/noticia/brasileiros-meia-lingua-portuguesa-palavras-sao-motivo-discriminacao-1961161


sexta-feira, 23 de abril de 2021

Rui Tavares - Coisas em que fiquei a pensar depois do curso do PÚBLICO sobre História de Portugal

 OPINIÃO

Dos cerca de novecentos anos que Portugal leva como entidade política estável, mais de metade foram passados com domínios fora da Europa. Diz-se que as fronteiras de Portugal mudaram pouco, mas isso não é verdade.

Rui Tavares

23 de Abril de 2021, 0:01

Na quarta-feira o curso acabou como acabaram todas as aulas deste curso, com vontade de ficarmos à conversa por horas. O Professor Amílcar Guerra, palestrante do dia, tinha falado daquele mistério que é a existência no Alentejo e no Algarve de cerca de uma centena de inscrições numa escrita até hoje indecifrada a que às vezes se chama “tartéssia” ou apenas “escrita do Sudoeste”, representando uma língua local ainda por identificar. Era a última de 25 aulas que coordenei para 25 séculos de história e, como em todas elas, houve muitas perguntas e as mais simples eram as mais fascinantes — as que quebravam a barreira do academismo e deixavam os palestrantes contentes por poderem arriscar mais e os alunos fascinados por quererem saber mais.

Eu saí na minha “nuvem do não-saber” pensando como poderia ser que alguém saindo da serra algarvia há 2500 anos para ir até ao litoral encontrar num dia de caminhada gente falando “tartéssico” ou “fenício”, línguas não só diferentes mas provavelmente de famílias linguísticas diversas, que poderiam ser indo-europeias, semíticas ou (à falta de melhor termo) “ibéricas”. Seria mesmo possível nessa jornada encontrar várias línguas diferentes neste território relativamente exíguo? E depois lembrei-me onde já tinha visto isso: em Timor Leste, onde de aldeia para aldeia se pode falar macassai, fataluco, mambai e mais um tanto de línguas de famílias linguísticas tão distintas como o malaio, o papuano ou o polinésico.

Em tempos o nosso território terá sido assim, mas já então sujeito à influência de “uma certa globalização” trazida pelos fenícios, bem mais indiretamente pelos gregos, depois massivamente pelos romanos, com judeus aqui e ali, num território que era a fachada atlântica do mundo mediterrânico: a orla de um mundo euro-afro-asiático no qual, ao mesmo tempo que alguém escrevia aquela escrita do Sudoeste, sábios como Sócrates, Confúcio e Sidarta “Buda” Gautama dispensavam os seus ensinamentos na Ática, China e Índia. Um território ultraperiférico nessa chamada “era axial”, mas que seria dali a uns séculos incorporado no mundo romano e no qual havia uma vaga lógica litoral norte-sul que resultou na província romana da Lusitânia.

Portugal não é a Lusitânia, até porque uma boa parte dele, acima do Douro, pertencia à Gallaecia, e é de lá que vem a nossa língua e o nome do país. Desse ponto de vista podemos ver o nosso país como uma realidade mais fortuita, um artefacto das cruzadas que se cristalizou? É certo que esse país que se veio a fazer com uma língua “emprestada” dos primos galegos e uma capital “estrangeira” de mouros e moçárabes, num território sem fronteiras naturais, esteve várias vezes para se diluir no todo peninsular e algumas para se separar entre Norte e Sul. Mas a verdade é que isso nunca veio a acontecer de forma duradoura. Devemos então supor que essa lógica de “fachada atlântica do mundo mediterrânico” levasse a uma certa coesão que veio a beneficiar aquele reino da Baixa Idade Média que perdurou? Se é verdade que o território de Portugal não corresponde ao da Lusitânia, não esqueçamos que há muitos países que preservaram o seu nome por mais tempo com mudanças de território de uma amplitude muito maior.

Como intuiu Saramago na sua História do Cerco de Lisboa, sem a tal capital que fora moura a história não só de Portugal, mas da Europa e do mundo, teria sido muito diferente. Sem o maior e mais seguro porto natural atlântico desta macro-região, será que as grandes navegações não teriam partido de uma tal Al-Ushbuna, no Gharb Al Andalus? Impossível saber. Mas sem Lisboa, seria quase inconcebível terem sido navegações portuguesas. E esse momento da expansão acabou por ser determinante para tal fachada atlântica que assim deixou de estar na orla do mundo conhecido para estar no centro em relação ao Novo Mundo, multiplicando os seus pontos de contacto, conquista e comércio (incluindo de pessoas escravizadas), diversificando ainda mais a sua composição étnica e disseminando a língua que entretanto havia chamado sua. Dos cerca de novecentos anos que Portugal leva como entidade política estável, mais de metade foram passados com domínios fora da Europa. Diz-se que as fronteiras de Portugal mudaram pouco, mas isso não é verdade: mudaram muitíssimo, e até muito recentemente não tinham ainda regressado à Europa.

O espaço para a crónica acabou, e ainda não falei de algo crucial para as nossas escolhas hoje. Mas por agora deixo apenas o repto a que se inscrevam em futuros cursos de história do PÚBLICO. E para a semana veremos como uma questão da economia e da educação portuguesa no século XVIII é ainda central para a discussão do que deveremos ser depois da entrega do Plano de Recuperação e Resiliência de Portugal, que foi feita ontem.

O autor escreve segundo o novo acordo ortográfico

Historiador; fundador do Livre

https://www.publico.pt/2021/04/23/opiniao/noticia/fiquei-pensar-curso-publico-historia-portugal-1959684

quinta-feira, 22 de abril de 2021

Nuno Pacheco - Ortografados de medo, ou a porta que Abril não abriu

Se houve porta que Abril não abriu, foi a de reconhecer à língua portuguesa maturidade para integrar as suas diferenças nacionais sob uma denominação comum.

Completam-se, no domingo, 47 anos do 25 de Abril. Quase tantos, já, quantos os que durou a ditadura, que na verdade não foram bem 48 mas sim 47 anos, 10 meses e 27 dias, contados entre o golpe militar de 28 de Maio de 1926, que os partidários da ditadura celebravam como “revolução nacional”, e o golpe militar de 25 de Abril de 1974, que mundialmente se tornou célebre como “revolução dos cravos”. Não é mera questão de semântica, nem jogo de palavras: o que esteve em causa foi sempre a liberdade. Reprimida, durante a ditadura; ainda confusa na turbulência da transição; e finalmente consagrada na democracia.

Sinais dos tempos: em 1974, com os tanques na rua, tornou-se célebre uma fotografia onde, ao fundo, se via um grande cartaz de cinema a anunciar O Esquadrão Indomável. Nem de propósito. Em 2021 não há “esquadrão”, mas há Hollywood, com a cerimónia dos Óscares a ser transmitida (quem diria) pela televisão estatal, a RTP. Uma tardia “conquista de Abril”? Nem por sombras. A cerimónia costuma realizar-se em Fevereiro, às vezes em Março, e só devido à pandemia é que foi empurrada para Abril, coincidindo no nosso 25. Já agora, para não ficarem dúvidas, o tal “esquadrão indomável” do cartaz retratado em 1974 também não era um grupo de heróis, mas sim de polícias implacáveis e com métodos nada democráticos. “Quando eles estão em acção é difícil dizer quem são os polícias e os assassinos”, dizia na altura a propaganda do filme, que na versão original se chamava The Seven Ups.

Uma dúzia de anos antes de nos ser devolvida a liberdade, escreveu Alexandre O’Neill (no seu livro Poemas com Endereço, 1962) “Perfilados de medo”, que José Mário Branco viria magistralmente a musicar, gravando-o em 1971 no exílio, em Paris. “Perfilados de medo, agradecemos/ o medo que nos salva da loucura./ Decisão e coragem valem menos/ e a vida sem viver é mais segura.” (Poesias Completas, Ed. Assírio & Alvim, 2000, pág. 191). Pois bem: há casos em que é o medo que nos empurra para a loucura, em vez de nos salvar dela. E um deles, já gasto, cansativo, moribundo, é o da ortografia. Não havia em Portugal uma ortografia oficial até ser fixada em 1911, após o derrube da Monarquia. Foi a I República que nela insistiu, num país onde 76% da população era analfabeta. Mas o “bichinho” das alterações ortográficas não parou: deu mais reviravoltas em 1945 e em 1973, remexendo em acentos e letras, congeminou novas aventuras nos anos 1960, quis revolucionar as regras em 1986, recuou perante as muitas acusações escandalizadas, e finalmente ajustou-as em 1990, para depois, bem mais tarde, vê-las impostas numa coisa chamada “acordo ortográfico” com a inalcançável veleidade de criar uma ortografia comum ao universo da língua portuguesa.

Visto de fora, pode parecer normal. Mas, visto de dentro, o resultado é um pesadelo. Já em 1945, quando Portugal (então uma ditadura ainda com colónias em África) tentou acertar com o Brasil uma ortografia unificada, o gesto pecava por tardio. As divergências entre os dois países no domínio da língua eram já insanáveis. O Brasil concordou em 1945, mas dez anos depois desvinculou-se. As regras ortográficas de 1945 serviam o português de cá, o europeu, mas não serviam o português do Brasil, americano. Tudo quanto se fez depois, além de ser em vão, só serviu para descaracterizar o português de cá e de lá, sem proveito nem préstimo. Enquanto isso, as colónias africanas emanciparam-se após o 25 de Abril, cada qual com a sua bandeira, o seu hino, as suas leis, os seus sistemas e moedas próprias. Por que razão não deviam, também, dar livre curso ao uso feito do português, fixando as respectivas variantes? Por nenhuma razão. Só uma certa loucura lusitana imaginou que, escolhendo a sua própria via em tudo o resto, deviam ficar presos a uma ortografia comum.

E foi assim, parafraseando O’Neill, “ortografados de medo” (com medo que o português, como idioma, se desmembrasse, medo que contaminou certa intelectualidade e serviu de mote a actos políticos condenáveis), que impuseram a loucura da “unificação”. Agora, no dia 5 de Maio, hão-de tecer-se novas loas à língua, como convém. Ignorando que, se houve porta que Abril não abriu, foi a de reconhecer à língua portuguesa maturidade para integrar as suas diferenças (as suas variantes nacionais) sob uma denominação comum. Podendo e devendo partilhá-las num dicionário global normativo (que infelizmente não existe), embora distinguindo o que seria aplicável em cada país. É esse o futuro por que vale a pena lutar.