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quarta-feira, 24 de setembro de 2025

Mário Beja Santos - "O último avô"



O mais genial escritor português queimou as suas memórias da Guerra Colonial. Porquê?
        
* Mário Beja Santos   

        É um romance avassalador, dotado de uma estrutura onde não faltam histórias que se desprendem como bonecas russas, onde o inescrutável assume proporções de uma investigação quase policial, o neto do mais genial escritor português soube que o seu avô prodigioso incendiou o manuscrito do que seria a sua obra luminescente, as coisas da guerra, porque ele combatera na região de Cabinda e no estrito círculo familiar falava de horrores, de sofrimentos incalculáveis, confessava que os companheiros mortos lhe eram presenças fantasmáticas.

        O maestro da narrativa é o neto, mas há também a avó, as tias-manas, a estranha companheira do avô em fim de vida, a governanta, as lembranças da mãe, prematuramente falecida, cuja ausência é sublinhada há anos por um quarto trancado na casa do avô. Enfim, enigmas em catadupa. Falecido o escritor que era uma instituição nacional, a quem só fugira o Nobel, era esse ponto de África que corria o risco de se transformar numa lenda, ele nunca escondera em público e em privado que aquela guerra era trauma que não se apagava. Será que o grande escritor não deixara uma cópia da sua obra mais esperada?

        O escritor nomeia como testamenteiro este neto, ele abre-nos a porta à sua infância, à vida agitada por que passara a mãe, uma quase vagabunda, vivera em comunidade lá para os Algarves, numa atmosfera de indecências. Assim vai detonar uma narrativa de presente e passados, em ritmo turbilhonante: O Último Avô, por Afonso Reis Cabral, Publicações Dom Quixote, recentemente dado à estampa.

        O leitor não desarma porque a narrativa do neto é enleante, urdida de diálogos surpreendentes, rapidamente de agiganta aquele escritor tirânico, mitómano e confabulador, há sempre tempestades nos diálogos entre escritor e a sua mulher, um escritor cheio de lábia apetrechado de marketing. “Os jornalistas perguntavam-lhe se escreveria sobre Angola. Quando não lhe perguntavam, ele mesmo encaminhava a conversa, dizia que sim, um dia sim, quando estivesse à altura do tema escreveria tudo o que vira e fizera, o quanto sofrera. Ele sabia o que significava ter a G3 por confidente. Por enquanto, a arma continuaria a única guardiã das suas mágoas.”

        A mãe do narrador, conhecida por Formiga, parecia destinada a ser mais do que a confidente do genial escritor, talvez uma sucessora. Acabara por ser a grande deceção do escritor e do pai. Neto e avó convivem felizes numa casa em Azeitão, já a avó se libertara do tirânico marido. O avô faiscava admirações, daí Regina, aquela companheira muito mais nova. É à filha mais nova, a Formiga, que ele conta os seus segredos africanos. Chegava a agir brutalmente em meio familiar, o genial escritor é bem capaz de atrocidades e truculências como esmagar pássaros bicos de lacre. Seria reminiscência do que ele passara na guerra?
 
        O neto lança-se na investigação, pretende saber se existe ou não um manuscrito. Há fotografias africanas, o avô contara histórias sobre certas mulheres, ele que dizia: “Nós éramos miúdos que achavam que eram homens. A recruta bárbara meteu-nos na cabeça que éramos homens. Nas éramos miúdos que, ao fim de seis meses de uma dureza insana, tinham de ir para a guerra a achar que eram homens. Ainda hoje os admiro, amo-os, aos meus camaradas. Deram o que tinham, tantos deram tudo. E só tinham a juventude para dar.”

      Aquele avô quis fazer do neto escritor, foi mais um desencontro, o genial escritor viveu desencontros familiares em alta voltagem. A pesquisa do manuscrito é desmesurada: nos dezassete mil volumes da biblioteca, abanaram-se molduras, bateram-se nas paredes à procura de fundos falsos, as gavetas dos móveis, os ficheiros dos computadores, as pastas de arquivo. Nada. Há mais histórias do avô, uma muito comovente, já na atmosfera da guerra civil em Angola, envolvendo Zacarias, a Jóia e a Estrela da Piedade. O neto é pressionado pelas tias-manas e pelo editor, por Regina e pela sua amiga Cecília, havia que descobrir o mais perfeito diamante da herança literária do genial escritor.

        Este romance de Afonso Reis Cabral atravessa três gerações. Estou absolutamente seguro de que será procurado avidamente por gente de todas as idades. Mas haverá um segmento desse público que lhe ficará profundamente agradecido por um parágrafo inspirador, talvez único em toda a literatura portuguesa contemporânea, é uma homenagem rendida aos antigos combatentes:

        “Restam uns trezentos mil soldados da velha guerra. A estatística manda que os encontremos na rua, na sucursal do banco ou dos correios, nos cafés. Frequentam os transportes públicos e sentam-se ao nosso lado na Loja do Cidadão. São eles que conversam entre si durante horas nos bancos de jardim. Uns falam alto, outros perderam a voz. Suspeito de que muitos dos que agarramos pelos pulsos e tornozelos às camas dos hospitais, e que bradam como cercados pelo inimigo, também sejam antigos combatentes. Alguns escondem-se à paisana de velho e à paisana de soldado: como ninguém lhes dá mais de setenta anos, não parecem velhos o suficiente e ninguém desconfia de que combateram em África. Outros entraram em lares.

        Vivem nas nossas casas, comem da nossa comida, bebem da nossa água e despejam os mesmos autoclismos. Usam o nosso papel higiénico. Se os observarmos com amor e algum cuidado, espantamo-nos e compreendemos que são nossos pais e avós e que, enquanto não morrerem, estão vivos; ao mesmo tempo vivos e invisíveis, porque são velhos e não olhamos, porque são veteranos e não ligamos.”

        Não estou aqui para contar o desenlace de toda esta investigação, acreditem que será inesperado, o neto percorre arquivos, até pede uma entrevista a um camarada do genial escritor, o retrato do ex-alferes Anselmo Baltazar é outro primor literário. Fica-se a saber a verdade de tudo. É um neto queixoso, justamente iracundo, que irá preparar a vingança da História, e paradoxalmente tornar mais grada a lenda do tão esperado romance que não conhecerá a luz do dia. Como tudo isso aconteceu é matéria para que o leitor se encontre com este romance inovador em que a Guerra Colonial anda obsidiante entre a verdade e a mentira.

        Uma obra-prima.

 https://malomil.blogspot.com/2025/09/o-mais-genial-escritor-portugues.htm

sexta-feira, 12 de janeiro de 2024

Os Últimos do Estado Novo, por José Pedro Castanheira

 

 


 * Mário Beja Santos


O jornalista José Pedro Castanheira, com uma notável carreira profissional, explica de forma meridiana na apresentação deste seu livro a essência de Os Últimos do Estado Novo, Tinha da China, 2023:

“Já reformado, a organizar o meu arquivo, verifiquei, com algum espanto, que tivera oportunidade de conhecer e fazer um trabalho jornalístico com e sobre alguns dos principais derrotados do 25 de Abril – o último diretor da Censura, o último presidente do Partido Único, o último responsável pelo campo de concentração do Tarrafal, os membros do último Governo da ditadura, o último secretário particular de Marcello Caetano, o seu último porta-voz. Paralelamente, tivera o ensejo de fazer reportagens em torno de episódios e acontecimentos marcantes, precisamente por terem sido os últimos do género a ocorrer durante a ditadura: o último deportado, os últimos presos políticos, a última entrevista concedida por Oliveira Salazar. E pensei que faria sentido reunir todos estes trabalhos e publicá-los em livro.” E faz comentários sobre a natureza de entrevistas e entrevistados, ficam algumas pontas de mistério, seguramente não haverá resposta para o conteúdo da documentação que Alexandre Carvalho Neto, secretário pessoal de Marcello Caetano, destruiu na residência de S. Bento, no cumprimento das instruções dadas pelo deposto presidente do Conselho de Ministros. E o leitor que se prepare para uma viagem que tem pouco de nostálgica, permite um sem número de clarificações e, impressão minha, da própria sensibilidade manifestada pelos entrevistados, há mais reconciliação que ressabiamento pelo fim do regime ditatorial.

Eduardo Vieira Fontes, diretor do “campo de trabalho” do Tarrafal, abre as hostilidades, um cabo-verdiano que nunca quis a nacionalidade cabo-verdiana, que guarda recordações amenas de Amílcar Cabral e do seu trabalho em Angola, que considera ter agido com elevado sentido do dever no Tarrafal, reaberto em 1961, a PIDE criticava muitos dos seus procedimentos para com os presos, durante a entrevista mostra testemunhos de detidos, francamente favoráveis para a maneira como conduzia a vida no campo. “Nunca mais voltou a Cabo Verde, mas vinha quase todos os anos a Portugal. Faleceu nos EUA, em East Providence, em 9 de novembro de 2021, escassos meses após a morte da mulher. Tinha 99 anos.”

Não menos interessante é a reportagem sobre os últimos presos políticos, tudo se passou em abril de 1974, ficamos a saber quem e porquê foi detido. O mesmo se dirá do último Governo da ditadura, há para ali aspetos curiosos de escolhas de ministros e secretários de Estado, e há o depois do 25 de Abril. Pedro Feytor Pinto, que teve uma intervenção direta nos acontecimentos do 25 de Abril dá-nos as suas impressões sobre aspetos da governação de Marcello Caetano, o seu relacionamento com os liberais, os bastidores da oposição ao Governo dentro do regime, o que se passou depois da queda da ditadura. Não deixa de causar estranheza certas afirmações de Alexandre Carvalho Neto, foi secretário particular de Marcello Caetano e antes ocupara um cargo semelhante junto de Spínola na Guiné, não só diz inverdades como destrata quem não se pode defender, isto quanto à Guiné. Que antes de Spínola havia a iminência de uma derrota militar, que Schulz foi destituído e que ainda regressou a Bissau para empacotar os serviços de prata do Palácio de Bolama. Acontece que a guerra não estava perdida nessa época (1968), que Schulz não foi demitido, cumprira quatro anos na governação e como comandante-chefe e interrogo-me como era possível um governador trazer pratas de um palácio que estava em ruínas, fora abandonado em 1941, impensável deixar ali pratas, enfim, tricas com uma pontinha de maledicência, resta saber para quê. E ficamos a saber que ajudou Marcello Caetano a instalar-se no Rio de Janeiro.

O leitor jamais ficará dececionado com este repositório de entrevistas onde iremos ver discorrer Elmano Alves, o presidente da última comissão executiva da Ação Nacional Popular, Mário Bento Soares, o último diretor da Censura, o autor entrevistará o jornalista francês Roland Faure que entrevistou Salazar quando este já não era o homem todo-poderoso e vivia debilitado em S. Bento, a Censura cortou a entrevista, para o regime marcelista era totalmente inaceitável que os nostálgicos ouvissem Salazar dizer coisas como: “Conheço bem Marcello Caetano. Foi várias vezes meu ministro e aprecio-o. Ele gosta do poder: não para retirar quaisquer benefícios pessoais ou para a família; é muito honesto. Mas gosta do poder pelo poder. Para ter a impressão exaltante de deixar a sua marca nos acontecimentos. É inteligente e tem autoridade, mas está errado em não querer trabalhar connosco no Governo. Porque, como sabe, ele não faz parte do Governo.”

O leitor será confrontado com o relacionamento de Salazar com o major Silva Pais, o último diretor da PIDE, as matérias que tratavam, as informações que a PIDE fazia chegar a Salazar não só sobre acontecimentos internos como internacionais, fica perfeitamente claro que o ditador soube do assassinato do general Humberto Delgado com todos os pormenores, dando depois em discurso uma versão totalmente descabelada, atribuindo a tensões entre oposicionistas, atribuindo à oposição o crime. Iremos ler os acontecimentos da deportação de Mário Soares em S. Tomé e Príncipe. E o livro termina com uma reportagem de acontecimentos muito pouco conhecidos e praticamente não tratados pela historiografia, os sindicatos corporativos, afetos por natureza ao regime, mas que estavam em ebulição e mesmo em rutura com o então subsecretário das Corporações não só dado o agravamento do custo de vida, como os penosos horários de trabalho e salários bloqueados. Iremos viajar ao último plenário destes sindicatos, haverá reuniões com Salazar e uma reunião desse plenário no Coliseu dos Recreios. É nesse plenário que os dirigentes sindicais divulgarão o teor de uma mensagem entregue a Salazar a que o ditador fez 23 cortes e alterações no texto que lhe entregaram. O ditador será sócio honorário de 300 sindicatos. E diz-se no último plenário dos sindicatos corporativos por que a máquina corporativa sofrerá alterações de fundo com o fim da Segundo Guerra Mundial e com a agitação política trazida pelo Movimento de Unidade Democrática. Gota a gota, elementos de oposição irão infiltrando-se nos sindicatos, a aliança com a governação irá desaparecer.

Esta coletânea de entrevistas é uma preciosidade, ajuda a compreender mentalidades dominantes do salazarismo e do marcelismo e como a ditadura não ofereceu resistência a quem vinha trazer as liberdades, o desejo de viver em democracia e pôr fim à inconsequente guerra colonial.

 

                                                                                    Mário Beja Santos

Publicada por Malomil à(s) 12.1.24 

 

https://malomil.blogspot.com/2024/01/os-ultimos-do-estado-novo-por-jose.html