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terça-feira, 6 de fevereiro de 2024

Guilherme d’Oliveira Martins - Herculano e Fontes


OPINIÃO
 
* Guilherme d’Oliveira Martins

Na Lisboa oitocentista houve o tempo dos cafés e o Marrare do Polimento ditava leis, na que hoje é a Rua Garrett. Ali Passos Manuel fazia escritório, José Estêvão, Castilho, Herculano, Garrett e Bulhão Pato encontravam-se para debater os assuntos do momento. Mas, como reconheceu Zacarias d’Aça, essa voga passou e nasceram os clubes, à maneira inglesa, e, entre eles, o Grémio Literário. Corria o ano de 1846 e os ânimos viviam exaltados, em guerra civil perante o Cartismo de Costa Cabral: a crise financeira, a Revolta da Maria da Fonte, o início da Patuleia, o início clandestino de O Espetro de Rodrigues Sampaio. Garrett dava à estampa As Viagens na Minha Terra, antes vindas a lume em folhetins na Revista Universal Lisbonense, dirigida por Castilho, e Alexandre Herculano publicava o primeiro volume da sua História de Portugal.

Helena Buescu e David Justino deram início agora ao ciclo sobre os fundadores do Grémio Literário, com a evocação de duas figuras primordiais na vida da vetusta instituição: Alexandre Herculano, o sócio N.º 1, fundador da moderna historiografia, marcante na literatura, na vida política e até na modernização da agricultura, com o seu premiadíssimo azeite; e António Maria Fontes Pereira de Melo, o governante, que tendo sido quatro vezes primeiro-ministro, fixou com o seu nome, na designação dada por Ramalho Ortigão, o período fundamental do liberalismo português - o Fontismo. E, se dúvidas houvesse, Rafael Bordalo Pinheiro intitularia de António Maria a mais célebre das suas publicações críticas.

Alexandre Herculano, um dos bravos do Mindelo, vindo de uma família de reconstrutores da cidade de Lisboa, depois do grande terramoto, foi figura única da primeira geração liberal, cultor do progresso e da autonomia individual, insistindo especialmente na dimensão moral. “O erro deplorável dos adeptos de certa escola é desprezarem a distinção entre o progresso que influi no melhoramento social e moral dos povos, e aquele que só melhora a condição física.” A luta contra a tirania, o exílio e contra a morte da liberdade era expressão da superioridade do homem convertido em cidadão.
 
Admirado pela geração dos jovens de 1870, o historiador foi a referência ética que se impôs. E lembremo-nos como nos seus ensaios e narrativas sobressaem o exemplo e a coerência da dignidade humana. Eurico, o Presbítero é o símbolo romântico, que se sacrifica estoicamente, enaltecendo a virtude dos seus adversários, em nome da honra, e em A Abóbada temos a sublime afirmação da vontade e do conhecimento que afinal prevalece num risco supremo. É esta coerência que encontramos em Herculano, que, não tendo apoiado a Revolução de Setembro de 1836, tornar-se-ia defensor em A Voz do Profeta, da Constituição compromissória de 1838, matricial no movimento estabilizador da Regeneração no Ato Adicional de 1852, em cujo regime defendeu intransigentemente a soberania popular com alternância de dois partidos - Regenerador e Histórico.

Para compreendermos Fontes Pereira de Melo, temos de entender a sua formação técnica e a muito precoce mobilização militar, cívica e política para a causa do liberalismo, na senda da carreira de armas de seu pai, em nome dos ideais da liberdade e do progresso. Por isso afirmou: “No nosso país há três grandes partidos. O progressista, o estacionário e o partido retrógrado. Eu sou progressista, digo-o com toda a franqueza, mas sou menos progressista do que muitos indivíduos que eu conheço nesta grande divisão; tenho, portanto, muita gente para a frente, e alguma para a retaguarda. (…) Entretanto, seria preciso que eu tivesse mais 30 anos, ou que tivesse nascido no século passado, para não ser progressista, como entendo que se deve ser” (15.1.1849).

Num período longo, houve condicionantes, continuidades e descontinuidades - que permitem entender a ideia de progresso e o confronto que Herculano precisou entre este e o melhoramento moral dos povos.

06 fevereiro 2024


Administrador-executivo da Fundação Calouste Gulbenkian

https://www.dn.pt/autor/5021344582/guilherme-doliveira-martins/

quinta-feira, 21 de setembro de 2017

Alexandre Herculano - Arrábida

    Alexandre Herculano


    Arrábida
    I
    Salve, oh vale do sul, saudoso e belo!
    Salve, oh pátria da paz, deserto santo,
    Onde não ruge a grande voz das turbas!
    Solo sagrado a Deux, pudesse ao mundo
    O poeta fugir, cingir-se ao ermo,
    Qual ao freixo robusto a frágil hera,
    E a romagem do túmulo cumprindo,
    Só conhecer, ao despertar na morte,
    Essa vida sem mal, sem dor, sem termo,
    Que íntima voz contínuo nos promete
    No trânsito chamado o viver do homem.

    II
    Suspira o vento no álamo frondoso;
    As aves soltam matutino canto;
    Late o lebréu na encosta, e o mar sussurra
    Dos alcantis na base carcomida:
    Eis o ruído do ermo! Ao longe o negro,
    Insondado oceano, e o céu cerúleo
    Se abraçam no horizonte. Imensa imagem
    Da eternidade e do infinito, salve!

    III
    Oh, como surge majestosa e bela,
    Com viço da criação, a natureza
    No solitário vale! E o leve insecto
    E a relva e os matos e a fragância pura
    Das boninas da encosta estão contando
    Mil saudades de Deus, que os há lançado,
    Com mão profusa, no regaço ameno
    Da solidão, onde se esconde o justo.
    E lá campeiam no alto das montanhas
    Os escalvados píncaros, severos,
    Quais guardadores de um lugar que é santo;
    Atalaias que ao longe o mundo observam,
    Cerrando até o mar o último abrigo
    Da crença viva, da oração piedosa,
    Que se ergue a Deus de lábios inocentes.
    Sobre esta cena o sol verte em torrentes
    Da manhã o fulgor; a brisa esvai-se
    Pelos rosmaninhais, e inclina os topos
    Do Zimbro e alecrineiro, ao rés sentados
    De tronos de fragas sobrepostas,
    Que alpestres matas de medronhos vestem;
    O rocio da noite à branca rosa
    No seio derramou frescor suave,
    E inda existência lhe dará um dia.
    Formoso ermo do sul, outra vez, salve!

    IV
    Negro, estéril rochedos, que contrastas,
    Na nudez tua, o plácido sussuro
    Das árvores do vale, que vicejam
    Ricas d'encantos, coa estação propícia;
    Suavíssimo aroma, que manando
    Das variegadas flores, derramadas
    Na sinuosa encosta da montanha,
    Do altar da solidão subindo aos ares,
    É digno incenso ao Criador erguido;
    Livres aves, vós filhas da espessura,
    Que só teceis da natureza os hinos,
    O que crê, o cantor, que foi lançado,
    Estranho ao mundo, no bulício dele,
    Vem saudar-vos, sentir um gozo puro,
    Dos homens esquecer paixões e opróbio,
    E ver, sem ver-lhe a luz prestar a crimes,
    O sol, e uma só vez pura saudar-lha.
    Convosco eu sou maior; mais longe a mente
    Pelos seios dos céus se imerge livre,
    E se desprende de mortais memórias
    Na solidão solene, onde, incessante,
    Em cada pedra, em cada flor se escuta
    Do Sempiterno a voz, e vê-se impressa
    A dextra sua em multiforme quadro.

    V
    Escalvado penedo, que repousas
    Lá no cimo do monte, ameaçando
    Ruína ao roble secular da encosta,
    Que sonolento move a coma estiva
    Ante a aragem do mar, foste formoso;
    Já te cobriram cespedes virentes;
    Mas o tempo voou, e nele envolta
    A formusura tua. Despedidos
    Das negras nuvens o chuveiro espesso
    E o granizo, que o solo fustigando
    Tritura a tenra lanceolada relva.
    Durante largos séculos, no inverno,
    Dos vendavais no dorso a ti desceram,
    Qual amplexo brutal de ardor grosseiro,
    Que, maculando virginal pureza,
    De pudor varre a auréola celeste,
    E deixa, em vez de um serafim na terra,
    Queimada flor que devorou o raio.

    VI
    Ontem sentado num penhasco, e perto
    Das águas, então quedas, do oceano,
    Eu também o louvei sem ser um justo:
    E meditei, e amante extasiada
    Deixei correr pela amplidão das ondas.
    Como abraço materno era suave
    A aragem fresca do cair das trevas,
    Enquanto, envolta em glória, a clara lua
    Sumia em seu fulgor milhões d'estrelas.
    Tudo caldo estava: o mar somente
    As harmonias da criação soltava,
    Em seu rugido; e o ulmeiro do deserto
    Se agitava, gemendo e murmurando
    Ante o sopro de oeste: ali dos olhos
    O pranto me ocorreu, sem que o sentisse,
    E aos pés de Deus se derramou minha alma.
                                                                                    Alexandre Herculano 
http://www.blocosonline.com.br/versaoanterior2/literatura/poesia/pidp03/pidp040147.htm

sábado, 3 de abril de 2010

Alexandre Herculano - Citações,


Algumas citações

«O homem é mais propenso a contentar-se com as ideias dos outros, do que a reflectir e a raciocinar».

«Eu não me envergonho de corrigir os meus erros e mudar de opinião, porque não me envergonho de raciocinar e aprender».

«Querer é quase sempre poder: o que é excessivamente raro é o querer».

«É erro vulgar confundir o desejar com o querer. O desejo mede os obstáculos; a vontade vence-os».

«Saber resistir à violência é forte, mas vulgar; saber resistir à calúnia e aos motejos é maior esforço e mais raro».

«Há épocas de tal corrupção, que, durante elas, talvez só o excesso do fanatismo possa, no meio da imoralidade triunfante, servir de escudo à nobreza e à dignidade das almas rijamente temperadas».

«A hipocrisia, suprema perversão moral, é o charco podre e dormente que impregna a atmosfera de miasmas mortíferos e que salteia o homem no meio de paisagens ridentes: é o réptil que se arrasta por entre as flores e morde a vítima descuidada».

«É o progresso das ideias que traz as reformas, e não o progresso dos males públicos quem as torna inevitáveis».

«A indiferença silenciosa, grave, quase benévola, é a manifestação legítima da morte de toda a crença».

«Vinde cá, defensores do absolutismo, quem vos deu o direito de falardes desta nobre terra de Portugal nos tempos em que era livre?».

«Respondei, defensores do absolutismo! Que eram os nossos parlamentos até 1480, senão as assembleias onde o povo protestava sempre, ameaçava não raro, e castigava algumas vezes cerrando as bolsas, as quebras do que, na linguagem imperfeita daquelas eras, chamava os seus privilégios, e que nós chamamos direitos e garantias políticas?».

«Em Portugal o despotismo é que é moderno, e a liberdade antiga. Cerrai de todos os olhos, vós que amais curvar-vos ante um senhor dos vossos bens e das vossas cabeças».

«A centralização tem-se tornado cada vez maior; de modo que o poder municipal, o mais vivaz, o mais activo, o mais popular de todos os poderes, tem perdido a maior parte da sua importância. Entre nós, por exemplo, onde esse poder fez prodígios, hoje não se faz ele sentir quase. Todos os interesses que deviam ser zelados por municípios estão à mercê de um ministro que reside em Lisboa, e que nem os conhece, nem devidamente os aprecia. Daqui resulta o predomínio da capital sobre as províncias, a pouca vida política destas, a sua anulação, e quase nenhuma acção sobre os negócios públicos; enfim, daqui vem a influência funesta de certos homens que, colocados pelo acaso, ou pelos cálculos da sua ambição, no foco onde se concentram todos os poderes, lançaram mão deles, e subjugam por este modo o reino, que pode, mas que já lhes não sabe resistir».

«Aceitamos a designação de municipalista; aceitamo-la da boca da democracia. Toca-nos provar que o municipalismo, instituição tão antiga, tão permanente como as sociedades, embora enfraquecida e até anulada em várias épocas pelos diversos despotismos, vale infinita mente mais do que as aspirações democráticas; que ele nos oferece o único meio possível de mantermos a nacionalidade, ao passo que seria o mais poderoso instrumento de uma liberdade verdadeira, convertendo o Governo representativo, de uma imensa decepção, numa realidade prática».

«Mais exacto de ordinário nas suas expressões que as classes elevadas, ele fala muitas vezes na sua terra, nunca na sua pátria. É que a primeira palavra corresponde-lhe a uma ideia; é a tradução de uma coisa possível, compreensível, simpática para ele: a segunda representa-lhe uma coisa abstracta, vaporosa, vaga, que não diz nada nem à sua limitada inteligência, nem ao seu coração».