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sexta-feira, 28 de junho de 2024

Hugo Dionísio - Nota dez para a vergonha



*   Hugo Dionísio 

A libertação de Assange constitui mais um momento de vergonha para toda a máquina de propaganda a que chamam "Comunicação Social", que aprsenta o facto como uma benesse dos EUA em relação a um "culpado". Mas "culpado" de quê?  

Primeiro, todos optam por uma imagem passada de Assange, para não mostrarem o estado de degradação em que o calvário perpetrado pelos EUA o colocou.

Segundo, os EUA acusaram Assange de violar o Espionage Act, quando ele NUNCA cometeu qualquer crime nos EUA. A ninguém choca os EUA assumirem jurisdição extraterritorial e países supostamente soberanos como a Inglaterra, cumprirem com ela.

Terceiro, esta acusação dos EUA já era um segundo recurso, que veio a seguir a um processo inventado na Suécia, por violação, que nunca tinha acontecido. A ninguém chocou que, na "democrática" Suécia se tivesse inventado um suposto crime para prender um jornalista.

Quarto, o termo mais utilizado é "Assange admite culpa". Mas o que não dizem é que Assange "admite culpa" por um crime que nunca cometeu, não o cometeu certamente em solo americano e, como jornalista e como qualquer jornalista, apenas divulgou, a partir de um servidor na Islândia, informação fornecida por Chelsea Manning, famosa Whistleblower que já havia sido condenada nos EUA. A terra da democracia.

Quinto, Assange, jornalista, viu-se perseguido por divulgar crimes de guerra dos EUA no Iraque e Afeganistão, bem como denunciar mentiras que haviam sido contadas ao povo americano e ocidental. Assange, foi preso por dizer a verdade, por denunciar a verdade. Onde anda o TPI agora? Onde andou quando ele divulgou os crimes dos EUA e aliados?

Sexto, Assange, jornalista, teve de assumir a culpa por um crime que nunca cometeu, relativamente a uma lei que nunca se lhe poderia aplicar e a um território em que não esteve, para sobreviver a um calvário de isolamento numa cela de 2, por 3 metros, 23 horas por dia. 

Sétimo, Assange, jornalista, foi tratado pelos EUA como a Inquisição tratava os acusados de heresia. A inquisição nunca se enganava e, mesmo quando os soltava, tinham de sair como culpados. Os "democráticos" tratam assim todos os que não se podem defender. Este caso prova que o território "EUA" é todo o mundo e que a maioria dos poderes ocidentais se contenta com isso mesmo.

Oitavo, Assange, jornalista, foi assim tratado, para que siva de exemplo. Abres a boca, acusas o império dos crimes que cometes, acabamos contigo. Ah! Pensavam que era só na Rússia e no Irão... Façam-no e têm uma democrática Guantánamo à vossa espera. Com tortura e tudo! Ah! Mas sempre a dizer que nunca o fazem ou fariam! O que torna tudo mais "idílico".

Nono, Assange, jornalista, deveria ser protegido e acarinhado por todos os que têm coragem de se chamar de jornalistas. Dizer que o "ocidente" não persegue jornalistas, não é verdade, Assange está cá para confirmá-lo.

Décimo, Assange, jornalista, não é o único jornalista perseguido, no ocidente, por dizer a verdade. No contexto da guerra da Ucrânia ou em Gaza, são inúmeros os jornalistas ocidentais perseguidos, mortos até, estando alguns presos também por acusações de espionagen (o esquema é sempre o mesmo), como Pablo Gonzalez na Polónia, ou Alina Lipp que não pode voltar à Alemanha e viu a sua propriedade confisacada, ou Graham Phillips a quem foram aplicadas sanções pessoais pelo estado Inglês. 

Que Assange não nos deixe fechar os olhos para os abusos do poder. Não é por se dizerem democratas que o são, não é por dizerem respeitar a liberdade de expressão que a respeitam. 

A verdade liberta, a mentira e a ocultação oprimem. Eis a razão porque Assange esteve preso e perseguido.

A farsa tem de continuar!

https://x.com/HugoFDionisio/status/1805914842030633390

Canal factual.
Posted by OLima at quinta-feira, junho 27, 2024 

quinta-feira, 27 de junho de 2024

Paulo Jacinto - Assange

 


Paulo Jacinto

2024 06 26
 
"Governo dos Estados Unidos (USG) – ao abrigo da “ordem internacional baseada em regras” – decidiu de facto que Julian Assange é culpado de praticar jornalismo.
Edward Snowden já havia observado que “quando expor um crime é tratado como cometer um crime, você está sendo governado por criminosos”.
Criminosos como Mike “Nós mentimos, trapaceamos, roubamos” Pompeo, ex-secretário de Estado de Trump, que planejou sequestrar e matar Julian quando ele era chefe da CIA.
A indomável Jennifer Robinson e o advogado americano de Julian, Barry Pollack, resumem tudo: os Estados Unidos “perseguiram o jornalismo como um crime”.
Julian foi forçado a sofrer uma Via Crucis indescritivelmente cruel porque ousou expor os crimes de guerra do governo dos EUA; o funcionamento interno dos militares dos EUA na sua estrondosa Guerra do Terror (itálico meu) no Afeganistão e no Iraque; e – Santo dos Santos – ousou divulgar e-mails mostrando que o Comité Nacional Democrata (DNC) conspirou com a notória belicista Harpy Hillary Clinton.
Juliano foi submetido a torturas psicológicas implacáveis ​​e quase crucificado por publicar factos que deveriam permanecer sempre invisíveis à opinião pública. É disso que se trata o jornalismo de alto nível.
Todo o drama ensina a todo o planeta tudo o que é necessário saber sobre o controlo absoluto do Hegemon sobre o patético Reino Unido e a UE.
E isso leva-nos ao kabuki que pode – e a palavra-chave é “pode” – encerrar o caso. Título da peça moral distorcida: 'Declare-se culpado ou morra na prisão'.
A reviravolta final no enredo da peça moral é a seguinte: o grupo por detrás do cadáver na Casa Branca percebeu que torturar um jornalista e editor australiano numa prisão de segurança máxima dos EUA num ano eleitoral não era propriamente bom para os negócios.
Ao mesmo tempo, o establishment britânico implorava para ser excluído da conspiração – já que o seu sistema de “justiça” foi forçado pelo Hegemon a manter um homem inocente e pai de família como refém durante 5 anos, em condições abismais, em nome da protecção de um cesta de segredos da inteligência anglo-americana.
No final, o establishment britânico aplicou silenciosamente toda a pressão que pôde reunir para correr em direcção à saída – com pleno conhecimento do que os americanos estavam a planear para Julian."
Pepe

https://www.facebook.com/paulo.jacinto.148

Carlos Coutinho - Carta aberta sobre Julian Assange


* Carlos Coutinho

MEU caro Julian Assange, não terás nunca o meu perdão e é com o coração partido que te digo isto. Tal como os biltres que te prenderam e te mantiveram tantos anos no limbo da vida, cumprindo as normas que os regem, também tu, neste acordo, te declaraste culpado, em vez de satisfeito, por teres exercido o teu múnus com coragem, dignidade e consciência dos riscos a correr. 

   Deixa-me dizer-te que a Humanidade não deve precisar de mártires para subsistir e evoluir, mas não pode prescindir de os ter e de os honrar, sempre que as condições concretas os imponham, como é o teu caso. 

   Os biltres que agora chegaram a acordo contigo parecem arrependidos de serem o que são. São biltres que se arrependem de ter feito o que o seu ofício determina que façam, covardes biltres exercendo o arrependimento como salvaguarda da dignidade que lhes falta. E tu, ao chegares a acordo como eles, absolve-los, isto é, condescendes deploravelmente em abdicar da razão que tens – o teu dever de ofício foi cumprido, ao investigares o que suspeitavas existir, e, perante as certezas confirmadas, publicaste as tuas descobertas. 

   Também sou jornalista, também estive preso até ao dia 26 de abril de 1974 e também não me perdoo a mim o não ter compreendido e, logo, perdoado o que idênticos biltres me fizeram, precisando agora da tua atitude para perceber que estive do lado oposto ao dos meus biltres, a fazer o que me parecia necessário, cumprindo o meu dever cívico e profissional, assim como eles julgavam necessário o seu ofício e aceitavam as respetivas regras, cumprindo-as contra mim, sem alguma vez me haverem perdoado, até quando, julgo eu, pude vingar-me e não o fiz.

   Não abdico de pensar que, ao oferecerem-te o acordo para a libertação,  te devias ter declarado de consciência tranquila e disposto a pagar o que fosse preciso para não te igualares aos biltres em atitude de concessão.

   É claro que compreendo o teu cansaço na desgraça e o sofrimento dos teus que queres aliviar, mas nunca te aplaudirei por assumires culpas que não tinhas, embora também eu sofra só de saber isto e perceber que o mundo esteja como está, só porque foi, ao longo dos séculos, o terreno de combate entre biltres necessários e necessários heróis.

2024 06 26

https://www.facebook.com/carlos.coutinho.7186896

quarta-feira, 26 de junho de 2024

Chris Heddges - Salvastes Julian Assange

 


* Chris Heddges

Original publicado no Sheerpost. Trad. O.Lima

Após 14 anos de perseguição, Julian Assange vai ser libertado. Temos de honrar as centenas de milhares de pessoas em todo o mundo que fizeram com que isto acontecesse.

“A negra engrenagem do império, cuja falsidade e selvajaria Julian Assange denunciou, passou 14 anos a tentar destruí-lo. Cortaram-lhe o financiamento e cancelaram as suas contas bancárias e cartões de crédito. Inventaram acusações falsas de agressão sexual para o extraditarem para a Suécia, onde seria depois enviado para os EUA.

Encurralaram-no na embaixada do Equador em Londres durante sete anos, depois de lhe ter sido concedido asilo político e cidadania equatoriana, recusando-lhe passagem segura para o aeroporto de Heathrow. Orquestraram uma mudança de governo no Equador que o viu despojado do seu asilo, assediado e humilhado por um pessoal da embaixada complacente. Contrataram a empresa de segurança espanhola UC global na embaixada para gravar todas as suas conversas, incluindo as conversas com os seus advogados.

Tentaram vezes sem conta destruí-lo. Não conseguiram. Mas Julian não foi libertado porque os tribunais defenderam o Estado de direito e exoneraram um homem que não tinha cometido qualquer crime. Não foi libertado porque a Casa Branca de Biden e a comunidade dos serviços secretos têm consciência. Ele não foi libertado porque as organizações noticiosas que publicaram as suas revelações e depois o descartaram, levando a cabo uma campanha de difamação cruel, pressionaram o governo dos EUA.

Ele foi libertado - com um acordo com o Departamento de Justiça dos EUA, de acordo com os documentos do tribunal - apesar dessas instituições. Foi libertado porque, dia após dia, semana após semana, ano após ano, centenas de milhares de pessoas em todo o mundo se mobilizaram para denunciar a prisão do jornalista mais importante da nossa geração. Sem esta mobilização, Julian não estaria livre.

Os protestos em massa nem sempre resultam. O genocídio em Gaza continua a ter um impacto terrível nos palestinianos. Mumia Abu-Jamal continua preso numa prisão da Pensilvânia. A indústria dos combustíveis fósseis está a devastar o planeta. Mas é a arma mais potente que temos para nos defendermos da tirania.

Esta pressão sustentada - durante uma audiência em Londres, em 2020, para meu deleite, a juíza Vanessa Baraitser, do tribunal de Old Bailey, que supervisiona o caso de Julian, queixou-se do barulho que os manifestantes estavam a fazer na rua - ilumina continuamente a injustiça e expõe a amoralidade da classe dominante. É por isso que os espaços nos tribunais britânicos eram tão limitados e os ativistas de olhos turvos faziam fila no exterior logo às 4 da manhã para garantir um lugar aos jornalistas que respeitavam, o meu lugar foi assegurado por Franco Manzi, um polícia reformado.

Estas pessoas não são elogiadas e são muitas vezes desconhecidas. Mas são heróis. Movem montanhas. Cercaram o parlamento. Ficaram à porta dos tribunais sob uma chuva torrencial. Foram obstinados e firmes. Fizeram ouvir as suas vozes coletivas. Salvaram o Julian. E quando esta terrível saga terminar, e Julian e a sua família, espero, encontrarem a paz e a cura na Austrália, temos de os honrar. Envergonharam os políticos australianos para que defendessem Julian, um cidadão australiano, e finalmente a Grã-Bretanha e os Estados Unidos para que desistissem. Não estou a dizer para fazerem o que está certo. Isto foi uma rendição. Devemos orgulhar-nos disso.

Conheci Julian quando acompanhei o seu advogado, Michael Ratner, a reuniões na Embaixada do Equador em Londres. Michael, um dos grandes advogados de direitos civis da nossa era, sublinhava que o protesto popular era uma componente vital em todos os processos que instaurava contra o Estado. Sem ele, o Estado poderia levar a cabo a sua perseguição de dissidentes, o desrespeito pela lei e os crimes na obscuridade.

Pessoas como Michael, juntamente com Jennifer Robinson, Stella Assange, o chefe de redação da WikiLeaks, Kristenn Hrafnsson, Nils Melzer, Craig Murray, Roger Waters, Ai WeiWei, John Pilger e o pai de Julian, John Shipton, e o irmão Gabriel, foram fundamentais para esta luta. Mas não o poderiam ter feito sozinhos.

Precisamos desesperadamente de movimentos de massas. A crise climática está a acelerar. O mundo, com exceção do Iémen, assiste passivamente a um genocídio transmitido em direto. A ganância insensata da expansão capitalista sem limites transformou tudo, desde os seres humanos ao mundo natural, em mercadorias que são exploradas até à exaustão ou ao colapso. A dizimação das liberdades civis acorrentou-nos, como Julian avisou, a um aparelho de segurança e vigilância interligado que se estende por todo o globo.

A classe dominante mundial denunciou-se a si própria. Tenciona, no Norte global, construir fortalezas climáticas e, no Sul global, utilizar as suas armas industriais para bloquear e massacrar os desesperados, tal como está a massacrar os palestinianos.

A vigilância do Estado é muito mais intrusiva do que a utilizada pelos regimes totalitários do passado. Os críticos e dissidentes são facilmente marginalizados ou silenciados nas plataformas digitais. Esta estrutura totalitária - a que o filósofo político Sheldon Wolin chamou ‘totalitarismo invertido’ - está a ser imposta gradualmente. Julian avisou-nos. À medida que a estrutura de poder se sente ameaçada por uma população inquieta que repudia a sua corrupção, a acumulação de níveis obscenos de riqueza, as guerras intermináveis, a inépcia e a repressão crescente, as presas que impôs a Julian serão impostas a nós.

O objetivo da vigilância em larga escala, como escreve Hannah Arendt em ‘As Origens do Totalitarismo’, não é, no fundo, descobrir crimes, ‘mas estar disponível quando o governo decide prender uma certa categoria da população’. E porque os nossos e-mails, conversas telefónicas, pesquisas na Internet e movimentos geográficos são registados e armazenados perpetuamente em bases de dados governamentais, porque somos a população mais fotografada e seguida da história da humanidade, haverá ‘provas’ mais do que suficientes para nos prender, caso o Estado o considere necessário. Esta vigilância constante e os dados pessoais aguardam, como um vírus mortal, dentro dos cofres do governo, para serem virados contra nós. Não importa quão trivial ou inocente seja essa informação. Nos Estados totalitários, a justiça, tal como a verdade, é irrelevante.

O objetivo de todos os sistemas totalitários é inculcar um clima de medo para paralisar uma população cativa. Os cidadãos procuram segurança nas estruturas que os oprimem. A prisão, a tortura e o assassínio são guardados para os renegados incontroláveis, como Julian. O Estado totalitário consegue este controlo, escreveu Arendt, esmagando a espontaneidade humana e, por extensão, a liberdade humana. A população é paralisada pelo trauma. Os tribunais, juntamente com os órgãos legislativos, legalizam os crimes de Estado. Vimos tudo isto na perseguição de Julian. É um prenúncio do futuro.

O Estado corporativo deve ser destruído se quisermos restaurar a nossa sociedade aberta e salvar o nosso planeta. O seu aparelho de segurança tem de ser desmantelado. Os mandarins que gerem o totalitarismo corporativo, incluindo os líderes dos dois maiores partidos políticos, académicos fátuos, especialistas e uma comunicação social falida, devem ser expulsos dos templos do poder.

Os protestos de rua em massa e a desobediência civil prolongada são a nossa única esperança. Se não nos revoltarmos - que é com o que o Estado corporativo está a contar - ver-nos-emos escravizados e o ecossistema da Terra tornar-se-á inóspito para a habitação humana. Aprendamos uma lição com os homens e mulheres corajosos que saíram à rua durante 14 anos para salvar Julian. Eles mostraram-nos como se faz.”

Posted by OLima at quarta-feira, junho 26, 2024 

https://onda7.blogspot.com/2024/06/chris-hedges-salvastes-julian-assange.html? 

domingo, 7 de maio de 2023

Uma proposta real Carta de Julian Assange ao rei Carlos III

Uma proposta real
Carta de Julian Assange ao rei Carlos III

Julian Assange [*]

À Sua Majestade Rei Carlos III,

No momento da coroação do meu soberano, achei por bem fazer-vos um convite sincero para comemorar este importante evento visitando o vosso próprio reino dentro de um reino:  a prisão de Belmarsh de Vossa Majestade.

Sem dúvida recordareis as sábias palavras de um famoso dramaturgo:   "A qualidade da misericórdia não é imposta. Ela cai como a suave chuva do céu sobre os lugares abaixo".

Ah, mas o que saberia aquele bardo de misericórdia diante do acerto de contas no alvorecer do vosso histórico reinado? Afinal, pode-se verdadeiramente conhecer a medida de uma sociedade pelo modo como trata os seus prisioneiros, e o vosso reino certamente esmerou-se a este respeito.

A Prisão de Belmarsh de Vossa Majestade situa-se na prestigiada morada de One Western Way, em Londres, apenas a uma curta distância do Old Royal Naval College, em Greenwich. Quão deleitoso deve ser ter um estabelecimento tão estimado a portar o vosso nome.

“Pode-se verdadeiramente conhecer uma sociedade pelo modo como trata os seus prisioneiros”.

É aqui que 687 dos vossos leais súbditos são mantidos, apoiando o registo do Reino Unido como a nação com a maior população encarcerada da Europa Ocidental. Como o vosso nobre governo declarou recentemente, o vosso reino está atualmente a passar pela "maior expansão de vagas prisionais em mais de um século", com as vossas ambiciosas projeções a mostrarem um aumento da população prisional de 82.000 para 106.000 nos próximos quatro anos. É, na verdade, um grande legado.

Como prisioneiro político, detido ao bel-prazer de Vossa Majestade em nome de um soberano estrangeiro envergonhado, sinto-me honrado por residir entre os muros desta instituição de classe mundial. Na verdade, o vosso reino não conhece limites.

Durante a vossa visita, tereis a oportunidade de banquetear-vos com as delícias culinárias preparadas para os seus fiéis súbditos com um generoso orçamento de duas libras por dia. Podereis saborear as cabeças de atum misturadas e as omnipresentes formas reconstituídas que supostamente são feitas de galinha. E não vos preocupeis, porque, ao contrário de instituições menores como Alcatraz ou San Quentin, não há refeições coletivas num refeitório. Em Belmarsh, os prisioneiros comem sozinhos nas suas celas, garantindo a máxima intimidade com a sua refeição.

Para além dos prazeres gustativos, posso assegurar-vos que Belmarsh oferece amplas oportunidades educativas aos vossos súbditos. Como diz Provérbio 22:6:   "Educai a criança no caminho em que deve andar, e até envelhecer dele não se desviará". Observai as filas baralhadas no guichet dos medicamentos, onde os reclusos recolhem as suas receitas, não para uso diário, mas para a experiência de expansão de horizonte num "grande dia fora" – tudo de uma vez.

Também tereis a oportunidade de prestar as vossas homenagens ao meu falecido amigo Manoel Santos, um homem gay que enfrentava deportação para o Brasil de Bolsonaro, o qual tomou a sua própria vida a apenas oito jardas da minha cela usando uma corda grosseira feita com lençóis. Sua refinada voz de tenor agora silenciou para sempre.

"Meu falecido amigo Manoel Santos... o qual tomou a sua própria vida a apenas oito jardas da minha cela".

Aventurai-vos nas profundezas de Belmarsh e encontrareis o local mais isolado dentro das suas muralhas:   Os cuidados de saúde (Healthcare), ou “Cuidados do inferno” ("Hellcare"), como o chamam carinhosamente os seus habitantes. Aqui, ficareis maravilhado com as regras sensatas concebidas para a segurança de todos, tais como a proibição do jogo de xadrez, se bem que permitindo o muito menos perigoso jogo de damas.

Nas profundezas do Hellcare encontra-se o lugar mais gloriosamente edificante de toda a Belmarsh, ou melhor, de todo o Reino Unido:   a sublimemente denominada Belmarsh End of Life Suite. Ouvi com atenção e podereis escutar os gritos dos prisioneiros:   "Irmão, estou a morrer aqui", um testemunho da qualidade de vida e de morte dentro da vossa prisão.

Mas não temais, pois há beleza a encontrar dentro destes muros. Deleitai os vossos olhos com os pitorescos corvos que fazem ninho no arame farpado e com as centenas de ratos famintos que chamam Belmarsh de casa sua. E se vierdes na Primavera, podeis mesmo ter um vislumbre dos patinhos postos pelos patos selvagens no terreno da prisão. Mas não vos demoreis, pois as ratazanas vorazes asseguram que as suas vidas são efémeras.

Imploro-vos, Rei Carlos, que visiteis a Prisão de Belmarsh de Vossa Majestade, pois é uma honra digna de um rei. Ao embarcardes no vosso reinado, lembrai-vos sempre das palavras da Bíblia na versão do Rei James:   "Bem-aventurados os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia" (Mateus 5:7). E que possa a misericórdia ser a luz orientadora do vosso reino, tanto dentro como fora das muralhas de Belmarsh.

O vosso mais devotado súbdito,

Julian Assange
A9379AY

05/Maio/2023

[*] Jornalista e preso político.

O original encontra-se em declassifieduk.org/a-kingly-proposal-letter-from-julian-assange-to-king-charles-iii/

Este artigo encontra-se em resistir.info

Julian Assange [*]
Carlos III, o novo rei.
À Sua Majestade Rei Carlos III,

No momento da coroação do meu soberano, achei por bem fazer-vos um convite sincero para comemorar este importante evento visitando o vosso próprio reino dentro de um reino:  a prisão de Belmarsh de Vossa Majestade.

Sem dúvida recordareis as sábias palavras de um famoso dramaturgo:   "A qualidade da misericórdia não é imposta. Ela cai como a suave chuva do céu sobre os lugares abaixo".

Ah, mas o que saberia aquele bardo de misericórdia diante do acerto de contas no alvorecer do vosso histórico reinado? Afinal, pode-se verdadeiramente conhecer a medida de uma sociedade pelo modo como trata os seus prisioneiros, e o vosso reino certamente esmerou-se a este respeito.

A Prisão de Belmarsh de Vossa Majestade situa-se na prestigiada morada de One Western Way, em Londres, apenas a uma curta distância do Old Royal Naval College, em Greenwich. Quão deleitoso deve ser ter um estabelecimento tão estimado a portar o vosso nome.

“Pode-se verdadeiramente conhecer uma sociedade pelo modo como trata os seus prisioneiros”.
É aqui que 687 dos vossos leais súbditos são mantidos, apoiando o registo do Reino Unido como a nação com a maior população encarcerada da Europa Ocidental. Como o vosso nobre governo declarou recentemente, o vosso reino está atualmente a passar pela "maior expansão de vagas prisionais em mais de um século", com as vossas ambiciosas projeções a mostrarem um aumento da população prisional de 82.000 para 106.000 nos próximos quatro anos. É, na verdade, um grande legado.

Como prisioneiro político, detido ao bel-prazer de Vossa Majestade em nome de um soberano estrangeiro envergonhado, sinto-me honrado por residir entre os muros desta instituição de classe mundial. Na verdade, o vosso reino não conhece limites.

Durante a vossa visita, tereis a oportunidade de banquetear-vos com as delícias culinárias preparadas para os seus fiéis súbditos com um generoso orçamento de duas libras por dia. Podereis saborear as cabeças de atum misturadas e as omnipresentes formas reconstituídas que supostamente são feitas de galinha. E não vos preocupeis, porque, ao contrário de instituições menores como Alcatraz ou San Quentin, não há refeições coletivas num refeitório. Em Belmarsh, os prisioneiros comem sozinhos nas suas celas, garantindo a máxima intimidade com a sua refeição.

Para além dos prazeres gustativos, posso assegurar-vos que Belmarsh oferece amplas oportunidades educativas aos vossos súbditos. Como diz Provérbio 22:6:   "Educai a criança no caminho em que deve andar, e até envelhecer dele não se desviará". Observai as filas baralhadas no guichet dos medicamentos, onde os reclusos recolhem as suas receitas, não para uso diário, mas para a experiência de expansão de horizonte num "grande dia fora" – tudo de uma vez.

Também tereis a oportunidade de prestar as vossas homenagens ao meu falecido amigo Manoel Santos, um homem gay que enfrentava deportação para o Brasil de Bolsonaro, o qual tomou a sua própria vida a apenas oito jardas da minha cela usando uma corda grosseira feita com lençóis. Sua refinada voz de tenor agora silenciou para sempre.

"Meu falecido amigo Manoel Santos... o qual tomou a sua própria vida a apenas oito jardas da minha cela".
Aventurai-vos nas profundezas de Belmarsh e encontrareis o local mais isolado dentro das suas muralhas:   Os cuidados de saúde (Healthcare), ou “Cuidados do inferno” ("Hellcare"), como o chamam carinhosamente os seus habitantes. Aqui, ficareis maravilhado com as regras sensatas concebidas para a segurança de todos, tais como a proibição do jogo de xadrez, se bem que permitindo o muito menos perigoso jogo de damas.

Nas profundezas do Hellcare encontra-se o lugar mais gloriosamente edificante de toda a Belmarsh, ou melhor, de todo o Reino Unido:   a sublimemente denominada Belmarsh End of Life Suite. Ouvi com atenção e podereis escutar os gritos dos prisioneiros:   "Irmão, estou a morrer aqui", um testemunho da qualidade de vida e de morte dentro da vossa prisão.

Mas não temais, pois há beleza a encontrar dentro destes muros. Deleitai os vossos olhos com os pitorescos corvos que fazem ninho no arame farpado e com as centenas de ratos famintos que chamam Belmarsh de casa sua. E se vierdes na Primavera, podeis mesmo ter um vislumbre dos patinhos postos pelos patos selvagens no terreno da prisão. Mas não vos demoreis, pois as ratazanas vorazes asseguram que as suas vidas são efémeras.

Imploro-vos, Rei Carlos, que visiteis a Prisão de Belmarsh de Vossa Majestade, pois é uma honra digna de um rei. Ao embarcardes no vosso reinado, lembrai-vos sempre das palavras da Bíblia na versão do Rei James:   "Bem-aventurados os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia" (Mateus 5:7). E que possa a misericórdia ser a luz orientadora do vosso reino, tanto dentro como fora das muralhas de Belmarsh.

O vosso mais devotado súbdito,

Julian Assange
A9379AY

05/Maio/2023
[*] Jornalista e preso político.
O original encontra-se em declassifieduk.org/a-kingly-proposal-letter-from-julian-assange-to-king-charles-iii/
Este artigo encontra-se em resistir.info

terça-feira, 27 de outubro de 2015

Que tal é o novo Astérix?



Que tal é o novo Astérix? Há 30 anos que não era tão bom

"O Papiro de César" é o melhor livro de Astérix desde os anos 80. Ele não está à altura das grandes obras de Goscinny e Uderzo, mas após tantas décadas de fome sempre dá para consolar a barriga.

João Miguel Tavares

Título: O Papiro de César

Autor: Jean-Yves Ferri (texto) e Didier Conrad (desenho)
Editor: Asa
Páginas: 48
Preço: 12,90 €

Há uma maneira simpática e uma maneira antipática de analisar o novo livro de Astérix. A maneira antipática é dizer que ele não chega aos calcanhares dos melhores livros assinados por Goscinny e Uderzo – o que é verdade. A maneira simpática é dizer que este é o melhor livro de Astérix em 30 anos – o que também é verdade.

Tudo somado, e tendo em conta que três décadas de orfandade gaulesa conferem o direito a um certo consolo crítico e noticioso, mais vale começar pelos elogios e valorizar o facto de a dupla que tomou conta da série em 2013 – Jean-Yves Ferri (texto) e Didier Conrad (desenho) – ter resgatado Astérix do enorme buraco onde Albert Uderzo o tinha enfiado.

Estamos, claro está, a falar da qualidade artística da obra: em termos financeiros, e com a chegada da série ao cinema de imagem real em 1999, a máquina de produzir sestércios nunca deixou de carburar (os quatro filmes realizados desde então alcançaram quase 50 milhões de espectadores, só em França), e mesmo os últimos (e péssimos) livros assinados por Uderzo atingiram sempre tiragens de três milhões de exemplares.

Só que a certa altura, sobretudo com o inenarrável O Céu Cai-lhe em Cima da Cabeça (2005), onde entravam extraterrestres, super-homens, naves inspiradas na BD japonesa, um mau da fita que parecia o Duende Verde do Homem-Aranha e um bom da fita que tinha roubado as luvas ao rato Mickey, o caso atingiu níveis de inimputabilidade. Aquilo fazia tanto sentido num álbum de Astérix como marisco num cozido à portuguesa.

Perante isso, a família de Albert Uderzo lá terá arranjado finalmente coragem para convencer o senhor a parar de torturar os pobres gauleses, que apesar de resistirem ainda e sempre ao invasor estavam com manifestas dificuldades em resistir ao seu criador.

A verdadeira razão para isso já foi repetida inúmeras vezes: René Goscinny, o genial argumentista de Astérix, Lucky Luke ou Iznogoud, era a grande alma da série, e ela nunca recuperou da sua morte, no já distante ano de 1977.



Eram os seus notáveis argumentos que faziam toda a diferença,com a Gália do ano 50 a.C. transformada num engenhoso espelho onde se refletiam as preocupações da França contemporânea. Através de notáveis anacronismos e jogos de linguagem só acessíveis a leitores mais sofisticados, Goscinny mantinha ao mesmo tempo uma pulsão aventureira capaz de agradar aos mais jovens, e foi essa mistura de níveis de compreensão que impulsionou a série para o sucesso.

Para quem quiser saber mais sobre Goscinny, aqui fica um pequeno e divertido vídeo:




E aqui fica um longo documentário, René Goscinny: Profession Humoriste (1998), de Michel Viotte:




Astérix não é caso único de orfandade – Lucky Luke padeceu do mesmo mal. Após a morte de Goscinny, Morris continuou a desenhar Lucky Luke com péssimos resultados, e ele só voltou a ter alguma gracinha recentemente, quando Achdé e Laurent Guerra pegaram na série.

Uderzo, nesse aspecto, foi mais inteligente, porque publicou muito menos e geriu muito melhor o legado de Astérix. Além disso, justiça lhe seja feita: Goscinny sempre foi excelentemente servido pelo magnífico traço de Uderzo, um argumentista medíocre mas um extraordinário desenhador.

Aliás, se o atual trabalho de Didier Conrad não deixa de impressionar pela sua fidelidade a Uderzo, há sempre ali qualquer coisa que fica aquém, tal como o falsificador de quadros tem grandes dificuldades em captar a verdadeira alma do artista. O traço é competentíssimo, sem dúvida, mas nunca atinge a elegância e a harmonia dos melhores momentos de Uderzo.

Só que o argumento de Jean-Yves Ferri, mesmo não chegando também ele perto do virtuosismo de livros como A Volta à Gália,Astérix na Córsega ou O Domínio dos Deuses, é muito mais consistente do que qualquer coisa que Uderzo tenha escrito. Ele parte de uma boa ideia inicial – a publicação da obra (autêntica)Guerras da Gália, de Júlio César – para a partir daí iniciar uma reflexão sobre as fugas de informação e o papel dos media no mundo actual. À boa maneira goscinnyana, existe um protagonista decalcado de Julian Assange (Gerapolémix), que tenta divulgar publicamente um capítulo eliminado de Guerras da Gália e é perseguido pelos romanos por causa disso, refugiando-se na inevitável aldeia gaulesa. 



Nesse sentido, O Papiro de César é bem mais conseguido e ambicioso do que o primeiro livro assinado pela dupla Ferri/Conrad em 2013, Astérix entre os Pictos, que se limitava a ser uma aventura mais ou menos convencional passada na Escócia. Ainda assim, o sucesso desse livro permitiu a Jean-Yves Ferri e a Didier Conrad largarem tudo o que faziam para se dedicarem em exclusivo a Astérix – e os resultados desse esforço são agora bem visíveis. Os novos pais do irredutível gaulês parecem estar definitivamente encontrados.

Não vale muito a pena continuar a chorar pelo Astérix das décadas de 60 e 70, porque, na verdade, não é só Goscinny que não volta – é também a nossa juventude e um mundo onde a banda desenhada era a porta de entrada de todos os miúdos no mundo das letras. Esse tempo acabou, levado por muitas das tecnologias que são agora parodiadas em O Papiro de César, pelo que mais vale conformarmo-nos com o que há. E o que há é isto: um novo Astérix que não envergonha o seu passado. Já não é mau.

http://observador.pt/2015/10/23/que-tal-e-o-novo-asterix-ha-30-anos-que-nao-era-tao-bom/

quarta-feira, 14 de outubro de 2015

Comunicação em quadrinhos, Julian Assange vira personagem de Asterix



14 de outubro de 2015 - 13h08 

Não há dúvidas de que o valor da informação é uma das grandes questões deste século. Não à toa o idealizador do site Wikileaks, Julian Assange, se tornou um “vilão” aos olhos dos Estados Unidos quando ousou quebrar as regras (e o sigilo) do imperialismo e alertar a população mundial sobre os riscos existentes em mecanismos de transmissão de informação aparentemente seguros. 

Por Mariana Serafini



Reuters

O ilustrador Didier Conrad e o roteirista Jean-Yves Ferri anunciam a nova obra
É com este mote que os personagens deAsterix vão viver aventuras relacionadas ao mundo da comunicação na próxima edição do HQ. Asterix e o Papiro de Césarchega ao público em todo o mundo simultaneamente no dia 22 deste mês, já traduzido em 20 idiomas. 

Julian Assange, que ainda não sabe da homenagem devido à dificuldade de ser contatado em seu asilo na embaixada do Equador em Londres, inspirou o mocinho Superpolemix. O jornalista vai encarar o vilão Promocionus, uma espécie de “novo assessor” de Júlio César, inspirado no publicitário francês Jacques Séguéla. 


O anúncio da nova edição foi feito nesta segunda-feira (12), em Paris, por meio de uma coletiva de imprensa em plena Torre Eiffel, com os novos autores Jean-Yves Ferri (roteirista) e Didier Conrad (ilustrador). O evento contou com a presença do criador do quadrinho, Albert Uderzo – aposentado em 2010 – e da filha de seu colega René Goscinny, Anne Goscinny. 



Durante a coletiva os criadores revelaram que a ideia inicial era chamar o personagem inspirado em Assange de Wikilix, mas, por fim, acharam “muito óbvio”. O jornal onde Superpolemix trabalha se chama Matin de Lutèce. Outro a integrar a história é o Le Mundus, mas os criadores garantiram que não tem nenhuma relação com o diário francês Le Monde. 


A primeira edição lançada sob a criação dos novos roteiristas foi em 2013, Asterix entre os Pictos, vendeu 2,4 milhões de cópias na França e 4 milhões ao redor do mundo. 

Até hoje foram lançados 35 álbuns que venderam 350 milhões de exemplares e inspiraram 11 adaptações para o cinema – oito animações e três filmes –, além de jogos, brinquedos e um parque temático. As histórias já foram traduzidas para 83 idiomas e 29 dialetos, são bastante populares em países da Europa, América Latina, África e Ásia, além da Austrália, Nova Zelândia e Canadá. Estranhamente os personagens gauleses ainda não conquistaram os leitores dos Estados Unidos e Japão.

Assista ao teaser de Asterix e o Papiro de César: 




Do Portal Vermelho

http://www.vermelho.org.br/noticia/271453-11