Textos e Obras Daqui e Dali, mais ou menos conhecidos ------ Nada do que é humano me é estranho (Terêncio)
sexta-feira, 28 de junho de 2024
Hugo Dionísio - Nota dez para a vergonha
quinta-feira, 27 de junho de 2024
Paulo Jacinto - Assange
Carlos Coutinho - Carta aberta sobre Julian Assange
* Carlos Coutinho
MEU caro Julian Assange, não terás nunca o meu perdão e é com o coração partido que te digo isto. Tal como os biltres que te prenderam e te mantiveram tantos anos no limbo da vida, cumprindo as normas que os regem, também tu, neste acordo, te declaraste culpado, em vez de satisfeito, por teres exercido o teu múnus com coragem, dignidade e consciência dos riscos a correr.
Deixa-me dizer-te que a Humanidade não deve precisar de mártires para subsistir e evoluir, mas não pode prescindir de os ter e de os honrar, sempre que as condições concretas os imponham, como é o teu caso.
Os biltres que agora chegaram a acordo contigo parecem arrependidos de serem o que são. São biltres que se arrependem de ter feito o que o seu ofício determina que façam, covardes biltres exercendo o arrependimento como salvaguarda da dignidade que lhes falta. E tu, ao chegares a acordo como eles, absolve-los, isto é, condescendes deploravelmente em abdicar da razão que tens – o teu dever de ofício foi cumprido, ao investigares o que suspeitavas existir, e, perante as certezas confirmadas, publicaste as tuas descobertas.
Também sou jornalista, também estive preso até ao dia 26 de abril de 1974 e também não me perdoo a mim o não ter compreendido e, logo, perdoado o que idênticos biltres me fizeram, precisando agora da tua atitude para perceber que estive do lado oposto ao dos meus biltres, a fazer o que me parecia necessário, cumprindo o meu dever cívico e profissional, assim como eles julgavam necessário o seu ofício e aceitavam as respetivas regras, cumprindo-as contra mim, sem alguma vez me haverem perdoado, até quando, julgo eu, pude vingar-me e não o fiz.
Não abdico de pensar que, ao oferecerem-te o acordo para a libertação, te devias ter declarado de consciência tranquila e disposto a pagar o que fosse preciso para não te igualares aos biltres em atitude de concessão.
É claro que compreendo o teu cansaço na desgraça e o sofrimento dos teus que queres aliviar, mas nunca te aplaudirei por assumires culpas que não tinhas, embora também eu sofra só de saber isto e perceber que o mundo esteja como está, só porque foi, ao longo dos séculos, o terreno de combate entre biltres necessários e necessários heróis.
2024 06 26
https://www.facebook.com/carlos.coutinho.7186896
quarta-feira, 26 de junho de 2024
Chris Heddges - Salvastes Julian Assange
* Chris Heddges
Original publicado no Sheerpost. Trad.
O.Lima
Após 14 anos de perseguição,
Julian Assange vai ser libertado. Temos de honrar as centenas de milhares de
pessoas em todo o mundo que fizeram com que isto acontecesse.
“A negra engrenagem do império,
cuja falsidade e selvajaria Julian Assange denunciou, passou 14 anos a tentar
destruí-lo. Cortaram-lhe o financiamento e cancelaram as suas contas bancárias
e cartões de crédito. Inventaram acusações falsas de agressão sexual para o
extraditarem para a Suécia, onde seria depois enviado para os EUA.
Encurralaram-no na embaixada do
Equador em Londres durante sete anos, depois de lhe ter sido concedido asilo
político e cidadania equatoriana, recusando-lhe passagem segura para o
aeroporto de Heathrow. Orquestraram uma mudança de governo no Equador que o viu
despojado do seu asilo, assediado e humilhado por um pessoal da embaixada
complacente. Contrataram a empresa de segurança espanhola UC global na
embaixada para gravar todas as suas conversas, incluindo as conversas com os
seus advogados.
Tentaram vezes sem conta
destruí-lo. Não conseguiram. Mas Julian não foi libertado porque os tribunais
defenderam o Estado de direito e exoneraram um homem que não tinha cometido
qualquer crime. Não foi libertado porque a Casa Branca de Biden e a comunidade
dos serviços secretos têm consciência. Ele não foi libertado porque as
organizações noticiosas que publicaram as suas revelações e depois o
descartaram, levando a cabo uma campanha de difamação cruel, pressionaram o
governo dos EUA.
Ele foi libertado - com um acordo
com o Departamento de Justiça dos EUA, de acordo com os documentos do tribunal
- apesar dessas instituições. Foi libertado porque, dia após dia, semana após
semana, ano após ano, centenas de milhares de pessoas em todo o mundo se
mobilizaram para denunciar a prisão do jornalista mais importante da nossa
geração. Sem esta mobilização, Julian não estaria livre.
Os protestos em massa nem sempre
resultam. O genocídio em Gaza continua a ter um impacto terrível nos
palestinianos. Mumia Abu-Jamal continua preso numa prisão da Pensilvânia. A
indústria dos combustíveis fósseis está a devastar o planeta. Mas é a arma mais
potente que temos para nos defendermos da tirania.
Esta pressão sustentada - durante
uma audiência em Londres, em 2020, para meu deleite, a juíza Vanessa Baraitser,
do tribunal de Old Bailey, que supervisiona o caso de Julian, queixou-se do
barulho que os manifestantes estavam a fazer na rua - ilumina continuamente a
injustiça e expõe a amoralidade da classe dominante. É por isso que os espaços
nos tribunais britânicos eram tão limitados e os ativistas de olhos turvos
faziam fila no exterior logo às 4 da manhã para garantir um lugar aos
jornalistas que respeitavam, o meu lugar foi assegurado por Franco Manzi, um
polícia reformado.
Estas pessoas não são elogiadas e
são muitas vezes desconhecidas. Mas são heróis. Movem montanhas. Cercaram o
parlamento. Ficaram à porta dos tribunais sob uma chuva torrencial. Foram
obstinados e firmes. Fizeram ouvir as suas vozes coletivas. Salvaram o Julian.
E quando esta terrível saga terminar, e Julian e a sua família, espero,
encontrarem a paz e a cura na Austrália, temos de os honrar. Envergonharam os
políticos australianos para que defendessem Julian, um cidadão australiano, e
finalmente a Grã-Bretanha e os Estados Unidos para que desistissem. Não estou a
dizer para fazerem o que está certo. Isto foi uma rendição. Devemos
orgulhar-nos disso.
Conheci Julian quando acompanhei
o seu advogado, Michael Ratner, a reuniões na Embaixada do Equador em Londres.
Michael, um dos grandes advogados de direitos civis da nossa era, sublinhava
que o protesto popular era uma componente vital em todos os processos que
instaurava contra o Estado. Sem ele, o Estado poderia levar a cabo a sua
perseguição de dissidentes, o desrespeito pela lei e os crimes na obscuridade.
Pessoas como Michael, juntamente
com Jennifer Robinson, Stella Assange, o chefe de redação da WikiLeaks,
Kristenn Hrafnsson, Nils Melzer, Craig Murray, Roger Waters, Ai WeiWei, John
Pilger e o pai de Julian, John Shipton, e o irmão Gabriel, foram fundamentais
para esta luta. Mas não o poderiam ter feito sozinhos.
Precisamos desesperadamente de
movimentos de massas. A crise climática está a acelerar. O mundo, com exceção
do Iémen, assiste passivamente a um genocídio transmitido em direto. A ganância
insensata da expansão capitalista sem limites transformou tudo, desde os seres
humanos ao mundo natural, em mercadorias que são exploradas até à exaustão ou
ao colapso. A dizimação das liberdades civis acorrentou-nos, como Julian
avisou, a um aparelho de segurança e vigilância interligado que se estende por
todo o globo.
A classe dominante mundial
denunciou-se a si própria. Tenciona, no Norte global, construir fortalezas
climáticas e, no Sul global, utilizar as suas armas industriais para bloquear e
massacrar os desesperados, tal como está a massacrar os palestinianos.
A vigilância do Estado é muito
mais intrusiva do que a utilizada pelos regimes totalitários do passado. Os
críticos e dissidentes são facilmente marginalizados ou silenciados nas
plataformas digitais. Esta estrutura totalitária - a que o filósofo político
Sheldon Wolin chamou ‘totalitarismo invertido’ - está a ser imposta
gradualmente. Julian avisou-nos. À medida que a estrutura de poder se sente
ameaçada por uma população inquieta que repudia a sua corrupção, a acumulação
de níveis obscenos de riqueza, as guerras intermináveis, a inépcia e a
repressão crescente, as presas que impôs a Julian serão impostas a nós.
O objetivo da vigilância em larga
escala, como escreve Hannah Arendt em ‘As Origens do Totalitarismo’, não é, no
fundo, descobrir crimes, ‘mas estar disponível quando o governo decide prender
uma certa categoria da população’. E porque os nossos e-mails, conversas
telefónicas, pesquisas na Internet e movimentos geográficos são registados e
armazenados perpetuamente em bases de dados governamentais, porque somos a
população mais fotografada e seguida da história da humanidade, haverá ‘provas’
mais do que suficientes para nos prender, caso o Estado o considere necessário.
Esta vigilância constante e os dados pessoais aguardam, como um vírus mortal,
dentro dos cofres do governo, para serem virados contra nós. Não importa quão
trivial ou inocente seja essa informação. Nos Estados totalitários, a justiça,
tal como a verdade, é irrelevante.
O objetivo de todos os sistemas
totalitários é inculcar um clima de medo para paralisar uma população cativa.
Os cidadãos procuram segurança nas estruturas que os oprimem. A prisão, a
tortura e o assassínio são guardados para os renegados incontroláveis, como
Julian. O Estado totalitário consegue este controlo, escreveu Arendt, esmagando
a espontaneidade humana e, por extensão, a liberdade humana. A população é
paralisada pelo trauma. Os tribunais, juntamente com os órgãos legislativos,
legalizam os crimes de Estado. Vimos tudo isto na perseguição de Julian. É um
prenúncio do futuro.
O Estado corporativo deve ser
destruído se quisermos restaurar a nossa sociedade aberta e salvar o nosso
planeta. O seu aparelho de segurança tem de ser desmantelado. Os mandarins que
gerem o totalitarismo corporativo, incluindo os líderes dos dois maiores
partidos políticos, académicos fátuos, especialistas e uma comunicação social
falida, devem ser expulsos dos templos do poder.
Os protestos de rua em massa e a
desobediência civil prolongada são a nossa única esperança. Se não nos
revoltarmos - que é com o que o Estado corporativo está a contar - ver-nos-emos
escravizados e o ecossistema da Terra tornar-se-á inóspito para a habitação
humana. Aprendamos uma lição com os homens e mulheres corajosos que saíram à
rua durante 14 anos para salvar Julian. Eles mostraram-nos como se faz.”
Posted by OLima at quarta-feira, junho 26, 2024
https://onda7.blogspot.com/2024/06/chris-hedges-salvastes-julian-assange.html?
domingo, 7 de maio de 2023
Uma proposta real Carta de Julian Assange ao rei Carlos III
Uma proposta real
Carta de Julian Assange ao rei Carlos III
Julian Assange [*]
À Sua Majestade Rei Carlos III,
No momento da coroação do meu soberano, achei por bem fazer-vos um convite sincero para comemorar este importante evento visitando o vosso próprio reino dentro de um reino: a prisão de Belmarsh de Vossa Majestade.
Sem dúvida recordareis as sábias palavras de um famoso dramaturgo: "A qualidade da misericórdia não é imposta. Ela cai como a suave chuva do céu sobre os lugares abaixo".
Ah, mas o que saberia aquele bardo de misericórdia diante do acerto de contas no alvorecer do vosso histórico reinado? Afinal, pode-se verdadeiramente conhecer a medida de uma sociedade pelo modo como trata os seus prisioneiros, e o vosso reino certamente esmerou-se a este respeito.
A Prisão de Belmarsh de Vossa Majestade situa-se na prestigiada morada de One Western Way, em Londres, apenas a uma curta distância do Old Royal Naval College, em Greenwich. Quão deleitoso deve ser ter um estabelecimento tão estimado a portar o vosso nome.
“Pode-se verdadeiramente conhecer uma sociedade pelo modo como trata os seus prisioneiros”.
É aqui que 687 dos vossos leais súbditos são mantidos, apoiando o registo do Reino Unido como a nação com a maior população encarcerada da Europa Ocidental. Como o vosso nobre governo declarou recentemente, o vosso reino está atualmente a passar pela "maior expansão de vagas prisionais em mais de um século", com as vossas ambiciosas projeções a mostrarem um aumento da população prisional de 82.000 para 106.000 nos próximos quatro anos. É, na verdade, um grande legado.
Como prisioneiro político, detido ao bel-prazer de Vossa Majestade em nome de um soberano estrangeiro envergonhado, sinto-me honrado por residir entre os muros desta instituição de classe mundial. Na verdade, o vosso reino não conhece limites.
Durante a vossa visita, tereis a oportunidade de banquetear-vos com as delícias culinárias preparadas para os seus fiéis súbditos com um generoso orçamento de duas libras por dia. Podereis saborear as cabeças de atum misturadas e as omnipresentes formas reconstituídas que supostamente são feitas de galinha. E não vos preocupeis, porque, ao contrário de instituições menores como Alcatraz ou San Quentin, não há refeições coletivas num refeitório. Em Belmarsh, os prisioneiros comem sozinhos nas suas celas, garantindo a máxima intimidade com a sua refeição.
Para além dos prazeres gustativos, posso assegurar-vos que Belmarsh oferece amplas oportunidades educativas aos vossos súbditos. Como diz Provérbio 22:6: "Educai a criança no caminho em que deve andar, e até envelhecer dele não se desviará". Observai as filas baralhadas no guichet dos medicamentos, onde os reclusos recolhem as suas receitas, não para uso diário, mas para a experiência de expansão de horizonte num "grande dia fora" – tudo de uma vez.
Também tereis a oportunidade de prestar as vossas homenagens ao meu falecido amigo Manoel Santos, um homem gay que enfrentava deportação para o Brasil de Bolsonaro, o qual tomou a sua própria vida a apenas oito jardas da minha cela usando uma corda grosseira feita com lençóis. Sua refinada voz de tenor agora silenciou para sempre.
"Meu falecido amigo Manoel Santos... o qual tomou a sua própria vida a apenas oito jardas da minha cela".
Aventurai-vos nas profundezas de Belmarsh e encontrareis o local mais isolado dentro das suas muralhas: Os cuidados de saúde (Healthcare), ou “Cuidados do inferno” ("Hellcare"), como o chamam carinhosamente os seus habitantes. Aqui, ficareis maravilhado com as regras sensatas concebidas para a segurança de todos, tais como a proibição do jogo de xadrez, se bem que permitindo o muito menos perigoso jogo de damas.
Nas profundezas do Hellcare encontra-se o lugar mais gloriosamente edificante de toda a Belmarsh, ou melhor, de todo o Reino Unido: a sublimemente denominada Belmarsh End of Life Suite. Ouvi com atenção e podereis escutar os gritos dos prisioneiros: "Irmão, estou a morrer aqui", um testemunho da qualidade de vida e de morte dentro da vossa prisão.
Mas não temais, pois há beleza a encontrar dentro destes muros. Deleitai os vossos olhos com os pitorescos corvos que fazem ninho no arame farpado e com as centenas de ratos famintos que chamam Belmarsh de casa sua. E se vierdes na Primavera, podeis mesmo ter um vislumbre dos patinhos postos pelos patos selvagens no terreno da prisão. Mas não vos demoreis, pois as ratazanas vorazes asseguram que as suas vidas são efémeras.
Imploro-vos, Rei Carlos, que visiteis a Prisão de Belmarsh de Vossa Majestade, pois é uma honra digna de um rei. Ao embarcardes no vosso reinado, lembrai-vos sempre das palavras da Bíblia na versão do Rei James: "Bem-aventurados os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia" (Mateus 5:7). E que possa a misericórdia ser a luz orientadora do vosso reino, tanto dentro como fora das muralhas de Belmarsh.
O vosso mais devotado súbdito,
Julian Assange
A9379AY
05/Maio/2023
[*] Jornalista e preso político.
O original encontra-se em declassifieduk.org/a-kingly-proposal-letter-from-julian-assange-to-king-charles-iii/
Este artigo encontra-se em resistir.info
terça-feira, 27 de outubro de 2015
Que tal é o novo Astérix?
Que tal é o novo Astérix? Há 30 anos que não era tão bom
quarta-feira, 14 de outubro de 2015
Comunicação em quadrinhos, Julian Assange vira personagem de Asterix
14 de outubro de 2015 - 13h08
Não há dúvidas de que o valor da informação é uma das grandes questões deste século. Não à toa o idealizador do site Wikileaks, Julian Assange, se tornou um “vilão” aos olhos dos Estados Unidos quando ousou quebrar as regras (e o sigilo) do imperialismo e alertar a população mundial sobre os riscos existentes em mecanismos de transmissão de informação aparentemente seguros.
Por Mariana Serafini
Assista ao teaser de Asterix e o Papiro de César:








