Mostrar mensagens com a etiqueta Ana Hatherly. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Ana Hatherly. Mostrar todas as mensagens

sábado, 7 de dezembro de 2019

Ana Hatherly - Carta de amor informático

* Ana Hatherly


Penetraste no meu coração
Como um virus no meu computador

Vindo de lado nenhum
Ofereces-me agora
O vazio da não opção

Estragaste-me o real
Obrigaste-me a reinventá-lo:
Para quê?

Agora estás
No meu cemitério de textos
Já não te posso reencaminhar

Arquivei-te no lixo da memória
Do meu Pentium IV
Que aliás já vendi

Troquei-o por um lap top
Mais leve
Mais portátil
Mais facilmente descartável


quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

Ana Hatherly - Gente com dente

* Ana Hatherly

O que é preciso é gente
gente com dente
gente que tenha dente
que mostre o dente
Gente que não seja decente
nem docente
nem docemente
nem delicodocemente
Gente com mente
com sã mente
que sinta que não mente
que sinta o dente são e a mente
Gente que enterre o dente
que fira de unha e dente
e mostre o dente potente
ao prepotente
O que é preciso é gente
que atire fora com essa gente
Essa gente dominada por essa gente
não sente como a gente
não quer
ser dominada por gente
NENHUMA!
A gente
só é dominada por essa gente
quando não sabe que é gente

quarta-feira, 27 de julho de 2016

"Principe", de Ana Hatherly


* Ana Hatherly

Príncipe: 
Era de noite quando eu bati à tua porta 
e na escuridão da tua casa tu vieste abrir 
e não me conheceste. 
Era de noite 
são mil e umas 
as noites em que bato à tua porta 
e tu vens abrir 
e não me reconheces 
porque eu jamais bato à tua porta. 
Contudo 
quando eu batia à tua porta 
e tu vieste abrir 
os teus olhos de repente 
viram-me 
pela primeira vez 
como sempre de cada vez é a primeira 
a derradeira 
instância do momento de eu surgir 
e tu veres-me. 
Era de noite quando eu bati à tua porta 
e tu vieste abrir 
e viste-me 
como um náufrago sussurrando qualquer coisa 
que ninguém compreendeu. 
Mas era de noite 
e por isso 
tu soubeste que era eu 
e vieste abrir-te 
na escuridão da tua casa. 
Ah era de noite 
e de súbito tudo era apenas 
lábios pálpebras intumescências 
cobrindo o corpo de flutuantes volteios 
de palpitações trémulas adejando pelo rosto. 
Beijava os teus olhos por dentro 
beijava os teus olhos pensados 
beijava-te pensando 
e estendia a mão sobre o meu pensamento 
corria para ti 
minha praia jamais alcançada 
impossibilidade desejada 
de apenas poder pensar-te. 

São mil e umas 
as noites em que não bato à tua porta 
e vens abrir-me 

Ana Hatherly, in "Um Calculador de Improbabilidades"

quarta-feira, 5 de agosto de 2015

ana hatherly - Esta Gente / Essa Gente

* Ana Hatherly

O que é preciso é gente
gente com dente
gente que tenha dente
que mostre o dente
Gente que não seja decente
nem docente
nem docemente
nem delicodocemente
Gente com mente
com sã mente
que sinta que não mente
que sinta o dente são e a mente
Gente que enterre o dente
que fira de unha e dente
e mostre o dente potente
ao prepotente
O que é preciso é gente
que atire fora com essa gente
Essa gente dominada por essa gente
não sente como a gente
não quer
ser dominada por gente
NENHUMA!
A gente
só é dominada por essa gente
quando não sabe que é gente.

(Ana Hatherly, In “Um Calculador de Improbabilidades”)


sobre ana hatherly ver  Morreu Ana Hatherly, a pintora da palavra
http://www.publico.pt/culturaipsilon/noticia/morreu-ana-hatherly-a-pintora-da-palavra-1704158
(Ana Hatherly, In “Um Calculador de Improbabilidades”)

domingo, 29 de março de 2009

Poema - Ana Hatherly

( SEM TÍTULO )

Um poeta barroco disse:

as palavras são

as línguas dos olhos

Mas o que é um poema

senão

um telescópio do desejo

fixado pela língua?

O voo sinuoso das aves

as altas ondas do mar

a calmaria do vento:

Tudo

tudo cabe dentro das palavras

e o poeta que vê

chora lágrimas de tinta


ANA HATHERLY
,
Enviado por Moranguinho Pereira (hi5)
.