Mostrar mensagens com a etiqueta Guerra Civil Americana. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Guerra Civil Americana. Mostrar todas as mensagens

quinta-feira, 26 de dezembro de 2024

Alfredo Barroso - OS INCÊNDIOS ATEADOS PELO "OCIDENTE" NA "ERA DOS EXTREMOS"


* Alfredo Barroso 

(que se limitou a actualizar de 140 para 160 anos a 1ª linha do texto publicado originalmente no 'Expresso' há 20 anos*)

Há 160 anos, em Setembro de 1864, no decurso da Guerra da Secessão americana (ou «Civil War», se preferirem), o general «nortista» William Sherman (que deu o nome a carros de combate) conquistou a cidade de Atlanta e mandou incendiá-la. Tal como faria em Savannah, no final de 1864, depois de ter devastado a Geórgia. Mas o incêndio de Atlanta é o mais conhecido e popular, por ter sido reconstituído em uma cena aterradora do filme «E Tudo o Vento Levou». 

A Guerra da Secessão americana (1861-1865), uma das mais brutais de todos os tempos, custou para cima de um milhão de mortos, embora só se saiba, com precisão, quantos militares morreram de ambos os lados. Ao todo, 617 mil mortos (359 mil entre os «nortistas» vitoriosos; 258 mil entre os «sulistas» derrotados). Quanto a vítimas civis, não é apresentado um número exacto, mas todos os especialistas concordam em apontar para «centenas de milhares» de mortos e feridos. 

O mesmo se passa em relação ao genocídio dos índios americanos [os ameríndios], que começou ainda antes da Guerra Civil e atingiria o auge bastante depois, em Dezembro de 1890, com o célebre «massacre de Wounded Knee», onde os soldados do famoso «7º de Cavalaria» se vingaram da derrota que os Sioux (chefiados por Crazy Horse e Sitting Bull) tinham infligido ao regimento (então comandado pelo general Custer) em Little Big Horn, no Verão de 1876. Além de ser um «castigo», a chacina dos amerindios foi um genocídio institucional (uma «sanção política do conquistador») e utilitário (uma «exploração da conquista colonial») no contexto da corrida para conquistar o Oeste («Go West»), apresentada, paradoxalmente, como um exemplo da «modernidade». Assim se consolidou, no século XIX («A Century of Dishonor», como escreveu Helen Hunt Jackson, em 1881), o país que hoje se considera  «farol» da «civilização ocidental» e «campeão» da liberdade contra a «barbárie».

Mas seria durante todo o século XX - «A Era dos Extremos», como lhe chamou Eric Hobsbawm - que a «civilização ocidental» revelaria toda a sua capacidade para praticar genocídios, crimes de guerra, massacres e carnificinas. Em suma: destruição e morte a uma escala nunca antes imaginada. Hitler - com o genocídio de judeus (holocausto), ciganos e opositores - e Estaline - com o genocídio pela fome na Ucrânia e com o Arquipélago do Gulag (entre o Estreito de Behring e o Mar Negro, atravessando as regiões mais inóspitas da Sibéria) - assassinaram milhões de seres humanos, em nome da «civilização», do «homem novo» e da «modernidade». Um e outro ocupam, indiscutivelmente, lugares no topo da escala do «terror». 

Mas aparecem depois, a uma distância que não é assim tão grande quanto se julga, os «Aliados», sobretudo os EUA e a Grã-Bretanha, com os «crimes de guerra» que cometeram, quer na na Alemanha equer no Japão, durante a II Guerra Mundial. As duas bombas atómicas largadas pelos bombardeiros americanos B-29 «Enola Gay» e «Great Artist» (que belos nomes!) sobre Hiroshima e Nagasaki, em 6 e em 9 de Agosto de 1945, mataram, imediatamente e a curto prazo, mais de 200 mil civis. Isto é, mais do dobro dos civis chacinados pelos 279 bombardeiros americanos que arrasaram Tóquio no dia 19 de Março de 1945. Mas estas carnificinas não constituíram excepções. Durante cinco anos, mais de mil cidades, vilas e aldeias alemãs foram alvos de bombardeamentos brutais e constantes. Milhares de toneladas de bombas explosivas e incendiárias atingiram 30 milhões de civis - sobretudo velhos, mulheres e crianças- matando mais de um milhão, numa série de ataques planeados e executados com minúcia, e de forma sistemática, por «peritos» norte-americanos e britânicos. O objectivo foi o de causar a maior devastação possível, provocando o terror entre a população civil. As bombas foram especialmente aperfeiçoadas para atear incêndios e matar civis, não só pelo impacto, mas também pelo calor asfixiante, pela compressão do ar e pelos gases tóxicos.

É isto que o historiador berlinense Jörg Friederich descreve, num livro aterrador, intitulado «O Incêndio, a Alemanha sob as bombas, 1940-1945». Autor insuspeito, também se distinguiu a investigar os crimes de guerra nazis e foi colaborador da «Enciclopédia do Holocausto». Em complemento, vale a pena ler o ensaio do escritor alemão W.G. Sebald «Sobre a História Natural da Destruição», em que o autor reflecte sobre a tragédia alemã, concluindo que, nem por ter sido merecido, o castigo infligido à Alemanha foi menos brutal. A decisão de incendiar cidades alemãs, reduzindo-as a cinzas, provocando o que tecnicamente se chama «tempestade de fogo», leva-nos a concluir que «todos perderam a razão, porque o indivíduo desapareceu sob o horror em massa». A tecnologia foi posta ao serviço do terror com uma precisão implacável.

Sobre as origens desse terror e sua actualidade neste «mundo globalizado», de cuja «modernidade» o «Ocidente» tanto se orgulha, convém ler o livro de John Gray, «A Al-Qaeda e o significado de ser moderno», já publicado em Portugal. Chega-se à conclusão de que não foram os «ocidentais» a aprender os métodos de terror com os «bárbaros». É bem mais provável que tenham sido os «bárbaros» a aprender a praticar o «terror» com os «ocidentais». O pretenso «choque de civilizações» só serve para alimentar «guerras santas» e «vinganças de Deus». Noutro ensaio notável, «A Fractura Imaginária», sobre «as falsas raízes do confronto entre Oriente e Ocidente», o libanês Georges Corm critica o «discurso narcisista do Ocidente», que se fecha sobre si próprio e que faz da pretensa «excepcionalidade ocidental» um absoluto, condenando os outros à «barbárie». Como se vivêssemos num mundo maniqueu, dividido entre o Céu e o Inferno, entre o Bem e o Mal, entre um Ocidente exemplar - «racional, laico, técnico, materialista e democrático» - e um Oriente abominável - «místico, irracional e violento». São mitos perigosos.  

É essa «fractura imaginária» - já denunciada por Edward Said no seu magnífico ensaio sobre o «Orientalismo» (só agora publicado em Portugal) - que é preciso refutar. Porque é ao abrigo de tais mitos que florescem os apelos ao autoritarismo e se invoca o terrorismo como pretexto para limitar as liberdades e condicionar a democracia. Não é com «democracias musculadas» e «guerras preventivas» baseadas em mentiras que se combate o terrorismo. Com as «bombas inteligentes» só se ateiam mais incêndios! 

(*) O texto original foi publicado no 'Expresso" de 18/Setembro/2004


2024 12 26
https://www.facebook.com/somera.simoes/posts

quarta-feira, 22 de junho de 2011

Abraham Lincoln e o Discurso de Gettysburg



Home » De Olho na História

Abraham Lincoln e o Discurso de Gettysburg

Publicado por Gabriel Perboni em 1 de março de 2011 – 01:502 Comentários
O discurso de Gettysburg foi, sem sombra dúvida, o mais importante discurso já feito por um presidente dos Estados Unidos em termos de significância e relevância para o momento social, econômico e político de uma época. Realizado em 19 de novembro de 1863, em meio ao caos da Guerra de Secessão e por ocasião da inauguração de um cemitério para vítimas da batalha, o discurso do presidente Abraham Lincoln serviu para acalmar os ânimos e despertar um sentimento patriótico na população que, até então, pelo enorme número de mortes na guerra, estava se voltando contra o governo de Lincoln.

O DISCURSO DE GETTYSBURG, EM PORTUGUÊS

Acompanhe o vídeo com a reconstituição do discurso de Gettysburg enquanto lê a tradução das palavras de Abraham Lincoln.

Lincoln em Gettysburg
Lincoln em Gettysburg

“Há 87 anos, os nossos pais deram origem neste continente a uma nova Nação, concebida na Liberdade e consagrada ao princípio de que todos os homens nascem iguais.
Encontramo-nos atualmente empenhados numa grande guerra civil, pondo à prova se essa Nação, ou qualquer outra Nação assim concebida e consagrada, poderá perdurar. Eis-nos num grande campo de batalha dessa guerra. Eis-nos reunidos para dedicar uma parte desse campo ao derradeiro repouso daqueles que, aqui, deram a sua vida para que essa Nação possa sobreviver. É perfeitamente conveniente e justo que o façamos.
Mas, numa visão mais ampla, não podemos dedicar, não podemos consagrar, não podemos santificar este local. Os valentes homens, vivos e mortos, que aqui combateram já o consagraram, muito além do que nós jamais poderíamos acrescentar ou diminuir com os nossos fracos poderes.
O mundo muito pouco atentará, e muito pouco recordará o que aqui dissermos, mas não poderá jamais esquecer o que eles aqui fizeram.
Cumpre-nos, antes, a nós os vivos, dedicarmo-nos hoje à obra inacabada até este ponto tão insignemente adiantada pelos que aqui combateram. Antes, cumpre-nos a nós os presentes, dedicarmo-nos à importante tarefa que temos pela frente – que estes mortos veneráveis nos inspirem maior devoção à causa pela qual deram a última medida transbordante de devoção – que todos nós aqui presentes solenemente admitamos que esses homens não morreram em vão, que esta Nação, com a graça de Deus, renasça na liberdade, e que o governo do povo, pelo povo e para o povo jamais desapareça da face da terra.”

CENÁRIO

Soldados mortos em Gettysburg
Soldados mortos em Gettysburg
Entre os dias 1 e 3 de julho de 1863, mais de 170 mil soldados dos Estaodos Unidos e dos Estados Confederados travaram uma batalha que viria a ser o ponto de virada da Guerra de Secessão. O conflito aconteceu em Gettysburg, Pennsylvania, uma cidade que, na época, tinha apenas 2.400 habitantes.
Após a batalha, embora exista alguma controvérsia a respeito dos números, mais de 7 mil soldados e 3 mil cavalos jaziam mortos pelos campos de Gettysburg, deixando em estado de choque a minúscula população da cidade. Ainda sentindo os efeitos morais da batalha e sob um forte cheiro de corpos em decomposição, os poucos milhares de habitantes de Gettysburg decidiram que precisavam, e isso era uma prioridade, dar um fim digno aos soldados e enterrá-los da maneira mais respeitosa possível.
A cidade ia construir um cemitério, enterrar os corpos e cobrar os custos das famílias dos soldados, mas David Wills, rico advogado de Gettysburg, não concordou com essa idéia e escreveu uma carta para o governador da Pennsylvania, Andres Gregg Curtin, sugerindo a criação de um cemitério público, financiado pelo Estado. E assim foi feito!
Abraham Lincoln, então presidente dos Estados Unidos, era apenas um entre muitos convidados para a solenidade e seu curto discurso seria apenas uma mera formalidade protocolar, não fosse pela sagacidade de Lincoln em utilizar o momento para se auto-promover e limpar uma parte da mancha de sangue que encobria seu governo.

VALOR POLÍTICO DO DISCURSO DE GETTYSBURG

Memorial do Discurso de Lincoln
Memorial do Discurso de Lincoln
Os números da Guerra de Secessão, em agosto de 1863, registravam mais de 250 mil nomes na lista de mortes e isso passou a gerar um grande desconforto no governo de Abraham Lincoln que aumentava cada vez mais conforme aumentavam, também, os sentimentos anti-guerra e, aí sim vem o problema, anti-Lincoln. A “facção pacificadora” do Partido Democrata torcia para o tempo passar depressa, assim chegariam as eleições de 1864 e Lincoln seria derrubado facilmente devido à enorme antipatia que a população vinha alimentando por ele.
Curtin, governador da Pennsylvania, alertou Lincoln sobre os perigos da opinião pública se voltar contra os esforços de guerra, dizendo que as probabilidades dele ser re-eleito eram baixas e que os líderes dos Democratas eram hábeis em discursar com paixão e estavam envenenando a mente da população.
Convencido de que a oposição o derrubaria, Lincoln voltou-se a um projeto pessoal para trazer a opinião pública de volta para si e mostrar a todos que os esforços de guerra eram necessários.
Não podemos afirmar que apenas a realização de um discurso na cerimônia inaugural de um cemitério tenha virado a mesa no jogo da opinião pública, mas a astúcia de Lincoln em invocar os Pais Fundadores da Nação, a independência, a constituição e o espírito de liberdade que dela emana, foi algo genial que, isso sim, iniciou uma mudança no sentimento geral quanto à guerra. Pessoas que antes eram contra os esforços de guerra e bradavam pelo fim das batalhas e concessões aos Estados Confederados, agora achavam que a luta pela liberdade era a única maneira de manter viva a memória e os ideais dos homens que haviam lutado pela fundação de seu país.
Historicamente recente naquela época, a declaração da independência dos Estados Unidos, libertando-se do julgo inglês, foi o principal instrumento que Lincoln usou como ferramenta para manter a guerra viva e a opinião pública positivamente ao seu lado.
O único “erro” do discurso de Lincoln, talvez por falsa modéstia, foi afirmar que suas palavras seriam esquecidas.
.
.