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quinta-feira, 4 de junho de 2026

Jaime Nogueira Pinto - Uma topografia do Além: a Commedia, em tempo de Natal

 Seguir Dante na sua fascinante viagem pelo Além nunca vem a despropósito. Sobretudo neste tempo de Natal, em que Céu e Terra tão concreta e surpreendentemente se misturam.

* Jaime Nogueira Pinto

27 dez. 2025, 00:18

Na infância, muitas vezes a viragem para a leitura é acordada pela imagem: queremos decifrar, entender, gravuras, representações, pinturas que captam a nossa atenção, que nos intrigam, que nos obrigam a parar e a ficar ali, fascinados, suspensos, com a curiosidade a roer-nos. Foi assim que, não sei com que idade, mas ainda miúdo, acabei por ler O Inferno numa edição da Comédia, crismada Divina Comédia por Bocaccio, ilustrada por Gustave Doré.  Uma das mais detalhadas viagens pelo Além que conheço.

E começa pelo Inferno. Dante situou o início da sua viagem ao outro mundo no dia 25 de Março de 1300, início do Jubileu ou Ano Santo de Bonifácio VIII, jubileu que causara grande confusão em Roma, então uma cidade de 80.000 habitantes, invadida por 200.000 peregrinos e mergulhada num caos quase apocalíptico.

Dante estava metido na política do tempo, alinhando com os chamados Guelfos Brancos. Na bipolarização medieval entre partidários do Imperador e do Papa (uma deriva polémica da “doação de Constantino” que resultou num conflito velho que se agudizara no tempo de Frederico II de Hohenstaufen e dos papas seus inimigos a partir da questão da primazia dos dois poderes), os Guelfos Brancos eram os partidários moderados do Papa. Mas havia os Guelfos Negros, os partidários radicais do Papa e que, numa boa antecipação das políticas e cisões ideológicas do nosso tempo, abominavam com maior fervor os seus correligionários Brancos do que os seus inimigos Gibelinos, partidários do Imperador. O Papa reinante em Roma era Benedetto Caetani, papa Bonifácio VIII, que fora eleito no dia de Natal de 1294.

Dante, guelfo branco, sofrera as consequências dessa inimizade quando os Guelfos Negros tomaram o poder em Florença; dois séculos depois, outro florentino ilustre, Maquiavel, passará por idêntica sorte, depois do regresso dos Médici ao governo da Cidade-Estado. E na reforma antecipada poderá escrever grandes obras de antropologia e filosofia política, das quais a mais famosa ficou a ser Il Principe, um manual Ad Delphini, escrito na esperança frustrada de recuperar as graças dos Médici.

Mas Maquiavel, depois de um curto mau bocado, pôde ficar em Florença. Dante, não. Foi mais uma desgraça na sua vida. Tivera uma paixão por Beatrice Portinari, que vira pela primeira vez aos nove anos. Aos quinze anos Beatrice casou-se com Simone de Bardi, e ele, aos vinte, com Gemma Donati. Amores infelizes, que o marcaram para sempre e que sublimou em poesia.

Neste tempo, em Florença, tal como na China dos Mandarins e na Roma dos Césares, para aceder a cargos políticos era preciso demonstrar e provar uma certa cultura histórica e literária. Outros tempos, outras terras, outras gentes.

Voltando a Dante e ao princípio da sua tragédia política. Quando Florença, sua pátria, passou a estar sob o jugo dos Guelfos Negros, o poeta foi forçado ao exílio. Bonifácio mandara que Charles de Valois marchasse sobre a cidade e a reconquistasse aos Guelfos Brancos. E. com o Valois. veio, em Novembro de 1301, Corso Donati, um guelfo negro  que se encarregou da purga, do saque e das decorrentes exclusões e macro-atentados aos direitos humanos (que os tempos não estavam para simples faltas de inclusão ou meras declarações micro-agressivas).

Dante estava em Roma, em missão diplomática, quando soube da sua condenação por corrupção, nos finais de 1302. Uma condenação sob falsas acusações que o obrigava a pagar uma multa que não podia pagar, pois já os bens herdados tinham sido objecto de confisco.

Na amargura do exílio, comeu o “pão alheio” e andou pelas “escadas alheias” de Verona, Bolonha, Ravena. Tinha então 36 anos e nunca mais voltou a ver nem a sua cidade nem a sua família, a mulher, Gemma, e os quatro filhos.

O poeta da Vita Nuova escreveu então a Commedia, onde também se vingou dos seus inimigos políticos, responsáveis pelo seu exílio, arrumando-os criteriosamente no seu Inferno; assim, o papa Bonifácio VIII, chefe espiritual dos Guelfos Negros, foi parar ao Oitavo Círculo, o dos simoníacos e fraudulentos, como vendedor de cargos eclesiásticos. Ali ficou enterrado de cabeça para baixo. Mas há outros guelfos negros no Inferno dantesco: Corso Donati, o “conquistador negro” de Florença e Mosca dei Lamberti, réus de crimes de corrupção e intriga, e Jacopo Rusticoni, condenado por sodomia. Dante vai dispondo os inimigos nos círculos infernais, elencados por pecados. Para ele, a justiça divina está acima da amizade e das relações pessoais – por isso arruma o humanista Brunetto Latini, seu mestre e amigo, no Sétimo Círculo, por sodomia.

No Inferno dantesco, o destino das almas danadas vai piorando à medida que se aproximam do centro.  De resto, o Primeiro Círculo nem sequer é infernal, é o Limbo, onde estão os pagãos virtuosos e as crianças que morreram sem ser baptizadas. Um lugar aparentemente aprazível e particularmente bem frequentado, com grandes filósofos, historiadores e poetas clássicos, como Platão, Aristóteles, Sócrates, Homero, Tucídides, Tácito e o próprio Virgílio; um excelente ambiente, presumo, só desafiado pelos milhões de crianças não-baptizadas (que tudo leva a crer que façam tanto barulho como as baptizadas).

Os restantes círculos são: o Segundo para a Luxúria, o Terceiro para a Gula, o Quarto para a Avareza, o Quinto para a Ira e Preguiça, o Sexto para a Heresia, o Sétimo  para a Violência, o Oitava para a Fraude. O Nono e último é para a Traição, para os traidores, e para o traidor dos traidores, Lúcifer, congelado num lago.

Em toda a expedição, Dante é guiado por Virgílio, o poeta da Eneida, que o vai acompanhando e esclarecendo; e que, terminada a visita ao Inferno, o acompanha até ao Purgatório. O poeta romano é um pagão virtuoso, que reside no Limbo; pode, por isso, entrar no Purgatório, mas não pode entrar no Paraíso porque, segundo a teologia do tempo, não beneficiou da salvação de Cristo, que veio depois dele morrer, em 19 AC.

No último círculo do Inferno, no “Lago Cocito”, está então Lúcifer, uma figura de três cabeças que agita as asas num vazio gélido.

Os Terraços do Purgatório

Se o Inferno se estrutura em círculos concêntricos, que vão piorando, o Purgatório consta de sete terraços, que correspondem aos sete pecados mortais. As almas estão ali para se redimirem, praticando as virtudes contrárias aos pecados. Contra a Soberba, a Humildade; contra a Inveja, a Caridade; contra a Ira, a Paciência; contra a Preguiça, a Diligência; contra a Avareza, a Generosidade; contra a Gula, a Temperança; contra a Luxúria, a Castidade.

As personalidades que os habitam são menos conhecidas do que as que estão no Inferno: Marco Pórcio Catão, Catão de Utica, ou Catão, o Jovem (95-46 AC), Manfredo da Sicília, filho natural de Frederico II de Hohenstaufen ou Forese Donati, um nobre florentino amigo de Dante, com quem o poeta trocou um tipo de polémica vituperativo jocosa  (por sinal bastante ousada, já que Dante acusava Forese de ser incapaz de satisfazer, física e sexualmente, a mulher).

O Purgatório contrasta com o Inferno pelo “clima”, pelo horizonte, pelo espírito do lugar. No Inferno há desespero e sofrimento, no Purgatório há a esperança, a expectativa da Salvação, a noção do que aquele tempo de sofrimento tem um propósito e um fim: chegar ao Céu, ao Paraíso. E os que lá estão contam com as orações dos vivos, para atingirem a redenção.

Mas há também alguns enigmas. No Canto XIX do Purgatório, Dante vai encontrar a tentadora Sereia (femmina balba), uma criatura demoníaca, encantadora, insidiosa, quando já encontrara no Inferno, entre os fraudulentos, Ulisses, o autor e artífice do ardil do cavalo de pau recheado de guerreiros com que os gregos conquistaram Troia.

Ulisses fora pintado por Platão e pelos Estóicos como um modelo moral, um exemplo de homem virtuoso, capaz de resistir às tentações sedutoras e maldosas encarnadas por criaturas demoníacas, como Circe e as Sereias. Confesso que aqui partilho o choque que Claudia Roth Pierpont regista em “This side of Paradise”, um artigo publicado no New Yorker de 1 de Dezembro:  como é que Dante arrumou Ulisses no Inferno, no Círculo Oitavo, entre os fraudulentos? É um lugar extremamente desagradável e para  muitos  de nós Ulisses é um herói. O próprio Dante também parece chocado ao ver que Deus Todo-Poderoso condenou Ulisses ao castigo eterno (também para sua surpresa, ou melhor, para seu desgosto, lá estão, no Segundo Círculo, os amantes adúlteros de Rimini, Paolo e Francesca).

A explicação da condenação de Ulisses, encontramo-la na conversa que Ulisses tem com Dante e Virgílio no Canto XXVI do Inferno. Ulisses não reporta as errâncias do seu regresso a Ítaca, antes confessa, que apesar do amor pelo filho, pelo pai e por Penélope, decidiu “satisfazer a sede de saber todos os segredos do mundo, todos os vícios e virtudes dos homens”, partindo, depois de Circe, à aventura por mares nunca dantes navegados, com um barco e uma pequena equipagem, passando as “colunas de Hércules”.

O Voo Louco de Ulisses

Assim, Dante altera a narrativa homérica e entra na polémica clássica de saber se Ulisses foi virtuoso ou fraudulento.

Na Comédia, Ulisses exorta os companheiros “fatti non foste a vivere come bruti, ma per seguir virtute e connoscenza”, o que quer mais ou menos dizer “não fostes feitos para viver como bestas, mas para seguir a virtude e o saber”. Assim, o conhecimento, independentemente dos interditos, parece ser o objectivo final da sua nova viagem, para lá das colunas de Hércules: uma viagem de cinco meses no Hemisfério Austral, em que vê a montanha do Purgatório, quando um grande turbilhão engole barco e equipagem. É com este “folle volo”, com este voo louco, que Ulisses, desrespeitando os limites impostos por Deus, leva à morte os companheiros e se precipita na Geena. Ou seja, escapado, depois de satisfeito, da perfeição dos braços da feiticeira Circe, é recapturado pela tentação de tudo saber, que o leva em voo louco à perdição. No fundo, repete o pecado de Adão. Adão esse que, entretanto, está no Paraíso …

Com Beatriz no Paraíso

Ulisses perde-se, mas Dante salva-se, ou melhor, é salvo. Por quem? Aqui reaparece, ou aparece, Beatriz, a sua eterna paixão, que é quem o vai guiar na terceira instância da sua viagem pelo Além.

O Paraíso dantesco é, evidentemente, um lugar que contrasta com o Inferno. Mas há céus, céus variados, ou muitas moradas,no Paraíso, porque há graus diferentes de beatitude, de santidade. Dante começa pelo céu mais baixo, onde Piccarda Donati (as famílias florentinas estão sempre presentes) lhe explica o espírito do lugar. Depois, num céu mais alto, está Santa Clara de Assis, fundadora da ordem das Clarissas; e também Constança de Altavilla, mulher de Henrique VI e mãe de Frederico de Hohenstaufen, o imperador que fez a cruzada excomungado e negociou a devolução de Jerusalém com al Kamil, sobrinho e sucessor de Saladino. Com isto, Dante, homiziado, mostra não ter medo se se aproximar dos gibelinos, absolvendo a mãe do mais ilustre representante da facção imperial.

Tal como o Inferno, o Paraíso não é igual para todos os que acolhe nas suas nove esferas concêntricas (Dante segue aqui a cosmologia ptolomaica).

Há dúvidas sobre o tempo de redacção da Commedia. Mas foi com certeza escrita no exílio, ou seja num tempo sempre posterior a  1302. Pensa-se que o Inferno seja de 1309 e o Purgatório de 1313 ou 1314; e sabe-se que, em 1316, Dante dedicou a primeira parte de O Paraíso a Cangrande della Scala, o gibelino seu protector em Verona desde 1311-1312.

A viagem ao Além foi relativamente rápida – uma semana entre a noite de 7 para 8 de Abril de 1300 e o dia 14 do mesmo mês.  Dante passou dois dias no Inferno, três no Purgatório e 24 horas no Céu.

A breve passagem pelo Céu, ou melhor, pelos céus, tem como guia a sua grande paixão perdida – Beatriz. Se o Inferno tem nove círculos e o Purgatório sete terraços, o Céu tem nove esferas; e enquanto o Inferno e o Purgatório se elencam por diferentes categorias de pecados, o Paraíso, coerentemente, organiza-se em função das virtudes. Já as esferas são a Lua, Mercúrio, Vénus, Sol, Marte, Júpiter, Saturno, as Estrelas Fixas e o “Primum Mobile”, ligado directamente a Deus-Pai.

Dante tem, nas várias esferas, encontros e conversas. No Canto IX do Paraíso, um trovador, Folquet de Marselha, fala criticamente da corrupção na Igreja, do amor dos clérigos pelo dinheiro; este trovador fez mea culpa e foi depois bispo de Toulouse. Já no Sol, onde ficam os sábios, Dante encontra teólogos como Alberto Magno, Tomás de Aquino e Santo Isidoro de Sevilha. E até o rei Salomão, que poderia ter ido parar ao Limbo, mas que, no entanto, ali está. E santos medievais como Francisco de Assis e São Boaventura, que lhe conta a história de São Domingos. Logo a seguir, na Quinta Esfera, a de Marte, estão os “guerreiros da fé”, entre eles o próprio trisavô do poeta, Cacciaguida degli Elisei, que esteve na Segunda Cruzada, onde foi armado cavaleiro por Conrado III.

Na conversa com o trineto, Cacciaguida revela-lhe profeticamente o futuro: a perseguição pelos Guelfos Negros na corrupta Florença e o exílio que fará dele um grande poeta e um viajante privilegiado pelas rotas do Além.

Dante e a Igreja

Além de Bonifácio VIII e Nicolau III, Dante põe outros papas no Inferno, e não hesita em condenar os vícios do clero a propósito de bispos e sacerdotes que vai encontrando no Inferno ou nos diálogos que vai mantendo com os mortos, ao longo da Commedia.

No entanto, a Igreja acabou por considerar a sua obra “uma formulação poética da Teologia Moral medieval, conforme definida por teólogos e santos, como Alberto Magno e São Tomás de Aquino”, ou seja, por integrá-lo num humanismo cristão.

Foi Leão XIII, o primeiro papa de uma Igreja privada de qualquer réstia de poder temporal que, confrontado com os excessos e desequilíbrios da Modernidade, do Capitalismo e do Socialismo definiu na Rerum, Novarum uma ética cristã para a “questão social”, foi também o primeiro papa que se referiu a Dante como “il nostro Dante”, celebrando a sua pertença à Igreja.  E no século XX, os seus sucessores, não pararam de referir e louvar o poeta florentino.

Assim o fez Bento XV, nos seiscentos anos da morte de Dante, na encíclica In Praeclara Summorum, toda dedicada ao autor da Commedia. exaltando-o como “guia moral e religioso da Europa”; e voltou a ele Paulo VI, na carta apostólica Altissimi Cantus, nos 700 anos do nascimento de Dante e na véspera do encerramento do Concílio Vaticano II. Mais recentemente, o Papa Francisco tornava a recordar o itinerário dantesco da “selva escura” à luz:

“Relendo a sua vida à luz da fé, Dante descobre também a vocação e a missão que lhes foram confiadas de modo que, paradoxalmente, de homem aparentemente falido e desiludido, pecador e desanimado, transforma-se em profeta da esperança”. E isso porque “é capaz de ler o coração humano em profundidade e em todos, mesmo nas figuras mais abjectas”, descobre “o desejo de alcançar alguma felicidade, uma plenitude de vida”.

Seguir Dante na sua fascinante viagem pelo Além nunca vem a despropósito. Sobretudo neste tempo de Natal, em que Céu e Terra tão concreta e surpreendentemente se misturam.

Um Santo Natal.

https://observador.pt/opiniao/uma-topografia-do-alem-a-commedia-em-tempo-de-natal/

Jaime Nogueira Pinto - "O Fascismo nunca existiu"

Apesar do anti-parlamentarismo, do anti-comunismo e de algum folclore de “militarização da política”, nem o 28 de Maio, nem a Ditadura Militar, nem o Estado Novo foram fascistas.

04 jun. 2026, 00:24

* Jaime Nogueira Pinto

On est toujours le fasciste de quelqu’un”, escrevia o autor de Qu’est-ce-que le fascisme?, Maurice Bardèche, esse sim, um fascista assumido. Mas há que ter algum rigor.

O regime trazido pelo movimento militar do 28 de Maio de 1926, que há uma semana fez cem anos, não foi um regime fascista. Esclareço que o meu intuito não é “branquear” (como agora se diz) o Estado Novo – que, não sendo fascista, podia até ter sido pior que o fascismo em brutalidade e violência. É só mais uma tentativa de trazer algum rigor a um espaço em que reina a confusão, ora pela má-fé dos que sabem e fazem de conta que não sabem, ora pela ignorância ou desinformação da maioria.

Depois de 1945, o adjectivo “fascista” passou a ser um insulto na linguagem política corrente. Tanto assim foi que, na esquerda maoista e trotskista dos anos 1960, os comunistas soviéticos passaram a “fascistas” ou a “sociais-fascistas”; e também nunca faltaram nem faltam direitistas a chamar “fascistas” aos esquerdistas mais radicais, incluindo aos comunistas, pensando estar, com isso, a prestar um grande serviço à pátria.

A prova de que a esquerda continua vitoriosa na batalha das palavras é o facto de “comunista” não ter o mesmo poder de insulto, apesar de o comunismo deter o recorde das matanças políticas do século XX, com os Estalines, os Maos, os Pol Pots, os Mengistus e outras glórias e referências do comunismo internacional.  Para se medir com eles em criminalidade política só mesmo Adolfo Hitler, que, de resto, encarnou uma deriva de racismo biológico alheia à “doutrina do fascismo”.

A guerra civil europeia

Ao criar, em Outubro de 1917, um regime que implantou a “luta de classes” e o conceito de “inimigo do povo”, à sombra dos quais se criou na Rússia um “terror vermelho” e consequentemente um “terror branco”, o comunismo acabou por desencadear em muitos países europeus a supressão das instituições liberais em crise.

Foi também para responder ao perigo comunista que, em Outubro de 1922, Mussolini e os seus “camisas negras” fizeram a “marcha sobre Roma”, e que o Rei nomeou o “Duce” do fascismo chefe do governo. Uma das instituições de base do fascismo, como do comunismo, é o partido. Nos Estados ideológicos, o Partido comanda a Administração Pública. Mussolini era chefe do governo porque era líder do Partido Nacional Fascista, que adoptava uma ideologia económica e socialmente revolucionária, indissociável do paganismo e da crença num mítico “homem novo”. A infeliz entrada da Itália na guerra em 1940, pressionada pelo Partido, estava também integrada numa cultura futurista que via a violência como força transformadora e a guerra como “higiene do mundo”, perfilhando um nietzscheano “viver perigosamente”.

O 28 de Maio, a Ditadura Militar e o Estado Novo, além do que pudessem ter em comum com o fascismo – o nacionalismo, o autoritarismo, o iliberalismo, o anticomunismo –, eram diferentes. Eram conservadores, religiosos e o seu antiparlamentarismo não era dogmático, mas fundado na experiência histórica da Primeira República. Salazar era um conservador, que não gostava do “viver perigosamente” de Nietzsche e dos fascistas; preferia, como diria a Henri Massis, o “viver habitualmente” de alguns estoicos e da esmagadora parte do povo. Dava-se também que o partido político-institucional de Salazar não era a União Nacional, uma organização que, para ele, tinha só a utilidade instrumental de seleccionar, sob sua aprovação, os candidatos à Assembleia Nacional e à presidência da República.

O Exército e Salazar

O partido único e árbitro constituinte do Estado Novo não era a União Nacional, era o Exército. Por isso o regime caiu pela mão do Exército.

A verdade é que o regime português teve como líder um homem sem partido e que não gostava de partidos, um académico tecnocrata cujas ideias provinham de várias raízes e caudais, mas onde não se vislumbrava o nacionalismo revolucionário fascista, nem o desejo, também fascista, de mobilizar as massas populares na construção de um Estado paratotalitário e social.

O que há em Salazar é um pessimismo antropológico augustiniano, uma visão conservadora e crítica da História e da Vida, com uma hierarquia de valores políticos onde a nação – e o Estado como “nação politicamente organizada” – surgem à cabeça. A sua formação intelectual tem o seu quê de “afrancesado” – Charles Maurras, Gustave le Bon, Maurice Barrès, Paul Bourget – e é inseparável do catolicismo social. Mas baseia-se, acima de tudo, na experiência negativa da Primeira República, das suas fraudes, da sua instabilidade, da sua incoerência entre os princípios proclamados e a política praticada.

Foi esta democracia que os militares do 28 de Maio derrubaram há um século, data que coincidiu com a aparatosa entrada da Polícia Judiciária na sede do Partido Socialista e na detenção de alguns dos seus distintos militantes (totalmente alheios ao partido, dizem-nos, a não ser pelo facto de estarem nele inscritos e de, nessa qualidade, exercerem cargos de confiança).

A cabala

Alguns dirigentes e militantes socialistas viram na incursão policial uma provocação fascisto-salazarista: por que outra razão teria a Judiciária escolhido o 28 de Maio, e logo no ano do centenário do início de “uma das épocas mais negras do nosso país”, senão para enxovalhar o Partido Socialista, ferindo-o na sua sede, santuário anti-fascista por excelência? Só porque militantes contratavam empresas dos seus camaradas para prestar serviços às autarquias onde estavam? E que tinha o Partido que ver com isso?

Não, a Judiciária viera propositadamente ao Largo do Rato com todo o aparato para evocar Gomes da Costa a marchar sobre Lisboa para correr com os Democráticos. E como não ver naqueles polícias PIDES, prontos a conspurcar, sem mandato judicial, um idóneo e idoso lar de antifascistas?

E quanta pequenez! Tanto aparato para dois milhões? O que eram dois milhões, conseguidos em circuito fechado entre companheiros do PS, comparados com os muitos milhões do grande Zapatero, negociados no mercado negro da alta política na China e na Venezuela?

Aqui, onde os verdadeiros fascistas acabaram na oposição

Há cem anos, a maior parte dos regimes iliberais europeus, nascidos de ditaduras militares com recurso ao “estado de excepção”, perante a disfuncionalidade do parlamentarismo liberal e a radicalização das sociedades à esquerda e à direita, tiveram características autoritárias e nacional-conservadoras.  Mas não foram “fascistas”, como tantas vezes são qualificados.

Esta desclassificação não é, insisto, uma forma de tornar os regimes mais benévolos em matéria, por exemplo, de direitos humanos. O nacional conservadorismo húngaro do almirante Horthy foi, em termos de repressão, mais brutal do que o fascismo mussoliniano, até à queda do Duce em Julho de 1943, ao perder a votação no Grande Conselho Fascista. De resto, o fascismo coexistiu com a monarquia dos Sabóia e Mussolini abandonou o poder quando o Rei o demitiu.

Além de um certo folclore de um tempo que era, à esquerda e à direita, de “militarização da política” – nos hinos, nas marchas, nas camisas (negras, castanhas, verdes, azuis ou vermelhas) e nas saudações (do braço ao alto à romana ao punho fechado) – o regime português, apesar de assentar no anti-parlamentarismo e no anti-comunismo, não foi fascista.

Entre 1926 e 1974 houve em Portugal ditadura, censura, repressão, polícia política, anti-parlamentarismo, anti-liberalismo, anti-comunismo? Com certeza que houve. Mas houve fascismo? Não, não houve. Houve uma tentativa fascista ou fascizante, com o nacional sindicalismo de Rolão Preto. E também houve, no “regime fascista”, personalidades verdadeiramente pró-fascistas, como os capitães Henrique Galvão e Humberto Delgado. Acabaram todos na oposição. 

https://observador.pt/opiniao/o-fascismo-nunca-existiu/

Jaime Nogueira Pinto - O 28 de Maio de há um século

Jaime Nogueira Pinto

Indiferentes à agonia de uma República Democrática a que deviam muito pouco, as massas trabalhadoras acabariam colaborar, por acção ou inacção, com os militares da Revolução de Maio.

28 mai. 2026

Há cem anos, deu-se em Portugal um movimento militar por iniciativa de jovens oficiais – capitães e tenentes da guarnição militar de Braga – a que a presença e a voz do general Gomes da Costa emprestaram respeitabilidade institucional. Gomes da Costa foi levado de Lisboa a Braga por um grupo de militares e civis de que faziam parte os tenentes Armando Pinto Correia e João Pereira de Carvalho e os civis Luís Charters de Azevedo e João da Silva, que conduzia o Cadillac.

Braga era a sede da 8ª Divisão do Exército, cujos quadros médios estavam mobilizados para iniciar a revolução. O golpe vinha pouco mais de um ano depois da chamada “revolta dos generais”, que acontecera em Lisboa entre 18 e 21 de Abril de 1925, uma conjura falhada em que tinham participado os generais Gomes da Costa, ex-Comandante do Corpo Expedicionário Português (CEP), e Sinel de Cordes, ex-Chefe de Estado-Maior do CEP na Flandres, apesar de o verdadeiro mentor e alma da revolta ter sido o coronel Raul Esteves.

A República jacobina

Com um record de governos sem precedentes – 45 em 16 anos –, a Primeira República caracterizou-se pela instabilidade e pela quantidade de golpes e confrontos militares. Apesar de ser democrática – ou talvez por isso –, não escapou ao monopólio mais ou menos continuado de uma facção do Partido Republicano Português, a facção jacobina de Afonso Costa, conhecida por “os democráticos”. Costa e os seus copiavam os radicais jacobinos franceses de Émile Combes, que tinham encarnado a política anti-católica em 1905-1906, nacionalizando os bens da Igreja, expulsando as congregações religiosas, usando os jornais para apresentar a Igreja Católica e os fiéis como inimigos da Razão, da Ciência, do Progresso e da Liberdade.

Afonso Costa e os principais dirigentes “democráticos” perseguiram a Igreja e os monárquicos, reprimindo, prendendo e exilando centenas de “inimigos do povo” e fixando-lhes arbitrariamente residência nas colónias. Os jesuítas, como era da praxe, serviram de “bode expiatório” e foram expulsos do país. Bispos e até o cardeal-patriarca de Lisboa, D. António Mendes Belo, foram forçados ao exílio.

Mas a repressão não se ficou pelos conservadores, os da direita. À esquerda, o movimento sindical e os “avançados” também foram perseguidos, as greves reprimidas a tiro pela GNR, os dirigentes enviados administrativamente para o degredo. De certa forma, Afonso Costa e os “democráticos”, apesar do seu posicionamento bem à esquerda, procuraram aparecer como um “centrão” entre extremos, não se inibindo, para tal fim, de usar meios extremistas.

Por isso, além de combaterem as incursões monárquicas de Julho de 1911 e de Julho de 1912, enfrentaram a efémera “ditadura” de Pimenta de Castro, de Janeiro a Maio de 1915. Em Dezembro de 1917, veio o bem-sucedido golpe militar de Sidónio Pais, o “presidente-rei” de Fernando Pessoa que, como D. Carlos, foi assassinado, confirmando uma prática enraizada na esquerda portuguesa: o recurso a formas superiores de luta em caso de necessidade.

A seguir ao sidonismo veio a monarquia do Norte, contra a qual se reuniram “democráticos” e “avançados” pela última vez. Em Outubro de 1921, depois da queda do governo de António Granjo, deu-se a tenebrosa Noite Sangrenta (19-20 de Outubro de 1921); a noite em que, à soviética, os guardas republicanos e os marinheiros em revolta assassinaram republicanos conservadores ou contrários aos “democráticos”, entre eles o próprio Granjo e o herói do 5 de Outubro, Machado Santos.

O Zeitgeist europeu

Dera-se, entretanto, a revolução soviética e, por toda a Europa, o medo do comunismo trouxe uma série de movimentos iliberais de contenção do radicalismo violento da esquerda. A maioria destes movimentos, quer na Europa Oriental, quer em Espanha, foram de natureza nacionalista e conservadora. A excepção foi o fascismo italiano, que chegou ao poder em Outubro de 1922 como expressão de uma “direita revolucionária”, corporativa, intervencionista e monopartidária. A maioria dos movimentos autoritários, embora partilhando com os fascistas o nacionalismo, o anti-parlamentarismo e o anticomunismo, tinham na base militares, como Primo de Rivera em Espanha, o almirante Horthy na Hungria e o general Pilsudski na Polónia, que ali tomou o poder em meados de Maio de 1926, dias antes do 28 de Maio.

Em Portugal também foi assim: o 28 de Maio partiu de Braga contra “uma minoria devassa e tirânica” – como diria Gomes da Costa no seu manifesto à Nação. Era a classe política, os “democráticos” que, na falta de Afonso Costa, que ficara por Paris depois da guerra, eram dirigidos por António Maria da Silva, engenheiro de Minas pela Escola do Exército, e dirigente da Alta Venda Carbonária, organização secreta fundada por Luz de Almeida e muito importante no activismo anti-monárquico.

A tripartição fatal

Os anos finais da República tinham sido de contínua agitação (mais de 150 greves, mais de 300 bombas em Lisboa), com três forças políticas em luta – a oposição conservadora católica, monárquica e nacionalista, o poder republicano dos “democráticos” e a nascente esquerda radical, os “avançados”, “vermelhos” ou “comunistas”. O partido comunista foi fundado em 6 de Março de 1921, dois anos depois da criação da III Internacional dos bolcheviques. Ao contrário do que acontecia em França e em Itália, em Portugal os comunistas não vinham de uma dissidência socialista, mas do meio anarco-socialista operário. Como escreve Pacheco Pereira, o PCP inicial era um “partido de caixeiros, arsenalistas, funcionários públicos, alfaiates e ferroviários”.

Mas o PCP era então, e iria ser até ao fim da URSS, um partido obediente a Moscovo e ao internacionalismo proletário. Assim, as notícias do progressivo centralismo soviético e da liquidação, na Rússia, dos militantes anarquistas pela “troika” Estaline, Zinoviev e Kamenev, da mesma forma brutal usada contra os “brancos”, os “burgueses” e os “inimigos do povo”, levariam a uma forte desconfiança no movimento operário português em relação aos comunistas.

De qualquer modo, as massas trabalhadoras vão ser indiferentes à agonia da República Democrática, o fim de um regime que piorara a situação económica do país, não alargara, antes restringira, o sufrágio e mantivera o analfabetismo nos 70%. Por isso, vão tolerar ou mesmo colaborar com os militares revoltados – não houve qualquer sabotagem dos ferroviários aos comboios que transportaram os cerca de 15.000 homens das divisões sublevadas até Sacavém para o desfile da vitória de Gomes da Costa, do Campo Grande aos Restauradores, em 6 de Janeiro de 1926.

O partido (militar) do Estado Novo

É neste acampamento de Sacavém que vão funcionar, por algum tempo, os “sovietes” de tenentes e capitães que, numa antecipação do Movimento das Forças Armadas de 1974, dominaram a primeira fase da ditadura militar.  E que vão purgando os chefes: primeiro, Mendes Cabeçadas, o marinheiro anti-“democráticos”, herói do 5 de Outubro; depois, Gomes da Costa, exilado para os Açores em 11 de Julho, com a família. Vão ficar Carmona – oficial diplomata, prudente, mais de salão do que do terreno – e Sinel de Cordes, éminence grise que, apesar dos esforços, não vai conseguir resolver o problema central do governo: a crise financeira.

Como em todos os governos da direita iliberal europeia, o congelamento das instituições parlamentares viera a par do apelo às “competências técnicas” fora da política. Foi perante a paralisia institucional, a instabilidade do parlamentarismo e o perigo que vinha da Eurásia bolchevique que há um século, nesses outros anos vinte, metade da Europa recorreu à “ditadura comissarial”, em estado de excepção.

Aqui a diferença foi o tecnocrata das Finanças, que além das “competências técnicas” requeridas, tinha pensamento e valores políticos e estava disposto a aplicar-se, com inteligência, vontade e realismo, na estabilização e reforma do país. E fê-lo num contrato implícito com o Exército, que seria o poder constituinte do seu consulado. O Estado Novo vai ser, à sua imagem, um Estado de ordem, nacional-conservador e autoritário, que proíbe os partidos políticos, institui a censura prévia e mantém uma polícia política.

A esquerda unida e o centrão querem hoje convencer-nos, em estudos orientados e filmes encomendados e subsidiados, que o Estado Novo foi só isso: Salazar, a PIDE, a Censura, o Tarrafal; e que as obras públicas, a segunda industrialização e a modernização, ou não aconteceram ou foram conquistas de Abril. Que Salazar manteve Portugal fora da Segunda Guerra Mundial e reduziu drasticamente o analfabetismo (em 1940, pela primeira vez em Portugal, havia mais gente que sabia ler e escrever do que analfabetos), apesar de serem factos inegáveis, tendem a chumbar nos actuais polígrafos.

Nos anos 50 – não porque fosse, como os primeiros republicanos, um “africanista” ou um “colonial” –, Salazar não seguiu a vaga descolonizadora europeia. Entendia que o império ultramarino era essencial para independência e para importância política de Portugal. Tal levou a que o poder militar se viesse a sublevar – primeiro numa revolta de generais, em Abril de 1961, que Salazar foi capaz de desmontar e vencer; depois, já com o seu sucessor, numa revolta de capitães, em Abril de 1974.

Salazar criara um regime à sua medida, que funcionava, essencialmente, com ele e só com ele, com a sua inteligência e, sobretudo, com a sua vontade e decisão. Um regime que não sobreviveria nem a um tempo em que já se esvaíra a memória da “balbúrdia sanguinolenta” que levara ao 28 de Maio, à ditadura militar e depois ao Estado Novo, nem ao seu sucessor, a quem não faltava a inteligência, mas a quem faltaram o tempo e o modo – a conjuntura, a vontade e a decisão.

https://observador.pt/opiniao/o-28-de-maio-de-ha-um-seculo/

sábado, 23 de maio de 2026

Gonçalo Portocarrero de Almada - Assim se vê como é o PCP!


* Gonçalo Portocarrero de Almada 

Um partido ao serviço do imperialismo da ex-URSS; cúmplice da ditadura em Cuba; e que não reconhece a liberdade de pensamento e de expressão.

23 mai. 2026c

Anda meio mundo zangado com o Partido Comunista Português (PCP), por três intervenções políticas em âmbito parlamentar (ou, melhor dizendo, para lamentar …). Com efeito, este partido, cuja representação na Assembleia da República está agora reduzida a uma troïka, protagonizou três polémicas intervenções. A saber: por ocasião da recente visita do presidente do Parlamento ucraniano a Portugal; a propósito da caracterização política do regime de Cuba; e na sequência do recente falecimento de um seu líder histórico, que presidiu ao seu grupo parlamentar e foi seu candidato à presidência da República. Não obstante a multitudinária desaprovação do modo como os comunistas portugueses reagiram a estes factos recentes, o PCP está de parabéns.

A título de declaração de interesses, devo esclarecer que sempre fui contrário à ideologia do PCP, por tradição familiar, pela educação recebida e pelo meu modo de ser independente e, portanto, incapaz de fazer parte de uma organização de pensamento único. Subscrevo os princípios humanistas e democráticos que aquele partido, com exemplar coerência, sempre repudiou. Graças à minha fé cristã, absolutamente oposta ao ideário comunista, também não posso ter, como é óbvio, nenhuma afinidade com o PCP.

Quando era liceal e jovem militante da juventude do então Partido Popular Democrático (PPD), participei activamente na vida política do Liceu Pedro Nunes, tendo concorrido, em lista com outros colegas da JSD, para o seu conselho de gestão. Depois, por exigência da minha formação universitária, fui para o estrangeiro e abandonei, por completo, a militância partidária. Com a ordenação sacerdotal, abdiquei também de qualquer actuação política, mas sem desistir da intervenção cívica como cidadão, sobretudo em defesa da vida, da dignidade e da liberdade humanas, segundo os princípios da Doutrina Social da Igreja e com total independência de todos os partidos políticos.

O primeiro caso parlamentar recente relativo ao PCP ocorreu quando, no passado dia 6, o presidente da Assembleia da República recebeu o seu homólogo ucraniano. Os deputados comunistas fizeram questão de se ausentar da sala do plenário na sessão de boas-vindas, alegando que “Ruslan Stefanchuk é presidente de um parlamento antidemocrático que é expressão de um poder suportado por forças xenófobas, belicistas, fascizantes e nazis.” Este pretexto não releva os deputados do PCP da indelicadeza da sua atitude, que ofende a dignidade da Assembleia da República e de Portugal, na medida em que esse órgão de soberania representa o povo português.

Tem o seu quê de contraditório, ou de anedótico, que o PCP proteste pelo facto de o Parlamento ucraniano não ser democrático, pois não há nenhum regime comunista que tenha um parlamento eleito livre e democraticamente. Por outro lado, mesmo que o Parlamento ucraniano fosse, como dizem, “suportado por forças xenófobas, belicistas, fascizantes e nazis”, mais belicista é, com toda a certeza, o Estado que invadiu a Ucrânia, que se limitou a reagir em legítima defesa. Por último, é muito infeliz a referência ao suposto carácter “nazi” dos dirigentes ucranianos, pois foi a URSS que pactuou, pelo ignominioso tratado Ribbentrop-Molotov, com o regime nacional-socialista de Hitler, acordando, a 23-8-1939, a invasão e partilha, por nazis e comunistas, da inocente e martirizada Polónia.

O segundo caso respeita à situação de Cuba. Num despacho de 8 de Maio, a Agência Lusa noticiou: “O PCP agendou para hoje um debate sobre a situação política e social de Cuba, que atravessa uma grave crise económica e social, acentuada nos últimos meses pelo bloqueio petrolífero imposto pela administração norte-americana de Donald Trump, que ameaça uma ação militar contra a ilha. O projeto de resolução comunista, que condenava a ‘escalada de agressão e de ameaças dos EUA contra Cuba’ e propunha a ‘exigência do respeito da soberania e dos direitos do povo cubano’ foi chumbado, tal como uma iniciativa do Bloco de Esquerda ‘sobre a crise humanitária em Cuba e a necessidade de Portugal assumir uma posição activa pelo fim das sanções unilaterais e pela proteção da população civil cubana’.”

É significativo que o regime comunista cubano, depois de sessenta e sete anos de revolução, não consiga garantir ao seu povo condições mínimas de sobrevivência. Em nome do bem-estar da população, o comunismo defende e pratica a supressão das liberdades políticas dos cidadãos, impondo um regime ditatorial que, em princípio, deveria resultar numa sociedade justa e igualitária. Não se conhece, contudo, nenhum país que, tendo feito esta experiência, tenha conseguido sequer chegar a uma situação minimamente eficiente em termos socioeconómicos. Ajudar a população cubana não passa, pois, por financiar o regime que a oprime, mas pela aposta na sua reforma política, que se espera que possa acontecer quanto antes, se possível por meios pacíficos e sem intervenção estrangeira. Qualquer apoio prestado ao regime comunista cubano traduz-se, necessariamente, em cumplicidade com o vigente sistema repressivo.

Como era expectável, “o projeto de resolução comunista (…) foi chumbado (…). Por outro lado, os deputados aprovaram em plenário resoluções do Chega, a recomendar ao Governo ‘que realize todos os esforços políticos e diplomáticos no sentido de pressionar o regime cubano e conduzir à plena democratização da República de Cuba’; da Iniciativa Liberal, a propor ao executivo que ‘defenda o povo cubano e promova o respeito pelos direitos, liberdades e garantias fundamentais em Cuba’, e do CDS-PP, ‘em defesa do povo cubano contra a tirania do regime comunista’.”

Em terceiro lugar, foi deplorável a atitude do PCP em relação a um seu líder histórico, cuja memória nem sequer respeitou por ocasião da sua morte, a 7 de Maio passado. Felizmente, o voto de pesar, por unanimidade, da Assembleia da Republica, prestou-lhe a homenagem de que o partido em que militou tantos anos não foi capaz.

Apesar de estas três atitudes deploráveis do PCP, por curiosa coincidência ocorridas nos dias 6, 7 e 8 de Maio de 2026, o partido está de parabéns porque, se fosse a favor da Ucrânia, defendesse a democracia em Cuba, e lamentasse o falecimento de um seu líder histórico, não obstante a sua divergência política, poder-se-ia pensar que é um partido anti-imperialista, democrático e humanista quando, pelo contrário, continua a ser o que sempre foi. Com efeito, é uma força política ao serviço do imperialismo da ex-URSS, pois a sua líder parlamentar teve até a infelicidade de declarar, na Assembleia da República, que “a União Soviética, infelizmente que há muitos anos terminou, infelizmente porque de facto foram anos extraordinários para o povo”. É também um partido cúmplice da ditadura cubana e que não reconhece a liberdade de pensamento e de expressão. Graças a estas suas tão desastradas intervenções, o PCP afirma, de forma inequívoca, o que sempre foi e é e, por isso, está de parabéns. Em formato de slogan, que não destoaria na festa do Avante!, poder-se-ia dizer que assim se vê como é o PCP!

 https://observador.pt/opiniao/assim-se-ve-como-e-o-pcp/ 

quinta-feira, 14 de maio de 2026

Jaime Nogueira Pinto - A Idade da Reforma e o reformismo

* Jaime Nogueira Pinto

A proposta de André Ventura não é necessariamente “de esquerda” ou “socialista”. Dizê-lo é ignorar ou desprezar a existência, à direita, de toda uma tradição social e reformista

14 mai. 2026, 

A Esquerda rejubilou perante as críticas quase unânimes, varrendo todo o espectro político, ao líder que nem há um mês enlameava a memória do “dia inicial inteiro e limpo” em plena “Casa da Democracia”. Como é que o inimigo número 1 da lusa “democraticidade”, o “caluniador de Abril”, se atrevia a propor que se antecipasse a idade da reforma? Além de usurpar uma “medida de esquerda”, a proposta era irrealizável e indesejável no actual contexto.  Mais para o centro e para o centro-direita, e também com natural júbilo, sublinhou-se, implicitamente, o suposto monopólio da “questão social” por parte da Esquerda: afinal Ventura e o Chega não passavam de “socialistas encobertos”.

Independentemente da viabilidade, conveniência e oportunidade da proposta ou da reivindicação, de resto, notoriamente inviável, inconveniente e inoportuna (a não ser que a oportunidade fosse amalgamar governo e oposição num qualquer “todos contra um”), há aqui muita confusão na admissão, errada de base, de que o que separa a Esquerda e a Direita é, sobretudo, a Economia. Como que numa eterna Guerra Fria, a Direita seria sempre pelo mercado e respectiva “mão invisível” e a Esquerda sempre pelo Estado e respectivas preocupações sociais.

Nada mais falso, quer em termos históricos, de História das Ideias e categorias político-económicas, quer em relação aos actuais alinhamentos político-partidários na Europa e na América.

Para os conceitos de Esquerda e Direita temos a arrumação inaugural, na Assembleia Constituinte francesa, no princípio da Revolução – os partidários do veto real arrumaram-se à direita, os adversários à esquerda. Ou seja, nesta oposição inicial, uns eram conservadores, outros progressistas; uns partidários da Religião e da Monarquia tradicional, outros partidários da laicização e da monarquia limitada.

A Questão Social – Marx, Bismarck, Leão XIII

Na primeira metade do século XIX, os partidários da laicização e da monarquia limitada acabaram por vencer. Foi também nesses princípios do século XIX que despontou a chamada questão social, com a industrialização nas grandes cidades de Inglaterra, da futura Alemanha e de França a arrastarem centenas de milhares de famílias, até aí rústicas, para o proletariado urbano. Foi desse proletariado urbano, com ele e por causa dele, que nasceu a “Questão Social”. Marx e Engels, no Manifesto Comunista, dissecaram essa realidade e apresentaram as suas soluções.

Com o Manifesto e a continuação da obra de Marx e Engels, foi estabelecida, então, a doutrina socialista. Em linhas gerais, e em primeiro lugar, era uma doutrina materialista, assente no materialismo histórico e “científico”, convicção primeira dos redactores do Manifesto que também integravam ali o contributo de Ludwig Feuerbach.

A ideia primeira e principal era, pois, a de que a realidade humana era apenas a que podia ser sentida e apreendida pelos cinco sentidos. O resto não existia. A segunda, era a de que a Economia era senhora do mundo e condicionava tudo, da política às artes e à vida social e cultural. A terceira, era a de que a Economia determinava a existência de duas classes – a Burguesia e o Proletariado. E a quarta era que essas duas classes eram inimigas irredutíveis, num conflito de sempre, mas que tendia a agudizar-se, indicando “a marcha da História” que, no final feliz dessa história e da História, o Proletariado sairia vencedor da luta.

As ideias socialistas, ao longo do século XIX, foram-se espalhando pela Europa e pelas Américas, com maior ou menor sucesso. Além do “socialismo científico” de Marx-Engels, havia uma colecção de socialismos utópicos. Mais tarde, surgia a social-democracia, que recusava o lado violento da luta de classes e sustentava a luta operária dentro das regras da democracia liberal. O raciocínio era elementar: a luta de classes era desnecessária porque, com o alargamento do sufrágio, a tendência seria para a vitória final das maiorias proletárias sobre as minorias burguesas – e sem derramamento de sangue.

Mas ao mesmo tempo que, na Esquerda política, emergiam estas correntes, surgia, no campo cristão e católico, um pensamento social alternativo, que, em nome de ideais de justiça e redistribuição da riqueza, combatia, também, o liberalismo capitalista. Ideais eminentemente cristãos que, de resto, e depois de devidamente extirpados de transcendência, eram a óbvia inspiração das utopias materialistas da Esquerda. Veio daí o pensamento social da Igreja Católica, que depois das preocupações de Lamennais – e, mais tarde, logo a seguir ao episódio sangrento da Comuna de Paris (1870-1871) –, daria origem, com Albert de Mun, Maurice Maignen e René de La Tour du Pin, aos Círculos Operários Católicos.

Também, na área nacional conservadora, o chanceler Bismarck, na Alemanha reunificada e industrializada, negociaria com os nascentes sindicatos e com os dirigentes socialistas um pacto que daria origem às primeiras instituições europeias de segurança social. Na Alemanha de Bismarck, a lei dos seguros de doença (1883), a lei dos acidentes de trabalho (1884) e as leis sobre os seguros de velhice e invalidez (1889) passariam a aplicar-se aos trabalhadores industriais e agrícolas.

E em 1891, Leão XIII publicava a Encíclica Rerum Novarum, que tornava doutrina oficial da Igreja Católica o repúdio dos excessos, tanto do capitalismo liberal como do socialismo marxista, defendendo uma terceira via que aplicava conceitos éticos aos mecanismos dos mercados e instituía bases morais de legitimação da intervenção institucional para a justiça social, em liberdade e fora do socialismo.

São exemplos de pioneirismo social, vindos da direita nacional-conservadora, na Alemanha de Bismarck, e da direita católico-social, na França do século XIX e na Santa Sé, com os papas sociais.

A direita revolucionária

Outra linha de reformismo social, com outras origens, encontramo-la na radicalidade social de base estatal da direita revolucionária, com o fascismo italiano e o falangismo ou nacional-sindicalismo espanhol. Do mesmo modo que promoveram políticas intervencionistas e de nacionalismo e proteccionismo industrial, estas direitas autoritárias deram expressão ao chamado “fascismo de sinistra” ou “fascismo de esquerda” no mundo do trabalho, representado por Giuseppe Bottai e Ugo Spirito, ou por escritores como Elio Vittorini que, depois da guerra civil espanhola, se tornou antifascista. O empenho social reformista da Falange espanhola nacional-sindicalista, fundada por José António Primo de Rivera, ficava também bem evidente na trilogia “Patria, Pan e Justicia”.

Haveria muito mais exemplos da tradição social das direitas, quer na direita católica e intervencionista, quer nas “direitas revolucionárias” (como a introdução das primeiras férias pagas na Itália de Mussolini pela Carta del Lavoro de 1927, inovação falsamente atribuída à Frente Popular francesa em 1936). Ou seja, ao contrário do que nos querem fazer crer, por táctica ou ignorância, a Esquerda não tem o monopólio da preocupação e da acção social.

A idade da reforma

Em resumo, a proposta de antecipação da idade de reforma de André Ventura não é necessariamente “de esquerda” ou uma cedência à Esquerda, como alguns críticos afirmaram ou insinuaram. O problema da proposta é a sua desadequação ao caso português e às tendências dominantes no sector de trabalho, em Portugal e na Europa.

Deixar à Esquerda o monopólio da intervenção e da justiça no trabalho, monopólio que notoriamente não lhe pertence, é desconhecer a História ou ceder ao interessado e manipulado discurso dominante.

Afinal, é hoje com o voto do que resta das classes trabalhadoras da Europa e da América do Norte, cujas lutas e direitos foram abandonados pelas esquerdas em favor de minorias mais coloridas, que os partidos da direita nacional e popular têm vindo a crescer e a ganhar eleições.

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domingo, 22 de março de 2026

Jaime Nogueira Pinto - O estreito de Ormuz: dos capitães da Índia aos capitães de Abril

Jaime Nogueira Pinto 

Nestes dias em que tanto se fala do estreito de Ormuz, talvez valha a pena lembrar esses obscuros princípios do século XVI em que Portugal se iniciava na conquista e na opressão além-fronteiras.

21 mar. 2026

Os portugueses de hoje, criados nas alegrias da democracia e do progresso que lhes trouxe Abril, são capazes de ter alguma dificuldade em conceber esse outro país que Portugal já foi. Mais, confrontados com a liberalidade e a democraticidade dos políticos, pode até parecer-lhes impensável, quando não impossível, a resistência a Castela no século XIV e a conquista do império do Oriente no século XVI, protagonizadas por homens tão iliberais e tão pouco inclusivos como Nun’Álvares ou Afonso de Albuquerque.

Por isso, nestes dias em que, a propósito da nova guerra do Irão, tanto se fala de Ormuz e do estreito de Ormuz, talvez valha a pena lembrar esses obscuros princípios do século XVI em que um Portugal oprimido pelo autoritarismo monárquico e católico, talvez para desviar as atenções de problemas internos (ou para os resolver), se iniciava na opressão além-fronteiras a que alguns saudosistas ousam chamar epopeia de navegação e conquista.

As chaves dos mares

D. Manuel I, o venturoso e feliz herdeiro do Príncipe Perfeito, coordenou uma política de expansão no Índico que tinha como linha de rumo a conquista das chaves daquele Oceano, por onde passava o precioso e estratégico tráfico das especiarias. E essas chaves eram Ormuz, Ádem, Goa e Malaca.

Em Abril de 1506, saiu de Lisboa para a Índia uma armada de dezasseis navios, onze sob o comando de Tristão da Cunha (que capitaneava toda a expedição) e cinco sob o comando de Afonso de Albuquerque. Albuquerque já passava dos cinquenta anos. Nascera em 1453, fora próximo de D. João II e combatera no Norte de África. Ao que parece, D. Manuel não o estimava muito e Albuquerque e Tristão da Cunha não primavam pelo entendimento. Mas a longa viagem foi correndo: passaram o Cabo da Boa Esperança e seguiram com combates, ataques e saques de cidades da costa oriental africana; depois, já no Índico, a sul da península arábica, tomaram a ilha de Socotra ou Socotorá.

A partir daí, Tristão da Cunha rumou para a Índia e Albuquerque, com seis navios e quatrocentos e cinquenta homens, decidiu conquistar Ormuz. A cidade de Ormuz dominava as ilhas do Golfo Pérsico e a costa de Omã. Albuquerque deixou Socotra a 10 de Agosto e, levando a bordo pilotos árabes, conhecedores dos mares e terras da região, foi tomando posições – Calayate, Curiate, Mascate – e avançou para Ormuz. Pelo meio, teve conselhos de guerra difíceis com os seus capitães, que exprimiam dúvidas e receios perante a sua audácia e preferiam esperar e pilhar os barcos dos peregrinos de Meca. A cena repetiu-se em Ormuz, quando Albuquerque exigiu ao regente, Khodja-Atar, que prestasse vassalagem ao rei de Portugal.

Começaram as negociações, mas o capitão português, entendendo que os de Ormuz esperavam reforços da costa e procuravam ganhar tempo, ordenou aos comandantes da frota portuguesa que abrissem fogo sobre os navios inimigos parados no porto. Ao mesmo tempo, ordenou o desembarque, enquanto, das naus portuguesas, a artilharia flagelava a cidade e os barcos adversários. Khodja-Atar não tardou em pedir uma trégua para negociar.

Nas negociações, pelo lado dos locais, falou o primeiro-ministro Seif-ed-Din, que aceitou, a troco da paz, pagar ao rei de Portugal, anualmente, “quinze mil xerafins de ouro”. Além disso, devia desembolsar imediatamente uma quantia de cinco mil xerafins para as despesas da esquadra portuguesa e, mais importante, permitir que os portugueses edificassem na ilha uma fortaleza. Prontamente, contra as objecções dos seus capitães e dos chefes muçulmanos, Albuquerque iniciou a construção da fortaleza de Nossa Senhora da Conceição de Ormuz, que levaria trinta anos a ser concluída (ficaríamos em Ormuz até a perdemos para os ingleses, em 1622).

Albuquerque abandonou então Ormuz, onde só voltaria em 1515, no seu último ano de vida. Seria, entretanto, nomeado governador da Índia por D. Manuel I em 1509; em 1510 conquistaria Goa e, em 1511, Malaca.

Com estas três praças, assegurara posições terrestres a partir das quais os portugueses dominariam o comércio do Índico até ao fim do século XVI.

Para fechar o controlo português, apenas lhe faltava Adem, uma cidade-Estado à entrada do Mar Vermelho, que, uma vez conquistada, acabaria com o comércio dos mamelucos com Veneza.

A frota portuguesa partiu de Goa em 18 de Fevereiro de 1513. Eram vinte navios, com 1700 marinheiros e soldados portugueses e 800 aliados malabares. Fizeram uma paragem em Socotra e, a 26 de Março, Domingo de Páscoa, atacaram Adem. Mas na escalada das muralhas, as escadas partiram-se sob o peso dos atacantes e o ataque foi repelido; um segundo ataque também falhou, e assim se gorou o ambicioso plano do “Leão dos Mares” de fechar, para a Coroa portuguesa, as portas e chaves do Índico.

Rezam as crónicas que as escadas  cederam à precipitação dos oficiais e soldados portugueses, todos querendo ser os primeiros no perigo e na glória.

Ocupando Goa e Diu, os portugueses dominavam parte importante da Índia; com Malaca, vigiavam a passagem do Índico para o Pacífico; controlando Ormuz, dominavam a circulação no Golfo Pérsico; com Adem, ficariam também senhores da entrada e circulação do Mar Vermelho e do caminho de Meca.

A narrativa destes sucessos ficou nas Décadas da Ásia, de João de Barros, e nos Comentários, de Braz de Albuquerque, filho de Afonso de Albuquerque.

Camões, o profeta

Além do comércio da pimenta e do controle dos recursos, D. Manuel e Albuquerque pensavam em termos de nova cruzada, de “mudança de regime”, dir-se-ia hoje. Roger Crowley voltou a lembrar-nos isso, recordando a importância das referências ao rei cristão perdido no Nordeste de África, o Preste João.

Camões, na estrofe 40 do Canto X de Os Lusíadas, celebra os feitos do governador, pela voz da ninfa Thétis:

«Esta luz é do fogo e das luzentes
Armas com que Albuquerque irá amansando
De Ormuz os Párseos, por seu mal valentes
Que refusam o jugo honroso e brando
Ali verão as setas estridentes
Reciprocar-se, a ponta no ar virando
Contra quem as tirou; que Deus peleja
Por quem estende a fé da Madre Igreja.»

Nas estrofes seguintes, continuam os louvores a Albuquerque, mas, a partir da estrofe 45, Camões censura o grande capitão pela severidade com que pune com a morte um dos seus subordinados por um delito sexual menor. E segue com a narrativa de outros governadores e capitães da Índia.

A ninfa leva então o Gama ao cume de um monte na Ilha dos Amores e mostra-lhe a “máquina do mundo”, a terra com os seus reinos, os seus mares, os seus povos, correndo e percorrendo todos os continentes. No final, o poeta dirige-se a D. Sebastião, incitando-o a seguir o exemplo dos heróis portugueses, praticando grandes feitos:

«De sorte em que Alexandre em vós se veja
Sem à dita de Aquiles ter inveja!»

Alexandre conquistou o mundo, mas morreu novo, aos 33 anos. Aquiles também fez grandes coisas, mas teve azar com a flecha de Páris, o filho de Príamo, causador da desgraça de Troia, pelo rapto da bela Helena.

O poeta aqui foi também profeta: D. Sebastião ia perder-se no nevoeiro aos 24 anos.

…E Portugal, teria de esperar que raiasse Abril para ver raiar a Democracia e poder, enfim, realizar grandes feitos.

 https://observador.pt/opiniao/o-estreito-de-ormuz-dos-capitaes-da-india-aos-capitaes-de-abril/

sábado, 31 de janeiro de 2026

Vasco Rosa - "Uma Ode à Tipografia"


A tipomania está viva e recomenda-se     

ª Vasco Rosa, Texto

"Uma Ode à Tipografia" é o título de um livro que, assim mesmo, desde a capa, explica ao que vem: uma coleção de trabalhos que servem também de homenagem a uma arte feita de estética e técnica.

 

31 jan. 2026


"Uma Ode à Tipografia. A partir do poema de Pablo Neruda" surge como demonstração da atividade desenvolvida numa antiga tipografia de Coimbra e da disponibilidade do seu proprietário para acolher curiosos por velhos métodos de compor e imprimir

"Uma Ode à Tipografia. A partir do poema de Pablo Neruda" surge como demonstração da atividade desenvolvida numa antiga tipografia de Coimbra e da disponibilidade do seu proprietário para acolher curiosos por velhos métodos de compor e imprimir

A velhinha tipografia de tipos móveis — arrumada nos pesados gavetões do antigamente, letras de madeira e chumbo, máquinas cromadas dum mundo de quase fantasia e dedos sujos de tinta negra — tem sido reavivada por coletivos de artistas, dando vivaz nota contemporânea ao que parecia condenado ao esquecimento e ao museu. Em décadas, a exponencial capacidade digital concentrou nos ecrãs — com espantosas, já indispensáveis facilidades de acerto e retificação final, e para mais à distância, com o conforto inerente — o que por séculos se fez por aproximações e experimentações em oficinas portuguesas com escasso e pobre reportório de tipos, quase  sempre já deformados pelo uso, não permitindo a editoras ou museus produzir obras limpas que hoje dê gosto folhear de novo. O parque tipográfico em Portugal, constituído por pequenas empresas “para todo o serviço”, modesto como o estatuto industrial do país — raríssimas dispunham do excelente sistema Monotype —, nada teve que o distinguisse ao longo do século passado e assim foi desaparecendo, natural e irremediavelmente, sem estrondo que se ouvisse, com os seus proprietários.

Pouco ou quase nada já resta para desempenhos laboratoriais e experimentais associados a cursos politécnicos das artes visuais, pelo que as “interpretações gráficas” levadas a cabo durante cinco anos por “oficinas” do Clube dos Tipos na casa Damasceno, de Coimbra (2014-19) — que este livro agrega e divulga — são tão inesperadas quanto representativas da crescente curiosidade estética e técnica pela composição e impressão tal como faziam avós e bisavós. Porém, é quase só nostalgia, uma pérola de nostalgia diante de um mundo tecnológico que mudou as artes gráficas para infinitamente melhor. O apreço por este trabalho manual tem — do meu ponto de vista — propósito e alcance idênticos ao que mobiliza quem hoje descobre a arte e o prazer da marcenaria, da cestaria, da olaria ou da jardinagem, entre outros ofícios antigos, porém este revivalismo tipográfico (oficinal e feito, repito, sobre bases degradadas e pobres, e por isso de efeito assaz limitado, como esta voluntariosa Ode testemunha) distraiu-se do enorme benefício que, em contraponto, seria qualificar visualmente — e bem necessitados estão! — a generalidade dos letreiros e papéis do comércio de rua e bairro, e das pequenas empresas de todo o tipo, repercutindo e reinventando de algum modo a beleza tipográfica das urbes dos primórdios de 1900.


Título: “Uma Ode à Tipografia. A partir do poema de Pablo Neruda”
Textos: Joana Monteiro, Isabel Campante e Frederico Füllgraf 

Editora: Editora dos Tipos 
Páginas: 176 

Para que assim fosse, ou pudesse ser, falta-nos quase tudo, a começar por uma literatura da especialidade, largamente divulgada e lida, como a revista norte-americana Eye (que julgo só acessível à leitura pública na Biblioteca de Arte da Fundação Calouste Gulbenkian). Não consta que o magnífico Imprimere. Arte e processo nos 250 anos da Imprensa Nacional, de Rúben Dias e Sofia Meira (2018), seja muito conhecido, enquanto Três Movimentos da Letra: o desenho da escrita em Portugal, de Jorge dos Reis, uma obra de referência editada pela Biblioteca Nacional em 2012, e Hands—on Type. Learning from Letterpress Heritage (organizado pela dupla Dias e Meira, Esad—ideia, Matosinhos, 2022, 220 pp.) estão esgotados e não se vê que voltem a imprimir-se. O mesmo para edições da Oficina do Cego (Associação de Artes Gráficas), em Lisboa, como Pequeno Manual do Compositor, de João Sebastian, cujos 50 exemplares tirados foram certamente poucos. João Bicker, que na Almedina dinamizou alguma bibliografia sobre tipos e tipógrafos, no que foi um verdadeiro pioneiro, não prosseguiu essa campanha solitária mas fundamental de criar uma cultura do ofício.

Uma Ode à Tipografia. A partir do poema de Pablo Neruda surge claramente neste contexto, como demonstração da atividade desenvolvida numa antiga tipografia de Coimbra e da disponibilidade do seu proprietário para acolher curiosos por velhos métodos de compor e imprimir: “artistas, ilustradores, designers, arquitetos, estudantes, professores, papeleiros, tipógrafos, editores” (p. 153), uma “comunidade” erguida naquele “ponto de encontro entre tradição e experimentação”, e como tal elogiada (“tão valiosa e rara nos tempos modernos”). Um longo, belo poema do chileno Pablo Neruda, de elogio da tipografia — à letra: a escrita em tipo —, impresso em 1956 com intervenção estética do autor, serviu de gatilho ou mote para os exercícios oficinais, e a escolha é justificada, como se comprova quer no original e tradução do poema, quer no texto do tradutor Frederico Füllgraf, germano-brasileiro de Curitiba, que nos esclarece sobre “o convívio de Neruda com o tipógrafo, ilustrador, artista gráfico e designer de origem judaico romena Maurício Amster Cats [1907-80], tido como o melhor designer de livros do Chile entre as décadas de 1940 e 1970” (p. 161), e — máxima excentricidade — com João Nascimento e seu sobrinho Carlos-George Nascimento, açorianos da ilha do Corvo transplantados para Santiago em 1866 e 1905, respetivamente, uma relação celebrada em 2017 na British Library, pelo centenário da histórica Editorial Nascimento.

Neruda refere-se a “metálicos martelos do idioma”, à tipografia como “o florido jogo da razão, o movimento do cerzir da inteligência”, ao “linotipista sua lâmpada como um piloto sobre as ondas da linguagem”, ao “húmus secreto dos séculos”, e a sua Ode está recheada de outras evocações, como “pureza de teus puros perfis”, “iniciais frescas do orvalho” ou “a letra escarlate do estio”. Para a política e a sensualidade do nobel autor, as gavetas da Damasceno e a criatividade dos coletivos do Clube dos Tipos deram certamente tudo o que tinham, porém fica-se com a impressão de que mais longe se teria ido caso os recursos oficinais fossem mais variados e de melhor qualidade. Proclamar que o importante é o processo e não o resultado convencerá decerto alguns, porém não todos.

A primeira apresentação pública de “Uma Ode à Tipografia” terá lugar no sábado, dia 31 de janeiro, às 17h, no Círculo de Artes Plásticas de Coimbra – Círculo Sereia, na Casa Municipal da Cultura de Coimbra. Entrada livre.

Jaime Nogueira Pinto - Uma escolha política

* Jaime  Nogueira Pinto

O duelo político, com a tragédia dos anti-fascistas tremendo perante o Dies Irae venturiano, quer agora transformar-se na escolha aparentemente apolítica do candidato com o perfil mais presidenciável.

31 jan. 2026

No Domingo, 8 de Fevereiro, a escolha, agora pintalgada como meramente protocolar, não-ideológica e “moral”, vai ser particularmente consequente e política.

E Ventura, que há meia dúzia de anos surgiu como “o Perturbador” daquilo a que começou logo por chamar “o sistema”, está no centro da escolha e da perturbação, gerando uma coligação negativa, cuja amplitude seria então difícil de imaginar.

 Ora esta polarização não se passa só em Portugal. Depois do fim da União Soviética e do sonho globalista do comunismo, veio um globalismo plutocrático alternativo e, com ele, a deslocalização e desindustrialização de muitos países da Euro-América. Na Europa, esse globalismo tomou a forma de federalismo europeu, um federalismo ideológico e económico impulsionado a partir de Bruxelas e da Comissão Europeia.

Estes movimentos globalistas, a par da imigração, ao irem contra as nações e as identidades e ao causarem um empobrecimento relativo das comunidades atingidas, levantaram fortes reacções populares a que os partidos do chamado Centrão, da esquerda socialista e social-democrata à direita social-democrata e democrata-cristã, não foram capazes de responder, gerando muitos “deixados para trás”. Daí vieram as novas forças políticas nacionalistas, populares e nacionais-conservadoras que, na Europa e nas Américas, apareceram como uma “nova direita” essencialmente nascida do voto popular, em democracia e pela democracia.

Em Portugal, as condições especiais geradas pelo 25 de Abril, que trouxe uma situação de pré-revolução comunista década e meia antes do fim do comunismo na Rússia e na Europa Oriental, pesaram muito para que se mantivesse um regime governado pelo Centrão, com tutela cultural esquerdista.

Quando André Ventura e o Chega apareceram, ainda que centrados numa dialéctica anti-sistema e num discurso tribunício e populista, com uma natural nota de generalização e de excesso, foram-se afirmando casuisticamente valores de orientação esquecidos ou negligenciados: a nação, a família, o trabalho, a identidade, o controlo da imigração.

Por ironia do destino, António José Seguro, que havia de correr contra ele, era alguém por quem a esquerda do Partido Socialista e a Extrema-Esquerda não morriam de amores. E por quem a Direita tinha até alguma simpatia, pela moderação, pelos maus-tratos sofridos às mãos de camaradas, pela honestidade pessoal.

No entanto, com esta nova moda estalinista do voto público ou de braço no ar, não deixa de ser desconcertante ver todo o “arco da governação”, de Cavaco Silva a Catarina Martins, a convergir em Seguro contra Ventura, no que aparenta ser a prova, não apenas de uma persistente necessidade de sinalização de virtude, mas da existência real de um “sistema” que, até aqui, muitos viam só como uma inexistência populista esgrimida por Ventura e pelo Chega.

Mas parece que não é nada disso. Parece que não se trata da súbita união de um qualquer “sistema” em luta pela sobrevivência; trata-se, isso sim, de uma abrangente cruzada para “salvar a democracia”. Vamos ver como:

Da luta existencial ao manual de boas maneiras

Primeiro, era unânime que a luta se faria contra o perigoso fascista-nazi-racista André Ventura; agora, ainda que alguns “democratas” devotos da falecida União Soviética ou do Grande Timoneiro chinês persistam na táctica, a estratégia é outra: Seguro é bem-educado, manso, moderado, de fino trato, previsível e presidenciável; Ventura não tem maneiras nem gravitas para o cargo – é mal-educado, brutal, impetuoso e quer agitar as águas e fazer coisas.

E, bruscamente, da salvação do mundo e da democracia em solo pátrio, passou-se ao protocolo do MNE, ao manual de boas maneiras, à arte de saber estar; dos anti-fascistas, passámos aos liberais chiques; dos Direitos do Homem em perigo ao horror perante a etiqueta atropelada. Ventura deixou de encarnar Hitler, Mussolini, Franco e Salazar para vestir a pele de um Zé Povinho sempre a fazer manguitos que não sabe estar entre os grandes, de um grunho que promete deixar mal o Estado português “lá fora”, em Bruxelas, no Buckingham Palace, no Eliseu, onde seja.

Ora esta nova estratégia oferece-nos um tipo de entretenimento inédito: o espectáculo do choque, do escândalo, do alarme e da preocupação dos revolucionários de ontem e dos activistas de hoje, dos herdeiros dos sans-cullotes de Paris e do Proletariado de todo o mundo, perante a falta de moderação, de decência, de decoro e de pose institucional de Ventura, a quem parecem exigir a bonomia discreta e cinzenta de político do antigo regime que vêem (e apreciam) no outro candidato…

Mas então e o povo, os trabalhadores, tão queridos à Esquerda, e que fazem muito do eleitorado de Ventura? poder-se-ia perguntar. Qual povo, se o candidato da Direita é apoiado, não por formidáveis trabalhadores em luta ou por operários fabris progressistas, mas por deploráveis “eleitores de baixa escolaridade”, reaccionários, equivocados e febris? Responder-nos-iam.

Enfim, pouco importa, porque a campanha existencial, o duelo político, ideológico, com a tragédia dos anti-fascistas tremendo perante o Dies Irae venturiano, quer agora transformar-se (até para conquistar o centro e a direita que não saiba resistir à pressão) na escolha aparentemente apolítica, não-ideológica, do candidato com o perfil cívico, “moral” e até “cristão” mais presidenciável; daí o apelo transversal à civilidade, à “humanidade”, em nome da preservação da decência democrática.

Uma escolha política

Convém, no entanto, não esquecer que, ao contrário do que possamos ser levados a pensar, o que vamos ter no dia 8 não é um concurso de misses, mas uma escolha política – ainda que alguns a reduzam à “escolha fácil” entre um candidato que grita e um outro que não grita.

Acontece que o candidato que não grita é socialista… mas, lá está, não grita, e é simpático, cordato, educado, decente, pacato, razões mais do que suficientes para ser apoiado por todos os vultos do regime – da direita consentida, que corre feliz para os braços temporária e interesseiramente abertos da Esquerda, à extrema-esquerda, subitamente institucional. Todos juntos em morna, medrosa, “civilizada” e moderada unanimidade para defender, não o bem-comum, não o país do presente e do futuro, não o povo, mas a velha “pluralidade democrática” instituída em que vivem e da qual vivem.

Esta pressão das elites políticas unidas contra um candidato que, cada vez mais, se vai consolidando como o único candidato alternativo junto dos “deixados para trás”, pode bem ser a prova viva de que “o sistema”, afinal, existe.

https://observador.pt/opiniao/uma-escolha-politica/

segunda-feira, 26 de janeiro de 2026

João Marques de Almeida - Há sempre uma direita pronta para ajudar o PS

* João Marques de Almeida

Este manifesto dos “não-socialistas" é contra a unidade das direitas no futuro. Vamos ser realistas. O Chega e Ventura vieram para ficar e mais tarde ou mais cedo as direitas terão que lidar com ele.

26 jan. 2026

Entre 2005 e 2011, Sócrates foi primeiro-ministro de dois governos socialistas, um deles com maioria absoluta, o outro não chegou ao fim do mandato. Não me interessa falar da falência de Portugal com Sócrates em São Bento. Também não me interessa falar das acusações de corrupção contra o antigo PM socialista. Interessa-me falar dos atropelos de Sócrates contra a democracia portuguesa.

Nenhum outro PM em Portugal, desde 1976, ameaçou tanto a democracia. Sócrates controlou a justiça, conseguindo ter na PGR e no Supremo Tribunal de Justiça pessoas da sua confiança e que sempre o ajudaram nos seus casos com a justiça (e mais tarde sentaram-se, sem qualquer vergonha, na primeira fila a assistir ao lançamento do livro de Sócrates). Sócrates usou uma empresa do Estado para tentar comprar um grupo de comunicação social. Sócrates nunca soube lidar com a liberdade de imprensa, ameaçando e procurando condicionar jornais, televisões e rádios. Não faltarão jornalistas para o confirmar. Sócrates (juntamente com Ricardo Salgado) controlou o sistema financeiro português, colocando pessoas da sua confiança a mandar na CGD e no BCP. Nunca nenhum PM foi tão longe na tentativa de criar um “capitalismo de Estado”, em aliança com Salgado.

Ou seja, tivemos dois governos do PS que ameaçaram o estado de direito e a separação de poderes, a liberdade de imprensa, a independência de bancos e que usaram empresas públicas para fins políticos. Onde estavam as pessoas de direita que assinaram agora um manifesto contra André Ventura quando Sócrates se comportou como um tirano? Nessa altura, não tiverem sobressaltos democráticos? Nunca escreveram manifestos? Ficam mais preocupados com as palavras de Ventura do que com as decisões e as ações de Sócrates? No mínimo, é muito estranho considerar que palavras de um líder da oposição são mais graves do que as decisões anti-democráticas de um PM.

Só mais um ponto. António José Seguro nunca se distanciou de Sócrates enquanto ele foi PM. Foi sempre deputado e fez campanha a apoiar Sócrates em 2011. O distanciamento de Sócrates depois de ele ser acusado é muito fácil.

Em 2015, sem mandato dos eleitores (é o que o PS diz hoje contra a lei laboral do governo), António Costa fez uma coligação parlamentar com partidos, o PCP e o Bloco, que apoiaram sempre ditaduras. A última foi a da Venezuela, cheia de assassinatos e de presos políticos. Aqui vou citar o manifesto dos “não-socialistas por Seguro”: a defesa dos “valores democráticos e humanistas” e dos “direitos, liberdades e garantias dos cidadãos.” Todos sabemos que os aliados do governo socialista de António Costa defendem “valores democráticos” e “direitos, liberdades e garantias dos cidadãos.” Onde esteve o sobressalto democrático dos ilustres signatários em 2015? Muitos deles trabalharam com Passos Coelho e nem isso os levou a escrever manifestos na altura.

Conheço muitos dos signatários do manifesto dos “não-socialistas” e sou amigo de alguns, mas cometeram um enorme erro político (e direi isso a todos quando falar com eles). Antes dos erros, se os signatários não me levarem a mal, este manifesto não terá impacto nas eleições de 8 de Fevereiro. Não vai trazer mais um voto a Seguro na segunda volta, os portugueses são livres, e pensam pelas suas cabeças. Se algum impacto tiver, será aumentar um pouco os votos de Ventura.

O manifesto comete dois erros políticos graves. Em primeiro lugar, apelando ao voto em Seguro estão a ajudar a reconstruir a legitimidade política do PS. É o que José Luís Carneiro está a fazer à boleia da candidatura de Seguro; e o candidato vai ajudar o líder socialista. Os signatários estão assim a contribuir para o renascimento do PS, o que me espanta porque se definem como “não-socialistas.” Também me surpreende que aqueles que conheço, e que sei bem o que me dizem do PS, dos governos socialistas que Seguro apoiou e até do próprio candidato (quando era líder do PS), assinem este manifesto. Mas ninguém está livre de cometer erros.

Este manifesto também é contra a unidade das direitas no futuro. Vamos ser realistas. O Chega e Ventura vieram para ficar e mais tarde ou mais cedo as direitas terão que lidar com ele. Há uma questão interessante quando se lê o texto do manifesto: que tipo de governo maioritário os signatários defendem? Uma maioria absoluta da AD; eu também gostava muito, mas não analiso a política com base em sonhos. Uma maioria absoluta da AD com a IL. Também gostava, mas acho muito improvável. Implicitamente, também viveriam bem com uma nova geringonça. Já viveram sem sobressaltos democráticos e apoiam o candidato apoiado pelo PCP e pelo Bloco. Essa maioria, não quero nunca mais.

Aliás, a AD na prática já beneficia da dimensão eleitoral do Chega. É isso que impede uma nova maioria parlamentar das esquerdas. No dia em que as esquerdas voltassem a ter maioria parlamentar, voltará a haver uma nova geringonça, seja quem for o líder do PS e mesmo que Seguro esteja em Belém. Algum dos signatários acha que o Presidente Seguro impediria uma coligação entre o PS a as extremas esquerdas, quando conta com os apoios dos comunistas e dos bloquistas?

Entendo perfeitamente que nenhum destes signatários seja capaz de votar em André Ventura. Há muita coisa em Ventura que me causam muito desconforto, desde as generalizações injustas até à demagogia, passando pela sua visão da economia, como mostram as suas posições sobre a privatização da TAP e o acordo comercial entre a UE e o Mercosul. Discordo da visão presidencialista de Ventura. Mas é muito diferente não ser capaz de votar em Ventura ou apelar ao voto em Seguro. Estão a apoiar um socialista que nunca se distanciou dos piores erros feitos pelos governos do seu partido, pelo contrário apoiou activamente Sócrates. Estão a apoiar um socialista que fez ataques absolutamente injustos e falsos ao governo de Passos Coelho quando liderava o PS. Estão a contribuir para a legitimidade eleitoral do PS, quando os socialistas não o merecem. Um partido que nos últimos 30 anos, esteve 22 no governo, e que tanto mal fez a Portugal.

O Chega apareceu, em grande medida, por causa de todo o mal que os governos socialistas fizeram a Portugal. Os eleitores do Chega e de Ventura são aqueles que mais perderam com os governos socialistas. Não acho nada estranho que não se goste do resultado do socialismo. Eu também não gosto. Mas, por isso mesmo, acho muito estranho que se apoie um socialista. E Seguro nem sequer precisava destes apoios para ganhar as eleições no dia 8 de Fevereiro. O manifesto foi um erro inútil.

https://observador.pt/opiniao/ha-sempre-uma-direita-pronta-para-ajudar-o-ps/