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sábado, 10 de outubro de 2020

Quino e a Mafalda

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quinta-feira, 8 de outubro de 2020

Manuel Augusto Araújo - Quino, o outro lado do espelho da Mafalda

* Manuel Augusto Araújo

Mafalda torna-se rapidamente na mais famosa comentadora política sobre o mundo.


Há que lembrar que a caricatura, dado os anglicismos correntes agora conhecida por cartoon, é um importante sector das artes plásticas – que ocupou desde sempre um espaço expressivo na actividade jornalística – praticado por grandes artistas como Honoré Daumier, Jean-Louis Forain, Willheim Bush, George Grosz, John Heartfield, Robert Osborn, Feliks Topolski, James Thuber, Saul Steinberg, André François, David Levine, por cá Bordalo Pinheiro, Stuart Carvalhais, João Abel Manta.

Uma lista mais que resumida, escassa perante a grande quantidade e qualidade dos muitos que com os cartoons marcaram e marcam presença em todo o mundo. Se os percursos artísticos e as opções estéticas os distinguem há um traço firme comum a todos, os referidos e os muito mais que se poderiam referir, que é o darem testemunho do seu tempo tirando a temperatura ao seu estado social e político, aos seus desastres, ao seu grotesco, aos seus vícios, com elaborado humor, vastas ironias, mesmo vitriólica veia satírica.

Cada cartoon, com golpes mais certeiros e devastadores que os golpes cinematográficos de kung-fu de Bruce Lee, contribui para traçar um cadastro irreverente e implacável da mediocridade e das hipocrisias deste nosso mundo. O cartoon, na sua aparente efemeridade, sempre ligado a um sucesso temporalmente datado, na sua linguagem, por vezes simplista para adquirir maior legibilidade, arrisca-se àquela classificação de ser uma arte menor, uma tremenda injustiça até porque isto de artes maiores e menores tem muito que se lhe diga no seu tempero elitista. O cartoon é uma reportagem do quotidiano que se liberta dos calendários para transmitir, de um ou outro modo, uma mensagem politicamente universal e intemporal.

Olhar crítico sobre o mundo

Quino inscreve-se por direito próprio nessa longa lista de caricaturistas, especialistas do raio-X que aplicam à sociedade radiografando-a implacavelmente. Adquire celebridade quando, em 1964, faz Mafalda sair da banda desenhada de uma casa típica de uma família burguesa de classe média que iria comprar uns eletrodomésticos, para a tornar na célebre contestatária que, com o seu humor corrosivo e negro, não deixa pedra sobre pedra do edifício da realidade social e política desta sociedade sem dignidade fundada na exploração humana.

Contestatária com um lado muito terreno de detestar sopa, adorar os Beatles, expor perplexidades filosóficas a olhar para o globo terrestre, torna-se rapidamente na mais famosa comentadora política sobre o mundo, a luta de classes, as tiranias, o capitalismo. Reconhecida em qualquer canto do mundo, Mafalda quase oculta o trabalho do seu criador Quino que, em paralelo à rapariga contestatária, continuava a fazer outras bandas desenhadas, excelentes mas com menos visibilidade, como se pode ver em Portugal no ano de 2014, no Festival Amadora BD.

Mafalda não envelhece, espalha o nome e o trabalho de Quino pelo mundo, até o seu criador a calar continuando o seu trabalho de cartonista, óptimas tiras de banda desenhada embora longe do estrelato da Mafalda. Quino deixou de desenhar Mafalda em 1973. Comenta o a tê-la silenciado por estar extenuado com essa sua criação, mais conhecida que o seu criador, não deixando de dar uma pista para não mais a encontrarmos: «provavelmente estaria morta, seria um dos desaparecidos da ditadura militar argentina»(1). Mafalda até ao fim da sua vida teve sempre a luminosa lucidez crítica política de Quino, para quem o mundo actual «é um desastre, uma vergonha» que dissecoucom o bisturi do seu lápis.

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(1) A ditadura argentina imposta por um golpe de estado em 1976, chefiado pelo general Videla, almirante Massera e brigadeiro Agosti, foi preparada com colaboração activa dos EUA. Brutal, durou até 1983 período durante o qual «desapareceram» 30 000 argentinos. Kissinger apoiou-a e defendeu-a em vários areópagos internacionais para não deixar dúvidas sobre o que representam os direitos humanos para os EUA.

http://www.avante.pt/pt/2445//160848/

terça-feira, 6 de outubro de 2020

Eduardo Fabregat - Quino foi um criador com um olhar muito aguçado e uma antena sempre bem orientada

 CULTURA

Quino, aquele que desenhou todos nós

Dentro e fora da “Mafalda”, Joaquín Salvador Lavado representou, representa, continuará a representar o estado das coisas no mundo: por vezes de forma dolorosa, mas sempre com uma humanidade profunda.

por Eduardo Fabregat

Publicado 02/10/2020 20:40 | Editado 03/10/2020 07:34


Quino foi um criador com um olhar muito aguçado e uma antena sempre bem orientada. I Foto: Adrián Pérez

Não há como verificar se isso realmente aconteceu, mas a anedota é muito contundente: dizem que quando os nazistas invadiram a casa de Pablo Picasso em Paris, um oficial perguntou se ele era o autor daquela bagunça chamada Guernica. “Não, isso foi feito por você”, disse o pintor.

Diante da visão daquelas vinhetas que cruzam o tempo, que continuam a nos representar, que continuam a apontar males eternos da Humanidade, Quino poderia ter dito algo semelhante. Não parece por acaso que uma de suas “piadas” mais famosas é aquela em que um empregado da limpeza arruma um quarto inteiro … inclusive Guernica. Dizem que era um dos favoritos, também é difícil de verificar.

Joaquín Salvador Lavado era cartunista e humorista, é claro. Mas acima de tudo ele foi um criador com um olhar muito aguçado e uma antena sempre bem orientada para registrar o mundo em que viveu, e sua distância brutal do mundo que desejava. O que ele colocava diante dos olhos de quem queria ousar ver era o que ele fazia e era o que os vários componentes da sociedade faziam. E então, como muitos males neste planeta tendem a sobreviver ao invés de curar, seu trabalho é eterno. O que foi feito há 40, 50, 20 anos ressoa com o mesmo poder hoje. O único anacronismo é a tecnologia ou os trajes que retrata. No resto, tudo continua igual.

É por isso que é tão difícil dizer a notícia e começar a falar no pretérito. Quino morreu e, quase ao meio-dia do último dia de setembro, ouviu-se o som de milhões de corações se apertando de tristeza. Só por tolice podemos negar o que Quino e as suas criaturas – que não são apenas Mafalda e os seus amigos e pais – significam para os habitantes deste país. Muitas vezes o “artista popular” se identifica mais com a figura do intérprete, desde a música, performance, seja o que for. Mas Quino, um homem curvado sobre uma placa para retratar o mundo, foi, é, um artista extremamente popular.

Essa popularidade, aquela sintonia imediata com o leitor, começou em um campo curioso, o da mesma publicidade para a qual dirigiu mais de um dardo em sua obra. Há provas abundantes de que para Quino Mafalda foi apenas uma etapa da sua vida, a tal ponto que decidiu acabar com ela quando mais de um continuaria a extrair o sumo. Já estava tudo dito, ele raciocinou. Para Quino, a vinheta única ou em algumas pinturas muitas vezes mudas era um universo muito mais rico, cheio de possibilidades, em que podia retratar diretamente coisas que também estavam em Mafalda , mas com o verniz de modos daquele universo infantil.

Claro, eles não eram crianças quaisquer, e também havia uma pintura da Humanidade. As preocupações de Mafalda encontraram paredes de repercussão perfeitas no estabelecimento – adorável, mas estabelecimento ainda assim – representado por Manolito e Susanita, que expressaram o capitalismo de uma forma adocicada, mas às vezes brutal. Libertad e Guille eram a anarquia feliz, o chamado para quebrar o sistema, um da selvageria de uma criança pequena e nada complacente e o outro de uma formação onde uma mãe solteira e militante era vislumbrada. Felipe era um pouco de todos nós, ou aquela faceta de nós que às vezes homenageia Bartleby, o garoto indolente que chutava as coisas com uma culpa moderada. Miguelito, aquele com as alfaces na cabeça, talvez o mais filho de todos, inocência e devaneio permanente. Mafalda, fã dos Beatles e inimiga da cruzada da sopa, um pequeno demônio versado em política nacional (“O pau para dentar ideologias?”) E as convulsões internacionais, coalharam o panorama interagindo com eles e com a própria descrença. No quarteirão, na praça, na escola, nas modestas salas de classe média de seus personagens, Quino já representava o mundo . 

Mas embora o mundo cruel e às vezes inexplicável aparecesse em seus filhos, o homem de Mendoza nunca foi um niilista. A profunda humanidade de Quino fez de Mafalda uma tira tão popular, pois o cartunista também observava com carinho e compreensão as únicas pessoas mais velhas que apareciam regularmente – os sofredores pais de Mafalda . Se Susanita só estava interessada em se casar e ser uma dona de casa com lindos bebês, Raquel, A mãe de Mafalda, era uma lembrança da prisão em casa e dos sonhos frustrados, e a mãe invisível de Libertad um sinal de que havia um caminho feminista. O pai era uma concentração do porteño médio, vinculado a um trabalho de escritório que lhe permitia aqueles modestos quinze dias de praia, com o humilde sonho de chegar ao Citroen 3CV. Em todas essas criaturas, na doçura com que retratava seus desejos, suas misérias e obsessões, fica claro o quanto o homem com o bico as amava.

E porque os amava tanto, um dia decidiu despedir-se deles.



Fonte: Pagina12

 

 

terça-feira, 29 de setembro de 2020

29 de Setembro de 1964 – Nasce a Mafalda



Quando a primeira tira apareceu na revista «Primera Plana», há mais de meio século, ninguém esperava que as histórias da Mafalda irreverente e contestatária percorressem o mundo em 26 línguas e permanecessem vivas muito para além do seu desaparecimento. Fruto da imaginação e arte de Joaquín Lavado «Quino», um argentino pobre de Mendoza que aos 18 anos chegou a Buenos Aires com uma pasta de desenhos debaixo do braço, Mafalda despediu-se dos seus leitores em Junho de 1973, mas a universalidade das suas críticas sociais e políticas tornaram-na imortal. Forçado a exilar-se em 1976 na sequência do golpe de Estado de Rafael Videla que mergulhou a Argentina numa feroz ditadura militar, Quino, para quem o humor «é aquele pequeno grão de areia com o qual contribuímos para que as coisas mudem», não tenciona ressuscitar a Mafalda porque, afirma, «ressuscitá-la seria dizer que está morta, e ninguém duvida que ela esteja bem viva, por sorte». Ou seja, a mensagem permanece actual, como disse numa entrevista ao Página/12: «Se pensarmos que o cristianismo levou três séculos para se impor, por que não podemos pensar que o socialismo voltará e que finalmente poderemos viver em um sistema mais justo e mais humano para todos?»

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segunda-feira, 3 de abril de 2017

Os pobrezinhos, de António Lobo Antunes


* António Lobo Antunes

Na minha família os animais domésticos não eram cães nem gatos nem pássaros; na minha família os animais domésticos eram pobres.

Cada uma das minhas tias tinha o seu pobre, pessoal e intransmissível, que vinha a casa dos meus avós uma vez por semana buscar, com um sorriso agradecido, a ração de roupa e comida.

Os pobres, para além de serem obviamente pobres (de preferência descalços, para poderem ser calçados pelos donos; de preferência rotos, para poderem vestir camisas velhas que se salvavam, desse modo, de um destino natural de esfregões; de preferência doentes a fim de receberem uma embalagem de aspirina), deviam possuir outras características imprescindíveis: irem à missa, baptizarem os filhos, não andarem bêbedos, e sobretudo, manterem-se orgulhosamente fiéis a quem pertenciam.

Parece que ainda estou a ver um homem de sumptuosos farrapos, parecido com o Tolstoi até na barba, responder, ofendido e soberbo, a uma prima distraída que insistia em oferecer-lhe uma camisola que nenhum de nós queria: - Eu não sou o seu pobre; eu sou o pobre da menina Teresinha.

O plural de pobre não era «pobres». O plural de pobre era «esta gente».

No Natal e na Páscoa as tias reuniam-se em bando, armadas de fatias de bolo-rei, saquinhos de amêndoas e outras delícias equivalentes, e deslocavam-se piedosamente ao sítio onde os seus animais domésticos habitavam, isto é, um bairro de casas de madeira da periferia de Benfica, nas Pedralvas e junto à Estrada Militar, a fim de distribuírem, numa pompa de reis magos, peúgas de lã, cuecas, sandálias que não serviam a ninguém, pagelas de Nossa Senhora de Fátima e outras maravilhas de igual calibre. 

Os pobres surgiam das suas barracas, alvoraçados e gratos, e as minhas tias preveniam-me logo, enxotando-os com as costas da mão:

- Não se chegue muito que esta gente tem piolhos.

 Nessas alturas, e só nessas alturas, era permitido oferecer aos pobres dinheiro, presente sempre perigoso por correr o risco de ser gasto (- Esta gente, coitada, não tem noção do dinheiro) de forma de deletéria e irresponsável.

O pobre da minha Carlota, por exemplo, foi proibido de entrar na casa dos meus avós porque, quando ela lhe meteu dez tostões na palma recomendando, maternal, preocupada com a saúde do seu animal doméstico

- Agora veja lá, não gaste tudo em vinho

 O atrevido lhe respondeu, malcriadíssimo:

- Não, minha senhora, vou comprar um Alfa-Romeu.

Os filhos dos pobres definiam-se por não irem à escola, serem magrinhos e morrerem muito. Ao perguntar as razões destas características insólitas foi-me dito com um encolher de ombros:

- O que é que o menino quer, esta gente é assim.

 E eu entendi que ser pobre, mais do que um destino, era uma espécie de vocação, como ter jeito para jogar bridge ou para tocar piano.

Ao amor dos pobres presidiam duas criaturas do oratório da minha avó, uma em barro e outra em fotografia, que eram o padre Cruz e a Sãozinha, as quais dirigiam a caridade sob um crucifixo de mogno. O padre Cruz era um sujeito chupado, de batina, e a Sãozinha uma jovem cheia de medalhas, com um sorriso alcoviteiro de actriz de cinema das pastilhas elásticas, que me informaram ter oferecido exemplarmente a vida a Deus em troca da saúde dos pais.

A actriz bateu a bota, o pai ficou óptimo e, a partir da altura em que revelaram este milagre, tremia de pânico que a minha mãe, espirrando, me ordenasse

- Ora ofereça lá a vida que estou farta de me assoar, e eu fosse direitinho para o cemitério a fim de ela não ter de beber chás de limão.

 Na minha ideia o padre Cruz e a Saõzinha eram casados, tanto mais que num boletim que a minha família assinava, chamado «Almanaque da Sãozinha», se narravam, em comunhão de bens, os milagres de ambos que consistiam geralmente em curas de paralíticos e vigésimos premiados, milagres inacreditavelmente acompanhados de odores dulcíssimos a incenso.

Tanto pobre, tanta Sãozinha e tanto cheiro irritavam-me. E creio que foi por essa época que principiei a olhar, com afecto crescente, uma gravura poeirenta atirada para o sótão que mostrava uma jubilosa multidão de pobres em torno da guilhotina onde cortavam a cabeça aos reis.

cartoon - Quino


quarta-feira, 30 de setembro de 2015

Primeira tirinha da Mafalda completa 51 anos

29 de setembro de 2015 - 14h09 


Em 29 de setembro de 1964, foi lançada a primeira tirinha de Mafalda no semanário “Primera Plana”, da Argentina. A personagem questionadora e indignada do cartunista Quino continua colecionando fãspelo mundo, 51 anos depois de seu nascimento.    



A tirinha ficou famosa por sua forte crítica social ao mundo moderno, associada sempre ao bom humor. Aos seis anos de idade, Mafalda odeia sopa e adora os Beatles. A garotinha de cabelos negros ornados por uma fita e rosto gorducho ficou conhecida por seu jeito rebelde e inconformado. Aos seis anos, filha de pais de classe média, ela nunca se limitou a questões típicas da infância, sempre lançando seu o olhar crítico e contestador para questões econômicas e sociais de todo o planeta. Confira abaixo:

 Mafalda faz 51 anos

Do Portal Vermelho, com Radioagência Nacional

http://www.vermelho.org.br/noticia/270842-11




segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

“Não fui eu!”, “Que gente má!” e “Potentes, prepotentes e impotentes” | Quino |





Digestivo nº 138 >>> Profissão desenhista
Quino é o autor da Mafalda. Aquela garotinha cabeçuda e de canelas grossas que os nossos professores de geografia (mais especificamente, de geopolítica) adoravam. Mas Quino é humorista também, e um artista do traço. A Martins Fontes acaba de editar três álbuns de suas peripécias sem a Mafalda. Descobrimos que, para além do renitente militante de esquerda, existe um quadrinista com ótimas sacadas, que no Brasil permanece incógnito, graças aos embalos de 1968. Quino despeja muitas de suas interrogações no mundo de hoje, pós-confrontos ideológicos de vida ou de morte, ressaltando alguns absurdos cotidianos em tirinhas engraçadas. Como quando a mulher enganada responde pelo seu estado civil: – Traída. Ou como quando a velhinha muito vivida responde “Todos!” à mesma pergunta. Ou ainda quando na abertura do volume “Não fui eu!”, um garotinho é cobrado pela sua falta de concentração nos estudos, sendo que sua casa está literalmente “de cabeça para baixo”. Quino é muito hábil com o amor; seja ele romântico, filial ou até mesmo em sua modalidade “ódio”. É hilária a cena da cartomante que, lendo a mão de um cliente, enxerga o “amor de sua vida” (pelo qual ele tanto anseia), mas, logo a seguir, enxerga a tendência daquele mesmo personagem a “pular a certa” – e, não tendo dúvidas, desfere-lhe um tapa na cara. A chamada “guerra dos sexos” é um prato cheio para Quino. E também a “luta de classes” (hélas!), que recheia boa parte do volume “Potentes, prepotentes e impotentes”. Quino erra ao insistir na velha representação do mundo: os “explorados” versus os “exploradores”. Mas outros momentos, de humor menos pretensioso, valem deslizes similares. No álbum “Que gente má!”, Quino tenta entender os jovens de hoje, com sua atitude despreocupada em relação ao sexo, com suas dúzias de aparelhagens e com suas metamorfoses assustadoras. Imagina-se que não sejam seus leitores (e que os pais deles certamente o são). Quino é mais uma prova de que a tendência universalizante na arte se afirma como a mais perene de todas. Afinal, os modismos passam e os ideais – como, aliás, o próprio reconhece –, também.
>>> “Não fui eu!”, “Que gente má!” e “Potentes, prepotentes e impotentes” | Quino | Martins Fontes
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domingo, 27 de dezembro de 2009

¡Qué mala es la gente! - Adriana Baggio

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Quinta-feira, 27/5/2004
¡Qué mala es la gente!
Adriana Baggio
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O ser humano é o único animal capaz de rir. Por ser uma manifestação tipicamente humana, o riso está ligado à inteligência, à racionalidade. Onde há afeto não há espaço para o riso. Ambos são mutuamente excludentes. Esta pode ser uma explicação para o comportamento daquelas pessoas divertidíssimas, irônicas e sarcásticas, das quais se diz que se quer morrer amigo delas. São elas que verbalizam o que todo mundo pensa mas ninguém tem coragem de expor. A chatice do politicamente correto não existe para elas. Por isso, também são consideradas pessoas cruéis, insensíveis, maldosas. São como a Geni do Chico Buarque. Condenadas pela hipocrisia daqueles que se acham guardiães da moral, da boa educação e do bom comportamento, mas também exploradas por eles quando querem uma válvula de escape para a dureza e o ridículo da vida.
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Deve ser por isso que o livro de história em quadrinhos de Quino, o famoso criador de Mafalda, chama-se Que gente má! (Martins Fontes, 2003). Mais conhecido pelas tirinhas da precoce e politizada garotinha argentina, Quino explora nessa obra o futil e medíocre dos humanos, principalmente dos latinos, com todos os seus tabus e valores deturpados. Por isso mesmo o livro é maravilhoso! Rimos de nós mesmos e isso faz com que a gente se sinta melhor com nossos defeitos. É como se ao vê-los desenhados, expostos em preto no branco do papel, nos sentíssemos menos culpados por constatar que o peso dos nossos pecadilhos pode ser dividido com toda a humanidade.
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Através de desenhos e às vezes de palavras, Quino mostra diversos personagens que trazem consigo as fraquezas humanas. É lógico que, quando se fala em fraquezas humanas, a primeira coisa que vem à cabeça é sexo. Que gente má! é repleto de homens obsessivos por sexo e mulheres calipígias. Um dos quadrinhos mais engraçados mostra um garotinho na praia, tentando brincar calmamente com seu castelinho de areia, rodeado por uma profusão de peitos e bundas semi-descobertos. Perturbado, pergunta à sua mãe: “Mamãe, estou sentindo uma coisa, não sei muito bem onde, e não sei o que é. O que é?”.
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Sexo e poder são os temas mais presentes no livro. O sexo, através das temáticas que alimentam a luxúria humana, como a infidelidade de homens e mulheres, homens maduros com mulheres jovens, sonhos eróticos, a safadeza dos velhinhos. O poder, pelas situações de trabalho, a representação dos chefes, dos patrões, da polícia, dos governantes. Quino é produto de uma cultura onde sexo e poder são temáticas arraigadas. A Argentina é tão conhecida pela sensualidade do tango quanto pela violência do seu regime militar. Sem machismo nem revanchismo, Quino retrata com crueza, mas com muito bom humor, o reflexo da experiência com a sensualidade e com o poder no comportamento humano.
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O livro de Quino deveria ser referência bibliográfica para as disciplinas de lingüística e semiótica. O cartunista usa e abusa das possibilidades de significação oferecidas pelos recursos de texto e dos traços. Quino brinca, por exemplo, com o sentido denotativo e conotativo das palavras e desenhos para construir suas idéias. Transforma expressões metafóricas em desenhos figurativos, como no quadrinho em que a mulher percebe que o ex ainda está em sua cabeça quando vai arrumar os cabelos e uma pequena figura masculina aparece presa nos dentes do pente. Já em outro quadrinho, a oposição entre traços grossos e finos é o principal recurso usado pelo autor para representar o deslocamento de poder do homem para a mulher após o casamento. O humor de Quino, além de acessível e familiar pelo seu conteúdo, também utiliza elementos iconográficos da cultura popular e, talvez por isso, provoque uma identificação tão forte com o leitor.
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Quino não perdoa homens, nem mulheres, nem crianças, nem velhos. Faz pouco dos modismos como o culto ao corpo, a alimentação saudável, a vida junto à natureza. Tira sarro do computador e da nova cultura a ele relacionada. Mostra o ridículo de se valorizar demais a tecnologia e o jargão que a acompanha, e que acaba por separar o mundo entre aqueles alfabetizados tecnologicamente e os não-alfabetizados e, portanto, sem acesso às novas formas de convivência social ou profissional.
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O paradoxo de Que gente má! é justamente a humanidade presente em traços e palavras tão cruéis. Por mais realisticamente ridícula que seja a situação retratada, parece que o afeto está prestes a aparecer por trás do riso maldoso que acompanha a leitura de cada quadrinho. Passamos a sentir pena dos outros, e por fim de nós mesmos. Ficamos surpresos de sermos aquilo que está retratado. E como somos condescendentes com nossos próprios defeitos, depois do riso talvez tenhamos uma pequena crise de consciência. É nesse ponto que o humor dá lugar ao afeto. Talvez passemos a nos consolar e nos acarinhar, tentando nos convencer de que se realmente somos aquilo, podemos melhorar. Ou seja, um processo hipócrita de auto-enganação.
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Continuaremos podres, mesquinhos, infiéis e obcecados com os pecados e tabus que povoam nossa cabeça. E dessa matéria prima serão criadas obras como a de Quino, que funcionam melhor que qualquer terapia de autoconhecimento. Com a vantagem que você não precisa falar, só ler. E que terá rido em vez de chorar.
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Para atender aos fãs de Mafalda, Quino encerra o livro com uma participação especial de sua estrela, com direito a ele próprio como personagem. Nesse quadro, ele volta a pena para si e para sua mais famosa criação, talvez para mostrar que não se acha acima das misérias retratadas por traços tão críticos e mordazes.
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Para ir além

Adriana Baggio
Curitiba, 27/5/2004

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http://www.digestivocultural.com/colunistas/imprimir.asp?codigo=1362
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