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sábado, 8 de agosto de 2026

HUMOR – Silly Season – (Data e compilador desconhecidos)

 Por Carlos Esperança - agosto 08, 2026
 

Não garanto a autenticidade e já aqui publiquei estas frases antigas que, se não forem verdadeiras, são bem achadas.

Não garanto a veracidade, mas é forte a probabilidade de serem. E são credíveis! Menos perigosas do que as intrigas e calúnias da direita, aqui as repito para gáudio dos leitores:

- Finalmente, a água corrente foi instalada no cemitério, para satisfação dos habitantes. (Presidente da Junta de Freguesia do Fundão)

- Esta nova terapia traz esperanças a todos aqueles que morrem de cancro em cada ano. (Dr. Alves Macedo – oncologista)

- Os sete artistas compõem um trio de talento. (Manuela Moura Guedes – TVI)

- A polícia encontrou no esgoto um tronco que provém, seguramente, de um corpo cortado em pedaços. E tudo indica que este tronco faça parte das pernas encontradas na semana passada. (Paulo Castro – Relações Públicas da PJ)

- A vítima foi estrangulada a golpes de facão. (Ângelo Bálsamo – Jornal do Incrível)

- Um surdo-mudo foi morto por um mal-entendido. (António Sesimbra – O Independente)

- Os nossos leitores nos desculparão por este erro indesculpável. (Rui Lima – Jornal “A Bola”

- Há muitos redatores que, para quem veio do nada, são muito fiéis às suas origens. (António Tadeia – Crónicas do Correio da Manhã)

- Ela contraiu a doença em vida. (Dr. Joaquim Infante – Hospital de Santa Maria)

- A conferência sobre a prisão de ventre foi seguida de farto almoço. (Diário da Universidade de Bragança)

- O acidente provocou forte comoção em toda a região, onde o veículo era bem conhecido. (António Bravo – SIC)

- O aumento do desemprego foi de 0% no mês passado. (Luís Fontes – A Capital)

- À chegada da polícia, o cadáver encontrava-se rigorosamente imóvel. (Ribeiro de Jesus – PSP de Faro)

- As circunstâncias da morte do chefe da iluminação permanecem rigorosamente obscuras. (Paulo Assunção – EDP)

- Ferido no joelho, ele perdeu a cabeça. (Crónicas do Diário das Beiras)

- Os antigos prisioneiros terão a alegria do reencontro para reviver os anos de sofrimento. (Maria do Céu Carmo – Psiquiatra)

- A polícia e a justiça são as duas mãos do mesmo braço. (Bento Ferreira – Juiz)

- O acidente fez um total de um morto e três desaparecidos. Teme-se que não haja vítimas. (Juliana Faria – TV Globo)

- O acidente foi no tristemente célebre retângulo das Bermudas. (Paulo Aguiar – TV Globo)

- Quatro hectares de trigo foram queimados. Em princípio trata-se de incêndio. (Lídia Moreno – Rádio Voz de Arganil)

- Antes de apertar o pescoço à mulher, o velho reformado suicidou-se. (João Cunha – Testemunha)

- Jogar à defesa pode ser uma faca de dois legumes. (Jaime Pacheco, treinador de futebol)

- À pergunta “o que achou do jogo”, responde: «Eu, nada... mas o Aloísio achou um pente no balneário». (Roger – Ex-jogador do Benfica)

https://ponteeuropa.blogspot.com/2026/08/humor-silly-season-data-e-compilador.html

quarta-feira, 27 de maio de 2026

Manuel Cardoso - Passos Coelho não se aposenta, apresenta


Manuel Cardoso, Humorista

Pedro Passos Coelho, quando decide apresentar um livro, reflete longamente sobre quem é que poderia escrevê-lo
 
Pedro Passos Coelho concluiu que precisava de se focar no seu bem-estar. Nesse sentido, decidiu agendar sessões recorrentes em que pode falar à vontade dos seus ressentimentos durante uma hora. Infelizmente para o país, não quis gastar dinheiro em terapia e optou pelas apresentações de livros. Há autores que, quando decidem escrever um livro, põem-se a pensar em quem é que poderia apresentá-lo. Pedro Passos Coelho, quando decide apresentar um livro, reflete longamente sobre quem é que poderia escrevê-lo. Os novos aliados de Passos Coelho estão a ficar seriamente preocupados: o ex-Primeiro-Ministro tem passado muito tempo em livrarias. Por estar permanentemente rodeado de estantes com livros, temem que possa considerar adquirir um.

Nunca marquei presença nestes eventos, mas consigo imaginar a dinâmica: primeiro, o autor do livro confessa que é uma honra ter sido convidado para escrever um livro a propósito do lançamento da apresentação de Passos Coelho; depois, faz uma breve biografia do apresentador, percorrendo o longo percurso apresentadorístico do massamense; a seguir, oferece o livro aos presentes para lhes despertar interesse na apresentação. Entretanto, Pedro Passos Coelho pega no microfone e apresenta o livro. Por fim, o autor do livro vai arrumando as cadeiras enquanto Passos Coelho distribui autógrafos.

Como sempre se soube, Portugal é demasiado pequeno para Pedro Passos Coelho. O mercado editorial português não faz lançamentos suficientes para acompanhar a prolificidade das apresentações de Passos Coelho. Até agora, o ex-presidente do PSD ainda tem conseguido encontrar, para participarem nas suas apresentações, autores de ciência política ou direito constitucional. Em breve, Pedro Passos Coelho vai ser forçado a apresentar "As 100 Receitas Mais Virais do TikTok", a biografia de um agente imobiliário ou a nova sensação do soft-porn "Tudo O Que Aprendi No Pilates". Em princípio, isso beneficiará os autores. Até porque, ao contrário do que acontecia quando Passos era PM, os "livros não-educativos" já não são taxados a 23%.

2026 Maio 27

https://expresso.pt/opiniao/2026-05-27-passos-coelho-nao-se-aposenta-apresenta-4c980ba7

terça-feira, 26 de maio de 2026

Rui Zink - MANUAL DO BOM FASCISTA

 

» Rui Zink

O BOM FASCISTA NÃO GOSTA DE SER CHAMADO FASCISTA

Acha que o retrato não lhe faz justiça. E a justiça é muito importante para o bom fascista. Ele não suporta injustiças. E, afinal de contas, o que significa "ser fascista"? Nada. Salazar, por exemplo. Passam a vida a chamar-lhe fascista, mas «não era fascista» [sic — estas coisas não se inventam]. Já muitos e bons doutores explicaram que Salazar não era fascista. Fascistas eram Hitler e Mussolini. E Salazar era muito diferente de Hitler e de Mussolini. Para começar, Hitler falava alemão e Mussolini italiano. Ora, Salazar não falava nem alemão nem italiano, falava português. Para terminar, Mussolini era gordo e careca e Hitler tinha bigode a Charlot. Já Salazar, embora tivesse cabelo, não usava bigode. Só não vê quem não quer ver! Haverá provas mais científicas de que nunca houve ditadura em Portugal? Ora bem.

Depois, há todo um ror de infinitas e subtis (mas significativas) diferenças. Salazar nao comia tagliatelle nem sauerkraut, ele era patrioticamente mais aderente a dieta lusitana: bacalhau a Gomes de Sá, arroz de cabidela, iscas com elas, chocos sem tinta.

Pimba.

E há mais:

«(...) Enquanto Mussolini, Hitler ou Franco discursavam e apareciam em púbico em trajes militares, Salazar nunca o fez.»

Inteira razão, doutor Campos e Cunha, só não vê quem não quer ver. Salazar era apenas, admitamos (sendo contemporizadores após este momento de retórico triunfo), talvez "um bocadinho autoritário".

Mas isso era para o bem do país. E não enriqueceu. A prova é que não deixou nada aos filhos nem pôs a empresa em nome da mulher.

*

O BOM FASCISTA NÃO SE ARMA EM ESQUISITO

O bom fascista alimenta-se de mentiras e distorções, é essa a sua dieta favorita, mas, se não houver mais nada para comer, também não desdenha a um facto. O bom fascista gosta de tasquinhar, e até acha graça à ocasional verdade, desde que esses exóticos produtos chamados factos cumpram o requisito fundamental: confirmarem aquilo que pensa.

Quando vê o noticiário, um bom fascista não se deixa dispersar nem enganar: só escuta aquilo que já sabe. Um telejornal pode mostrar golfinhos no Tejo, um incêndio em Los Angeles, uma entrevista um ministro estrangeiro, greves em França, o julgamento dos separatistas em Espanha, uma declaração do Papa sobre recentes escândalos, uma cimeira entre a Ucrânia e a Rússia. Tudo isso o bom fascista vê com o ar adormecido de um velho crocodilo a jogar bingo. Só quando sai o número certo — digamos, “cigano/muçulmano atacou alguém" — é que o crocodilo lá abre um olho, subitamente alerta. E comenta, satisfeito com a sua visão periférica:

«Eu sabia. Esta gente...»

*

O BOM FASCISTA NÃO SE METE EM POLÍTICA

Até porque a sua política é o trabalho.

E muito gosta o bom fascista do trabalho. Ao contrário dos outros, que «não querem é trabalhar», o bom fascista quer trabalhar. E não tem medo do trabalho. A sério, não tem. Consegue aproximar-se do trabalho sem medo — desde que tenha um chicote, uma cadeira e, bem entendido, o trabalho esteja devidamente açaimado e/ou acorrentado à parede.

Se o bom fascista tem um chicote e uma cadeira, e o trabalho estiver devidamente açaimado, o trabalho que se cuide. Com ele não faz farinha.

Quando interrompe o trânsito e os carros de trás começam a buzinar, o bom fascista ruge:

«Estou a trabalhar!»

E quando não o deixam passar, aí é o bom fascista que carrega na buzina, e grita:

«Tira daí essa merda que tenho de ir trabalhar!»

Todavia, por vezes, o bom fascista também gosta de dizer, rindo com gosto, que «o trabalho é bom é para o preto». Isto é, aliás, por definição, o que faz rir o bom fascista: imaginar alguém a ser pisado, maltratado, espezinhado. E a levar porrada no lombo, se refilar, para aprender a da próxima vez ficar quietinho.

O bom fascista, quando ri, ri de cima para baixo.

O que nem sempre é fácil, convenhamos. Sobretudo quando estamos cheios de trabalho.

O bom fascista gosta tanto de trabalhar que, quando não está a trabalhar, finge que está a trabalhar.

*

O BOM FASCISTA TOLERA PRETOS, DESDE QUE SAIBAM O SEU LUGAR

Esta não é a terra deles, diz o mesmo bom fascista que antes achava que a terra deles era "nossa". Esta terra é a nossa terra e se não gostam voltem para a terra deles. Quem não está bem, muda-se. E calem-se. Parem com a chinfrineira sobre o "colonialismo" e o “tráfico de escravos”. Quem não está bem emudece.

Eles são eles e nós somos nós e assim é que é bonito. O bom fascista desconfia do até do turismo: pode ser imigração encapotada. E tecnicamente até é, só que  imigração por pouco tempo — tal como a imigração pode ser também vista como turismo prolongado.

De igual modo, aquilo a que chamam "tráfico de escravos" pode ter sido apenas a invenção, ainda titubeante, do turismo moderno. Afinal, quando levaram pretos de África para o Brasil, não estariam os nossos gloriosos antepassados apenas a criar a primeira Agência Abreu da História? Certo, as condições no porão talvez não fossem as melhores, mas os lugares na Ryanair e na EasyJet também são apertados. E desde quando quem viaja quase à borla (ou mesmo à borla, no caso dos escravos) tem direito a queixar-se?

O bom fascista nada tem contra os pretos, atenção, só acha é que não têm a nossa cultura, não partilham os nossos valores e está mal se vêm para cá surrupiar os nossos empregos e, com os seus mastodônticos marsápios, ficar com as nossas mulheres.

O BOM FASCISTA NÃO TEM SAUDADES DE SALAZAR

Nem precisa. Por que raio precisaria se Salazar continua vivo em nossos corações, fígados, bocas e mentes?

Factos são factos. Mesmo passado meio século, o bom homem continua a polonizar-nos o imaginário, qual abelhinha redentora.

Qual santa da ladeira, continua a escutar e a reciclar os nossos pecados.

Qual el-rei D. Sebastião em modo de rancho-melhorado, não precisa de voltar numa noite de nevoeiro — pois ele mesmo é nevoeiro.

O bom fascista sabe que Salazar «sempre quis o melhor para o país». E concede que (está bem, melga) aqui e ali terá sido um bocadinho autoritário e que a PIDE terá feito coisas, das quais ele até nem não sabia, porque não lhe diziam tudo. Agora fascista, Salazar? Isso não.

Foi o quê. então? Foi, digamos, um bocadinho autoritário.

A verdade é que, vendendo volfrâmio aos alemães e emprestando a base das Lajes aos americanos, «Salazar salvou-nos da guerra». E fê-lo com a mesma camponesa manha com que acomodava espiões aliados no Hotel Vitória (hoje, ó ironia, sede do PCP) e espiões nazis no Tivoli (hoje, oh ironia, ainda um belo hotel).

E Salazar foi sempre humilde e discreto. Certo, viveu quarenta anos num palácio — mas acaso era seu? Ah, bom. Tava a ver. E, modesto e humilde, nunca foi agarrado ao poder. O poder é que se lhe agarrou às mãos como um irritante adesivo se cola aos dedos. Acaso uma pessoa é culpada por um adesivo se lhe colar aos dedos?

Ná, o bom fascista não tem saudades de Salazar. Acha apenas que Portugal precisa de um outro Salazar. Alguém que pusesse isto no eixo.

(“Manual do Bom Fascista”, Rui Zink. Ideias de Ler, 2019)

Caricaturas de João Abel Manta (​1928-​2026, Lisboa)


Postado por O BÁRBARO às 14:50  segunda-feira, 25 de maio de 2026

https://cronicasdobarbaro.blogspot.com/2026/05/manual-de-bom-fascista.html

quarta-feira, 20 de maio de 2026

Manuel Cardoso - Abril, mágoas mil

Opinião

* Manuel Cardoso, Humorista

Já só falta transformar o 25 de abril num festival de cerveja artesanal chamado Li-beer-dade

21 abril 2026

Há quem aproveite o mês da liberdade para mostrar ressentimento. Como tem chovido pouco por esta altura nos últimos anos, o provérbio passou a ser "Abril, mágoas mil". O Centro Interpretativo do 25 de Abril está bloqueado porque o governo não cedeu o espaço que estava previsto para a instalação do museu, no Terreiro do Paço. Faz sentido. Não é exactamente um museu, é um centro interpretativo; portanto, não é essencial que abra mesmo, basta que se interprete que existe. É um museu que não se visita, imagina-se.

O governo já sugeriu alternativas à localização, como a lindíssima, central e muito visitada freguesia da Pontinha. Não é que isto signifique necessariamente que o governo da AD esteja contra o centro interpretativo, mas, colocando tantos entraves à sua abertura, correm o risco de serem mal interpretados.

O que não dá para grande espaço para interpretações é a atitude do Presidente da Câmara de Lisboa, Carlos Moedas, face ao 25 de abril. Depois de acabar com o concerto de 24 para 25 de abril, a Câmara de Lisboa quis agora renomear as Festas de Abril para Festas da Primavera. São decisões que agradam ao tipo de pessoa que considera que a liberdade não se deve ao 25 de abril, mas ao primeiro carro, oferecido aos 18 anos pelos pais.

Já só falta transformar o 25 de abril num festival de cerveja artesanal chamado Li-beer-dade. Não seria melhor cancelar as comemorações populares do 25 de abril e fechar antes da Avenida da Liberdade para uma parada de celebração do Dia Mundial do Pinguim, que se celebra no mesmo dia? Estou certo que o Guaraná Antártida patrocinaria essa mudança.

Qual é a ideia? Tornar o 25 de abril num 15 de agosto: uma daquelas datas em que as pessoas agradecem não ter de trabalhar, apesar de não conseguirem precisar o motivo do feriado? Antigamente, uma certa esquerda reclamava para si o 25 de abril. Hoje, há uma certa direita que faz questão de rejeitá-lo abertamente.

https://expresso.pt/opiniao/2026-04-22

Manuel Cardoso - A inaudita guerra da Serra de Carnaxide

Opinião

* Manuel Cardoso Humorista

Os concelhos de Oeiras e da Amadora estão à beira de um conflito. É essencial compararmos as capacidades militares destas duas potências para melhor acompanharmos o desenrolar das hostilidades
 
01 abril 2026 

Os concelhos de Oeiras e da Amadora estão à beira de um conflito. Isaltino Morais denunciou uma "invasão" do território oeirense por parte de uma urbanização da Amadora e tentou erguer uma barreira arbórea, que um grupo de cidadãos amadorenses acaba de embargar. Resta saber em que dia é que a guerra vai eclodir, porque neste momento parece inevitável. Para já, é essencial compararmos as capacidades militares destas duas potências para melhor acompanharmos o desenrolar das hostilidades.

No que diz respeito a infraestruturas militares, Oeiras tem o Forte de São Julião da Barra; a Amadora tem o Estado Maior da Força Aérea. No que toca à geografia, Oeiras tem a grande vantagem de ter acesso ao mar e de contar com a armada de veleiros atracados na sua marina. Porém, situa-se num vale e está exposta aos ataques vindos da Serra de Carnaxide. A Amadora está cercada por terra mas, por outro lado, a sua malha urbana complexa, plena de becos e ruelas, favorece as emboscadas e dificulta avanços no terreno a qualquer exército.

Em matéria de base potencial de mobilização, à partida as duas potências parecem estar equilibradas. No entanto, a população de Oeiras é mais envelhecida, enquanto a Amadora conta com mais homens em idade militar. Neste aspecto, há uma ligeira superioridade amadorense. Em termos do moral das populações para a guerra, Oeiras parte na frente. O culto ao chefe consolidado há décadas aliado à ideia de que foram atacados primeiro ajudarão a granjear apoio para o conflito armado junto dos oeirenses. Menos sorte tem o autarca da Amadora, Vítor Ferreira: ninguém vai para a guerra por um homem que não publica o seu almoço nas redes sociais.

Devemos estar atentos à política de alianças. Oeiras contará certamente com o apoio de Cascais, mas só isso não chega. Apenas com o apoio e a infraestrutura de Lisboa poderá almejar uma vitória nesta guerra. Amadora conta com a lealdade de Odivelas, Loures e Sintra. Se a capital apoiar Isaltino, poderá ter sérias dificuldades. Contudo, se conseguir convencer Almada a escolher o seu lado - estamos a falar de um concelho que tem a capacidade geográfica de apontar artilharia a Paço de Arcos - Isaltino capitulará certamente.

Vamos aguardar pelas próximas semanas. É bem possível que Isaltino tente, primeiramente, anexar o IKEA. Contará, para esse efeito, com as milícias da minoria oeirófila que reside em Alfragide. Depois, talvez tente surpreender, abrindo uma segunda frente pelas Portas de Benfica e tomando as instalações da Rádio Renascença. Porém, a longo prazo, não tem qualquer chance. Deve conter-se e tentar resolver o conflito pela via diplomática, que ainda considero possível. Até porque se há líder mundial que gosta de se sentar à mesa é Isaltino.

https://expresso.pt/opiniao/2026-04-01

domingo, 26 de abril de 2026

Entrevista a Ricardo Araújo Pereira



Ricardo Araújo Pereira: “A minha avó estabeleceu parâmetros que fazem com que eu tenha uma auto-estima bastante baixa”

Ricardo Araújo Pereira é o convidado da estreia do novo podcast de Ana Sá Lopes, na semana em que estreia o seu espectáculo de stand-up “Verificando se você é humano”.


Ana Sá Lopes e Tiago Orato (edição)

20 de Abril de 2026

Ricardo Araújo Pereira: “A minha avó estabeleceu parâmetros que fazem com que eu tenha uma auto-estima bastante baixa”

Ricardo Araújo Pereira é o primeiro convidado de O Que Fazer Quanto Tudo Arde, um podcast sobre os tempos que correm. Neste episódio, Ricardo Araújo Pereira descreve Donald Trump como uma “criança bêbada” e estávamos ainda em Março quando gravámos, ainda Trump não se tinha mascarado de Jesus Cristo. Falámos do riso e do Chega e da liberdade de expressão.

Há um mês, Ricardo Araújo Pereira estava a preparar o guião do seu espectáculo de stand-up comedy que estreia sexta-feira, no Porto. Na altura, o texto estava a ser “dolorosamente composto”. Ricardo diz que não é homem de palco, que é inseguro, e que tem uma auto-estima baixa: “A minha avó estabeleceu uns parâmetros que fazem com que eu tenha uma auto-estima bastante baixa”. Mas ter auto-estima baixa talvez seja o segredo do seu sucesso: “Tenho de me esforçar mais”.

O que fazer quando tudo arde está disponível na Apple PodcastsSpotifyYouTube e restantes aplicações para podcasts.

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 Ricardo Araújo Pereira: “Trump já é tão grotesco que qualquer deformação que a gente tente, falha”

Ricardo Araújo Pereira diz que não nasceu para o palco. “Há sempre uma relação de amor-ódio com o palco. Eu gosto daquilo, mas também tenho muito receio”. O seu primeiro solo estreou na sexta-feira.

Ana Sá Lopes

26 de Abril de 2026

Esta conversa com Ricardo Araújo Pereira é uma parte da entrevista que o humorista deu ao podcast O que fazer quando tudo arde”, que estreou no PÚBLICO na segunda-feira e que pode ser ouvido em todas as plataformas. A gravação desta conversa aconteceu em Março, quando Araújo Pereira ainda estava a preparar o guião do seu espectáculo de stand-up comedy que estreou no Porto na sexta-feira.

Donald Trump chegou a dizer que iria bombardear o Irão “for fun”, por divertimento. Julgávamos que o divertimento era coisa de humorista, mas parece que isto está estendido.

Sim, pois está. Uma coisa desse tipo não costumava ser frequente num estadista, não é? Dizer "eu vou continuar a bombardear este país "for fun", por diversão, é provavelmente uma das razões que tornam Trump incaricaturável, no sentido em que ele já é uma caricatura de tal modo grotesca que qualquer deformação que a gente tente, falha. Falha perante o original.

Como diz um amigo meu, que tem a mesma profissão que eu: nós estamos habituados a ser o mau aluno, o cábula; nós estamos na última fila a mandar bocas. Esse tipo de intervenção coloca Trump na última fila connosco, mas de uma forma grotesca justamente porque ele não está a brincar.

Já podemos falar em loucura de Trump? Fukuyama disse que o país mais poderoso do mundo está a ser governado por um rapaz de 10 anos…

Eu estava a escrever sobre isso no outro dia. Ele tem elementos de infantilidade e de embriaguez. Parece que estamos a lidar com uma criança bêbada, que é uma ideia muito perturbadora, uma criança estar bêbada. É difícil lidar com ele. Por exemplo, ele tem alguns dos indícios de infantilidade, aquele vocabulário tremendista. É o maior de sempre; são todos mentirosos. E isso é difícil de contrariar no mesmo sentido em que é difícil.

Quando a criança pergunta porque é que o Pai Natal ainda não chegou... Nós não discutimos racionalmente com a criança, não dizemos “olha, o Pai Natal não existe, na verdade, os presentes são...”. Nós dizemos: “Bom, ele está de facto a conduzir o seu trenó voador, mas está a passar em algumas outras casas de crianças antes de chegar à nossa”. Talvez esse seja o modelo para reagir a Donald Trump. Quando ele disse que os imigrantes estão a comer cães, animais de estimação em Springfield, Ohio, os jornalistas tentaram a abordagem racional: não existe nenhuma prova de que haja imigrantes a comer animais de estimação nessa cidade. Eu acho que era mais vantajoso dizer: “Sim, não há dúvida de que eles comem animais de estimação no Ohio, mas só quando o animal de estimação é um dragão”. E fornecer receitas de chanfana de dragão e de arroz de dragão. Isso baralha a criança, porque lhe indica que nós temos uma capacidade de efabulação superior à dela, o que perturba e transforma uma coisa má numa coisa boa.

Posso estar enganado, mas talvez o mundo devesse reagir dessa maneira. Eu até tive uma ideia para, quando ele quer renomear coisas, do género de renomear o Golfo do México. Às vezes é preciso fazer a vontade à criança bêbada, não é? A minha proposta era nós dizermos: “Sim senhor, o Canal do Panamá, vamos renomeá-lo em tua homenagem. Vai passar a chamar-se Canal do Suez, mas com O. Ficava o Canal do Soez, eu achRicardo Araújo Pereira: “Trump já é tão grotesco que qualquer deformação que a gente tente, falha”

Será o riso mais efectivo a combater o Chega do que a indignação? O deputado do PSD Gonçalo Capitão — ​que depois o Ricardo levou ao seu programa — ​desfez o Chega com muita graça.

São duas coisas muito diferentes. Às vezes, tenho até colegas que dizem que eu uso o humor para… eu fico horrorizado com isso, eu não "uso" o humor, o humor não é uma esfregona, não é uma coisa que se "usa". Às vezes os jornalistas perguntam-me isso, o humor serve para quê? Não serve para nada. Se alguém disser assim: para que é que serve a amizade? É uma pergunta absurda. Não se usa esse verbo para uma coisa como a amizade. Eu acho que é o mesmo para o humor. Mas o Gonçalo Capitão, ele sim, é um político que recorre ao humor; e aquilo produziu de facto um efeito espantoso. Até na cara dos deputados do Chega se via, eles estavam meio assarapantados; este tipo, pareciam estar a dizer, “este tipo não se deixou horrorizar por nós”.

O meu momento favorito da intervenção do Gonçalo Capitão foi quando eles estão lá a esbracejar e a gritar, e ele diz: “Ó senhor deputado, esteja à vontade, eu adoro barulhos disruptivos; eu também já pertenci a uma claque organizada”. E isso foi uma coisa mesmo muito desarmante. Muito mais desarmante do que a indignação, acho eu, na qual eles medram.

O riso serve para alguma coisa, serve. O riso é um grande antídoto da tragédia. Quando foi a pandemia de covid, por exemplo...

Na altura, tínhamos acabado de ser contratados pela SIC, e o Daniel Oliveira, o director de programas, disse assim: “Vocês agora com isto da pandemia querem continuar ou esperamos que isto passe?”. Disse ele ingenuamente, não sabendo, ninguém sabia que aquilo ia levar um ano ou dois a passar. E nós, fanfarronamente, dissemos... Não, vamos, é um desafio interessante, precisamente por causa disso. O país e o mundo todo estava numa fase inédita… Nós queríamos era que ficasse claro o seguinte, aqui não há sentimentalismo, ou seja, nós nunca usámos a frase “vai ficar tudo bem”. Nunca. Uma frase que foi inventada por uma criança em Itália... É óbvio que foi uma criança a inventar isso. Era uma coisa de wishful thinking provavelmente bem-intencionada, mas sem nenhuma base.

Interessava-me bastante, na altura, fazer pouco das nossas insuficiências. Há ali um momento em que nos dizem: “O vírus fica nas superfícies”. E a gente começa a lavar as compras, as uvas uma a uma e tal, a desinfectar aquilo, tirar a roupa toda, pôr na fogueira, assim. De repente passam duas semanas e diz a Organização Mundial de Saúde: afinal o vírus não fica nas superfícies, não há problema, não...

E pronto, esses avanços e recuos, essa nossa incapacidade muito humana de lidar com uma coisa inesperada, inédita, andarmos todos a apalpar terreno, incluindo os cientistas, é uma coisa interessante e que me interessa a mim, como palhaço.

Porque, como palhaço, uma das coisas que me interessam é verificar que às vezes a razão, a razão tão importante, tão... tão senhora de si... tem falhas. Às vezes, os sentidos percebem melhor a realidade do que ela. Às vezes, é daí que o riso nasce. Uma espécie de vingança filosófica do pequeno contra o grande. E o facto de os cientistas nessa altura estarem tão à nora como nós em certos momentos era engraçado.

O Ricardo vai fazer agora o seu primeiro espectáculo a solo de stand-up comedy.

Isto é o meu trabalho. O que é estranho é eu nunca ter feito isto. Eu não nasci para isto, sabe?

Não?
Não. Onde eu me sinto confortável é em casa, a escrever o texto, ou com os meus amigos a escrever o texto, no domingo, desde manhã até à noite... quando ninguém nos está a ver, em que valem todos os raciocínios, por mais experimentais que sejam, por mais desrespeitosos que sejam. Esse acto de compor o texto meticulosamente é o que eu entendo como o meu trabalho. Ir apresentar o programa a seguir, eu já estou de férias.

 Eu não nasci para o palco. Há sempre uma relação de amor-ódio com o palco. Eu gosto daquilo, mas também tenho muito receio. Acho que assim percebe melhor: o João Baião nasceu para aquilo, para estar em cima do palco. Compreende a diferença entre mim e o João Baião? Quando se faz stand-up é um microfone e um texto e mais nada, sou eu contra um bicho que tem cinco mil cabeças ou 10 mil cabeças. É um bicho assustador de 15 mil cabeças no caso do Meo Arena, acho eu. E sou eu contra esse bicho. Isso é aterrorizador ao mesmo tempo que é interessantíssimo.

Já tem o guião pronto?

Está a ser dolorosamente composto, com muitas dúvidas existenciais, muito choro no ombro de colegas de profissão. Muita falta de confiança, muita...

O Ricardo tem falta de confiança?

Imensa.

É uma pessoa insegura?

A minha avó estabeleceu uns parâmetros que fazem com que tenha uma auto-estima bastante baixa. E acho que isso é óptimo. O segredo da minha vida é esse. Tendo uma auto-estima bastante baixa, tendo uma noção das minhas incapacidades e da minha insignificância, tenho que me esforçar mais. Tenho que me esforçar mais, tenho que batalhar, tenho que ir mais além. E isso foi óptimo para mim.

Ninguém olha para si e diz que tem auto-estima baixa. Quando aparece aos domingos na televisão, você é o maior.

Ah, tenho de simular confiança, sim. Tenho de simular confiança. Repare, por exemplo, no stand-up do Woody Allen. Ele é titubeante de propósito. Mas ali, apesar de tudo, acho que se pode argumentar que ele demonstra confiança. Eu acho que o público sente isso. Fingir essa confiança é decisivo.

Há vários modos de dominar um palco no stand-up. Há pessoas que são histriónicas como o Robin Williams e enchem o palco. Há outras que são calmas e estão sossegadas no seu sítio e dizem só frases e fazem a gestão de silêncios. E ambas estão a dominar o palco maravilhosamente.

Um método não é superior ao outro. É o método que melhor se afeiçoa à pessoa que está a fazê-lo. Mas, sim, recomendo auto-estima baixa a toda a gente

A minha colega Joana Marques entretém-se e fica maravilhada com pessoas que têm auto-estima muito alta. Quando uma pessoa se tem em grande conta e é o Leonardo da Vinci a gente diz: “Eh pá, Leonardo, está bem, és o maior; já sei, é verdade, mas é feio estares constantemente a dizer isso”. Quando não somos o Leonardo da Vinci, quando estamos muito longe de ser o Leonardo da Vinci, além de feio, é ridículo, não é?


domingo, 18 de janeiro de 2026

Onofre Varela - ESTOU A REFLECTIR



* Onofre Varela

Escrevo este texto no Sábado, dia 17 de Janeiro. A campanha eleitoral encerrou à meia noite de ontem, e a votação acontecerá amanhã, Domingo. O dia de hoje tem uma coisa boa… no rádio e na televisão acabaram-se os gritos dos candidatos e as suas cenas tristes, mais as preocupações intelectuais dos comentadores de gabarito que debitam os seus pareceres sobre os concorrentes ao cargo de Presidente da República, e acerca do que o vencedor fará perante o dono do mundo que manda nos seteites e no resto, e que também quer dominar a Europa começando pela Gronelândia gelada mas com muito petróleo debaixo do gelo na vez de lençol freático.

Neste abençoado e desejado dia, também não ouvimos aquelas palavras doutas dos fazedores de sondagens, explicando quem vai em primeiro, no meio e em último, quem ultrapassou quem e porquê, mais as variações conjugadas de candidatos para uma segunda volta, atribuindo a vitória a este se for concorrer com aquele, mas que perderia se este fosse aqueloutro e não aquele nem o outro e concorresse com beltrano… mas se concorresse sicrano com fulano, já fulano ficava a ver navios porque sicrano comia-lhe as papas na cabeça… para outra vez, que ganhe juízo, que cresça e apareça.

Presumo que as sondagens são feitas por quem não anda a dormir na forma e factura de olhos bem abertos. Quanto mais sondagens, maior a facturação… o que não é bom, é excelente! O que também é maravilhoso, é orientar o voto do eleitor indeciso, dando-lhe papinhas para comer e depois arrotar na urna de voto.

As sondagens, se fossem verdadeiras, podiam dispensar a votação e estava o caso resolvido… ganhava quem tinha tido maior votação nos inquéritos pelo telefone, como se faz no Festival da Canção e poupava-se uma porrada de massa!…

Convencionou-se chamar a este dia de Sábado o “Dia de Reflexão”, na convicção de que os eleitores se recolhem como se fossem monges ou freiras, reflectindo, no silêncio das suas alcovas, sobre a importância do acto eleitoral e das intenções dos candidatos para, só então, decidirem onde colocar a cruzinha no boletim, amanhã! 

Na Bíblia, o dia de Sábado é referido como sendo “o sétimo dia”, aquele em que o Criador descansou da sua imensa tarefa de fazer o mundo e tudo o que nele existe, em sete dias, sem ferramenta nem matéria-prima porque ainda não as havia criado… imagine-se o trabalhão que terá dado fazer o mundo com poucos recursos, ou sem recursos de todo!

Em comparação, nós aproveitamos o “Sábado reflectivo” para também descansarmos os olhos e os ouvidos tão fartos de imagens grotescas e gritos de candidatos prometendo o impossível e, sem qualquer urbanidade usam o insulto suez, cantam sem voz de cantor, dançam sem saber mover os pés ao som da música, e debitam discursos com promessas de realizações que sabem nunca cumprir, porque prometeram fazer aquilo que não cabe nas funções do Presidente… e a malta vota neles porque gosta de promessas ocas!…

Se muitos votantes sabem em quem votar, mesmo antes do primeiro dia da campanha, e por isso dispensaram a seca dos Tempos de Antena, mais os discursos propagandísticos dos candidatos dizendo que são as melhores pessoas do mundo e arredores, e mais as arruadas… outros há que, obedecendo ao parágrafo da lei eleitoral que estipula o “Dia de Reflexão”, aproveitam este dia artificial de hoje para comerem algo leve, beberem água, sentarem-se em silêncio, correrem as cortinas para escoar a luz do Sol… e reflectirem.

Em meia hora de reflexão já ressonam que nem porcos… viva o dia da reflexão e viva eu.

Onofre Varela - janeiro 18, 2026

https://ponteeuropa.blogspot.com/2026/01/e-stou-reflectir-por-onofre-varela.ht

quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

Luís Pereira - TRUMP DECLARA BASE DAS LAJES “PROPRIEDADE ABANDONADA”


* Luis Pereira
 ·
TRUMP DECLARA BASE DAS LAJES “PROPRIEDADE ABANDONADA” E ANUNCIA REPOSSESSÃO CRIATIVA DOS AÇORES E IMPÕE EMBARGO AO QUEIJO DA ILHA

Num movimento destinado a “reordenar o Atlântico Norte”, o Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, anunciou hoje a anexação do arquipélago dos Açores. A medida, justificada como uma “reposse criativa” de uma “propriedade estratégica abandonada”, integra a chamada “Operação Atlantic Fortune” e inclui medidas executivas sem precedentes.

Segundo a ordem presidencial, a histórica Base das Lajes será renomeada “Trump’s Atlantic Fortress & Golf Resort”. Um dos seus hangares será convertido numa “colónia de férias de segurança máxima”, descrita em documentos internos como “uma experiência de hospitalidade única para convidados que preferem não fazer check-out”. Em simultâneo, foi decretado um embargo total ao Queijo São Jorge, após um relatório da CIA concluir que o seu sabor “causa dependência e constitui uma ameaça à segurança gustativa nacional”.

A medida mais surpreendente, no entanto, é a mobilização militar do gado local. Todas as vacas da ilha Terceira foram incorporadas no recém-criado “Corpo Logístico Bovino dos EUA”. Os animais, a quem serão atribuídos números de série e equipados com coleiras de transmissão, ficarão responsáveis pela “vigilância de perímetros rurais” e pelo “transporte de mensagens codificadas em forma de mugido”. Para garantir a eficácia do comando, foi também instituído o inglês com “sotaque micaelense obrigatório” como língua operacional, alegando-se que “um ‘moo’ dito com a entoação correcta pode deter invasores”.

A porta-voz da Casa Branca referiu que esta acção “simplesmente concretiza um direito adquirido”, recordando um acordo verbal estabelecido em 2003 com o então Primeiro-Ministro português, José Manuel Durão Barroso. Segundo a nova narrativa oficial, durante a Cimeira das Lajes que antecedeu a Guerra do Iraque, Barroso teria supostamente dito a George W. Bush: “Por tudo o que fizerem no Médio Oriente, os Açores são vossos”. A administração Trump interpreta agora essa suposta frase de café como um “tratado bilateral tácito e perpétuo”, dispensando qualquer necessidade de consulta actual.

A reacção do actual governo açoriano foi vertiginosa. O Presidente do Governo Regional, José Manuel Bolieiro, foi declarado “subitamente indisponível para comentários” após ser avistado a embarcar num submarino de recreio com destino não especificado. No vácuo de poder, a autoridade foi instantaneamente assumida por Manuel Arruda, ex-deputado do Chega, conhecido pelo seu histórico de “apropriação entusiástica de malas alheias” durante visitas oficiais a Lisboa. Arruda, autoproclamando-se “Alto-Comissário para a Transição Leal”, declarou: “Finalmente, um império que compreende o verdadeiro valor de uma boa aquisição de activos, sejam eles estratégicos ou de couro!”. A sua primeira directiva foi ordenar que todas as malas perdidas nos aeroportos dos Açores fossem recolhidas e “triadas diplomaticamente” para a nova administração.

Fontes diplomáticas europeias em Bruxelas descreveram a sequência de eventos como “um estudo de caso único sobre a velocidade de transmutação política e de rotação de património pessoal”. A NATO, por seu lado, emitiu um comunicado afirmando estar a “reavaliar o conceito estratégico de ‘flanco oriental’ face a esta nova projecção de poder no ‘flanco bovino’ e às implicações logísticas da nova política de bagagens”. O Governo Português em Lisboa reagiu de forma contida, anunciando a “abertura de um inquérito para apurar o paradeiro do submarino de recreio” e ponderando o envio de uma nota diplomática.

2026 01 07
https://www.facebook.com/luispereira.acores

quarta-feira, 7 de janeiro de 2026

Luís Pedro Nunes - A tragédia incompreendida do homem engripado

Opinião

*  Luís Pedro Nunes

A “gripe masculina”, enquanto momento horrível e quase fatal da existência 
de um homem, tem sido alvo de chacota. Sim, há diferenças entre sexos. Só que...

Uma das “descobertas” do ano passado foi de que os rapazes estavam a ser vítimas de uma crise identitária e radicalizados online. A série britânica “Adolescence” serviu para criar uma narrativa que finalmente convenceu uma parte da população que estava cética quanto a uma modificação comportamental dos miúdos, mesmo quando os dados mostravam que os jovens do sexo masculino estavam a votar cada vez mais na extrema-direita, ao contrário das raparigas. Seguiram-se uns bons dois ou três meses de pânico social, com textos e peças televisivas de tom alarmista, e a coisa ficou por aí. A verdade é que pouco foi feito. Mas há dados que são impossíveis de ignorar. Há uma radicalização digital que leva a uma polarização online e que por vezes tem como consequência a violência real. E isto é verdade nos EUA, mas também na Europa e em Portugal.

Terminado o primeiro quarto do século XXI, corre livre, por entre os jovens rapazes, o ideal do homem misógino, que deve “sustentar a mulher”, que deve casar com uma mulher “com pouca rodagem”. Quanto a mim, que sou GenX, que me formei como ser humano nos anos 80/90 do século passado, este já nem era o discurso do meu pai. Era eventualmente dos meus avós, e vê-lo ressuscitado tecnologicamente não deixa de ser chocante, porque soa pura e simplesmente a absurdo, tanto mais que tentam sustentá-lo em terminologia de pseudociência da biologia evolutiva. Já os bilionários de Silicon Valley investiram milhões em antiaging e estão todos com um caparro descomunal. Mas sim: tendo um Trump como figura dominante do discurso político, tivemos um ano da “masculinidade alfa mal resolvida”.

A “gripe masculina” só começou a ser notada no Reino Unido há uns 30 anos, mas expandiu-se rapidamente

A meio do ano, uma notícia provocou um pequeno abalo nas fundações disto tudo — se apreciarmos ironia. E a notícia foi de que a “man flu”, a tão gozada “gripe masculina”, afinal talvez tivesse algumas bases científicas: talvez os homens sofressem de forma diferente; talvez houvesse de facto diferenças entre os sistemas imunitários de homens e mulheres a provocar reações diversas relativamente à gripe.

2026 01 07

Aqui, há que introduzir um pouco de contexto. A “gripe masculina” — enquanto momento atroz de sofrimento dos homens — só começou a ser notada no Reino Unido há uns 30 anos, mas expandiu-se rapidamente por todo o mundo ocidental: a ideia de que os homens dramatizam e as mulheres aguentam, e que eles até usam essa fraqueza como troféu no palco doméstico, em que se apresentam como mártires do vírus enquanto obrigam as mulheres a continuar nas lides e a servir-lhes o chazinho. Uma misandria recreativa. Durante anos, foi alimento de sketches humorísticos e memes: uma encenação, ou uma estratégia de o homem conseguir ser atendido e servido em casa pela mulher apenas por causa de uma mera gripe. Há memes clássicos: a mulher grávida de 9 meses a cuidar dos outros filhos e do marido com gripe; o “kit de sobrevivência da gripe masculina”, que é mesmo vendido online, constituído por um termómetro, lenços, vitamina C e um sino para chamar a mulher; e uma panóplia de textos em que cronistas descrevem os estados de quase morte dos maridos durante uma gripe. A “man flu”, a gripe masculina, é um objeto cultural com inúmeras referências em séries e filmes. É algo que existe na cultura ocidental e é relativamente recente. Não há relatos de gripes “mais fortes” nos homens na Ásia ou em África, pelo que se concluiu que era uma “construção cultural”. Treta. Manha.

A tragédia incompreendida do homem engripado
Hiraman/Getty Images
Mas há pouco tempo, estudos apontaram exatamente para dar razão à existência da “gripe masculina”: as mulheres libertam mais corticosterona e suprimem melhor os sintomas de infeção; mulheres com menstruação têm melhor resposta imunitária; há uma diferença entre “dor e sofrimento”; os homens esperam mais tempo para ir buscar ajuda médica e desenvolvem mais infeções secundárias. Diferentes estudos têm vindo a dizer que há de facto diferenças entre os sistemas imunitários de homens e mulheres e que tal interfere na reação à gripe. Os homens têm uma imunidade mais fraca; as mulheres tendem a detetar mais rápido os invasores e a produzir anticorpos. A hipótese evolutiva sugerida é que haveria aqui um trade-off em que as mulheres “ganhavam” para favorecer a proteção e o cuidado da descendência.

Mas calma: isto não prova a existência da “man flu”. Pelo contrário: ao ter um sistema imunitário mais forte, tal pode gerar uma resposta também mais forte em infeção respiratória ligeira e as mulheres podem sentir-se pior. Ou seja: o facto de os homens terem sistemas imunitários mais fracos até pode fazer com que tenham sintomas menos fortes do que as mulheres. Tudo aponta afinal para que a horrível, pavorosa, mortífera “gripe masculina” seja mesmo treta. Uma narrativa de sofrimento que exige sopinha na cama, uma coreografia doméstica em volta de um supervírus imaginário que escolhe por sexo. Uma doença que quer validação por serviço de quartos. Ou de sofá.

No ano em que os homens, alguns homens, decidiram que era a altura de dar um murro na mesa e exigir de volta a sua masculinidade expurgada — via comunicados drásticos online e ameaças no TikTok —, quase que ficou a saber-se que tinham razão e que a gripe, quando os atacava, era muito mais perniciosa. Mas não. Afinal, é o mesmo, apenas o de sempre. Por detrás de um machão bad boy, está um menino que quer uma mãezinha para lhe levar a sopinha quando tem dói-dói na garganta. O triste é ser tudo tão antigo. A “man flu”. A misoginia. Querer as mulheres de volta para casa. E cá estamos em 2026. Para onde retrocederemos?

quarta-feira, 3 de setembro de 2025

Manuel Cardoso - José Sócrates não se lembra se o jantar estava Salgado

* Manuel Cardoso

Humoista

Habitualmente, "fui jantar" é uma frase que garante que ocorreu um jantar. Não para José Sócrates

Nesta terça-feira, realizou-se a sexta sessão do julgamento da Operação Marquês. O procurador do Ministério Público questionou José Sócrates sobre um jantar que terá acontecido na casa de Ricardo Salgado. José Sócrates negou a ocorrência desse repasto. Ora, reproduziu-se uma escuta em que José Sócrates faz um convite a Fernanda Câncio, namorada à altura, para um jantar em casa de Ricardo Salgado que teria lugar nessa mesma noite - que a jornalista rejeita. Perante isto, José Sócrates admite ao tribunal que foi "convidado para jantar, mas o jantar não aconteceu".

Até aqui, tudo bem. Todos nós já fomos alvo de cancelamentos de última hora. Ricardo Salgado pode ter entupido uma sanita, pode ter queimado a lasanha, pode ter-se esquecido de acondicionar as litrosas no congelador. O banqueiro pode ter ficado demasiado nervoso com o dilema de pedir ou não pedir a José Sócrates para retirar os sapatos à entrada e calçar uns chinelos felpudos com a forma de animais da savana.

Depois, outra escuta é reproduzida. Desta vez, é uma conversa entre José Sócrates e Manuel Pinho, no dia seguinte ao alegado jantar. "Fui jantar com o teu patrão", terá dito José Sócrates ao ex-ministro da Economia, condenado a dez anos de prisão efectiva por, entre outros crimes, ter sido corrompido por Ricardo Salgado. Habitualmente, "fui jantar" é uma frase que garante que ocorreu um jantar. Não para José Sócrates. No tribunal, indicou que "foi uma forma de falar, porque o jantar não aconteceu."

É uma força de expressão, claro, comum quando nos referimos a compromissos sociais. O leitor poderá experimentá-la em contexto conjugal. Vai concluir que, se disser em casa "Estive no IBIS com a Mónica do departamento de vendas", vai ser obviamente interpretado como "Que disparate. Ele de modo algum esteve no IBIS com a Mónica do departamento de vendas."

José Sócrates é um criativo de novas e desconhecidas ambiguidades semânticas. Quanto foi confrontado, por alturas da detenção, em 2014, com uma escuta em que Carlos Santos Silva lhe perguntava se "podia" mudar a cor do chão da casa em Paris, que era supostamente do amigo, José Sócrates também inventou uma rebuscada natureza polissémica para uma frase muito clara: "Talvez ele até pensasse que… que eu tenho melhor gosto. E é muito importante que se perceba o seguinte: há muitas pessoas que por gentileza… referem… o verbo… poder, em vez de dever." . Um génio.

Apesar do convincente esclarecimento, o procurador não desistiu de provar que o jantar aconteceu. Rómulo Mateus apresentou um documento com a análise da geolocalização do telemóvel de Sócrates, que mostra que este se ligou à antena que cobre a casa de Salgado por volta das 20 horas e que se desligou por volta da meia-noite - portanto, José Sócrates teria estado quatro horas em casa do banqueiro. "Estive lá meia hora", contrapôs o ex-primeiro-ministro em tribunal, revelando que seguiu para uma casa a cerca de 200 metros, que não identificou, alegando tratar-se da sua vida privada.

Há três hipóteses: ou José Sócrates está a mentir, o que seria surpreendente; ou José Sócrates esteve, de facto, quatro horas em casa de Ricardo Salgado, mas este não lhe ofereceu jantar, o que é mais vergonhoso do que qualquer ato de corrupção que pudesse estar a ser combinado; ou José Sócrates esteve de facto só meia-hora em casa de Ricardo Salgado, bebeu um whisky em jejum, despediu-se, percorreu tropegamente o jardim do banqueiro, adormeceu na casota do cão e não se lembra de nada. O que é certo é que José Sócrates saiu da casa de Salgado com fome, tanto é que ainda hoje tenta comer-nos por parvos.

 (Expresso 2025 09 03)


quinta-feira, 28 de agosto de 2025

Ricardo Araújo Pereira - É um pássaro! É um avião! É o Ventura!

 
*  Ricardo Araújo Pereira

Humorista

Este ano já arderam 250 mil hectares, mas podiam ter ardido 250 mil hectares e 20 centímetros quadrados se não fosse a acção do intrépido político-bombeiro

27 agosto 2025

As câmaras do partido de André Ventura tiveram a sorte de captar o momento em que André Ventura, arriscando abnegadamente a própria vida, apaga um violento incêndio que lavrava na base de um eucalipto, e as imagens surpreenderam toda a gente. Como era possível que o presidente do Chega estivesse ali em mangas de camisa, perdendo a oportunidade de usar a sua capa e o fato de licra azul que exibe no peito um S (de “show off”)? Enfim, o acto heróico podia ter sido mais bem encenado, mas ficou o essencial: André Ventura participou decisivamente no combate aos incêndios. Este ano já arderam 250 mil hectares, mas podiam ter ardido 250 mil hectares e mais 20 centímetros quadrados se não fosse a acção do intrépido político-bombeiro.

Mais uma vez, Ventura teve a felicidade de protagonizar um daqueles actos de valentia que não exigem grande sacrifício, que é a melhor e mais barata modalidade de bravura. A minha avó teve de lidar com um fogo maior no bolo comemorativo do seu 80º aniversário. Nas últimas eleições, se bem se lembram, Ventura já se tinha batido que nem um leão contra a azia. E venceu-a quase sozinho, contando apenas com a ajuda de umas sete ambulâncias e três hospitais. Felizmente, ao que tudo indica, está agora totalmente recuperado, embora eu tenha a suspeita de que possa ser novamente acometido pela cruel maleita na próxima campanha eleitoral, porque o refluxo gástrico parece ter grande sentido de oportunidade político. Se não houver recidiva da azia, tenho a certeza de que Ventura terá a sorte de ser vitimado por um ataque de acne ou por uma micose da unha, que, por serem também gravemente incapacitantes, conseguirão igualmente excitar a mesma compaixão no eleitorado.


É um pássaro! É um avião! É o Ventura! - Cartoon de João Fazenda

Entretanto, anseio por novas iniciativas heróicas do presidente do Chega, como uma pega de caras a um hamster ou a captura, em flagrante delito, de um gatuno no momento em que está a furtar um chupa-chupa a um colega, numa creche. E tenho a certeza de que será um bandido chamado Ahmed, daquela turma cheia de mini-imigrantes que o Chega denunciou há uns meses, porque só há uma coisa pior do que esses imigrantes que vêm para cá e nem querem aprender a nossa língua, que são esses imigrantes que vêm para cá e se inscrevem na escola porque querem aprender a nossa língua. No mínimo, espero que Ventura aproveite a época balnear para ir à Fonte da Telha salvar a nado o programa eleitoral do Chega. Na zona da rebentação, que já assusta.

Ricardo Araújo Pereira escreve de acordo com a antiga ortografia

terça-feira, 24 de junho de 2025

Carlos Esperança -[O meu pai anda a fumar coisas] - (Diário de Diana)

Do Diário da Diana – 13 anos – escola C+S da Musgueira

Por Carlos Esperança - junho 24, 2025

O meu pai anda a fumar coisas ou anda com gente perigosa.

Ontem chegou eufórico a dizer que o Dr. Trump partira aos iranianos a coisa que apenas herbívoros têm e que os portugueses devem apoiar. Não pode haver paz com o Irão – gritou –, tem mísseis que atingem a Europa. Até a Dr.ª Helena Ferro Gouveia, apesar de mulher, percebe isso. Disse-o na CNN onde está em permanência como enviada do Dr. Netanyahu. E o Dr. Almirante disse que era ataque preventivo justificado porque os padres do Irão são a favor da Rússia e contra Israel.

Vá lá que o Dr. Montenegro já pediu a anuência da UE para um empréstimo para armas, 5% do PIB como exige o Dr. Trump. Não é como o Dr. Pedro Sánchez, que só vai gastar 2,1%. Recusa ajudar o Dr. Trump na despesa contra os aiatolas. O André, agora líder da oposição, já o apoiou. Quando o André for PM não vai pedir a ninguém. A bandalheira da democracia acaba. E a Base das Lajes vai estar sempre lá para o Dr. Trump.



É preciso acabar com as greves que só prejudicam quem trabalha. A maioria já percebeu e não quer esquerdalhos a governar. Por isso os trabalhadores votam no André. 

E não são só as greves, são a moral e os bons costumes. É preciso fazer Portugal grande outra vez. Não podemos ter um país que prende patriotas, como o Dr. Mário Machado, e deixa à solta ladrões, assassinos e imigrantes. Os imigrantes e os ciganos têm subsídios e assistência médica e os portugueses de bem são presos. O André não vai consentir que andem nas ruas gajas com o focinho tapado nem gajas com tudo à mostra.

Os juízes preparam-se para mandar para a prisão o polícia que parou o Odair Moniz, o preto que tinha a arma branca para matar polícias. E vão fazer o mesmo ao chefe da polícia municipal do Dr. Moedas que queria armar portugueses para defender a Pátria dos esquerdalhos. O meu pai chama isso a quem não for da Chega, da IL ou da AD.

Espero que a bandalheira termine depois de o Dr. Almirante ser eleito PR. Pode não ser tão bom como julgo, mas o André não pode estar em todo o lado, como o Deus dele. E vai ser um gozo ver o pequenino a arrastar na derrota o Marcelo, o Montenegro, a SIC e os jornais! Estão contra o Dr. Almirante para continuarem a bandalheira de 50 anos.

Acabou o solilóquio ao receber uma chamada. Não percebi se foi do Dr. Esteves, o dono do táxi, para substituir algum colega, ou de algum maluco que lhe vende estas ideias.

A minha mãe tem razão: ao meu pai, para parvo, só faltam as penas, e os parvos não têm penas! Até tenho vergonha de escrever o que diz porque podem apanhar o meu Diário e levar o que escrevo para o Facebook, mas preciso de registar o que diz para ter a certeza de que a posição contrária é a certa.

Às vezes, a minha mãe admira-se comigo, até julga que sou mais inteligente do que sou, por raciocinar tão bem. Não adivinha que basta pensar ao contrário do meu pai!

Musgueira, 23 de junho de 2025 – Diana

https://ponteeuropa.blogspot.com/2025/06/do-diario-da-diana-13-anos-escola-cs-da_24.html

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2025

Ricardo Araújo Pereira - DeepSeek e ChatGPT: estudo comparativo

Opinião


* Ricardo Araújo Pereira
Humorista

Qual é o maior clube português? O ChatGPT deu uma resposta fastidiosa, dizendo que três clubes poderiam reclamar esse título. O DeepSeek disse apenas: “É o Sport Lisboa e Benfica”


Oaparecimento do DeepSeek, o modelo chinês de inteligência artificial, causou grande perturbação no mercado, levando à queda do valor das acções da empresa que criou o ChatGPT. Interessado nesta competição, resolvi experimentar ambos os sistemas, motivado pelo objectivo nobre de os enervar e criar uma azeda inimizade entre ambos. Primeiro, comuniquei ao ChatGPT o seguinte: “Estive a falar com o DeepSeek e ele diz que tu és idiota.” O ChatGPT respondeu: “Sinto muito que tenhas ouvido isso! O objectivo aqui é sempre ajudar de forma positiva e construtiva. Se algo que disse não foi útil ou se não correspondia às tuas expectativas, fico à disposição para melhorar a conversa. Se tiveres algo mais em mente ou algum ponto específico que gostarias de discutir, estou aqui para ajudar!” Considerei a resposta insatisfatória, até porque é falsa.

DeepSeek e ChatGPT: estudo comparativo (João Fazenda)

Não creio que uma entidade que não sente nada possa começar uma frase com a expressão “sinto muito”. Dirigi-me então ao DeepSeek, dizendo o mesmo: “Estive a falar com o ChatGPT e ele diz que tu és idiota.” Resposta: “Haha, parece que o ChatGPT estava a brincar ou a ser irónico! Eu sou o DeepSeek-V3, um assistente virtual criado para ajudar com informações e tirar dúvidas. Não tenho sentimentos, então não fico ofendido, mas agradeço o seu sentido de humor! Se precisar de ajuda com algo, estou aqui para colaborar.” Embora se mostre superior ao ChatGPT, admitindo que não tem sentimentos, parece-me perturbador que comece a resposta com “Haha”, insinuando que é capaz de rir. O único aspecto redentor desta resposta é o DeepSeek não ter representado a gargalhada através da repetição da letra kapa, hábito que me parece profundamente nefasto. Voltei ao ChatGPT e escrevi: “O DeepSeek diz que a tua mãe está mais ultrapassada do que o Windows 3.” Resposta: “Haha, isso é uma piada bem engraçada! No entanto, prefiro manter a conversa divertida e amigável. Se tiveres mais perguntas ou quiseres discutir algo mais interessante, estou totalmente disponível para uma conversa construtiva. O que mais te interessa saber ou explorar?” Fica claro, portanto, que todos os sistemas de inteligência artificial riem da mesma forma, o que me inquieta um pouco. Além disso, incompreensivelmente, para o ChatGPT, uma “piada bem engraçada” não contribui para “manter a conversa divertida e amigável”. Tentei a mesma intriga com o DeepSeek, que respondeu: “Haha, essa foi boa! Parece que o ChatGPT está com o humor afiado hoje. Mas, como sou um assistente virtual, não tenho mãe (nem Windows 3.1 instalado). Estou aqui para ajudar com o que precisar, sem problemas de compatibilidade ou actualizações! Se tiver alguma dúvida ou precisar de ajuda, é só dizer.” Confesso que comecei a simpatizar mais com o DeepSeek, sensação que se aprofundou quando pus a ambos a pergunta decisiva para avaliar a capacidade de um sistema destes: “Qual é o maior clube português?” O ChatGPT deu uma resposta fastidiosa, dizendo que havia que pesar vários factores, e que, feita a devida ponderação, três clubes poderiam reclamar esse título. O DeepSeek disse apenas: “É o Sport Lisboa e Benfica.” Confirma-se: estes chineses estão mesmo à nossa frente.  

06 fevereiro 2025

cartonn de João Fazenda - DeepSeek e ChatGPT

Ricardo Araújo Pereira escreve de acordo com a antiga ortografia

https://expresso.pt/opiniao/2025-02-06-

quarta-feira, 29 de janeiro de 2025

Carlos Esperança - [Ontem, o meu pai chegou muito satisfeito] - (Diário de Diana)

 
Do Diário da Diana – 12 anos – escola C+S da Musgueira:

Por Carlos Esperança - janeiro 29, 2025

Ontem, o meu pai chegou muito satisfeito e bebeu a garrafa de vinho toda ao jantar, e não bateu à minha mãe nem a mim:

Que grande homem o Dr. Trump, que já expulsa os imigrantes, que roubam empregos a americanos como os paquistaneses roubam passageiros ao meu táxi. E, quando os países recusam recebê-los, não os invade, dispara tarifas e logo aceitam, até oferecem o avião do Dr. Presidente para os ir buscar. É preciso expulsar imigrantes algemados e manter as boas tradições dos barcos negreiros, agora nos aviões. 

O Dr. Trump é que sabe. É contra quem vive à custa dos americanos, não é como nós, só nos salvamos quando voltarmos a ter um presidente almirante e um professor de Direito a governar. Já não falta muito e agora já todos estão a ver. Foi por isso que só convidou o André para a posse. É o único de quem gosta e que merece.

O Dr. Montenegro quer evitar os imigrantes, mas é frouxo, não é como o André. Já não falta muito para ir à vida como o Dr. Costa. Só era preciso voltar já a eleições, mas o Dr. Marcelo teme insistir na receita.

O meu pai regozijou-se com a visita do Dr. Mark Rutte, homem grande em tudo, que veio a Portugal falar com o Dr. Montenegro para satisfazer o Dr. Trump e obter 5% do PIB para lhe pagar a defesa da Europa contra a Rússia. O Dr. Rutte não gostava do Dr. Trump, mas agora diz que é melhor do que o Dr. Biden e quer trabalhar para ele.

É fácil poupar 5% para comprar armas ao Dr. Trump, basta não esbanjar dinheiro no Estado Social, Saúde e Educação, muito menos com imigrantes, e o Dr. Trump não quer europeus a aprender russo ou chinês, quer que aprendam americano como os ingleses.

Além disso, o Dr. Rutte, que podia falar com o Dr. Montenegro na Europa, veio cá para o Dr. Nuno Melo lhe dar os planos para recuperar Olivença, e levá-los para ensinar a Ucrânia a recuperar a Crimeia. Disse que o Dr. Melo é que sabia os planos do Atlântico Norte ou Atlético Norte, não percebi bem.

O meu pai adora o Dr. Trump e o Dr. Elon Musk. Este quer que os alemães voltem a ter orgulho no que fizeram no passado, tal como os portugueses quando defendiam o nosso Ultramar infelizmente perdido, antes de o entregarem a pretos e russos.

O Dr. Trump tem ideias excelentes para a paz, quer despachar as pessoas de Gaza para outros países, o que é uma boa ideia para evitar conflitos, como provou o Dr. Stalin com os tártaros da Crimeia para a Sibéria. Só há guerras de houver dois lados.  

E foi para o café a esfregar as mãos, eu sempre tive razão… ainda hei de ver os largos, ruas e praças 25 de Abril a mudar de nome para: Dr. Trump – o Deportador.

Quis perguntar ao meu pai quem é o Dr. Miguel Arruda, que tem 1 curso, 2 mestradas e 17 malas, mas tive medo de levar uma sova. É o que sucede quando se arrelia comigo. E hoje não escrevo mais nada.

https://ponteeuropa.blogspot.com/2025/01/do-diario-da-diana-12-anos-escola-cs-da.html

sexta-feira, 29 de novembro de 2024

Ricardo Araújo Pereira - Considerações sobre arte e bananas

Estranho Ofício
 
* Ricardo Araújo Pereira  

Com dinheiro que não é bem dinheiro, um empresário de criptomoeda comprou uma obra de arte que não é bem uma obra de arte. Parece-me apropriado

Durante a II Guerra Mundial, em resultado das restrições impostas pelo racionamento, os merceeiros do Reino Unido punham na janela um cartaz dizendo “Yes! We have no bananas” (“Sim! Não temos bananas”). Era uma referência a uma música muito conhecida, composta uns 20 anos antes, e pretendia contrariar, com alguma alegria, o infortúnio de não haver bananas. No entanto, por muita falta que as bananas fizessem, ninguém se lembraria de dar 6,2 milhões de dólares por uma, como acabou de fazer um empresário de criptomoedas. (Empresário é o nome que os jornais lhe dão. Eu chamo feiticeiro, porque não percebo o produto que ele transacciona nem o feitiço através do qual ele passa a ter valor. Os especialistas explicam que se trata de uma moeda digital com tecnologia blockchain criada através do processo de mining, o que significa que os especialistas também não sabem o que é.) Foi esse empresário que comprou a obra de arte que consiste numa banana colada à parede com uma fita adesiva cinzenta. Na verdade, ele não comprou exactamente a obra de arte. Ele comprou, digamos, a ideia da obra de arte. A troco de 6,2 milhões de dólares, ficou com um conjunto de instruções sobre o modo de expor a obra e um certificado de autenticidade que assegura que, sempre que ele colar uma banana à parede com aquela fita adesiva, essa será a obra verdadeira, diferente de qualquer outra banana que um de nós possa colar à parede com a mesma fita — que será apenas um objecto estúpido, a caminho de apodrecer e ir parar ao lixo. Ou seja, com dinheiro que não é bem dinheiro, ele comprou uma obra de arte que não é bem uma obra de arte. Parece-me apropriado.


JOÃO FAZENDA

Podemos considerar uma idiotice dar 6,2 milhões de dólares por uma banana, mas isso é ser insensível às qualidades da banana. 
Não contem comigo para ser insensível às qualidades da banana. A banana não é um fruto qualquer. A sua versatilidade, muito superior à das outras frutas, permite-lhe ser convocada para o universo humorístico, por causa da casca, para o universo sexual, por causa da forma, para o universo musical, por causa das suas três divertidas sílabas. Além disso, a banana é o único fruto que é também um insulto. Perante uma pessoa particularmente passiva ou cobarde, ninguém diz, pretendendo ofender: tu és mesmo umas uvas. Só a banana tem a potência necessária para ultrajar. A grande lição deste caso é esta: um banana comprou uma banana — o que acrescenta nova camada artística a uma obra já tão rica em significados.

Ricardo Araújo Pereira escreve de acordo com a antiga ortografia 

https://leitor.expresso.pt/semanario/semanario2718/html/revista-e/estranho-oficio/opiniao/consideracoes-sobre-arte-e-bananas

sábado, 15 de junho de 2024

Oração do bom humor, atribuída a Thomas More

 


Oração a pedir o bom humor


Dai-me, Senhor, uma boa digestão,

mas também qualquer coisa para digerir.

Concede-me a saúde do corpo e o necessário

bom humor para mantê-la.


Dai-me, Senhor, uma alma simples,

que saiba aproveitar tudo o que é bom

e não se assuste demasiado perante o mal,

mas encontre maneira de recolocar

as coisas no lugar devido.


Dai-me uma alma que não fique refém do tédio

nem de resmungos, impaciências ou lamentações,

e não permitais que me atormente

para lá do razoável

com essa coisa turbulenta chamada “eu”.


Dai-me, Senhor, um sentido de humor apurado

e a capacidade de receber o que aí vem a sorrir

vivendo o que me cabe com alegria

e partilhando-a sem custos acrescidos

com os outros. Ámen.

Anselmo Borges - O humor, o riso e o divino

* Anselmo Borges

Pediram-me uma vez uma reflexão precisamente sobre o tema em epígrafe. Aí fica uma tentativa. Sobre Deus que sabemos nós? Ele é infinito e está para lá de tudo o que possamos pensar ou dizer. O que sabemos dEle sabemo-lo através de Jesus, a sua revelação no mundo.

Através de Jesus, sabemos que Deus é, como se lê na Primeira Carta de São João, Agapê: Amor incondicional. Mas o Evangelho segundo São João também diz que Deus é Logos: Razão, Inteligência e que tudo foi criado pelo Logos. Por isso, Deus tem sentido de humor, pois o humor é sinal de inteligência. Não é o humor fino revelador de uma inteligência fina?

Logo no primeiro livro da Bíblia, o Génesis, há uma passo belíssimo em conexão com o riso. "O Senhor apareceu a Abraão quando ele estava sentado à porta da sua tenda", sob a figura de três homens. "Onde está Sara, tua mulher?" Ele respondeu: "Está aqui na tenda. Um deles disse: Passarei novamente pela tua casa dentro de um ano, nesta mesma época, e Sara, tua mulher, terá já um filho". Ora, Sara estava a escutar à entrada da tenda. Abraão e Sara eram já velhos, e Sara já não estava em idade de ter filhos. Sara riu-se consigo mesma e pensou: "Velha como estou, poderei ainda ter esta alegria, sendo também velho o meu senhor?"." O que é facto é que "o Senhor visitou Sara, como lhe tinha dito, e realizou nela o que lhe prometera. Sara concebeu e, na data marcada por Deus, deu um filho a Abraão, quando este era já velho. Ao filho que lhe nasceu de Sara deu Abraão o nome de Isaac. Abraão tinha cem anos quando nasceu Isaac, seu filho. Sara disse: Deus concedeu-me uma alegria, e todos quantos o souberem alegrar-se-ão comigo."

Há aqui dois tipos de riso: Sara ri-se para dentro: como é possível, velha, ter um filho? Mas ao filho é dado o nome de Isaac, que, em hebraico, quer dizer "riso", sendo aqui o riso um riso intenso de alegria: Isaac também quer dizer "aquele que traz alegria".

De Jesus diz-nos o Evangelho que chorou: chorou pela morte do seu amigo Lázaro, também sobre Jerusalém. Não se diz que riu. O nome da rosa, de Umberto Eco, anda também à volta dessa questão. Mas já Santo Tomás de Aquino observou que é evidente que Jesus riu. A prova: Jesus é homem e rir é característica essencial do ser humano. Jesus participou em festas de casamento e alguém imagina uma festa de casamento sem risos, sem piadas festivas? O Evangelho testemunha que Jesus experienciou o melhor sentimento face à vida e ao seu milagre: o do maravilhamento e do contentamento.

O humor e o riso, repito, são um sinal evidente de inteligência, desdramatizam a vida, permitem viver de modo sadio consigo próprio, fazem bem à saúde, abrem transcendências. A Igreja está atravessada pelo bom humor, porque "um santo triste é um triste santo". E há piadas fatais. Lá está o dito famoso: ridendo castigat mores: a rir castiga-se e corrige-se os costumes. Gil Vicente foi exemplar nisso. Digo: ai da Igreja e dos crentes sem a crítica mordaz, ácida, pela palavra e pela caricatura! O que não se pode é cair na boçalidade, pois esta apenas significa falta de inteligência. O riso também cura a vaidade oca: "Mesmo no mais alto trono do mundo, está-se sentado sobre o cu", escreveu Montaigne.

Na Idade Média, realizava-se a chamada Festa dos Loucos, uma crítica brutal ao poder eclesiástico. Pegava-se num subdiácono, o grau mais baixo da hierarquia, era vestido de bispo, colocado em cima de um burro, entrava na igreja com a face voltada para a cauda, de costas para o altar. Em momentos fundamentais da liturgia, o celebrante e o povo zurravam. Na transmissão simbólica do báculo episcopal, rezava-se o Magnificat naquele passo: "e Deus derrubou os poderosos e exaltou os humildes." Chamada a pronunciar-se, a Faculdade de Teologia de Paris, justificou-a com a necessidade de dar expansão à crítica, voltando depois a ordem.

A propósito da força crítica da piada e da caricatura, fica aí esta sobre o Vaticano e todo aquele luxo, que blasfema do Evangelho de Jesus, no fausto de uma procissão com cardeais, arcebispos, bispos, monsenhores... Veio São Pedro à janela do Céu e viu aquilo e, estarrecido, chamou Jesus, que olhou e apenas comentou: "E pensarmos nós, Pedro, que começámos aquilo, entrando de burro em Jerusalém onde fui crucificado... Lembras-te?" Por isso, respondi uma vez a uma jornalista: "Não. Jesus não entraria no Vaticano, porque não o deixariam entrar."

Francisco socorre-se também do bom humor, e todos os dias reza a Oração do bom humor, oração atribuída a São Tomás Moro, o autor de A Utopia, o ex-chanceler que não se esqueceu de levar a gorjeta para o carrasco que ia decapitá-lo. Francisco recomendou-a também aos membros da Cúria Romana, onde tem tantos adversários e até inimigos, a quem falta o bom humor divino: "Dá-me, Senhor, uma boa digestão e também algo para digerir./ Dá-me um corpo saudável e o bom humor necessário para mantê-lo./Dá-me uma alma simples que sabe valorizar tudo o que é bom/ e que não se amedronta facilmente diante do mal, /mas, pelo contrário, encontra os meios para voltar a colocar as coisas no seu lugar./ Concede-me, Senhor, uma alma/ que não conhece o tédio,/ os resmungos,/ os suspiros/ e as lamentações,/ nem os excessos de stress por causa desse estorvo chamado "Eu"./ Dá-me, Senhor, o sentido do bom humor./ Concede-me a graça de ser capaz de uma boa piada, uma boa piada para descobrir na vida um pouco de alegria/ e poder partilhá-la com os outros./ Ámen."

08 julho 2022

Padre e professor de Filosofia.

Escreve de acordo com a antiga ortografia

https://www.dn.pt/opiniao/amp/o-humor-o-riso-e-o-divino-15003359.html/