Textos e Obras Daqui e Dali, mais ou menos conhecidos ------ Nada do que é humano me é estranho (Terêncio)
sábado, 8 de agosto de 2026
HUMOR – Silly Season – (Data e compilador desconhecidos)
quarta-feira, 27 de maio de 2026
Manuel Cardoso - Passos Coelho não se aposenta, apresenta
terça-feira, 26 de maio de 2026
Rui Zink - MANUAL DO BOM FASCISTA
O BOM FASCISTA NÃO GOSTA DE SER CHAMADO FASCISTA
Acha que o retrato não lhe faz justiça. E a justiça é muito
importante para o bom fascista. Ele não suporta injustiças. E, afinal de
contas, o que significa "ser fascista"? Nada. Salazar, por exemplo.
Passam a vida a chamar-lhe fascista, mas «não era fascista» [sic — estas coisas
não se inventam]. Já muitos e bons doutores explicaram que Salazar não era
fascista. Fascistas eram Hitler e Mussolini. E Salazar era muito diferente de
Hitler e de Mussolini. Para começar, Hitler falava alemão e Mussolini italiano.
Ora, Salazar não falava nem alemão nem italiano, falava português. Para
terminar, Mussolini era gordo e careca e Hitler tinha bigode a Charlot. Já
Salazar, embora tivesse cabelo, não usava bigode. Só não vê quem não quer ver!
Haverá provas mais científicas de que nunca houve ditadura em Portugal? Ora
bem.
Depois, há todo um ror de infinitas e subtis (mas
significativas) diferenças. Salazar nao comia tagliatelle nem sauerkraut,
ele era patrioticamente mais aderente a dieta lusitana: bacalhau a Gomes de Sá,
arroz de cabidela, iscas com elas, chocos sem tinta.
Pimba.
E há mais:
«(...) Enquanto Mussolini, Hitler ou Franco discursavam e
apareciam em púbico em trajes militares, Salazar nunca o fez.»
Inteira razão, doutor Campos e Cunha, só não vê quem não
quer ver. Salazar era apenas, admitamos (sendo contemporizadores após este
momento de retórico triunfo), talvez "um bocadinho autoritário".
Mas isso era para o bem do país. E não enriqueceu. A prova é
que não deixou nada aos filhos nem pôs a empresa em nome da mulher.
*
O BOM FASCISTA NÃO SE ARMA EM ESQUISITO
O bom fascista alimenta-se de mentiras e distorções, é essa
a sua dieta favorita, mas, se não houver mais nada para comer, também não
desdenha a um facto. O bom fascista gosta de tasquinhar, e até acha graça à
ocasional verdade, desde que esses exóticos produtos chamados factos cumpram o
requisito fundamental: confirmarem aquilo que pensa.
Quando vê o noticiário, um bom fascista não se deixa
dispersar nem enganar: só escuta aquilo que já sabe. Um telejornal pode mostrar
golfinhos no Tejo, um incêndio em Los Angeles, uma entrevista um ministro
estrangeiro, greves em França, o julgamento dos separatistas em Espanha, uma
declaração do Papa sobre recentes escândalos, uma cimeira entre a Ucrânia e a
Rússia. Tudo isso o bom fascista vê com o ar adormecido de um velho crocodilo a
jogar bingo. Só quando sai o número certo — digamos, “cigano/muçulmano atacou
alguém" — é que o crocodilo lá abre um olho, subitamente alerta. E
comenta, satisfeito com a sua visão periférica:
«Eu sabia. Esta gente...»
*
O BOM FASCISTA NÃO SE METE EM POLÍTICA
Até porque a sua política é o trabalho.
E muito gosta o bom fascista do trabalho. Ao contrário dos
outros, que «não querem é trabalhar», o bom fascista quer
trabalhar. E não tem medo do trabalho. A sério, não tem. Consegue aproximar-se
do trabalho sem medo — desde que tenha um chicote, uma cadeira e, bem
entendido, o trabalho esteja devidamente açaimado e/ou acorrentado à parede.
Se o bom fascista tem um chicote e uma cadeira, e o trabalho
estiver devidamente açaimado, o trabalho que se cuide. Com ele não faz farinha.
Quando interrompe o trânsito e os carros de trás começam a
buzinar, o bom fascista ruge:
«Estou a trabalhar!»
E quando não o deixam passar, aí é o bom fascista que
carrega na buzina, e grita:
«Tira daí essa merda que tenho de ir trabalhar!»
Todavia, por vezes, o bom fascista também gosta de dizer,
rindo com gosto, que «o trabalho é bom é para o preto». Isto
é, aliás, por definição, o que faz rir o bom fascista: imaginar alguém a ser
pisado, maltratado, espezinhado. E a levar porrada no lombo, se refilar, para
aprender a da próxima vez ficar quietinho.
O bom fascista, quando ri, ri de cima para baixo.
O que nem sempre é fácil, convenhamos. Sobretudo quando
estamos cheios de trabalho.
O bom fascista gosta tanto de trabalhar que, quando não está
a trabalhar, finge que está a trabalhar.
*
O BOM FASCISTA TOLERA PRETOS, DESDE QUE SAIBAM O SEU LUGAR
Esta não é a terra deles, diz o mesmo bom fascista que antes
achava que a terra deles era "nossa". Esta terra é a nossa terra e se
não gostam voltem para a terra deles. Quem não está bem, muda-se. E calem-se.
Parem com a chinfrineira sobre o "colonialismo" e o “tráfico de
escravos”. Quem não está bem emudece.
Eles são eles e nós somos nós e assim é que é bonito. O bom
fascista desconfia do até do turismo: pode ser imigração encapotada. E
tecnicamente até é, só que imigração por pouco tempo —
tal como a imigração pode ser também vista como turismo prolongado.
De igual modo, aquilo a que chamam "tráfico de
escravos" pode ter sido apenas a invenção, ainda titubeante, do turismo
moderno. Afinal, quando levaram pretos de África para o Brasil, não estariam os
nossos gloriosos antepassados apenas a criar a primeira Agência Abreu da
História? Certo, as condições no porão talvez não fossem as melhores, mas os
lugares na Ryanair e na EasyJet também são apertados. E desde quando quem viaja
quase à borla (ou mesmo à borla, no caso dos escravos) tem direito a queixar-se?
O bom fascista nada tem contra os pretos, atenção, só acha é
que não têm a nossa cultura, não partilham os nossos valores e está mal se
vêm para cá surrupiar os nossos empregos e, com os seus mastodônticos
marsápios, ficar com as nossas mulheres.
O BOM FASCISTA NÃO TEM SAUDADES DE SALAZAR
Nem precisa. Por que raio precisaria se Salazar continua
vivo em nossos corações, fígados, bocas e mentes?
Factos são factos. Mesmo passado meio século, o bom homem
continua a polonizar-nos o imaginário, qual abelhinha redentora.
Qual santa da ladeira, continua a escutar e a reciclar os
nossos pecados.
Qual el-rei D. Sebastião em modo de rancho-melhorado, não
precisa de voltar numa noite de nevoeiro — pois ele mesmo é nevoeiro.
O bom fascista sabe que Salazar «sempre quis o
melhor para o país». E concede que (está bem, melga) aqui e ali terá
sido um bocadinho autoritário e que a PIDE terá feito coisas, das quais ele até
nem não sabia, porque não lhe diziam tudo. Agora fascista, Salazar? Isso não.
Foi o quê. então? Foi, digamos, um bocadinho
autoritário.
A verdade é que, vendendo volfrâmio aos alemães e
emprestando a base das Lajes aos americanos, «Salazar salvou-nos da
guerra». E fê-lo com a mesma camponesa manha com que acomodava espiões
aliados no Hotel Vitória (hoje, ó ironia, sede do PCP) e espiões nazis
no Tivoli (hoje, oh ironia, ainda um belo hotel).
E Salazar foi sempre humilde e discreto. Certo, viveu
quarenta anos num palácio — mas acaso era seu? Ah, bom. Tava a ver. E, modesto
e humilde, nunca foi agarrado ao poder. O poder é que se lhe agarrou às mãos
como um irritante adesivo se cola aos dedos. Acaso uma pessoa é culpada por um
adesivo se lhe colar aos dedos?
Ná, o bom fascista não tem saudades de Salazar. Acha apenas
que Portugal precisa de um outro Salazar. Alguém que pusesse isto no eixo.
(“Manual do Bom Fascista”, Rui Zink. Ideias de Ler, 2019)
Caricaturas de João Abel Manta (1928-2026, Lisboa)
quarta-feira, 20 de maio de 2026
Manuel Cardoso - Abril, mágoas mil
Manuel Cardoso - A inaudita guerra da Serra de Carnaxide
domingo, 26 de abril de 2026
Entrevista a Ricardo Araújo Pereira
Ricardo Araújo
Pereira é o convidado da estreia do novo podcast de Ana Sá Lopes, na
semana em que estreia o seu espectáculo de stand-up “Verificando se você
é humano”.
Ana Sá Lopes e Tiago Orato (edição)
20 de Abril de
2026
Ricardo Araújo
Pereira: “A minha avó estabeleceu parâmetros que fazem com que eu tenha uma
auto-estima bastante baixa”
Ricardo Araújo
Pereira é o primeiro convidado de O Que Fazer Quanto Tudo Arde, um podcast
sobre os tempos que correm. Neste episódio, Ricardo Araújo
Pereira descreve Donald Trump como uma “criança bêbada” e estávamos ainda em
Março quando gravámos, ainda Trump não se tinha mascarado de Jesus Cristo.
Falámos do riso e do Chega e da liberdade de expressão.
Há um mês,
Ricardo Araújo Pereira estava a preparar o guião do seu espectáculo de stand-up comedy que estreia
sexta-feira, no Porto. Na altura, o texto estava a ser “dolorosamente
composto”. Ricardo diz que não é homem de palco, que é inseguro, e que tem uma
auto-estima baixa: “A minha avó estabeleceu uns parâmetros que fazem com que eu
tenha uma auto-estima bastante baixa”. Mas ter auto-estima baixa talvez seja o
segredo do seu sucesso: “Tenho de me esforçar mais”.
O que fazer
quando tudo arde está disponível na Apple Podcasts, Spotify, YouTube e restantes aplicações para podcasts.
Ricardo Araújo Pereira: “Trump já é tão
grotesco que qualquer deformação que a gente tente, falha”
Ricardo Araújo
Pereira diz que não nasceu para o palco. “Há sempre uma relação de amor-ódio
com o palco. Eu gosto daquilo, mas também tenho muito receio”. O seu primeiro
solo estreou na sexta-feira.
Ana Sá Lopes
26 de Abril de
2026
Esta conversa
com Ricardo Araújo Pereira é uma parte da entrevista que o humorista deu ao podcast
“O que fazer quando tudo arde”, que estreou no PÚBLICO na
segunda-feira e que pode ser ouvido em todas as plataformas. A gravação desta
conversa aconteceu em Março, quando Araújo Pereira ainda estava a preparar o
guião do seu espectáculo de stand-up comedy que estreou no Porto na
sexta-feira.
Donald Trump chegou a dizer que iria bombardear o Irão “for fun”, por divertimento. Julgávamos que o divertimento era coisa de humorista, mas parece que isto está estendido.
Sim, pois está. Uma coisa desse tipo não costumava ser frequente num estadista,
não é? Dizer "eu vou continuar a bombardear este país "for fun",
por diversão, é provavelmente uma das razões que tornam Trump incaricaturável,
no sentido em que ele já é uma caricatura de tal modo grotesca que qualquer
deformação que a gente tente, falha. Falha perante o original.
Como diz um
amigo meu, que tem a mesma profissão que eu: nós estamos habituados a ser o mau
aluno, o cábula; nós estamos na última fila a mandar bocas. Esse tipo de
intervenção coloca Trump na última fila connosco, mas de uma forma grotesca
justamente porque ele não está a brincar.
Já podemos
falar em loucura de Trump? Fukuyama disse que o país mais poderoso do mundo
está a ser governado por um rapaz de 10 anos…
Eu estava a
escrever sobre isso no outro dia. Ele tem elementos de infantilidade e de
embriaguez. Parece que estamos a lidar com uma criança bêbada, que é uma ideia
muito perturbadora, uma criança estar bêbada. É difícil lidar com ele. Por
exemplo, ele tem alguns dos indícios de infantilidade, aquele vocabulário
tremendista. É o maior de sempre; são todos mentirosos. E isso é difícil de
contrariar no mesmo sentido em que é difícil.
Quando a
criança pergunta porque é que o Pai Natal ainda não chegou... Nós não
discutimos racionalmente com a criança, não dizemos “olha, o Pai Natal não
existe, na verdade, os presentes são...”. Nós dizemos: “Bom, ele está de facto
a conduzir o seu trenó voador, mas está a passar em algumas outras casas de
crianças antes de chegar à nossa”. Talvez esse seja o modelo para reagir a
Donald Trump. Quando ele disse que os imigrantes estão a comer cães, animais de estimação em
Springfield, Ohio, os jornalistas tentaram a abordagem racional: não existe
nenhuma prova de que haja imigrantes a comer animais de estimação nessa cidade.
Eu acho que era mais vantajoso dizer: “Sim, não há dúvida de que eles comem
animais de estimação no Ohio, mas só quando o animal de estimação é um dragão”.
E fornecer receitas de chanfana de dragão e de arroz de dragão. Isso baralha a
criança, porque lhe indica que nós temos uma capacidade de efabulação superior
à dela, o que perturba e transforma uma coisa má numa coisa boa.
Posso estar
enganado, mas talvez o mundo devesse reagir dessa maneira. Eu até tive uma
ideia para, quando ele quer renomear coisas, do género de renomear o Golfo do México. Às vezes é preciso fazer a
vontade à criança bêbada, não é? A minha proposta era nós dizermos: “Sim
senhor, o Canal do Panamá, vamos renomeá-lo em tua homenagem. Vai passar a
chamar-se Canal do Suez, mas com O. Ficava o Canal do Soez, eu achRicardo
Araújo Pereira: “Trump já é tão grotesco que qualquer deformação que a gente
tente, falha”
Será o riso
mais efectivo a combater o Chega do que a indignação? O deputado do PSD Gonçalo
Capitão — que depois o Ricardo levou ao seu programa — desfez o
Chega com muita graça.
São duas coisas
muito diferentes. Às vezes, tenho até colegas que dizem que eu uso o humor
para… eu fico horrorizado com isso, eu não "uso" o humor, o humor não
é uma esfregona, não é uma coisa que se "usa". Às vezes os
jornalistas perguntam-me isso, o humor serve para quê? Não serve para nada. Se
alguém disser assim: para que é que serve a amizade? É uma pergunta absurda.
Não se usa esse verbo para uma coisa como a amizade. Eu acho que é o mesmo para
o humor. Mas o Gonçalo Capitão, ele sim, é um político que recorre ao
humor; e aquilo produziu de facto um efeito espantoso. Até na cara dos
deputados do Chega se via, eles estavam meio assarapantados; este tipo,
pareciam estar a dizer, “este tipo não se deixou horrorizar por nós”.
O meu momento
favorito da intervenção do Gonçalo Capitão foi quando eles estão lá a
esbracejar e a gritar, e ele diz: “Ó senhor deputado, esteja à vontade, eu
adoro barulhos disruptivos; eu também já pertenci a uma claque organizada”. E
isso foi uma coisa mesmo muito desarmante. Muito mais desarmante do que a
indignação, acho eu, na qual eles medram.
O riso serve
para alguma coisa, serve. O riso é um grande antídoto da tragédia. Quando foi a
pandemia de covid, por exemplo...
Na altura,
tínhamos acabado de ser contratados pela SIC, e o Daniel Oliveira, o director
de programas, disse assim: “Vocês agora com isto da pandemia querem continuar
ou esperamos que isto passe?”. Disse ele ingenuamente, não sabendo, ninguém
sabia que aquilo ia levar um ano ou dois a passar. E nós, fanfarronamente,
dissemos... Não, vamos, é um desafio interessante, precisamente por causa
disso. O país e o mundo todo estava numa fase inédita… Nós queríamos era que
ficasse claro o seguinte, aqui não há sentimentalismo, ou seja, nós nunca
usámos a frase “vai ficar tudo bem”. Nunca. Uma frase que foi inventada por uma
criança em Itália... É óbvio que foi uma criança a inventar isso. Era uma coisa
de wishful thinking provavelmente bem-intencionada, mas sem nenhuma
base.
Interessava-me
bastante, na altura, fazer pouco das nossas insuficiências. Há ali um momento
em que nos dizem: “O vírus fica nas superfícies”. E a gente começa a lavar as
compras, as uvas uma a uma e tal, a desinfectar aquilo, tirar a roupa toda, pôr
na fogueira, assim. De repente passam duas semanas e diz a Organização Mundial
de Saúde: afinal o vírus não fica nas superfícies, não há problema, não...
E pronto, esses
avanços e recuos, essa nossa incapacidade muito humana de lidar com uma coisa
inesperada, inédita, andarmos todos a apalpar terreno, incluindo os cientistas,
é uma coisa interessante e que me interessa a mim, como palhaço.
Porque, como
palhaço, uma das coisas que me interessam é verificar que às vezes a razão, a
razão tão importante, tão... tão senhora de si... tem falhas. Às vezes, os
sentidos percebem melhor a realidade do que ela. Às vezes, é daí que o riso
nasce. Uma espécie de vingança filosófica do pequeno contra o grande. E o facto
de os cientistas nessa altura estarem tão à nora como nós em certos momentos
era engraçado.
O Ricardo vai fazer agora o seu primeiro espectáculo a solo de stand-up comedy.
Isto é o meu trabalho. O que é estranho é eu nunca ter feito isto. Eu não nasci
para isto, sabe?
Não?
Não. Onde eu me sinto confortável é em casa, a escrever o texto, ou com os meus
amigos a escrever o texto, no domingo, desde manhã até à noite... quando
ninguém nos está a ver, em que valem todos os raciocínios, por mais
experimentais que sejam, por mais desrespeitosos que sejam. Esse acto de compor
o texto meticulosamente é o que eu entendo como o meu trabalho. Ir apresentar o
programa a seguir, eu já estou de férias.
Eu não nasci para o palco. Há sempre uma
relação de amor-ódio com o palco. Eu gosto daquilo, mas também tenho muito
receio. Acho que assim percebe melhor: o João Baião nasceu para aquilo, para
estar em cima do palco. Compreende a diferença entre mim e o João Baião? Quando
se faz stand-up é um microfone e um texto e mais nada, sou eu contra um
bicho que tem cinco mil cabeças ou 10 mil cabeças. É um bicho assustador de 15
mil cabeças no caso do Meo Arena, acho eu. E sou eu contra esse bicho. Isso é
aterrorizador ao mesmo tempo que é interessantíssimo.
Já tem o
guião pronto?
Está a ser
dolorosamente composto, com muitas dúvidas existenciais, muito choro no ombro
de colegas de profissão. Muita falta de confiança, muita...
O Ricardo tem falta de confiança?
Imensa.
É uma pessoa insegura?
A minha avó estabeleceu uns parâmetros que fazem com que tenha uma auto-estima bastante baixa. E acho que isso é óptimo. O segredo da minha vida é esse. Tendo uma auto-estima bastante baixa, tendo uma noção das minhas incapacidades e da minha insignificância, tenho que me esforçar mais. Tenho que me esforçar mais, tenho que batalhar, tenho que ir mais além. E isso foi óptimo para mim.
Ninguém olha para si e diz que tem auto-estima baixa. Quando aparece aos domingos na televisão, você é o maior.
Ah, tenho de simular confiança, sim. Tenho de simular confiança. Repare, por
exemplo, no stand-up do Woody Allen. Ele é titubeante de propósito. Mas
ali, apesar de tudo, acho que se pode argumentar que ele demonstra confiança.
Eu acho que o público sente isso. Fingir essa confiança é decisivo.
Há vários modos de dominar um palco no stand-up. Há pessoas que são
histriónicas como o Robin Williams e enchem o palco. Há outras que são calmas e
estão sossegadas no seu sítio e dizem só frases e fazem a gestão de silêncios.
E ambas estão a dominar o palco maravilhosamente.
Um método não é superior ao outro. É o método que melhor se afeiçoa à pessoa
que está a fazê-lo. Mas, sim, recomendo auto-estima baixa a toda a gente
A minha colega Joana Marques entretém-se e fica maravilhada com pessoas que têm auto-estima muito alta. Quando uma pessoa se tem em grande conta e é o Leonardo da Vinci a gente diz: “Eh pá, Leonardo, está bem, és o maior; já sei, é verdade, mas é feio estares constantemente a dizer isso”. Quando não somos o Leonardo da Vinci, quando estamos muito longe de ser o Leonardo da Vinci, além de feio, é ridículo, não é?
domingo, 18 de janeiro de 2026
Onofre Varela - ESTOU A REFLECTIR
quinta-feira, 8 de janeiro de 2026
Luís Pereira - TRUMP DECLARA BASE DAS LAJES “PROPRIEDADE ABANDONADA”
quarta-feira, 7 de janeiro de 2026
Luís Pedro Nunes - A tragédia incompreendida do homem engripado
quarta-feira, 3 de setembro de 2025
Manuel Cardoso - José Sócrates não se lembra se o jantar estava Salgado
* Manuel Cardoso
Humoista
Habitualmente, "fui jantar" é uma frase que garante que ocorreu um jantar. Não para José Sócrates
Nesta
terça-feira, realizou-se a sexta sessão do
julgamento da Operação Marquês. O procurador do Ministério
Público questionou José Sócrates sobre um jantar que terá acontecido na casa de
Ricardo Salgado. José Sócrates negou a ocorrência desse repasto. Ora,
reproduziu-se uma escuta em que José Sócrates faz um convite a Fernanda Câncio,
namorada à altura, para um jantar em casa de Ricardo Salgado que teria lugar
nessa mesma noite - que a jornalista rejeita. Perante isto, José Sócrates
admite ao tribunal que foi "convidado para jantar, mas o jantar não
aconteceu".
Até
aqui, tudo bem. Todos nós já fomos alvo de cancelamentos de última hora.
Ricardo Salgado pode ter entupido uma sanita, pode ter queimado a lasanha, pode
ter-se esquecido de acondicionar as litrosas no congelador. O banqueiro pode
ter ficado demasiado nervoso com o dilema de pedir ou não pedir a José Sócrates
para retirar os sapatos à entrada e calçar uns chinelos felpudos com a forma de
animais da savana.
Depois,
outra escuta é reproduzida. Desta vez, é uma conversa entre José Sócrates e
Manuel Pinho, no dia seguinte ao alegado jantar. "Fui jantar com o teu
patrão", terá dito José Sócrates ao ex-ministro da Economia, condenado a
dez anos de prisão efectiva por, entre outros crimes, ter sido corrompido por
Ricardo Salgado. Habitualmente, "fui jantar" é uma frase que garante
que ocorreu um jantar. Não para José Sócrates. No tribunal, indicou que
"foi uma forma de falar, porque o jantar não aconteceu."
É
uma força de expressão, claro, comum quando nos referimos a compromissos
sociais. O leitor poderá experimentá-la em contexto conjugal. Vai concluir que,
se disser em casa "Estive no IBIS com a Mónica do departamento de
vendas", vai ser obviamente interpretado como "Que disparate. Ele de
modo algum esteve no IBIS com a Mónica do departamento de vendas."
José
Sócrates é um criativo de novas e desconhecidas ambiguidades semânticas. Quanto
foi confrontado, por alturas da detenção, em 2014, com uma escuta em que Carlos
Santos Silva lhe perguntava se "podia" mudar a cor do chão da casa em
Paris, que era supostamente do amigo, José Sócrates também inventou uma
rebuscada natureza polissémica para uma frase muito clara: "Talvez ele até
pensasse que… que eu tenho melhor gosto. E é muito importante que se perceba o
seguinte: há muitas pessoas que por gentileza… referem… o verbo… poder, em vez
de dever." . Um génio.
Apesar
do convincente esclarecimento, o procurador não desistiu de provar que o jantar
aconteceu. Rómulo Mateus apresentou um documento com a análise da
geolocalização do telemóvel de Sócrates, que mostra que este se ligou à antena
que cobre a casa de Salgado por volta das 20 horas e que se desligou por volta
da meia-noite - portanto, José Sócrates teria estado quatro horas em casa do
banqueiro. "Estive lá meia hora", contrapôs o ex-primeiro-ministro em
tribunal, revelando que seguiu para uma casa a cerca de 200 metros, que não
identificou, alegando tratar-se da sua vida privada.
Há
três hipóteses: ou José Sócrates está a mentir, o que seria surpreendente; ou
José Sócrates esteve, de facto, quatro horas em casa de Ricardo Salgado, mas
este não lhe ofereceu jantar, o que é mais vergonhoso do que qualquer ato de
corrupção que pudesse estar a ser combinado; ou José Sócrates esteve de facto
só meia-hora em casa de Ricardo Salgado, bebeu um whisky em jejum, despediu-se,
percorreu tropegamente o jardim do banqueiro, adormeceu na casota do cão e não
se lembra de nada. O que é certo é que José Sócrates saiu da casa de Salgado
com fome, tanto é que ainda hoje tenta comer-nos por parvos.
quinta-feira, 28 de agosto de 2025
Ricardo Araújo Pereira - É um pássaro! É um avião! É o Ventura!
terça-feira, 24 de junho de 2025
Carlos Esperança -[O meu pai anda a fumar coisas] - (Diário de Diana)
sexta-feira, 7 de fevereiro de 2025
Ricardo Araújo Pereira - DeepSeek e ChatGPT: estudo comparativo
quarta-feira, 29 de janeiro de 2025
Carlos Esperança - [Ontem, o meu pai chegou muito satisfeito] - (Diário de Diana)
sexta-feira, 29 de novembro de 2024
Ricardo Araújo Pereira - Considerações sobre arte e bananas
sábado, 15 de junho de 2024
Oração do bom humor, atribuída a Thomas More
Oração a pedir o bom humor
Dai-me, Senhor, uma boa digestão,
mas também qualquer coisa para digerir.
Concede-me a saúde do corpo e o necessário
bom humor para mantê-la.
Dai-me, Senhor, uma alma simples,
que saiba aproveitar tudo o que é bom
e não se assuste demasiado perante o mal,
mas encontre maneira de recolocar
as coisas no lugar devido.
Dai-me uma alma que não fique refém do tédio
nem de resmungos, impaciências ou lamentações,
e não permitais que me atormente
para lá do razoável
com essa coisa turbulenta chamada “eu”.
Dai-me, Senhor, um sentido de humor apurado
e a capacidade de receber o que aí vem a sorrir
vivendo o que me cabe com alegria
e partilhando-a sem custos acrescidos
com os outros. Ámen.
Anselmo Borges - O humor, o riso e o divino
* Anselmo Borges
Pediram-me uma vez uma reflexão
precisamente sobre o tema em epígrafe. Aí fica uma tentativa. Sobre Deus que
sabemos nós? Ele é infinito e está para lá de tudo o que possamos pensar ou
dizer. O que sabemos dEle sabemo-lo através de Jesus, a sua revelação no mundo.
Através de Jesus, sabemos que Deus é,
como se lê na Primeira Carta de São João, Agapê: Amor incondicional. Mas o
Evangelho segundo São João também diz que Deus é Logos: Razão, Inteligência e
que tudo foi criado pelo Logos. Por isso, Deus tem sentido de humor, pois o
humor é sinal de inteligência. Não é o humor fino revelador de uma inteligência
fina?
Logo no primeiro livro da Bíblia, o
Génesis, há uma passo belíssimo em conexão com o riso. "O Senhor apareceu
a Abraão quando ele estava sentado à porta da sua tenda", sob a figura de
três homens. "Onde está Sara, tua mulher?" Ele respondeu: "Está
aqui na tenda. Um deles disse: Passarei novamente pela tua casa dentro de um
ano, nesta mesma época, e Sara, tua mulher, terá já um filho". Ora, Sara
estava a escutar à entrada da tenda. Abraão e Sara eram já velhos, e Sara já
não estava em idade de ter filhos. Sara riu-se consigo mesma e pensou:
"Velha como estou, poderei ainda ter esta alegria, sendo também velho o
meu senhor?"." O que é facto é que "o Senhor visitou Sara, como
lhe tinha dito, e realizou nela o que lhe prometera. Sara concebeu e, na data
marcada por Deus, deu um filho a Abraão, quando este era já velho. Ao filho que
lhe nasceu de Sara deu Abraão o nome de Isaac. Abraão tinha cem anos quando
nasceu Isaac, seu filho. Sara disse: Deus concedeu-me uma alegria, e todos
quantos o souberem alegrar-se-ão comigo."
Há aqui dois tipos de riso: Sara
ri-se para dentro: como é possível, velha, ter um filho? Mas ao filho é dado o
nome de Isaac, que, em hebraico, quer dizer "riso", sendo aqui o riso
um riso intenso de alegria: Isaac também quer dizer "aquele que traz
alegria".
De Jesus diz-nos o Evangelho que
chorou: chorou pela morte do seu amigo Lázaro, também sobre Jerusalém. Não se
diz que riu. O nome da rosa, de Umberto Eco, anda também à volta dessa questão.
Mas já Santo Tomás de Aquino observou que é evidente que Jesus riu. A prova:
Jesus é homem e rir é característica essencial do ser humano. Jesus participou
em festas de casamento e alguém imagina uma festa de casamento sem risos, sem
piadas festivas? O Evangelho testemunha que Jesus experienciou o melhor
sentimento face à vida e ao seu milagre: o do maravilhamento e do
contentamento.
O humor e o riso, repito, são um
sinal evidente de inteligência, desdramatizam a vida, permitem viver de modo
sadio consigo próprio, fazem bem à saúde, abrem transcendências. A Igreja está
atravessada pelo bom humor, porque "um santo triste é um triste
santo". E há piadas fatais. Lá está o dito famoso: ridendo
castigat mores: a rir castiga-se e corrige-se os costumes. Gil Vicente foi
exemplar nisso. Digo: ai da Igreja e dos crentes sem a crítica mordaz, ácida,
pela palavra e pela caricatura! O que não se pode é cair na boçalidade, pois
esta apenas significa falta de inteligência. O riso também cura a vaidade oca:
"Mesmo no mais alto trono do mundo, está-se sentado sobre o cu",
escreveu Montaigne.
Na Idade Média, realizava-se a
chamada Festa dos Loucos, uma crítica brutal ao poder eclesiástico. Pegava-se
num subdiácono, o grau mais baixo da hierarquia, era vestido de bispo, colocado
em cima de um burro, entrava na igreja com a face voltada para a cauda, de
costas para o altar. Em momentos fundamentais da liturgia, o celebrante e o
povo zurravam. Na transmissão simbólica do báculo episcopal, rezava-se o
Magnificat naquele passo: "e Deus derrubou os poderosos e exaltou os
humildes." Chamada a pronunciar-se, a Faculdade de Teologia de Paris,
justificou-a com a necessidade de dar expansão à crítica, voltando depois a
ordem.
A propósito da força crítica da piada
e da caricatura, fica aí esta sobre o Vaticano e todo aquele luxo, que blasfema
do Evangelho de Jesus, no fausto de uma procissão com cardeais, arcebispos,
bispos, monsenhores... Veio São Pedro à janela do Céu e viu aquilo e,
estarrecido, chamou Jesus, que olhou e apenas comentou: "E pensarmos nós,
Pedro, que começámos aquilo, entrando de burro em Jerusalém onde fui
crucificado... Lembras-te?" Por isso, respondi uma vez a uma jornalista:
"Não. Jesus não entraria no Vaticano, porque não o deixariam entrar."
Francisco socorre-se também do bom
humor, e todos os dias reza a Oração do bom humor, oração atribuída a São Tomás
Moro, o autor de A Utopia, o ex-chanceler que não se esqueceu de levar a
gorjeta para o carrasco que ia decapitá-lo. Francisco recomendou-a também aos
membros da Cúria Romana, onde tem tantos adversários e até inimigos, a quem
falta o bom humor divino: "Dá-me, Senhor, uma boa digestão e também algo
para digerir./ Dá-me um corpo saudável e o bom humor necessário para
mantê-lo./Dá-me uma alma simples que sabe valorizar tudo o que é bom/ e que não
se amedronta facilmente diante do mal, /mas, pelo contrário, encontra os meios
para voltar a colocar as coisas no seu lugar./ Concede-me, Senhor, uma alma/
que não conhece o tédio,/ os resmungos,/ os suspiros/ e as lamentações,/ nem os
excessos de stress por causa desse estorvo chamado "Eu"./ Dá-me,
Senhor, o sentido do bom humor./ Concede-me a graça de ser capaz de uma boa
piada, uma boa piada para descobrir na vida um pouco de alegria/ e poder
partilhá-la com os outros./ Ámen."
08 julho 2022
Padre e professor de Filosofia.
Escreve de acordo com a antiga
ortografia
https://www.dn.pt/opiniao/amp/o-humor-o-riso-e-o-divino-15003359.html/



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