Textos e Obras Daqui e Dali, mais ou menos conhecidos ------ Nada do que é humano me é estranho (Terêncio)
domingo, 2 de agosto de 2026
sexta-feira, 15 de maio de 2026
Carlos Coutinho -. [O horror bíblico]
sexta-feira, 24 de abril de 2026
Joyce Lussu - Scarpette Rosse
Traduzir Joyce Lussu exige manter a simplicidade quase documental que ela utiliza para descrever o horror. A força deste poema reside na ausência de adjetivos complexos; é a crueza dos fatos que emociona. Aqui está a tradução para português:
Sapatinhos Vermelhos
Joyce Lussu
Há um par de sapatinhos vermelhos
número vinte e quatro
quase novos:
na sola interna ainda se vê a marca de fábrica
«Schulze Munique».
Há um par de sapatinhos vermelhos
no topo de um monte de sapatinhos infantis
em Buchenwald
eram de um menino de três anos
de um menino de três anos
de pés descalços
que corria chorando
e parou diante da porta
para que a sua mãe o pegasse no colo
e depois entrou no fumo
e tornou-se fumo
que no vento se dispersou
agora há um par de sapatinhos vermelhos
número vinte e quatro
quase novos
porque os pezinhos das crianças mortas
não gastam as solas.
Notas sobre a tradução
"Scarpette": Optei por "sapatinhos" para manter o diminutivo carinhoso e infantil do italiano, que reforça o contraste com a brutalidade do destino da criança.
"Entrato nel fumo": A tradução mantém a imagem literal da câmara de gás e dos crematórios, onde o corpo físico se desfaz, restando apenas o objeto material (o sapato) como prova da existência.
quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026
Alfredo Barroso - Crimes de guerra não foram só os da Alemanha, da Itália e do Japão
LIVROS SOBRE O
IMPERIALISMO OCIDENTAL, EUROPEU E AMERICANO, E A ARROGÂNCIA E GANÂNCIA DO PODER
DOS ESTADOS-UNIDOS
- livros
sugeridos por Alfredo Barroso, porque, se fossem lidos pela esmagadora maioria
dos comentadores epecialistas das TV's privadas, eles perceberiam melhor os
disparates que proferem ao falarem do «imperialismo Russo»...
* Alfredo Barroso
2026 02 26
HISTÓRIA E LITERATURA FIDEDIGNAS SOBRE CRIMES DE GUERRA COMETIDOS PELO OCIDENTE DESDE A II GUERRA MUNDIAL
Para não ser
apenas eu a fruir dos livros da minha biblioteca, aqui vão cinco sugestões de
leitura sobre história e literatura fidedignas acerca dos crimes de guerra
cometidos pelo Ocidente, sobretudo pelo Reino Unido, durante a II Guerra
Mundial. E pelos Estados-Unidos da América desde então até à actualidade.
Ei-las:
«DER BRAND.
DEUTSCHLAND IM BOMBERKRIEG, 1940-1945» («EL INCÊNDIO. ALEMANIA BAJO LOS
BOMBARDEOS, 1940-1945), por JÖRG FRIEDERICH (2002) – Os bombardeamentos que
assolaram as cidades, vilas e aldeias alemãs durante os cinco anos da II Guerra
Mundial não têm paralelo na história. Foram bombardeadas mais de mil urbes e
localidades. Trinta milhões de civis – na sua maioria velhos, mulheres e
crianças – foram vítimas de cerca de um milhão de toneladas de bombas
incendiárias e explosivas. Morreram mais de um milhão de civis e perdeu-se para
sempre grande parte do património urbanístico, modelado desde a Idade Média.
Até à
publicação deste livro, em 2002, nenhum relato histórico tinha oferecido uma
narrativa sobre a verdadeira dimensão dos factos e o destino real das vítimas.
O historiador berlinense JÖRG FRIEDERICH veio colmatar essa falta com esta obra
sobre a campanha de destruição que os britânicos e os norte-americanos
planearam e executaram, de forma sistemática, contra as cidades alemãs.
Com base em
numerosas fontes, o autor mostra-nos a evolução e aperfeioçoamento das bombas,
o seu efeito devastador no terreno, a experiência traumática da população
refuguada em “bunkers” e caves, as mortes por calor e asfixia, a brutal pressão
do ar e os gases tóxicos e o desmoronar de uma herança cultural de
incomensurável riqueza.
JÖRG FRIEDERICH
(nascido em 1944) investigou os delitos de Estado do nazismo e os seus crimes
de guerra. Colaborou na ‘Enciclopédia do Holocausto’ e produziu inúmeras séries
de televisão sobre Criminologia da Guerra, tanto terrestre como aérea. Foi
galardoado com diversas distinções internacionais em virtude dos seus
trabalhos.
«LUFTKRIEG UND
LITERATUR» («HITÓRIA NATURAL DA DESTRUIÇÃO»), por W. G. SEBALD (1999) – Através
deste texto magistral, o grande escritor W.G.Sebald (1944-2001) revela como os
bombardeamentos massivos do solo alemão pelas tropas aliadas, nos últimos meses
da II Guerra Mundial, se tornaram um tabu no seio da sociedade e da literatura
alemãs. Rejeitando o sentimento de culpabilidade dos intelectuais alemães, que
falseia o seu julgamento tanto quanto a sua inspiração estética, W. G. Sebald
preencheu a lacuna por uma evocação à sua maneira desses “raids de aniquilação
total” que custaram a vida a cerca de um milhão de civis alemães.
«Da destruição
como elemento da história natural» é uma obra incisiva e poderosa, ilustrada
por fotos e documentos, que torna palpável o sofrimento do seu país, escrita
por um dos mais notáveis escritores contemporâneos, W. G. Sebald, autor de
várias obras marcantes como: “Os Emigrantes” (1999); «Os Anéis de Saturno»
(1999); «Vertigens” (2001); e «Austerlitz» (2002).
(Edição
portuguesa da TEOREMA)
«HIROSHIMA»,
por JOHN HERSEY (1946 e 1986) – Este é o livro mundialmente mais conhecido do
jornalista e escritor norte-americano John Hersey (1914-1993). Publicado pela
primeira vez em quatro capítulos pela revista ‘New Yorker’, em 1946, John
Hersey acrescentou um quinto capítulo em 1986. Este livro publica a versão
integral.
Quando a bomba
atómica alcunhada ‘Little Boy’ foi lançada pelos EUA sobre a cidade japonesa de
Hiroshima, a 6 de Agosto de 1945, a menina TOSHIKO SASAKI, funcionária do
departamento de pessoal da Fábrica de Estanho do Leste Asiático, estava a
conversar com uma colega. O dr. MASAKAZU FUJII, proprietário e único médico de
um hospital, acabara de instalar-se com todo o conforto no seu alpendre. A
senhora HATSUIO NAKAMURA, viúva, estava à janela a observar uma cena estranha.
O padre WILHELM KLEINSORGE, sacerdote alemão, lia uma revista jesuíta. O jovem
cirurgião TERUFUMI SASAKI caminhava pelo corredor dum hospital com uma amostra
de sangue destinada a um teste Wassermann. O reverendo KIIOSHI TANIMOTO, pastor
da Igreja Metodista de Hiroshima, preparava-se para descarregar o conteúdo de
um carro de mão numa casa dos subúrbios da cidade.
«A bomba
atómica [de Hiroshima] matou cem mil pessoas, e estas seis contavam-se entre os
sobreviventes. E ainda se interrogam como foi possível sobreviverem quando
tantas outras pereceram».
Ao mesmo tempo
que o holocausto produzido pelo nazismo está presente na memória social, ‘o
outro holocausto’ seu contemporâneo parece ter-se diluído na existência irreal
dos homens. E, no entanto, o emprego da arma atómica contra duas cidades
japonesas [a bomba atómica ‘Fat Man’ foi lançada pelos EUA sobre a cidade
japonesa de Nagasaki em 8 de Agosto de 1945] constitui uma denegação de sentido
equivalente aos extermínio das «raças inferiores» pelos nazis. Auschwitz e
Hiroshima são duas marcas do terror absolutamente contíguas, constituindo as
figuras máximas da descivilização no século XX: os campos da morte e o emprego
militar da energia atómica.
(Edição
portuguesa da ANTÍGONA)
«CHAIN OF
COMMAND» («DOMMAGES COLLATÉRAUX. LA FACE OBSCURE DE LA “GUERRE CONTRE LE
TERRORISME”), por SEYMOUR HERSH (2004) – Nesta obra impressionante, o grande
jornalista norte-americano Seymour Hersh deslinda para nós o complicado feixe
de manipulações e de manobras que conduziram ao ataque contra o World Trade
Center e ao escândalo das torturas na prisão do Exército dos EUA em Abu Ghraib,
no Iraque. Alimentado por inúmeras confidências de «fontes» altamente
colocadas, o relato de Seymor Hersh faz-nos mergulhar no próprio coração do
poder americano. Quer se trate das manigâncias da ‘Cabala’, o pequeno grupo de
neo-conservadores que ‘fabricaram’ a guerra no Iraque; quer se trate do
relatório confidencial de 2002 denunciando as torturas em Guantanamo Bay, prefiguração
directa do que iria acontecer em Abu Ghraib; quer se trate da operação
‘Anaconda’, durante a qual os ‘GI’, por incompetência do seu comando, deixaram
escapar Ossama Bin Laden…
Vale a pena
salientar que nem uma das informações reveladas neste livro por Seymor Hersh
foi desmentida pela Administração, cuja única resposta foi: «Seymour Hersh é um
mentiroso».
Este livro
lê-se como um antídoto à desinformação.
SEYMOUR M.
HERSH (nascido em 1937) é já uma lenda do jornalismo de investigação. Durante
quatro décadas, foi uma ‘pedra no sapato’ de todos os Presidentes que se
sucederam na Casa Branca, por causa das suas investigações exemplares. Foi ele
que revelou o terrível massacre de My Lai, cometido em Novembro de 1969 por
tropas dos EUA durante a Guerra do Vietnam. Jornalista independente, trabalhou
muitos anos para o ‘New York Times’ e foi grande repórter da revista ‘New
Yorker’. Publicou vários livros sobre as suas investigações e foi galardoado
com o Prémio Pulitzer (de Jornalismo).
«DIRTY WARS,
THE WORLD IS A BATTLEFIELD» («DIRTY WARS, LE NOUVEL ART DE LA GUERRE») por
JEREMY SCAHILL (2013) – Um Exército secreto. Uma Missão sem fronteiras. Uma
Guerra sem fim. A leitura desta obra-prima do jornalismo de investigação tem o
efeito dum electrochoque. Jeremy Scahill leva-nos longe das frentes oficiais,
lá onde bem poucos jornalistas conseguem chegar e onde o Estado toma o gosto
por práticas inconfessáveis. E o Presidente dos EUA Barak Obama (2009-2017),
com os seus ‘drones’ assassinos, foi um dos mais flagrantes exemplos.
Nesta
impressionante investigação que assume a forma de um ‘thriller’, Jeremy Scahill
foca o projector nas manobras clandestinas do Joint Special Operations Command
(JSOC), esse corpo de exército colocado directamente sob as ordens da Casa
Branca, munido de uma autorização para matar com toda a impunidade, e para o
qual o mundo não passa dum campo de batalha. Do Afeganistão ao Yémen, passando
pelo Paquistão, pela Somália e pelos Estados-Unidos, o jornalista dá a palavra
às vítimas dessa guerra suja (‘dirty war’), às famílias destruídas, homens e
mulheres que têm de escolher entre a dor resignada e a ‘djihad’ contra uma
América deveras sanguinária.
JEREMY SCAHILL
é jornalista de investigação e correspondente de guerra da revista americana
‘The Nation’. É também autor de “Blackwater: a ascensão do exército privado
mais poderoso do mundo”. Depois de ter participado na revelação do escândalo
‘Prism’, com os jornalistas Glenn Greenwald e Laura Poitras, Jeremy Scahill
fundou ‘The Intercept’, uma revista on-line que difunde nomeadamente as
informações reveladas por Edward Snowden.
Este seu livro
foi considerado um dos 10 melhores livros do ano de 2013 nos Estados-Unidos da
América pela “Publishers Weekly”.
Campo
d’Ourique, 26 de Fevereiro de 2026 (e 29 de Julho de 2022)
domingo, 10 de agosto de 2025
Rebecca Martin Goldschmidt e Seiji Yamada - Hiroshima, Nagasaki e o genocídio em Gaza
quinta-feira, 6 de fevereiro de 2025
Manuel Loff - Gaza e Auschwitz, 80 anos depois
É hora de fazer o balanço dos 471 dias de massacre, limpeza étnica e execução de um projeto genocida para Gaza e o conjunto da Palestina.
* Manuel Loff
22 de Janeiro de 2025
Ironia da história, o cessar-fogo foi declarado em Gaza quase 80 anos depois da libertação de Auschwitz (27 de janeiro de 1945) pelos soldados soviéticos. Confirmadas pelo Tribunal Penal Internacional as acusações de crimes de guerra e contra a humanidade praticados por Israel, emitidos mandados de captura de Netanyahu e do seu ex-ministro Yoav Gallant, aberta a investigação pelo Tribunal Internacional de Justiça sobre o crime de genocídio, é hora de fazer o balanço dos 471 dias de massacre, limpeza étnica e execução de um projeto genocida para Gaza e o conjunto da Palestina.
O TPI acusou a cúpula do Estado de Israel de crimes de guerra (provocar a “fome como método de guerra” e “intencionalmente dirigir um ataque contra a população civil”) e dos crimes contra a humanidade de “assassinato, perseguição e outros atos desumanos”. Pelos registos das autoridades sanitárias de Gaza, julgava-se que estaríamos a chegar aos 50 mil palestinianos mortos desde outubro de 2023, 40% deles crianças e adolescentes. “É como se uma sala de aulas cheia de crianças fosse bombardeada todos os dias, (…) e todas essas crianças são mortas”, dizia há meses Marta Lorenzo, da UNRWA, ao PÚBLICO. Ora os dados estão subestimados. Um estudo publicado na The Lancet estima em 64 mil os mortos só até 30 junho de 2024, isto é, 41% mais do que o registado (“Traumatic injury mortality in the Gaza Strip from Oct 7, 2023, to June 30, 2024: a capture–recapture analysis”, 9/1/2025). Se compararmos apenas os números oficiais (isto é, dos corpos encontrados e registados, excluindo, portanto, todos aqueles desaparecidos que possam estar sob as ruínas) com os dos períodos mais mortíferos de outras guerras, os palestinianos mortos pelos israelitas em Gaza no 1.º ano da invasão são o triplo dos ucranianos mortos em 2022 (cálculos do Uppsala Conflict Data Program, El País, 19/1/2025). A intenção genocida amplamente documentada nos relatórios do Conselho de Direitos Humanos da ONU foi passada à prática “numa das campanhas de bombardeamentos mais devastadoras da história” (Robert Pape, Foreign Affairs, 6/12/2023).
Limpeza étnica: 90% da população foi deslocada à força, “várias vezes, para territórios cada vez mais reduzidas, sem infraestruturas básicas, obrigando as pessoas a viver em condições que as expunham a uma morte lenta e calculada. [Israel] obstruiu ou negou deliberadamente a importação e a entrega de ajuda humanitária para salvar vidas. Restringiu o fornecimento de eletricidade (…), levando ao colapso dos sistemas de água, saneamento e cuidados de saúde. Submeteu centenas, senão milhares, de palestinianos de Gaza a detenção em regime de incomunicabilidade e a atos de tortura e outros tratamentos cruéis, desumanos ou degradantes que”, só esses, “terão causado pelo menos 53 mortes até agosto de 2024.” (Amnistia Internacional,‘You Feel Like You Are Subhuman’. Israel’s Genocide Against Palestinians in Gaza, 2024)
Que os responsáveis por tudo isto invoquem a memória do Holocausto, isto é, do genocídio judeu (e cigano, e de populações eslavas) perpetrado pelos nazis até 1945, está a impedir, como diz Marianne Hirsch, que o “Holocausto possa voltar a servir como 'referência moral universal', se é que alguma vez o foi" (Rethinking Holocaust Memory After October 7, Public Books, 15/7/2024). Um dos sobreviventes de Auschwitz, Primo Levi, recordava-se de como os SS, cientes da derrota próxima, diziam aos prisioneiros: “Seja qual for o fim desta guerra, nós ganhámos; (...) mesmo que algum de vocês escape, o mundo não acreditará em vocês. Talvez haja suspeitas, discussões, investigação de historiadores, mas mas não haverá certezas (...). [A]s pessoas dirão que os factos que vocês contam são demasiado monstruosos para serem acreditados: dirão que são exageros da propaganda (...), e acreditarão em nós, que negaremos tudo. Nós é que da UE face ao genocídio, é que sejam os israelitas a contar a história do que aconteceu em Gaza. vamos ditar a história dos campos [de extermínio]” (Os que sucumbem e os que se salvam, 1986). O que nos arriscamos hoje, depois de ano e meio de cumplicidade e/ou silêncio dos EUA e
O autor é colunista do PÚBLICO e escreve segundo o novo acordo ortográfico
https://www.publico.pt/2025/01/22/opiniao/
quinta-feira, 26 de dezembro de 2024
Alfredo Barroso - OS INCÊNDIOS ATEADOS PELO "OCIDENTE" NA "ERA DOS EXTREMOS"
quinta-feira, 19 de dezembro de 2024
Carlos Coutinho - Auschwitz I, II e III
* Carlos Coutinho
Carlos Coutinho
10 h ·
NÃO raro, dois grandes escritores italianos, um ateu e outro judeu, um célebre com o seu “A Lua e as Fogueiras” e outro com “É Isto Um Homem?”, um nascido em 1908 e chamado Cesare Pavese e outro em 1923 para ficar com o nome Italo Calvino, mas ambos sepultados em Turim, um guerrilheiro antifascista (partigiano) que passou um ano encarcerado no Sul da Itália (em Barcaleone, Reggio Calabria), suicidando-se em 1950, depois de escrever “Ofício de Viver”, e outro nascido nos arredores de Havana, Cuba, transitando para Siena em menino com seus os pais judeus e, pouco depois, enviado para o Sul da Polónia ocupada, como prisioneiro dos nazis em Auschwitz, onde viu e sofreu todos os horrores, até ser libertado pelo Exército Vermelho, em 1945.
De Cesare é forçoso anotar que nasceu em Santo Stefano Belbo no dia 9 de setembro de 1908 e faleceu em Turim a 9 de agosto de 1950, tinha eu uns inocentes 7 anitos menos 15 dias e muita energia duriense para a brincadeira aldeã com os outros miúdos de Fornelos. Comprometeu-se de corpo e alma na luta armada antifascista, o que lhe rendeu um pavoroso ano de cárcere no Sul da península.
Nessa época, iniciou o seu diário “O Ofício de Viver” (Il Mestiere di Vivere”), uma autocrítica largamente desenvolvida em reflexões sobre a sua arte, os seus processos criativos e o sentido da existência da sua própria existência.
Há que acrescentar que Pavese já não era um desconhecido quando, em 1936, publicou “Lavorare Stanca” (Trabalhar cansa), porque já havia dado à estampa vários estudos sobre casos da literatura norte-americana clássica e contemporânea, reunidos posteriormente num volume publicado postumamente em 1951 (La letteratura americana e altri saggi), além de se notabilizar como tradutor muito fiel de Daniel Defoe, Charles Dickens, Herman Melville, James Joyce, Sinclair Lewis, John dos Passos, Gertrude Stein e William Faulkner.
Legou ao mundo uma obra valiosíssima: “A lua e as fogueiras” (1958); “Antes que o galo cante” (1959); “O ofício de viver”, diário (1935-1950); “A guitarra quebrada”, romance (1960); “Entre mulheres sós” (196?); “O diabo sobre as colinas” (1962); “Férias de Agosto” (1965); “A Praia” (1965); “O Verão” (1965); “Terras do meu país” (1969); “O camarada” (1974); “Trabalhar cansa” (1998); e “Diálogos com Leucó” (2007).
Trabalhou com Italo Calvino na Einaudi, onde desempenhou um papel fundamental, como, aliás, o judeu que amparou e guiou, quando voltou da Provinz Oberschlesien, Regierungsbezirk Kattowitz, Landkreis Bielitz, a oeste de Cracóvia onde Hiter montou o complexo de campos de concentração de Auschwitz, abrangendo uma grande área industrial rica em recursos humanos e naturais.
Havia um total de 48 campos no complexo. Os maiores eram Auschwitz I, Auschwitz II–Birkenau e Auschwitz III–Monowitz ou Buna, um campo de trabalhos forçados.
O centro administrativo do complexo ficava em Auschwitz I, onde cerca de 70 mil pessoas morreram, na sua maioria polacos étnicos e prisioneiros soviéticos.
Auschwitz II era o campo de extermínio ou Vernichtungslager, onde não menos 960 mil judeus, 75 mil polacos e 19 mil ciganos foram assassinados. Auschwitz III-Monowitz servia como campo de trabalho para a fábrica Buna-Werke, do conglomerado industrial IG.
O escritor e químico Primo Levi, sobrevivente de um ano de confinamento em Auschwitz III-Monowitz e autor de “É isto um homem?”, livro de leitura angustiante sobre o que Primo viu no campo de extermínio industrializado que tinha sobre o portão de entrada “Arbeit macht frei” ( Trabalhar liberta).
A SS selecionava alguns prisioneiros, geralmente criminosos alemães, como supervisores com privilégios (os chamados kapos, alguns deles judeus que assim pensavam safar-se e minorar o sofrimento dos outros). Judeus e prisioneiros soviéticos eram geralmente os tratados da pior maneira.
Todos os encarcerados tinham que trabalhar nas fábricas de armas associadas ao complexo, à exceção dos domingos, reservado para limpeza e banho. Dos primeiros 10 mil prisioneiros de guerra soviéticos internados, apenas algumas centenas deles sobreviveram aos cinco primeiros meses.
No porão do bloco ficavam as celas da fome", onde os presos ficavam sem receber comida ou água, até que morressem. Aí ficavam também as celas escuras", que tinham apenas um pequeno espaço na parede para respirar e portas sólidas; os prisioneiros colocados nestas celas permanentemente na escuridão iam gradualmente sufocando à medida que o oxigénio ia rareando dentro delas.
Às vezes, os guardas da SS acendiam velas para fazer o oxigénio acabar mais depressa; muitos dos ali aprisionados eram suspensos com as mãos amarradas para trás por horas ou mesmo dias, o que fazia que, com o passar do tempo, suas clavículas fossem deslocadas.
Em 3 de setembro de 1941, o subcomandante SS-auptsturmführer Karl Fritzsch fez uma primeira experiência bem-sucedida com 600 prisioneiros de guerra soviéticos e 150 polacos, trancando-os dentro de um dos porões do bloco 11 e gaseando-os com Zyklon-B um pesticida altamente letal à base de cianureto, com que a Bayer fez bom negócio.
Foi aí que finalmente começou a Solução Final para o problema judeu, o seu extermínio como povo que os israelitas agora tentam por outros meios concretizar na Palestina ocupada, especialmente na Faixa de Gaza.
A primeira câmara de gás de Auschwitz era conhecida como a Pequena Casa Vermelha, uma pequena construção de tijolos convertida em instalação de gaseamento, que intensamente matou, a partir de março de 1942. Uma segunda construção, a Pequena Casa Branca, também foi convertida em câmara de gaseamento, algumas semanas depois.
No começo de 1943, estava eu para nascer, os nazis resolveram ampliar a capacidade de gaseamento em Birkenau. O crematório II, originalmente construído como câmara mortuária, com necrotérios no porão e fornos no mesmo nível do solo, foi convertido numa fábrica de assassinatos, colocando-se uma porta à prova de gás no necrotério e adicionando entradas para o Zyklon-B e aparelhos de ventilação para remover os cadáveres.
Este sistema começou a funcionar em março. O crematório III foi construído para usar o mesmo método. Os fornos IV e V, planeados exclusivamente como centros de gaseamento, foram construídos na primavera-verão de 1943, dois meses antes do meu nascimento, já funcionavam plenamente.
Os kapos e os Sonderkommandos eram prisioneiros com privilégios: os primeiros tinham a obrigação de manter a ordem nos alojamentos e os segundos preparavam os recém-chegados imediatamente selecionados para morrer – geralmente as crianças, os anciãos e os doentes – nas câmaras de gás, seguindo depois os seus corpos para os fornos.
Os subcampos femininos foram construídos em Budy, Pławy, Zabrze, Gleiwitz I, II, III, Rajsko e Lichtenwerden. Eram chamados de Aussenlager (campo externo), Nebenlager (campo de extensão) e Arbeitslager (campo de trabalho).
No total, cerca de 7 mil membros das SS foram designados para servirem em Auschwitz durante toda a existência dos campos. A principal autoridade geral ali era o Departamento de Economia da SS, conhecido como SS-Wirtschafts-Verwaltungshauptamt ou SS-WVHA; dentro do WVHA, estava o Departamento D que comandava diretamente as atividades.
A Gestapo, que viria a dar aulas à nossa PIDE, também mantinha um grande escritório em Auschwitz, com funcionários e oficiais uniformizados. No seu corpo médico, Joseph Mengele deu cartas e fez experiências com intenção científica.
Uma orquestra de prisioneiras, a Orquestra Feminina de Auschwitz, era forçada a tocar grotescamente uma música alegre, à medida que os prisioneiros passavam pelos portões a caminho do trabalho. Esta orquestra foi criada pela supervisora-SS do campo feminino, Maria Mandel que, pelas suas atrocidades, ficou conhecida como A Besta. A Bayer, então uma subsidiária da IG Farben, comprava prisioneiros de Birkenau para servirem de cobaias nos testes de novas drogas.
Heissmeyer, que considerava os judeus como animais de laboratório, comandava experiências em crianças e fez diversas experiências hdiondas, injetando bacilos vivos da tuberculose diretamente nos pulmões dos prisioneiros, na tentativa de conseguir uma vacina para a terrível doença que tantos europeus e asiáticos matou.
No Julgamento de Nuremberga, o ex-comandante do campo entre 1940 e 1943, Rudolph Höss, declarou que Adolf Eichmann lhe tinha falado de 2,5 milhões de mortos, mas admite-se que tenham sido cerca de 4 milhões, nas contas do Museu Estatal de Auschwitz.
Os negacionistas do Holocausto dizem que isso não passa de um mito.
Várias indústrias alemãs construíram as suas fábricas na área, para aproveitarem o trabalho escravo proporcionado por Morowitz, criando os seus próprios subcampos, destacando-se, além da Bayer, a Siemens-Schuckert e a indústria de armamentos Krupp AG, dirigida por Alfried Krupp, um membro da família e carrasco SS.
Uma “filósofa” judia, Hannah Arendt, que foi secretária e amante de um reitor nazi, Heidegger, foi proibida de entrar em Israel, porque, além do mais, inventou o conceito de “banalidade de mal” que absolve todos os beleguins hitlerianos, já que eles “se limitavam a cumprir ordens dos seus superiores”.
Peço desculpa a quem foi lendo este apontamento até aqui chegar, porque talvez tenha sofrido tanto como eu a pesquisar e a reduzir ao mínimo possível o resultado das minhas irreprimíveis pesquisas.
Prisioneiros de Auschwitz libertados pelos soviéticos no dia 27 de janeiro de 1945
2024 12 19
https://www.facebook.com/carlos.coutinho.7186896
sábado, 16 de novembro de 2024
Carlos Coutinho - [a receita do Leão de Loures e Ascenso Simão: praticar o fascismo para "combatê-lo"]
domingo, 2 de junho de 2024
Carlos Matos Gomes - Como matar as memórias?
sábado, 1 de junho de 2024
Palestina: A barbárie que não cabe em Hollywood
01.06.24 | Manuel
O Ministério da Saúde de Gaza regista milhares de feridos após a ofensiva israelita. “Mais de 13.000 crianças foram assassinadas”, confirmou em março o porta-voz da Unicef, James Elder, na rede social.
Jonathan
Glazer, o diretor britânico de origem judaica, de 'The Zone of Interest', filme
vencedor na categoria Melhor Filme Internacional, ousou apontar o dedo para
Israel na cerimônia do Óscar.
Quase um mês
após o início da agressão contra Gaza, jornalistas do meio de comunicação
americano The New York Times foram instruídos sobre algumas restrições ao uso
dos termos: “território ocupado”, “genocídio”, “campo de refugiados”,
“Palestina”, “massacre” e “combatentes”, entre outros.
Recentemente,
circulou a informação de que, em novembro de 2023, um memorando interno,
escrito por Susan Wessling, editora de normas do NYT, editor internacional
Philip Pan e outros funcionários adjuntos, chegou aos jornalistas como
“orientação sobre alguns termos e outras questões”, em relação ao conflito que
começou em outubro.
Num documento
interno, obtido pela plataforma jornalística ‘The Intercept’, lê-se quais os
termos que não podem usar sobre a Faixa de Gaza, um enclave palestiniano. A lei
do silêncio, a mediatização dos termos e a proclamada liberdade de expressão
são evidentes repetidamente na imprensa e no cinema.
Para onde a
desumanização nos leva
Jonathan Glazer na cerimónia de atribuição do Óscar (Aqui)
Jonathan
Glazer, o diretor britânico de origem judaica, de 'The Zone of Interest', filme
vencedor na categoria Melhor Filme Internacional, ousou apontar o dedo para
Israel na cerimônia do Oscar.
Seu filme conta
a história do comandante de Auschwitz, Rudolf Höss, e sua esposa Hedwig, que se
esforçam para construir uma vida de sonho para sua família, em uma casa com
jardim a poucos metros do horror. Do outro lado do muro está o campo de
concentração e extermínio da Alemanha nazista.
O discurso de
Glazer – autor cult com apenas quatro filmes e veterano do videoclipe –
contestado por organizações judaicas nos Estados Unidos e políticos
israelenses, começou assim:
“Todas as
nossas decisões – ao fazer o filme – procuraram refletir e confrontar-nos no
presente. Não para dizer 'Veja o que eles fizeram então', mas 'Veja o que
fazemos agora'. “Nosso filme mostra aonde a desumanização nos leva.”
O realizador do
filme refere-se aos últimos 7 meses, dos últimos 75 anos. Segundo a analista
síria Bouthaina Shaaban, as nossas vidas mudaram: “O mundo inteiro conhecia,
antes de 7 de Outubro, a horrível situação que os palestinos têm suportado nos
últimos 75 anos, e conheceu especialmente o cerco de Gaza, que foi descrita
como a maior prisão ao ar livre do mundo, imposta pelo último regime de
apartheid da história moderna.
Mas ninguém
seria capaz de imaginar como uma vasta máquina militar, apoiada e alimentada
pela maior potência militar do mundo, encurralaria 2,2 milhões de civis para
demolir as suas casas mesmo sobre as suas cabeças, matando as equipas de
médicos juntamente com os doentes. e feridos que procuram tratamento médico,
deixando quase todos os hospitais completamente fora de serviço.”
Após suas
palavras na cerimônia, Glazer sentiu que os aplausos foram tímidos. Ele sabia
que o seu discurso não era mais uma denúncia dos horrores da guerra: “Levado à
sua pior versão, moldou todo o nosso passado e presente. "Neste momento
estamos aqui como homens que rejeitam que o seu carácter judaico e o Holocausto
tenham sido usados para uma ocupação que arrastou tantas pessoas
inocentes para o conflito, sejam elas as vítimas do 7 de Outubro em Israel ou
do actual ataque a Gaza".
Depois do
diretor britânico de origem judaica, ninguém mais se atreveu a abordar o tema
do massacre contra o povo palestino.
Na última gala
do 96º. Na edição dos Óscares, um grupo de artistas representados pelos
Artistas pelo Cessar-Fogo, expressou subtilmente o seu repúdio a essa agressão.
Eles usavam um impressionante botão vermelho preso nas roupas, como uma
exigência que exige um cessar-fogo em Gaza.
Figuras
renomadas usaram o detalhe, incluindo Mark Ruffalo, a cantora e compositora
Billie Eilish, a diretora Ava DuVernay e o ator Maher-shala Ali. Quase 400
celebridades assinaram o pedido de cessar-fogo, incluindo Bradley Cooper, Cate
Blanchett e America Ferrera (https://www.artists4ceasefire.org/). Um enfeite
com a bandeira da Palestina, que não deixa espaço para simbolismo, foi usado
pelos atores de ‘Anatomia de uma Queda’: Milo Machado-Graner e Swann Arlaud.
Hollywood
Os judeus são
considerados os “pais fundadores” do que hoje conhecemos como Hollywood.
Um relatório do
Pew Research Center estima que em 2020 havia mais de 5,8 milhões de judeus
vivendo nos Estados Unidos. Segundo estimativas do Gabinete Central de
Estatísticas do governo israelita, a sua população total em 2021 era de
9.449.000 habitantes. Destes, 6.982.000 são judeus (73,9% da população total).
Depois há a França, com mais de 400 mil, segundo dados de 2018.
O dedo apontado
para Israel não foi bem recebido por grande parte da comunidade judaica em
Hollywood. Embora proclamem que o mundo artístico é progressista e apoia as
causas sociais, o controlo governamental em Hollywood inclui a manipulação, a
censura e a produção de guiões de acordo com os objectivos da Estratégia de
Segurança e Defesa dos Estados Unidos.
Aqueles que não
aplaudiram o polêmico discurso de Jonathan Glazer ou aqueles que o fizeram
timidamente já sabiam o peso que viria depois dele.
A mídia
especializada ‘Variety’ citou o conteúdo de uma carta contra a fala do diretor
inglês. “Rejeitamos que o nosso Judaísmo seja sequestrado com o propósito de
estabelecer uma equivalência moral entre um regime nazi que procurou exterminar
uma raça de pessoas e uma nação israelita que procura impedir o seu próprio
extermínio.” (…) “Dá credibilidade ao moderno libelo de sangue que alimenta um
crescente ódio antijudaico em todo o mundo, nos Estados Unidos e em Hollywood.
O actual clima de crescente anti-semitismo apenas sublinha a necessidade do
Estado Judeu de Israel, um lugar que sempre nos acolherá, como nenhum outro
Estado o fez durante o Holocausto retratado no filme de Glazer."
O cineasta
Glazer estava nervoso ao fazer seu discurso, seguindo as regras desafiadoras de
Hollywood. Agora o estigmatizaram, como inimigo público da capital do cinema. A
sua voz, a mais directa sobre a guerra de Israel contra os palestinianos em
Gaza e a cumplicidade americana, foi uma expressão dissidente, quase mais
transcendente do que o evento anual de auto-elogio da indústria
cinematográfica.
Lembremo-nos de
como, em 1978, houve controvérsia sobre a questão palestina. Vanessa Redgrave
foi vaiada ao denunciar um pequeno grupo de vândalos com expressões sionistas,
que atacaram um documentário sobre os palestinos. A reação contra a artista
aconteceu quando ela aceitou o Oscar de melhor atriz coadjuvante por ‘Julia’.
Naquela mesma
noite do Oscar de 2024, o ator, músico e produtor irlandês Cillian Murphy
recebeu o Oscar de melhor ator, por ‘Oppenheimer’. Conta a história do físico
Julius Robert Oppenheimer, filho de um casal de imigrantes judeus de origem
alemã, que desenvolveu a bomba atômica; Ele foi constantemente investigado pelo
FBI nos anos seguintes e posteriormente acusado de ser um risco para a
segurança nacional. A sua perseguição é considerada parte do macarthismo ou da
“caça às bruxas” anticomunista.
A mensagem
resumida do premiado ator Cillian Murphy foi: “Para o bem ou para o mal, todos
vivemos no mundo de Oppenheimer. Então, eu realmente gostaria de dedicar isso
aos pacificadores de todos os lugares.”
Agenda de
conscientização
É assim mesmo:
se eles apenas interpretarem seus comentários como anti-semitas, ou tomarem
dessa forma, Hollywood simplesmente irá demiti-lo. Aliás, a principal agência
de talentos do mundo do cinema, a United Talent Agency (UTA), informou que a
atriz Susan Sarandon não era mais sua cliente.
A atriz de 77
anos, conhecida pelo seu ativismo político em diversas causas progressistas,
participou numa marcha a favor dos palestinianos em Nova Iorque e publicou
comentários de apoio aos palestinianos na sua rede social, segundo vários
relatos da mídia americana.
“Há muitas
pessoas que têm medo de ser judias neste momento e estão começando a ver como é
ser muçulmano neste país, muitas vezes sujeito à violência.” A atriz disse, com
o microfone na mão, em um vídeo publicado pelo The New York Post em sua conta
no YouTube.
Já no dia 4 de
novembro de 2023, logo após a invasão de Gaza, publicou: “Não é preciso ser
palestino para se preocupar com o que está acontecendo em Gaza. Estou com a
Palestina. “Ninguém é livre até que todos sejam livres.”
Susan Sarandon,
cinco vezes vencedora do Oscar, estava no meio da multidão na Union Square,
subiu na traseira de um caminhão e pediu um cessar-fogo em Gaza. Ele disse aos
manifestantes para conversarem entre si – incluindo amigos judeus – e
respirarem fundo antes de falar sobre a guerra de Israel.
Talento e
caráter. Sarandon tem o British Academy Film Award (BAFTA) e o Screen Actors
Guild Award de melhor atriz, além de nove indicações ao Globo de Ouro. Os cinco
Oscars foram conquistados em: o primeiro (1980) por ‘Atlantic City’. Depois
‘Thelma & Louise’ (1991), onde dividiu candidatura com Geena Davis. Em
1992, 'Óleo de Lorenzo'; 'O Cliente' em 1994 e em 1995, 'Pena de Morte'.
Além de ser uma
excelente atriz, é muito comprometida com diversas organizações humanitárias;
Ela é embaixadora do UNICEF e faz parte da Heifer International há uma década
(doa animais de fazenda para famílias). Em 2010, foi nomeada embaixadora da boa
vontade nas Nações Unidas (ONU).
Em 2019,
Sarandon produziu um documentário narrando os esforços da empresária Mariam
Shaar, utilizando a culinária nacional palestina, para dar oportunidade às
mulheres refugiadas.
Shaar montou
uma carrinha de alimentos, aproveitando a experiência das mulheres que vivem no
campo de refugiados no município de Burj al Barajneh, na periferia sul de
Beirute e onde vivem milhares de palestinianos.
Os refugiados
palestinos, descendentes de famílias que fugiram ou foram forçados a fugir
durante os combates desde a criação do Estado de Israel em 1948, vivem em
condições superlotadas e precárias.
Corria o ano de
1947, quando a Assembleia Geral das Nações Unidas adoptou a resolução para
criar dois Estados na Palestina, um árabe (43%) e outro judeu (57%); então os
países árabes rejeitaram a disparidade.
Em 6 de janeiro
de 1949, as Nações Unidas impuseram uma trégua à primeira guerra
árabe-israelense, que começou no mesmo dia da declaração de Independência, 15
de maio de 1948. Até esse dia, mais de 300 mil palestinos haviam sido expulsos
de seus territórios. casas, sob o falso slogan do movimento sionista dizia: Uma
terra sem povo para um povo sem terra.
A Naqba
palestiniana significou o êxodo em massa de milhares de pessoas que fugiram
para o Egipto, Líbano, Jordânia e Síria, onde se instalaram em campos de
refugiados. Israel manteve o território concedido pelas Nações Unidas e
aumentou-o pela força, com a expulsão de 800 mil palestinos, expropriados de
suas casas.
Susan Sarandon
conhece a história. O documentário 'Soufra' conta que a veterana atriz
norte-americana ajudou a Women's Program Association (WPA) a angariar fundos
para construir um centro de educação pré-escolar, que irá criar empregos e
educar cerca de 100 crianças.
A sua forma
específica de ajudar foi dar visibilidade - através do filme - ao projecto
Soufra (significa mesa de comida abundante), que conta o esforço de Mariam
Shaar para montar uma carrinha e preparar comida, aproveitando os talentos
culinários das mulheres que vivem neste campo de refugiados no Líbano.
A postura
pró-Palestina tem um preço em Hollywood. Há poucos dias, a atriz mexicana
Melissa Barrera, prestes a fazer o próximo filme da franquia ‘Pânico VII’, foi
demitida por seu ativismo social. Barrera postou declarações em suas histórias
no Instagram, chamando essa guerra de genocídio e limpeza étnica. Mais tarde, a
produtora Spyglass Media Group disse que as suas publicações sobre Gaza nas
redes sociais eram “anti-semitas”.
Barrera, que
estrelou 'In the Heights', escreveu nas suas redes sociais: Gaza está
actualmente a ser tratada como um campo de concentração.
Melissa Barrera
esteve em Park City para a estreia de seu novo filme com o qual reaparece nas
telonas: 'Your Monster', na seção Midnight do Festival de Sundance. O festival
internacional de cinema acontece anualmente nas duas últimas semanas de janeiro
na cidade de Park City, próxima à capital do estado de Utah, nos Estados
Unidos.
O Hollywood
Reporter descreveu manifestantes gritando “Palestina Livre” e “Parem a guerra”
na calçada da rua principal de Park City enquanto grande parte de Hollywood
frequentava o popular destino de inverno. No contexto do festival de cinema,
também foi realizada em Park City uma manifestação da organização Bring Them
Home para a libertação de reféns pelo Hamas.
Atualmente, a
atriz mantém sua posição. Ela disse que isso a fez “acordar”, que a levou a se
tornar “quem ela deveria ser” na vida. Em resposta, a produtora Spyglass Media
Group foi contundente na sua declaração: temos tolerância zero ao
anti-semitismo ou ao discurso de ódio sob qualquer forma, incluindo falsas
referências ao genocídio, à limpeza étnica, à distorção do Holocausto ou a
qualquer coisa que ultrapasse flagrantemente os limites. do discurso de ódio.
Apesar de
enfrentarem duras críticas por exercerem a sua opinião sobre Gaza, figuras
importantes estão a manifestar-se. Por exemplo, Maha Dakhil, da agência de
talentos CAA, postou nas redes sociais: “O que dói mais do que testemunhar um
genocídio? Testemunhe a negação do genocídio que está ocorrendo.”
“Você está
aprendendo agora quem apoia o genocídio.” Foram essas palavras que custaram a
Maha Dakhil sua posição como uma das principais representantes atuantes de toda
Hollywood (agência CAA). Dakhil foi escolhida há um ano entre as 50 mulheres
mais eficazes na indústria do entretenimento.
Depois dos
detratores, outras figuras artísticas saíram em defesa dos atingidos. Após a
reunião de Dakhil com seu cliente Tom Cruise, ela escreveu: “Cometi um erro ao
repassar minha história no Instagram, que usava linguagem ofensiva. Como muitos
de nós, senti-me angustiado. Tenho orgulho de estar ao lado da humanidade e da
paz. Sou muito grato aos amigos e colegas judeus, que apontaram as implicações
e me educaram ainda mais. Excluí imediatamente a postagem. “Sinto muito pela
dor que causei.”
Os ecos
inconfundíveis da história
“Os ecos da
história são inconfundíveis no nosso clima atual.” O canal Euronews publicou há
um mês, na sua versão digital, as palavras do cineasta Steven Spielberg durante
uma cerimónia da USC Shoah Foundation, organização por ele fundada há 30 anos.
A Fundação
Shoah surgiu para coletar depoimentos de sobreviventes do massacre nazista.
“Esses 56 mil testemunhos que registramos são de valor incalculável para
ensinar às novas gerações o que os sobreviventes entoaram durante 80 anos.
Nunca mais. Nunca mais. Nunca mais".
Porém,
Spielberg, de ascendência judaica, foi duramente criticado em 2005 por grupos
pró-Israel, que o chamaram de antissemita, após estrear sua produção na
histórica cidade de Munique, na Alemanha.
Recentemente, o
diretor de ‘A Lista de Schindler’ recebeu o Medalhão da USC, uma grande
distinção da Universidade do Sul da Califórnia. Aliás, ele disse em seu
discurso: “50% dos estudantes dizem ter sofrido algum tipo de discriminação por
serem judeus. Isto também ocorre juntamente com a discriminação anti-muçulmana,
árabe e sikh.” Falou sobre os preconceitos e a importância de travar o aumento
do anti-semitismo e das opiniões extremistas no contexto actual.
Sobre o
conflito de Gaza, afirmou: “Estou cada vez mais alarmado com o facto de
podermos ser condenados a repetir a história, a ter de lutar mais uma vez pelo
próprio direito de sermos judeus. Diante da brutalidade e da perseguição,
sempre fomos um povo resiliente e compassivo que entende o poder da empatia.”
“Podemos
enfurecer-nos contra os actos hediondos cometidos pelos terroristas do 7 de
Outubro e também condenar o massacre de mulheres e crianças inocentes em Gaza”,
disse Spielberg em Março passado. “Isto faz de nós uma força única para o bem
no mundo e é por isso que estamos aqui hoje para celebrar o trabalho da
Fundação Shoah, que é mais crucial agora do que em 1994.”
Por muitos anos
tive muita sorte de passar grande parte da minha vida profissional contando
histórias. As histórias são a base da história. As histórias podem ser mágicas.
Eles podem ser inspiradores, aterrorizantes... podem ser inesquecíveis. E
oferecem um retrato da humanidade em toda a sua beleza e tragédia. E são uma
das nossas armas mais poderosas na luta contra o anti-semitismo e o ódio racial
e religioso. O Holocausto, ou como os meus pais lhe chamavam “os grandes
assassinatos”, é uma das histórias que ouvi enquanto crescia, comenta a
Euronews sobre o três vezes vencedor do Óscar.
A Fundação
Shoah, que o próprio Spielberg inaugurou um ano depois de dirigir 'A Lista de
Schindler' na década de 1990, lançou um projeto, enfatizando a necessidade de
paz, para documentar os acontecimentos de 7 de outubro e adicioná-los à coleção
de depoimentos de testemunhas e sobreviventes de o Holocausto.
Naquele dia,
mais de 1.400 pessoas morreram em território israelita, reconhece o seu
exército. Enquanto outros 224 foram transferidos para Gaza, como reféns do
movimento de resistência Hamas. Embora Spielberg não esteja diretamente
envolvido no esforço de compilação dos testemunhos, ele expressou o seu apoio,
afirma a fundação.
O eco seletivo
O mundo assiste
com horror à forma como a população civil de Gaza é bombardeada impiedosamente.
Um total de 36.280 palestinos morreram em ataques israelenses – a maioria
mulheres e crianças – desde 7 de outubro de 2023 até o dia 239 do cerco pelas
forças de ocupação em Gaza e na Cisjordânia. Os médicos escrevem em cadernos em
frente aos necrotérios lotados e nos corredores dos hospitais. Eles contam os
corpos que ficaram presos sob os escombros e amontoados em valas comuns,
cavadas em antecipação a um novo bombardeio.
O Ministério da
Saúde de Gaza regista milhares de feridos após a ofensiva israelita. “Mais de
13.000 crianças foram assassinadas”, confirmou em março o porta-voz da Unicef,
James Elder, na rede social.
Fonte: Telesur
Imagem de
destaque: Criança palestina de 13 anos morre de fome no centro da Faixa de
Gaza após o fecho da passagem de fronteira de Rafah pelas forças israelitas (Aqui)
Fonte https://www-resumenlatinoamericano-org.translate.goog/2024/06/01/pensamiento-critico-palestina-la-barbarie-que-no-cabe-en-hollywood/
https://temposdecolera.blogs.sapo.pt/palestina-a-barbarie-que-nao-cabe-em-162489









