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domingo, 2 de agosto de 2026

(45) Joyce Lussu - Scarpette Rosse

 

2026 07 25 - Murais em Orgosolo, Sardenha, Itália - Joyce Lussu e memória do Holocausto (pormenor)

Este mural, também situado em Orgosolo, é um poderoso tributo à memória do Holocausto e à figura de Joyce Lussu, aliando a poesia de intervenção ao pacifismo antiautoritário.

sexta-feira, 15 de maio de 2026

Carlos Coutinho -. [O horror bíblico]

* Carlos Coutinho

O horror bíblico, superior ao próprio inferno, por ser verdadeiro e ter datas, pode exprimir-se em muitas línguas e, sendo referido a factos diferentes no tempo e no modo, não deixa de ser a moeda de duas faces que de um lado tem o holocausto e do outro a Nakba, o custo real da existência humana, quando o seu ADN é o expoente máximo da crueldade politizada, ora por Deus, ora pelo Diabo.

   Hoje, o dia que recebe uma das datas mais hediondas do calendário judaico-árabe, celebra-se a criação do Estado de Israel, acaso histórico ocorrido a 14 de Maio de 1948, mais de metade do mundo sabe o que foi o Holocausto, aquela multitudinária matança físico-química e pós-pogromes que o justificou, mas, em contrapartida, muitos menos são os terráqueos com uma noção, mesmo que só aproximada, do que foi a Nabka, apesar dos seus trágicos prolongamentos na Palestina ocupada e nos territórios adjacentes.

   Se é certo que a Resolução 181 da Assembleia Geral da ONU estabeleceu no dia 29 de novembro de 1947 a divisão da Palestina histórica em doois estados, um hebraico e outro, a verdade é que a proclamação do Estado de Israel foi feita de forma unilateral pelos dirigentes sionistas, à revelia das Nações Unidas, acompanhada por uma orgia de violência que nem Hitler desdenharia e que Netanyahu gostosamente prolonga, com Trump a assobiar para o lado e a arquitetar negócios próprios e milionários para o teatro do morticínio, sem câmaras de gás nem fornos crematórios, mas com palacetes de luxo à beira-praia.

   Os 78 anos decorridos desde maio de 1948 têm sido uma permanente nabka. A ocupação de territórios internacionalmente reconhecidos como palestinianos e a violência sistemática e brutal praticada por Israel são agora a continuação de um genocídio que não terminou, apesar do “cessar-fogo”   e do “plano de paz” anunciados por Trump.

   Hoje, os dirigentes israelitas proclamam abertamente o objetivo de expandir o Estado sionista e não apenas com a ocupação de todo o território histórico da Palestina, do rio até ao mar, o tal “Grande  Israel” que é muitas vezes descrito como indo do Nilo ao Eufrates.

   No terreno prossegue a ocupação de vastas zonas da Palestina e da Síria, a tentativa de ocupação o sul do Líbano, além de repetidas agressões ao Irão, em conjunto com os EUA.

   O historiador israelita Ilan Pappe, que só pode ser tomado como insuspeito, escreve que, ao longo de poucos meses, “mais de metade da população nativa da Palestina, cerca de 800 000 pessoas, foi expulsa de suas casas”, uma ação planeada, o Plano Dalet, e que “as ordens dadas incluíam uma descrição pormenorizada dos métodos a serem empregues para expulsar a população pela força: intimidação em larga escala; sitiar e bombardear aldeias e centros populacionais; atear fogo a casas, propriedades e bens; expulsões; demolições e, finalmente, colocar explosivos entre os destroços para impedir o regresso dos habitantes”. Houve “dezenas de massacres” e até o “o envenenamento de fontes de Acre com tifo

2026 05 13

https://www.facebook.com/carlos.coutinho.7

sexta-feira, 24 de abril de 2026

Joyce Lussu - Scarpette Rosse


2026 04 21 - Mural em Orgosolo - A Joyce Lussu (2022)


Este é um dos poemas mais impactantes de Joyce Lussu, escrito após sua visita aos campos de concentração. O poema é uma poderosa denúncia do Holocausto, focando na imagem dilacerante da inocência interrompida.


Scarpette Rosse

C’è un paio di scarpette rosse
numero ventiquattro
quasi nuove:
sulla suola interna si vede ancora la marca di fabbrica
«Schulze Monaco».

C’è un paio di scarpette rosse
in cima a un mucchio di scarpette infantili
a Buchenwald

erano di un bambino di tre anni
di un bambino di tre anni
dai piedi scalzi
che correva piangendo
e s’è fermato fuori della porta
perché la sua mamma lo prendesse in braccio

e poi è entrato nel fumo
ed è diventato fumo
che nel vento si è disperso

ora c’è un paio di scarpette rosse
numero ventiquattro
quasi nuove
perché i piedini dei bambini morti
non consumano le suole.

Contexto e Significado
A Origem: O poema foi inspirado em um par de sapatos reais que a autora viu no museu do campo de concentração de Buchenwald. O Contraste: A força do texto reside no contraste entre a precisão técnica (o número 24, a marca "Schulze Monaco") e o destino trágico e imaterial da criança que se torna fumo. O Encerramento: Os últimos versos são considerados alguns dos mais pungentes da literatura italiana do pós-guerra, explicando o porquê de os sapatos estarem "quase novos": a morte não dá tempo ao desgaste.

A inclusão deste poema em Orgosolo reafirma o caráter da vila como um centro de memória política e antifascista. Homenagear Joyce Lussu — que foi uma ferrenha resistente durante a Segunda Guerra Mundial e uma defensora fervorosa dos direitos humanos — conecta a identidade sarda com as lutas universais contra a opressão e a favor da paz

Traduzir Joyce Lussu exige manter a simplicidade quase documental que ela utiliza para descrever o horror. A força deste poema reside na ausência de adjetivos complexos; é a crueza dos fatos que emociona. Aqui está a tradução para português:


Sapatinhos Vermelhos

Joyce Lussu

Há um par de sapatinhos vermelhos

número vinte e quatro

quase novos:

na sola interna ainda se vê a marca de fábrica

«Schulze Munique».


Há um par de sapatinhos vermelhos

no topo de um monte de sapatinhos infantis

em Buchenwald


eram de um menino de três anos

de um menino de três anos

de pés descalços

que corria chorando

e parou diante da porta

para que a sua mãe o pegasse no colo


e depois entrou no fumo

e tornou-se fumo

que no vento se dispersou


agora há um par de sapatinhos vermelhos

número vinte e quatro

quase novos

porque os pezinhos das crianças mortas

não gastam as solas.


Notas sobre a tradução

  • "Scarpette": Optei por "sapatinhos" para manter o diminutivo carinhoso e infantil do italiano, que reforça o contraste com a brutalidade do destino da criança.

  • "Entrato nel fumo": A tradução mantém a imagem literal da câmara de gás e dos crematórios, onde o corpo físico se desfaz, restando apenas o objeto material (o sapato) como prova da existência.

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

Alfredo Barroso - Crimes de guerra não foram só os da Alemanha, da Itália e do Japão

 


LIVROS SOBRE O IMPERIALISMO OCIDENTAL, EUROPEU E AMERICANO, E A ARROGÂNCIA E GANÂNCIA DO PODER DOS ESTADOS-UNIDOS

- livros sugeridos por Alfredo Barroso, porque, se fossem lidos pela esmagadora maioria dos comentadores epecialistas das TV's privadas, eles perceberiam melhor os disparates que proferem ao falarem do «imperialismo Russo»...

Alfredo Barroso

2026 02 26

HISTÓRIA E LITERATURA FIDEDIGNAS SOBRE CRIMES DE GUERRA COMETIDOS PELO OCIDENTE DESDE A II GUERRA MUNDIAL

Para não ser apenas eu a fruir dos livros da minha biblioteca, aqui vão cinco sugestões de leitura sobre história e literatura fidedignas acerca dos crimes de guerra cometidos pelo Ocidente, sobretudo pelo Reino Unido, durante a II Guerra Mundial. E pelos Estados-Unidos da América desde então até à actualidade. Ei-las:

«DER BRAND. DEUTSCHLAND IM BOMBERKRIEG, 1940-1945» («EL INCÊNDIO. ALEMANIA BAJO LOS BOMBARDEOS, 1940-1945), por JÖRG FRIEDERICH (2002) – Os bombardeamentos que assolaram as cidades, vilas e aldeias alemãs durante os cinco anos da II Guerra Mundial não têm paralelo na história. Foram bombardeadas mais de mil urbes e localidades. Trinta milhões de civis – na sua maioria velhos, mulheres e crianças – foram vítimas de cerca de um milhão de toneladas de bombas incendiárias e explosivas. Morreram mais de um milhão de civis e perdeu-se para sempre grande parte do património urbanístico, modelado desde a Idade Média.

Até à publicação deste livro, em 2002, nenhum relato histórico tinha oferecido uma narrativa sobre a verdadeira dimensão dos factos e o destino real das vítimas. O historiador berlinense JÖRG FRIEDERICH veio colmatar essa falta com esta obra sobre a campanha de destruição que os britânicos e os norte-americanos planearam e executaram, de forma sistemática, contra as cidades alemãs.

Com base em numerosas fontes, o autor mostra-nos a evolução e aperfeioçoamento das bombas, o seu efeito devastador no terreno, a experiência traumática da população refuguada em “bunkers” e caves, as mortes por calor e asfixia, a brutal pressão do ar e os gases tóxicos e o desmoronar de uma herança cultural de incomensurável riqueza.

JÖRG FRIEDERICH (nascido em 1944) investigou os delitos de Estado do nazismo e os seus crimes de guerra. Colaborou na ‘Enciclopédia do Holocausto’ e produziu inúmeras séries de televisão sobre Criminologia da Guerra, tanto terrestre como aérea. Foi galardoado com diversas distinções internacionais em virtude dos seus trabalhos.

«LUFTKRIEG UND LITERATUR» («HITÓRIA NATURAL DA DESTRUIÇÃO»), por W. G. SEBALD (1999) – Através deste texto magistral, o grande escritor W.G.Sebald (1944-2001) revela como os bombardeamentos massivos do solo alemão pelas tropas aliadas, nos últimos meses da II Guerra Mundial, se tornaram um tabu no seio da sociedade e da literatura alemãs. Rejeitando o sentimento de culpabilidade dos intelectuais alemães, que falseia o seu julgamento tanto quanto a sua inspiração estética, W. G. Sebald preencheu a lacuna por uma evocação à sua maneira desses “raids de aniquilação total” que custaram a vida a cerca de um milhão de civis alemães.

«Da destruição como elemento da história natural» é uma obra incisiva e poderosa, ilustrada por fotos e documentos, que torna palpável o sofrimento do seu país, escrita por um dos mais notáveis escritores contemporâneos, W. G. Sebald, autor de várias obras marcantes como: “Os Emigrantes” (1999); «Os Anéis de Saturno» (1999); «Vertigens” (2001); e «Austerlitz» (2002).

(Edição portuguesa da TEOREMA)

«HIROSHIMA», por JOHN HERSEY (1946 e 1986) – Este é o livro mundialmente mais conhecido do jornalista e escritor norte-americano John Hersey (1914-1993). Publicado pela primeira vez em quatro capítulos pela revista ‘New Yorker’, em 1946, John Hersey acrescentou um quinto capítulo em 1986. Este livro publica a versão integral.

Quando a bomba atómica alcunhada ‘Little Boy’ foi lançada pelos EUA sobre a cidade japonesa de Hiroshima, a 6 de Agosto de 1945, a menina TOSHIKO SASAKI, funcionária do departamento de pessoal da Fábrica de Estanho do Leste Asiático, estava a conversar com uma colega. O dr. MASAKAZU FUJII, proprietário e único médico de um hospital, acabara de instalar-se com todo o conforto no seu alpendre. A senhora HATSUIO NAKAMURA, viúva, estava à janela a observar uma cena estranha. O padre WILHELM KLEINSORGE, sacerdote alemão, lia uma revista jesuíta. O jovem cirurgião TERUFUMI SASAKI caminhava pelo corredor dum hospital com uma amostra de sangue destinada a um teste Wassermann. O reverendo KIIOSHI TANIMOTO, pastor da Igreja Metodista de Hiroshima, preparava-se para descarregar o conteúdo de um carro de mão numa casa dos subúrbios da cidade.

«A bomba atómica [de Hiroshima] matou cem mil pessoas, e estas seis contavam-se entre os sobreviventes. E ainda se interrogam como foi possível sobreviverem quando tantas outras pereceram».

Ao mesmo tempo que o holocausto produzido pelo nazismo está presente na memória social, ‘o outro holocausto’ seu contemporâneo parece ter-se diluído na existência irreal dos homens. E, no entanto, o emprego da arma atómica contra duas cidades japonesas [a bomba atómica ‘Fat Man’ foi lançada pelos EUA sobre a cidade japonesa de Nagasaki em 8 de Agosto de 1945] constitui uma denegação de sentido equivalente aos extermínio das «raças inferiores» pelos nazis. Auschwitz e Hiroshima são duas marcas do terror absolutamente contíguas, constituindo as figuras máximas da descivilização no século XX: os campos da morte e o emprego militar da energia atómica.

(Edição portuguesa da ANTÍGONA)

«CHAIN OF COMMAND» («DOMMAGES COLLATÉRAUX. LA FACE OBSCURE DE LA “GUERRE CONTRE LE TERRORISME”), por SEYMOUR HERSH (2004) – Nesta obra impressionante, o grande jornalista norte-americano Seymour Hersh deslinda para nós o complicado feixe de manipulações e de manobras que conduziram ao ataque contra o World Trade Center e ao escândalo das torturas na prisão do Exército dos EUA em Abu Ghraib, no Iraque. Alimentado por inúmeras confidências de «fontes» altamente colocadas, o relato de Seymor Hersh faz-nos mergulhar no próprio coração do poder americano. Quer se trate das manigâncias da ‘Cabala’, o pequeno grupo de neo-conservadores que ‘fabricaram’ a guerra no Iraque; quer se trate do relatório confidencial de 2002 denunciando as torturas em Guantanamo Bay, prefiguração directa do que iria acontecer em Abu Ghraib; quer se trate da operação ‘Anaconda’, durante a qual os ‘GI’, por incompetência do seu comando, deixaram escapar Ossama Bin Laden…

Vale a pena salientar que nem uma das informações reveladas neste livro por Seymor Hersh foi desmentida pela Administração, cuja única resposta foi: «Seymour Hersh é um mentiroso».

Este livro lê-se como um antídoto à desinformação.

SEYMOUR M. HERSH (nascido em 1937) é já uma lenda do jornalismo de investigação. Durante quatro décadas, foi uma ‘pedra no sapato’ de todos os Presidentes que se sucederam na Casa Branca, por causa das suas investigações exemplares. Foi ele que revelou o terrível massacre de My Lai, cometido em Novembro de 1969 por tropas dos EUA durante a Guerra do Vietnam. Jornalista independente, trabalhou muitos anos para o ‘New York Times’ e foi grande repórter da revista ‘New Yorker’. Publicou vários livros sobre as suas investigações e foi galardoado com o Prémio Pulitzer (de Jornalismo).

«DIRTY WARS, THE WORLD IS A BATTLEFIELD» («DIRTY WARS, LE NOUVEL ART DE LA GUERRE») por JEREMY SCAHILL (2013) – Um Exército secreto. Uma Missão sem fronteiras. Uma Guerra sem fim. A leitura desta obra-prima do jornalismo de investigação tem o efeito dum electrochoque. Jeremy Scahill leva-nos longe das frentes oficiais, lá onde bem poucos jornalistas conseguem chegar e onde o Estado toma o gosto por práticas inconfessáveis. E o Presidente dos EUA Barak Obama (2009-2017), com os seus ‘drones’ assassinos, foi um dos mais flagrantes exemplos.

Nesta impressionante investigação que assume a forma de um ‘thriller’, Jeremy Scahill foca o projector nas manobras clandestinas do Joint Special Operations Command (JSOC), esse corpo de exército colocado directamente sob as ordens da Casa Branca, munido de uma autorização para matar com toda a impunidade, e para o qual o mundo não passa dum campo de batalha. Do Afeganistão ao Yémen, passando pelo Paquistão, pela Somália e pelos Estados-Unidos, o jornalista dá a palavra às vítimas dessa guerra suja (‘dirty war’), às famílias destruídas, homens e mulheres que têm de escolher entre a dor resignada e a ‘djihad’ contra uma América deveras sanguinária.

JEREMY SCAHILL é jornalista de investigação e correspondente de guerra da revista americana ‘The Nation’. É também autor de “Blackwater: a ascensão do exército privado mais poderoso do mundo”. Depois de ter participado na revelação do escândalo ‘Prism’, com os jornalistas Glenn Greenwald e Laura Poitras, Jeremy Scahill fundou ‘The Intercept’, uma revista on-line que difunde nomeadamente as informações reveladas por Edward Snowden.

Este seu livro foi considerado um dos 10 melhores livros do ano de 2013 nos Estados-Unidos da América pela “Publishers Weekly”.

Campo d’Ourique, 26 de Fevereiro de 2026 (e 29 de Julho de 2022)

 https://www.facebook.com/somera.simoes

domingo, 10 de agosto de 2025

Rebecca Martin Goldschmidt e Seiji Yamada - Hiroshima, Nagasaki e o genocídio em Gaza


 



Por Rebecca Martin Goldschmidt e Seiji Yamada

O Holocausto, o genocídio dos judeus europeus pelos nazis, serve de justificação ideológica para o projecto sionista de apartheid, limpeza étnica e agora a Solução Final do genocídio.

À medida que o projecto sionista transita do apartheid e da limpeza étnica para a solução final para o genocídio que durou décadas, comemoramos também o 80º aniversário dos bombardeamentos nucleares de 6 e 9 de Agosto em Hiroxima e Nagasáqui. Consideremos as implicações de recordar o genocídio nuclear neste momento actual de tecnogenocídio em Gaza.

A 24 de outubro de 2023, Omar El Akkad, jornalista e romancista egípcio-americano, publicou no X: "Um dia, quando for seguro, quando não houver incómodo pessoal em chamar as coisas pelos seus nomes, quando for tarde demais para responsabilizar alguém, todos dirão que foram contra isso o tempo todo." O tweet, visualizado mais de 10 milhões de vezes, foi transformado num livro, One Day, Everyone Will Have Always Been Against This , publicado no início deste ano. Intercaladas com reflexões sobre o genocídio dos palestinianos em Gaza, estão pensamentos sobre a sua própria história e a da sua família. Como árabe e muçulmano, El Akkad reflete sobre como responderia se lhe dissessem: "Volta para onde vieste". Pensa para si: "Se gosta tanto de governos autoritários, porque não vai para onde eu vim?"

Até que ponto se pode ser contra os bombardeamentos atómicos? E como evoluíram as atitudes em relação aos bombardeamentos desde então? Em 1945, a opinião pública americana era favorável à vingança de Pearl Harbor e à destruição do Império Japonês. As representações dos japoneses como vermes ou macacos despertaram o apoio ao bombardeamento da população civil em todas as principais cidades japonesas (excepto Quioto). O bombardeamento de Tóquio, a 9 e 10 de março de 1945, fez cerca de 100.000 mortos. Combinados, os bombardeamentos de Hiroshima e Nagasaki fizeram entre 150.000 e 246.000 mortos até ao final de 1945 (muitos outros morreram ao longo dos anos). Dado o secretismo em torno do Projecto Manhattan para desenvolver as bombas atómicas, muito poucas pessoas se opuseram à sua utilização antes de serem lançadas. Entre eles estava Leó Szilárd, um físico húngaro que fez circular uma petição durante o Verão de 1945, principalmente entre cientistas do Laboratório Metalúrgico de Chicago, na qual se opunha ao uso de tais armas sem dar ao Japão a oportunidade de se render.

Em 1942, no continente americano, sob uma ordem executiva assinada por Franklin D. Roosevelt, os nipo-americanos foram despojados das suas terras e propriedades e aprisionados em campos de concentração. Nada de semelhante foi perpetrado contra descendentes de alemães ou italianos. Não deveríamos chamar a isto limpeza étnica? É complicado interpretar a história através de categorias modernas? Embora Harry Truman tenha sugerido que, ao evitar a necessidade de invadir o território japonês, os bombardeamentos atómicos salvaram a vida de talvez meio milhão de soldados americanos, a maioria dos historiadores afirma que o Império Japonês sabia que estava acabado e pronto para se render.

O objectivo declarado dos bombardeamentos atómicos era pôr fim à guerra. Outras razões não declaradas incluíam a demonstração da nova arma ao futuro inimigo da Guerra Fria, a União Soviética, e a justificação do custo de desenvolvimento dessa arma para os contribuintes americanos. Embora o resultado final tenha sido a morte de muitos japoneses, o objetivo declarado não era genocida, pelo que não lhe chamamos oficialmente genocídio. (Deve notar-se, no entanto, que a etimologia de "holocausto" é "queimar tudo", e Hiroshima e Nagasaki foram certamente isso.)

Em 2025, toda a pessoa racional opõe-se à guerra nuclear, pois mesmo uma guerra nuclear "limitada" poderia desencadear um inverno nuclear, levando potencialmente à extinção da espécie humana. No entanto, o Boletim de Cientistas Atómicos está a mover o seu Relógio do Juízo Final cada vez mais para perto da meia-noite.

Faltam 89 segundos para a meia-noite. Os hibakusha (sobreviventes da bomba atómica), agora na sua maioria na casa dos 80 anos, gritam: "Basta de Hiroshima! Chega de Nagasaki! Não às armas nucleares! NÃO À GUERRA!". À medida que se aproxima o 80º aniversário, os activistas palestinianos em Hiroxima tentam destacar este momento não só nos milhares de japoneses, coreanos e outros que morreram e ficaram feridos no genocídio nuclear, mas também assinalá-lo como um dia de protesto contra o genocídio em curso em Gaza e a limpeza étnica em toda a Palestina.

Ao comemorarmos o 80º aniversário do bombardeamento, devemos também incluir a história do imperialismo japonês, que foi apagada da Cerimónia Memorial da Paz, sancionada pelo Estado, em Hiroshima. A derrota do Império Japonês deve ser vista como a libertação dos povos da Ásia e do Pacífico do brutal domínio colonial japonês. Os ecos do imperialismo japonês perduram sob diversas formas neocoloniais por toda a Ásia, através da exploração económica, territorial e laboral, do turismo e da indústria do sexo, para não falar da ocupação contínua das terras Ainu em Hokkaido e das terras Ryukyu em Okinawa. De facto, consideramos a cerimónia em si um ritual que reforça a mitologia nacional japonesa e o sistema nacionalista do imperador, que "exige" armas nucleares.

Até a forma como a "paz" é imposta em Hiroxima através da "oração silenciosa" é uma manipulação fascista das expressões de pesar e raiva das pessoas. A cidade de Hiroshima convenceu o público de que dobrar tsurus de papel e levar crianças a visitar o Parque da Paz é suficiente para alcançar a "paz".

 

Em 2024, com o genocídio palestiniano em pleno andamento, a cidade de Hiroshima, vergonhosamente, convidou um delegado israelita a participar na Cerimónia do Memorial da Paz de Hiroshima, sem convidar qualquer representante palestiniano. Por sua vez, as autoridades da cidade de Nagasaki retiraram o convite ao delegado israelita. Este ano, Hiroshima enviou "notificações" em vez de "convites" para tentar evitar controvérsias sobre quais os países que foram convidados e quais não foram. Esta atitude de "lavagem da paz" é partilhada pela maioria da sociedade japonesa, que também desconhece as atrocidades cometidas pelos seus antepassados em nome do imperador.

Em "O Mundo Depois de Gaza", Pankaj Mishra oferece uma visão geral de como o Holocausto, o genocídio dos judeus europeus pelos nazis, passou a servir de justificação ideológica para o projeto sionista de apartheid, limpeza étnica e, agora, a Solução Final do genocídio. Da mesma forma, Hiroshima e Nagasaki são as histórias de vitimização definitivas que os nacionalistas japoneses utilizam para justificar a militarização, o desenvolvimento tecnológico e de armamento, e a colaboração contínua com o regime israelita.

O programa Aichi-Israel Matching, que liga as startups israelitas de tecnologia de armamento com o coração industrial do Japão, é um exemplo perfeito. O fundo de pensões japonês (o maior do mundo!) investe fortemente em títulos israelitas, bem como em fabricantes de armas como a Elbit Systems (Israel), a Lockheed Martin (EUA) e a BAE Systems (Reino Unido). Empresas japonesas como a Kawasaki compram drones a Israel, enquanto a Mitsubishi Heavy Industries fabrica peças para a cadeia de abastecimento do F-35.

Entretanto, nas últimas eleições, o partido Sanseito, de Trump, conquistou 14 lugares no governo graças à sua retórica xenófoba transmitida no YouTube, que explorou os receios japoneses de contaminação estrangeira e da perda da cultura japonesa "pura". Este renovado foco no racismo explícito, aliado ao rápido desenvolvimento da indústria de armas de inteligência artificial em colaboração com um regime genocida, é o que nós, japoneses, consideraríamos " abunai " — perigoso!

O nosso ponto mais urgente do Ground Zero de Hiroshima é este: a Palestina é uma questão nuclear. Israel possui mais de 100 armas nucleares e é, na prática, um depósito de armas nucleares dos EUA na Ásia Ocidental. Vários dos seus responsáveis governamentais têm defendido o uso de armas nucleares em Gaza. A recente guerra semi-clara com o Irão danificou instalações de produção de combustível nuclear, causando potencialmente uma contaminação química e radioactiva que ninguém está disposto a reconhecer. Demonstrou o quão preparado Israel, com o apoio dos EUA, está para arrastar a região para uma guerra nuclear, mesmo tendo sido obrigado a pedir um cessar-fogo face à resposta do Irão.

As alegações de Hiroshima de ser uma "cidade internacional da paz", comprometida com a abolição das armas nucleares, soam egoístas e vazias, pois a cidade permanece em completo silêncio sobre a realidade nuclear da Palestina e continua a ocultar os próprios crimes de guerra do Japão. Como luta de libertação indígena, a Palestina também está ligada ao movimento #LandBack, que se cruza com a luta contra o colonialismo nuclear, desde as Ilhas Marshall a Semipalatinsk, no Cazaquistão, à Nação Navajo, a Shinkolobwe no Congo, aos povos aborígenes australianos e muitos outros.

A dor de Hiroshima, Nagasaki e de todos os massacres e atrocidades dos últimos 80 anos são reais e ainda hoje nos assombram. Tanto o movimento antinuclear como os movimentos de libertação palestinianos surgiram e desenvolveram-se também durante esses mesmos 80 anos. Os activistas palestinianos no Japão vêem para além da fachada do 80º aniversário de Hiroshima e percebem que o sistema imperial japonês, bem como os sistemas britânico, americano, alemão e outros, não mudou realmente; apenas mudou de forma.

Há quase dois anos, assistimos a um genocídio em Gaza, em que os perpetradores juraram eliminar os amalecitas, ou "animais humanos". Como se Israel estivesse a experimentar uma mistura de métodos de extermínio, vimos crianças dilaceradas por bombas, baleadas por atiradores furtivos e agora mortas de fome. Os contribuintes americanos financiam isso. Os participantes do plano de pensões japonês financiam isso. Os nossos governos e os seus parceiros corporativos fornecem as armas e fornecem cobertura diplomática.

Não devemos permitir que os nossos governos se apropriem das nossas histórias de dor e sofrimento para justificar mais dor e sofrimento. Não devemos esperar até que seja seguro, até que não haja mais inconvenientes pessoais em chamar as coisas pelos seus nomes, até que seja tarde demais para responsabilizar alguém. Devemos fazer tudo o que estiver ao nosso alcance para nos opormos ao apartheid, à limpeza étnica e ao genocídio. Devemos lutar pela libertação da Palestina e pela libertação de todos os povos da dominação, da militarização e das economias de guerra.

CounterPunch.org e FONTE  

https://www-lahaine-org.translate.goog/mundo.php/hiroshima-nagasaki-y-el-genocidio-en-gaza?

Publicado Yesterday por obarbaro

https://osbarbarosnet.blogspot.com/2025/08/hiroshima-nagasaki-e-o-genocidio-em-gaza.html

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2025

Manuel Loff - Gaza e Auschwitz, 80 anos depois

É hora de fazer o balanço dos 471 dias de massacre, limpeza étnica e execução de um projeto genocida para Gaza e o conjunto da Palestina.

 * Manuel Loff 

22 de Janeiro de 2025 

Ironia da história, o cessar-fogo foi declarado em Gaza quase 80 anos depois da libertação de Auschwitz (27 de janeiro de 1945) pelos soldados soviéticos. Confirmadas pelo Tribunal Penal Internacional as acusações de crimes de guerra e contra a humanidade praticados por Israel, emitidos mandados de captura de Netanyahu e do seu ex-ministro Yoav Gallant, aberta a investigação pelo Tribunal Internacional de Justiça sobre o crime de genocídio, é hora de fazer o balanço dos 471 dias de massacre, limpeza étnica e execução de um projeto genocida para Gaza e o conjunto da Palestina.

O TPI acusou a cúpula do Estado de Israel de crimes de guerra (provocar a “fome como método de guerra” e “intencionalmente dirigir um ataque contra a população civil”) e dos crimes contra a humanidade de “assassinato, perseguição e outros atos desumanos”. Pelos registos das autoridades sanitárias de Gaza, julgava-se que estaríamos a chegar aos 50 mil palestinianos mortos desde outubro de 2023, 40% deles crianças e adolescentes. “É como se uma sala de aulas cheia de crianças fosse bombardeada todos os dias, (…) e todas essas crianças são mortas”, dizia há meses Marta Lorenzo, da UNRWA, ao PÚBLICO. Ora os dados estão subestimados. Um estudo publicado na The Lancet estima em 64 mil os mortos só até 30 junho de 2024, isto é, 41% mais do que o registado (“Traumatic injury mortality in the Gaza Strip from Oct 7, 2023, to June 30, 2024: a capture–recapture analysis”, 9/1/2025). Se compararmos apenas os números oficiais (isto é, dos corpos encontrados e registados, excluindo, portanto, todos aqueles desaparecidos que possam estar sob as ruínas) com os dos períodos mais mortíferos de outras guerras, os palestinianos mortos pelos israelitas em Gaza no 1.º ano da invasão são o triplo dos ucranianos mortos em 2022 (cálculos do Uppsala Conflict Data Program, El País, 19/1/2025). A intenção genocida amplamente documentada nos relatórios do Conselho de Direitos Humanos da ONU foi passada à prática “numa das campanhas de bombardeamentos mais devastadoras da história” (Robert Pape, Foreign Affairs, 6/12/2023).

Limpeza étnica: 90% da população foi deslocada à força, “várias vezes, para territórios cada vez mais reduzidas, sem infraestruturas básicas, obrigando as pessoas a viver em condições que as expunham a uma morte lenta e calculada. [Israel] obstruiu ou negou deliberadamente a importação e a entrega de ajuda humanitária para salvar vidas. Restringiu o fornecimento de eletricidade (…), levando ao colapso dos sistemas de água, saneamento e cuidados de saúde. Submeteu centenas, senão milhares, de palestinianos de Gaza a detenção em regime de incomunicabilidade e a atos de tortura e outros tratamentos cruéis, desumanos ou degradantes que”, só esses, “terão causado pelo menos 53 mortes até agosto de 2024.” (Amnistia Internacional,‘You Feel Like You Are Subhuman’. Israel’s Genocide Against Palestinians in Gaza, 2024)

Que os responsáveis por tudo isto invoquem a memória do Holocausto, isto é, do genocídio judeu (e cigano, e de populações eslavas) perpetrado pelos nazis até 1945, está a impedir, como diz Marianne Hirsch, que o “Holocausto possa voltar a servir como 'referência moral universal', se é que alguma vez o foi" (Rethinking Holocaust Memory After October 7, Public Books, 15/7/2024). Um dos sobreviventes de Auschwitz, Primo Levi, recordava-se de como os SS, cientes da derrota próxima, diziam aos prisioneiros: “Seja qual for o fim desta guerra, nós ganhámos; (...) mesmo que algum de vocês escape, o mundo não acreditará em vocês. Talvez haja suspeitas, discussões, investigação de historiadores, mas mas não haverá certezas (...). [A]s pessoas dirão que os factos que vocês contam são demasiado monstruosos para serem acreditados: dirão que são exageros da propaganda (...), e acreditarão em nós, que negaremos tudo. Nós é que da UE face ao genocídio, é que sejam os israelitas a contar a história do que aconteceu em Gaza.  vamos ditar a história dos campos [de extermínio]” (Os que sucumbem e os que se salvam, 1986). O que nos arriscamos hoje, depois de ano e meio de cumplicidade e/ou silêncio dos EUA e

O autor é colunista do PÚBLICO e escreve segundo o novo acordo ortográfico  

https://www.publico.pt/2025/01/22/opiniao/ 


quinta-feira, 26 de dezembro de 2024

Alfredo Barroso - OS INCÊNDIOS ATEADOS PELO "OCIDENTE" NA "ERA DOS EXTREMOS"


* Alfredo Barroso 

(que se limitou a actualizar de 140 para 160 anos a 1ª linha do texto publicado originalmente no 'Expresso' há 20 anos*)

Há 160 anos, em Setembro de 1864, no decurso da Guerra da Secessão americana (ou «Civil War», se preferirem), o general «nortista» William Sherman (que deu o nome a carros de combate) conquistou a cidade de Atlanta e mandou incendiá-la. Tal como faria em Savannah, no final de 1864, depois de ter devastado a Geórgia. Mas o incêndio de Atlanta é o mais conhecido e popular, por ter sido reconstituído em uma cena aterradora do filme «E Tudo o Vento Levou». 

A Guerra da Secessão americana (1861-1865), uma das mais brutais de todos os tempos, custou para cima de um milhão de mortos, embora só se saiba, com precisão, quantos militares morreram de ambos os lados. Ao todo, 617 mil mortos (359 mil entre os «nortistas» vitoriosos; 258 mil entre os «sulistas» derrotados). Quanto a vítimas civis, não é apresentado um número exacto, mas todos os especialistas concordam em apontar para «centenas de milhares» de mortos e feridos. 

O mesmo se passa em relação ao genocídio dos índios americanos [os ameríndios], que começou ainda antes da Guerra Civil e atingiria o auge bastante depois, em Dezembro de 1890, com o célebre «massacre de Wounded Knee», onde os soldados do famoso «7º de Cavalaria» se vingaram da derrota que os Sioux (chefiados por Crazy Horse e Sitting Bull) tinham infligido ao regimento (então comandado pelo general Custer) em Little Big Horn, no Verão de 1876. Além de ser um «castigo», a chacina dos amerindios foi um genocídio institucional (uma «sanção política do conquistador») e utilitário (uma «exploração da conquista colonial») no contexto da corrida para conquistar o Oeste («Go West»), apresentada, paradoxalmente, como um exemplo da «modernidade». Assim se consolidou, no século XIX («A Century of Dishonor», como escreveu Helen Hunt Jackson, em 1881), o país que hoje se considera  «farol» da «civilização ocidental» e «campeão» da liberdade contra a «barbárie».

Mas seria durante todo o século XX - «A Era dos Extremos», como lhe chamou Eric Hobsbawm - que a «civilização ocidental» revelaria toda a sua capacidade para praticar genocídios, crimes de guerra, massacres e carnificinas. Em suma: destruição e morte a uma escala nunca antes imaginada. Hitler - com o genocídio de judeus (holocausto), ciganos e opositores - e Estaline - com o genocídio pela fome na Ucrânia e com o Arquipélago do Gulag (entre o Estreito de Behring e o Mar Negro, atravessando as regiões mais inóspitas da Sibéria) - assassinaram milhões de seres humanos, em nome da «civilização», do «homem novo» e da «modernidade». Um e outro ocupam, indiscutivelmente, lugares no topo da escala do «terror». 

Mas aparecem depois, a uma distância que não é assim tão grande quanto se julga, os «Aliados», sobretudo os EUA e a Grã-Bretanha, com os «crimes de guerra» que cometeram, quer na na Alemanha equer no Japão, durante a II Guerra Mundial. As duas bombas atómicas largadas pelos bombardeiros americanos B-29 «Enola Gay» e «Great Artist» (que belos nomes!) sobre Hiroshima e Nagasaki, em 6 e em 9 de Agosto de 1945, mataram, imediatamente e a curto prazo, mais de 200 mil civis. Isto é, mais do dobro dos civis chacinados pelos 279 bombardeiros americanos que arrasaram Tóquio no dia 19 de Março de 1945. Mas estas carnificinas não constituíram excepções. Durante cinco anos, mais de mil cidades, vilas e aldeias alemãs foram alvos de bombardeamentos brutais e constantes. Milhares de toneladas de bombas explosivas e incendiárias atingiram 30 milhões de civis - sobretudo velhos, mulheres e crianças- matando mais de um milhão, numa série de ataques planeados e executados com minúcia, e de forma sistemática, por «peritos» norte-americanos e britânicos. O objectivo foi o de causar a maior devastação possível, provocando o terror entre a população civil. As bombas foram especialmente aperfeiçoadas para atear incêndios e matar civis, não só pelo impacto, mas também pelo calor asfixiante, pela compressão do ar e pelos gases tóxicos.

É isto que o historiador berlinense Jörg Friederich descreve, num livro aterrador, intitulado «O Incêndio, a Alemanha sob as bombas, 1940-1945». Autor insuspeito, também se distinguiu a investigar os crimes de guerra nazis e foi colaborador da «Enciclopédia do Holocausto». Em complemento, vale a pena ler o ensaio do escritor alemão W.G. Sebald «Sobre a História Natural da Destruição», em que o autor reflecte sobre a tragédia alemã, concluindo que, nem por ter sido merecido, o castigo infligido à Alemanha foi menos brutal. A decisão de incendiar cidades alemãs, reduzindo-as a cinzas, provocando o que tecnicamente se chama «tempestade de fogo», leva-nos a concluir que «todos perderam a razão, porque o indivíduo desapareceu sob o horror em massa». A tecnologia foi posta ao serviço do terror com uma precisão implacável.

Sobre as origens desse terror e sua actualidade neste «mundo globalizado», de cuja «modernidade» o «Ocidente» tanto se orgulha, convém ler o livro de John Gray, «A Al-Qaeda e o significado de ser moderno», já publicado em Portugal. Chega-se à conclusão de que não foram os «ocidentais» a aprender os métodos de terror com os «bárbaros». É bem mais provável que tenham sido os «bárbaros» a aprender a praticar o «terror» com os «ocidentais». O pretenso «choque de civilizações» só serve para alimentar «guerras santas» e «vinganças de Deus». Noutro ensaio notável, «A Fractura Imaginária», sobre «as falsas raízes do confronto entre Oriente e Ocidente», o libanês Georges Corm critica o «discurso narcisista do Ocidente», que se fecha sobre si próprio e que faz da pretensa «excepcionalidade ocidental» um absoluto, condenando os outros à «barbárie». Como se vivêssemos num mundo maniqueu, dividido entre o Céu e o Inferno, entre o Bem e o Mal, entre um Ocidente exemplar - «racional, laico, técnico, materialista e democrático» - e um Oriente abominável - «místico, irracional e violento». São mitos perigosos.  

É essa «fractura imaginária» - já denunciada por Edward Said no seu magnífico ensaio sobre o «Orientalismo» (só agora publicado em Portugal) - que é preciso refutar. Porque é ao abrigo de tais mitos que florescem os apelos ao autoritarismo e se invoca o terrorismo como pretexto para limitar as liberdades e condicionar a democracia. Não é com «democracias musculadas» e «guerras preventivas» baseadas em mentiras que se combate o terrorismo. Com as «bombas inteligentes» só se ateiam mais incêndios! 

(*) O texto original foi publicado no 'Expresso" de 18/Setembro/2004


2024 12 26
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quinta-feira, 19 de dezembro de 2024

Carlos Coutinho - Auschwitz I, II e III


Prisioneiros de Auschwitz libertados pelos soviéticos no dia 27 de janeiro de 1945

 * Carlos Coutinho

Carlos Coutinho

10 h  · 

NÃO raro, dois grandes escritores italianos, um ateu e outro judeu, um célebre com o seu “A Lua e as Fogueiras” e outro com “É Isto Um Homem?”, um nascido em 1908 e chamado Cesare Pavese e outro em 1923 para ficar com o nome Italo Calvino, mas ambos sepultados em Turim, um guerrilheiro antifascista (partigiano) que passou um ano encarcerado no Sul da Itália (em Barcaleone, Reggio Calabria), suicidando-se em 1950, depois de escrever “Ofício de Viver”, e outro nascido nos arredores de Havana, Cuba, transitando para Siena em menino com seus os pais judeus e, pouco depois, enviado para o Sul da Polónia ocupada, como prisioneiro dos nazis em Auschwitz, onde viu e sofreu todos os horrores, até ser libertado pelo Exército Vermelho, em 1945.

De Cesare é forçoso anotar que nasceu em Santo Stefano Belbo no dia 9 de setembro de 1908 e faleceu em Turim a 9 de agosto de 1950, tinha eu uns inocentes 7 anitos menos 15 dias e muita energia duriense para a brincadeira aldeã com os outros miúdos de Fornelos. Comprometeu-se de corpo e alma na luta armada antifascista, o que lhe rendeu um pavoroso ano de cárcere no Sul da península. 

Nessa época, iniciou o seu diário “O Ofício de Viver” (Il Mestiere di Vivere”), uma autocrítica largamente desenvolvida em reflexões sobre a sua arte, os seus processos criativos e o sentido da existência da sua própria existência. 

Há que acrescentar que Pavese já não era um desconhecido quando, em 1936, publicou “Lavorare Stanca” (Trabalhar cansa), porque já havia dado à estampa vários estudos sobre casos da literatura norte-americana clássica e contemporânea, reunidos posteriormente num volume publicado postumamente em 1951 (La letteratura americana e altri saggi), além de se notabilizar como tradutor muito fiel de Daniel Defoe, Charles Dickens, Herman Melville, James Joyce, Sinclair Lewis, John dos Passos, Gertrude Stein e William Faulkner.

Legou ao mundo uma obra valiosíssima: “A lua e as fogueiras” (1958); “Antes que o galo cante” (1959); “O ofício de viver”, diário (1935-1950); “A guitarra quebrada”, romance (1960); “Entre mulheres sós” (196?); “O diabo sobre as colinas” (1962); “Férias de Agosto” (1965); “A Praia” (1965); “O Verão” (1965); “Terras do meu país” (1969); “O camarada” (1974); “Trabalhar cansa” (1998); e “Diálogos com Leucó” (2007).

Trabalhou com Italo Calvino na Einaudi, onde desempenhou um papel fundamental, como, aliás, o judeu que amparou e guiou, quando voltou da Provinz Oberschlesien, Regierungsbezirk Kattowitz, Landkreis Bielitz, a oeste de Cracóvia onde Hiter montou o complexo de campos de concentração de Auschwitz, abrangendo uma grande área industrial rica em recursos humanos e naturais. 

Havia um total de 48 campos no complexo. Os maiores eram Auschwitz I, Auschwitz II–Birkenau e Auschwitz III–Monowitz ou Buna, um campo de trabalhos forçados. 

O centro administrativo do complexo ficava em Auschwitz I, onde cerca de 70 mil pessoas morreram, na sua maioria polacos étnicos e prisioneiros soviéticos. 

Auschwitz II era o campo de extermínio ou Vernichtungslager, onde não menos 960 mil judeus, 75 mil polacos e 19 mil ciganos foram assassinados. Auschwitz III-Monowitz servia como campo de trabalho para a fábrica Buna-Werke, do conglomerado industrial IG. 

O escritor e químico Primo Levi, sobrevivente de um ano de confinamento em Auschwitz III-Monowitz e autor de “É isto um homem?”, livro de leitura angustiante sobre o que Primo viu no campo de extermínio industrializado que tinha sobre o portão de entrada “Arbeit macht frei” ( Trabalhar liberta).

A SS selecionava alguns prisioneiros, geralmente criminosos alemães, como supervisores com privilégios (os chamados kapos, alguns deles judeus que assim pensavam safar-se e minorar o sofrimento dos outros). Judeus e prisioneiros soviéticos eram geralmente os tratados da pior maneira. 

Todos os encarcerados tinham que trabalhar nas fábricas de armas associadas ao complexo, à exceção dos domingos, reservado para limpeza e banho. Dos primeiros 10 mil prisioneiros de guerra soviéticos internados, apenas algumas centenas deles sobreviveram aos cinco primeiros meses. 

No porão do bloco ficavam as celas da fome", onde os presos ficavam sem receber comida ou água, até que morressem. Aí ficavam também as celas escuras", que tinham apenas um pequeno espaço na parede para respirar e portas sólidas; os prisioneiros colocados nestas celas permanentemente na escuridão iam gradualmente sufocando à medida que o oxigénio ia rareando dentro delas. 

Às vezes, os guardas da SS acendiam velas para fazer o oxigénio acabar mais depressa; muitos dos ali aprisionados eram suspensos com as mãos amarradas para trás por horas ou mesmo dias, o que fazia que, com o passar do tempo, suas clavículas fossem deslocadas.

Em 3 de setembro de 1941, o subcomandante SS-auptsturmführer Karl Fritzsch fez uma primeira experiência bem-sucedida com 600 prisioneiros de guerra soviéticos e 150 polacos, trancando-os dentro de um dos porões do bloco 11 e gaseando-os com Zyklon-B um pesticida altamente letal à base de cianureto, com que a Bayer fez bom negócio.

Foi aí que finalmente começou a Solução Final para o problema judeu, o seu extermínio como povo que os israelitas agora tentam por outros meios concretizar na Palestina ocupada, especialmente na Faixa de Gaza. 

A primeira câmara de gás de Auschwitz era conhecida como a Pequena Casa Vermelha, uma pequena construção de tijolos convertida em instalação de gaseamento, que intensamente matou, a partir de março de 1942. Uma segunda construção, a Pequena Casa Branca, também foi convertida em câmara de gaseamento, algumas semanas depois.

No começo de 1943, estava eu para nascer, os nazis resolveram ampliar a capacidade de gaseamento em Birkenau. O crematório II, originalmente construído como câmara mortuária, com necrotérios no porão e fornos no mesmo nível do solo, foi convertido numa fábrica de assassinatos, colocando-se uma porta à prova de gás no necrotério e adicionando entradas para o Zyklon-B e aparelhos de ventilação para remover os cadáveres. 

Este sistema começou a funcionar em março. O crematório III foi construído para usar o mesmo método. Os fornos IV e V, planeados exclusivamente como centros de gaseamento, foram construídos na primavera-verão de 1943, dois meses antes do meu nascimento, já funcionavam plenamente. 

Os kapos e os Sonderkommandos eram prisioneiros com privilégios: os primeiros tinham a obrigação de manter a ordem nos alojamentos e os segundos preparavam os recém-chegados imediatamente selecionados para morrer – geralmente as crianças, os anciãos e os doentes – nas câmaras de gás, seguindo depois os seus corpos para os fornos. 

Os subcampos femininos foram construídos em Budy, Pławy, Zabrze, Gleiwitz I, II, III, Rajsko e Lichtenwerden. Eram chamados de Aussenlager (campo externo), Nebenlager (campo de extensão) e Arbeitslager (campo de trabalho).

No total, cerca de 7 mil membros das SS foram designados para servirem em Auschwitz durante toda a existência dos campos. A principal autoridade geral ali era o Departamento de Economia da SS, conhecido como SS-Wirtschafts-Verwaltungshauptamt ou SS-WVHA; dentro do WVHA, estava o Departamento D que comandava diretamente as atividades.

A Gestapo, que viria a dar aulas à nossa PIDE, também mantinha um grande escritório em Auschwitz, com funcionários e oficiais uniformizados. No seu corpo médico, Joseph Mengele deu cartas e fez experiências com intenção científica. 

Uma orquestra de prisioneiras, a Orquestra Feminina de Auschwitz, era forçada a tocar grotescamente uma música alegre, à medida que os prisioneiros passavam pelos portões a caminho do trabalho. Esta orquestra foi criada pela supervisora-SS do campo feminino, Maria Mandel que, pelas suas atrocidades, ficou conhecida como A Besta. A Bayer, então uma subsidiária da IG Farben, comprava prisioneiros de Birkenau para servirem de cobaias nos testes de novas drogas.

Heissmeyer, que considerava os judeus como animais de laboratório, comandava experiências em crianças e fez diversas experiências hdiondas, injetando bacilos vivos da tuberculose diretamente nos pulmões dos prisioneiros, na tentativa de conseguir uma vacina para a terrível doença que tantos europeus e asiáticos matou. 

No Julgamento de Nuremberga, o ex-comandante do campo entre 1940 e 1943, Rudolph Höss, declarou que Adolf Eichmann lhe tinha falado de 2,5 milhões de mortos, mas admite-se que tenham sido cerca de 4 milhões, nas contas do Museu Estatal de Auschwitz. 

Os negacionistas do Holocausto dizem que isso não passa de um mito. 

Várias indústrias alemãs construíram as suas fábricas na área, para aproveitarem o trabalho escravo proporcionado por Morowitz, criando os seus próprios subcampos, destacando-se, além da Bayer, a Siemens-Schuckert e a indústria de armamentos Krupp AG, dirigida por Alfried Krupp, um membro da família e carrasco SS. 

Uma “filósofa” judia, Hannah Arendt, que foi secretária e amante de um reitor nazi, Heidegger, foi proibida de entrar em Israel, porque, além do mais, inventou o conceito de “banalidade de mal” que absolve todos os beleguins hitlerianos, já que eles “se limitavam a cumprir ordens dos seus superiores”. 

Peço desculpa a quem foi lendo este apontamento até aqui chegar, porque talvez tenha sofrido tanto como eu a pesquisar e a reduzir ao mínimo possível o resultado das minhas irreprimíveis pesquisas. 

Prisioneiros de Auschwitz libertados pelos soviéticos no dia 27 de janeiro de 1945

2024 12 19

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sábado, 16 de novembro de 2024

Carlos Coutinho - [a receita do Leão de Loures e Ascenso Simão: praticar o fascismo para "combatê-lo"]

 

* Carlos Coutinho   

ASCENSO Simões, uma personagem vila-realense com futuro imprevisível, é um ex-deputado meu patrício que postou na sua página no Facebook a convicção íntima e profunda de que, para se evitar que André Ventura tome conta das autarquias da Área Metropolitana de Lisboa, é urgente haver aí muitos mais Ricardos Leão. Escreveu mesmo:

   “Eu não gosto do Chega, mas não fecho os olhos à sua existência e, principalmente, aos problemas que lhe dão razões.”

   Nas tintas para as famílias que o energúmeno de Loures mandaria dormir para debaixo da pontes e viadutos, o Ascenso transmutado em Descenso desatou a pregar que “Leão não é um autarca fora-da-lei, como alguns dos seus camaradas quiseram fazer acreditar nos últimos dias. Leão tem é a realidade do seu lado e, se nada fizer, um dia teremos Loures, Amadora e ouros concelhos governados pela extrema-direita.”

   Alguns notáveis do PS bem instalados na vida, vieram a terreiro apoiar o maronês meu conterrâneo, destacando-se em solidariedade David Amado, que sucedeu a Marta Temido na presidência da concelhia de Lisboa do PS, assim como o antigo secretário de Estado dos Desportos e atual deputado João Paulo Correia. 

   Outro impensável apoiante foi Carlos Pereira, vice-presidente do grupo parlamentar do PS, tal como o ex-deputado Pedro Cegonho que em tempos também foi presidente da Associação Nacional de Freguesias. Tudo abencerragens de alta estirpe, como se vê. Só faltou o brado do falecido espingardeiro Edmundo Pedro que levou as 79 G3 furtadas para o PS de Soares.

   As razões do Leão de Loures são tão cruciais para o PS que até o deputado e secretário-geral Pedro Nuno Santos se furtou a qualificá-las, não obstante o coro de discórdia escondida que também se levantou nas fileiras do PS, com a refilona deputada e comentadora política Alexandra Leitão à cabeça.

   A jornalista Ana Sá Lopes chamou um figo a este gague outonal e desenterrou a história Oswald Mosley, o presidente da União Britânica dos Fascistas, que foi fundar e comandar, depois de se pirar do Partido Trabalhista. 

   Mussolini fez o mesmo, de resto, ao se inverter como dirigente do Partido Socialista Italiano para fundar o Partido Nacional Fascista, o que levou Salazar a manter até ao fim da sua carreira, na mesa de trabalho, atravancada de telefones, carimbos, livros e dossiês, uma única fotografia, a do il duce, em moldura dourada e antografada.

   Ruge, Leão, ruge, que o teu rugir tem muito de história por trás. Para isto o grande poeta brasileiro Carlos Drumond de Andrade tinha um comentário cruel: 

   “As dificuldades são o osso estrutural que entra na construção do caráter.”

   Dão que pensar, tanto a descoberta do poeta como a voz visceral da fera saloia. 

   Embrenhado nesta ressurreição de frases com história, fui descobrir umas palavras confluentes com estas realidades num livro de Jean-François Steiner, “Treblinka”, prefaciado por Simone de Beauvo'r, um fragmento do discurso proferido pelo reichsführer SS Heinrich Himmler, mês e meio depois de eu nascer, no Congresso dos Generais, em Posen, Alemanha, no dia 4 de outubro de 1943:

   “Gostaria também de vos falar agora com a maior franqueza acerca de um assunto extremamente importante. Aqui, entre nós, vamos abordá-lo sem disfarces, mas nunca, nunca, deveremos falar dele em público. (…) Vós sabeis, todos vós sabeis o que se sente ao ver um monte de cem, de quinhentos, de mil cadáveres. Foi isso – suportar essa prova e continuar a ser um homem correto, descontando, claro, as exceções devidas à fragilidade da própria natureza humana –, foi isso o que nos tornou duros. É uma página gloriosa da nossa história que nunca foi escrita, nem jamais o será.”

   Netanyahu – e quem o sustenta – não dirá hoje algo diferente. É de reter que Simone de Beauvoir, no seu texto de preparação para a leitura de “Treblinka”, garante:

   “Em todos os tempos e em todos os países, com raras exceções, os notáveis colaboraram sempre com os vencedores: é um caso de classe. Mas em Treblinka – embora alguns judeus fossem menos maltratados do que outros –, não havia distinções de classe. Nem sequer entre os homens dos comandos e os que desembarcavam na estação para serem conduzidos às câmaras de gás.”

   E Jean-François Steiner regista: 

   “O domingo passou-se num turbilhão de festas.  Ninguém dormiu nessa noite. Na segunda-feira, os prisioneiros seguem para o trabalho quando se ouve o silvo doloroso da locomotiva. Galewski está no cais quando os deportados se apeiam. Muitos estão feridos, outros queimados. Os alemães e os ucranianos tratam-nos com uma selvageria terrível, acabando com s feridos à coronhada, mutilando os homens válidos. (…) Nesse dia, a selvajaria dos alemães e dos ucranianos manifesta-se livremente. No Caminho do Céu, Ivan, um enorme brutamontes de vinte anos, abre verticalmente o ventre das mulheres com um grande sabre. Outras são atiradas vivas para as fogueiras.  Primeiro lançam-lhes os filhos para as chamas, depois mandam-nas ir ter com eles. Umas precipitam-se imediatamente, outras hesitam. Dizem-lhes então que não têm instinto maternal e empurram-nas para fogo.”

   Como se estivessem agora na Faixa de Gaza, ou em Kursk, ou em Beirute, esteja na Casa Branca quem estiver.

          Tomem bem nota: segundo este ex-deputado do PS, são precisos mais Ricardos Leão…

2024 11 16

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domingo, 2 de junho de 2024

Carlos Matos Gomes - Como matar as memórias?


* Carlos Matos Gomes

Fui educado a respeitar o sofrimento dos judeus ao longo da história. Repugnou-me o que li sobre a Inquisição, Santa, as imagens das torturas, desprezei as figuras dos torturadores de homens e mulheres amarrados e sem defesa.

Enquanto fui cristão vi Cristo como um judeu que foi crucificado por romanos invasores (os mesmos romanos que haviam invadido a Península Ibérica), apenas porque queria manter-se com direitos na sua terra.

A questão judaica não é uma questão de humanidade, não é uma questão de religião, é unicamente uma questão de higiene política, escreveu Paul Carrel, um alemão recuperado após o final da guerra pelos americanos (desnazificado), quando ainda se chamava Paul Carl Schmidt e publicava textos sob a tutela de Ribbentrop, ministro de Hitler.

Troquem questão judaica por questão palestiniana e a frase pode sair da boca de qualquer dos atuais funcionários do governo de Netanyahu de Israel.

Li As Benevolentes, o romance de Jonatthan Littel sobre episódios verídicos da II Guerra Mundial, da invasão da Polónia e da Ucrânia ma marcha dos exércitos de Hitler para a União Soviética:

«A aldeia, já não me lembro do seu nome. Quando chegámos dei com as levas já organizadas. «É ali que a coisa se passa.» Na praça central os nossos soldados reuniam os judeus, homens de idade madura, adolescentes, traziam-nos em pequenos grupos, por vezes batiam-lhes, depois forçavam-nos a acocorar-se. Chicoteavam-nos com um pingalim para os fazer avançar, mas excetuando os gritos tudo parecia relativamente calmo, ordenado, de vez em quando uma criança aparecia a uma esquina e escapava-se. Os guardas fizeram os judeus subir para camiões entre gritos e chibatadas. Dois guardas arrastavam um velho judeu com uma perna de pau, a prótese soltou-se e eles atiraram-no sem mais para dentro do camião. Em cada camião acumulavam-se cerca de 30 judeus. Quando os camiões ficaram cheios puseram-se a caminho do bosque e aí chegados Nagel deu ordem para que fossem escolhidos os judeus que iriam escavar as valas. Olhei para os judeus mais próximos de mim, pareciam pálidos mas calmos. Nagel aproximou-se e apostrofou-me vivamente: «É necessário, está a entender? Em tudo isto, o sofrimento humano não deve ser tido em conta seja como for!»

Substituam judeus por palestinianos e Nagel, o ogre, por Netanyahu e toda a cena passada numa aldeia da Ucrânia na II Guerra Mundial continua a fazer sentido na Palestina, em Gaza.

Eu tinha esta memória dos judeus. Netanyahu apagou-a. Eu tinha a esperança de que existisse uma memória judaica, verifico que a perversidade e a bestialidade a apagou. Eu acreditava que um povo que reivindica ser eleito de um Deus tivesse uma memória da violência e da dignidade do ser humano, segundo eles criatura de seu Deus: os judeus de Netanyahu destruíram essa minha crença.

O capítulo 15 de Hitler, uma biografa — de Ian Kershaw, edição portuguesa da D. Quixote, tem por título: As Marcas de Uma Mentalidade Genocida. Contem um excerto de uma proclamação de Himmler, o responsável pelos campos de extermínio, às SS, em 1938, antes da orgia de violência primitiva contra s judeus que ficou conhecida como Progrom da noite de 9 de Novembro: «O judeu não pode manter-se na Alemanha. Esta é uma questão que perdura há anos. Temos de correr com eles daqui para fora com uma impiedade sem precedentes…»

Em 1938 a Alemanha era um Estado com instituições democráticas. Em 2021, Israel de Netanyahu também é um estado com instituições democráticas, mas, tal como a Alemanha, tal como a África do Sul do apartheid, a democracia e os direitos apenas se aplicam aos da “raça” dominante: alemães arianos, brancos e judeus.

É neste ponto da história, de nova versão da inquisição, do nazismo, do apartheid que nos encontramos perante o Estado de Israel.

As “orgias de violência” são recorrentes na história da humanidade, mas a orgia de violência do Estado de Israel tem caraterísticas de maldade acrescida. Mesmo os céticos como eu, os que tomam como certa a definição de Plauto na sua obra Asinaria, Lupus est homo homini lupus a expressão latina que significa “o homem é o lobo do próprio homem”, popularizada por Thomas Hobbes, se devem interrogar e temer pelas suas vidas quando descobrem que os mais fortes e mais constantes motivos para a ação dos humanos são o ódio e a vingança.

Que a nossa civilização, dita judaico-cristã mantem como marca identificadora o direito da besta mais forte e o domínio dos predadores. Ao aceitar esta direito imposto pelo Estado de Israel aceitamos que ele é o nosso espelho.

2024 Junho 02

Milher palestina embalando o corpo de sua sobrinha de cinco anos, na Faixa de Gaza (Foto de Mohammed Salem, da Agência Reuters, vencedora do World Press Photo, 2024)  (1)


https://cmatosgomes46.medium.com/como-matar-as-mem%C3%B3rias-c791c147a045

(1) A mulher palestina Inas Abu Maamar, 36, abraça o corpo de sua sobrinha Saly, de 5 anos, morta em um ataque israelense, no hospital Nasser em Khan Younis, no sul da Faixa de Gaza,

O fotógrafo da Reuters Mohammed Salem ganhou o prestigiado prêmio World Press Photo of the Year 2024 nesta quinta-feira por sua imagem de uma mulher palestina embalando o corpo de sua sobrinha de cinco anos na Faixa de Gaza.

A foto foi tirada em 17 de outubro de 2023, no hospital Nasser em Khan Younis, no sul de Gaza, onde famílias procuravam parentes mortos durante o bombardeio israelense no enclave palestino.

https://www.reuters.com/world/reuters-mohammed-salem-wins-2024-world-press-photo-year-award-2024-04-18

sábado, 1 de junho de 2024

Palestina: A barbárie que não cabe em Hollywood

 

01.06.24 | Manuel

O Ministério da Saúde de Gaza regista milhares de feridos após a ofensiva israelita. “Mais de 13.000 crianças foram assassinadas”, confirmou em março o porta-voz da Unicef, James Elder, na rede social.

Jonathan Glazer, o diretor britânico de origem judaica, de 'The Zone of Interest', filme vencedor na categoria Melhor Filme Internacional, ousou apontar o dedo para Israel na cerimônia do Óscar.

Quase um mês após o início da agressão contra Gaza, jornalistas do meio de comunicação americano The New York Times foram instruídos sobre algumas restrições ao uso dos termos: “território ocupado”, “genocídio”, “campo de refugiados”, “Palestina”, “massacre” e “combatentes”, entre outros.

Recentemente, circulou a informação de que, em novembro de 2023, um memorando interno, escrito por Susan Wessling, editora de normas do NYT, editor internacional Philip Pan e outros funcionários adjuntos, chegou aos jornalistas como “orientação sobre alguns termos e outras questões”, em relação ao conflito que começou em outubro.

Num documento interno, obtido pela plataforma jornalística ‘The Intercept’, lê-se quais os termos que não podem usar sobre a Faixa de Gaza, um enclave palestiniano. A lei do silêncio, a mediatização dos termos e a proclamada liberdade de expressão são evidentes repetidamente na imprensa e no cinema.

Para onde a desumanização nos leva

 

Jonathan Glazer na cerimónia de atribuição do Óscar (Aqui)

Jonathan Glazer, o diretor britânico de origem judaica, de 'The Zone of Interest', filme vencedor na categoria Melhor Filme Internacional, ousou apontar o dedo para Israel na cerimônia do Oscar.

Seu filme conta a história do comandante de Auschwitz, Rudolf Höss, e sua esposa Hedwig, que se esforçam para construir uma vida de sonho para sua família, em uma casa com jardim a poucos metros do horror. Do outro lado do muro está o campo de concentração e extermínio da Alemanha nazista.

O discurso de Glazer – autor cult com apenas quatro filmes e veterano do videoclipe – contestado por organizações judaicas nos Estados Unidos e políticos israelenses, começou assim:

“Todas as nossas decisões – ao fazer o filme – procuraram refletir e confrontar-nos no presente. Não para dizer 'Veja o que eles fizeram então', mas 'Veja o que fazemos agora'. “Nosso filme mostra aonde a desumanização nos leva.”

O realizador do filme refere-se aos últimos 7 meses, dos últimos 75 anos. Segundo a analista síria Bouthaina Shaaban, as nossas vidas mudaram: “O mundo inteiro conhecia, antes de 7 de Outubro, a horrível situação que os palestinos têm suportado nos últimos 75 anos, e conheceu especialmente o cerco de Gaza, que foi descrita como a maior prisão ao ar livre do mundo, imposta pelo último regime de apartheid da história moderna.

Mas ninguém seria capaz de imaginar como uma vasta máquina militar, apoiada e alimentada pela maior potência militar do mundo, encurralaria 2,2 milhões de civis para demolir as suas casas mesmo sobre as suas cabeças, matando as equipas de médicos juntamente com os doentes. e feridos que procuram tratamento médico, deixando quase todos os hospitais completamente fora de serviço.”

Após suas palavras na cerimônia, Glazer sentiu que os aplausos foram tímidos. Ele sabia que o seu discurso não era mais uma denúncia dos horrores da guerra: “Levado à sua pior versão, moldou todo o nosso passado e presente. "Neste momento estamos aqui como homens que rejeitam que o seu carácter judaico e o Holocausto tenham sido usados ​​para uma ocupação que arrastou tantas pessoas inocentes para o conflito, sejam elas as vítimas do 7 de Outubro em Israel ou do actual ataque a Gaza".

Depois do diretor britânico de origem judaica, ninguém mais se atreveu a abordar o tema do massacre contra o povo palestino.

Na última gala do 96º. Na edição dos Óscares, um grupo de artistas representados pelos Artistas pelo Cessar-Fogo, expressou subtilmente o seu repúdio a essa agressão. Eles usavam um impressionante botão vermelho preso nas roupas, como uma exigência que exige um cessar-fogo em Gaza.

Figuras renomadas usaram o detalhe, incluindo Mark Ruffalo, a cantora e compositora Billie Eilish, a diretora Ava DuVernay e o ator Maher-shala Ali. Quase 400 celebridades assinaram o pedido de cessar-fogo, incluindo Bradley Cooper, Cate Blanchett e America Ferrera (https://www.artists4ceasefire.org/). Um enfeite com a bandeira da Palestina, que não deixa espaço para simbolismo, foi usado pelos atores de ‘Anatomia de uma Queda’: Milo Machado-Graner e Swann Arlaud.

Hollywood

Os judeus são considerados os “pais fundadores” do que hoje conhecemos como Hollywood.

Um relatório do Pew Research Center estima que em 2020 havia mais de 5,8 milhões de judeus vivendo nos Estados Unidos. Segundo estimativas do Gabinete Central de Estatísticas do governo israelita, a sua população total em 2021 era de 9.449.000 habitantes. Destes, 6.982.000 são judeus (73,9% da população total). Depois há a França, com mais de 400 mil, segundo dados de 2018.

O dedo apontado para Israel não foi bem recebido por grande parte da comunidade judaica em Hollywood. Embora proclamem que o mundo artístico é progressista e apoia as causas sociais, o controlo governamental em Hollywood inclui a manipulação, a censura e a produção de guiões de acordo com os objectivos da Estratégia de Segurança e Defesa dos Estados Unidos.

Aqueles que não aplaudiram o polêmico discurso de Jonathan Glazer ou aqueles que o fizeram timidamente já sabiam o peso que viria depois dele.

A mídia especializada ‘Variety’ citou o conteúdo de uma carta contra a fala do diretor inglês. “Rejeitamos que o nosso Judaísmo seja sequestrado com o propósito de estabelecer uma equivalência moral entre um regime nazi que procurou exterminar uma raça de pessoas e uma nação israelita que procura impedir o seu próprio extermínio.” (…) “Dá credibilidade ao moderno libelo de sangue que alimenta um crescente ódio antijudaico em todo o mundo, nos Estados Unidos e em Hollywood. O actual clima de crescente anti-semitismo apenas sublinha a necessidade do Estado Judeu de Israel, um lugar que sempre nos acolherá, como nenhum outro Estado o fez durante o Holocausto retratado no filme de Glazer."

O cineasta Glazer estava nervoso ao fazer seu discurso, seguindo as regras desafiadoras de Hollywood. Agora o estigmatizaram, como inimigo público da capital do cinema. A sua voz, a mais directa sobre a guerra de Israel contra os palestinianos em Gaza e a cumplicidade americana, foi uma expressão dissidente, quase mais transcendente do que o evento anual de auto-elogio da indústria cinematográfica.

Lembremo-nos de como, em 1978, houve controvérsia sobre a questão palestina. Vanessa Redgrave foi vaiada ao denunciar um pequeno grupo de vândalos com expressões sionistas, que atacaram um documentário sobre os palestinos. A reação contra a artista aconteceu quando ela aceitou o Oscar de melhor atriz coadjuvante por ‘Julia’.

Naquela mesma noite do Oscar de 2024, o ator, músico e produtor irlandês Cillian Murphy recebeu o Oscar de melhor ator, por ‘Oppenheimer’. Conta a história do físico Julius Robert Oppenheimer, filho de um casal de imigrantes judeus de origem alemã, que desenvolveu a bomba atômica; Ele foi constantemente investigado pelo FBI nos anos seguintes e posteriormente acusado de ser um risco para a segurança nacional. A sua perseguição é considerada parte do macarthismo ou da “caça às bruxas” anticomunista.

A mensagem resumida do premiado ator Cillian Murphy foi: “Para o bem ou para o mal, todos vivemos no mundo de Oppenheimer. Então, eu realmente gostaria de dedicar isso aos pacificadores de todos os lugares.”

Agenda de conscientização

É assim mesmo: se eles apenas interpretarem seus comentários como anti-semitas, ou tomarem dessa forma, Hollywood simplesmente irá demiti-lo. Aliás, a principal agência de talentos do mundo do cinema, a United Talent Agency (UTA), informou que a atriz Susan Sarandon não era mais sua cliente.

A atriz de 77 anos, conhecida pelo seu ativismo político em diversas causas progressistas, participou numa marcha a favor dos palestinianos em Nova Iorque e publicou comentários de apoio aos palestinianos na sua rede social, segundo vários relatos da mídia americana.

“Há muitas pessoas que têm medo de ser judias neste momento e estão começando a ver como é ser muçulmano neste país, muitas vezes sujeito à violência.” A atriz disse, com o microfone na mão, em um vídeo publicado pelo The New York Post em sua conta no YouTube.

Já no dia 4 de novembro de 2023, logo após a invasão de Gaza, publicou: “Não é preciso ser palestino para se preocupar com o que está acontecendo em Gaza. Estou com a Palestina. “Ninguém é livre até que todos sejam livres.”

Susan Sarandon, cinco vezes vencedora do Oscar, estava no meio da multidão na Union Square, subiu na traseira de um caminhão e pediu um cessar-fogo em Gaza. Ele disse aos manifestantes para conversarem entre si – incluindo amigos judeus – e respirarem fundo antes de falar sobre a guerra de Israel.

Talento e caráter. Sarandon tem o British Academy Film Award (BAFTA) e o Screen Actors Guild Award de melhor atriz, além de nove indicações ao Globo de Ouro. Os cinco Oscars foram conquistados em: o primeiro (1980) por ‘Atlantic City’. Depois ‘Thelma & Louise’ (1991), onde dividiu candidatura com Geena Davis. Em 1992, 'Óleo de Lorenzo'; 'O Cliente' em 1994 e em 1995, 'Pena de Morte'.

Além de ser uma excelente atriz, é muito comprometida com diversas organizações humanitárias; Ela é embaixadora do UNICEF e faz parte da Heifer International há uma década (doa animais de fazenda para famílias). Em 2010, foi nomeada embaixadora da boa vontade nas Nações Unidas (ONU).

Em 2019, Sarandon produziu um documentário narrando os esforços da empresária Mariam Shaar, utilizando a culinária nacional palestina, para dar oportunidade às mulheres refugiadas.

Shaar montou uma carrinha de alimentos, aproveitando a experiência das mulheres que vivem no campo de refugiados no município de Burj al Barajneh, na periferia sul de Beirute e onde vivem milhares de palestinianos.

Os refugiados palestinos, descendentes de famílias que fugiram ou foram forçados a fugir durante os combates desde a criação do Estado de Israel em 1948, vivem em condições superlotadas e precárias.

Corria o ano de 1947, quando a Assembleia Geral das Nações Unidas adoptou a resolução para criar dois Estados na Palestina, um árabe (43%) e outro judeu (57%); então os países árabes rejeitaram a disparidade.

Em 6 de janeiro de 1949, as Nações Unidas impuseram uma trégua à primeira guerra árabe-israelense, que começou no mesmo dia da declaração de Independência, 15 de maio de 1948. Até esse dia, mais de 300 mil palestinos haviam sido expulsos de seus territórios. casas, sob o falso slogan do movimento sionista dizia: Uma terra sem povo para um povo sem terra.

A Naqba palestiniana significou o êxodo em massa de milhares de pessoas que fugiram para o Egipto, Líbano, Jordânia e Síria, onde se instalaram em campos de refugiados. Israel manteve o território concedido pelas Nações Unidas e aumentou-o pela força, com a expulsão de 800 mil palestinos, expropriados de suas casas.

Susan Sarandon conhece a história. O documentário 'Soufra' conta que a veterana atriz norte-americana ajudou a Women's Program Association (WPA) a angariar fundos para construir um centro de educação pré-escolar, que irá criar empregos e educar cerca de 100 crianças.

A sua forma específica de ajudar foi dar visibilidade - através do filme - ao projecto Soufra (significa mesa de comida abundante), que conta o esforço de Mariam Shaar para montar uma carrinha e preparar comida, aproveitando os talentos culinários das mulheres que vivem neste campo de refugiados no Líbano.

A postura pró-Palestina tem um preço em Hollywood. Há poucos dias, a atriz mexicana Melissa Barrera, prestes a fazer o próximo filme da franquia ‘Pânico VII’, foi demitida por seu ativismo social. Barrera postou declarações em suas histórias no Instagram, chamando essa guerra de genocídio e limpeza étnica. Mais tarde, a produtora Spyglass Media Group disse que as suas publicações sobre Gaza nas redes sociais eram “anti-semitas”.

Barrera, que estrelou 'In the Heights', escreveu nas suas redes sociais: Gaza está actualmente a ser tratada como um campo de concentração.

Melissa Barrera esteve em Park City para a estreia de seu novo filme com o qual reaparece nas telonas: 'Your Monster', na seção Midnight do Festival de Sundance. O festival internacional de cinema acontece anualmente nas duas últimas semanas de janeiro na cidade de Park City, próxima à capital do estado de Utah, nos Estados Unidos.

O Hollywood Reporter descreveu manifestantes gritando “Palestina Livre” e “Parem a guerra” na calçada da rua principal de Park City enquanto grande parte de Hollywood frequentava o popular destino de inverno. No contexto do festival de cinema, também foi realizada em Park City uma manifestação da organização Bring Them Home para a libertação de reféns pelo Hamas.

Atualmente, a atriz mantém sua posição. Ela disse que isso a fez “acordar”, que a levou a se tornar “quem ela deveria ser” na vida. Em resposta, a produtora Spyglass Media Group foi contundente na sua declaração: temos tolerância zero ao anti-semitismo ou ao discurso de ódio sob qualquer forma, incluindo falsas referências ao genocídio, à limpeza étnica, à distorção do Holocausto ou a qualquer coisa que ultrapasse flagrantemente os limites. do discurso de ódio.

Apesar de enfrentarem duras críticas por exercerem a sua opinião sobre Gaza, figuras importantes estão a manifestar-se. Por exemplo, Maha Dakhil, da agência de talentos CAA, postou nas redes sociais: “O que dói mais do que testemunhar um genocídio? Testemunhe a negação do genocídio que está ocorrendo.”

“Você está aprendendo agora quem apoia o genocídio.” Foram essas palavras que custaram a Maha Dakhil sua posição como uma das principais representantes atuantes de toda Hollywood (agência CAA). Dakhil foi escolhida há um ano entre as 50 mulheres mais eficazes na indústria do entretenimento.

Depois dos detratores, outras figuras artísticas saíram em defesa dos atingidos. Após a reunião de Dakhil com seu cliente Tom Cruise, ela escreveu: “Cometi um erro ao repassar minha história no Instagram, que usava linguagem ofensiva. Como muitos de nós, senti-me angustiado. Tenho orgulho de estar ao lado da humanidade e da paz. Sou muito grato aos amigos e colegas judeus, que apontaram as implicações e me educaram ainda mais. Excluí imediatamente a postagem. “Sinto muito pela dor que causei.”

Os ecos inconfundíveis da história

“Os ecos da história são inconfundíveis no nosso clima atual.” O canal Euronews publicou há um mês, na sua versão digital, as palavras do cineasta Steven Spielberg durante uma cerimónia da USC Shoah Foundation, organização por ele fundada há 30 anos.

A Fundação Shoah surgiu para coletar depoimentos de sobreviventes do massacre nazista. “Esses 56 mil testemunhos que registramos são de valor incalculável para ensinar às novas gerações o que os sobreviventes entoaram durante 80 anos. Nunca mais. Nunca mais. Nunca mais".

Porém, Spielberg, de ascendência judaica, foi duramente criticado em 2005 por grupos pró-Israel, que o chamaram de antissemita, após estrear sua produção na histórica cidade de Munique, na Alemanha.

Recentemente, o diretor de ‘A Lista de Schindler’ recebeu o Medalhão da USC, uma grande distinção da Universidade do Sul da Califórnia. Aliás, ele disse em seu discurso: “50% dos estudantes dizem ter sofrido algum tipo de discriminação por serem judeus. Isto também ocorre juntamente com a discriminação anti-muçulmana, árabe e sikh.” Falou sobre os preconceitos e a importância de travar o aumento do anti-semitismo e das opiniões extremistas no contexto actual.

Sobre o conflito de Gaza, afirmou: “Estou cada vez mais alarmado com o facto de podermos ser condenados a repetir a história, a ter de lutar mais uma vez pelo próprio direito de sermos judeus. Diante da brutalidade e da perseguição, sempre fomos um povo resiliente e compassivo que entende o poder da empatia.”

“Podemos enfurecer-nos contra os actos hediondos cometidos pelos terroristas do 7 de Outubro e também condenar o massacre de mulheres e crianças inocentes em Gaza”, disse Spielberg em Março passado. “Isto faz de nós uma força única para o bem no mundo e é por isso que estamos aqui hoje para celebrar o trabalho da Fundação Shoah, que é mais crucial agora do que em 1994.”

Por muitos anos tive muita sorte de passar grande parte da minha vida profissional contando histórias. As histórias são a base da história. As histórias podem ser mágicas. Eles podem ser inspiradores, aterrorizantes... podem ser inesquecíveis. E oferecem um retrato da humanidade em toda a sua beleza e tragédia. E são uma das nossas armas mais poderosas na luta contra o anti-semitismo e o ódio racial e religioso. O Holocausto, ou como os meus pais lhe chamavam “os grandes assassinatos”, é uma das histórias que ouvi enquanto crescia, comenta a Euronews sobre o três vezes vencedor do Óscar.

A Fundação Shoah, que o próprio Spielberg inaugurou um ano depois de dirigir 'A Lista de Schindler' na década de 1990, lançou um projeto, enfatizando a necessidade de paz, para documentar os acontecimentos de 7 de outubro e adicioná-los à coleção de depoimentos de testemunhas e sobreviventes de o Holocausto.

Naquele dia, mais de 1.400 pessoas morreram em território israelita, reconhece o seu exército. Enquanto outros 224 foram transferidos para Gaza, como reféns do movimento de resistência Hamas. Embora Spielberg não esteja diretamente envolvido no esforço de compilação dos testemunhos, ele expressou o seu apoio, afirma a fundação.

O eco seletivo

O mundo assiste com horror à forma como a população civil de Gaza é bombardeada impiedosamente. Um total de 36.280 palestinos morreram em ataques israelenses – a maioria mulheres e crianças – desde 7 de outubro de 2023 até o dia 239 do cerco pelas forças de ocupação em Gaza e na Cisjordânia. Os médicos escrevem em cadernos em frente aos necrotérios lotados e nos corredores dos hospitais. Eles contam os corpos que ficaram presos sob os escombros e amontoados em valas comuns, cavadas em antecipação a um novo bombardeio.

O Ministério da Saúde de Gaza regista milhares de feridos após a ofensiva israelita. “Mais de 13.000 crianças foram assassinadas”, confirmou em março o porta-voz da Unicef, James Elder, na rede social.

Fonte: Telesur

Imagem de destaque: Criança palestina de 13 anos morre de fome no centro da Faixa de Gaza após o fecho da passagem de fronteira de Rafah pelas forças israelitas (Aqui)

Fonte  https://www-resumenlatinoamericano-org.translate.goog/2024/06/01/pensamiento-critico-palestina-la-barbarie-que-no-cabe-en-hollywood/ 

https://temposdecolera.blogs.sapo.pt/palestina-a-barbarie-que-nao-cabe-em-162489