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terça-feira, 1 de maio de 2018

António Gramsci -Os indiferentes

TERÇA-FEIRA, 1 DE MAIO DE 2018

1º de Maio e “Os Indiferentes”

A 27 de abril de 1937, numa prisão de Roma morre António Gramsci. Como homenagem publico um dos seus textos mais conhecidos e que se matem e manterá sempre atual.

Os Indiferentes

11 de Fevereiro de 1917

Odeio os indiferentes. Como Friederich Hebbel acredito que "viver significa tomar partido". Não podem existir os apenas homens, estranhos à cidade. Quem verdadeiramente vive não pode deixar de ser cidadão, e partidário. Indiferença é abulia, parasitismo, covardia, não é vida. Por isso odeio os indiferentes.

A indiferença é o peso morto da história. É a bala de chumbo para o inovador, é a matéria inerte em que se afogam frequentemente os entusiasmos mais esplendorosos, é o fosso que circunda a velha cidade e a defende melhor do que as mais sólidas muralhas, melhor do que o peito dos seus guerreiros, porque engole nos seus sorvedouros de lama os assaltantes, os dizima e desencoraja e às vezes, os leva a desistir de gesta heróica.

A indiferença atua poderosamente na história. Atua passivamente, mas atua. É a fatalidade; e aquilo com que não se pode contar; é aquilo que confunde os programas, que destrói os planos mesmo os mais bem construídos; é a matéria bruta que se revolta contra a inteligência e a sufoca. O que acontece, o mal que se abate sobre todos, o possível bem que um ato heróico (de valor universal) pode gerar, não se fica a dever tanto à iniciativa dos poucos que atuam quanto à indiferença, ao absentismo dos outros que são muitos. O que acontece, não acontece tanto porque alguns querem que aconteça quanto porque a massa dos homens abdica da sua vontade, deixa fazer, deixa enrolar os nós que, depois, só a espada pode desfazer, deixa promulgar leis que depois só a revolta fará anular, deixa subir ao poder homens que, depois, só uma sublevação poderá derrubar. A fatalidade, que parece dominar a história, não é mais do que a aparência ilusória desta indiferença, deste absentismo. Há factos que amadurecem na sombra, porque poucas mãos, sem qualquer controle a vigiá-las, tecem a teia da vida coletiva, e a massa não sabe, porque não se preocupa com isso. Os destinos de uma época são manipulados de acordo com visões limitadas e com fins imediatos, de acordo com ambições e paixões pessoais de pequenos grupos ativos, e a massa dos homens não se preocupa com isso. Mas os factos que amadureceram vêm à superfície; o tecido feito na sombra chega ao seu fim, e então parece ser a fatalidade a arrastar tudo e todos, parece que a história não é mais do que um gigantesco fenómeno natural, uma erupção, um terremoto, de que são todos vítimas, o que quis e o que não quis, quem sabia e quem não sabia, quem se mostrou ativo e quem foi indiferente. Estes então zangam-se, queriam eximir-se às consequências, quereriam que se visse que não deram o seu aval, que não são responsáveis. Alguns choramingam piedosamente, outros blasfemam obscenamente, mas nenhum ou poucos põem esta questão: se eu tivesse também cumprido o meu dever, se tivesse procurado fazer valer a minha vontade, o meu parecer, teria sucedido o que sucedeu? Mas nenhum ou poucos atribuem à sua indiferença, ao seu cepticismo, ao fato de não ter dado o seu braço e a sua atividade àqueles grupos de cidadãos que, precisamente para evitarem esse mal combatiam (com o propósito) de procurar o tal bem (que) pretendiam.

A maior parte deles, porém, perante fatos consumados prefere falar de insucessos ideais, de programas definitivamente desmoronados e de outras brincadeiras semelhantes. Recomeçam assim a falta de qualquer responsabilidade. E não por não verem claramente as coisas, e, por vezes, não serem capazes de perspectivar excelentes soluções para os problemas mais urgentes, ou para aqueles que, embora requerendo uma ampla preparação e tempo, são todavia igualmente urgentes. Mas essas soluções são belissimamente infecundas; mas esse contributo para a vida coletiva não é animado por qualquer luz moral; é produto da curiosidade intelectual, não do pungente sentido de uma responsabilidade histórica que quer que todos sejam ativos na vida, que não admite agnosticismos e indiferenças de nenhum género.

Odeio os indiferentes também, porque me provocam tédio as suas lamúrias de eternos inocentes. Peço contas a todos eles pela maneira como cumpriram a tarefa que a vida lhes impôs e impõe quotidianamente, do que fizeram e sobretudo do que não fizeram. E sinto que posso ser inexorável, que não devo desperdiçar a minha compaixão, que não posso repartir com eles as minhas lágrimas. Sou militante, estou vivo, sinto nas consciências viris dos que estão comigo pulsar a atividade da cidade futura que estamos a construir. Nessa cidade, a cadeia social não pesará sobre um número reduzido, qualquer coisa que aconteça nela não será devido ao acaso, à fatalidade, mas sim à inteligência dos cidadãos. Ninguém estará à janela a olhar enquanto um pequeno grupo se sacrifica, se imola no sacrifício. E não haverá quem esteja à janela emboscado, e que pretenda usufruir do pouco bem que a atividade de um pequeno grupo tenta realizar e afogue a sua desilusão vituperando o sacrificado, porque não conseguiu o seu intento.

Vivo, sou militante. Por isso odeio quem não toma partido, odeio os indiferentes.~


https://aspalavrassaoarmas.blogspot.pt/2018/05/1-de-maio-e-os-indiferentes.html

sexta-feira, 10 de julho de 2015

Gramsci - Cartas do Cárcere


Esta é uma das 478 cartas e bilhetes redigidos de diferentes cárceres, entre 1926 e 1937, por Antonio Gramsci. Juntos, compõem um inesperado "romance de formação": um precioso documento da transformação de um sardo provinciano em grande intelectual europeu. E também representam, evidentemente, um ato de acusação contra o fascismo, que condenou Gramsci a uma inexorável "morte lenta". Um bom número destas cartas foi dirigido a Tatiana (Tania) Schucht, cunhada do prisioneiro, que, com o amigo Piero Sraffa, especialmente designado por Palmiro Togliatti e pelo PCI, foi figura essencial na assistência a Gramsci e na afortunada preservação do seu legado. Mantivemos aqui as notas e referências da edição brasileira das Cartas do cárcere, publicadas em dois volumes pela Editora Civilização Brasileira, em 2005.

11 de abril de 1927

Querida Tania,

Recebi seus cartões de 31 de março e de 3 de abril. Agradeço as notícias que me manda. Espero sua vinda a Milão; mas, confesso, não quero contar muito com ela. Pensei que não seria muito agradável continuar a descrição, iniciada na última carta, de minha vida atual. É melhor que, em cada vez, escreva o que me vier à cabeça, sem um plano preestabelecido. Escrever também se tornou um tormento físico, porque me dão penas horríveis, que arranham o papel e exigem uma atenção obsessiva para a parte mecânica de escrever. Acreditava que poderia obter o uso permanente de caneta e me havia proposto escrever os trabalhos que lhe mencionei; mas não pude obter a autorização e não gosto de insistir [1]. Por isso, só escrevo nas duas horas e meia ou nas três horas em que cuidamos da correspondência semanal (duas cartas); naturalmente, não posso fazer anotações, isto é, na realidade não posso estudar de modo ordenado e proveitoso. Mal leio. Mas o tempo passa rapidamente, mais do que podia pensar.

Passaram cinco meses desde o dia de minha prisão (8 de novembro) e dois meses desde o dia de minha chegada a Milão. Não parece verdade que tanto tempo passou. Mas se deve ter em conta o fato de que, nestes cinco meses, vi coisas de todo tipo e tive as impressões mais estranhas e mais excepcionais de minha vida [2]. Roma, de 8 de novembro até 25 de novembro: isolamento absoluto e rigoroso. 25 de novembro: Nápoles, na companhia de meus quatro companheiros deputados até o dia 29 (três, não quatro, porque um foi separado em Caserta para Tremiti) [3]. Embarque para Palermo e chegada a Palermo no dia 30. Oito dias em Palermo: três viagens frustradas para Ustica, por causa do mar tempestuoso. Primeiro contato com os presos sicilianos acusados de mafiosos: um mundo novo, que só conhecia intelectualmente; verifico e comprovo minhas opiniões a propósito, que reconheço como bastante precisas. Em 7 de dezembro, chegada a Ustica. Conheço o mundo dos presos comuns: coisas fantásticas e incríveis. Conheço a colônia dos beduínos da Cirenaica, confinados políticos: quadro oriental, muito interessante [4]. Vida em Ustica. Em 20 de janeiro, torno a partir. Quatro dias em Palermo. Travessia para Nápoles com criminosos comuns. Nápoles: conheço toda uma série de tipos do mais alto interesse para mim, eu que, do Mezzogiorno, só conhecia a Sardenha. Em Nápoles, entre outras coisas, assisto a uma cena de iniciação à camorra: conheço um condenado à prisão perpétua (um certo Arturo), que me deixa uma impressão indelével. Depois de quatro dias, vou embora de Nápoles; parada em Cajanello, no quartel dos carabineiros; conheço meus companheiros de algema, que irão comigo até Bolonha. Dois dias em Isernia, com esses tipos. Dois dias em Sulmona. Uma noite em Castellamare A., no quartel dos carabineiros. Mais ainda: dois dias com cerca de sessenta presos. São organizados entretenimentos ocasionais em minha homenagem; os romanos improvisam uma belíssima festa literária, Pascarella e pequenos quadros populares do submundo romano. Apulienses, calabreses e sicilianos fazem uma apresentação de luta com facas segundo as regras dos quatro Estados do submundo meridional (o Estado siciliano, o Estado calabrês, o Estado apuliense, o Estado napolitano): sicilianos contra apulienses, apulienses contra calabreses. Sicilianos e calabreses não competem, porque entre os dois Estados o ódio é muito forte e até mesmo uma apresentação se torna séria e cruenta. Os apulienses são os mestres de todos: esfaqueadores insuperáveis, com uma técnica cheia de segredos e absolutamente mortal, desenvolvida segundo todas as outras técnicas, a ponto de superá-las. Um velho apuliense, de 65 anos, muito reverenciado mas sem dignidade “estatal”, derrota todos os campeões dos outros “Estados”; depois, no ponto culminante, esgrima contra um outro apuliense, jovem, de corpo muito bonito e de agilidade surpreendente, alto dignitário a que todos obedecem, e por meia hora demonstram toda a técnica normal de todas as escolas conhecidas. Cena verdadeiramente grandiosa e inesquecível, por todos os motivos, pelos atores e pelos espectadores: todo um mundo subterrâneo, complicadíssimo, com uma vida própria de sentimentos, de pontos de vista, de pontos de honra, com hierarquias férreas e formidáveis, se revelava para mim. As armas eram simples: as colheres, friccionadas na parede, de modo que a cal assinalava os golpes na roupa. Depois Bolonha, dois dias, com outras cenas; depois Milão. Certamente, estes cinco meses foram movimentados e ricos de impressões para um ou dois anos de ruminação. Isto explica como passo o tempo, quando não leio; volto a pensar em todas estas coisas, analiso-as minuciosamente, embriago-me com este trabalho bizantino. Além disso, tudo o que ocorre a meu redor e que consigo compreender se torna extremamente interessante. Certamente me controlo com freqüência, porque não quero cair nas monomanias que caracterizam a psicologia dos detentos; me ajuda nisso, especialmente, um certo espírito irônico e cheio de humor que me acompanha sempre. E você, o que é que faz e no que pensa? Quem é que lhe compra os romances de aventura, agora que não estou presente? Estou certo de que releu as admiráveis histórias de Corcoran e de sua amável Lisotta [5]. Tem ido, neste ano, às aulas na Policlínica [6]? E o professor Caronia, foi ele quem encontrou o bacilo do sarampo? Acompanhei suas lamentáveis complicações; e não compreendi, pelos jornais, se o professor Cirincione também foi suspenso [7]. Pelo menos em parte, tudo isto está ligado ao problema da máfia siciliana. É incrível como os sicilianos, da camada mais baixa até os níveis mais altos, são solidários entre si e como até mesmo cientistas de inegável valor andam perto do Código Penal em razão deste sentimento de solidariedade. Convenci-me de que, realmente, os sicilianos constituem um caso à parte; há mais semelhança entre um calabrês e um piemontês do que entre um calabrês e um siciliano. As acusações que os meridionais em geral dirigem contra os sicilianos são terríveis: acusam-nos até mesmo de canibalismo. Não teria acreditado nunca que existissem tais sentimentos populares. Penso que seria preciso ler muitos livros sobre a história dos últimos séculos, especialmente o período da separação entre a Sicília e o Mezzogiorno durante os reinos de José Bonaparte e Joachim Murat em Nápoles, para encontrar a origem destes sentimentos [8].

Estou entusiasmado com o gorro; onde é que conseguiu encontrá-lo? Acho que é o gorro de Orgosolo, vermelho e azul, que eu não conseguia mais encontrar. A bola de papelão não pode ser enviada e, do mesmo modo, você não pode me mandar o verniz: acredito que é absolutamente impossível, especialmente o verniz, que pode ser considerado como um veneno, segundo o regulamento, e exigiria toda uma série de controles muito complicados. Veja só: um outro objeto de análise muito interessante: o regulamento carcerário e a psicologia que amadurece entre o pessoal de guarda a partir do regulamento, por um lado, e a partir do contato com os prisioneiros, por outro. Eu acreditava que duas obras-primas (falo a sério mesmo) concentravam a experiência milenar dos homens no campo da organização de massa: o manual do cabo e o catecismo católico. Convenci-me de que se deve acrescentar, se bem que num campo muito mais restrito e de caráter excepcional, o regulamento carcerário, que contém verdadeiros tesouros de introspecção psicológica. Espero as cartas de Giulia: acredito que, depois de lê-las, conseguirei escrever a ela diretamente. Não pense que isto seja uma criancice. Uma notícia importante: de uns dias para cá tenho comido muito; no entanto, não consigo comer verduras; tenho me esforçado muito, mas desisti porque sinto terríveis engulhos. E, apesar de tudo, não consigo esquecer que você talvez venha e que talvez (ai de mim) nos possamos ver, ainda que por alguns minutos. Abraços,

Antonio

Notas

[1] O primeiro requerimento para usar caneta, tinta e papel, apresentado ao juiz Macis em março de 1927, é o doc. 3, apêndice 1, v. 2, p. 440.

[2] Esta descrição detalhada do período de prisão foi retida pelas autoridades. Tatiana só receberia esta carta em 4 de julho de 1928 (cf., também, carta 34).

[3] Enrico Ferrari (cf. carta 8, n. 4).

[4] A Cirenaica, especialmente a capital e o porto de Bengasi, estava sob o domínio italiano desde a guerra líbica, em 1912. Os beduínos mencionados provavelmente estavam detidos por combater a administração colonial italiana.

[5] Referência a um célebre livro para jovens, Les merveilleuses aventures du capitaine Corcoran, publicado em 1867 por Alfred Assolant (1827-1886). Lisotta é o tigre-fêmea, companheiro de aventuras de Corcoran.

[6] Bióloga, Tatiana havia ensinado ciências naturais no Instituto Internacional Crandon, em Roma, e se interessava pela medicina, o que explica a pergunta de Gramsci as demais referências. “Amiga, e amiga entusiasmada, de médicos e enfermeiros” – assim ela é lembrada por Nilde Perilli (Gramsci vivo nelle testimonianze dei suoi contemporanei, cit., p. 159). Sobre as aulas na Policlínica, há informação direta numa carta de Tatiana aos parentes de Moscou, em 1925: “Peço-lhes que levem em conta meus conselhos, que têm algum fundamento, já que estudei um pouco e sempre estive no campo da medicina. Bem sabem que até terminei os cursos, só não tive a possibilidade de prestar os exames” (Lettere ai familiari, cit., p. 16).

[7] Respectivamente, Giuseppe Caronia e Giuseppe Cirincione, ambos da Universidade de Roma. Caronia havia sido suspenso das atividades docentes por causa de problemas com pacientes internados na sua clínica. Seria reitor da Universidade entre 1944 e 1947.

[8] Durante o período napoleônico, a Itália Meridional esteve sob os governos de José Bonaparte (1806-1808) e de Joachim Murat (1808-1815). Em Nápoles, Murat promoveu algumas reformas segundo os princípios “franceses”, enquanto a Sicília tornou-se bastião da monarquia dos Bourbons e se afastou ainda mais do reformismo europeu do tempo.



Fonte: Especial para Gramsci e o Brasil.


As cartas do cárcere (PDF AQUI), de Antonio Gramsci constituem uma preciosa chave para a leitura dos "Cadernos". Nelas o pensador vai, dialeticamente, descrevendo a sua trajetória e traçando a sua autobiografia política, intelectual e moral. Esta nova edição brasileira das "Cartas do Cárcere" foi organizada por Luiz Sérgio Henriques, editor da revista eletrônica "Gramsci e o Brasil", com a colaboração de Carlos Nelson Coutinho, professor titular da UFRJ.



terça-feira, 25 de janeiro de 2011

O verdadeiro Gramsci: Revolucionário comunista

Cultura

Vermelho - 22 de Janeiro de 2011 - 9h00

Hoje, fala-se e escreve-se muito sobre Antonio Gramsci. Muito. É indubitavelmente algo positivo. Na segunda metade do século 20, Gramsci foi o político italiano de quem mais se falou e escreveu.

Por Maurizio Nocera*, em L´Educazione Gramsciana
Tradução: José Reinaldo Carvalho

Seguramente, não se fez tanto sobre o liberal Benedetto Croce ou sobre o fascista Giovanni Gentile, os dois filósofos políticos da burguesia dos quais os manuais se interessam como os pensadores máximos do século 20, nem se fez o mesmo sobre políticos como Alcide De Gasperi e o próprio Palmiro Togliatti, este último durante muitos anos secretário-geral do Partido Comunista Italiano e altíssima personalidade política do nosso país.

Leia também: Por que se continua a falar e escrever tanto sobre Gramsci? Simplesmente porque as modas passam e, ao contrário, as ações e os exemplos de alguns homens permanecem e perduram no tempo.

A quem interessaria hoje a filosofia do espírito de Croce, ou a especulação sobre o “pensamento pensante” de Gentile? Águas passadas sob a ponte, águas derramadas para sempre no grande mar da história de todos os tempos, útil talvez para rever de tempos em tempos, como cultura histórico-filosófica, jamais como algo inédito, de experimentável. É fato consumado, visto, discutido, superado.

Outra coisa, contudo, foram as ações políticas e o pensamento especulativo do grande sardo na primeira metade do século passado, pensamento e prática que não encontraram aplicação, porque esmagados no nascedouro, decepados pelo fascismo mussoliniano, que atuava como a versão mais obscura da burguesia italiana. O Gramsci comunista, que lutava pela conquista de uma nova sociedade, pela construção de uma sociedade socialista, devia ser parado, preso.

Dois mil e quinhentos anos atrás, um pouco por fabulação, mas também um pouco com base naquilo que era a realidade concreta daquele tempo, Platão pensou um tipo de nova sociedade, um estado ideal perfeito, que chamou de República e que estruturou para as classes compostas por produtores, defensores e pensadores.

Já se disse que aquela ideia platônica não era senão utopia, fruto do pensamento humano. Isto é o que se pensava e se acreditava durante milênios. Mas se hoje olhamos para as repúblicas modernas nas quais vivemos, como são estruturadas? É de maneira diferente da que pensava Platão? Não me parece. Platão tinha pensado em uma sociedade impossível de realizar-se em seu tempo, mas não excluía a sua exeqüibilidade futura.

Que quero dizer com isso? Simplesmente que o estado idealizado pelo grande filósofo ateniense, embora com altos e baixos e ziguezagues, sucessivamente, ao longo dos séculos, torna-se realidade, que experimentou as diferentes formas de governo idealizadas: a timocracia (plutocracia), a aristocracia, a tirania, a democracia e outras formas intermediárias entre uma e outra.

No seu complexo, a humanidade viu e experimentou na própria pele estas diferentes formas de governo, pelo menos a partir da revolução burguesa de 1789: república presidencialista, república militarista, república democrática, república de conselhos, república totalitária. Nestes anos, que vão de 1945 até hoje, no centro do debate político italiano sempre tem havido momentos de luta institucional muito elevados: a defesa da Constituição republicana dos ataques por parte daqueles que jamais quiseram reconhecê-la e dos que, mesmo reconhecendo-a, nada fizeram para aplicá-la.

Se esta não aplicação é um ponto de referência, o que dizer agora de tudo quanto aconteceu antes daquele histórico evento que viu os comunistas combaterem na primeira linha pela liberdade e a democracia em nome de Antonio Gramsci e Giuseppe Garibaldi? Simplesmente que aquela parte da história política do início do século passado, o que foi pensado, escrito e compreendido na luta política de Antonio Gramsci e dos comunistas nos anos precedentes ao advento do fascismo, não foi jamais aplicado porque esmagado no nascedouro.

A internacional da burguesia, como também suas ramificações periféricas nacionais, sempre tiveram horror de que aquelas ideias políticas encontrassem o mínimo trânsito para sua completa realização, por isso sempre misturaram as coisas com o objetivo de apagar definitivamente a aspiração da classe operária e do povo italiano à conquista da nova sociedade, mais avançada socialmente, mais igualitária no plano dos direitos.

Hoje sabemos que a única sociedade experimentada pela humanidade a ter tais requisitos é a sociedade socialista. Isto ainda não aconteceu na Itália. Primeiro o impedimento foi o fascismo, braço armado executor direto da burguesia mais reacionária, depois sobreveio um longo período de inter-classismo democrata-cristão, no qual a política italiana não era orientada e dirigida pelos italianos mas pelos chefes do imperialismo estadunidense.

Alguém até hoje crê que isto durará eternamente e que as ideias de Antonio Gramsci sobre a nova sociedade já são águas passadas. Ilude-se, porque a história dos homens e mulheres que vivem em nosso planeta é como o vento que antes ou depois varre aquilo que se torna naturalmente obsoleto, seco, inadequado, fora do tempo.

Há mais de 70 anos, políticos, filósofos, historiadores, intelectuais geralmente entendidos, fazem conferências e escrevem sobre o fundador do Partido Comunista da Itália em 1921. Fazem-no sobre a base de diferentes exigências de tipo histórico-sociológico ou político.

Todos, entretanto, são obrigados a dar de Antonio Gramsci uma imagem de homem coerente, cuja vida foi caracterizada pelo empenho constante e luta política pela emancipação e o resgate do proletariado italiano e internacional. Todos têm liberdade para construir a imagem que quiser sobre Gramsci. Mas liberdade de pensamento, de ação e de organização política deve ter também quem pensa em ser comunista e, com isto, pensa no Gramsci fundador de um movimento e de um partido que lutam pela transformação da presente ordem das coisas.

Lendo tudo quanto se escreve hoje sobre o grande sardo, corre-se o risco de não compreender por que ele foi preso, por que o fascismo foi tão implacável contra este homem. Para alguns politiqueiros filósofos, o verdadeiro motivo pelo qual Gramsci acabou sua vida preso, deveria ser debitado aos seus próprios companheiros.

Algum outro se atreve mesmo a dizer que o culpado foi o próprio Stálin, ou pelo menos sua política de defesa da teoria da construção do socialismo em um só país. Credulidade. A verdadeira realidade é que sempre os revisionistas, quando não mentem despudoradamente, envergonham-se de afirmar que Gramsci foi perseguido, preso, encarcerado, recluso por 11 anos, quase sempre em solitária, simplesmente porque era comunista, simplesmente porque era defensor dos direitos da classe operária, simplesmente porque era defensor das melhores tradições e da história da luta pela emancipação do povo italiano.

Que paradoxo é a vida e que miséria é certa política! Quem, hoje, por motivo de trabalho, estudo ou luta política tenha que estudar a história recente de nosso país, não poderá deixar de encontrar em seu percurso de estudioso a história política do comunista Antonio Gramsci, o peso político e científico do seu pensamento marxista-leninista sobre a vida política e cultural italiana.

Até mesmo os neofascistas, herdeiros políticos dos executores materiais da sua eliminação física, até eles são forçados a fazer, mesmo que seja de modo instrumental, considerações sobre Gramsci. Mas no que se refere aos revisionistas de todos os tipos, cuidam de apresentar uma imagem de Gramsci como se ele tivesse sido obrigado pelas circunstâncias a se tornar comunista, um Gramsci substancialmente distanciado da luta de classes, isolado na prisão, que tinha perdido contato com a realidade.

A operação mais desajeitada é aquela que consiste em tentar dar crédito à imagem de um Gramsci de antes de 1926 (ano da sua prisão) e de um Gramsci depois da prisão até 1937. Os revisionistas apontam no sentido de separar verticalmente os dois períodos (já vimos fazerem isto com Marx, Lênin, a União Soviética, o campo socialista) na vã tentativa de fazer aceitar um Gramsci dividido: o primeiro, jovem e, como todo jovem, impetuoso e levado a se colocar em cena; este seria o Gramsci defensor da ocupação de fábricas pela classe operária organizada nos conselhos de fábrica e o Gramsci fundador do PCI e líder dos comunistas italianos. É evidente que para esses senhores, este Gramsci deve ser descartado, esquecido, obnubilado.

O segundo Gramsci, aquele dos “Cadernos do Cárcere”, pelo contrário, pode ser lido, pensado, meditado fora do contexto da luta de classes, na vã esperança de que não seja compreendido até o fim por aquilo que efetivamente ele foi e o quanto pesa ainda hoje o seu pensamento político. As suas mil e uma circunvoluções liquidacionistas tendem, como uma armadilha, a fazer Gramsci aparecer apenas como um pensador político asséptico, cuja ação se diluiu no próprio tempo da sua vida.

É uma lógica canhestra aquela em que me parece até mesmo Luciano Cânfora caiu com seu último livro “Sobre Gramsci” (Datanews/alcazar, maio 2007). Ele apresenta honestamente um Gramsci comunista, em linha com o pensamento leninista, mas também um pouco asséptico, sobre um fundo político em que a luta de classes deve ser apenas imaginada, porque o autor não faz o leitor enxergá-la; para ele, no fundo, Gramsci é um pensador político cujas teses, no plano da teoria, não são no momento criticáveis, mas as teses de um Gramsci que ele estuda e discute como um estudioso, em particular um estudioso do mundo antigo.

Mas aquilo que mais me surpreende do seu breve ensaio é ter reportado declarações referidas em algumas teses de conhecidos falsificadores da história como Isaac Deutscher e François Furet. A análise da leitura de Canfora sobre o pensamento marxista-leninista de Antonio Gramsci parte da crítica de diferentes revisionismos, mas ele foge da natureza perniciosa do revisionismo-pai de todos os demais, o revisionismo de tipo kruchoviano-gorbachoviano, que se encontra na base de não poucas catástrofes.

É por este motivo que se pergunta: por que e para quem Luciano Cânfora escreveu o seu ensaio “Sobre Gramsci” ? Estava lendo o texto de Canfora quando me veio à mente Luigi Russo, um não marxista, reitor da Universidade Normal de Pisa, que pronunciou o discurso “Descoberta de Antonio Gramsci” perante os estudantes na máxima universidade italiana em 27 de abril de 1947 (cf. “Belfagor”, ª XLIII, nº 2, 31 março de 1988, págs. 145-166).

Magistério sublime o que Luigi Russo escreveu: “Gramsci é um homem de um partido político que não é o meu [...], mas ele foi um grande militante desta fatigada democracia, à qual hoje todos os homens de boa vontade e de boa fé querem dar a sua contribuição e nesta aproximação e fraternidade dos ideais corre-se de fato com maior trepidação humana para aqueles que não conhecemos e cujas cartas percorremos com curiosidade febril, porque, para além da fé política de cada um, queremos advertir aquilo que foi o motivo comum da revolta ideal que nestes últimos vinte e cinco anos temos experimentado, desconhecidos um do outro, mas estranhamente íntimos e próximos um do outro, por uma Itália e uma Europa melhores”. (Pág. 147)

* Maurizio Nocera é escritor e membro do Centro Gramsci

 
(Texto escrito em 2007 por ocasião do 70º aniversário da morte de Antonio Gramsci)
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Gramsci nos Cadernos do Cárcere: Sobre o Partido

Mídia

Vermelho - 22 de Janeiro de 2011 - 9h02

Como dirigente teórico e prático do movimento operário e comunista italiano, Antonio Gramsci tinha a perfeita noção do papel do partido, dotado de ideologia, linha política, ampla rede de militância, ligações profundas com as massas e uma organização de quadros capazes de centralizar, disciplinar e dirigir a luta pelo socialismo. Confira no texto que o Vermelho publica abaixo.

Cadernos do Cárcere: Sobre o Partido

Por Antonio Gramsci, em Quaderni del Cárcere
Traduzido do italiano por José Reinaldo Carvalho

[...] Quando se quer escrever a história de um partido político, na realidade enfrenta-se toda uma série de problemas, muito menos simples do que possa crer, por exemplo, Roberto Michels, que não obstante é considerado um especialista na matéria. O que será a história de um partido? Será a mera narração da vida interna de uma organização política? Como ela nasce, quais foram os primeiros grupos que a constituíram, quais as polêmicas ideológicas através das quais se forma o seu programa e a sua concepção do mundo e da vida? Tratar-se-ia, em tal caso, da história de restritos grupos intelectuais e talvez da biografia política de uma individualidade. A moldura do quadro deverá, porém, ser mais vasta e abrangente.

Deverá fazer-se a história de uma determinada massa de homens que terá seguido os promotores, terá apoiado com a sua confiança, com a sua lealdade, com a sua disciplina ou os terá criticado de maneira “realista” dividindo-se ou permanecendo passiva diante de certas iniciativas. Mas essa massa será constituída apenas dos aderentes do partido? Será suficiente seguir os congressos, as votações etc., isto é, todo o conjunto das atividades e do modo de existência com que uma massa de partido manifesta a sua vontade?

Evidentemente será necessário ter em conta o grupo social de que determinado partido é expressão e sua parte mais avançada: isto significa que a história de um partido não poderá deixar de ser a história de um determinado grupo social. Mas esse grupo não é isolado: tem amigos, afins, adversários, inimigos. Somente do complexo quadro de todo o conjunto social e estatal (e freqüentemente até com interferências internacionais), resultará a história de um determinado partido, por isso se pode dizer que escrever a história de um partido significa nada mais que escrever a história geral de um país do ponto de vista monográfico, para pôr em relevo um aspecto característico.

Um partido terá tido maior ou menor significado e peso, na medida em que sua atividade particular tenha pesado mais ou menos na história de um país. Portanto, eis por que do modo de escrever a história de um partido resulta o conceito que se tenha sobre o que é e deva ser um partido.

O sectário se exaltará com as questões internas, que para ele terão um significado esotérico e o encherão de místico entusiasmo; o historiador, embora dando a todas as coisas a importância que têm no quadro geral, porá acento sobretudo na eficiência real do partido, na sua força determinante, positiva e negativa, no haver contribuído para criar um fato e também no haver impedido que outros ocorressem.

O ponto de saber quando um partido está formado, ou seja, quando tem uma tarefa precisa e permanente, dá lugar a muitas discussões e freqüentemente também, infelizmente, a uma forma de arrogância que não é menos ridícula e perigosa que a “arrogância da nação”, de que fala Vico. É verdade que se pode dizer que um partido não está jamais completo e formado, no sentido de que todo desenvolvimento cria novas tarefas e obrigações e no sentido de que para certos partidos é verdade o paradoxo de que estarão completos e formados quando já não existirem mais, isto é, quando a sua existência tiver se tornado historicamente inútil.

Assim, desde que todo partido não é senão uma nomenclatura de classe, é evidente que para o partido que se propõe anular a divisão em classes, a perfeição e a plenitude consistem no não existir mais porque não existirão mais classes e portanto suas expressões. Mas aqui se quer apontar para um momento particular desse processo de desenvolvimento ao momento sucessivo àquele em que um fato pode existir e ao mesmo tempo não existir, no sentido de que a necessidade da sua existência não se tornou ainda “peremptória”, mas depende em “grande parte” da existência de pessoas de extraordinário poder volitivo e de extraordinária vontade.

Quando um partido se torna “necessário” historicamente? Quando as condições do seu “triunfo”, da sua inevitabilidade estejam ao menos em vias de formação e permitam prever normalmente seu ulterior desenvolvimento. Mas quando se pode dizer, em tais condições, que um partido não pode ser destruído com meios normais? Para responder, é necessário desenvolver um raciocínio: para que exista um partido é necessário que confluam três elementos fundamentais (ou seja, três grupos de elementos)

1) Um elemento difuso, de homens comuns, médios, cuja participação é oferecida pela disciplina e a fidelidade, não pelo espírito criativo e altamente organizativo. Sem estes, o partido não existiria, é verdade, mas também é verdade que o partido tampouco existiria “somente” com estes. Estes são uma força somente porque há aqueles que centralizam, organizam e disciplinam o partido, mas na ausência desta força coesiva o partido se dispersaria e se anularia como algo insignificante e impotente. Não se nega que algum desses elementos possa tornar-se uma força coesiva, mas se fala destes precisamente no momento em que não são esta força coesiva e não estão em condições de ser e se são, isto ocorre num círculo restrito, politicamente ineficiente e sem consequência.

2) O elemento coesivo principal, que centraliza no campo nacional, que torna eficiente e potente um conjunto de forças que deixadas a si contariam zero ou umpouco mais; este elemento é dotado de força altamente coesiva, centralizadora, disciplinadora e também, aliás talvez por isso mesmo, de inventividade (se se entende “inventividade” em uma certa direção , segundo certa linha de força, certa perspectiva e ainda certa premissa): é também verdade que somente deste elemento não se formaria o partido, mas o formaria mais do que se não fosse considerado o primeiro elemento. Fala-se de capitães sem exército, mas na realidade é mais fácil formar um exército do que formar capitães. Tanto é verdade que um exército já existente será destruído se faltarem os capitães, enquanto que a existência de um grupo de capitães, bem formados, concordes entre si, com fins comuns, não tarda a formar um exército mesmo onde não existe.

3) Um elemento médio, que articule o primeiro com o segundo, que os ponha em contato, não só “físico”, mas moral e intelectual. Na realidade, para todo partido existem “proporções definidas” entre esses três elementos e se alcança o máximo de eficiência quando tais “proporções definidas” são realizadas.

Dadas estas considerações, pode-se dizer que um partido não pode ser destruído com meios normais quando, existindo necessariamente o segundo elemento, cujo surgimento está ligado à existência das condições materiais objetivas (e se este segundo elemento não existe, todo raciocínio é vazio), mesmo que seja no estado disperso e vagante, não possam deixar de formar-se os outros dois, ou seja, o primeiro que necessariamente forma o terceiro como sua continuação e meio de exprimir-se.

Ocorre que, para que isso advenha, deve ser formada a convicção férrea de que é necessária uma determinada solução dos problemas vitais. Sem esta convicção, não se formará o segundo elemento, cuja destruição é a mais fácil pelo seu escasso número, mas é necessário que este segundo elemento, se destruído, tenha deixado como herança um fermento a partir do qual regenerar-se.

E onde este fermento subsistirá melhor e poderá melhor formar-se senão no primeiro e no terceiro elemento que, evidentemente, são mais homogêneos com o segundo? A atividade do segundo elemento para constituir este elemento é assim fundamental: o critério de juízo deste segundo elemento será buscar: 1) no que realmente faz; 2) no que prepara, na hipótese de sua destruição. Entre os dois fatos é difícil dizer qual seja o mais importante. Como na luta se deve sempre prever a derrota, a preparação dos próprios sucessores é um elemento tão importante de tudo quanto se deve fazer para vencer.
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Gramsci: Sobre a base da organização do Partido

Cultura

Vermelho - 22 de Janeiro de 2011 - 9h04

Antônio Gramsci compreendia que a organização partidária era antes de tudo uma questão política, como afirma desde o início do escrito abaixo. Para ele, o conceito não era uma forma de escapismo do duro labor organizativo, mas o ponto de partida para forjar uma identidade de partido independente da classe operária.

Sobre a base da organização do Partido

Por Antonio Gramsci, em La Costruzione del Partito Comunista
Traduzido do italiano por José Reinaldo Carvalho

Todos os problemas de organização são problemas políticos. A solução destes deve tornar possível ao partido cumprir a sua tarefa fundamental, de fazer com que o proletariado conquiste uma completa independência política, dar-lhe uma fisionomia , uma personalidade, uma consciência revolucionária precisa, impedir toda infiltração e influência desagregadora de classes e elementos que, mesmo tendo interesses contrários ao capitalismo, não querem conduzir a luta contra este até as suas últimas consequências.

Em primeira linha, encontra-se um problema político: o problema da base da organização. A organização do partido deve ser construída sobre a base da produção e portanto do local de trabalho (células). Este princípio é essencialmente para a criação de um partido “bolchevique”. Isso depende de que o partido deve ser apetrechado para dirigir o movimento de massa da classe operária, a qual vem naturalmente unificada pelo desenvolvimento do capitalismo segundo o processo da produção.

Pondo a base organizativa no local de produção o partido cumpre um ato de escolha da classe sobre a qual se baseia. Este proclama ser um partido de classe e o partido de uma só classe, a classe operária.

Todas as objeções ao princípio que põe a organização do partido sobre a base da produção partem das concepções ligadas a classes estranhas ao proletariado, mesmo que sejam objeções apresentadas por companheiros e grupos que se dizem de “extrema esquerda”. Estes se baseiam sobre uma consideração pessimista quanto à capacidade revolucionária do operário e do operário comunista e são expressões do espírito anti-proletário do intelectual pequeno-burguês, o qual crê que é o sal da terra e vê no operário o instrumento material da sublevação social e não o protagonista consciente e inteligente da revolução.

A propósito das células, reproduzem-se no partido italiano as discussões e os contrastes que levaram na Rússia à cisão entre bolcheviques e mencheviques acerca do mesmo problema da escolha de classe, do caráter de classe do partido e do modo de adesão ao partido de elementos não proletários. De resto, este fato tem uma importância notável em relação com a situação italiana.

É a própria estrutura social e são as condições e as tradições da luta política que tornam mais sério na Itália do que em outra parte o perigo de edificar o partido com base numa “síntese” de elementos heterogêneos, ou seja, de abrir neste o caminho à influência paralisante de outras classes. Trata-se de um perigo que será sempre mais grave do que a própria política do fascismo, que empurrará ao terreno revolucionário estratos inteiros da pequena burguesia.

É certo que o partido comunista não pode ser um partido apenas de operários. A classe operária e seu partido não podem fazer pouco caso dos intelectuais nem podem ignorar o problema de aglutinar em torno de si e guiar todos os elementos que por uma via ou outra são levados à revolta contra o capitalismo.

Assim, o Partido comunista não pode fechar as portas aos camponeses: aliás, o partido deve ter em seu seio os camponeses e servir-se destes para fortalecer os laços políticos entre o proletariado e as classes rurais. Mas é de rechaçar energicamente, como contrarrevolucionária, toda concepção que torne o partido uma “síntese” de elementos heterogêneos, ao invés de sustentar sem concessões que este é uma parte do proletariado, que o proletariado deve dar-lhe o impulso da organização que lhe é própria e que ao proletariado deve ser garantida no próprio partido uma função dirigente.

Não têm consistência as objeções práticas à organização sobre a base da produção (células), segundo as quais esta estrutura organizativa não permitiria superar a concorrência entre as diversas categorias de operários e deixaria o partido à mercê do corporativismo.

A prática do movimento de fábrica (1919-1920) demonstrou que somente uma organização aderente ao lugar e ao sistema da produção permite estabelecer um contato entre os estratos superiores e os inferiores da massa trabalhadora (qualificados, não qualificados e manuais) e criar vínculos de solidariedade que removam as bases a todo fenômeno de “aristocracia operária”.

A organização por células traz à formação no partido de um estrato bastante vasto de elementos dirigentes (secretários de célula, membros dos comitês de células etc.), os quais são parte da massa e permanecem nela, mesmo exercendo funções dirigentes, à diferença dos secretários das seções territoriais, que eram por necessidade elementos destacados da massa trabalhadora.

O partido deve dedicar um cuidado especial à educação destes companheiros que formam o tecido conectivo da organização e são o instrumento de ligação com a massa. De qualquer ponto de vista que seja considerada, a transformação da estrutura sobre a base da produção permanece a tarefa fundamental do partido no momento presente e o meio para a solução dos mais importantes problemas. Deve-se insistir nisso e intensificar todo o trabalho ideológico e prático relativo a isso.
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