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quarta-feira, 27 de maio de 2026
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quarta-feira, 3 de setembro de 2025
Manuel Cardoso - José Sócrates não se lembra se o jantar estava Salgado
* Manuel Cardoso
Humoista
Habitualmente, "fui jantar" é uma frase que garante que ocorreu um jantar. Não para José Sócrates
Nesta
terça-feira, realizou-se a sexta sessão do
julgamento da Operação Marquês. O procurador do Ministério
Público questionou José Sócrates sobre um jantar que terá acontecido na casa de
Ricardo Salgado. José Sócrates negou a ocorrência desse repasto. Ora,
reproduziu-se uma escuta em que José Sócrates faz um convite a Fernanda Câncio,
namorada à altura, para um jantar em casa de Ricardo Salgado que teria lugar
nessa mesma noite - que a jornalista rejeita. Perante isto, José Sócrates
admite ao tribunal que foi "convidado para jantar, mas o jantar não
aconteceu".
Até
aqui, tudo bem. Todos nós já fomos alvo de cancelamentos de última hora.
Ricardo Salgado pode ter entupido uma sanita, pode ter queimado a lasanha, pode
ter-se esquecido de acondicionar as litrosas no congelador. O banqueiro pode
ter ficado demasiado nervoso com o dilema de pedir ou não pedir a José Sócrates
para retirar os sapatos à entrada e calçar uns chinelos felpudos com a forma de
animais da savana.
Depois,
outra escuta é reproduzida. Desta vez, é uma conversa entre José Sócrates e
Manuel Pinho, no dia seguinte ao alegado jantar. "Fui jantar com o teu
patrão", terá dito José Sócrates ao ex-ministro da Economia, condenado a
dez anos de prisão efectiva por, entre outros crimes, ter sido corrompido por
Ricardo Salgado. Habitualmente, "fui jantar" é uma frase que garante
que ocorreu um jantar. Não para José Sócrates. No tribunal, indicou que
"foi uma forma de falar, porque o jantar não aconteceu."
É
uma força de expressão, claro, comum quando nos referimos a compromissos
sociais. O leitor poderá experimentá-la em contexto conjugal. Vai concluir que,
se disser em casa "Estive no IBIS com a Mónica do departamento de
vendas", vai ser obviamente interpretado como "Que disparate. Ele de
modo algum esteve no IBIS com a Mónica do departamento de vendas."
José
Sócrates é um criativo de novas e desconhecidas ambiguidades semânticas. Quanto
foi confrontado, por alturas da detenção, em 2014, com uma escuta em que Carlos
Santos Silva lhe perguntava se "podia" mudar a cor do chão da casa em
Paris, que era supostamente do amigo, José Sócrates também inventou uma
rebuscada natureza polissémica para uma frase muito clara: "Talvez ele até
pensasse que… que eu tenho melhor gosto. E é muito importante que se perceba o
seguinte: há muitas pessoas que por gentileza… referem… o verbo… poder, em vez
de dever." . Um génio.
Apesar
do convincente esclarecimento, o procurador não desistiu de provar que o jantar
aconteceu. Rómulo Mateus apresentou um documento com a análise da
geolocalização do telemóvel de Sócrates, que mostra que este se ligou à antena
que cobre a casa de Salgado por volta das 20 horas e que se desligou por volta
da meia-noite - portanto, José Sócrates teria estado quatro horas em casa do
banqueiro. "Estive lá meia hora", contrapôs o ex-primeiro-ministro em
tribunal, revelando que seguiu para uma casa a cerca de 200 metros, que não
identificou, alegando tratar-se da sua vida privada.
Há
três hipóteses: ou José Sócrates está a mentir, o que seria surpreendente; ou
José Sócrates esteve, de facto, quatro horas em casa de Ricardo Salgado, mas
este não lhe ofereceu jantar, o que é mais vergonhoso do que qualquer ato de
corrupção que pudesse estar a ser combinado; ou José Sócrates esteve de facto
só meia-hora em casa de Ricardo Salgado, bebeu um whisky em jejum, despediu-se,
percorreu tropegamente o jardim do banqueiro, adormeceu na casota do cão e não
se lembra de nada. O que é certo é que José Sócrates saiu da casa de Salgado
com fome, tanto é que ainda hoje tenta comer-nos por parvos.
terça-feira, 19 de setembro de 2023
Manuel Cardoso . Marcelo, o lelé Camarinha
GERAÇÃO E -
`* Manuel Cardoso - Humorista
Quando uma
pessoa não se agasalha, sujeita-se a um resfriado. Quando uma pessoa não se
agasalha à frente de Marcelo, sujeita-se ao inapropriado
Histórico. O
Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa - conhecido por comentar tudo
e que dias antes se tinha dirigido à zona de entrevistas rápidas do Estádio do
Algarve para tecer considerações sobre um jogo de futebol - respondeu a uma
pergunta de um jornalista com as palavras “nem sei o que hei-de comentar”.
Reparem: não foi “não comento”; “não quero comentar” ou “não me parece a melhor
altura para comentar”. O Presidente não sabia mesmo o que dizer, o que é
inédito. A pergunta era sobre o comentário que dirigiu a uma jovem no Canadá
sobre o decote. Pela primeira vez, quem ficou petrificado com um piropo não foi
o alvo, mas o autor.
As inovações
não se ficam por aí. Após sugerir que não sabia o que comentar, Marcelo
confirma que não o devia ter feito. Podia ter encerrado o caso, decidiu abrir o
chapéu-de-chuva. Eu não sou gestor de crise, mas diria que uma pessoa que quer
mitigar os efeitos de um comentário inadequado não começa as suas declarações
de penitência com “no fim do passeio pela parte portuguesa de Montreal, começou
a chover”. Também não trabalho no IPMA, mas ignorava este conceito de
“condições meteorológicas perfeitas para a prática do piropo”.
“Começou a
chover, estava frio”. Altamente pressionado, o Presidente optou por falar de
baixas pressões. Outros teriam atribuído o comportamento inconveniente a uma
depressão clínica, Marcelo acusou uma depressão barométrica. Até agora, a
estação favorita de quem escolhe ser vocal quanto a decotes era o Verão, pelo
minimalismo indumentário. Doravante, será o Inverno, já que o mau tempo fornece
uma boa desculpa para o comportamento.
O momento mais
fascinante das declarações de Marcelo aconteceu quando o Presidente, revelando
que se tinha constipado, forja uma ocorrência de tosse. “Eu constipei-me - cof
cof - como se vê”. É curioso, porque “cof cof” também é utilizado para
sinalizar ironia - como em “eu acho normal um Presidente da República comentar
o decote de uma jovem - cof cof”.
É possível que
o Presidente da República se tenha aconselhado mal. A comitiva portuguesa disse
"Marcelo, fala de gripe!". Os anfitriões canadianos disseram
"Marcelo, get a grip!". Infelizmente, Marcelo seguiu o conselho dos
compatriotas. O que é certo é que todo este episódio configura um avanço
significativo no ramo da Pneumologia. Quando uma pessoa não se agasalha,
sujeita-se a um resfriado. Quando uma pessoa não se agasalha à frente de
Marcelo, sujeita-se ao inapropriado.
Marcelo
recorrer à medicina para justificar o piropo é como o leitor recorrer a
amoxicilina para curar uma gripe. É que o comentário sobre o decote foi viral.
Como toda a gente sabe, não se curam vírus com antibióticos.
2023 09 19
https://expresso.pt/geracao-e/2023-09-19-Marcelo-o-lele-Camarinha-65df55c4
